  O SACERDOTE E O FEITICEIRO
A Ditadura Derrotada
ELIO GAS PARI
A Ditadura
Derrotada
COM PANHIA DAS LETRAS
Copyright (c) 2003 by Elio Gaspari
PROJETO GRFICO E CAPA ASSISTNCIA EDITORIAL
Raul Loureiro Miguel Said Vieira
Lcia Cruz Garcia 
ASSISTNCIA DE PRODUO Marcelo Yamashita Sailes 
Rita da Costa Aguiar Luiz Henrique Ligabue F. Silva 
Yumi Hirai 
FOTOS DA CAPA Rosangela de Souza Mainente 
Capa: Posse de Ernesto Geisel, Braslia, Michely Jabala Mamede Vogel 
15 de maro de 1974 (Agncia Estado) Valria Gameleira da Mota
Lombada: Ernesto Geisel e Golbery do Couto
e Silva, fevereiro de 1975 (Agncia Estado) NDICE REMISSIVO
Quarta capa: Campanha eleitoral, Rio de Janeiro, Silvia Penteado
novembro de 1974 (Agncia O Globo)
REVISO
EDIO DE TEXTO Beatriz de Freitas Moreira
Mrcia Copola Maysa Mono
PESQUISA ICONOGRFICA
Companhia da Memria
Coordenao: Vladimir Sacchetta
Pesquisa: Carlito de Campos (sP) e Ricardo Braule
Pereira (RI)
Apoio: Dedoc - Departamento de Documentao
da Editora Abril
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (co')
(Cmara Brasileira do Livro, se, Brasil)
Gaspari, Elio
A ditadura derrotada / Elio Gaspari. - So
Paulo Companhia das Letras, 2003.
Bibliografia.
550v 85-359-042S-X
1. Brasil - Histria 964-19802. Ditadura
Brasil. r. Ttulo.
03 5477 cota-9St.OS
ndice para catalogo sistemtico;
1. Brasil; Histria, 1964-1985 981.08
2003
Todos os direitos desta edio reservados 
EDITORA SCHWARCZ LTDA.
Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32
04532-002 - So Paulo- SP
Telefone (11) 3707-3500
Fax (11) 3707-3501
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Para Anna
11 Abreviaturas e siglas
15 Explicao
PARTE I
21 O Sacerdote e o Feiticeiro GEISEL, O SACERDOTE
25 Moita,  o Alemo
Uma dor que no acaba
59 O perigo vermelho
i Um general da (i)legalidade
8 1964
101 O pijama togado
GOLBERY, O FEITICEIRO
111 Criptocomunista
121 O escriba
141 Ps de veludo
155 O paliteiro do IPS 
167 No palcio 
SUMRIO 
PARTE II 181 O caminho de volta 
A COSTURA 
185 O peso do irmo 
197 A turma da Candelria 
215 Um voto, o voto 
229 Primeiras encrencas 
257 A grande encrenca 
O PODER 
279 A equipe 
307 Jogo de fichas 
319 "Esse troo de matar" 
PARTE II329 No Planalto 
O REGIME  IMPLACVEL 
333 A escolha essencial 
337 Um mundo difcil 
A costura da prpura 
387 O poro intocado 
411 Interldio pessoal 
425 O regime  implacvel 
437 O p no acelerador 
PARTE IV 451 A derrota 
453 " isso, e pronto" 
469 A autonomia sepultada APNDICE 483 Breve nomenclatura militar 
487 Cronologia
511 Fontes e bibliografia consultadas
523 Indice remissivo 
ABREVIATURAS E SIGLAS 
Abreviaturas utilizadas 
AA Arquivo do Autor 
AEG/cpDoc Arquivo de Ernesto Geisel/cpDoc 
APEG Arquivo Privado de Ernesto Geisel 
APGCS/HF Arquivo Privado de Golbery do Couto e Silva/Heitor Ferreira 
APHF Arquivo Privado de Heitor Ferreira 
BLBJ Biblioteca Lyndon B. Johnson 
DEEUA Departamento de Estado dos Estados Unidos da Amrica 
Siglas gerais 
ALN Ao Libertadora Nacional 
AP Ao Popular 
APML Ao Popular Marxista-Leninista 
Arena Aliana Renovadora Nacional 
CDED/IEvE Centro de Documentao Eremias Delizoicov/ 
Instituto de Estudos sobre a Violncia do Estado 
Cebrap Centro Brasileiro de Anlise e Planejamento 
Cepal Comisso Econmica para a Amrica Latina (oNu) 
CGT Comando Geral dos Trabalhadores 
CNBB Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil 
CNTT Confederao Nacional dos Trabalhadores na Indstria 
CPDOC Centro de Pesquisa e Documentao de Histria 
Contempornea do Brasil, da Fundao Getulio Vargas 
ci'i Comisso Parlamentar de Inqurito 
FGV Fundao Getulio Vargas 
FIE5P Federao das Indstrias do Estado de So Paulo 
12 A DITADURA DERROTADA 
IBAD Instituto Brasileiro de Ao Democrtica 
IBOPE Instituto Brasileiro de Opinio Pblica e Estatstica 
Icomi Indstria e Comrcio de Minrios SA 
ips Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais 
MDB Movimento Democrtico Brasileiro 
ONU Organizao das Naes Unidas 
OPEP Organizao dos Pases Exportadores de Petrleo 
OTAN Organizao do Tratado do Atlntico Norte 
c do B Partido Comunista do Brasil 
PCB Partido Comunista Brasileiro 
PCBR Partido Comunista Brasileiro Revolucionrio 
pci Partido Comunista Italiano 
PIB Produto Interno Bruto 
PNB Produto Nacional Bruto 
PSD Partido Social Democrtico 
SESI Servio Social da Indstria 
UDN Unio Democrtica Nacional 
UNE Unio Nacional dos Estudantes 
URSS Unio das Repblicas Socialistas Soviticas 
VPR Vanguarda Popular Revolucionria 
Siglas governamentais 
AI Ato Institucional 
BNDE Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico 
CIA Central Intelligence Agency (EUA) 
CNP Conselho Nacional do Petrleo 
DIP Departamento de Imprensa e Propaganda 
DOPS Delegacia de Ordem Poltica e Social 
DPF Departamento de Polcia Federal 
Embrafilme Empresa Brasileira de Filmes 
Funarte Fundao Nacional de Arte 
IPEA Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada 
MRE Ministrio das Relaes Exteriores 
Pasep Programa de Formao do Patrimnio do Servidor Pblico 
VIS Programa de Integrao Social 
PND Plano Nacional de Desenvolvimento 
PSD Partido Social Democrtico 
SFICI Servio Federal de Informaes e Contra-Informao 
SNI Servio Nacional de Informaes 
Sudene Superintendncia do Desenvolvimento do Nordeste 
ABREVIATURAS E SIGLAS 13 
Sumoc Superintendncia da Moeda e do Crdito 
us Universidade de So Paulo 
Siglas militares 
AMAN Academia Militar das Agulhas Negras 
CIE Centro de Informaes do Exrcito 
DAC Diretoria de Aeronutica Civil 
DOl Destacamento de Operaes Internas 
EME Estado-Maior do Exrcito 
EMFA Estado-Maior das Foras Armadas 
ESCEME Escola de Comando e Estado-Maior do Exrcito 
ESG Escola Superior de Guerra 
FAB Fora Area Brasileira 
FEB Fora Expedicionria Brasileira 
HCE Hospital Central do Exrcito 
ID Infantaria Divisionria 
1PM Inqurito Policial Militar 
Oban Operao Bandeirante 
Para-Sar Esquadro Aeroterrestre de Salvamento 
da Fora Area Brasileira 
PE Polcia do Exrcito 
PM Polcia Militar 
QG quartel-general 
RI Regimento de Infantaria 
STM Superior Tribunal Militar 
EXPLICAO 
Geisel (o Sacerdote) e Golbery (o Feiticeiro) formaram uma parceria
sem precedentes na histria do 
Brasil. Era uma amizade a servio. Comeava e terminava no Planalto.
Geisel era o presidente da 
Repblica e Golbery, seu chefe do Gabinete Civil. No se freqentavam,
no almoavam juntos. 
Contam-se nos dedos as ocasies em que Golbery foi ao palcio da
Alvorada e aquelas em que 
Geisel o visitou na granja do Ip, onde morava. 
Os dois generais aproximaram-se durante o primeiro governo da
ditadura, quando Geisel, com 56 
anos, chefiou o Gabinete Militar do presidente Castello Branco e
Golbery, com 52, fundou e dirigiu 
o Servio Nacional de Informaes. Voltaram ao poder no dia 15 de
maro de 1974. Tinham o 
propsito de desmontar a ditadura radicalizada desde 1968, com a
edio do Ato Institucional ns 5. 
Queriam restabelecer a racionalidade e a ordem. 
Geisel recebeu uma ditadura triunfalista, feroz contra os adversrios
e benevolente com os amigos. 
Decidiu administr-la de maneira que ela se acabasse. No fez isso
porque desejava substitu-la por 
uma democracia. Assim como no acreditava na existncia de uma
divindade na direo dos 
destinos do universo, no dava valor ao sufrgio universal como forma
de escolha de governantes. 
Queria mudar porque tinha a convico de que faltavam ao regime
brasileiro estrutura e fora para 
se perpetuar. 
Em dois outros livros (A ditadura envergonhada e A ditadura
escancarada) procurei contar a 
histria do consulado militar desde a deposio do presidente Joo
Goulart, em 1964, at a caada 
dos guerrilheiros 
#16 A DITADURA DERROTADA #
do Partido Comunista do Brasil, nas matas do Araguaia, em 74. Neste,
vo narradas as vidas de Geisel e 
Golbery, a articulao que os levou ao Planalto, a formao do governo
e seu caminho at a eleio de 1974, 
na qual a ampla e inesperada vitria da oposio alterou o curso da
ditadura. Outro volume, que ir do incio 
de 1975 at a demisso do general Sylvio Frota do Ministrio do
Exrcito, em outubro de 77, j est escrito. 
Contar como Geisel restabeleceu o primado da presidncia republicana
sobre os comandantes militares, que, 
desde 1964, viam o presidente como um delegado da desordem a que
denominavam "Revoluo" O quinto ir 
at a posse do general Joo Baptista Figueiredo, em maro de 1979. 
Este livro no existiria sem a colaborao dos dois generais. Golbery
tornou-me depositrio de 
aproximadamente 5 mil documentos guardados em 25 caixas de arquivo
morto que estavam empilhadas na 
garagem de seu stio, nas cercanias de Braslia. Com Geisel tive
dezenas de encontros ao longo dos quais 
procuramos reconstituir episdios de seu governo. A partir de 1984 o
ex-presidente deu-me cerca de vinte 
entrevistas gravadas. Elas s foram suspensas em 1996, quando Geisel
adoeceu. Pelo trato, ele decidiria o 
destino das fitas, que guardava na mesinha ao lado do sof da sala de
seu apartamento. Devo  filha do 
presidente, Amlia Lucy, a gentileza da remessa de doze desses
cassetes, cada um com noventa minutos de 
depoimento, encontrados num armrio de sua casa depois da morte do
pai. 
Conversas soltas com um e com o outro ensinaram-me de que forma usaram
o poder, mas tambm as 
pequenas tristezas e alegrias de suas vidas. Golbery contava como seu
pai assistiu passivamente  
transformao dos prdios que herdara numa extenso da "zona" de Rio
Grande. Geisel mostrou-me que em 
1995 ainda guardava numa gaveta da biblioteca a folha amarelada da
extrao da loteria de julho de 1919, que 
premiou seu pai com cem contos de ris. Ouvindo-o narrar a trama do
romance A Ilha Misteriosa, de Jlio 
Verne, oitenta anos depois de t-lo lido, ficou-me a impresso de que
a obstinao de Ernesto Geisel na 
industrializao brasileira ia alm dos sentimentos de uma gerao de
militares. O Brasil do presidente Geisel 
deveu alguma coisa  convivncia do menino Ernesto com aqueles
personagens capazes de criar progresso e 
fazer coisas que o senso comum julgava impossveis. Como ele 
#EXPLICAO 17# 
mesmo repetia, nascera num mundo que no tinha rdio e num pas que 
importava manteiga. 
Este livro deve sua existncia tambm  generosidade de Heitor
Ferreira, assistente de Golbery no Servio 
Nacional de Informaes e de Geisel na Petrobrs, antes de ser nomeado
seu secretrio particular. Foi ele 
quem acumulou os documentos daquilo que se denomina Arquivo Privado de
Golbery do Couto e 
Silva/Heitor Ferreira. Deu-me cpias de seu Didrio no perodo que vai
de 1964 a 1976. Em 1985 a verso 
integral desse documento somava dezessete cadernos escolares. Texto
equivalente ao de um livro de 1500 
pginas. Isso foi pouco, Heitor deu-me trinta anos de amizade. 
 documentao de Golbery e Heitor juntaram-se 120 cassetes com
gravaes feitas entre outubro de 1973 e 
maro de 74. Nelas, alm de telefonemas, esto conversas e reunies de
Geisel com seus colaboradores no 
perodo imediatamente anterior ao incio do governo. Os principais
assessores de Geisel, bem como sua 
famlia, sabiam da existncia dessas gravaes. 
Em 1985 Heitor Ferreira copiou cerca de setenta rolos em cassetes para
que eu os ouvisse. Um ano depois, 
devolvi-lhe parte deles. Passados mais de dez anos, com a ajuda de
Maria da Glria Prado e dos profissionais 
da Companhia de udio e da Panacea Estao Sonora, os cassetes foram
copiados em duzentos CDS. Neles 
esto guardadas 220 horas de conversaes. Algumas fitas estavam no
limite de sua vida til. Felizmente, 
nada se perdeu. Entre 1985 e 1988 resumi e transcrevi parcialmente
essas conversas. Elas somam 564 
registros num arquivo que a esta altura acumula em torno de 30 mil
fichas. 
Quando trouxe as fitas, Heitor Ferreira imps um embargo. Eu poderia
apenas ouvi-las. No final de 1997 
foram editadas nos Estados Unidos as transcries das gravaes feitas
pelos presidentes John Kennedy, 
durante a crise cubana de 1962, e Lyndon Johnson, em suas salas de
trabalho e em seus telefones. Anos 
depois o historiador Timothy Naftali editou dois volumes e um CD com
as gravaes de Kennedy no Salo 
Oval da Casa Branca. Com esses precedentes, Heitor permitiu que as
fitas fossem citadas livremente, desde 
que se preservasse a vida particular dos outros. 
#18 A DITADURA DERROTADA# 
No uso dessa documentao, empreguei dois critrios: 
1. Foram desprezados todos os comentrios de natureza pessoal. Em
alguns casos, transcreveram-se opinies 
fortes de Geisel e Golbery a respeito de personagens que tratavam de
polticas pblicas, exerciam ou queriam 
exercer cargos pblicos. Nesses casos, que limitei ao mnimo, a
transcrio destina-se a informar o estado 
d'alma de um ou de outro quando se referiam a determinada pessoa. 
2. Todas as gravaes citadas envolvem pelo menos um interlocutor que
sabia da existncia do gravador.  o 
caso das conversas ou dos telefonemas de Geisel, Golbery, Gustavo
Moraes Rego, Humberto Barreto e Heitor 
Ferreira. Em algumas ocasies seus interlocutores no sabiam que
estavam sendo gravados. Procurei manter-me no universo das pessoas que
ocupavam ou viriam a ocupar 
cargos pblicos e que, durante as conversas, 
tratavam de polticas pblicas. 
Golbery costumava dizer que "segredo guarda quem no sabe" Ademais,
cultiva-se a lenda de que nenhum 
segredo poltico brasileiro vive mais de uma semana. Pois o segredo
das fitas de 1973/1974 foi preservado por 
quase trinta anos. Dele souberam, no mnimo, umas cinqenta pessoas.
Nenhum trecho dessas conversas 
jamais foi revelado. (Com exceo de dois dilogos, publicados n'A
ditadura escancarada.) 
Espero que o uso dado a essas fitas justifique o esforo de
preservao da histria de quem as produziu. Foi 
esse o objetivo que levou Golbery a guardar seu arquivo e Heitor
Ferreira a manter seu Dirio e preservar as 
gravaes autorizadas por Geisel. Amlia Lucy Geisel doou ao Centro de
Pesquisa e Documentao de 
Histria Contempornea (cpDoc), da Fundao Getulio Vargas, cerca de 4
mil documentos textuais onde se 
podem encontrar preciosidades como anlises da situao do pas feitas
pelo Servio Nacional de 
Informaes. Graas a essas pessoas, um governo que nasceu com a
blindagem da censura veio a se 
transformar, dcadas depois, num dos melhor documentados da histria. 
No levantamento da vida e do cotidiano de Geisel tive a ajuda de sua
filha, Amlia Lucy, de seu amigo 
Humberto Barreto e de seu mdico, Americo Mouro. De Humberto recebi
sua infalvel amizade sertaneja, 
cujas virtudes aprendeu no Crato. 
#EXPLICAO 19# 
Para o entendimento da poltica do perodo socorri-me  generosidade
de Antonio Carlos Magalhes, Antonio 
Delfim Netto, Franco Montoro, Jos Sarney, Paulo Brossard, Paulo
Egydio Martins e Thales Ramalho. 
Francis Mason (Chase Manhattan) e Tony Gebauer (Morgan) ensinaram-me
como funcionou o processo de 
endividamento internacional do pas. Durante anos, Mario Henrique
Simonsen foi um professor paciente e 
Delfim Netto (novamente), um custico demolidor de embustes. Claudio
Haddad auxiliou-me com sua viso 
crtica de toda a gesto econmica do perodo e, sobretudo, do que eu
escrevia. Os generais Gustavo Moraes Rego, Leonidas Pires Gonalves e
Reynaldo Mello de  Almeida 
ajudaram-me a 
reconstruir a situao militar do perodo. O general Newton Cruz
esclareceu-me os meandros do 
funcionamento do SNI nos primeiros meses do governo de Geisel. Meus
amigos Givaldo Siqueira, Armnio 
Guedes e Joo Guilherme Vargas Netto mostraram-me como operava o
Partido Comunista em 1974, quando 
foi abatido por uma matana. Candido Mendes de Almeida e d. Eugnio
Sales foram solcitos dirimidores de 
dvidas para o entendimento das relaes da Igreja com o governo. No
final do volume listei as pessoas de 
cujo conhecimento me aproveitei e a quem tenho a satisfao de
agradecer. 
O historiador Marco Antonio Vilia conferiu cada citao de livro ou
documento. Foi um leitor atento e 
pesquisador obsessivo. Villa tem uma prodigiosa capacidade de lembrar
de um fato e de saber onde est o 
documento que comprova sua afirmao. Ajuda como a dele  motivo de
tranqilidade para quem tem o 
prazer de receb-la. Alm disso, d a impresso de saber de memria
todos os resultados de jogos de futebol. 
Lili Schwarcz, Maria Emlia Bender, Luis Francisco de Oliveira Filho,
Luiz Schwarcz, Fernando Lottenberg, 
Joo Guilherme Vargas Netto, Mrcio Thomaz Bastos e Wanderley
Guilherme dos Santos contriburam com 
generosas observaes depois de lerem as diversas verses deste livro.
Mais uma vez, beneficiei-me tambm da competncia da equipe 
que a Companhia das Letras mobilizou para assegurar a qualidade do
texto. O leitor no imagina quanto devo 
a essa turma. Foram nove pessoas, 
#20 A DITADURA DERROTADA# 
coordenadas por Mrcia Copola. Durante quase um ano, s ela era capaz
de ter uma idia do que estava 
acontecendo com os originais. Explicando melhor, s ela parecia ter
certeza de que o livro sairia. Alm disso, 
no preparo do texto, foi uma incansvel defensora do idioma e da
colocao do sujeito nas frases. 
A Miguel Said Vieira devo correes de erros em que acreditei por
dcadas. Lcia Cruz Garcia foi capaz de 
achar publicaes que pareciam perdidas. Rosangela de Souza Mainente,
Marcelo Yamashita Salles, Yumi 
Rirai, Valria Gameleira da Mota, Michely Jabala Mamede Vogel e Thiago
Said Vieira checaram notas de p de 
pgina, estatsticas e grafias de nomes. 
Os trechos de gravaes citados foram ouvidos e conferidos por Mrcia
Copola e Luiz Henrique Ligabue E 
Silva. s vezes ocorreram discrepncias, todas dirimidas com uma nova
escuta, minha. Em dois casos, foi 
necessrio recorrer  ajuda do estdio da Companhia de udio para
limpar a gravao e, assim, poder ouvir 
melhor passagens confusas. 
Raul Loureiro fez o projeto grfico e paginou os dois cadernos
ilustrados. Nessa produo, teve a ajuda de 
Rita da Costa Aguiar. Vladimir Sacchetta reuniu as fotografias. 
fcil avaliar seu trabalho. Basta folhear esses 
cadernos. Vladimir faz a diferena quando se v a foto de Tancredo
Neves. Ele sabia que no dia 20 de maro de 
1962 Tancredo lera na ESG um texto escrito por Golbery. Foi  luta e
voltou com a presa: a fotografia, do dia, 
com Tancredo lendo a palestra do general. 
Devo agradecer tambm aos funcionrios da Biblioteca Nacional, do
CPDOC, dos departamentos de pesquisa 
d'o Globo, da Folha de S.Paulo, d'o Estado de S. Paulo e do Jornal do
Brasil. No 
Departamento de Documentao da Editora Abril, o famoso Dedoc, Susana
Camargo e Ana Lucia Correa, a 
serena Bizuka, so um porto seguro para nufragos de todo tipo, bem
como Elenice Ferrari e Marilene Bucci, 
do arquivo de imagens (ou fotografias). 
S a ajuda de tanta gente  que me permitiu fazer este livro. Eles no
tm nada a ver com os erros e impropriedades que eu tiver cometido. 
Finalmente, devo  pacincia e ao rigor de Dorrit Harazim o melhor 
curso para diversos momentos da pesquisa. A sua perseverante
indignao continua sendo uma baliza que o 
tempo no abate. 
#PARTE 1 O Sacerdote e o Feiticeiro 
GEISEL, O SACERDOTE 
Moita,  o Alemo# 
No dia 22 de agosto de 1972, quando a Censura voltou a proibir a
imprensa de tratar da sucesso do presidente 
Emilio Garrastaz Medici, ela j estava resolvida. Medici seria
substitudo pelo general Ernesto Geisel, o 
Alemo, presidente da Petrobrs, chefe do Gabinete Militar no governo
Castelo Branco e irmo mais moo do 
ministro do Exrcito. Fazia mais de um ano que o general Golbery
escrevera a Heitor Ferreira: "As cousas vo 
indo bem por aqui. Cogita-se do futuro sucessor - no lhe digo qual o
nome na pauta porque voc vai ter 
um chilique. (Moita!  preciso no queimar! - Alemo)'1 No incio de
julho Medici se encontrara com Geisel 
no palcio Laranjeiras e lhe dissera: "Seu Ernesto, faltam vinte meses
e sete dias'2 
A ditadura estava no seu oitavo ano, no terceiro general. Medici
cavalgava popularidade, progresso e 
desempenho. Uma pesquisa do IBOPE realizada em julho de 1971
atribura-lhe 82% de aprovao.3 Em 1972 a 
economia cresceria 11,9%, a maior taxa de todos os tempos. Era o
quinto ano consecutivo de crescimento 
superior a 9%. A renda per capita dos brasileiros aumentara 50%. Pela
primeira vez na histria as exportaes 
#1 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 22 de junho de 1971.
APGCS/HF. Heitor demitira-se do 
Exrcito em 1967 e vivia em Belm, como um dos gerentes do Projeto
Jari, do milionrio americano Daniel 
Ludwig. 
2 Narrativa de Geisel do seu encontro com Medici no dia 9 de julho de
1972, em Dirio de Heitor 
Ferreiro, 10 de julho de 1972. 
3 Hlio Silva, O poder militar, p. 467. 
26 A DITADURA DERROTADA# 
de produtos industrializados ultrapassaram 1 bilho de dlares.
Duplicara a produo de ao e o consumo de 
energia, triplicara a de veculos, quadruplicara a de navios. A Bolsa
de Valores do Rio de Janeiro tivera em 
agosto uma rentabilidade de 9,4%. Vivia-se um regime de pleno emprego.
No eixo Rio-So Paulo executivos 
ganhavam mais que seus similares americanos ou europeus.4 Kombis das
empresas de construo civil 
recrutavam mo-de-obra no ABC paulista com alto-falantes oferecendo
bons salrios e conforto nos 
alojamentos. Um metalrgico parcimonioso ganhava o bastante para
comprar um fusca novo. Em apenas dois 
anos os brasileiros com automvel passaram de 9% para 12% da populao
e as casas com televiso, de 24% 
para 34%5 O secretrio do Tesouro americano, John Connally, dissera
que "os Estados Unidos bem que 
poderiam olhar para o exemplo brasileiro, de modo a pr em ordem a sua
economia'6 
Emilio Garrastaz Medici era o nico brasileiro a governar seu pas
num regime de contnua supresso das 
liberdades individuais e de censura  imprensa. Grandes artistas
nacionais viviam no exlio: Caetano Veloso e 
Gilberto Gil, em Londres, Chico Buarque de Hollanda, em Roma, e
Glauber Rocha pelo mundo afora. Estavam 
proibidos alguns dos filmes de sucesso mundial. Quem tinha dinheiro ia
 Europa ver ltimo tango em 
Paris. A mquina repressiva do governo de Medici j matara mais gente
(120 pessoas) que seus dois 
antecessores somados (59). Em menos de trs anos, acumulara cerca de
2500 denncias de torturas, contra 
algo como 1500 nos oito anos anteriores. Depois de passar uma semana
no Brasil, representando o 
Secretariado Internacional dos Juristas Catlicos e entrevistando-se
com religiosos, advogados e familiares de 
presos, o advogado parisiense Georges Pinet relatou: "A tortura, no
Brasil, no  nem pode ser o resultado de 
excessos individuais; nem , nem pode ser considerada, uma reao
exagerada a atos terroristas para derrubar 
um
#4 Para os salrios dos executivos, Stefan Hyman Robock, Brazil: a
study in developmentprogress, 
p. 138. Para os carros e aparelhos de tv, idem, p. 145. 
5 O PIB brasileiro de 1964 foi de us$ 1065. Ode 1972, de us$ 1598.
Ipeadata, "Sries mais usadas' 
"PIB per capita (preos 2002) us$ valor real'
<http://www.ipeadata.gov.br/> 
6 Jornal do Brasil, 4 de fevereiro de 1972, citado por Jan Knippers
Black, United Statespenetration 
ofBrazil, p. 55. 
MOITA,  O ALEMO 27# 
regime em dificuldade que, por seu lado, provoca o famoso 'ciclo da
violncia Isso no sucede, porque j no 
existe luta armada no Brasil. A tortura  manifestao e necessidade
de um modelo poltico num contexto 
jurdico e socioeconmico"7 
Geisel herdaria esse Milagre. Aos 65 anos, era um homem sem prazeres
nem sonhos, regido por hbitos e 
obrigaes. Pelo porte marcial, parecia maior que seu 1,77 m de
altura. Os cabelos brancos faziam-no mais 
velho, um estrabismo dava aspecto inquietante ao seu olhar, e o
costume de elevar repentinamente a voz 
tornava-o um interlocutor desagradvel. Atencioso no trato,
resguardava-se de manifestaes sentimentais. 
Precedia quaisquer ordens, at em pequenos bilhetes, de um eterno
"peo". Era temido por suas exploses de 
ira, quando na realidade elas refletiam uma das poucas exibies
emocionais que se permitia. Como ele mesmo 
explicava: "Eu s fico brabo com as pessoas com quem tenho intimidade
'8 
Em sua vida misturavam-se os valores dos colonos alemes do Rio Grande
do Sul e as ansiedades daquela 
gerao de militares brasileiros que a Revoluo de 1930 denominou
"tenentes" s influncias do meio somara 
necessidades e sofrimento. Nada lhe fora fcil. Poucos eram os seus
afetos, todos enclausurados numa 
circunspeco que raramente rompia o crculo familiar. Detestava
efemrides, fosse o prprio aniversrio ou o 
Natal. Duvidava no apenas de si, mas de todo o gnero humano: "
muita pretenso do homem inventar que 
Deus o criou  sua imagem e semelhana. Ser possvel que Deus seja
to ruim assim?'9 
Era um desconhecido para a maioria dos brasileiros. Mantinha-se
afastado da roda social dos burocratas e do 
convvio com os colegas de farda. Vivia trancado na Petrobrs. Saa
para almoar em casa, sentava- se de 
pijama  mesa, dormia quinze minutos e regressava  sua sala de 
#7 Report ou aliegations of torture in Brazil/Relatrio sobre as
acusaes de tortura no Brasil, p. 88. 
8 Humberto Barreto, maio de 1991. 
9 Ernesto Geisel, novembro de 1983 e setembro de 1984. 
28 A DITADURA DERROTADA# 
trabalho pontualmente s catorze horas. Andava na praia antes do sol
forte, passava os fins de semana em 
Terespolis, e contavam-se nos dedos as famlias que freqentava.
Evitava receber o tratamento de "voc" e 
no beijava mulheres no rosto. Havia quase vinte anos jogava biriba
com o mesmo casal de amigos.'10 Morava 
com a mulher e a filha num apartamento de trs quartos e sala, em
edifcio sem elevador, no Leblon. Tinha 
economias suficientes para satisfazer a mulher, que se encantara com
um lanamento imobilirio prximo, com 
vista para o mar, mas no abria a mo (por hbito) nem a guarda (por
cautela): "Lucy, eu no vou comprar esse 
apartamento. Estou indo para a Petrobrs, e se eu comprar esse
apartamento, vo logo dizer que estou 
roubando"11 
Desde o incio de 1970 era um dos nomes mais fortes para a sucesso de
Medici. No final de 1971 dizia: "No 
mexo uma palha, mas tambm no me nego" No mostrava entusiasmo pelo
lugar: "Como  que se chega ao 
meu nome? Ora, porque fulano  cretino, sicrano  burro, beltrano 
safado! Isso  jeito?"12 
Detestava que o chamassem de Alemo e procurava distanciar-se da
cultura de sua famlia a todo custo. 
Jamais aprendera direito a lngua paterna. Mesmo assim, de todos os
presidentes brasileiros, viria a ser aquele 
que menos guardaria semelhanas com a onipresente figura de Macunama,
repositrio da malandragem 
nacional, em quem se podia achar a dissimulao de Getulio Vargas, a
ligeireza de Juscelino Kubitschek e o 
dstico de Joo Goulart, Costa e Silva e Emilio Medici: "Ai! que
preguia!..." O Alemo fazia o possvel, mas 
brasileirro no era. 
Seu pai emigrara em 1883, aos dezesseis anos. Passara fome na
travessia do Atlntico e por alguns dias 
alimentara-se de cebolas.13 Fixara- 
se no lugarejo de Estrela, no interior do Rio Grande do Sul, onde o
#10 Para os hbitos, o cumprimento e as 
rodas de biriba, Humberto Barreto, maio de 1991. As rodas de biriba de
Geisel com Lilian e Humberto Barreto 
comearam em torno de 1958. 
11 Ernesto Geisel, setembro de 1994. 
12 Dirio de Heitor Ferreira, 13 de novembro de 1971 e 26 de janeiro
de 1972. 
13 Para a fome na viagem, Ernesto Geisel, fevereiro de 1994. 
MOITA,  O ALEMO 29# 
alemo era a lngua da comunidade de duas centenas de agricultores e
artesos, quase todos protestantes.14 No 
inverno calavam tamances de madeira com meias de l fiadas em casa.
Wilhelm August Geisel fora criado 
numa casa de rfos e viajara com o dote de um modesto tutor,
suficiente para sobreviver alguns meses. Um 
de seus irmos, Ernesto, reclamara do investimento, j que haviam
faltado recursos para que ele prprio 
avanasse nos estudos. Para homenage-lo, August deu seu nome ao
quarto filho, nascido em 1907. A famlia 
vivia em Bento Gonalves, num ambiente de pobreza europia, sem
eletricidade nem gua encanada. 
Era pobreza mesmo. Faziam-se em casa as roupas das crianas, o po, os
licores, o sabo e as lingias. 
Criavam galinhas e, em 1917, quando cortaram a cabea de uma raposa a
golpes de machado, tinham 64.15 Em 
Estrela, Wilhelm August comeou como operrio numa fundio, chegou a
professor primrio e se casou com 
Ldia Beckmann, uma das nove filhas do pastor luterano da comunidade.
Tornara-se brasileiro, mudara o nome 
para Augusto Guilherme e passara num concurso para escrivo do
cartrio de registros civis. Freqentava a 
maonaria e fora at major da Guarda Nacional.'16 Fiscalizava
diariamente o asseio e os deveres dos cinco 
filhos. Tinha uma mulher e quatro homens, e a cada um cabia uma tarefa
domstica. Ernesto limpava os 
sapatos, Orlando arrumava a mesa de trabalho. Amlia, a primognita,
cuidava de todos. Falavam-se em 
alemo. 
Em Bento Gonalves eram luteranos alemes numa cidade de italianos
catlicos. Augusto queixava-se do 
temperamento anrquico dos meninos do lugar, no queria suas crianas
naquele meio e as proibia de brincar
na rua. Arranhava um violino e tinha uma pequena estante de clssicos,
da Divina comdia aos poemas de 
Schiller. Em novembro de 1916 levou os filhos  missa pela alma do
imperador Francisco Jos da ustria. A 
igreja e o catafalco forrados de crepe foram a primeira impresso de
pompa que a vida ofereceu a Ernesto. Num 
Natal, Augusto presenteou os filhos 
#14 Para o ano da chegada de Augusto Geisel, Lothar Francisco Hessel,
O municpio de Estrela, 
pp. 62-3. 
15 Carta de Ernesto Geisel aos irmos, de 26 de abril de 1917. AA. 
16 Para a maonaria, Amlia Lucy Geisel, julho de 1991. Para a Guarda
Nacional, Ernesto Geisel, 
fevereiro de 1994. 
30 A DITADURA DERROTADA# 
com a obra completa de Jlio Verne. A fantasia de Ernesto Geisel
expandiu-se alm dos limites do povoado de 
Bento com a ajuda do jovem Harbert Brown e do engenheiro Cyrus Smith,
que fugiram de um campo de 
prisioneiros da Guerra Civil Americana a bordo de um balo, caindo na
"Ilha Misteriosa"'17 Passados quase 
oitenta anos, ele era capaz de relatar, circunspecto, como os
nufragos reinventaram a civilizao, protegidos 
por um enigmtico personagem. (Tratava-se do capito Nemo, das Vinte
mil lguas sub marinas, 
lembrava-se.) Contava a histria com o olhar do garoto e dizia que os
jovens da aventura eram dois. Verne, 
contudo, pusera s Harbert no livro. 
Ernesto, caula, era o mais ligado  me, que lhe pagava um vintm por
lio de leitura. Quis ser carreteiro, 
pensou em sair de casa atrs do elefante e dos saltimbancos de um
circo, e chegou a lhe pedir que arrumasse 
suas coisas para a partida. Conheceu a adversidade quando freqentava
o grupo escolar. Enxergava mal, e o 
pai levou-o a um mdico em Caxias do Sul. O diagnstico: corria o
risco de ficar cego, era melhor que no lesse, 
intil mant-lo no colgio pois no conseguiria acompanhar as lies.
A vida escolar trouxe uma carga 
adicional para a formao da sua personalidade. No bastava que
aprendesse, tinha que provar que no era 
incapaz. Carregou a cicatriz: "Fui inscrito como ouvinte. Assistia s
aulas, mas no era para valer. No fim, eu 
sabia mais que os outros' Concluiu o curso elementar entre os melhores
alunos da turma.'18 
Em 1920, por influncia de seus irmos Orlando e Henrique,
matriculados no Colgio Militar de Porto Alegre, 
decidiu ir para o Exrcito. Fez a escolha numa poca em que poderia
ter contado com a ajuda do pai para tentar 
uma profisso civil. Augusto Geisel melhorara de vida. Amlia era
professora primria. Bernardo, o filho mais 
velho, custeava seus estudos de qumica em Porto Alegre trabalhando no
correio. Alm de ter menos 
despesas, o pai conseguira um aumento da receita. Tinha o hbito
#17 Ernesto Geisel, novembro de 1988 e 
fevereiro de 1994, e Geisel, em Ernesto Geisel, organizado 
por Maria Celina d'Araujo e Celso Castro, p. 26. Jlio Verne, A Ilha
Misteriosa, adaptado por Clarice 
Lispector. 
18 Atas de Exames do Colgio Elementar de Bento Gonalves, de 1 de
maro e 20 de dezembro de 
1919. APGCS/HF. 
MOITA, O ALEMO 31# 
de arriscar a sorte comprando bilhetes de loteria, e em julho de 1919
o milhar 5852 deu-lhe cem contos de ris, dinheiro 
suficiente para cobrir os gastos de uma famlia como a sua por mais de
dez anos.'19 At investir a pequena fortuna numa 
mata de pinhais, onde haveria de perd-la, Augusto passou por um
perodo de bonana financeira.20 
Mudanas burocrticas impostas aos limites de idade complicaram a
matrcula de Ernesto no Colgio Militar, mas o 
obstculo foi removido pelo pai, ajudado por algum colega do cartrio
de Bento Gonalves. Produziu-se um novo registro 
de seu nascimento, tornando-o um ano mais moo.2' Orlando, dois anos
mais velho, sabatinou o irmo em casa e assegurou 
ao pai que ele seria reprovado. Augusto Geisel trancou-o por quase
dois meses. Os aprovados foram quatro, Ernesto e 
mais trs.22 
Faltava o exame de sade. A limitao visual no confirmara o
prognstico apocalptico do mdico de Caxias do Sul, mas 
deixara sua seqela Geisel padecia de uma disfuno resultante do
desenvolvimento desigual dos olhos. Nesses casos, se 
uma vista enxerga menos, o sistema nervoso central, incapaz de
trabalhar com duas imagens diversas, dispensa a mais fraca. 
O olho dbil continua ativo. Se o outro  obliterado, o crebro capta
imediatamente a m imagem. A anomalia associa-se a 
um forte estrabismo, e a falta da viso dupla resulta na perda da
percepo de profundidade.23 Pelo manual de sade do 
Exrcito, os portadores de viso monocular estavam incapacitados para
a carreira das armas. 
#19 Ernesto Geisel, maro e setembro de 1994. Aos 87 anos, Geisel
sabia de memria o nmero do bilhete do pai. Em 1919 
os gastos de uma famlia de classe mdia no Rio de Janeiro eram de
doze contos de ris por ano. As despesas de aluguel e 
criadagem, que os Geisel no tinham, iam a 3,4 contos. Sries
estatsticas retrospectivas, vol. 1, p. 94. 
20 Ernesto Geisel, novembro de 1988. 
21 Ernesto Geisel nasceu na noite de 3 de agosto de 1907. A mudana
foi feita para proteg-lo caso no conseguisse uma 
boa classificao. No livro de registros do cartrio de Bento
Gonalves, Ernesto Geisel est arrolado como nascido em 3 de 
agosto de 1908. Seu nome  o ltimo da lista na letra G, e a
caligrafia da pessoa que fez o lanamento, doze anos mais tarde, 
difere grosseiramente daquela que cuidava dos registros na poca. A
Certido de Nascimento, Cartrio do 12 Distrito da 
Comarca de Bento Gonalves. APGCS/HF. De acordo com sua biografia
oficial, em 1979 Ernesto Geisel deveria comemorar 71 
anos, mas recebeu os convidados em sua casa de Terespolis para
festejar 72. 
#22 Ernesto Geisel, novembro de 1983. 
23 Devo as informaes genricas sobre essa disfuno ao dr. Harley
Bicas, junho de 2003. 
32 A DITADURA DERROTADA#
Geisel foi para o exame mdico certo de que o reprovariam. Na vspera
um colega fora desligado. Quando o oficial que o 
atendeu lhe ouviu as batidas do corao (140 por minuto), concluiu que
era cardaco, por carnvoro contumaz, como todos 
os gachos. Levou o diagnstico ao coronel que chefiava o exame, mas
ele o corrigiu: "Esse garoto est  nervoso, deve 
voltar outro dia" "Para mim foi um alvio", contou Geisel, "porque
percebi que eles estavam preocupados com o meu 
corao, onde eu no tinha nada. Voltei e fui aprovado."24 
No bastava. Ao chegar ao Colgio Militar com aquele sobrenome, viu-
se constrangido por uma observao que haveria de 
acompanh-lo por todos os colgios e cursos de sua vida. "O professor
perguntava se eu era irmo do Orlando e do 
Henrique, e dizia que eu tinha um sobrenome a zelar. Ora, eu era eu,
no o irmo do Orlando e do Henrique."25 Saiu de 
Porto Alegre como o primeiro da turma, com todas as notas acima de 8.
Melhor marca, s a do legendrio Luiz Carlos 
Prestes, que terminara o curso em 1918.'26 
Geisel chegou  Escola Militar de Realengo em 1925. Repetiu o
desempenho e por duas vezes ganhou o prmio de viagem  
Europa que o Lide Brasileiro oferecia aos cadetes.27 No podia viajar
porque no tinha roupas. Vivia com o que a escola 
dava aos alunos e era membro da Associao do Estudante Pobre.28
Trocou os bilhetes que poderiam lev-lo a Hamburgo 
por passagens para Porto Alegre. Tinha um caderno onde listava as
"Coisas que no farei' e nele registrou que nunca 
ofereceria um prmio sem dar ao beneficiado as condies necessrias
para goz-lo. A pobreza levava os trs irmos Geisel 
a passar os fins de semana em Realengo. Ernesto recusava at mesmo
convites para festas e reunies sociais. 
#24 Ernesto Geisel, novembro de 1988. 
25 Idem, novembro de 1983. 
26 Marly de Almeida Gomes Vianna, Revolucionrios de 35, p. 71.
Segundo a lembrana do general Antonio Carlos 
Muricy, Prestes, Geisel e Golbery foram os nicos alunos da escola a
concluir 
o curso com mdia 9 e frao. Depoimento de Muricy ao cpooc, vol. 1,
fita 4, p. 76. 
27 Nos exames do primeiro ano Geisel teve um 10 e trs 8. Nos do
segundo, trs 10 e trs 9. Nos 
do terceiro, dois 10, um 9 e dois 8. Caderneta de Assentamentos do 12
Tenente Ernesto Geisel. AA. 
28 Maria Celina d'Araujo e Celso Castro, orgs., Ernesto Geisel, p. 35.
Como cadete, Geisel ganhava 50 mil ris (100, no terceiro ano). Era 
o equivalente s despesas com criados numa famlia de 
classe mdia do Rio de Janeiro. Sries estatsticas retrospectivas,
vol. 1, p. 94. 
MOITA, O ALEMO 33#
Quatro anos depois saiu tenente de artilharia de um exrcito pequeno,
com 45 mil homens, trinta generais e 2300 tenentes, 
inapto, frgil, militarmente insignificante.29 "A cavalaria no tinha
cavalos, a artilharia no tinha canhes, a infantaria no 
tinha fuzis."30 Seus generais perderam trs expedies massacrando
jagunos em Canudos e mil homens enfrentando 
caboclos nas matas de Santa Catarina. 
Terrvel gerao, a dos "tenentes" dos anos 20. Estavam prontos para
salvar o Brasil dos "casacas"'31 nome que davam  
elite civil que governava o pas desde o Imprio. Movidos por um
militarismo ressentido e salvacionista, rebelaram-se em 
1922 e 24 em nome da moralidade pblica. Autoritrios e audaciosos,
eram dissidentes em busca de um ditador. Havia 
neles mais revolta do que radicalismo poltico, at porque sabiam
pouco. Em 1918 Luiz Carlos Prestes no tinha ouvido 
falar na Revoluo Russa. 32 Geisel chegara a Realengo seis anos
depois sem grande interesse pelo que acontecera em So 
Petersburgo, sem saber direito o que vinha a ser o fascismo. Via-se
como um revolucionrio muito mais por solidariedade 
aos "tenentes" foragidos e aos que, degradados, viviam como simples
praas nos quartis. "Para mim a Revoluo de 30 era
a revoluo do Juarez Tvora e do Luiz Carlos Prestes."33 Mais de meio
sculo depois, com uma casaca no armrio e a 
farda na alma, Geisel exporia a sua viso tenentista da histria: 
#29 Edmundo Campos Coelho, Em busca de identidade O Exrcito e a
poltica na sociedade brasileira, 
pp. 40 e 73.0 servio militar obrigatrio fora institudo em 1916. "As
nossas foras de terra e mar 
so inaptas para entrar em campanha e pouco significam como valor
militar' Pedro Aurlio de 
Goes Monteiro, O Destacamento "Mariante" no Paran Ocidental
(Reminiscncias), documento datilografado, Rio de 
Janeiro, junho de 1925, citado em Anita Leocdia Prestes, A Coluna
Prestes, p. 83. 
30 Nelson Werneck Sodr, citado em Juracy Magalhes e J. A. Gueiros, O
ltimo tenente, p. 45. 
31 Vavy Pacheco Borges em seu Tenentismo e Revoluo Brasileira, pp.
146-8, informa que a expresso "tenente"  
posterior  Revoluo de 1930 e surgiu com sentido depreciativo,
gerando neologismos como tenentizao, tenentocracias, 
tenentores e tenentides. 
32 Marly de Almeida Gomes Vianna, Revolucionrios de 35, p. 71. 
33 Ernesto Geisel, novembro de 1983. 
34 A DITADURA DERROTADA#
No fim do sculo passado o Exrcito se esforou para ganhar a Guerra
do Paraguai. Fomos para l sem tropa 
treinada, sem equipamento e sem grande apoio, mas vencemos. Quando a
tropa voltou, descobriu que os 
"casacas" no lhe davam importncia. Alm disso, formou-se um sistema
de ensino muito eficiente, talvez mais 
eficiente do que devesse ser para tamanha falta de meios. Os oficiais
iniciaram-se nas idias positivistas, 
comearam a discutir a validade do poder nas mos dos "casacas' e
proclamou-se a Repblica. Primeiro veio o 
Deodoro, depois o Floriano, que no era um homem culto mas era macho e
se no fosse ele este pas tinha ido 
 breca. Depois do Floriano os "casacas" retomaram o poder, e aos
poucos formou-se aquele clima de agitao 
que resultou na Revoluo de 30. 
A agitao foi tamanha que o 42 Grupo de Artilharia a Cavalo, sediado
em Santo Angelo, no Rio Grande do Sul, 
unidade onde servia o tenente Geisel, foi parar em So Paulo, na
vanguarda das foras insurretas. Vitoriosa a 
revolta, instalou-se Getulio Vargas no palcio do Catete, e chamou-se
Revoluo  rebeldia e, ao seu produto, 
Nova Repblica. Geisel foi transferido para o 12 Grupo de Artilharia
de Montanha, no Rio de Janeiro, com a 
misso de levar uma bateria de quatro canhes de tiro lento  Paraba.
Era misso para dois meses, mas ele 
ficaria quatro anos em Joo Pessoa. Aquele tenente de 23 anos, louro e
alto, que poderia passar o resto de 
seus dias numa unidade sonolenta do "exrcito do Rio Grande", estava a
mais de mil quilmetros de casa, no 
poder. Pela primeira vez entrou num automvel. Tudo isso sem dar um
nico tiro. Tiroteio ele s viu em outubro de 1931. Sua bateria foi
deslocada de Joo Pessoa 
para o Recife, onde o 212 
Batalho de Caadores se rebelara contra o governo do estado.
Atravessou um tiroteio, chutou o traseiro de 
um tenente que se escondera atrs de uma rvore, mas no disparou a
arma.35 Menos de um ano depois, teve 
de descer com a tropa para debelar um novo levante, agora em So
Paulo. Combatia um movimento que se 
autodenominava Revoluo Constitucionalista, no qual via pura e 
#34 Ernesto Geisel, julho de 1985. 
35 Idem. 
MOITA,  O ALEMO 35#
simples sedio separatista. Dessa vez deu quase todos os tiros de sua
vida. Em agosto de 1932 estava no alto do morro da 
Tempestade, a quatro quilmetros a sudeste de Itatiaia. 
O vale do Paraba, entre o Rio de Janeiro e So Paulo, seria o caminho
dos paulistas para a avenida Rio Branco ou dos 
federais para o viaduto do Ch. Duas semanas antes os rebeldes
vacilaram e pararam suas tropas, aceitando uma guerra de 
trincheira. No Catete, o ditador Getulio Vargas acreditava numa paz
prxima, no s porque recebeu sinais dos rebeldes, 
como tambm porque o vidente Sana Khan assegurara que a revolta
acabaria antes do fim do ms.36 
Geisel chegou nos primeiros dias da ofensiva legalista. Durante uma
semana bombardeou as trincheiras e tropas rebeldes 
que ocupavam as fazendas do lugar. Saiu para as proximidades de
Queluz. De l participou da tomada de Lorena. Por trs 
vezes atirou (em vo) contra o trem blindado dos paulistas, terror da
infantaria legalista e smbolo de um suposto poderio 
dos insurretos. Em trs semanas de combate perdeu alguns cavalos
(inclusive o seu, atingido por um estilhao de granada) e 
ganhou um elogio do tenente-coronel Otto Feio, que comandava as
operaes na regio: "O 12 tenente Geisel  a prpria 
bravura em busca do perigo para vencer"37 A Revoluo
Constitucionalista durou menos de trs meses e custara a vida de 
634 combatentes paulistas. Na primeira semana de novembro, Geisel
estava de volta ao seu quartel paraibano. 
Do ambiente de pobreza europia de Bento Gonalves  misria 
nordestina da Paraba, Geisel percorreu o semicrculo das diferenas
culturais brasileiras. Nomeado secretrio estadual da 
Fazenda, Agricultura e 
#36 Getulio Vargas, Dirio, vol. 1: 1930-1 936, pp. 117 e 119, entrada
de 24 de julho de 1932 para os sinais e de 27 de julho 
para a previso do vidente. 
37 Caderno intitulado Caderneta de Oficial, do 1 Regimento de
Artilharia Montada, com os assentamentos do tenente 
Ernesto Geisel. APEG. Para a morte do cavalo, carta de Jos Fontineli
da Silva a Geisel, de janeiro de 1977. APGCS/HF. 
Debelada a revolta paulista, Ernesto Geisel teve seu nome includo na
lista das promoes a capito por merecimento. 
Pediu que o excluissem, pois no queria passar  frente dos dois
irmos mais velhos, Henrique e Orlando. Depoimento do 
general Antonio Carlos Muricy ao CPDOC, vol. 1, fita 9, p. 170.
 36 A DITADURA DERROTADA# 
Obras Pblicas em 1934, exercitou pela primeira vez a fora do militar
e o poder da autoridade civil. Instituiu o 
imposto territorial, criou um programa de venda de mquinas agrcolas
a preo de custo e tentou modernizar a 
arrecadao de impostos premiando a produtividade dos coletores. Mesmo
assim, o tenentismo nem sequer 
arranhara os problemas da regio. O pas corrompido que os revoltosos
denunciavam nos anos 20 mudara 
muito pouco em 1934. Aqui e ali, os tenentes juntaram-se  paisagem,
fugazes como trovoada numa cena 
pastoral. Parte de um surto militarista continental, os tenentes
brasileiros foram corajosos enquanto tomaram 
riscos, radicais no dissenso, mas faltara-lhes a audcia para levar o
destemor e a intransigncia ao poder.38 
Ela comeou a lhes faltar no prprio momento da vitria, em 1930.
Integrado numa tropa que marchava sobre o 
Recife, o tenente Paulo Cordeiro estava na localidade de Paulista,
onde quatro batalhes revoltosos armavam o 
ataque  capital pernambucana. O comandante da tropa era o tenente
Juracy Magalhes. Decidira confiscar as 
armas estocadas por Frederico Lundgren, proprietrio da maior fbrica
de tecidos da regio, e preparava-se 
para ir ao seu encontro: "Olha, Paulo, vou conversar com esse
industrial. Se no voltar dentro de meia hora, v 
me buscar, pois pode haver uma cilada" Passou o tempo, e o comandante
no voltava. Paulo Cordeiro foi  
casa de Lundgren resgat-lo, ps o rosto na janela e viu Juracy
Magalhes tomando champanhe com o 
plutocrata. Celebravam a adeso do industrial. "No se assuste", disse
Juracy ao empresrio. "Paulo est um 
pouco apressado." Anos depois, feito governador da Bahia, o tenente
montava um alazo de raa no picadeiro 
da Hpica, presente do amigo Lundgren.39 
Os "casacas" tinham suas sedues. Em maio de 1934, o interventor 
Gratuliano Brito se preparava para disputar uma cadeira de deputado  
Assemblia Constituinte, e a sociedade local deu-lhe um jantar no
Paraba Hotel. Nos pratos, camaro, creme 
de aspargos, fil-mignon, peru e 
#38 Entre 1930 e 1932 os militares latino-americanos derrubaram
governos na Argentina, Brasil, 
Bolvia, Chile, Equador, El Salvador, Panam e Peru. Brian Loveman,
For la patria, p. 75. 
39 Juracy Magalhes, Minhas memrias provisrias, coord. Alzira Alves
de Abreu, pp. 60-1, e 
Magalhes e J. A. Gueiros, O ltimo tenente, pp. 26 e 109. 
MOITA,  O ALEMO 37# 
frutas. Nos copos, martni, vinho branco alemo, tinto italiano,
champanhe e licores. No final, charutos. Num terno de 
linho branco, Ernesto Geisel tinha o lugar 116  mesa.40 Era tenente,
secretrio de governo e membro do Partido 
Progressista. No passara despercebido. Lundgren presenteara-o com
Ambol, alazo de linhagem inglesa.41 Um 
empresrio oferecera-lhe a oportunidade de abrir seu prprio comrcio
e prontificou-se a adiantar-lhe cinqenta contos de 
ris.42 O "coronel" Cazuza Trombone, patriarca de uma famlia de
latifundirios de cana que mais tarde viria a ser 
personagem do romance Usina, de seu sobrinho-neto Jos Lins do Rego,
chegou a perguntar-lhe: "O que  que uma 
pessoa como o senhor est fazendo no Exrcito?'43 
Pouco depois do jantar do Paraba Hotel, o ministro da Viao, Jos
Amrico de Almeida, eminncia civil da Revoluo no 
Nordeste, disse a Geisel que estava deixando o cargo e que j tinha
resolvido o problema de diversos amigos mas faltava 
resolver o seu. (O de Jos Amrico seria resolvido com sua nomeao
para a embaixada do Brasil no Vaticano.) Ofereceu-
lhe uma cadeira de deputado federal. "Eu no tenho problema. Tenho
minha profisso, gosto dela e sou capaz", respondeu 
Geisel.44 Meses depois estava no Rio, no Grupo Escola de Artilharia,
em Deodoro, cuidando da disciplina dos soldados e 
da limpeza dos cavalos, batendo continncia para major. Deixou Amboi
no quartel de Joo Pessoa e desinteressou-se das 
cavilaes polticas nordestinas. Se  possvei dizer que houve dois
tenentismos, um profissional e outro poltico, alistara-
se no primeiro.45 
#40 Menu do jantar ao interventor Gratuliano Brito, "homenagem dos
amigos por motivo do seu 
regresso do Rio de Janeiro' 2 de maio de 1934. APGCS/HF. Para a roupa,
Ernesto Geisel, abril de 
1994: "Na Paraba ns s usvamos ternos de linho branco e sapatos
bicolores' 
41 Para o presente, Ernesto Geisel, maio de 1994. Segundo o general
Reynaldo Mello de Almeida, 
esse cavalo era montado por Geisel mas pertencia ao Exrcito. 
42 Chamava-se Dolabella Portella. Ernesto Geisel, junho de 1994. Em
1934 o valor mdio da hipoteca de um imvel urbano 
era de 45 contos. Sries estatsticas retrospectivas, vol. 1, p. 62. 
43 Ernesto Geisel, 1983. O parentesco de Cazuza Trombone com Jos Lins
foi informado ao 
autor por Elizabeth Lins do Rego, em dezembro de 1991. Para o coronel,
Jos Lins do Rego, Fico 
completa, vol. 1: Usina, pp. 740, 790, 792 e 882. 
44 Ernesto Geisel, maro de 1994 e outubro de 1983. 
45 Para os dois tenentismos, Edmundo Campos Coelho, Em busca de
identidade O Exrcito e 
a poltica na sociedade brasileira, pp. 96-104. 
38 A DITADURA DERROTADA# 
Exaurido pela sua prpria inconseqncia, cinco anos depois de
triunfar, o tenentismo estava dissolvido em torno de trs 
atraes: o fascnio pelas casacas, o comunismo e o fascismo. O
cearense Juracy Magalhes assumiu o governo da Bahia, 
somando seu sobrenome ao registro das oligarquias locais.46 Agildo
Barata, o Gari oquinha ou Moleque, colega de 
turma de Geisel em Realengo e de governo na Paraba, comeou sua
guinada  esquerda. "Ns ramos como irmos' 
lembrou Geisel, "mas quando ele virou comunista, comecei a me afastar
dele. Ele era comandante da Polcia Militar, e um 
dia o interventor me convidou para substitu-lo. Expliquei que no
podia, que ele era quase um irmo meu, que no me 
pedisse esse sacrifcio."47 Geisel dobrara  direita. Lera Colquios
com Mussolini, do escritor Emil Ludwig, 
publicado em 1932. Conclura que o comunismo era uma fantasia e se
convencera de que os "casacas" tinham recuperado o 
poder atravs dos ziguezagues do presidente Getulio Vargas. "Eu tinha
admirao pelo Mussolini porque ele ps ordem na 
Itlia. Ele representava um ressurgimento italiano, e eu era a favor
do Estado forte." Recusou diversos convites para juntar-
se ao movimento integralista.48 
Na noite de 27 de novembro de 1935 o capito Agildo Barata estava no
32 Regimento de Infantaria, na praia Vermelha, 
comandando uma insurreio desencadeada pelo militarismo de Luiz
Carlos Prestes. O Cavaleiro da Esperana 
retornara de Moscou, onde vivera desde 1931.
#46 Juracy governou a Bahia, elegeu-se senador, foi embaixador em 
Washington e ministro da Justia 
e das Relaes Exteriores. Seu filho Jutahy elegeu-se deputado e
senador. Seu neto Jutahy Jr. elegeu-se deputado, e foi 
ministro da Integrao Social no governo Itamar Franco e lder do PSDB
na Cmara com Fernando Henrique Cardoso. (No 
h relao de parentesco entre Juracy e Antonio Carlos Magalhes, que
foi seu protegido no incio da carreira poltica.) 
47 Ernesto Geisel, outubro de 1983. Esse episdio ocorreu antes de
1932. Agildo aproximou-se do PCB em 1934. A 
amizade de Geisel com Agildo Barata durou enquanto viveram. Em 1932,
quando Agildo foi para o exlio, Geisel 
participava das vaquinhas de oficiais para ajud-lo financeiramente.
Agildo deixou o PCB nos anos 50, mas, ao contrrio da 
norma da poca, no se tornou um anticomunista. Depois de 1964, j na
chefia do Gabinete Militar, Geisel visitou Agildo, 
bastante doente, em sua casa. No trataram de poltica. Ernesto
Geisel, janeiro de 1995. 
48 Ernesto Geisel, outubro e abril de 1993. 
MOITA,  O ALEMO 39# 
Esperarava que a Vila Militar, a Marinha e o povo (nessa ordem) se
sublevassem. Alm do 32 RI os rebeldes s 
dominaram no Rio de Janeiro a Escola de Aviao, em Deodoro. O
comandante do 12 Regimento de Aviao, 
tenente-coronel Eduardo Gomes, resistira ao ataque e fora ferido na
mo por um tiro de fuzil. Artilhado no 
morro do Magalhes, Geisel bombardeou a pista, imobilizando os avies.
 tarde, Getulio Vargas visitou as 
tropas legalistas e trocou algumas palavras de agradecimento com
aquele capito louro que conhecera anos 
antes, em Petrpolis, batalhando por recursos para as obras do porto
de Cabedelo.49 Nos meses seguintes, em
meio  represso aos comunistas, o governo de Vargas extraditou a
mulher de Prestes para a Alemanha. Para 
Olga Gutmann Benario, bolchevique e judia, que se tornaria
mundialmente conhecida como Olga Benario 
Prestes, o retorno  ptria era uma crueldade. Estava grvida de sete
meses quando a desembarcaram em 
Hamburgo. Pariu a menina Anita Leocdia no presdio de mulheres da
Gestapo, em Berlim. Em 1942, aos 32 
anos, foi para a cmara de gs do campo de concentrao de Bemburg.'50
O capito Ernesto Geisel apoiava a 
deportao de Olga Benario.'51 
Na noite de 10 de novembro de 1937, ele estava de novo artilhado, no
mesmo morro, mirando a mesma pista. 
Do ponto de vista constitucional, o clculo de seus disparos tinha o
sinal invertido. Temia-se que o coronel 
Eduardo Gomes tentasse lanar os avies de seu regimento contra o
golpe militar armado entre o Ministrio da 
Guerra e o palcio do Catete. Tratava-se de cancelar a eleio
presidencial e prolongar a permanncia de 
Getulio Vargas no governo, suspendendo-se as franquias
constitucionais. A essa ditadura chamariam Estado 
Novo.51 Tinha voltado a politicagem. Novamente o Exrcito entregou 
o poder aos 'casacas' e teve que dar outro golpe em 1937..."52 
#49 Ernesto Geisel, maro de 1984. 
50 Anita Leocdia Prestes e outros, No olhe nos olhos do Inimigo, p.
13. 
51 Ernesto Geisel, agosto de 1986. 
52 Idem, julho de 1985. 
40 A DITADURA DERROTADA# 
Geisel continuava vivendo no quartel, mantinha um quarto numa penso
do Catete e nos fins de semana 
arriscava a sorte no cassino da Urca ou tomava cerveja com a boemia
bem-comportada do bar da Brahma, na 
avenida Rio Branco. Nunca ps o p numa gafieira. Sentava-se em rodas
amigas de pquer e assombrava os 
parceiros. Jamais blefou. "Nunca. Tenho medo da vergonha de ser
apanhado", explicava, aos 87 anos.53 
Em janeiro de 1940 casou-se com sua prima Lucy Markus, dez anos mais
jovem e descendente dos pioneiros 
alemes de Estrela, O namoro, urdido por Augusto Geisel, iniciou-se no
Carnaval de 1939, no Rio de Janeiro, e 
sustentou-se por correspondncia. Em novembro tiveram o primeiro
filho, Orlando Geisel Sobrinho. Como 
prometera  noiva, viviam em regime de "misria dourada": Tinha dez
contos de ris no banco.54 S algum 
tempo depois do nascimento da criana  que o casal teve uma moradia
exclusiva fora dos subrbios militares. 
Viveram numa penso da Tijuca e dividiram uma casa com Orlando em
Botafogo, at que alugaram um 
apartamento na rua Cupertino Duro, no grande areal do Leblon. Havia
lotes  venda, mas Geisel achou que a 
regio no tinha futuro. 
O capito estava de passagem comprada no navio Netnia, que deveria
lev-lo  Alemanha na comitiva do 
chefe do Estado-Maior do Exrcito, general Pedro Aurlio de Goes
Monteiro. Iam ver de perto aquilo que Goes 
chamava de a "obra gigantesca, de ressurreio nacional" do Terceiro
Reich, quando Hitier invadiu a 
Polnia.55 Comeara a Segunda Guerra Mundial. A viagem foi cancelada.
Por dois anos o corao do Estado 
Novo balanou entre os Aliados e o Reich. 
De um lado estava o chanceler Oswaldo Aranha, ex-embaixador em
Washington. De outro, Goes Monteiro e o 
ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra. O Estado-Maior de Goes via a
guerra  sua maneira. Em dezembro de 
1941, acreditava que durante a primavera europia seguinte 
#53 Ernesto Geisel, abril de 1994. 
54 Lucy Geisel, maio de 1994, e Ernesto Geisel, maro de 1995. Em
1939, dez contos de ris equivaliam a pouco mais de quatro meses de
despesas 
normais de uma famlia de classe mdia no Rio, 
ou a quinze meses de aluguel. Sries estatsticas retrospectivas, vol.
1, p. 94. 
55 Ernesto Geisel, abril de 1994. "Consideraes sobre a II Guerra
Mundial' general Pedro Aurlio 
de Goes Monteiro, em Relatrio dos Trabalhos do EME - 1939. Documentos
histricos do EstadoMaior do Exrcito, pp. 
226-9. 
MOITA, O ALEMO 41#
a Unio Sovitica poderia ser posta "fora de causa" embora a Wehrmacht
tenha sido travada s portas de Moscou em 
novembro e perdido Kalinin semanas depois. Apesar de os ingleses terem
rompido o cerco de Tobruk, Goes sustentava 
que os resultados dos combates no Norte da frica estavam aqum dos
prognsticos do alto-comando britnico. 
Aquilo que parecia divergncia poltica era apenas uma irrelevncia.
Para os generais Goes Monteiro e Dutra, os combates 
de Tobruk e a defesa de Moscou eram pouco mais que um estmulo para as
batalhas de corredor do Catete. No davam 
relevo em seus relatrios ao fato de que um pedao do territrio
brasileiro, mais precisamente a protuberncia do seu 
extremo leste, em Natal, seria essencial s tropas americanas, caso os
Estados Unidos entrassem na guerra. O saliente 
nordestino, caminho mais curto para o transporte areo sobre o
Atlntico, no permitia a Vargas o luxo da neutralidade. O 
estado-maior do exrcito dos Estados Unidos considerava-o um dos
quatro pontos de maior valor estratgico no mundo, ao 
lado do canal de Suez e dos estreitos de Gibraltar e do Bsforo. 56
Antes mesmo do incio da guerra o comando militar 
americano, s vezes com o conhecimento dos militares brasileiros,
planejava operaes destinadas a assegurar o controle do 
extremo nordestino.57 
Em maio de 1940, assustado com informes ingleses que previam um ataque
alemo ao Brasil, o presidente Franklin 
Roosevelt autorizara o esboo de um cenrio que viria a se chamar
Operao Pote de Ouro, na qual 100 mil 
soldados americanos tomariam a costa, de Belm ao Rio de Janeiro. 58 O
plano refletia o medo americano de um golpe pr-
nazista na 
#56 Larry Rohter, "Natal journal: a has-been wonders how to honor what
was", The New York Times, 
20 de junho de 2001. 
57 O primeiro plano de contingncia do Departamento da Guerra
americano, denominado 
Rainbow 1,  de agosto de 1939. Frank D. McCann Jr., The
Brazilian-American Alliance -1937/1945, 
p. 201. Houve pelo menos quatro planos Rainbow. No dia 8 de agosto de
1939 o general Marshall, 
chefe do estado-maior do exrcito dos Estados Unidos, escreveu a Goes
Monteiro referindo-se  
"preparao de bases areas no nordeste do pas de acordo com nossas
conversaes' Em Joo 
Hermes Pereira de Arajo, "Oswaldo Aranha e a diplomacia' publicado em
Oswaldo Aranha - A estrela da Revoluo, de 
Aspsia Camargo e outros, p. 204. 
58 Frank D. McCann Jr., The Brazilian-American Alliance - 1937/1945,
p. 203. A esse respeito, ver 
tambm Getulio Vargas, Dirio, vol. 2: 1937-1942, pp. 395, 415-7, 424
e 431-2. Para o nome da operao, Sonny B. 
Davis, A brotherhood of arms, p. 8. 
42 A DITADURA DERROTADA#
Argentina e da simpatia dos descendentes de imigrantes do Sul. Num
novo desdobramento, quando tudo o 
que os Estados Unidos queriam era o saliente nordestino, o adido
militar americano, general Lehman Mil- ler, 
fez saber ao general Dutra e ao gabinete do ministro da Aeronutica
que as bases de Belm e do Recife seriam 
ocupadas "por bem ou por mal".59 No dia 27 de outubro de 1941, Vargas
resumiu e anotou uma conversa do 
adido com Dutra: "O ministro da Guerra contou-me palestra com o
general Miller, recm-chegado dos EUA. 
Disse-lhe que [...] no confiavam no nosso Exrcito, tido como
germanfilo, e que precisavam desembarcar 
tropas no Nordeste para defender-nos de um ataque alemo. Isso d ao
caso um aspecto grave, no  uma 
colaborao,  uma violncia".60 
Na mosca. Miller sabia do que estava falando. Quatro dias depois da
queixa de Vargas ao seu dirio, o estado-
maior americano conclura um Plano do Teatro de Operaes do Nordeste
do Brasil. Previa o 
controle de quatro pontos estratgicos: Belm, Natal, Recife e
Salvador.61' Numa de suas verses, denominada 
Arco-ris V, as operaes militares americanas mobilizariam 60 mil
homens. Noutra, o Plano Lilac, seriam 
15 mil, apoiados por dois contingentes de reforo que somavam mais 38
mil soldados.62 Goes Monteiro dizia 
que os americanos apresentavam "pretenses descabidas" e provocavam
atritos, buscando "a ocupao de 
bases no territrio nacional". Reclamava da "guerra de nervos" contra
o Alto-Comando do Exrcito, mas a 
guerra dos americanos no era de nervos.63 Era guerra mesmo. 
No dia 7 de dezembro de 1941 os japoneses atacaram a base naval 
de Pearl Harbor, levando os Estados Unidos  luta. Duas semanas
depois, 
avies americanos desembarcaram 150 fuzileiros navais nas bases areas
#59 Pio Corra, O mundo em que vivi, p. 211. 
60 Getulio Vargas, Dirio, vol. 2:1937-1942, p. 431. 
61 Plano do Teatro de Operaes do Nordeste do Brasil, de 12 de
novembro de 1941, parcialmente 
transcrito em Isto, 26 de maio de 1993, pp. 52-5. 
62 Sonny B. Davis, A brotherhood of arms, pp. 14 e 23. 
63 Relatrio dos Trabalhos do EME - 1941. Documentos histricos do
Estado-Maior do Exrcito, 
pp. 252-5. 
MOITA,  O ALEMO 43#
de Belm, Natal e do Recife. Havia-se combinado que seria "pessoal
tcnico", mas veio uma pequena tropa armada.64 Com 
o apoio de rpidas gestes diplomticas, assegurara-se o controle do
corredor atravs do qual os americanos alcanariam o 
Norte da frica. A pista da base area de Natal chegaria a ser a mais
movimentada do mundo.65 Vargas rompeu relaes 
com o Eixo em janeiro de 1942 e declarou-lhe guerra em agosto. At a
queda de Berlim, em maio de 1945, o Brasil mandaria 
25 mil homens para a Itlia. 
Geisel tirara o primeiro lugar na Escola de Armas, e em 1943
concluiria com louvor o curso de estado-maior. Excluram-no 
das listas de oficiais enviados aos Estados Unidos para os cursos
intensivos de treinamento que formariam a base da Fora 
Expedicionria Brasileira. Uma proclamada preferncia pelos alunos que
tivessem obtido boa colocao ao terminarem as 
escolas de aperfeioamento e de estado-maior tornara a excluso mais
dolorosa. Tanto ele como Orlando tiveram 
desempenhos excepcionais, mas ficaram de fora.66 Outros descendentes
de alemes, entre eles os tenentes-coronis 
Amaury Kruel e Henrique Lott, viram-se includos na FEB. O adido
militar americano no Brasil, que supervisionara o 
embarque das tropas, chamava-se Kriner, o comandante do corpo de
exrcito ao qual seria anexada a diviso brasileira era o 
general Crittenberger, e as tropas aliadas estavam sob as ordens do
general Eisenhower, todos descendentes de alemes. 
Quando, no incio de 1945, o major Ernesto Geisel foi mandado  
Escola de Comando e Estado-Maior de Fort Leavenworth, no estado do 
#64 Telegrama do embaixador Carlos Martins a Getulio Vargas, de
dezembro de 1941. Telegramas dos generais Mascarenhas 
de Moraes, Zenbio da Costa e Cordeiro de Farias ao ministro Dutra, de
18 e 19 de dezembro de 1941. Em Marechal 
Eurico Gaspar Dutra - O dever da verdade, organizado por Mauro Renault
Leite e Luiz Gonzaga Novelli Jr., pp. 476-7. A 
Ponte Area fora inaugurada seis meses antes do ataque a Pearl Harbor,
quando dez avies militares americanos desceram 
em Natal e decolaram para a frica. A esquadrilha no tinha permisso
das autoridades brasileiras para fazer essa rota. 
Voava com navegadores ingleses treinados na rota como tripulantes de
uma linha comercial da Pan American. Ver Frank D. 
McCann Jr., The Brazilian-American Alliance - 1937/1945, p. 235. 
65 Larry Rohter, "Natal journal: a has-been wonders how to honor what
was", The New York Times, 20 de junho de 2001. 
66 Ernesto Geisel, abril de 1994. 
44 A DITADURA DERROTADA#
Kansas, a mquina militar alem j se avizinhava do colapso. Tinha 37
anos e uma biografia marcada pelas desordens 
militares da primeira metade do sculo. Participara de dois golpes
(1930 e 37), reprimira trs levantes (31, 32 e 35), mas 
fora mantido ao largo da maior guerra da histria mundial. Viveu mais
meio sculo, foi general e presidente, sempre 
mostrando a mgoa que essa excluso lhe causou. 
As inquietaes cotidianas do major Geisel relacionavam-se muito mais
com a qualidade do Exrcito em que vivia do que 
com os grandes problemas nacionais. Corporao desequipada,
ineficiente, dividida em panelinhas de generais e ulicos, era 
forte nas paradas e nos palcios, fraca nos quartis e no adestramento
militar. "Este exrcito no vai  batalha", reclamava o 
general Goes Monteiro.67 No possua avies capazes de patrulhar a
costa. A tropa terrestre jamais se exercitara com a 
Fora Area. Tambm no tinha blindados, artilharia antiarea ou
munies em geral.68 O ministro da Guerra, general 
Dutra, sustentava que a mobilizao de sua tropa era tarefa quase
impossvel. Alm de o Exrcito apresentar outras 
fragilidades, "grande nmero de oficiais se acham afastados de suas
funes"69 Faltava aos seus comandantes sobretudo a 
vontade de entrar na guerra. Houve caso de turma de oficiais em que os
catorze primeiros colocados preferiram ficar fora da 
FEB.70 De seus 870 oficiais de infantaria, 302 eram reservistas.71'
Dois generais recusaram o comando da Fora 
Expedicionria, enquanto Dutra escrevia a Vargas atribuindo 
#67 Carta do general Pedro Aurlio de Goes Monteiro ao general 
Emlio Lucio Esteves, de 19 de 
maio de 1937, em Marechal Eurico Gaspar Dutra - O dever da verdade,
organizado por Mauro Renault Leite e Luiz 
Gonzaga Novellijr., p. 191. 
68 Expediente enviado pelo ministro da Guerra, general Eurico Gaspar
Dutra, ao presidente Getulio Vargas em 4 de junho 
de 1940. Mauro Renault Leite e Luiz Gonzaga Noveili Jr., orgs.,
Marechal Eurico Gaspar Dutra - O dever da verdade, pp. 
385 e 580. Para a falta de avies capazes de patrulhar a costa e para
a situao dos blindados, Ricardo Bonalume Neto, A 
nossa Segunda Guerra, pp. 87 e 125. 
69 Mauro Renault Leite e Luiz Gonzaga Novelli Jr., orgs., Marechal
Eurico Gaspar Dutra - O dever da verdade, p. 581. 
70 Depoimento de Gerson Machado Pires, em Ricardo Bonalume Neto, A
nossa Segunda Guerra, pp. 129-30. 
71 Frank D. McCann Jr., The Brazilian-American Alliance - 193 7/1945,
p. 368. 
MOITA, O ALEMO 45#
a reticncia dos chefes at  "fraqueza congnita dos nossos soldados,
fisicamente debilitados"72 
Em 1940, ao mesmo tempo que os blindados alemes encurralavam as
tropas inglesas na Frana, Geisel, no comando da 
bateria de artilharia da Escola Militar, dirigia um inqurito
policial-militar destinado a apurar as causas da morte de um 
cavalo.73 Voltou de Fort Leavenworth no incio de abril de 1945,
quando o Exrcito Vermelho estava nas cercanias de 
Berlim. Terminado o curso de especializao em blindados, ele se
apresentou ao quartel-general. Ainda que no tivesse 
aprendido nada, tinha pelo menos o que contar, mas a conversa com o
oficial encarregado de classific-lo foi rpida: 
- Onde o senhor estava antes de ir para os Estados Unidos? 
- Em Porto Alegre. 
- Ento volte para l.74 
O mesmo Exrcito que o ministro da Guerra relutara em mandar para a
guerra por desequipado e mal treinado, nada tinha a 
oferecer alm da monotonia a um major que conclura com louvor todos
os cursos de aperfeioamento e acabava de 
regressar da escola de comando da melhor fora armada do mundo. Nem
sequer lhe perguntaram o que vira. Graas a um 
amigo, conseguiu ficar no Rio de Janeiro. 
#72 Mauro Renault Leite e Luiz Gonzaga Noveili Jr., orgs., Marechal
Eurico Gaspar Dutra - O dever da verdade, p. 582, 
para a citao. A recusa dos dois generais foi informada ao autor pelo
general Ernesto Geisel. Em repetidas ocasies ele se 
negou a identific-los. O Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro
ps-1 930, coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, vol. 
2, p. 2284, diz que "vrios generais, entre os quais Valentim Bencio,
Amaro Bittencourt e Francisco Gil Castelo Branco, 
teriam sido consultados para exercer o cargo' 
73 Livro de Alteraes do general Ernesto Geisel, comisso de 12 de
fevereiro de 1940. Tratava-se do cavalo n2 500, do 
Departamento de Equitao. APEG. 
74 Ernesto Geisel, novembro de 1983.
  Uma dor que no acaba#
  Na tarde de 29 de outubro de 1945 o major Ernesto Geisel,
chefe-de-gabinete do comando do Ncleo 
da Diviso Blindada, recebeu ordens para sair com a tropa do quartel
de So Cristvo. O general 
lcio Souto, comandante da unidade, estava muito gripado e ficara no
quartel-general. Assim como 
fizera em 1937, Getulio Vargas tentava embaralhar a sucesso
presidencial, mas se oito anos antes 
ela era disputada por dois civis (Jos Amrico de Almeida e Armando de
Sailes Oliveira), dessa vez 
o preo estava entre dois militares, o general Eurico Gaspar Dutra,
que deixara o Ministrio da 
Guerra, e o brigadeiro Eduardo Gomes. 
"Eu agi em quatro lances. Primeiro tomamos a praa da Repblica. De
l, fomos para a Cinelndia 
e praa Paris. Finalmente, para o Catete e de l para o palcio
Guanabara." Quinze anos depois de 
ter sado de Santo ngelo com uma annima unidade de artilharia a
cavalo no levante que colocara 
Getulio Vargas na Presidncia da Repblica, Ernesto Geisel estava com
seus blindados diante da 
escadaria de mrmore do palcio Guanabara, velha casa da princesa
Isabel que a Repblica 
reformara e Getulio transformara em residncia. Os blindados e a tropa
de um batalho de infantaria 
espalhados pelos jardins sinalizavam a determinao da rebeldia
militar. Geisel e lcio Souto 
entraram no palcio  noite, antes que Vargas sasse. Por acaso
encontraram-se com o presidente 
no salo. Trocaram cumprimentos, mas no se deram 
#1 Ernesto Geisel, outubro de 1984. 
48 A DITADURA DERROTADA# 
a mo.2 Da jornada, o major Geisel reteve apenas a lembrana de ter
gritado tantas ordens a ponto de terminar o dja 
resfriado e rouco: "No passou pela minha cabea a idia de que seria
necessrio tomar o palcio. Sa do quartel com a 
certeza de que o Getulio j estava deposto. Participar de uma operao
que derrubou um presidente da Repblica no me 
deu qualquer emoo especial. Tudo parecia uma coisa muito natural. O
movimento de 1945 foi feito dentro da hierarquia '3 
Em toda a vida Geisel pouco falou da sua participao no golpe contra
Vargas. Seus registros biogrficos informam que 
"tomou parte ativa na ao militar do dia 29 de outubro de 1945, no
Rio de Janeiro, como chefe do estado-maior do general 
lcio Souto". Do mesmo modo, os registros da deposio de Vargas
revelam que o Guanabara foi confrontado com uma 
tropa do Ncleo da Diviso Blindada, sob o comando do general, mas no
fazem aluso ao major. Atrs desse silncio esto 
algumas das particularidades de Geisel. A principal, capaz de explicar
tambm o desinteresse com que tratava do assunto 
cinqenta anos depois, era a noo de golpe "dentro da hierarquia'
determinado pelo quartel- general e apoiado pelo 
comandante da unidade. Nesse tipo de golpe, que no tem nome, forma ou
contedo poltico, a misso do major se resume 
a uma formalidade burocrtica, impessoal. lcio Souto concedeu ao
major Ernesto um elogio de 93 palavras em que 
mencionou a existncia de uma "ao" que terminou com "a vitria de
nossas foras' sem referncia ao local onde ocorreu 
ou ao objetivo que a desencadeou.4 O silncio foi ainda produto do
temperamento retrado de Geisel, carregado de 
#2 Estava presente tambm o tenente Leonidas Pires Gonalves. Getulio
perguntou os nomes a Geisel e a Leonidas. Quando 
ouviu os sobrenomes, comentou: "O senhor  um dos irmos Geisel.
Esteve na Paraba? Fez um belo trabalho l". A 
Leonidas, ajudante-de-ordens de lcio Souto, mostrou conhecer seu pai,
mdico, e disse: "Lembro-me da ltima vez que o 
vi". lcio Souto perguntou-lhe o que ia fazer. Vargas, teatralmente,
manteve-se em silncio, deu uma baforada de charuto e 
respondeu: "Descansar". Leonidas Pires Gonalves, janeiro de 1999. 
3 Ernesto Geisel, outubro de 1984, julho de 1992 e maio de 1994. (O
golpe de 29 de outubro foi o nico a contar com lista 
prvia de adeses por assinatura. Depoimento do general Mendes de
Moraes, em Mario Renault Leite e Luiz Gonzaga 
Noveili Jr., orgs., Marechal Eurico Gaspar Dutra - O dever da verdade,
p. 733.) 4 Elogio do general lcio Souto ao major Ernesto Geisel, de 8
de novembro de 1945. 
Livro de Alteraes, Diretoria de 
Motomecanizao, segundo semestre de 1945. 
UMA DOR QUE NO ACABA 49#
uma hostilidade ao exibicionismo que, alm de marcar a vida dele,
marcaria o juzo que fazia dos chefes e 
subordinados. 
Nas dcadas seguintes o golpe que deps Getulio Vargas foi associado a
um sentimento democrtico dos 
comandantes militares influenciados pela experincia da Fora
Expedicionria na Itlia. Essa racionalizao, 
posterior  quartelada, ajudaria os oficiais que apoiaram o Estado
Novo a confraternizar com os socialistas e 
liberais que haviam mandado  cadeia ou ao desemprego. Varrendo-se a
ditadura para debaixo da biografia de 
Vargas, os generais e almirantes, liderados por Dutra, pularam o muro
do Estado Novo, Os personagens 
decisivos no golpe de 1945 foram sete, todos oficiais-generais. Deles,
apenas um (Cordeiro de Farias) estivera 
na Itlia. Trs (Dutra, Goes Monteiro e lcio Souto) s se juntaram ao
esforo dos Aliados depois da chegada 
dos americanos a Natal.5 No foi para redemocratizar o Brasil que o
major Geisel cercou o Guanabara: "Getulio 
foi deposto porque prometeu eleies e queria fazer trapaa. Estava
sendo safado"6 O golpe contra Getulio, 
que resultou na posse de Jos Linhares, presidente do Supremo Tribunal
Federal, foi dado para preservar uma 
eleio presidencial que haveria de colocar na Presidncia um general
ou um brigadeiro. 
Sete meses depois da sada de Vargas do palcio do Catete, nele entrou
Ernesto Geisel. O general lcio Souto 
assumira a chefia do Gabinete Militar do presidente Dutra e
designara-o para chefe de uma das sees da 
secretaria geral do Conselho de Segurana Nacional. Desde sua criao,
em 1934, at seu fechamento, em 88, 
esse conselho foi um instrumento de militarizao do poder
presidencial. Passou por perodos de raquitismo e 
de hipertrofia, metido em pequenas questes, como o destino do guano
da ilha Rata, em Fernando de Noronha, 
ou em catstrofes
#5 Alm dos quatro generais mencionados, tiveram participao
relevante o brigadeiro 
Eduardo 
Gomes (candidato  Presidncia), Mendes de Moraes (diretor de armas,
nome dado na poca  
Diretoria de Pessoal) e Anor Santos, da Artilharia de Costa. Dos sete,
s Eduardo Gomes se opusera 
publicamente ao Estado Novo. 
6 Ernesto Geisel, outubro de 1984. 
50 A DITADURA DERROTADA#
como o projeto clandestino de construo de uma bomba atmica. Viveu
entre a obscuridade burocrtica e o 
esplendor cenogrfico, ora entregue a coronis annimos, ora servindo
de pano de fundo para a edio do AI-
5, em 1968. Em todos os casos funcionou como uma assessoria militar e
privada do presidente. Foi arquivo de 
projetos indesejveis e respaldou, com sua denominao grandiloqente,
atos que no passavam de decises 
individuais do governante. De conselho tinha apenas o nome, pois era
composto pelos ministros e pelos 
chefes de estados-maiores, colaboradores que o chefe do Executivo
podia dispensar a qualquer momento. 
lcio Souto tirara Geisel do anonimato e da rotina de cavalos e
soldados. Fora um simpatizante ostensivo da 
Alemanha nazista. Durante os primeiros anos da guerra, quando
comandava a Escola Militar de Realengo, o 
coronel lcio levava os cadetes a um cinema de subrbio, onde o adido
militar alemo co-presidia exibies 
dos sucessos militares da Wehrmacht.7 Em abril de 1947 o general
mandou o major Geisel para Montevidu 
como adido militar, e provavelmente influiu na sua promoo a
tenente-coronel, em junho de 48. Quatro meses 
depois, aos 52 anos, morreu com uma tuberculose que insistira em
tratar com bolinhas de homeopatia.8 Num 
Exrcito onde os generais poderosos carregam pequenas cortes de
subordinados, fechara-se a primeira e 
ltima possibilidade de integrao de Geisel a um grupo especfico, no
qual, conhecendo-se a tendncia do 
chefe, intui-se o comportamento da colmia. De todos os chefes
militares da poca, lcio Souto seria o nico 
para quem Geisel guardaria palavras em que misturava admirao e
afeto. Em 1976, na Presidncia, promoveu 
seu filho Alvir a general. Com ele havia outros 26. Telegrafou a todos
chamando-os de "camarada" e 
mandando-lhes "um abrao de felicitaes' A sete chamou de "amigo" S
a Alvir Souto, "camarada e amigo' 
mandou "um especial abrao '9
#7 Aspsia Camargo e Walder de Ges, Meio sculo de combate - Dilogo
com Cordeiro de Farias, p. 296, diz que 
lcio Souto fazia parte do "grupo germanfilo' Carta do general
Octavio Costa ao autor, de 21 de agosto de 
1991. A cinematografia nazista interrompeu-se depois que uma sesso
acabou em vaias e protestos. Em seu 
depoimento no livro Histrias do poder, organizado por Alberto Dines,
Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomo, 
vol. 1: Militares, Igreja e sociedade civil, p. 322, Jarbas Passarinho
refere-se ao nazismo de lcio Souto. 
8 Ernesto Geisel, julho de 1992. 
9 Nota de Heitor Ferreira, de cerca de abril de 1976. APGCS/HF. 
UMA DOR QUE NO ACABA 51#
Com 1600 dlares de soldo, pouco menos de dois anos em Montevidu
foram suficientes para que Geisel, aos 
43 anos, comprasse a sua primeira casa. Era o apartamento 201 do
edifcio Parente, na esquina das avenidas
Afrnio de MelloFranco e San Martin, um dos poucos prdios do
quarteiro. Custou-lhe 480 contos. Da 
cozinha via-se a praia do Leblon. O filho Orlando tinha dez anos, e
Amlia Lucy, a caula, completara cinco. 
Tornara-se um tenente-coronel do "exrcito do Rio de Janeiro", formado
por instrutores das escolas de 
aperfeioamento, oficiais de estado- maior, ativistas polticos,
conspiradores, ulicos e alpinistas sociais. 
Mandaram-no para o Estado-Maior das Foras Armadas, o EMFA. 
No dia 3 de outubro de 1950, Getulio Vargas cruzou novamente o seu
caminho. Haviam-se acabado a Nova 
Repblica de 1930 e o Estado Novo de 37, mas o ex-ditador,
auto-exilado na sua fazenda do Itu, em So Borja, 
marchava de novo sobre o Catete. Como avisara, "eu voltarei, no como
lder poltico, mas como lder de 
massas".'10 Geisel foi  urna e votou no brigadeiro Eduardo Gomes.
Getulio teve 3,8 milhes de votos, quase 
49% dos votos vlidos, vencendo em dezoito dos 21 estados e tambm no
Distrito Federal. Em So Paulo teve 
o triplo da votao do Brigadeiro; no Rio, o dobro. "Foi uma das
maiores decepes que tive' contaria 
Geisel. Antes do resultado de 1950 no era um devoto do sufrgio
universal como forma de escolha dos 
governantes. Depois dele, seria um ctico irreversvel. 
Bota o retrato do velho outra vez, 
Bota no mesmo lugar. 
O sorriso do velhinho 
Faz a gente trabalhar.11' 
Aos 67 anos, Vargas voltara nos braos do povo. Nada na sua chegada ao
Catete lembrava a euforia de 1930. 
A bandeira da moralidade pblica passara aos seus adversrios, um
pedao da oficialidade no o tolerava.
#10 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps-1930, coord. de
Alzira Alves de Abreu e outros, vol. 5, p. 5949. Verbete 
de Paulo Brandi. 
11 Idem, p. 5953. "Retrato do velho", marcha carnavalesca de Haroldo
Lobo e Marino Pinto. 
52 A DITADURA DERROTADA#
Fazia pouco sentido, mas o ditador retornara com uma das pernas no
ombro da esquerda que torturara e 
matara. Getulio subiu a escadaria interna do palcio com tamanho
desembarao que o presidente Dutra, ainda
com a faixa presidencial sobre o uniforme, seguiu-o meio passo atrs,
como se habituara a fazer na ditadura.'12 
Antes mesmo de sua vitria os adversrios punham as cartas na mesa: "O
sr. Getulio Vargas, senador, no 
deve ser candidato  presidncia. Candidato, no deve ser eleito.
Eleito, no deve tomar posse. Empossado, 
devemos recorrer  revoluo para impedi-lo de governar' escrevia o
jornalista Carlos Lacerda.'13 
Durante toda a agitao militar do governo Vargas, Geisel manteve- se
no quartel. Em duas ocasies levaram-
lhe manifestos. Um, contra o governo, viria a ser conhecido como o
Memorial dos Coronis e provocaria a 
queda do ministro do Trabalho, Joo Goulart. Outro, a favor do
ministro da Guerra, general Zenbio da Costa, 
oferecia-lhe a solidariedade dos oficiais. No assinou nenhum dos
dois. Refugou o primeiro porque "aquilo era 
um ato de indisciplina, coronel no tem nada que discutir nomeao de
ministro" Em geral, quem no assinava 
um, assinava o outro. Ademais, como  comum nas articulaes militares
a favor do governo, o texto do 
documento de apoio a Zenbio fora-lhe trazido pelo general sob cujas
ordens servia. Refugou tambm o 
segundo: "Eu lhe disse que era amigo do Zenbio mas que no assinaria
o manifesto por duas razes: primeiro 
porque no dou solidariedade irrestrita a ningum; segundo, porque
chefe no pode receber solidariedade de 
subordinado. O subordinado no pode ficar solidrio com o chefe pelo
simples fato de que no pode negar-lhe 
o apoio quando pedido. Ento, se o chefe precisa da solidariedade do
subordinado, ele est patrocinando um 
ato de indisciplina em beneficio prprio"'14 
Tornava-se um personagem estranho. Era um oficial respeitado, com 
opinies polticas to claras quanto operacionalmente irrelevantes.
At as 
pedras sabiam que detestava Getulio e que seu crculo de amizades
privilegiava
#12 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro 
ps-1930, coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, vol. 
5, fotografia da pgina 3488. 
13 Carlos Lacerda, "Advertncia oportuna' p. 4. Tribuna da Imprensa de
12 de junho de 1950. 
14 Ernesto Geisel, outubro de 1983 e junho de 1994. 
UMA DOR QUE NO ACABA 53#
os golpistas, mas nada disso tinha utilidade, pois regia-se pelo
manual. Comandando mesas, o prprio 
tenente-coronel tinha pouca importncia. Do EMFA passara  Escola
Superior de Guerra, que nem de sde 
dispunha, funcionando de favor na Escola de Artilharia de Costa. 
s oito e meia da manh de 24 de agosto de 1954, o Velho viu que a
tropa ia novamente ao palcio para dep-lo.
 Deitou-se na cama de seu quarto no palcio do Catete, apontou o Colt
de cabo de madreprola para o peito 
e disparou. Dessa vez Geisel ficara de fora. Sua tropa, o 82 Grupo de
Artilharia de Costa Motorizado, no 
Leblon, manteve-se no quartel. O general Juarez Tvora levou-o de
volta ao governo, agora como subchefe do 
Gabinete Militar do presidente Caf Filho. Em 1931 o tenente Geisel
prendera Caf, advogado de sindicatos de 
trabalhadores, acusado de preparar um levante esquerdista no Rio
Grande do Norte. Verificada a falsidade da 
denncia, libertara-o dias depois, com um pedido de desculpas. O
presidente lembrou o incidente ao coronel.'15 
Alguns meses mais tarde Geisel saiu do Catete para assumir o Regimento
Escola de Artilharia, o mais 
prestigioso comando da arma, mas tambm no se demorou. 
Em setembro de 1955 o general Henrique Lott, feito ministro da Guerra,
chamou-o ao gabinete e pediu-lhe que 
fosse para a superintendncia da refinaria de petrleo de Cubato, na
Baixada Santista, inaugurada em abril. 
Depois de 21 anos na tropa, Geisel alistava-se na sua segunda
corporao: a Petrobrs. Ela mal completara um 
ano de vida, O Brasil descobrira seu primeiro poo de petrleo em
1938, e em setembro de 50 (cem anos aps o 
surgimento do processo de refino, na Inglaterra) um automvel movido a
gasolina brasileira sara de uma 
grande refinaria estatal, a de Mataripe, na Bahia. 
Passados quinze meses do suicdio de Vargas e 39 dias da eleio de
Juscelino Kubitschek, um novo golpe. Na 
manh de 11 de novembro de 1955 o general Lott derrubou Carlos Luz, o
presidente da Cmara dos Deputados 
que assumira havia trs dias, depois que Caf se licenciara, 
#15 Joo Caf Filho, Do sindicato ao Catete - Memrias polticas e
confisses humanas, vol. 1: Do 
sindicato ao Catete, pp. 70-1. 
54 A DITADURA DERROTADA#
abatido por um distrbio cardaco. O general defenestrou Luz,
dispensou Caf e entregou o Catete ao 
presidente do Senado, Nereu Ramos. A "Novembrada" de Lott foi o mais
latino-americano dos golpes 
brasileiros. Segundo ele, destinou-se a recolocar o pas "nos quadros
normais do regime constitucional 
vigente", frase que no quer dizer absolutamente nada. Para seus
beneficirios, a deposio de Carlos Luz 
destinou-se a garantir a posse de Kubitschek, ameaada por uma
articulao golpista da direita militar de que 
faziam parte tanto Caf Filho como Carlos Luz. Para seus adversrios,
serviu para transformar o general Lott em 
condestvel da Repblica. Para uns e para outros significou a diviso
irremedivel da liderana militar. 
A "Novembrada" separou os irmos Geisel. Orlando, que a apoiara,
atuando como auxiliar do general executor 
do estado de stio no Rio de Janeiro, e Ernesto, que a condenara.
Ficaram mais de trs anos sem se falar. 
Visitavam-se somente nas comemoraes familiares, e mesmo assim no
tocavam em poltica. O rompimento s 
no se agravou porque suas mulheres - Alzira e Lucy, a quem os maridos
chamavam de "me" - desdenharam a 
briga e continuaram freqentando-se, alm de se falarem por telefone
quase todos os dias.'16  sombra do 
general Odylio Denys, verdadeira mola da deposio de Carlos Luz, a
carreira de Orlando Geisel prosperou 
durante o mandarinato de Lott. 
No incio de 1956 Lott mandou chamar o coronel Ernesto Geisel.
Explicou-lhe os motivos da "Novembrada" e 
foi surpreendido por uma condenao: "O senhor no podia nunca se
insurgir contra um presidente da 
Repblica que o tinha nomeado" Apesar disso, o ministro ofereceu-lhe
um dos principais comandos do 
Exrcito: a Academia Militar das Agulhas Negras, centro formador da
oficialidade. Era posio de general. 
Geisel recusou o prmio e foi designado comandante do 2 Grupo de
Canhes Antiareos, em Quitana, na 
periferia de So Paulo. Era um bom comando, mas no se comparava com a
AMAN. 
#16 Amlia Lucy Geisel, junho de 1991. 
UMA DOR QUE NO ACABA 55#
Na tarde de 28 de maro de 1957 o coronel Ernesto Geisel completara um
ano de comando em Quitana. Havia 
uma pequena comemorao no quartel e at um jogo de basquete. Seu
filho Orlando ia para a quadra. Era 
magro, tinha dezesseis anos, 1,86 m, culos de fundo de garrafa e
tradio de bom aluno. "Fui o primeiro 
aluno", escrevia a um amigo, "mas isto  quase uma obrigao para mim,
porque todos os outros alunos 
trabalham e no tm tempo para estudar."17 Decidira formar-se em
engenharia eletrnica no Instituto 
Tecnolgico de Aeronutica - o ITA - e deveria fazer vestibular no ano
seguinte. Comprara po para a casa, 
deixara a irm estudando desenho e montara na bicicleta. Viram- no com
um garoto na garupa, a caminho do 
quartel. Ao atravessar a linha do trem, o jovem Orlando Geisel
Sobrinho foi apanhado por uma composio e, 
ferido na cabea, morreu no leito da ferrovia. Ningum testemunhou o
acidente. Um oficial reconheceu o corpo 
e avisou o coronel Geisel. Ele viu o filho, foi para casa e informou a
famlia. Em poucos meses seus cabelos 
louros ficaram completamente brancos. De volta ao Rio, quando a mulher
colocou uma fotografia de 
Orlandinho num porta-retratos de prata, pediu-lhe que a tirasse.18 Se
via o filho nos lbuns da famlia, virava 
rapidamente a pgina. Passaram-se dez anos at que voltasse a
pronunciar o nome dele.'19 O bloqueio erguido 
em torno da tragdia foi to grande que por muitos anos a famlia
evitava mencionar o nome de Orlando na 
presena do pai.20 
A morte do filho alterou a noo que Ernesto Geisel tinha da prpria
existncia. Trouxe-lhe um sofrimento que 
nenhum sucesso haveria de eliminar. A educao austera, a disciplina
da caserna e seu temperamento fizeram-
no um retrado, mas a desgraa abateu-o a ponto de ele dizer, trinta
anos depois, que "ao longo de minha vida 
eu fui um 
#17 Carta de Orlando Geisel Sobrinho a Ruy Flaks Schneider, de 11 de
maio de 1956. Armando 
Falco, Geisel, p. 110. 
18 Amlia Lucy Geisel, julho de 1991. 
19 Humberto Barreto, maio de 1991. 
20 Amlia Lucy Geisel, julho de 1991, e Humberto Barreto, fevereiro de
2003. 
56 A DITADURA DERROTADA#
infeliz '21 A um amigo que passou por experincia semelhante,
confessou: " uma dor que no acaba '22 Nunca 
fora um ldico, mas em 1957 perdeu at a capacidade de esperar que a
vida lhe desse alegrias. Os dias festivos 
transformaram-se em jornadas de sofrimento, queria que se esquecesse o
Natal, "porque minha famlia no est 
completa"23 "Ele se ensimesmou ainda mais", conta Amlia Lucy, a
filha.24 "Antes da morte do Orlandinho ele 
j era uma pessoa fechada, mas se permitia alguma vida social. Depois,
encaramujou-se", lembra seu amigo 
Humberto Barreto.25 Geisel no buscou conforto na religio, nas
reminiscncias ou nas mudanas bruscas de 
comportamento tpicas das compensaes emocionais. Trancou-se, nunca
mais falou do assunto e, sempre 
que lhe foi possvel, passou o dia 28 de maro na companhia da mulher.
Cinco anos aps a tragdia recusou o comando da artilharia de So
Paulo, para no retornar, com a famlia, ao 
cenrio em que tanto haviam sofrido.26 Em 1976, quando o prefeito de
Osasco decidiu dar o nome de Orlando 
Geisel Sobrinho a uma rua da Vila dos Militares, em Quitana, Geisel
limitou-se a visar a carta com a notcia da 
assinatura do decreto, sem mandar agradecer.27 (Pouco depois
agradeceria a remessa de dois discos do tenor 
italiano Beniamino Gigli, enviados por outro poltico paulista.) 28
Durante os cinco anos em que Geisel presidiu 
o pas, Heitor Ferreira, seu secretrio particular, s registrou uma
referncia a Orlando, quando defendeu a 
necessidade de uma campanha para aperfeioar a sinalizao das
ferrovias: "Meu filho, por exemplo, foi 
atropelado por um trem, sem aviso na cancela ou passagem '29 
#21 Ernesto Geisel, agosto de 1986. A frase foi dita num contexto em
que se discutiam as dificuldades que as 
famlias criam para os governantes: "Ao longo de minha vida eu fui um
infeliz, mas 
tive a sorte de ter uma grande mulher e uma grande filha' 
22 Antonio Carlos Magalhes, 1987. 
23 Amlia Lucy Geisel, julho de 1991. 
24 Idem. 
25 Humberto Barreto, maio de 1991. 
26 Ernesto Geisel, novembro de 1994. 
27 Carta do prefeito Francisco Rossi a Geisel, de 26 de fevereiro de
1976. ApGcs/HF. 
28 Bilhete de Miguel Colasuonno a Geisel, de 26 de maio de 1976.
APGCS/HF. 
29 Dirio de Heitor Ferreira, 25 de junho de 1975. 
UMA DOR QUE NO ACABA 57#
Fora da famlia, seus interlocutores dividiam-se em dois tipos: os que
no tinham intimidade para mencionar o 
episdio e os que, tendo-a, sabiam que no deviam faz-lo. Ningum o
fez.30 Esse escudo, originalmente 
erguido para travar a dor, provoca uma reao a dependncias afetivas.
Repele at mesmo gestos de afeto e 
ajuda, identificando neles uma reverberao simultnea da desgraa e
da fragilidade das relaes humanas. O 
que  primeira vista parece ser um bloqueio  dor termina por
transformar-se em fortificao contra novas 
experincias emocionais.31' Geisel e a mulher tornaram-se inseparveis
na convivncia, praticamente 
inacessveis na vida particular. 
#30 Amigos ntimos de Geisel, como o casal Lilian e Humberto Barreto,
evitavam tocar na morte de Orlando Geisel Sobrinho. Golbery jamais a
mencionou. 
Em vinte anos de conversas com Geisel, somente em dezembro de 1993,
durante um almoo a que estavam presentes a mulher, a filha e Humberto
Barreto, 
ouvi-o fazer aluso ao "problema de Quitana", onde se deu "o
falecimento do meu filho". Ele se referiu pblica e espontaneamente a
Orlando em 1994. Em 
27 de janeiro desse ano, quando recebeu Cosette Alves para uma
entrevista, que saiu na Folha de S.Paulo de 15 de setembro de 1996. Nela
disse: 
"Sofri pessoalmente e sofri vendo minha mulher sofrer". Depois,
durante uma sesso das entrevistas que deu ao CPDOC, publicadas em
Ernesto Geisel, 
volume organizado por Maria Celina d'Araujo e Celso Castro, p. 123. No
depoimento concedido ao autor, o assunto no foi levantado. 
31 Robert Jay Lifton, The broken connection, p. 176.
O perigo vermelho# 
Logo depois da morte do filho o coronel Geisel foi transferido para a
seo de informaes do 
Estado-Maior do Exrcito, no Rio de Janeiro, onde acumulou a funo de
representante do 
Ministrio da Guerra no Conselho Nacional do Petrleo. A diviso
militar aprofundava-se diante da 
armao da candidatura do ministro da Guerra  Presidncia da
Repblica. Alm de ter feito a 
"Novembrada' o general Lott aceitara uma espada de ouro na comemorao
do primeiro aniversrio 
do golpe, homenagem de uma frente poltica que ia do vice-presidente
Joo Goulart ao Partido 
Comunista. O poeta Manuel Bandeira reclamava: 
 ouro sinistro, 
Ouro mareado: 
Mancha o Ministro 
Mancha o Soldado.1' 
Lott iniciara o processo de desidratao do Estado-Maior em beneficio
do gabinete pessoal do ministro. Criara 
um servio de informaes prprio e deixara aos coronis do EME pouco
mais que arcanas discusses 
estratgicas e geopolticas. Sua seo de informaes passou a cuidar
apenas de questes internacionais. L, 
Geisel batalhava contra um novo 
#1Manuel Bandeira, "A espada de ouro' em Estrela da vida inteira, p.
335. 
60 A DITADURA DERROTADA# 
inimigo: o imprio russo e seu instrumento de expanso poltica, o
comunismo. 
O confronto entre os imprios americano e sovitico pode ter comeado
em julho de 1943, quando americanos 
e ingleses, sem consul'tar os russos, aceitaram a instalao do
general Pietro Badoglio na chefia do governo 
italiano depois da deposio de Mussolini. Ou ainda em maro de 1944,
quando Josef Stalin demonstrou a 
Churchili e ao presidente americano Franklin Roosevelt que estava
disposto a transformar a Polnia num 
satlite sovitico.2 Segundo James Burnham, um jovem ex-trotskista,
renomado escritor da poca, a Terceira 
Guerra Mundial estourara em abril de 1944, com a revolta dos marujos
comunistas dos navios gregos 
ancorados no porto de Alexandria.3 Atravs de uma didtica que
cultivaria at mesmo na Presidncia, 
copiando em cadernos escolares tudo aquilo que gostaria de lembrar,
Geisel transcreveu um trecho do livro de 
Burnham: "A tarefa de preparao da Terceira Guerra Mundial pode ser
subdividida em dois tpicos: a 
tentativa para consolidar o domnio efetivo do continente eurasiano e
a tentativa simultnea para enfraquecer e 
minar todos os governos e naes no submetidas ao controle comunista
'4 
O aps-guerra foi um daqueles perodos da histria humana em que,
tendo acontecido tanta coisa, tudo podia 
acontecer. A partir de 1940, em pouco mais de uma dcada, dera-se uma
reorganizao das fronteiras europias 
sem paralelo desde as guerras napolenicas. A prpria existncia das
naes tornara-se matria frgil. A 
Alemanha fora retalhada e o Japo, ocupado. Os Estados blticos foram
engolidos pela Unio Sovitica e o 
Tibet, pela China. Dividiram-se a ndia, por motivos religiosos, e a
Coria, por razes ideolgicas. 
O comunismo avanava geogrfica, poltica e intelectualmente. O
coronel Geisel acompanhava a "expanso 
sovitica" em seu caderno: 
#2 John Colvilie, Thefringes of power, p. 479. 
3 A observao  de James Burnham, em Struggle for the world,
publicado em 1947. 
4 Apontamentos, caderno de espiral, manuscrito, de Ernesto Geisel.
APGCS/HF. 
O PERIGO VERMELHO 61#
Julho de 1940 - anexao da Estnia, Letnia e Litunia [e de] vastas 
reas da Polnia, Prssia Oriental e Bessarbia. 
Agosto de 1945 - ocupao do sul da ilha Sacalina e das Curilas. 
Janeiro de 1946 - Repblica Popular da Monglia, Repblica Popular da
Albnia. 
Setembro de 1946 Romnia passa a ser comunista e a Bulgria  
absorvida pelos vermelhos. 
Janeiro de 1947 - Polnia aceita o domnio comunista. 
Maio de 1947 - Hungria aceita o domnio comunista. 
Fevereiro de 1948 - Golpe comunista na Tchecoslovquia. 
Maio de 1948 - Coria do Norte se converte em Repblica Popular. 
Outubro de 1948 - Mandchria aceita um governo comunista. 
Outubro de 1950 - A Alemanha Oriental se converte em estado comunista.
Janeiro de 1951 - O comunismo se apodera da China. 
Maio de 1951 - O Tibet cai sob o domnio comunista.5 
As bandeiras vermelhas tremulavam num espao geogrfico duas vezes
maior que aquele anterior  guerra, e perto da 
metade da populao do mundo estava sob o governo das "ditaduras do
proletariado" Na outra metade a situao era 
ameaadora. Os partidos comunistas europeus saram da guerra como
potncias polticas. Entre a queda de Mussolini, em 
1943, e a grande eleio de 46, o nmero de militantes do pci passou
de 400 mil a 2 milhes. Um italiano em cada cinco 
votava 
#5 Duas folhas manuscritas, datadas de fevereiro de 1954, anexas ao
caderno intitulado Apontamentos, de Ernesto Geisel. 
APGCS/HE. A respeito do expansionismo moscovita, a ttulo de
comparao, registre-se que entre 1761 e 1856 a Rssia se 
expandiu  razo de 48 quilmetros quadrados por dia. Entre 1790 e
1890, os Estados Unidos expandiram-se  razo de 
quase cem quilmetros quadrados por dia. Ver Richard Pipes,
Theformation ofthe Soviet Union, p. 1. Entre 1500, quando as 
fronteiras coloniais portuguesas estavam demarcadas pela linha do
Tratado de Tordesilhas, e 1904, quando a Repblica 
anexou o territrio que hoje forma o estado do Acre, o Brasil
expandiu-se sobre 5 706 438 quilmetros quadrados,  razo 
de 34,7 quilmetros quadrados por dia. Agradeo essa pesquisa a Luiz
Henrique Ligabue E Silva. 
62 A DITADURA DERROTADA#
vermelho. O Partido Comunista Francs tornou-se o maior do pas, com 1
milho de membros (trs vezes mais que 
em 1937) e 29% dos votos.6 Mussolini fora pendurado de cabea para
baixo num posto de gasolina e a casa 
real dos Savoia, destronada e banida. O gabinete italiano tivera
quatro ministros comunistas, entre os quais o 
secretrio-geral do ci, Pai- miro Togliatti, com a pasta da Justia.
Na Frana o primeiro-ministro Pierre Lavai foi 
passado pelas armas, e o marechal Phillipe Ptain, heri de Verdun e
cone do governo colaboracionista de 
Vichy, metido numa enxovia. Os comunistas ocuparam quatro ministrios
- inclusive o da Defesa - alm de uma 
cadeira de vice-primeiro-ministro. No inverno de 1947 os partidos
comunistas se lanaram numa ofensiva de 
greves, e a maioria dos pases europeus eram governados por coligaes
centro-esquerdistas. Parecia realizar-
se uma das advertncias de James Burnham: "O objetivo supremo da
poltica comunista, e portanto sovitica,  
a conquista do mundo"7 
A expanso do comunismo projetara-se tambm num predomnio intelectual
da esquerda. Aqueles que haviam 
combatido o nazifascismo, recusando-se a tocar o hino fascista, como o
maestro Arturo Toscanini, ou ligando-
se  Resistncia, como o romancista Albert Camus, ou simplesmente
ficando em silncio, como o filsofo 
italiano Benedetto Croce, formavam uma nova elite moral em toda a
Europa. Em casos opostos, o poeta Ezra 
Pound foi metido pelo exrcito americano numa jaula de bichos por
conta do seu filofascismo, e o escritor 
francs Robert Brasillach foi fuzilado. A intelectualidade
conservadora que se comprometera com o Eixo refluiu 
ao silncio. Os dois maiores artistas da poca estavam na esquerda:
Pablo Picasso dizendo-se comunista, e 
Charles Chaplin arriscando a carreira para defender a Unio Sovitica.
No Brasil, o c adquirira excepcional proeminncia intelectual. Tinha
os melhores autgrafos da cultura 
nacional. Romance? Graciliano 
Ramos e Jorge Amado. Poesia? Carlos Drummond de Andrade e Vinicius 
#6 Gabriel Kolko, Thepolitics of war, pp. 31-2. Com 2,125 milhes de
membros, o pci transformou-se no maior partido 
comunista do mundo, depois do Sovitico. 
7 Apontamentos, caderno manuscrito de Ernesto Geisel. APGCS/HF. 
O PERIGO VERMELHO 63#
de Moraes. Pintura? Candido Portinari e Di Cavalcanti. Eram comunistas
compositores consagrados como 
Mrio Lago e artistas populares como o humorista Jararaca. Seria mais
fcil listar os intelectuais que no 
passaram pelo PcB: Srgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre,
Oliveira Viana e Manuel Bandeira. 
O coronel Geisel estudara o marxismo. Copiou em 26 pginas de caderno
as principais passagens do manual de 
Materialismo dialtico da Academia de Cincias da URSS, bblia dos
comunistas de todo o mundo. Com 
sua caligrafia impecvel, anotava: "Materialismo histrico  a cincia
das leis que regem o desenvolvimento da 
sociedade' ou: "A contradio fundamental do capitalismo  a
contradio entre o carter social da produo e 
a forma privada, capitalista, da apropriao"8 
Mais tarde, quando Juscelino Kubitschek restabeleceu as relaes
comerciais do Brasil com a Unio Sovitica, 
Geisel dinamitou um projeto de troca de 30 milhes de dlares de
petrleo russo por produtos brasileiros. Viu 
na idia "srios inconvenientes": "O principal deles decorre da
necessidade de serem contnuos os 
suprimentos de petrleo bruto para o refino no pas.  razovel
admitir-se que a URSS, aps algum tempo, use 
essa circunstncia como fator de presso sobre o Brasil, ou que, na
eventualidade de agravar-se a situao 
internacional, ela venha a suspender os suprimentos. (...) Em resumo,
procurando libertar-nos da sujeio 
ao capital norte-americano, poderemos criar, no caso, uma sujeio
futura muito pior ao bloco sovitico '9 
A energia poltica e as concepes de poder que o tenente Geisel
libertara no rastro da Revoluo de 1930 e da 
ascenso do fascismo se realinharam no coronel de acordo com as
clivagens da poca. A complexidade dessas 
clivagens supera de muito as simples divises entre governo e
oposio, esquerda e direita, nacionalismo e 
liberalismo, democracia e ditadura. Muitas vezes arraigam-se em
quizlias que, separando os generais, separam 
tambm os coronis e majores que os cercam. Geisel 
#8 Vinte e seis folhas manuscritas de Geisel, intituladas Materialismo
histrico. APGCS/HF. Para a 
primeira citao, Vrios Autores, Materialismo dialtico, p. 7. 
9 Negociaes Comerciais com a URSS, informao da 2 Seo do EME, sem
data. APGCS/HF. 
64 A DITADURA DERROTADA#
no caberia em nenhum dos esquemas de separao mecnica dos grupos.
Era oposio a Vargas, mas no 
assinara o Memorial dos Coronis. Isolara-se dos conspiradores de
1954, mas no escondia sua 
discordncia diante da "Novembrada" de 55. 
Podia parecer excntrico, porm era apenas simples. Todos os generais
falavam em disciplina, mas naqueles 
dois anos agitados esquerda e direita mostraram suas concepes
utilitrias da ordem e da desordem militar. 
Em 1954 a esquerda defendia os poderes constitudos, e a direita
armava o golpe contra Getulio. Ganhou a 
direita. Um ano depois a direita conspirava contra a posse de
Juscelino Kubitschek, e Lott deu o golpe dos 
sonhos da esquerda. Os legalistas de 1954 foram os golpistas de 55,
enquanto os golpistas de 54 se tornaram 
legalistas em 55. Num sinal da predominncia da indisciplina militar,
a maioria dos generais apoiou os dois 
golpes. Esse foi o caso de Lott, Castello Branco e Costa e Silva.
Raros foram os casos como o de Geisel. 
Por conta de suas idias e de seu crculo de amizades, Geisel poderia
ser fichado  direita, mas essa 
classificao no levaria longe. Tornara-se um defensor do monoplio
estatal do petrleo. No se envolvera na 
batalha poltica do "petrleo  nosso", mas vira na Diretoria de
Motomecanizao a extenso das dificuldades 
derivadas da falta de uma poltica de combustvel. Como mala sem ala,
o coronel era um trambolho poltico, 
dificil de mover. Em julho de 1957, a mala foi colocada na cadeira de
representante do Ministrio da Guerra no 
Conselho Nacional do Petrleo. A Petrobrs mal completara trs anos de
existncia, e o CNP ainda era o 
formulador da poltica nacional de combustveis. Nele, a refinaria
Unio travava a batalha pela definio do 
futuro do refino de petrleo no Brasil. Localizada em Capuava, So
Paulo, refinava 20 mil barris/dia desde o 
final de 1954. Era a maior do setor privado, mas equivalia a menos da
metade da estatal de Cubato. 
A lei que dera  Petrobrs o monoplio da pesquisa, da explorao 
e da produo de derivados preservara o nicho das trs grandes
refinarias privadas inauguradas anos antes, 
desde que congelassem sua produo
#O PERIGO VERMELHO 65#
abaixo da marca dos 45 mil Entendia-se que, aos poucos, a estatal
cuidaria do refino, visto como o fil do 
negcio. Alm de Cubato, a Petrobrs j operava a central de Mataripe
e preparava a construo de sua 
planta em Duque de Caxias, cuja produo deveria chegar a 90 mil
barris/dia." 
Politicamente poderosa, Capuava '12 havia conseguido do CNP uma
autorizao para que sua produo se 
expandisse de 20 mil para 31 mil barris/dia. Do ponto de vista da
empresa era ganho de produtividade. Para a 
Petrobrs, era burla  lei. A briga fora levada ao presidente
Juscelino Kubitschek, e ele determinara que a 
produo excedente ficaria com a Petrobrs, que se comprometia a pagar
uma "justa remunerao"  refinaria.'3 
Na hora de definir qual seria essa "justa remunerao" o processo de
Capuava caiu nas mos do coronel 
Ernesto Geisel. Ele j conhecia a fora de Alberto Soares Sampaio,
dono da refinaria. Tinha como scio o 
banqueiro Walter Moreira Salies e na sua equipe de advogados o
professor San Tiago Dantas. No CNP, Geisel 
encontrara um crtico solitrio da poltica das refinarias
particulares. Era Jesus Soares Pereira, um cearense 
modesto, autodidata e positivista, arqutipo do burocrata nacionalista
do varguismo. Comeara a vida como 
telegrafista. De 1938 a 1954, sempre que o Estado expandiu,
centralizou ou monopolizou atividades de infra-
estrutura econmica, Jesus estava presente. Trabalhara na Assessoria
Econmica de Vargas, participara da 
criao de Volta Redonda, da Companhia Hidreltrica do So Francisco e
da Petrobrs.'4 Sentava-se no 
Conselho como representante do Ministrio da Viao e tentara, sem
sucesso, conter a produo da refinaria 
de Capuava.'5 Para Geisel, tratava-se de calcular uma "justa
remunerao" de maneira a evitar que Soares 
Sampaio - ou qualquer outro dono de refinaria
#10 Carlos Eduardo Paes Barreto, A saga do petrleo brasileiro, p. 
40. 
11 Peter Seaborn Smith, Ou and politics in modern Brazil p. 114. 
12 A refinaria Unio era mais conhecida pelo municpio onde se
localizava do que pelo nome. 
13 Carlos Eduardo Paes Barreto, A saga do petrleo brasileiro, p. 52. 
14 Ernesto Geisel, abril de 1995. Para um estudo biogrfico e para a
trajetria de Jesus Soares Pereira, 
ver Petrleo, energia eltrica, siderurgia: a luta pela emancipao,
volume organizado por Cludio 
Sinonio Medeiros Lima. 
15 Ernesto Geisel, abril de 1995. 
66 A DITADURA DERROTADA#
sequer pensasse em refinar um barril a mais. O coronel decidiu que
Capuava devia receber de volta aquilo que pagara pelo 
leo cru, mais nada. Arrastou consigo os votos da Marinha e da
Aeronutica, e ganhou a briga. Capuava recorreu, Geisel 
relatou novamente o processo e voltou a contrari-la. Concertou-se uma
peritagem de tcnicos do CNP, eles deram razo  
refinaria. Geisel ps em dvida a honorabilidade da equipe, e a
posio foi mantida.16 
Um coronel anticomunista na 28 Seo do EME podia incomodar muita
gente, mas um oficial capaz de hostilizar Capuava 
sentado no CNP incomodava muito mais. Por meio de uma manobra
atribuda ao chefe do Gabinete Militar de Kubitschek, 
nomeou-se para a presidncia do conselho um coronel mais moderno que
Geisel.'17 Podia fazer de conta que no entendera, 
visto que se tratava de um cargo civil, mas pagaria o preo da
humilhao. Demitiu-se em 24 horas por "incompatibilidade 
hierrquica '18 Quando o ministro Lott argumentou que o coronel no
lhe daria ordens, Geisel respondeu que durante as 
reunies plenrias ele lhe daria a palavra, e isso bastava para
caracterizar a incompatibilidade. Menos de um ano depois, 
estava de volta, sempre incomodando. 
Capuava combatia. Numa carta a Juarez Tvora, o professor Eugnio
Gudin, ex-ministro da Fazenda e corifeu do 
liberalismo econmico brasileiro, cuidou da "divergncia entre a
Capuava e a Petrobrs, no caso, personificada pelo seu 
amigo coronel Geisel, de quem tambm formo o mais alto juzo" Feita a
cortesia, ia ao ponto. "Vejo a estrutura poltica de 
nosso pas formada por dois nicos grandes grupos: os que so contra e
os que so a favor do nacional-socialismo ou do 
nacional-comunismo:" Junto, enviava-lhe o estudo de um amigo sobre a
controvrsia.19 O
#16 Carlos Eduardo Paes 
Barreto, A saga do petrleo brasileiro, pp. 52-3 e 55. Capuava foi 
Justia 
contra o coronel Geisel. Em 1962 teve ganho de causa, mas a Petrobrs
s cumpriu a sentena trs 
anos depois. Idem. 
17 Na hierarquia militar, se dois oficiais tm a mesma patente, aquele
que a ela chegou antes (o 
"mais antigo") tem precedncia sobre o outro (o "mais moderno"). 
18 Para a identificao do chefe do Gabinete Militar, general Nelson
de Mello, como autor da manobra, carta do marechal 
Floriano de Lima Brayner a Geisel, de 2 de janeiro de 1974. Para o
pedido de demisso, carta do coronel Ernesto Geisel ao 
chefe do EME, de 10 de maio de 1958. APGCS/HF. 
19 Carta de Eugnio Gudin a Juarez Tvora, de 10 de fevereiro de 1961.
APGCS/HF. 
O PERIGO VERMELHO 67#
cosmopolita Gudin subestimou o rigor das lealdades de alguns dos
tenentes de 1930. Juarez mandou a Geisel tanto 
o estudo como a prpria carta, com a seguinte observao: "No pude
ler qualquer desses documentos; e se 
tivesse podido faz-lo, me escusaria de dizer-lhe sequer uma palavra
sobre o mrito da questo que lhe cabe 
debater junto ao CNP". Assinou-se "velho camarada e amigo".20 
Por detrs da cortina, um amigo de Soares Sampaio fez saber ao coronel
Geisel que ele poderia vir a ser 
nomeado presidente da Petrobrs, desde que esquecesse a rixa.21 Geisel
acertou metodicamente suas contas 
com os plutocratas do refino, e em outubro de 1973 Capuava desapareceu
como empresa privada. Quando um 
interlocutor lhe disse que ao longo do tempo tirara "o couro do
pessoal de Capuava", reconheceu: 
"Ah, tirei".22 
No incio de 1960 o general Lott deixou o Ministrio da Guerra para
disputar a Presidncia da Repblica em 
nome da coligao governista, contra o governador de So Paulo, Jnio
Quadros. Para o lugar foi o general 
Odylio Denys, comandante do i Exrcito durante a "Novembrada" Com ele
subiu Orlando Geisel. Ganhara as 
estrelas de general dois anos antes e tornou-se chefe-de-gabinete do
ministro. Convidou o irmo para a chefia 
do servio secreto que Lott montara em seu gabinete. 
" convite seu ou do Denys?", perguntou Ernesto. 
"Do Denys, no tenho nada com isso", respondeu Orlando. 
Na origem do convite estava a disposio de Denys em fechar as
cicatrizes deixadas pela "Novembrada" e 
pelos seis anos de poder de barao e cutelo de Lott. Na essncia,
representava o comeo de uma reviravolta. 
Como registraria em suas memrias o tenente-coronel Nelson Werneck
Sodr, membro do Partido Comunista: 
"Era forte. O marechal 
#20 Carta de Juarez Tvora a Ernesto Geisel, de 10 de fevereiro de
1961. APGCS/HF. 
21 Ernesto Geisel, setembro de 1994. 
22 Ernesto Geisel, janeiro de 1995. 
68 A DITADURA DERROTADA#
Odylio Denys dava preferncia, agora, a oficial de posio poltica
inconfundvel, e do outro lado '23 Dias depois o coronel 
Geisel reunia-se com o ministro: 
- Recebi esse convite e vim falar com o senhor para acertar certos
aspectos. Claro que no se trata de impor condies ou 
coisa assim, mas  para esclarecer minha opinio com respeito a
problemas que condicionam a funo. Primeiro, no estou 
de acordo com essa proteo que hoje tm os comunistas no exrcito,
comunistas comandando corpos de tropa, comunistas 
em posies-chaves, tirando curso de estado-maior. 
- Eu tambm no estou de acordo. Vou agir contra eles - respondeu
Denys. 
- Acho que o exrcito deve ficar fora da poltica. H essa campanha
presidencial, Lott candidato, e  preciso no se 
envolver. E h a hiptese de o Jnio ganhar. Nesse caso a minha
posio  que quem for eleito tem que ser empossado. No 
v o exrcito se prestar para dar golpe e terminar o Lott dono da
coisa.24 
Aceito o convite, Geisel formou sua equipe e nela incluiu o major 
Srgio de Ary Pires, conhecido por sua militncia poltica. O irmo
procurou-o com um desabafo: 
- Esse no d.  golpista. 
- Golpista? Golpistas so vocs. Eu sabia que no podia aceitar o
convite. Vocs no querem unir coisa nenhuma. Ento 
vou embora daqui.25 
O major ficou, e o coronel Geisel fez marcao dura contra os
"vermelhos" do Exrcito. Sugeria "eliminar os elementos de 
tendncias comunistas dos diversos setores da administrao, e de modo
particular a 
#23 Nelson Werneck Sodr, Do Estado Novo  ditadura militar, p. 219. 
24 Ernesto Geisel, outubro de 1994, e Dirio de Heitor Ferreira, 27 de
janeiro de 1972. 
25 Dirio de Heitor Ferreira, 27 de janeiro de 1972. 
O PERIGO VERMELHO 69#
infiltrao no seio das foras armadas"26 Seus agentes vigiavam os
oficiais de esquerda e propunham at mesmo que se 
acompanhasse uma viagem do brigadeiro comunista Francisco Teixeira 
Europa.27 
Por sua mesa passava de tudo. Do mundo dos pedidos militares vinham
desde uma ordem (no cumprida) de Kubitschek a 
Denys de que se designasse o general Olympio Mouro Filho para o cargo
de adido militar em Portugal at um pedido de 
um major que pretendia cuidar da surdez fazendo-se nomear para a
misso em Washington.28 O mundo das conspiraes 
polticas produzia os rotineiros informes de espias. Um narrava uma
conversa de uma hora e meia com oficial que falava 
como "chefe do grupo militar lottista" e se mostrava preocupado com a
possibilidade de uma manobra continusta de 
JK.29 Outro, de Porto Alegre, avisava que o comandante do iii
Exrcito, general Osvino Ferreira Alves, levantava a 
hiptese de uma revolta popular caso Jnio Quadros, representando o
"entreguismo", vencesse a eleio.30 No incio de 
agosto, quando a campanha do marechal Lott dava sinais de colapso,
outro informe alertava sobre a existncia de um plano 
golpista que comearia no Rio Grande do Sul, com uma passeata liderada
pelo governador Leonel Brizola, e terminaria em 
Braslia, com a posse do general Osvino como chefe revolucionrio. At
armas estariam sendo desembarcadas em Porto 
Alegre.31 No era pura fantasia. Nesses dias o governador gacho e o
vice-presidente Joo Goulart sentaram-se para 
almoar com o ministro da Justia, Armando Falco, no restaurante
Night and Day, no centro do Rio. Brizola estava certo 
da vitria de Jnio e foi direto ao
26 Expanso do Comunismo no mbito Nacional. Expediente de Geisel ao
chefe do 
EME, general 
Zeno Estillac Leal. APGCS/HF. 
27 Duas folhas, carimbadas "secreto' de 26 de julho de 1960,
encaminhadas pelo general Jayme 
de Almeida, chefe do Departamento de Proviso Geral, ao gabinete do
ministro Denys. APGCS/HF. 
28 Bilhete manuscrito de Juscelino Kubitschek ao marechal Odylio
Denys, sem data. Carta do major Nilton Freixinho a 
Geisel, de 16 de abril de 1960. APGCS/HF. Segundo Geisel, Denys
cozinhou a 
ordem de JK e no nomeou Mouro. Ernesto Geisel, 1988. 
29 Quatro folhas sem data nem assinatura, intituladas Conversa com S,
Dia 3 de Julho, Sbado, 
Durao 1 h3Om. APGCS/HF. 
30 Seis folhas datilografadas, sem data nem assinatura. APGCS/HF. 
31 Informe de 9 de agosto de 1960. Sem assinatura. APGCS/HF. 
70 A DITADURA DERROTADA#
ponto: "Nosso candidato est derrotado. Vamos atalhar o desastre. O
remdio  uma junta militar amiga".32 
Jnio surrou Lott, e para desencanto dos oficiais que no lhe
perdoavam a "Novembrada", Denys continuou 
no ministrio, O general Antonio Carlos Muricy argumentara que o novo
ministro "no deve ter problemas 
morais que o incapacitem para o cargo" e no inclura Denys na sua
lista de candidatos, mas tanto ele como as 
velhas vtimas de 1955 acabaram preferindo a mtua acomodao em torno
do marechal.33 Como escreveria o 
coronel Heitor Herrera, um dos mais intransigentes e ativos
conspiradores da poca: "No  gostoso o Lott ver 
sua poltica mesquinha alterada por seu ex-cupincha nmero um?".34
Geisel, promovido a general-de-brigada, 
foi para Braslia, acumulando as funes de comandante da 1 1 Regio
Militar e da 1 1 Brigada de Infantaria. 
#32 Armando Falco, Tudo a declarar, pp. 247-8. 
33 Carta do general Antonio Carlos Muricy a Geisel, de 11 de julho de
1960. APGCS/F{F. 
34 Carta do coronel Heitor Herrera ao capito Heitor Ferreira, de 29
de janeiro de 1961. ApGcs/Hr. 
Um general da (i)legalidade#
Na manh de sexta-feira 25 de agosto de 1961, seis meses e 23 dias
depois de ter sido empossado, Jnio 
Quadros assistiu  parada do Dia do Soldado na praa dos Trs Poderes
e caminhou para seu carro. O chefe 
do Gabinete Militar, general Pedro Geraldo de Almeida, parou-o:
"Presidente, vo tocar agora o Hino 
nacional".'1 
Jnio tinha pressa, mas ps a mo no peito e perfilou-se. Poucos
metros atrs, estava o general Ernesto Geisel. 
Acabara de receber a pataca de grande oficial da Ordem do Mrito
Militar. Soubera de Pedro Geraldo que "hoje 
vai haver coisa grossa".2 De volta ao palcio, viu o tamanho da
"coisa": Jnio ia renunciar  Presidncia. 
Tocou-se para o gabinete do ministro da Guerra, marechal Odylio Denys,
e avisou-o. 
Minoritrio no Congresso e desprovido de uma base de sustentao
poltica, Jnio embutira um programa 
conservador em sua personalidade excntrica. Derrubara o valor do
cruzeiro. O dlar passou de noventa para 
duzentos cruzeiros. Exigira dois turnos de trabalho ao funcionalismo
pblico ao mesmo tempo que se lanara 
em teatralidades como proibir biqunis em desfiles de misses e as
corridas de cavalos nos dias de semana. No 
final de julho dera trinta dias aos ministros militares para que
estudassem a possibilidade de anexao das 
Guianas, "submetidas a intenso trabalho autonomista [...] com a
presena de fortes 
#1 Ernesto Geisel, outubro de 1994. 
2 Idem. 
72 A DITADURA DERROTADA#
correntes de esquerda, algumas, reconhecidamente, comunistas".3 No dia
19 de agosto enfeitara a farda verde do Che 
Guevara com a seda azul- celeste da gr-cruz da Ordem do Cruzeiro do
Sul. Quatro dias depois voltara a tratar do perigo da 
Guiana Inglesa, temendo que l se formasse "um pas de estrutura
sovitica", pois ela seria governada por gente "da mais 
alta periculosidade' A essa altura o plano resumira-se  abertura de
uma misso diplomtica em Georgetown, acompanhada 
de vos regulares do Correio Areo Nacional. Jnio tinha uma f
inabalvel em si prprio. 
Fizera uma carreira assombrosa, indo de vereador de 1700 votos aos
trinta anos a presidente com 5,6 milhes, aos 43. Seu 
desequilbrio emocional, bem como o farisasmo de sua moralidade, era
matria de consumo conspcuo. Durante a 
campanha o futuro ministro da Justia, Oscar Pedroso Horta,
classificara-o de "maluco' enquanto o deputado Carlos 
Lacerda, um de seus principais aliados, j o chamara de "delirante
virtuose da felonia", "palhao" e "charlato" Quando 
se aborrecia com o candidato, Lacerda ameaava: "Conto tudo o que
sei"4 Seu chanceler chamava-o de "a UDN de porre"5 
O senador-padre Benedito Calazans, seu aliado em So Paulo, pedira-lhe
publicamente "mais seriedade, menos usque e 
menos outras coisas '6 O partido da moralidade foi  eleio com um
candidato que tinha como smbolo a vassoura, sabendo 
que se tratava de um bbado chegado a romances de fim de noite.7
Geisel dava-o por maluco desde que o conhecera, em 
1955. 
Na manh de 25 de agosto o presidente estava no meio da primeira
grande crise poltica de seu governo. Lacerda revelara 
numa dramtica
#3 Memorando secreto de Jnio Quadros ao chefe-de-gabinete da
secretaria geral do Conselho de 
Segurana Nacional, de 31 de julho de 1961. APGCS/HF. Para o projeto
de invaso da Guiana 
Francesa, ver o depoimento do ento governador do Amap, Francisco de
Moura Cavalcante, em 
Geneton Moraes Neto, Dossi Brasil, pp. 71-4. 
4 John W. E Dulies, Carlos Lacerda -A vida de um lutador, vol.
1:1914-1960, pp. 316 e 341. 
5 Roberto de Abreu Sodr, No espelho do tempo, p. 97. 
6 Jos Machado Lopes, O III Exrcito na crise da renncia de Jnio
Quadros, p. 34. 
7 Mcm, p. 98. Para os romances de fim de noite, Joel Silveira, Viagem
com o presidente eleito, p. 
26, e Julio de S Bierrenbach, 1954-1964-- Uma dcada poltica, pp.
113-4. Jnio Quadros tornou-se o nico poltico brasileiro cuja conta
secreta na Sua foi  publicamente 
assumida por um familiar, na tentativa de 
localiz-la. Jornal do Brasil, 5 de dezembro de 2002, p. A4.
UM GENERAL DA (I)LEGALIDADE 73#
catilinria que o ministro Horta o convidara para um golpe de estado.
Jnio jogou sua vida poltica numa 
s mo de cartas. Trancou-se na sala e despachou a renncia com um
bilhete manuscrito de 27 palavras e um 
manifesto de ressonncia getulista ("foras terrveis levantam- se
contra mim"). Anunciou a deciso aos trs 
ministros militares e voou para So Paulo. O general Odylio Denys,
ministro da Guerra, o almirante Sylvio Heck, 
da Marinha, e o brigadeiro Gabriel Grun Moss no tinham mandato, mas
no lhes passava pela cabea entregar 
o governo ao seu legtimo destinatrio. A cadeira cabia ao
vice-presidente Joo Goulart, que alm de carregar 
na biografia a hostilidade da maioria dos generais, estava no lado
errado do mundo. Visitara oficialmente a 
China Comunista, pas com o qual o Brasil no mantinha relaes
diplomticas. Fora recebido pelo camarada 
Mao Zedong e acabara de descer em Cingapura. Comeara uma crise em que
o conservadorismo nacional 
construiria uma catedral de trapalhadas e a sociedade civil
brasileira, a maior vitria poltica de sua histria. 
A primeira salva partiu do ministro das Relaes Exteriores, Affonso
Arinos de Mello Franco, um catedrtico 
de Direito Constitucional, concitando o Congresso a rejeitar a
renncia, sem o que "ser o caos, a guerra 
civil"8 Tanto Arinos como Pedroso Horta sustentavam que o Congresso
deveria apreciar a deciso 
presidencial, podendo at mesmo recus-la. Seria um retorno imperial.
Ao contrrio do que pensavam os 
constitucionalistas do golpe, ao Parlamento cabia apenas tomar
conhecimento da deciso. Tratando-se de um 
ato de vontade do presidente, a renncia no podia ser apreciada por
ningum. Na segunda salva, o ministro 
da Justia levara a carta de Jnio ao Senado certo de que no haveria
parlamentares suficientes em Braslia 
para a abertura de uma sesso extraordinria do Congresso. Engano: a
denncia de Lacerda superpovoara a 
capital habitualmente deserta aps o almoo de sexta-feira. Em quatro
minutos e meio o senador Auro Moura
Andrade, presidente do Congresso, leu a carta, deu conhecimento ao
plenrio da 
#8 Auro Moura Andrade, Um Congresso contra o arbtrio, pp. 40, 43 e
60. Ver tambm Paulo Markun 
e Duda Hamilton, 1961 - Que as armas no falem, p. 115, e " memria
de Jnio Quadros", de 
Jnio Quadros Neto, em O Estado de S. Paulo de 25 de agosto de 2001. 
74 A DITADURA DERROTADA#
"renncia do mandato do Presidente da Repblica Sr. Jnio Quadros",
informou que ele j no estava em Braslia e 
convidou os parlamentares para a posse do seu sucessor constitucional,
marcada para dali a dez minutos.9 Um deputado 
atirou-lhe um microfone, outro tentou arrebatar-lhe o documento, mas
menos de meia hora depois, no palcio do Planalto, 
assumia o deputado Paschoal Ranieri Mazzilli, presidente da Cmara.
Coube a Denys nomear o seu chefe do Gabinete 
Militar e nele colocou Geisel. 
Auro devorara o Vinte e Cinco de Agosto de Jnio da Silva Quadros. A
bordo do avio da FAB que o levava a So Paulo, o 
ex-presidente surpreendera-se com o Parlamento, que acolhera a
renncia ("congresso canalha"), com seus eleitores, que 
no lhe pediam que voltasse atrs ("no vejo o povo nas ruas"), e com
os militares ("me decepcionaram").'10 Levara 
consigo a faixa presidencial. Desembarcou transtornado na base area
de Cumbica." Quando sua mulher lhe disse que 
Mazzilli j estava empossado, informou ao governador de So Paulo:
"No tem importncia, governador. No fim de 
semana estar tudo resolvido".'12 
Egocntrico e megalomanaco, Jnio concebera um golpe primitivo,
desconexo, em que no havia lugar para cmplices, s 
para sditos. A desarticulao que deveria ter sido a tessitura do
manto real, foi-lhe mortalha. Dias depois o ex-presidente 
embarcou no cargueiro Uruguay Star com destino  Europa. Enquanto o
navio costeava o litoral fluminence 
#9 Dirio do Congresso Nacional, ano xvi, n2 140, de 26 de agosto de
1961, p. 1818. Em Hlio Silva, 1964- Golpe ou 
contragolpe?, pp. 45-6. Ver tambm Vivaldo Barbosa, A rebelio da
legalidade, p. 
28. Para uma reconstituio do incio da crise de 1961, "30 anos de
agonia  espera do povo", Dora Kramer, em Jornal do 
Brasil de 25 de agosto de 1991, 12 caderno, p. 4. Nessa reportagem o
advogado Saulo Ramos conta que Jnio, ao receber o 
resultado de uma consulta ao professor Vicente Ro, dando-se conta da
irreversibilidade da renncia, observou: 
"Entregamos o fil na boca do buldogue' Ver tambm "Renncia de Jnio,
40 anos", de Saulo Ramos, Folha de S.Paulo, 24 
de agosto de 2001. 
10 Aspsia Camargo e Outros, Artes da poltica - Dilogo com Amaral
Peixoto, p. 444. Para a referncia 
aos militares, carta de Jnio Quadros a Heitor Ferreira, de 6 de
agosto de 1963. APGCS/I-IF. Ver tambm Roberto de Abreu Sodr, No 
espelho do tempo, pp. 107- 16. 
11 Drault Ernanny, Meninos, eu vi... e agora posso contar, p. 54. 
12 Arnaldo Lacombe, "Horta foi pea-chave na renncia de Jnio", em O
Estado de S. Paulo de 25 de agosto de 1996. 
UM GENERAL DA (I)LEGALIDADE 75#
 Jnio vagava insone pelo convs assegurando  filha Dirce Maria, a Tu
tu: "Eles viro me buscar" J 
ao largo da costa africana, perto do arquiplago de Las Palmas,
insistia: "Eles viro me buscar de avio '13 
Faltava resolver o problema de Joo Goulart. Pensava-se em obter seu
impedimento, para depois conversar 
sobre o resto. Os ministros militares fizeram saber a Mazzilli e a
diversos parlamentares que no admitiam sua 
posse. Com dez horas de fuso de diferena, o vice-presidente tomara
conhecimento da renncia na volta de um 
jantar com pratos tpicos malaios. Do hotel Raffles, o melhor de
Cingapura, Jango comeou uma longa viagem. 
Levaria seis dias para descer em Montevidu. Passaria antes por Paris,
Nova York e Buenos Aires. 
O Partido Comunista atirara seus militantes s ruas com uma poderosa
palavra de ordem: Legalidade. 
Controlando uma nova coligao de lideranas sindicais, paralisara os
ferrovirios da Leopoldina, no Rio de 
Janeiro, e quase todos os bancos. Era a infncia da maior greve j
vista no pas. A Cinelndia, no Rio de 
Janeiro, tornou-se campo de combate entre os partidrios de Jango e a
polcia do governador Carlos Lacerda. 
Pouco antes da meia-noite o governador gacho Leonel Brizola, cunhado
de Goulart, pronunciou a palavra que 
demarcaria a crise e haveria de coloc-lo na histria do pas:
"Legalidade' 
O golpe encruara. Desde a primeira hora, ainda na manh do dia 25,
faltou aos ministros militares a deciso de 
lanarem-se num golpe de mo. Denys emitiu seu veto mais de uma dezena
de vezes, sempre se valendo de 
intermedirios. Vetava Jango, mas queria que as vivandeiras dobrassem
os sinos do golpe. A hierarquia 
estimulava o golpismo buscando um coro que lhe permitisse entrar em
cena a pedido das bases militares, do 
Congresso, do povo ou de quem quer que fosse, desde que no futuro se
pudesse dizer que os generais foram 
agentes passivos de uma convocao nacional. No seu momento de maior
audcia, os trs ministros militares 
manifestaram-se por intermdio de Mazzilli. Trs dias depois
#13 Dora Kramer, "30 anos de agonia  espera do povo' em Jornal do
Brasil de 25 de agosto de 
1991, 12 caderno, p. 4. Para uma avaliao de Jnio, feita trinta anos
depois ao seu neto, ver Paulo Markun e 
Duda Hamilton, 1961 - Que as armas no falem, pp. 135-6. 
76 A DITADURA DERROTADA#
da renncia, na segunda-feira, ele oficiou ao Congresso que a trinca
apontara "a absoluta inconvenincia, 
por motivos de segurana nacional, do regresso do presidente da
Repblica Joo Belchior Marques Goulart '14 
Com a ida de Denys para o Rio, Geisel tornara-se a maior patente de
Braslia. O presidente interino era seu 
virtual prisioneiro e sabia disso. Indicando a extenso de seu
gabinete, Mazzilli dizia: "Sei que sou presidente 
aqui dentro deste retngulo, mas passada aquela porta, no sei se
mando"'15 No mandava. Geisel dormia no 
palcio, numa cama de campanha. Como em outubro de 1945, resfriou-se,
ficou rouco. Comandava uma equipe 
de oficiais no Planalto e outra no Rio de Janeiro. Trabalhavam duro, e
a equipe carioca chegou a receber um 
conselho tnico: 
"O general determinou-me recomendar-lhe tomar diariamente injees de
glucose na veia, a fim de que se 
possa evitar a exausto. Em Braslia todos os oficiais do gabinete
esto 'dopados"'16 
Alm das tropas de Braslia e dos oficiais do Gabinete Militar, o
general operava duas equipes de escuta 
telefnica. Uma funcionava no Rio, captando as conversas que passavam
pelos cabos internacionais da 
Radional. Nessa rede caam todos os telefonemas de Goulart. Outra
trabalhava no prprio palcio do Planalto, 
liderada pelo capito-de-mar-e-guerra Floriano Faria Lima e formada
por oficiais do Gabinete Militar que 
escutavam as conversas com fones de ouvido.'17 
Durante os dois primeiros dias da crise o ministro Denys agiu com uma
violncia poltica raramente vista. O 
general Lott, seu chefe e camarada no golpe de 1955, telefonou-lhe
pedindo que acatasse a Constituio. Nada 
feito. Desobrigado, na noite do dia 26, um sbado, o ex-ministro
divulgou um manifesto conclamando o povo a 
"tomar posio decisiva 
#14 Paulo Markun e Duda Hamilton, 1961 - Que as armas no falem, p.
259. 
15 Aspsia Camargo e outros, Artes da poltica - Dilogo com Amaral
Peixoto, p. 446. 
16 Nota em papel da secretaria geral do Conselho de Segurana
Nacional, sem data, com assinatura 
indecifrada. APGCS/HF. Ernesto Geisel, julho de 1988. 
17 Almirante Floriano Faria Lima, setembro de 1986. Faria Lima guardou
consigo as notas dessas 
interceptaes. Geisel confirmou a existncia da operao em julho de
1993. Conserva-se uma 
transcrio sucinta de uma conversa telefnica entre Jango e Juscelino
Kubitschek. APGCS/HF. 
UM GENERAL DA (I)LEGALIDADE 77#
e enrgica no respeito  Constituio" s sete da manh de domingo o
marechal Henrique Lott saa preso de 
seu apartamento de Copacabana. Prender Lott era uma demonstrao de
fora, mas remet-lo  fortaleza da
Lage, casamata de concreto que parece flutuar no meio da barra da
Guanabara, comandada por um major, fora 
truculncia. Maior mesmo que a de Floriano Peixoto em 1892, quando
trancafiou na mesma fortaleza o poeta 
Olavo Bilac. A polcia carioca prendeu os esquerdistas habituais,
invadiu a Unio Nacional dos Estudantes e 
ocupou o centro da cidade. A imprensa foi posta sob censura. 
Tantas providncias, que em outros golpes nem sequer foram
necessrias, mostraram-se insuficientes. Joo 
Goulart parecera uma vtima mixuruca a generais que tinham deposto
Getulio Vargas, mas os obstculos de 
1961 eram diversos e maiores que os de 54. O comportamento de Jnio
desmoralizara a direita, e a falta de um 
usurpador desarticulava os golpistas. Havia manifestaes e choques
com a polcia no Rio de Janeiro e em So 
Paulo. Em Porto Alegre, Brizola barricara o palcio Piratini, em cujo
poro acabava de se montar uma emissora 
de rdio. Foi ao ar pela primeira vez no incio da tarde de domingo.
Sobre essa base seria formada a Rede da 
Legalidade, que chegaria a juntar mais de duzentas emissoras. Atravs
dela, Brizola anunciara: 
"Resistiremos' '18 
s 9h45 do dia 28 (segunda-feira) o general Jos Machado Lopes,
comandante do iii Exrcito, com jurisdio 
sobre o Rio Grande do Sul, foi chamado  estao de rdio do comando,
para uma comunicao urgente. Do 
outro lado da linha transmitia-se uma ordem do general Orlando Geisel,
falando por Denys: "Faa convergir 
sobre Porto Alegre toda a tropa do Rio Grande do Sul que julgar
conveniente, inclusive a 5 Diviso de 
Infantaria, se necessrio. Empregue a Aeronutica, realizando
inclusive bombardeio, se necessrio' '19 
#18 Amir Labaki, 1961 - A crise da renncia e a soluo
parlamentarista, p. 82, e Vivaldo Barbosa, 
A rebelio da legalidade, p. 79. 
19 Jos Machado Lopes, 0111 Exrcito na crise da renncia de Jnio
Quadros, p. 129. 
78 A DITADURA DERROTADA#
Era a segunda vez que Orlando Geisel transmitia essa ordem.20 Machado
Lopes afastou-se, ficou s, perto de 
uma janela.21 Tinha 61 anos e, num Exrcito de biografias de
revoltosos ilustres, era um oficial que jamais se 
rebelara. Quando as sedies passaram por ele, em 1922, 24 e 35,
combateu-as. Anticomunista e autoritrio, 
mantinha-se longe de Brizola porque achava que ele queria a
"cubanizao do Brasil"22 Nunca fizera um 
pronunciamento pblico. Vacilava desde o incio da crise e sabia que
parte de sua tropa pendera para a 
Legalidade. Se a quartelada acabasse em briga, ela comearia em Porto
Alegre. Machado Lopes voltou ao 
equipamento de radiofonia e avisou que no cumpriria a ordem.
Destitudo do comando, repetiu sua posio 
num telegrama a Denys: "Terceiro Exrcito, perfeitamente coeso, no
mais acatar ordens V. Exa'.23 
O golpe estava tecnicamente destrudo. Outro projeto de bombardeio de
Porto Alegre falhara porque os 
sargentos do 12 Esquadro de Combate esvaziaram os pneus dos dezesseis
avies F-8, j municiados, 
impedindo que decolassem.24 A simples referncia, por Orlando Geisel,
 possibilidade de uso da tropa da 5 
Diviso de Infantaria, com sede em Curitiba, indicava que o Ministrio
da Guerra sabia ter perdido a garantia da 
3 Diviso, baseada em Santa Maria e comandada pelo general Pery
Bevilaqua. Fora-se tambm a 1 Diviso de 
Cavalaria, sob as ordens do general Oro- mar Osorio. Mesmo assim, o
marechal Denys e os generais Orlando e 
Ernesto Geisel demoraram para tirar a roupa de campanha. O ministro
nomeou o general Cordeiro de Farias para 
o lugar de Machado Lopes, mas o veterano conspirador nunca chegou a
Porto Alegre. O chefe do Gabinete 
Militar queria instalar Cordeiro em Curitiba. Para isso seria
necessrio tomar o aeroporto da cidade, controlado 
por tropas fiis a Macha
#20 A primeira vez essa ordem foi transmitida por Orlando Geisel ao
chefe do Estado-
Maior do 
iii Exrcito, general Antonio Carlos Muricy. Depoimento de Muricyao
CPDOC, vol. 2, fita 28, p. 16. 
O bombardeio de Porto Alegre seria, como se explicou depois, um ataque
ao palcio Piratini, para 
calar a Rede da Legalidade. 
21 Hlio Silva, 1964 - Golpe ou contra golpe?, p. 138, e depoimento do
general Antonio Carlos 
Muricy ao CPDOC, vol. 2, fita 29, p. 8. 
22 Amir Labaki, 1961 - A crise da renncia e a soluo
parlamentarista, p. 90. 
23 Jos Machado Lopes, 0111 Exrcito na crise da renncia de Jnio
Quadros, p. 132. 
24 Depoimento do ento tenente Oswaldo Frana Jr., em Geneton Moraes
Neto, Dossi Brasil, 
pp. 87-92. 
UM GENERAL DA (I)LEGALIDADE 79 #
do Lopes. Fizera isso com o de Goinia mobilizando apenas um major e
achava possvel descer em Curitiba com 
uma unidade de pra-quedistas.25 (Estava certo. No aeroporto havia
somente alguns soldados.) Passados 24 
anos, ele recapitulava a manobra: "Tomado o aeroporto, desceria o 32
Regimento de Infantaria, trazido do Rio 
de Janeiro, e controlaria a situao. Acho que se isso fosse feito, o
resultado teria sido outro" Denys recusou 
a proposta, argumentando que considerava a tropa aeroterrestre sua
fora de reserva e, portanto, no queria 
empreg-la. Geisel via o problema de maneira diferente: a tropa de
reserva fica na reserva at a hora em que se 
precisa dela, e ela era necessria para tomar o aeroporto de Curitiba.
Ademais, uma unidade aerotransportada  
sempre tropa facilmente recupervel, pois pode retornar ao quartel
depois da chegada dos reforos.26 
O Rio Grande do Sul estava insurreto, com aulas suspensas, bancos
fechados, gasolina racionada e at mesmo 
um Grmio x Internacional, o famoso Gre-Nal, adiado. A essa altura, a
cautela de Denys j lhe custara o apoio 
da guarnio do Rio de Janeiro. Como observou em suas memrias o
general Nelson Werneck Sodr, "agora, 
para impor-se, o golpismo precisava combater"27 Nas palavras de
Geisel, "estava criado o impasse, com a 
diviso do Exrcito e com o pouco apetite, vamos dizer, dos generais,
dos chefes, de irem para a luta"28 
O primeiro sinal de fumaa da conciliao chegara a Jango na manh do
dia 28, antes da definio de Machado 
Lopes. Ele estava em sua sute do hotel George v, em Paris, quando
atendeu um telefonema de Affonso 
Arinos. O ex-ministro das Relaes Exteriores aventara um compromisso,
pelo qual Jango receberia a 
Presidncia num novo regime, 
#25 O aeroporto de Goinia foi tomado pelo major Tasso Viliar de
Aquino. Trabalhava no Servio de Proteo 
aos Indios e apresentou-se a Geisel pedindo uma misso. O general
mandou-o tomar o aeroporto e perguntou-
lhe: "Do que o senhor precisa?". O major respondeu: "De um automvel
para ir a Goinia' Horas depois 
telefonou informando que o aeroporto estava s ordens. Geisel contou
essa histria ao autor mais de uma 
dezena de vezes. Era sua vinheta predileta para exemplificar um caso
de valor militar, O episdio est referido 
em Ernesto Geisel, organizado por Maria Celina d'Araujo e Celso
Castro, p. 138. 
26 Ernesto Geisel, outubro de 1985 e de 1994. 
27 Nelson Werneck Sodr, Do Estado Novo  ditadura militar, p. 248. 
28 Ernesto Geisel, novembro de 1994. 
80 A DITADURA DERROTADA#
parlamentarista. Goulart repassara a mensagem ao deputado Almino
Affonso com um toque de astcia: "Tu v 
l, Almino, a gente conversa. Mas no corta isso por inteiro"29 
Trs dias depois o deputado Tancredo Neves foi ao encontro de Jango,
que j se achava em Montevidu. 
Seguiu no Viscount presidencial, requisitado por Geisel. Nessa ocasio
Geisel e Tancredo tiveram pelo menos 
uma longa conversa, O general, mesmo admitindo a importncia desse
entendimento, nunca revelou o que 
conversaram. Tancredo tambm no. O deputado encaminhava a Jango os
detalhes da frmula por meio da 
qual seria empossado na Presidncia aps a aprovao de uma reforma
constitucional que instalaria no Brasil o 
regime parlamentarista. Na noite de 12 de setembro Joo Goulart
desembarcou em Porto Alegre evitando 
multides e, sobretudo, a postura de vencedor. 
Primeiro faltou a Denys a coragem de divulgar logo na primeira hora o
veto explcito a Jango. Depois, faltou ao 
golpe o elemento essencial para o sucesso: um propsito ativo. Impedir
a posse do vice-presidente? Para botar 
quem no lugar? Tentava-se usurpar um mandato presidencial sem mostrar
a identidade do usurpador. Os 
ministros militares ganharam o apelido de Os Trs Patetas.30
Durante os catorze dias de durao da crise ningum se apresentou
publicamente como candidato  
usurpao. Geisel at acreditara na possibilidade de se eleger um novo
presidente atravs do Congresso, mas a 
manobra no prosperou, nem sequer produziu postulantes ostensivos. Nas
memrias que publicou em 1980, 
Denys gastou cinco pginas narrando a crise e seis justificando-se.
Nada falou da usurpao. Nove anos 
depois, seu amigo Armando Falco contou que os ministros da Marinha e
da Aeronutica propuseram ao 
marechal que assumisse a Presidncia. Denys teria recusado, sugerindo
o nome do jurista Francisco Campos, 
redator da Constituio de 1937, um dos liberticidas mais cultos e
detestados do pas.31 Buscando precedentes 
histricos que amparassem a
#29 Entrevista de Almino Affonso a Paulo Markun, em Markun e Duda 
Hamilton, 1961 - Que as 
armas no falem, pp. 254-5. 
30 Ernesto Geisel, outubro de 1994. 
31 Armando Falco, Tudo a declarar, p. 214. 
UM GENERAL DA (I)LEGALIDADE 81#
usurpao, chegou-se a procurar o texto da proclamao que instalou o
governo provisrio do marechal Deodoro 
da Fonseca, em 1889. O general Ernesto Geisel suspeitava que o
ministro da Guerra quisesse empalmar o poder, 
e inclusive discutiu claramente essa hiptese com Orlando ainda na
manh do dia 25. Os dois irmos entraram 
na crise de 1961 com o propsito de ir  luta armada para impedir a
posse de Joo Goulart. Mesmo assim, 
entendiam, desde a primeira hora da crise, que Denys na Presidncia da
Repblica representaria uma 
inconveniente anormalidade.32 
Tendo prevalecido o acordo parlamentarista, coube ao comandante
militar do Planalto presidir o funeral do 
golpe. Geisel articulara-se com Mazzilli na busca do novo desfecho, s
vezes aos gritos. Providenciara o avio 
de Tancredo e, na volta, dele recebera a informao de que Goulart
aceitava o compromisso. Nove em cada dez 
cariocas ouvidos pelo Instituto Brasileiro de Opinio Pblica e
Estatstica, o IBOPE, defendiam a posse do 
vice-presidente.33 
Na madrugada de 4 de setembro, estava tudo pronto para que o novo
presidente desembarcasse em Braslia 
na tarde seguinte. Geisel desmantelara uma articulao sediciosa de
oficiais da FAB. Segundo o brigadeiro 
Grun Moss, ministro da Aeronutica, havia um compl - denominado
Operao Mosquito - para derrubar o 
avio que transportasse Jango a Braslia. Se no o derrubassem, pelo
menos o capturariam. Noutra 
conspirao, mais modesta, a pista de pouso de Braslia seria
barricada com tonis de combustvel. Geisel 
neutralizou as bases da FAB, alguns oficiais e sargentos foram presos,
as pistas, cercadas, e fecharam-se as 
estradas de acesso a Braslia.34 
Numa das muitas contores que a poltica impe  vida de quem nela se
mete, o major que em 1945 levara os 
tanques para tirar Getulio Vargas do palcio Guanabara, mobilizava a
tropa para levar seu herdeiro, Joo 
Goulart, ao palcio do Planalto. Geisel teve dois comportamentos
#32 Ernesto Geisel, dezembro de 1993 e outubro de 
1985. 
33 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps-1930, coord. de
Alzira Alves de Abreu e outros, vol. 
5, p. 5015. 
34 Hlio Silva, O poder militar, p. 303, e Amir Labaki, 1961 - A crise
da renncia e a soluo parlamentarista, p. 126. 
Para a priso de oficiais e sargentos, Ernesto Geisel, novembro de
1994. 
82 A DITADURA DERROTADA#
na crise de 1961. No primeiro, que se estendeu da manh de sexta-
feira, 25 de agosto, at a tera, 29, 
batalhou pelo golpe na condio de interventor militar junto ao
gabinete do presidente Mazzilli. A proposta de 
assalto ao aeroporto de Curitiba indica que ele estava disposto a
abrir fogo contra as tropas de Machado 
Lopes, assim como seu irmo Orlando estava disposto a arrasar o
palcio Piratini para calar a Rede da 
Legalidade. No estavam para brincadeira. A partir do dia 29, quando
Denys comeou a negociar a conciliao 
parlamentarista, Geisel batalha pela posse de Jango e acaba com a
Operao Mosquito. No estava para 
brincadeira. Suas posies foram perfeitamente antagnicas. 
A derrota do golpismo foi tamanha que, com o tempo, ningum se disps
a segurar o caixo da crise de 1961. 
Passados dezenove anos, o general Denys varreu para debaixo do tapete
de suas memrias a idia da 
"absoluta inconvenincia" do retorno de Jango, em que estava implcita
a permanncia dele no exterior, como 
exilado. Revelou que nos dois primeiros dias da crise sua posio foi
"desaconselhar" a posse, pois "seria 
melhor que ele desistisse".35 O general Cordeiro de Farias, pea-chave
(e falha) na estratgia de Denys para 
neutralizar as tropas gachas, confessou-se "a favor da posse de
Jango".36 Carlos Lacerda, o governador da 
Guanabara cuja PM carregara contra as passeatas da Legalidade e cuja
"me- ganha" engarrafara a carceragem 
da Polcia Central, informou, dezesseis anos depois: "Minha deciso
era a favor da posse".37 
s 20h35 do dia 5 de setembro o Caraveile que trazia Joo Goulart
pousou no aeroporto de Braslia. A crise 
durara doze dias. Geisel era a mais alta patente militar  espera do
presidente. Entrou com Jango, Mazzilli e 
Auro no carro que os levaria ao Torto. Sentado ao lado do motorista,
ouviu o presidente reclamar do remendo 
parlamentarista. A certa altura, Goulart pediu a opinio do general:
"Senhor presidente, tenha certeza de que 
tivemos imensas dificuldades aqui em Braslia, para Vossa
#35 Odylio Denys, Ciclo revolucionrio brasiletro, pp. 
95 e 9L 
36 Aspsia Camargo e Walder de Ges, Meio sculo de combate - Dilogo
com Cordeiro de Farias, 
p. 532. 
37 Carlos Lacerda, Depoimento, p. 267. 
UM GENERAL DA (I)LEGALIDADE 83#
xcelncia assumir. E ns esperamos que Vossa Excelncia conduza o
governo de modo a que se pacifique a nao"38 
Quando Jango chegou  granja do Torto, Geisel despediu-se e voltou
para casa. Seus dias de comando em Braslia estavam 
contados. Regressaria ao edificio Parente. 
#38 Entrevista de Ranieri Mazzilli a Hlio Silva, em Silva, 1964 -
Golpe ou contragolpe?, p. 150. Em novembro de 1994, 
Geisel disse o seguinte em relao  lembrana de Mazzilli: " mais ou
menos isso' 
1964#
Dois anos e sete meses depois de ter deixado o presidente Joo Goulart
em casa, o general Geisel 
voltou  granja do Torto como inquilino.1 Era o chefe do Gabinete
Militar do presidente Castello 
Branco. Sobras da bagagem de Jango foram remetidas mais tarde ao
embaixador em Montevidu, 
para que as fizesse chegar ao dono. Ernesto Geisel estava no poder,
pronto a acertar suas contas 
com os "casacas" 
Nos primeiros meses o governo Joo Goulart deixara Geisel nos
corredores do Ministrio da Guerra, 
como "co leproso": "O pessoal me via e dobrava a esquina" O general
ocupava o tempo estudando 
a Bblia e ajudando a mulher na cozinha. Socorreu a filha, aluna do
exigente colgio de Aplicao, 
num trabalho sobre o romance A peste, de Albert Camus. 2 Talvez tenha
sido a sua nica incurso 
na literatura do sculo xx. Excluda a paixo juvenil por Jlio Verne,
os romances, como o futebol, 
nunca lhe deram prazer. 
Em janeiro de 1962 foi designado para a Artilharia Divisionria da 5
Diviso de Infantaria, em Curitiba. 
Comando de primeira classe. Fazia quase meio sculo que estava no
Exrcito, j fora secretrio de finanas e 
superintendente de refinaria, mas no conseguira passar dois anos
arregimentado num quartel. Parecia 
disposto a viver o remanso de uma posio 
#1 A deposio de Joo Goulart est contada em A ditadura envergonhada
(So Paulo: Companhia 
das Letras, 2002). 
2 Ernesto Geisel, novembro de 1994, e Amlia Lucy Geisel, julho de
1991. 
86 A DITADURA DERROTADA#
prestigiosa. Teria oito anos no servio ativo.3 Sobreviveria a Jango e
ao seu sucessor, cujo governo terminaria 
em 1970. No esperava por grandes batalhas. Ia pouco ao Ministrio da
Guerra. Sobreviveria atrapalhando. 
Geisel desceu em Curitiba com os cadernos. Num traava o seu plano de
trabalho e arrolava os oficiais sob seu 
comando. Noutro copiava aquilo que precisava saber sobre o Paran: "O
espcime de chifres longos, de uma 
raa que nunca se distinguiu pela produo de carne foi aqui, como em
So Paulo, o bandeirante do rebanho 
bovino"4 So minuciosos, porm banais. Noutro ainda, de 23 pginas,
anotava estudos polticos. Eles revelam 
o centro das atenes intelectuais do general. Nas anotaes de
natureza militar h algumas ressonncias da 
crise de 1961: 
A inrcia  sempre a culpada. (Napoleo) 
Sempre que a misso, o objetivo final, deixa de ser nitidamente
fixado, a manobra falha. 
Ou somos vitoriosos ou derrotados. No existe meio-termo na guerra. 
Em toda tomada do poder deve haver, em algum momento, a espada. Mas a
espada deve ser conduzida pela 
poltica. (Maquiavel) 
Vejo que existe um novo (...) e perigoso conceito de que os membros de
nossas foras armadas devem 
fidelidade principalmente aos que exercem temporariamente a autoridade
do ramo executivo do governo, e no 
ao pas e sua constituio, que juraram defender. Nenhum conceito
poderia ser mais perigoso. (General 
Douglas McArthur) 
Outras notas antecipam trovoadas futuras. Doze pginas relacionavam-se
com o comunismo. H breves 
citaes de Lenin ("O caminho para Londres e Paris passa por Pequim"),
mas a curiosidade do general ia para a 
"guerra revolucionria", a "guerra subversiva dos marxistas-leninistas
e sua aplicao pelos comunistas e seus 
imitadores' Lia autores franceses e
#3 Os generais-de-brigada iam para a reserva somente quando atingiam a
idade-limite de 62 anos. 
No caso de Geisel, isso ocorreria em agosto de 1970. 
4 Caderno intitulado Apontamentos sobre o Paran. APGCS/HF. 
1964 87#
americanos, e copiou em cinco pginas de caderno, em ingls, trechos
de uma "teoria vermelha da guerra' 
Guardava frases de autores como o primeiro- ministro ingls Clement
Attlee ("As eleies comunistas so 
corridas de um cavalo s") ou da panfletria francesa Suzanne Labin
("O fascismo  o castigo das democracias 
que se mostram, no excessivamente severas, mas, ao contrrio,
excessivamente complacentes com o 
comunismo").5 
A diviso militar aberta em 1961 criara manifestaes extremadas. A
retrica da esquerda chamou aos 
comandantes militares que lhe eram simpticos de "generais do povo" e
aos seus adversrios de "gorilas" 
Jango costurara o apoio militar para a convocao de um plebiscito que
inevitavelmente restabeleceria o 
presidencialismo. Com menos de um ano de governo, estava a caminho de
nomear o terceiro ministro da 
Guerra. No dia 12 de setembro de 1962, como se fora um pontap na
porta do regime, o general Jair Dantas 
Ribeiro, comandante do iii Exrcito, telegrafara a Jango avisando que
no se responsabilizaria pela "garantia 
da lei e da ordem, sossego pblico, e propriedade privada" se o
Congresso se recusasse a convocar o 
plebiscito e o povo se insurgisse contra essa deciso. Anunciara que
pusera sua tropa de prontido e 
advertira: "O povo  soberano no regime democrtico. Negar-lhe o
direito de pronunciar-se sobre o sistema de 
governo que lhe foi imposto,  abominar o regime ou querer
destru-lo"6 Jair disputava a simpatia do Planalto 
na corrida pelo ministrio. Os generais de Jango pressionavam o
Congresso com a desenvoltura dos golpistas 
de 1961. 
O general Jair ainda no terminara o expediente do dia quando chegou
ao seu gabinete, em Porto Alegre, um 
telegrama de Ernesto Geisel, comandante da Artilharia Divisionria,
que estava respondendo interinamente 
pela 5 Regio Militar: "Informo Vossa Excelncia que reina completa
calma no territrio desta Regio Militar. 
Providenciada ordem de prontido"7 
Geisel atrapalhara, mas foi exonerado. O Correio da Manh defendeu-o
com um editorial e uma nota 
intitulada "Perde comando porque 
#5 Mao de 23 folhas manuscritas de Geisel. APGCS/HF. 
6 Radiotelegrama 2394, Urgentssimo, do general Jair Dantas Ribeiro,
comandante do iii Exrcito 
ao comando da Artilharia Divisionria da 5 Diviso de Infantaria. 
7 Rdio 378-E2 do general Ernesto Geisel ao general Jair Dantas
Ribeiro, de 12 de setembro de 
1962. APGCS/HF. 
88 A DITADURA DERROTADA# 
negou o falso alarma"8 O incidente se encerrou com o retorno de Geisel
ao Rio de Janeiro. Ofereceram-lhe a 
subdiretoria da reserva ("canil" de terceira categoria), mas conseguiu
a 2 Subchefia do Departamento de 
Proviso Geral (de segunda). Seu irmo Orlando fora mandado para a
Escola Superior de Guerra (de primeira). 
De volta ao Rio, Geisel era um conspirador, talvez at um perfeito
exemplo do conspirador de 1964. Comandava 
um telefone e participava de pequenas reunies, quase sempre com as
mesmas pessoas. Planejavam derrubar 
Jango, sem saber como. De setembro de 1962 a janeiro de 64, sua
atividade clandestina foi intensa e irrelevante. 
Resumia-se a interminveis conversas no apartamento dele, em geral s
quintas-feiras, com os generais 
Cordeiro de Farias, Ademar de Queiroz e Antonio Carlos Muricy. No
tinham plano para o levante ou projeto 
para o novo governo. Nem sequer data para a rebelio.9 
O principal objetivo do ncleo conspirador de Cordeiro de Farias era
atrair o general Humberto Castelo Branco, 
chefe do Estado-Maior do Exrcito. Geisel j tivera pelo menos duas
oportunidades de servir com ele, mas 
preferira distncia. Achava-o "arestoso, cheio de complexos, cauteloso
demais" e incomodava-se com seu 
temperamento irnico.'10 Castello juntou- se aos conspiradores no
final de janeiro de 1964. No comeo de 
maro preparava-se a insurreio. Era um planejamento primitivo, quase
palpite. Dos planos de golpe urdidos 
no Rio sobraram poucos documentos e vagas reminiscncias. Supunha-se
que os combates pudessem durar 
48 horas, trinta dias ou seis meses. Geisel calculava que se o caso
no fosse resolvido em trs dias, duraria 
dois meses. Entre o primeiro disparo telefnico de Mouro na madrugada
de 31 de maro de 1964 e o 
telefonema do general Castello Branco a um deputado amigo, informando
que a fatura estava liquidada, no 
incio da tarde de 1 de abril, passaram-se 32 horas."11 
#8 Correio da Manh, datado a mo por Geisel como 23 de setembro de
1962. APGCS/HF. 
9 Ernesto Geisel, novembro de 1994. 
10 Dirio de Heitor Ferreira, 12 de novembro de 1965 e 14 de maro de
1967. 
11 Para o incio dos telefonemas, cinco horas de 31 de maro, Olympio
Mouro Filho, Memrias, 
p. 372. Para o telefonema da vitria, dado s treze horas de 12 de
abril, Luiz Viana Filho, O governo Castello Branco, p. 27. 
1964 89#
Terminada uma briga, comeava outra. Na partilha dos cargos coube a
Geisel o comando da Artilharia de 
Costa, um quartel de primeira, com vista para a praia de Copacabana e
fundos para o Arpoador, comando de 
quinta. Recusou-o. No dia 3 de abril seu irmo Orlando foi
sumariamente demitido da 1 Diviso de Infantaria, a 
Vila Militar, por ter-se negado a entregar o 12 Grupo de Obuses 105 a
um coronel enviado pelo gabinete de 
Costa e Silva. Esses dois incidentes, praticamente despercebidos
durante aqueles dias de festas e sofrimento, 
geraram um antagonismo que alm de separar os irmos Geisel de Costa e
Silva, influenciaria o comportamento 
de dezenas de oficiais e alimentaria vinditas ferozes que o tempo no
extinguiu, nem sequer a morte. Horas 
depois da demisso de Orlando, Ernesto teve um bate-boca com o coronel
Jayme Portella, o conspirador que 
atrara Costa e Silva para o levante e ajudara a catapult-lo 
cadeira de ministro. Passaram-se menos de duas 
semanas, e Geisel teve Portella, lotado no Conselho de Segurana
Nacional, como subordinado. Botou-o para 
fora.'12 
Joo Goulart fora o terceiro presidente que Geisel ajudara a depor.
Nomeado chefe do Gabinete Militar de 
Castello Branco, Geisel voltava ao gabinete presidencial, onde
estivera em 1945, 54 e 61. Na sua cabea, porm, 
havia uma novidade: "Em 64 veio a idia de no se devolver tudo de
novo aos 'casacas', e eu era partidrio 
dela '13 
Nessa percepo Geisel separava-se de Castello. Se o marechal via a
interveno militar como um interldio, o 
chefe de seu Gabinete Militar defendia o aprofundamento da
interferncia, sobretudo quando ela permitia o 
afastamento dos polticos. 
Em 1965 a inquietao de alguns oficiais da Vila e a esperteza de
Costa e Silva produziram o AI-2, reabrindo o 
ciclo de punies e suspendendo as eleies diretas. Geisel desdenhava
o alcance da revolta, condenava a 
candidatura do ministro, mas defendia a essncia ditatorial do novo 
#12 Jayme Portella de Mello, A Revoluo e o governo Costa e Silva,
pp. 156-7 e 209. 
13 Ernesto Geisel, julho de 1985.
90 A DITADURA DERROTADA#
surto militarista. A idia de no devolver o poder aos "casacas" podia
parecer boa, mas provocava perguntas: 
entreg-lo a quem? aos militares? quais militares? 
At o dia 15 de maro de 1967, quando Costa e Silva entrou no Planalto
e Geisel o deixou, a opinio de Geisel 
sobre os "casacas" mudara pouco, mas ele aprendera como nunca a
respeito dos militares. Tivera um breve 
contato com o fisiologismo do gnero quando servira no gabinete de
Denys, no final do governo do "casaca" 
Kubitschek. Agora, numa presidncia militar e num regime de retrica
moralista, os casos que passavam pelo 
palcio eram os mesmos de sempre. Costa e Silva entregara a
presidncia do Instituto de Aposentadoria e 
Penses dos Comercirios, IAPC, a Carlos Eduardo (Carl) Marcondes
Ferraz, o amigo gr-fino que lhe 
emprestara o aparelho onde se escondera na noite de 31 de maro. O
chefe do Estado-Maior, Decio Palmeiro de 
Escobar, batalhava a nomeao de seu genro, um piloto da falecida
Panair do Brasil, para o Conselho Nacional 
de Telecomunicaes.'14 O general Amaury Kruel, comandante do ii
Exrcito, tinha emprstimos no Banco do 
Brasil.'15 Segundo a espionagem do Conselho de Segurana Nacional, o
general Justino Alves Bastos, do iii 
Exrcito, parara de trabalhar e se alistara no caf-soaite, onde
fazia negcios.'16 Logo ele, que vinha de 
anunciar que era um militante da "linha dura" na luta pelo "extermnio
da corrupo"17 Havia de tudo, at um 
coronel pedindo que se editasse um ato institucional para permitir a
sua promoo a general.'18 
A hostilidade aos "casacas" irradiou a retrica salvacionista entre os
militares. Havia nela uma esperteza: cada 
nvel da hierarquia supunha- se o estgio adequado para a concentrao
de poderes indispensvel  redeno 
nacional. Costa e Silva achara que o ministro da Guerra era, 
#14 Carta do general Decio Palmeiro de Escobar a Ernesto Geisel, de 30
de maio de 1966. APGCS/HF. 
15 Ernesto Geisel, agosto de 1988, e Rubens Resstel, setembro de 1988.
16 Informe n2 24 da secretaria geral do Conselho de Segurana
Nacional, de 4 de junho de 1965. 
APGCS/HF. 
17 Correio da Manh, 19 de maio de 1964, capa do 12 caderno. 
18 Carta do coronel Lauro Alves Pinto ao ministro Costa e Silva, de 8
de outubro de 1964. 
APGCS/HF. Pedia que o ato reduzisse  metade o tempo de arregimentao
exigido aos oficiais. 
O coronel chegou a general, sem que fosse necessrio um ato
institucional. 
1964 91#
na verdade, o comandante da Revoluo. Os generais-de-exrcito
julgavam-se senhores da 
convenincia da realizao de eleies. Os coronis apresentavam-se
como rbitros da posse de 
governadores eleitos. E tudo acabava em capites exigindo expurgos. Um
deles pedia a Geisel a 
cassao do governador do Piau e ameaava: "At quando poderei
esperar?".' 19 De uma maneira 
geral, a cada exerccio de poder, sempre  custa dos direitos alheios,
correspondia uma solicitao 
de pequenos benefcios burocrticos. 
O Alto-Comando do Exrcito reunia-se com uma agenda em que antes do
item "reforma 
constitucional" tratavam do "auxlio-moradia" Entre os palpites dos
quatro-estrelas estavam o veto  
reeleio "para qualquer cargo poltico" e a "obrigatoriedade da
administrao dos territrios ser 
dirigida por militares"2 O general Antonio Carlos Muricy queixava- se
em outubro de 1965 de que 
os polticos "so todos vinho da mesma pipa (no prestam)"21 Um ano
depois, amparado nas 
baionetas, candidatou-se ao governo de Pernambuco numa eleio
indireta onde julgava ter 
conseguido o apoio da pipa dos governistas. Foi derrotado.22 O adido
militar em Paris, coronel 
Antonio Carlos de Andrada Serpa, o Serpa Louro, atacava os "polticos
apodrecidos pela corrupo 
e subverso' o povo em sua "imaturidade e ignorncia", e pedia que no
se entregasse o poder " 
canalha que infelicita o pas h mais de trinta anos".23 Lamentava a
sobrevivncia de trs ministros 
do Supremo Tribunal Federal e 
 #19 Carta do capito Clidenor de Moura Lima ao general Ernesto
Geisel, de 21 de julho de 1966. 
APGCS/HF. 
20 Resumo da ata da 22 reunio do Alto-Comando do Exrcito, realizada
em 5 de outubro de 
1966. APGCS/HF. 
21 Carta do general Antonio Carlos Muricy, comandante da 75 Regio
Militar, sediada no Recife, 
ao general Ernesto Geisel, de 4 de outubro de 1965. APGCS/HF. 
22 Em agosto de 1988 o general Muricy disse: "Ca na besteira de
acreditar que teria o apoio dos 
polticos do governo" e classificou a sua candidatura de "episdio
infeliz' Segundo o deputado 
pernambucano Joaquim Coutinho, essa eleio teve o seu sigilo
fraudado. Os votos ao candidato vencedor, deputado e bacharel Nilo de
Souza Coelho, 
eram dados em cdulas onde, atravs da 
manipulao dos ttulos e dos sobrenomes do candidato, cada eleitor
estava individualizado. Por 
exemplo: um deputado devia votar em "Nilo Coelho", outro em "Nilo de
Souza Coelho", e um terceiro no "Bacharel Nilo Coelho" 
23 Carta do coronel Antonio Carlos de Andrada Serpa ao general Ernesto
Geisel, de 5 de outubro 
de 1965. APGCS/HF. 
92 A DITADURA DERROTADA#
sugeria a Geisel que se ampliasse a corte: "Nessa hora, peo ao senhor
no esquecer o nome do Prudente de 
Morais Neto [...}".24 Denunciava os polticos que iam a Paris
conversar com o ex-presidente Kubitschek e 
recomendava que obtivesse de seu primo Jos Bonifcio de Andrada a
lista dos deputados e senadores que 
haviam embarcado para a Europa. Zezinho, como era conhecido o primo,
estava na Cmara desde 1946, como 
deputado pela UDN mineira. 
Durante o ano de 1965 Geisel recebeu cinco cartas do general Joo
Costa, comandante da 6 Regio Militar, com 
jurisdio sobre a Bahia. Elas so uma amostra da prosopopia que
acompanhava a desmoralizao dos 
"casacas" 
A primeira, de maro, argumentava: 
A verdade, Geisel,  que independente do meu, do seu ou do desejo do
marechal Castello Branco, para os 
nossos comandados, para o povo em geral aqui no Nordeste, enquanto o
marechal Castello Branco for 
presidente da Repblica, a Revoluo  responsvel por tudo de bom ou
de mau, e o Exrcito seu fiador. Tudo 
corre para o quartel. At os problemas do governador, quando est em
dificuldades. A realidade  que a 
omisso ser a perda de comando, a entrega da situao aos polticos
que mais praticaram a corrupo. Essa  
a viso da plancie.25 
Na segunda, de agosto, informava que defendera o aumento do nmero de
cadeiras no Tribunal de Contas do 
Municpio de Salvador e encontrara resistncia no prefeito Antonio
Carlos Magalhes, que "entrou em um 
terreno de Revoluo e Foras Armadas, ameaando cus e terras":
"Chamei-o e disse-lhe do meu desagrado 
por ter pretendido interpretar, criticar ou orientar as Foras Armadas
'26 
Na terceira parecia alarmado: "Com a Revoluo ou sem ela os polticos
no se corrigem, apiam-na, aderem, 
toleram-na. [...) Essa Revoluo
#24 Carta do coronel Antonio Carlos de Andrada Serpa ao general
Ernesto Geisel, de 
1965. APGCS/HF. 
25 Carta do general Joo Costa ao general Ernesto Geisel, de 20 de
maro de 1965. APGCS/HF. 
26 Carta do general Joo Costa ao general Ernesto Geisel, de 16 de
agosto de 1965. APGCS/HF. 
1964 93#
extinguiu a subverso e a indisciplina geral, mas a corrupo parece
que aumentou. Examine bem o 
Congresso e os Estados. S ns militares, em tudo isso, permanecemos
como cristos nos festins romanos. 
Acreditando no que no vemos. 
Dias depois anunciava-se disposto a abrir uma crise, impedindo o 
cumprimento de um mandado que devolvia a um deputado sua cadeira 
na Assemblia Legislativa.28 
Tomado ao p da letra, o general Joo Costa soava como um cruzado da
ortodoxia e do rigor revolucionrios. 
Tomado pelo passado, Costa era um dos generais da confiana do
ministro Jair Dantas Ribeiro. Em 1964 
comandava o ncleo dos pra-quedistas, na Vila Militar, e aderira ao
levante no incio da tarde de 1 de abril. 
Tomado pelo presente, na plancie do general havia problemas bem mais
simples que os destinos nacionais. 
Em janeiro de 1966 ele voltou a escrever a Geisel. Pediu que o
designassem para a Junta Interamericana de 
Defesa, em Washington, "a fim de melhor poder atender financeiramente
a recuperao" de um familiar.29 
Ainda em Salvador, depois de anos de ms relaes com o prefeito
Antonio Carlos Magalhes, o general 
desentendeu-se com ele dentro do pequeno elevador do palcio da
Aclamao. Na presena do governador 
Lomanto Junior o prefeito deu-lhe um tapa que o deixou sem quepe.30 
Apesar de todas as dificuldades, com uma s canetada, em 1966, o
governo Castello Branco produziu a maior 
reforma da estrutura militar do pas: a rotatividade dos generais.
Castello liquidou aqueles que denominava os 
"generais chineses' numa referncia aos condestveis da
#27 Carta do general Joo Costa ao general 
Ernesto Geisel, de 2 de outubro de 1965. APGCS/HF. 
28 Telegrama do general Joo Costa ao gabinete do ministro da Guerra e
ofcio do general Clovis 
Bandeira Brasil, chefe-de-gabinete do ministro, ao general Ernesto
Geisel, remetendo-lhe a comunicao, de 5 de outubro de 1965. APGCS/HF. 
29 Carta do general Joo Costa ao general Ernesto Geisel, de 12 de
janeiro de 1966. APGCS/HF. 
30 Antonio Carlos Magalhes, 1972. O episdio ocorreu em setembro de
1965 e est narrado em 
Magalhes, Poltica  paixo, p. 61. 
94 A DITADURA DERROTADA#
anarquia militar que atazanou o pas depois da deposio do imperador
manchu, em 1912. Pelo sistema herdado ao 
reinado de d. Pedro ii, os generais iam para a reserva apenas quando
atingiam a idade-limite. O caso de 
Cordeiro de Farias era exemplar: promovido a general-de-brigada aos 41
anos, em 1964 completara 22 anos de 
generalato, e vestiria o pijama somente em 1967. Tinha quatro estrelas
desde 1952. 
A reforma de Castello criou um sistema pelo qual, alm do limite de
idade, os generais eram levados para a 
reserva por duas novas condies. A cada ano 25% do quadro devia se
renovar, e ningum podia ser general 
por mais de doze anos. Disso resultava que os generais tinham quatro
anos para passar de brigada a diviso, 
outros quatro para ir de diviso a exrcito, e tendo chegado ao topo,
l s permaneciam por mais quatro anos. 
Para ilustrar a extenso da reforma, observe-se que dos treze
generais-de-exrcito listados no Almanaque de 
1962, oito haviam chegado ao generalato fazia mais de doze anos. Um
(Cordeiro de Farias) tinha vinte anos de 
generalato e dez como quatro-estrelas.31' O efeito da mudana foi o
desaparecimento dos chamados "donos do 
Exrcito" e a reduo da rea de manobra das vivandeiras polticas. 
Salvo essa reforma (o que no  pouca coisa), os trs anos de Geisel
no Gabinete Militar foram amargos em 
termos profissionais. Tinha vrias idias, e a maior delas era a
criao do Ministrio da Defesa, mas sepultou-a 
logo que percebeu a extenso da hostilidade da Marinha.32 A menor era
a extino do posto de general de 
quatro estrelas, de forma a ampliar as opes do presidente na escolha
dos comandantes de exrcitos. 33 
Defendia a reduo do efetivo do Exrcito e condenava o esfarinhamento
das guarnies. Projetava a sua 
concentrao, em quatro ou cinco ncleos, nos moldes dos fortes
americanos. Nada a ver com as vilas 
militares existentes nas proximidades do Rio de Janeiro, de So Paulo
e de Porto Alegre: 
#31 Almanaque do pessoal militar do Exrcito, de 1962, pp. 20-2. 
32 Manuscrito do general Ernesto Geisel intitulado Reorganizao
Administrativa das Foras 
Armadas, sem data, talvez de janeiro de 1966. APGCS/HF. Para a
desistncia, diante da hostilidade 
da Marinha, Ernesto Geisel, dezembro de 1994. 
33 Dirio de Heitor Ferreiro, 4 de janeiro de 1966. 
1964 95#
Isso foi uma coisa feita no governo do marechal Hermes da Fonseca,
quando se comeou a relacionar o 
Exrcito com a segurana interna. Fizeram- se guarnies em Deodoro,
Quitana e So Leopoldo. Elas tm em 
comum o fato de estarem a vinte quilmetros do centro da cidade. Essa
 a distncia que uma tropa pode 
marchar num dia. Cinqenta anos depois essas tropas no andam mais a
p. De carro deslocam-se a cem 
quilmetros por hora. A situao  outra. Os quartis no eram nem so
necessrios.34 
Perdeu todas. Em 1966, haveria de se queixar: "Nisto eu acho que a 
Revoluo fracassou, no Exrcito '35 
Na Marinha no via um panorama melhor: "Temos que acabar [...] 
com esse negcio de insistncia em fuzileiros. A Marinha no quer mais
nada com o mar! Quer fuzileiros e aviao!".36 
Muito menos na Fora Area, da qual tentara extirpar a Diretoria de
Aeronutica Civil. Numa discusso com 
um brigadeiro, argumentara: "Ento o exrcito vai querer controlar as
ferrovias, legislar sobre as companhias de 
nibus. O problema  que a FAB acabou como fora militar" Geisel se
queixava do "pessoal que s pensa em 
transportar padres, freiras e sertanistas".37 
Perdeu todas. O Corpo de Fuzileiros Navais continuou do mesmo 
tamanho, e a DAC continuou na FAB. 
A mais amarga das derrotas de Geisel foi poltica: Costa e Silva, o
general que desprezava, emparedou Castello 
e converteu-se em seu sucessor. A campanha do Alemo contra o
Portugus comeara antes mesmo da 
chegada de Jango a Montevidu, e resultou numa sucesso de fracassos.
Costa e Silva tornara-se invencvel 
pela audcia, quase sempre associada  indisciplina mas, em todos os
casos, produto da coragem. J nos 
#34 Ernesto Geisel, dezembro de 1994. 
35 Dirio de Heitor Ferreira, 3 de maio de 1966. Ernesto Geisel,
dezembro de 1994. 
36 Dirio de Heitor Ferreira, 7 de maio de 1965. 
37 Idem, 8 de fevereiro de 1967. 
96 A DITADURA DERROTADA#
primeiros dias de abril Geisel retratava-o: "Um usurpador. No fez
nada, e mais que depressa auto-investiu-se 
no cargo de Ministro"38 
Disparou o primeiro tiro contra Costa e Silva ainda antes da posse de
Castello. No dia 14 de abril de 1964 Geisel 
procurou o presidente Ranieri Mazzilli, a mesma figura decorativa que
enfeitara o Planalto durante a crise de 61, 
e pediu-lhe, em nome de Castello, que solicitasse, e aceitasse, a
demisso de todos os ministros. 
- Inclusive os ministros militares? - perguntou Mazzilli. 
- Sim - respondeu Geisel.39 
Manobra banal: Mazzilli exoneraria Costa e Silva, e Castello nomearia
outro ministro, oferecendo ao 
Portugus a embaixada do Brasil em Buenos Aires.40 S funcionaria se
Mazzilli tivesse coragem para amarrar 
o guizo no pescoo de Costa e Silva. O simples fato de a proposta vir
de Geisel mostrava ao astuto deputado 
paulista que Castello no explicitava semelhante audcia. Mazzilli no
demitiu ningum, e Castello, empossado, 
manteve o ministro da Guerra no cargo. 
Um ano depois, na tarde de 18 de maro de 1965, numa conversa com
Golbery, Geisel queixava-se do estilo 
poltico de Castello: "Eu ontem estava brabo, e hoje estou tambm. Que
 que adianta ele passar dois anos 
consertando tudo se no tem soluo poltica?" 
Em seguida, arriscou: 
-Vamos terminar com um Costa e Silva. [...] Tem possibilidades. 
- Ah, tem sim - respondeu Golbery. -  uma soluo de borra, mas  uma
soluo.41 
#38 Carlos Luiz Guedes, Tinha que ser Minas, p. 259. 
39 Armando Falco, Tudo a declarar, p. 262. 
40 Para o oferecimento da embaixada, Ernesto Geisel, dezembro de 1994.
41 Dirio de Heitor Ferreira, 18 de maro de 1965. 
1964 97#
Geisel tentou tirar Costa e Silva do Ministrio da Guerra em pelo
menos trs outras ocasies. Numa, em 
outubro de 1965, estarrecido com o discurso insolente do ministro e
com a conduta indisciplinada da 
oficialidade durante as manobras de Itapeva, em So Paulo. Foi ao
compartimento de Castello no Viscount que 
os levava de volta a Braslia e lhe disse que devia demitir o general.
Castello ouviu-o calado.42 
No dia 6 de janeiro de 1966, no aeroporto do Galeo, a caminho do
avio que o levaria  Europa, Costa e Silva 
disse a frase em torno da qual giraria o noticirio poltico das
semanas seguintes: "Saio ministro e volto 
ministro" Parecia uma resposta insolente aos boatos de que Castello o
demitiria enquanto ele estivesse 
viajando. Na verdade, foi uma resposta educada a uma pergunta
provocadora: "O senhor vai ministro e volta 
presidente?' 43 Prevaleceu o mito da insolncia. Geisel, pelo menos,
pensava em aproveitar a viagem para 
degol-lo: "Eu no o exonerava na Europa, mas no dia em que chegasse
eu o chamava e olha, se voc quer ser 
candidato [...] ento tem que sair hoje"44 At tratou do assunto numa
de suas reunies com os trs 
ministros militares, argumentando que a sada de Costa e Silva era "a
nica soluo moral", mas bateu na 
resistncia do ministro interino do Exrcito e na ambigidade do
brigadeiro Eduardo Gomes.45 
A terceira tentativa pretendia criar uma situao em que todos os
ministros que fossem candidatos a governos 
estaduais se demitissem. Como Costa e Silva tambm era candidato,
deveria pedir dispensa, e Castello se 
livraria dele. A manobra falhou porque os outros ministros no
aceitaram correr o risco. 
Cinco anos antes, como chefe da seo de informaes do gabinete do
ministro Denys, o coronel Geisel fora 
um fiscal severo do envolvimento
#42 Para o silncio de Castelo, Ernesto Geisel, julho de 1985. 
43 Waldomiro Guarnieri, janeiro de 1966. Guarnieri, um veterano
reprter do aeroporto, informou que foi o autor 
da pergunta. Ele tinha uma agncia de notcias que cobria embarques e
desembarques de gente famosa. Era um 
hbil manipulador da ansiedade dos viajantes. Em suas 
memrias, Juracy Magalhes conta o mesmo episdio, atribuindo a
pergunta ao reprter Paulo 
Cesar Ferreira, da rv Rio. Em Magalhes e J. A. Gueiros, O ltimo
tenente, p. 338. Paulo Cesar Ferreira 
conta o episdio em Pilares via satlite - Da rdio Nacional  Rede
Globo, p. 132. 
44 Dirio de Heitor Ferreira, 10 de janeiro de 1966. 
45 Idem, 30 de janeiro de 1966. 
98 A DITADURA DERROTADA#
de oficiais na campanha do general Lott. Um simples telegrama de um
coronel a um sargento, 
comunicando atravs do sistema de rdio da 2 Regio Militar a chegada
da filha de Lott  Paraba, acabou num 
inqurito que envolveu trs generais.46 No tempo dos "casacas" Lott
fora muito mais escrupuloso e 
disciplinado que Costa e Silva. A presena de oficiais do Exrcito nos
corredores do Congresso cabalando 
apoios para o ministro resultou numa reclamao de Castello a Costa e
Silva, e apesar de o presidente ter 
listado os nomes de cinco tenentescoronis, um major e um capito, a
quem chamava de "grupinho de militares 
bestinhas", o episdio foi digerido sem nenhum procedimento
disciplinar.47 
Os argumentos do chefe do Gabinete Militar contra o candidato eram
todos profissionais: "O mal  o ministro 
da Guerra querer ser presidente. Ele passa a agir dentro do ministrio
em funo da sua candidatura", ou "O 
exrcito no pode ser partido poltico, comigo ele ficava ao sol e ao
sereno '48 Chamado de "alma danada" no 
gabinete de Costa e Silva, Geisel transformou-se num provocador.
Encontrava-se com os colegas que haviam 
aderido ao candidato e mandava recados: "Olha, Muricy, quando falarem
a voc que o gabinete militar, isso e 
aquilo, diga que alm de servir ao presidente ele  contra a
politizao do exrcito, contra o carreirismo, contra 
a formao de falsos lderes"49 Derrotado, teve pena de Castello: "O
outro vai mijar em cima dele".50 
Costa e Silva ainda estava na Europa quando Geisel e Golbery
concluram que deveriam deixar o governo se 
Castello decidisse apoi-lo. Na manh de 17 de fevereiro de 1966 o
ministro da Guerra desembarcou no 
aeroporto do Rio de Janeiro. Surpreendeu-se ao ver Geisel na pista.
"U, 
#46 Ofcio do general Orlando Geisel, chefe-de-gabinete do ministro
Odylio Denys, de 18 de abril 
de 1960, mandando apurar a transmisso do telegrama. APGCS/HF. 
47 Duas folhas com memorando de Castello a Costa e Silva, de 9 de
fevereiro de 1966. APGCS/HF. 
O episdio est narrado tambm em Jayme Portella de Mello, A Revoluo
e o governo Costa e Silva, 
p. 328. Castello referiu-se ao "grupinho de militares bestinhas" numa
conversa com o deputado 
Armando Falco. Falco, Tudo a declarar, p. 302. 
48 Dirio de Heitor Ferreira, 3 e 31 de dezembro de 1965. 
49 Idem, 13 de maro de 1966. 
50 Idem, 12 de abril de 1966. 
1964 99# 
tu tambm por aqui, Ernesto?' perguntou-lhe.51 O chefe do Gabinete
Militar respondeu que estava 
representando Castello. De volta a Braslia, recebeu dois relatrios
da cena que presenciara. Um 
mencionava que eram seiscentos os oficiais reunidos no aeroporto.
"Cerca de 40 a 60 generais, 200 
oficiais superiores, 100 subalternos, mil pessoas' anotou Geisel. 
O segundo relatrio terminava com o item "Faixas Apresentadas" Uma
delas dizia: "Linha dura  a 
linha certa" 
O general lembrava-se de outra: "Manda brasa, Seu Artur".52 
Um ano depois, quando faltava menos de um ms para a posse de Costa e
Silva, Geisel deixaria o 
seu lamento: "Este governo, que  o governo mais forte que j houve,
entregou tudo. Eu j vi cinco 
se perderem, 1930, 1945, 1954, 1961 e este".53 
#51 Nota do chefe do SNI a Geisel, de 17 de fevereiro de 1966, com um
recorte de jornal onde est 
transcrita a observao de Costa e Silva. APGCS/HF 
52 Trs folhas de bloco do Gabinete Militar anotadas por Geisel.
APGCS/HF. 
53 Dirio de Heitor Ferreira, 23 de fevereiro de 1967. 
O pijama togado#
Decidido a pedir transferncia para a reserva depois da vitria de
Costa e Silva, Geisel mudou de 
idia diante da possibilidade de ser promovido a general-de-exrcito.1
Foi mandado para o Superior 
Tribunal Militar. Na rotina dos assentamentos, era o fim da linha. No
dia 3 de agosto de 1978 
completaria setenta anos e deixaria o tribunal.2 Quando morresse,
bastava anotar a data e fechar a 
pasta. 
Sua promoo  quarta estrela foi constrangedora. Geisel passou de
general-de-brigada a general-
de-exrcito em cinco anos e oito meses. Ningum conseguira coisa
parecida. As duas promoes 
demoravam cerca de dez anos. Depois das reformas de Castelo demorariam
mais de seis e, em 
alguns casos, perto de oito. Essa foi a anomalia que o beneficiou.
Havia outra, tambm indita, 
porm malvada: em nenhum momento o general-de-exrcito Ernesto Geisel
ocupou cargo no quadro 
de quatro-estrelas. Supondo que seria mandado ao "canil" pelo governo
Costa e Silva e amenizando 
as ciumeiras da supersnica promoo, foi direto para o Superior
Tribunal Militar.3 
#1 Para as discusses em torno da ida de Geisel para a reserva, Dirio
de Heitor Ferreira, 26 de janeiro, 
14 de maio e 6 de julho de 1966. 
2 Entendendo-se que Geisel manteria a idade adulterada. Caso
contrrio, completaria setenta anos 
em 3 de agosto de 1977. 
3 Ao ser promovido, Geisel passou  frente de trs generais mais
antigos: Carlos Luiz Guedes, Alfredo 
Souto Malan e Syseno Sarmento. Mandado direto ao STM, no ocupou vaga
no quadro de generais-de-exrcito. No atrapalhou a vida de ningum,
exceto a 
de algum quatro-estrelas que cobiasse a cadeira do tribunal. 
102 A DITADURA DERROTADA#
Nunca um quatro-estrelas recm-promovido fora mandado para o STM, e
jamais isso voltaria a suceder. Desde 
a edio do AI-2 o tribunal ganhara importncia como ltima instncia
para o julgamento de crimes polticos. 
Situado na praa da Repblica, ficava entre a Faculdade Nacional de
Direito e o Ministrio do Exrcito. L, 
obedecendo ao protocolo da corte, o ministro-general ia s sesses
vestindo o uniforme de gala, equivalente 
s casacas dos paisanos. No topo da carreira, o tenente de 1930
tornara-se magistrado de uma ordem ditatorial. 
Tinha sessenta anos, aparentava mais. Como fsforo riscado, viveria
para a famlia. 
Na plancie do general estava uma vida modesta, de pequenas economias,
onde os poucos luxos do 
apartamento indicavam fugazes momentos de prosperidade, Os pirex da
cozinha eram resultado de uma 
passagem por Nova York, em 1945; a sala de jantar de mogno, o faqueiro
e as porcelanas, lembrana dos 
dlares economizados em Montevidu; a televiso, eco da passagem do
irmo Orlando por Washington, como 
adjunto ao adido militar. Amlia Lucy, a filha do casal, estudava
histria na Pontifcia Universidade Catlica, 
disposta a seguir o caminho da tia professora. A famlia podia dividir
seu tempo entre o Leblon e as frias na 
casa dos parentes, em Estrela. L Geisel ainda era o "marido da Lucy
Markus" 
Enquanto a maioria dos generais que chegavam ao STM transformava a
cadeira numa espcie de tribuna para 
pronunciamentos polticos, ele foi um ministro calado, arredio. Ia de
casa para o tribunal e do tribunal para 
casa. Seu exerccio de sociabilidade continuava a ser a longa
caminhada pela praia do Leblon. No tribunal, 
mantinha um de seus cadernos escolares para anotar conceitos de
juristas famosos. Copiou trechos de 
decises do Supremo Tribunal Federal: "Desconhece a nossa lei penal os
delitos de opinio", ou "Ser 
comunista no constitui crime' Depois, em algumas folhas soltas,
acrescentou novas notas, a maioria das 
quais com argumentos contra a concesso de habeas corpus.4 
#4 Caderno de anotaes de Geisel no STM. APGCS/HF.
O PIJAMA TOGADO 103#
Resumindo a permanncia de Geisel no tribunal, seu colega Joo Mendes
definiu-o como "juiz corajoso, [que] no se 
preocupava em agradar, 
com seus votos, ao que se costuma chamar opinio pblica".5 
Geisel foi um juiz duro e confessadamente parcial: "Houve casos em que
eu condenei, tal era a minha convico, apesar da 
deficincia de provas do processo"6 Relatou cinco pedidos de habeas
corpus relacionados com processos polticos. Negou 
quatro.7 Nos raros casos em que se formaram maiorias legalistas, como
em julho de 1968, quando o tribunal classificou 
como ineptas as denncias imprecisas e inconclusivas, Geisel votava
com a minoria. Dois meses depois, os ministros 
mudaram de idia, e ele se tornou maioria.8 Sua trajetria est melhor
demarcada pelos votos em que foi vencido. Em 1968 
Geisel negou ao ex-governador de Sergipe, Seixas Dria, o direito de
ser julgado pelo STM - e no numa auditoria - por 
supostos crimes cometidos em 63, quando a Justia Militar nem sequer
tinha jurisdio em matria poltica.9 
Implacvel com os rus polticos, era generoso no julgamento dos 
crimes militares. Relatou sete processos de desertores e insubmissos.
Reduziu a pena de dois, absolveu um, anulou o 
julgamento de outro e
#5 Discurso do ministro Joo Mendes, na despedida de Geisel do STM, em
10 de dezembro de 1969. APGCS/HF.
6 Reunio do Alto-Comando das Foras Armadas, de 20 de janeiro de
1975. APGCS/HF.
7 Geisel relatou e negou os pedidos de habeas corpus de rus de
processos polticos de nmeros
29388,29396 (ambos no Dirio Oficial de 21 de janeiro de 1970, pp.
29-30) e 29421 (Dirio Oficial de 4 de fevereiro de 1970).
Relatou e negou tambm a Representao n2826, relacionada com o pedido
de habeas corpus de um preso (Dirio Oficial de
12 de agosto de 1970). Concedeu parcial- mente o de n2 29 317, do
estado do Paran (Dirio Oficial de 31 de dezembro de
1969). Tratava- se de um lavrador condenado a quatro anos de priso
por atividades subversivas. Tendo cumprido trs
anos e um ms, solicitava ao STM que mandasse destravar seu pedido de
liberdade condicional retido no Cartrio da Auditoria e que o soltasse.
O tribunal
seguiu o voto de Geisel, determinando o destravamento da papelada e
deixando a libertao do preso a critrio do auditor.
8 Habeas Corpus n2 29439, relatado pelo ministro Eraldo Gueiros: "A
errada ou defeituosa capitulao no torna [a
denncia] inepta, sobretudo quando, recebida, prosperou, permitindo ao
acusado defender-se da instruo' Dirio Oficial
de 4 de fevereiro de 1970, p. 54. Um dos habeas cor- pus negado por
Geisel, acompanhando a maioria, foi o de nmero 29
801, pedido pelos lderes estudantis Jos Dirceu de Oliveira e Silva e
Luiz Travassos. Separata do Dirio Oficial do estado
da Guanabara, parte iii, Poder Judicirio, quarta-feira, 11 de maro
de 1970, p. 118.
9 Conflito de Jurisdio n2 156, Pernambuco, sesso de 9 de junho de
1968, no Dirio Oficial de 19 de novembro de 1969,
apenso ao n2 221, parte III, p. 362.
104 A DITADURA DERROTADA#
mandou libertar um mdico preso arbitrariamente pela Marinha.10 Duas
derrotas magoaram-no. Numa o tribunal absolveu um
capito-aviador pedfilo. Noutra deixou passar uma roubalheira de
mantimentos da Marinha que amparava a fartura das
mesas de alguns almirantes.11
Sua nmesis no STM era o general Pery Constant Bevilaqua, um legalista
imprevisvel e destemido. Pea vital do
dispositivo que assegurara a posse de Joo Goulart em 1961, dois anos
depois chamara os dirigentes do CGT de
"malfeitores sindicais" Deposto o governo, combateu a instaurao de
processos contra Tango e seus ministros. Crtico da
expanso da influncia militar e da abertura da economia aos capitais
estrangeiros, foi remetido da chefia do Estado-Maior
das Foras Armadas ao STM. L, condenou os inquritos
policial-militares por meio dos quais a nova ordem julgava os
adversrios polticos do antigo regime. Negou competncia aos
militares para julgar civis e defendeu a anistia.12
Os dois generais estranharam-se durante o julgamento do habeas cor-
pus de um livreiro. Pery aparteou o voto de Geisel, e ele o advertiu
de que no admitia ser interrompido.
- Vossa excelncia  um mal-educado e no precisa levantar a voz -
rebateu Pery.
- Educao, tenho demais.
- Ento voc tem que demonstrar - arrematou Pery, pondo-se de p.13
#10 O insubmisso da Apelao n2 36545 (Dirio Oficial de 6 de agosto de
1969) foi absolvido. O
do Habeas Corpus n2 29406 (Dirio Oficial de 28 de janeiro de 1970)
foi libertado. O da Apelao
n' 36558 (Dirio Oficial de 13 de agosto de 1969) teve a sentena
anulada e foi mandado a novo
julgamento. Dois desertores tiveram suas penas reduzidas: Apelao n2
36 837 (Dirio Oficial de
5 de novembro de 1969, p. 284) de nove para seis meses, e Apelao n2
36874 (Dirio Oficial de 12
de novembro de 1969, p. 321). Mantiveram-se as penas na Apelao n2
36942 (Dirio Oficial de
19 de novembro de 1969, p. 360) e no Habeas Corpus n2 29817 (Dirio
Oficial de 18 de maro
de 1970,p. 119).
11 Ernesto Geisel, outubro de 1994.
12 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps-1930, coord. de
Alzira Alves de Abreu e outros, vol.
1, p. 657.
13 Correio da Manh, 31 de outubro de 1967, 1 caderno, p. 9.
O PIJAMA TOGADO 105#
Pery Bevilaqua foi malvadamente posto para fora do STM com base no
AI-5, poucos meses antes de completar
setenta anos, quando seria aposentado pelo calendrio. A ditadura
acreditou que se livrara dele, mas na
verdade foi Pery quem se livrou dela. Anos depois, tornou-se um dos
lderes da campanha pela anistia. Graas
a ele, o Exrcito brasileiro pode dizer que um de seus generais teve a
coragem de falar em anistia na poca em
que a palavra parecia ser um estigma.
Geisel rompeu o seu silncio poltico em outubro de 1967, quando uma
comisso de parlamentares
visitou presos em Juiz de Fora e achou onze vtimas de torturas. Em
todos os casos os criminosos
eram militares agindo dentro de quartis do Exrcito. Um dos
integrantes da comisso era o
deputado Marcio Moreira Alves, cuja luta contra a tortura j entrava
em seu terceiro ano. Ele
remexera na histria de setembro de 1964 e criticara a conduta de
Geisel durante sua misso ao
Nordeste: "Este general honrado mancomunou-se com um bando de
sdicos.14
O general respondeu na sesso do STM de 30 de outubro. Recapitulou os
acontecimentos de 1964 e fechou
sua "Explicao Pessoal" citando longamente uma nota do general Lyra
Tavares que culpava a "tcnica de
ao comunista no campo psicolgico" pela divulgao de "falsidades e
lendas" Tudo coisa "dos tericos da
guerra revolucionria [que] pretendem explorar a credulidade pblica
atribuindo a elementos das foras
armadas arbitrariedades e abusos de autoridade incompatveis com a
dignidade da funo militar e do
sentimento humano"15
Esse raciocnio repetia a idia de que a questo da tortura era uma
campanha esquerdista. Como o
governo sustentava que no havia tortura, quem dissesse o contrrio
era um esquerdista interessado
em desonrar as Foras Armadas. A formulao de Lyra Tavares, feita em
1964, quando
comandava o iv Exrcito, no prosperara junto  retrica do governo
Castello. O prprio Geisel, ao
longo do episdio da misso ao Nordeste, jamais atacara as denncias.
Passados trs anos, no foi
Lyra
#14 Correio da Manh, 15 de outubro de 1967, capa do 12 caderno.
15 Jornal do Brasil, 31 de outubro de 1967, p. 16.
106 A DITADURA DERROTADA#
quem mudou de conduta, mas Geisel. Em 1967, como em 64, ele foi parte
da soluo do problema dos
torturadores, no do das vtimas.
Geisel fazia restries  ditadura de Costa e Silva por Costa e Silva,
no pela ditadura. Mesmo em 1965, quando
antevira a ida da democracia para a "geladeira", condenara "os
levantes", "a necessidade de corromper" e
outras conseqncias anrquicas do regime ditatorial, mas no a sua
base.16 Criticava a folhagem, no a
rvore. Continuava duvidando da convenincia do sufrgio universal
para a escolha dos governantes e da
necessidade de um parlamento com poderes legislativos. "A liberdade
que se precisa para viver, essa existe.
No h liberdade  para a baguna, a baderna, a ao contra o
governo", repetiria com freqncia.17
No decorrer de 1968 o general sofreu clicas abdominais. Perseguido
por uma hipersensibilidade genrica 
dor, fazia exames, tirava radiografias, e nada se descobria. Na noite
de 10 de maio de 1969, durante uma
dolorosa clica, foi metido s pressas numa ambulncia e levado para o
Hospital Central do Exrcito, com uma
pancreatite aguda. Seu mdico, o coronel Americo Mouro, temia que
morresse. O professor Figueiredo
Mendes, especialista chamado a v-lo no dia seguinte, tambm temeu
pela sua vida. Esperou 24 horas para
tranqilizar a famlia.18 Geisel ficou no hospital at julho, quando
lhe tiraram a vescula. Foi uma operao de
manual, conduzida por um major-mdico. Como o paciente era um general
de quatro estrelas, o diretor do HCE
incluiu-se na equipe e resolveu dar um palpite. Determinou que se
fizesse uma transfuso. Nada adiantou o
argumento do major de que a cirurgia estava no fim e no houvera perda
significativa de sangue. Geisel
relembrou o resultado da sugesto: "Tive alta e fui para casa, dois ou
trs dias depois comecei a ter febre.
Depois fui ficando amarelo. Finalmente, fiquei esverdeado. Era
hepatite19 Golbery chegou a admitir que "o
Alemo quase dobra o cabo
#16 Para a crtica, Dirio de Heitor Ferreira, 15 de agosto de 1965.
17 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de maro de 1972.
18 Amlia Lucy Geisel, julho de 1991.
19 Ernesto Geisel, julho de 1988 e outubro de 1994.
O PIJAMA TOGADO 107#
da boa (ou m) esperana".20 Aplicaram-lhe algumas injees de
cortisona que redundaram em
simples paliativo mas, acelerando o raciocnio e alterando a percepo
do general, ofereceram-lhe
uma amostra do "barato" em que entrara boa parte do mundo.21 Enquanto
ele estava na cama,
realizou-se o festival de Woodstock, nos Estados Unidos, e estreou a
pea Hair em So Paulo.
Num, diante de 400 mil jovens que dormiram ao relento, Jimi Hendrix
tirou da guitarra eltrica sua
monumental variao do hino nacional americano. No teatro Aquarius,
pelada e despercebida, Snia
Braga era apresentada aos brasileiros. A recuperao de Ernesto Geisel
demoraria seis meses.
Logo aqueles seis meses da segunda metade de 1969.
Durante a crise da busca de um sucessor para Costa e Silva, abatido
por uma isquemia cerebral, o
marechal Ademar de Queiroz chegou a sugerir o nome de Geisel numa
reunio de velhos
castelistas. Foi cortado pelo general Antonio Luiz de Barros Nunes, o
Cacau: " Ademar, eles
no vo topar. Nosso pessoal no vai topar. Ele est no tribunal,
ficam espalhando que est com
cncer. Negativo: no vo aceitar o Ernesto".22 Pelo menos um coronel
do crculo de relaes de
Geisel dizia que ele tinha um cncer, e seu aspecto macerado
fortaleceu essa impresso mesmo
entre alguns amigos.
Como acontecia com freqncia quando se tratava de sentir o pulso do
"nosso pessoal", Cacau estava certo.
Ningum o conhecia por Antonio Luiz, nem parecia general. Solteiro,
bomio, loquaz e irreverente, era o tpico
carioca de Vila Isabel. Dava-se com generais cassados e cassadores,
tinha amigos no DOPS, no Partido
Comunista e na embaixada americana. 23 Resolvia qualquer problema,
fosse para procurar um preso na Vila
Militar ou para conseguir um lugar na tribuna de honra do Maracan.
Abria qualquer porta, tanto no SNI como
na noite do Rio, onde era bom amigo do colunista Ibrahim Sued. Gostava
de dizer que tinha
#20 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 29 de julho de 1969.
APGCS/HF.
21 Para os efeitos da cortisona, Ernesto Geisel, 1976.
22 Dirio de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971.
23 Entre os amigos de Cacau estava, por exemplo, o general Nelson
Werneck Sodr. Ernesto Geisel,
outubro de 1994.
108 A DITADURA DERROTADA#
muita vontade de ir ao prprio velrio, pois haveria de ser uma grande
festa. Num grupo de militares relativamente
reclusos, Cacau era o melhor informado e o mais estimado.
Ainda acamado, Geisel recebeu a visita de seu irmo Orlando com o
convite do novo presidente para que
dirigisse a Petrobrs. Havia nele uma lisonja oculta: em 1967 Costa e
Silva chamara Emilio Medici para a funo,
o general refugara o convite, argumentando que no tinha preparo
suficiente, e sugerira que chamasse Geisel.
A idia prosperou por alguns dias, at ser atropelada por um arranjo
de interesses estaduais. No dia 6 de
novembro de 1969, chegou a Geisel um telex do chefe do Gabinete Civil
informando-o de que Medici acabara
de nome-lo para a presidncia da Petrobrs. Seu mdico s admitiu que
fosse para a Petrobrs sob o
compromisso de seguir uma dieta, alm de obrigar-se a meia hora de
sono depois do almoo.24
A posse de Geisel na Petrobrs foi cerimnia corriqueira, com um
discurso insosso e uma poderosa presena
na fila de cumprimentos: Orlando, ministro do Exrcito, fardado. Um
comandava a tropa, outro assumia a
presidncia da maior empresa do pas. Cacau, que dois meses antes
prognosticara a baixa, disse ao seu
amigo Ernesto: "Voc se prepare para ser presidente da repblica" "Ele
esbravejou", rememoraria Cacau, "e
eu repeti: "Prepare-se para ser presidente"25
#24 Amlia Lucy Geisel, julho de 1991.
25 Dirio de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971.

#GOLBERY, O FEITICEIRO
Criptocomunista#

Quando garoto, Golbery do Couto e Silva presenciara diversas
experincias na sala da casa de seu pai, na
cidade de Rio Grande, o maior porto de mar entre Santos e Buenos
Aires. Jacintho do Couto e Silva Junior
herdara razovel fortuna, tinha bigodes pontudos, bons cavalos,
mulheres e vinhos. Gal de grupo de teatro
amador, reunia amigos em casa para reproduzir as experincias do
fisico ingls William Crookes, da Sociedade
para a Pesquisa Psquica. Era comum que fizessem transportes, mas,
apesar das tentativas, nunca conseguiram
uma levitao.1
O general completara sessenta anos em 1971. Era o principal
conselheiro poltico de Geisel. Quem o visse em
1967 seria capaz de julgar mais fcil o exerccio de levitao de
Jacintho do que a ressurreio poltica de seu
filho. Do SNI Golbery passara ao Tribunal de Contas e dele escapara em
1968. Tornara-se presidente da Dow
Qumica, brao brasileiro da multinacional americana. Ganhava cerca de
10 mil dlares mensais. Nunca vira
tanto dinheiro na vida.2 Seu escritrio, na avenida Rio Branco, ficava
a dez minutos da sede da Petrobrs.
Tivera trs anos de notoriedade no governo Castelo, mas poucas eram as
pessoas que o reconheciam na rua.
#1 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.
2 Golbery foi indicado  Dow por Roberto Campos, que recusou a
presidncia da empresa no
Brasil. Inicialmente o general trabalhou como consultor. Depois,
tornou-se presidente da companhia. Renato
Hauptmann, maio de 1993. Para o salrio, Heitor Ferreira, maro de
1974. Numa
conversa com Ueki, de maro de 1974, Heitor se refere a um salrio
mensal de 50 mil cruzeiros
(7100 dlares). Essa cifra excluiria as bonificaes.
112 A DITADURA DERROTADA#
Pouco falava de si, muito menos do pai ou da famlia. Raramente saa de
casa e quase nunca ia  casa dos outros.
Tinha algo de misterioso, mas tambm gostava de se mostrar enigmtico.
Brincava com suas crises de
labirintite:
"Labirinto  a minha especialidade"3 Depois de quase meio sculo de
convivncia, cumplicidade e admirao,
Geisel confessaria a um amigo: "Eu sempre fico com a impresso de que
o Golbery no me contou tudo"4
Golbery dificilmente saa de casa porque sua mulher, Esmeralda, sofria
alucinantes crises psicticas. Mesmo
nos perodos de normalidade
- cercada por amas, pais-de-santo e bichos - dava-se a constrangedores
acessos de irascibilidade, nos quais
tratava o marido com dureza. Nos 52 anos que viveu nesse casamento
Golbery jamais menosprezou a mulher.
No se queixava dela, assim como no a contrariava diante de
estranhos. Evitava deix-la sozinha, tratava-a
com carinho, referia-se a ela como "a madame" Gostava de contar casos
em que a intuio e a lealdade de
Esmeralda a levaram a prever (e acertar) combinaes polticas que ele
supunha impossveis. Quando
necessrio, mencionava que sua mulher tinha "um problema psiquitrico"
Leitor obsessivo, formara uma biblioteca de 10 mil volumes, entulhando
sua casa em Jacarepagu, na Zona
Oeste do Rio de Janeiro. Reprodues de quadros dos mestres europeus
ocupavam as paredes que escaparam
s estantes. Seus prazeres d'alma eram a leitura e a conversa. No ia
ao cinema e amealhara cultura teatral
lendo peas. Era um erudito marcado pelo autodidatismo. Conhecia de
memria a estrutura pictrica da
Transfigurao, de Rafael, mas encantava-se com a figura de um menino
em xtase que, alm de
espalhafatosa, nem de Rafael .5 Faltava-lhe o apuro do gosto.
Vestia-se descuidadamente e no se
interessava por comida. No era comum que bebesse, mas bebia mal,
tanto por ser capaz de servir-se de usque
s dez da manh, como por enrolar a voz na quinta dose.
Adorava excessos: cristais venezianos com formas de passarinhos,
porcelana francesa com cenas
campestres ou o poema "Se", de Rudyard Kipling. No se pode cham-lo
de barroco, era exagerado
mesmo.
#3 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1973.
4 Antonio Carlos Magalhes, 1981.
5 Para o menino da Transfigurao, John Pope-Henessy, Raphael, p. 75.
CRIPTOCOMUNISTA 113#
Escrevendo, era capaz de cometer uma frase de 24 linhas, com 268 palavras
escoradas em dezessete vrgulas.6 Num exemplo
pouco complicado: " a alma faustiana do homem moderno que reponta,
com todas as suas inquietudes, no claro-escuro de
um Rembrandt, o poeta supremo da luz, como se afirma ademais na
trgica ironia irreverente e acusadora de um Daumier
ou de um Goya, para culminar na desordenada exuberncia do colorido
estonteante e semilouco de um van Gogh"7
Tudo isso atrs daquela figura discreta, quase sempre metida em ternos
cinza, com culos de aro fino, cabelo cortado rente.
Seus hbitos vocabulares eram comuns. Traa no sotaque a idade e a
origem gacha. Dizia "cousas" em vez de "coisas"
Qualquer semelhana com seu mito misantrpico era mera coincidncia.
Havia algo estudado em sua lendria frieza.
Escondia uma propenso romntica. Tinha dios incontornveis, como o
que devotou a Carlos Lacerda depois de 1966
("No falo com esse sujeito, nunca"), e amizades irredutveis. Em nome
da que o uniu a Heitor Ferreira, ameaou morrer
afastado de Geisel.8 Esse personagem que foi ao mesmo tempo cone e
patu para a ditadura militar, tinha um trao
curioso, atrevido, quase moleque. "Eu no estou ligado a nada, nunca.
 uma caracterstica minha, no sei dizer se  virtude
ou defeito."9
Caso clssico de arruinado. Desde a metade do sculo xix, o nome dos
Couto e Silva associara-se  boa qualidade das peas
de prata para arreios vendidas em Rio Grande. Ao trabalho do portugus
Manuel, seguiu-se o de Jacintho, o mais velho de
seus oito (ou nove) filhos.10 De
#6 Golbery do Couto e Silva, O Sentido Humano da Arte, p. 3. AA.
7 Idem, p. 7. AA.
8 Para a referncia a Lacerda, Dirio de Heitor Ferreira, 11 de junho
de 1965. Em 1984, Golbery s
combinou um reencontro com Geisel (a quem no via fazia quase quatro
anos) depois que obteve do general Gustavo
Moraes Rego a certeza de que o ex-presidente se reaproximaria de
Heitor Ferreira. Tanto Geisel como Golbery sabiam que lhes restava pouco
tempo para um reencontro,
que acabou no ocorrendo. Golbery do Couto e Silva, agosto de 1985.
9 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.
10 Genealogia preparada por Golbery do Couto e Silva em resposta a uma
carta de Marco Antnio Rabelo do Couto e
Silva, de 8 de outubro de 1981. APGCS/HF. Manuel do Couto e Silva veio
do Porto para o Brasil com um filho e quatro filhas. Viveu no Rio de
Janeiro por alguns anos, onde
teria feito dois ou trs filhos homens. Em Rio Grande fez mais um.
114 A DITADURA DERROTADA#
acordo com o hbito dos comerciantes lusitanos, a famlia concentrou
seu patrimnio em imveis, todos na cidade, muitos
na rua em que vivia. Jacintho Junior no gostava de trabalhar, nem
como prateiro nem como senhorio. Com a ampliao do
porto, expandiram-se todos os comrcios da cidade, e a rua Repblica
do Lbano, onde estava sua casa, foi engolida pela
"zona"." Mudaram os locatrios, caram os aluguis, e de nada serviu
algumas famlias - inclusive a dele - transferirem a
porta de entrada para outro lado do terreno, onde antes era o
quintal.12 "O que adianta? Ele no vai pagar mesmo",
Golbery ouvia o pai responder  mulher, quando ela insistia que fosse
cobrar o que lhe era devido. A essa altura Henriqueta
do Couto e Silva costurava para
Era runa europia. Quanto menor o patrimnio, maior a pose. Com uma
afetada francofilia, Jacintho deu nomes estranhos
aos dois filhos. Ao mais velho chamou Morency, sobrenome de um dos
colonizadores de Quebec. Ao segundo, nascido em
21 de agosto de 1911, chamou Golbery, sobrenome de um magistrado
metido em eruditos estudos arqueolgicos, morto em
1854 e quase desconhecido fora de Colmar, sua cidade natal. L uma
pequena rua homenageia sua memria.14
Apesar de seu pai achar imprprio mandar os filhos  escola elementar,
acreditando que receberiam melhor educao em
casa, o menino foi matriculado no colgio estadual Lemos Junior,
porque o reitor estava interessado numa experincia
pedaggica e pediu que lhe entregassem a criana, ento com onze anos.
Golbery nunca soube direito a que tipo de
experincia foi submetido, mas lembrou-se com orgulho do resultado:
"Entre os treze e os catorze anos eu li quase todos
#11 Para as obras do porto, concludas em 1917, Euripedes Falco
Vieira, Rio Grande, geografiafsica, humana e econmica,
p. 132. Para o movimento da zona, Golbery do Couto e Silva, novembro
de 1984.
12 A casa dos Couto e Silva, cuja entrada era na Repblica do Lbano,
virou-se para a rua Benjamm Constant, 123. Em
1992, esse terreno era ocupado por pequenos sobrados. Onde fora a
entrada estavam a loja de artigos de pesca O Arrasto
e a academia de carat Shotokan.
13 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.
14 Para Phillipe Marie Aim de Golbery, Jornal do Brasil de 25 de
junho de 1975, p. 2, citando um verbete de enciclopdia
francesa. Para a rua, fotografia tirada em Colmar, em 1982, pelo
jornalista Guilherme Veloso.
CRIPTOCOMUNISTA 115#
os clssicos da literatura portuguesa. Camilo Castelo Branco, por
exemplo, eu li inteiro. Alm disso, inventariei
toda a biblioteca e os laboratrios de fsica e qumica, equipados com
material alemo de muito boa qualidade"15
Pensava em ser engenheiro ou advogado. "Mas cad o dinheiro? Talvez eu
conseguisse, mas meu irmo j
estava no Exrcito, e eu fui no arrasto." Chegou  Escola Militar de
Realengo com uma cultura acima da mdia
dos colegas. Sabia muita matemtica e se encantara com o estudo da
histria. Ia  secretaria conferir as notas
de Luiz Carlos Prestes, transformadas em pedra da meca do irredentismo
tenentista. Era o melhor aluno da
escola, com notas superiores a 8 em todos os exames, na marca do
Cavaleiro da Esperana e do tenente
Ernesto Geisel. Saiu de Realengo em dezembro de 1930, na primeira
turma de aspirantes do novo regime. Com o
tenentismo no palcio, os novos oficiais deveriam cuidar dos quartis.
Pelo calendrio gregoriano, Golbery
tinha quatro anos menos que Geisel e dez menos que Cordeiro de Farias.
Pelo calendrio poltico, estava uma
gerao atrs.
Sua participao na Revoluo de 1930 limitou-se ao trabalho de
estafeta: levou uma carta  casa onde estava
Juarez Tvora. Mandado para uma guarda do Catete, catou nos jardins do
palcio alguns panfletos do Partido
Comunista. Esse foi o primeiro contato que teve com a espcie. J lera
alguns trabalhos de Lenin e via na
revoluo bolchevique "uma nova aurora, um estgio superior da
Revoluo Francesa" Mais tarde haveria de
se classificar como um "criptocomunista literrio" Gostava da frase de
Mussolini (" preciso viver
perigosamente"), mas detestava o fascismo, "apesar de ele ter feito os
trens italianos andarem na hora"6
Estava mais para Trostsky do que para Stalin, mais para Bukharin do
que para Trotsky, mas tudo isso era
elucubrao. Quando Luiz Carlos Prestes anunciou seu rompimento com o
governo de Getulio Vargas, Golbery
nem sequer refletiu sobre o iderio socialista que ele propunha. "O
caso
#15 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984.
16 Idem.
116A DITADURA DERROTADA#xxx
 que ele se colocava contra o Rio Grande, e para ns a Revoluo era
do 
Rio Grande."7 
Mandado em 1931 para o 92 Regimento de Infantaria, em Pelotas, esteve
na tropa que combateu a Revoluo 
Constitucionalista de 32. Levara na mochila a Crtica da razo pura,
do filosfo alemo Emmanuel Kant, e 
retornara com um elogio por bravura.'8 Foi a primeira e nica vez que
atirou em combate. De volta a Porto 
Alegre, tornou-se instrutor do Centro de Preparao de Oficiais da
Reserva, o CPOR. Tinha 21 anos e era 
oficial da infantaria, mas ingressara no mundo dos instrutores,
responsvel pela fabricao de todas as 
mitologias intelectuais das foras armadas em tempos de paz. 
Havia um namoro entre Golbery e o ic. Dele no h registro na
memorialstica comunista, como de resto ela 
quase nada revela a respeito da base militar do partido. Entre 1933 e
1934, Golbery encontrou-se com um oficial 
que servia no Paran. "Foi uma conversa sobre doutrina. Era um coronel
da artilharia, homem brilhante, que eu 
respeitava muito." Os comunistas remeteram-lhe material de propaganda
e em 1934 contataram-no formalmente. 
"Era um civil, disse que vinha a mando do Miranda." 9 Miranda era o
ex-sargento Antonio Maciel Bonfim, 
secretrio-geral do PCB. Depois disso o capito Carlos da Costa Leite,
o "Prestes da cidade' fez mais uma 
tentativa de recrut-lo.20 Deram-se novos contatos clandestinos
durante o ano de 1935, at que, conforme 
contou mais tarde: "Vi que a coisa estava esquentando e no tinha
substncia, sa foSaiu mas deixou rastro. 
Seu nome foi achado no caderno de endereos de um major, e sem que
Golbery soubesse, tramitou na 
burocracia da represso uma denncia contra ele. Salvou-o o coronel
gacho (de Bag) Salvador Csar Obino, 
que lera um artigo do tenente Golbery defenden 1 
Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984. 
18 "O fabricante de nuvens", Veja de 19 de maro de 1980, p. 25. 
19 Golberydo Couto e Silva, novembro de 1984. 
20 Idem, 1980, informao publicada em "O fabricante de nuvens' Veja
de 19 de maro de 1980, 
p. 25. 
21 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984. 
CRIPTOCOMUNISTA 117 
do o anarquista Bakunin. "Ele achou que se eu escrevia aquilo
claramente, no devia estar metido em levantes."22 
De todas as leituras e influncias do perodo, Golbery levaria para o
resto da vida o que ele chamava de "hbito de 
raciocinar dialeticamente": 
"Uma coisa nunca  como . No h o certo nem o errado absolutos'
"Esse tipo de raciocnio, uma vez adquirido, no se 
perde nunca' explicaria meio sculo depois, queixando-se de que "se
confunde dialtica com marxismo, o que  burrice"23 
Mal chegara aos 24 anos, magro, desinteressado das competies
esportivas, tinha fama de intelectual. Aprendia ingls 
lendo a revista Time e ouvindo a BBC de Londres. 
Estava sob a proteo de uma confraria de oficiais gachos. Fora
ajudante-de-ordens do general (de Alegrete) Joo Carlos 
Toledo Bordini, um oficial de tintas liberais que passara para a
reserva depois do golpe de 1937. Bordini recomendara o 
capito ao coronel Mrio Ary Pires (de Pontal da Barra),
chefe-de-gabinete da secretaria geral do Conselho de Segurana 
Nacional, segundo homem no Gabinete Militar da Presidncia. Em 1939
Golbery entrou no palcio do Catete detestando o 
Estado Novo e Getulio Vargas, seu fmulo. No Conselho de Segurana
planejava-se a entrada do Brasil na guerra, contra a 
Alemanha.24 Do que ouvira de Ary Pires e do que aprendera com
leituras, Golbery preparou em segredo um trabalho a que 
deu um ttulo tpico da audcia dos capites: Diretrizes para a
Mobilizao Nacional. Nos meses seguintes 
reconheceu pedaos de seu estudo num documento que circulava pelos
altos escales. Comeara sua carreira de escriba. 
22 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984. Nas diversas ocasies
em que tratei com Golbery de suas relaes com o 
Partido Comunista, ele se mostrou pouco receptivo. Dava respostas
curtas e no as elaborava. Tendo contado em 1980 que 
Carlos da Costa Leite tentara recrut-lo, deixou de mencion-lo na
entrevista de 84, quando colocou no quebra-cabea a 
figura do civil mandado por Miranda. Em outubro de 1994 Geisel lembrou
que, nessa poca, "constava que ele tinha 
algumas idias de esquerda". Parece que os artigos de Golbery se
perderam. 
23 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984. Para a queixa a
respeito da confuso entre dialtica e marxismo, "O 
fabricante de nuvens", Veja de 19 de maro de 1980, p. 31. Em seu
Geopoltica e poder, p. 16, Golbery chama o 
materialismo marxista de "filho esprio do idealismo hegeliano". 
24 "Apesar de o Getulio, depois, ter mostrado algumas simpatias pelo
Eixo, no Exrcito eu nunca vi outro tipo de trabalho 
que no fosse prevendo a entrada do Brasil na guerra ao lado dos
Aliados." Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984. 
n8 A DITADURA DERROTADA 
Falara-se do cadete Golbery em 1930, e falou-se dele novamente em 41.
Como capito, inscrevera-se nas provas 
livres do curso de admisso  Escola de Estado-Maior e fora o nico
aprovado. Seu exame mais difcil parece 
ter sido o de motorista, pois, com trinta anos e sem dinheiro, no
sabia dirigir. Trs anos depois embarcou para 
Fort Leavenworth. Em Kansas City viu o seu primeiro Van Gogh, uma
contorcida paisagem de oliveiras, 
pintada um ano antes da morte do artista. A guerra escapou-lhe entre
os dedos. Desembarcou em Npoles no 
final de fevereiro de 1945, um ano aps a entrada das tropas
americanas na cidade. Aquartelado 450 
quilmetros ao sul da linha Gengis Khan, onde se esfarelavam as
divises alems dos Apeninos, Golbery no 
ouviu um s tiro. 
Foi sua nica viagem  Europa. Vagou pelos museus e igrejas de Npoles
e Roma, chocou-se com a misria e 
com a prostituio de adolescentes em troca das caixinhas de rao.
Cuidou do planejamento do retorno dos 
pracinhas ao Rio de Janeiro. Em outubro de 1945 estava de volta, com
economias suficientes para comprar seu 
primeiro imvel, um apartamento em Laranjeiras. Da convivncia com a
tropa americana no resultou sensvel 
influncia ideolgica. "O exrcito americano no nos impressionou
porque era democrtico, mas porque 
funcionava."25 
O Exrcito brasileiro funcionava mal, e a guerra expusera suas
misrias. No exame de sade de Fort 
Leavenworth descobriu-se que um coronel tinha lepra.26 Na Itlia
acharam-se pracinhas tuberculosos, e, das 
11 617 baixas sofridas pela FEB, 8480 deveram-se a doenas. Numa tropa
de 25 mil homens, 10 399 passaram 
por tratamento dentrio na Europa. Foram realizadas 9071 extraes.27
A fraqueza estrutural era semelhante. 
Num regimento do Rio Grande do Sul o comandante selecionou para a
Fora Expedicionria os soldados com 
mau comportamento.28 Um pe25 Golbery do Couto e Silva, novembro de
1984. 
26 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988. 
27 Frank D. McCann Jr., The Brazilian-American Alliance - 1937/1945,
pp. 369 e 71. Ver tambm 
Aspsia Camargo e Walder de Ges, Meio sculo de combate - Dilogo com
Cordeiro de Farias, 
p. 311. 
28 Ernani Ayrosa da Silva, Memrias de um soldado, p. 32. 
CRIPTOCOMUNISTA 119 
loto do 6 RI teve oito comandantes em poucos meses de instruo. A
rotatividade de oficiais que saltavam do regimento - 
e da guerra - foi semelhante em pelo menos cinco de suas nove
companhias.29 
Por questo de sigilo, disseram  tropa do primeiro escalo que ela
desembarcaria na Tunsia, mas quando o navio estava no 
Mediterrneo, os soldados souberam, atravs da locutora Rosa da
Esperana, da rdio de Berlim, que seu destino era 
Npoles.3 Tiraram ao comandante da Fora Expedicionria a
prerrogativa de escolher os auxiliares e at mesmo de 
promover os soldados em combate.31 O chefe do Estado-Maior, imposto
pelo Rio, brigava com o general da artilharia e 
com o encarregado da seo de operaes, que, por sua vez, rompera com
o colega das informaes.32 A tropa estava 
malvestida e mal calada. O verde-escuro dos seus uniformes parecia-se
com a cor da farda dos alemes. Desembarcou 
desarmada em Npoles e, confundida com um lote de prisioneiros, viu-se
vaiada. Os cigarros de boa qualidade sumiam no 
caminho, e  Itlia chegavam mata-ratos intragveis.33 As fardas
encolhiam e desbotavam. "No se pode entender tanta 
negligncia do Rio de Janeiro' queixava-se 35 anos depois o comandante
da Artilharia Divisionria, Cordeiro de Farias.34 
29 Frank D. McCann Jr., The Brazilian-American Alliance - 193 7/1945,
p. 375. 
30 Ernani Ayrosa da Silva, Memrias de um soldado, p. 35. Essa
locutora era Margarida Hirshman. Depois da guerra ela foi 
presa e condenada, no Brasil, a vinte anos de priso, cumpriu dois e
viu- se indultada. Evandro Lins e Silva, O salo dos 
passos perdidos, pp. 176-8. Sua equivalente americana, Midge Gillars,
ou Axis Sally, presa em 1945, s foi libertada em 61. 
31 Aspsia Camargo e Walder de Ges, Meio sculo de combate - Dilogo
com Cordeiro de Farias, pp. 326 e 332. 
32 Idem, p. 328. Chefiava o Estado-Maior o coronel Floriano de Lima
Brayner; a artilharia, o general Cordeiro de Farias; a 
seo de operaes, o tenente-coronel Castello Branco, e a de
informaes, o tenente-coronel Amaury Kruel. 
33 Aspsia Camargo e Walder de Ges, Meio sculo de combate - Dilogo
com Cordeiro de Farias, p. 343. Para uma 
documentada descrio das debilidades da FEB segundo os oficiais
americanos que com ela lidaram, William Waack, As duas 
faces da glria - A FEB vista pelos seus aliados e inimigos, pp.
113-57. Ver tambm Carlos Lacerda, Depoimento, p. 104. 
Para a falta de agasalhos, m qualidade dos tecidos, a dificuldade
provocada pela cor e a vaia em Npoles, Joaquim Xavier 
da Silveira, A FEB por um soldado, pp. 58 e 64. 
34 Aspsia Camargo e Walder de Ges, Meio sculo de combate - Dilogo
com Cordeiro de Farias, p. 362. 
120 A DITADURA DERROTADA 
O capito Golbery que regressou ao Rio de Janeiro saltara do trem da
esquerda. Em maro de 1952, como 
tenente-coronel, foi designado para a Escola Superior de Guerra. A ESG
tinha trs anos e ele, 41. Juntos 
construiriam uma das grandes lendas da poltica brasileira. 
O escriba 
Conhecida tambm pelo pernstico apelido de Sorbonne, a Escola
Superior de Guerra era produto de um sincero 
interesse da cpula militar pelo aprimoramento intelectual dos
oficiais superiores, mas tambm de um desejo dos ministros 
de manter longe dos comandos de tropa e de posies importantes no
Estado-Maior os oficiais de muita capacidade e 
pouca confiana.1 Enquanto se puniam com transferncias para
circunscries de recrutamento os coronis chucros ou 
extremados, a oposio militar bem-educada ganhava escrivaninhas na
ESG, cuja primeira virtude era a localizao: no Rio 
de Janeiro, debruada sobre a praia da Urca. Em 1953, somando-se os
estagirios ao seu quadro de pessoal, a ESG dava o 
que fazer a doze generais, trs almirantes, dois brigadeiros, 33
coronis e onze capites-de-mar-e-guerra, efetivo equivalente 
a mais que o dobro dos coronis e generais que foram para a guerra.2 
Desde 1950 a escola juntava por volta de setenta civis e militares num
curso de um ano, verdadeira maratona de palestras e estudos em torno 
1 Segundo John W. F. Dulies, Castello Branco - O caminho para a
Presidncia, p. 197, o apelido 
foi inventado por Oswaldo Aranha. 
2 Para a lista de nomes do corpo permanente e de estagirios, Diplomas
Conferidos em 1953, ai n2 
187, de 15 de dezembro de 1953. Ou o stio da ESG,
<http://www.esg.br/>, para a turma de 1953. 
Tambm Militares Integrantes da Escola Superior de Guerra no Ano de
1953, Diviso de Expediente da ESG, 2003. Na FEB 
havia quatro generais e treze coronis, em J. B. Mascarenhas de
Moraes, 
A FEB pelo seu comandante, pp. 345 e segs., com a lista de oficiais. 
122 A DITADURA DERROTADA 
dos problemas nacionais. Essa convivncia de oficiais, burocratas e
parlamentares era experincia indita, mas 
seria exagero dizer que nos seus primeiros dez anos de vida a ESG
aglutinou uma amostra da elite nacional. O 
nmero de estagirios sem ligao funcional com o Estado dificilmente
alcanava um tero das turmas. A 
seleo dos 483 militares que fizeram qualquer tipo de curso na ESG
entre 1950 e 1959 deu-se sem dvida no 
estrato superior da oficialidade. Dois chegaram  Presidncia da
Repblica (Geisel e Castello Branco), 23 ao 
ministrio, e, deles, seis chefiaram o Exrcito. Com os 335 civis que
passaram pela escola no mesmo perodo, o 
resultado foi outro. S quatro chegaram ao ministrio. Um deles,
Tancredo Neves, pode ser computado como 
se tivesse chegado  Presidncia. 
A escola funcionava num clima grandiloqente e autocongratulatrio.
Suas primeiras turmas incluam oficiais 
sinceramente convenci- dos de que participavam de um mutiro
intelectual que repensava o Brasil. Havia neles 
um verdadeiro sentido de misso. "Nenhum de ns sabia nada e queramos
que algum nos desse idias' 
contaria mais tarde o general Antonio Carlos Muricy.3 Ainda assim, a
ESG no produziria uma s idia ao 
mesmo tempo certa e nova. Seus fundadores empilharam conceitos
redundantes, como Planejamento da 
Segurana Nacional, e impenetrveis, como o Conceito Estratgico
Nacional, atrs dos quais se escondia uma 
metafsica do poder estranha  ordem e s instituies democrticas,
aos sistemas partidrios e aos 
mecanismos eleitorais. Carlos Lacerda chamava-a de "escola do
bl-bl-b1'4 Com o tempo edificou-se a 
mitologia de que a Sorbonne foi laboratrio de aperfeioamento da
elite nacional e sacrrio ideolgico do 
regime de 1964. Parte da cpula militar que a criou, no entanto,
haveria de tomla como mau exemplo tanto pela 
fauna como pela flora. "Cuidado com os picaretas. Veja a ESG' advertiu
Geisel a um amigo. As famosas apos3 
Depoimento do general Antonio Carlos Muricy ao CPDOC, vol. 2, fita 17,
p. 326. 
4 Para o conceito de Lacerda, depoimento do general Octavio Costa, em
A volta aos quartis, organizado por 
Maria Celina d'Araujo, Glucio Ary DilIon Soares e Celso Castro, p.
136. Vale transcrever a opinio do general 
Octavio Costa sobre a ESG, cujo quadro no integrou: "A ESG criou um 
corpo doutrinrio fictcio com um palavrrio vazio". 
O ESCRIBA 23 
tuas de capa cinza eram documentos irrelevantes para o general: "Podem
ir para o lixo, pois as turmas e os grupos so 
muito dspares".5 
Fundada na premissa de que o subdesenvolvimento brasileiro era produto
da falta de articulao e competncia de sua elite, 
a ESG se propunha a sistematizar o debate dos problemas do pas.6
Oferecia-se tambm como centro de estudos para uma 
crise universal muito mais ameaadora e urgente. Em maio de 1949 a
escola ainda no estava legalmente organizada, mas seu 
comandante, o general Oswaldo Cordeiro de Farias, advertia:
"Precisamos preparar-nos para a eventualidade da terceira 
guerra mundial, o que  uma conseqncia do panorama internacional,
uma poltica de autodefesa, um imperativo de nossa 
soberania e do nosso esprito de sobrevivncia. Viver despreocupado
deste problema, num mundo que no se entende,  ter 
mentalidade suicida")' 
Esse mundo vivia sob a influncia de duas expresses: Cortina de Ferro
e Guerra Fria. 
A primeira fora mais uma expresso genial do ex-primeiro-ministro
ingls Winston Churchill. Em maro de 1946, 
discursando na pequena cidade de Fulton, nos Estados Unidos, ele
denunciou: "De Stettin, no Bltico, a Trieste no 
Adritico, uma cortina de ferro caiu sobre o Continente. Atrs dessa
linha, todas as capitais dos velhos Estados da Europa 
Central, Varsvia, Berlim, Praga, Viena, Budapest, Belgrado, Bucarest
e Sofia, todas essas famosas cidades, bem como as 
populaes que as circundam, esto submetidas no s  influncia
sovitica, mas a um grande e crescente controle por 
Moscou'8 
5 Bilhete de Heitor Ferreira, sem data, com anotao manuscrita de
Geisel. Geisel respondia a 
uma proposta de Heitor de se criar uma escola civil de alto nvel para
o servio pblico. Tratando 
do mesmo assunto, mais uma vez com Heitor Ferreira, Geisel disse que
"o exemplo da ESG  altamente decepcionante", 
num bilhete de 26 de julho de 1974. APGCS/HF. Para as apostilas,
Dirio de 
Heitor Ferreira, 16 de fevereiro de 1972. 
6 "Proposta de criao da Escola Superior de Guerra' em Jos Alfredo
Amaral Gurgel, Segurana e democracia, pp. 30-4. 
7 Oswaldo Cordeiro de Farias, Palestra sobre a Organizao da Escola
Superior de Guerra, realizada na Escola de Estado-
Maior, p. 6. Criada em outubro de 1948, a ESG s foi organizada pela
lei 
785, de 20 de agosto de 1949. 
8 John Lewis Gaddis, The United States and the origin ofthe Cold War -
1941-1947, p. 308. 
124 A DITADURA DERROTADA 
A segunda fora produto da memria do jornalista americano Walter
Lippmann. Ao dar ttulo a uma coletnea 
de artigos dos ltimos meses de 1947, ele recorreu  expresso
francesa usada em 39 para designar a poltica de 
intimidao de Hitler na Europa, "la guerre froide"9 
Apesar de esses dois conceitos terem encantado as foras conservadoras
brasileiras, o Estado Novo lutava 
contra a Cortina de Ferro antes que Churchill a tivesse percebido e se
alistara na Guerra Fria antes que ela 
tivesse comeado. Se o combate ao nazismo aproximara conservadores
europeus e americanos dos 
comunistas, no Brasil essa aproximao no se deu, porque a direita
filofascista e mesmo filonazista jamais foi 
combatida, muito menos derrotada. Quem olhasse a hierarquia da
ditadura no incio de 1946 veria poucas 
mudanas nos palanques. Em ocasies especiais, podia-se notar o
sumio, nas casacas e uniformes, das 
condecoraes distribudas pelos embaixadores da Alemanha e da Itlia.
Na Europa a associao com o Eixo 
custara  extrema direita a vida (quando foi para as trincheiras), a
fortuna (quando a depositou no projeto 
guerreiro) ou a credibilidade (quando tornou pblica a sua posio).
No Brasil, nada disso. 
A ditadura de Vargas se assombrara com o degelo ocorrido em 1941,
aproximando o Ocidente e a Unio 
Sovitica. Coubera ao Exrcito Vermelho quebrar a invencibilidade
alem, enfrentando uma ofensiva militar que 
chegou a somar 250 divises ao longo de uma frente de quase 2 mil
quilmetros. Churchill, respondendo a um 
amigo perplexo pela defesa que fazia dos soviticos, esclareceu: "Se
Hitier invadisse o inferno, eu diria at 
mesmo uma boa palavra sobre Belzebu na Cmara dos Comuns" ' Cercado
em Corregidor, nas Filipinas, o 
general americano Douglas McArthur dizia que "a esperana da
civilizao repousa nas bandeiras do corajoso 
Exrcito Vermelho".'1 Em pouco mais de dois anos 
9 Ronald Steel, WalterLippmann and theAmerican century, p. 445. 
10 John Colvilie, Thefringes of power, p. 404. 
li John Lewis Gaddis, The United States and the origin ofthe Cold War
- 1941-1947, p. 37. 
O ESCRIBA 125 
os Estados Unidos socorreriam a Unio Sovitica com 9 mil avies, 4
mil 
tanques, 210 mil caminhes e 5 milhes de pares de botas.'2 
No Brasil a guerra era outra. A Censura do Estado Novo proibia, em
1941, a exibio d'O grande ditador, 
de Charles Chaplin.'3 O anticomunismo haveria de lev-la a combater a
prpria aliana antinazista. Em outubro 
de 1942, quando Churchill desembarcou em Moscou, o Departamento de
Imprensa e Propaganda do Estado 
Novo censurara os noticirios cinematogrficos que mostravam o
primeiro-ministro ingls ao lado dos 
governantes soviticos. Um ms depois, com os ventos da guerra
comeando a mudar debaixo das runas de 
Stalingrado, os brasileiros foram impedidos de ver os prisioneiros
alemes marchando diante do ministro da 
Defesa russo.'4 Nem mesmo uma sesso privada para o general Dutra foi
remdio capaz de levantar o veto do 
DIP ao filme A estrela do Norte, histria romntica de guerrilheiros
ucranjanos.'t Em novembro de 1944, 
quando se acreditava que a Alemanha poderia capitular de uma hora para
outra, o chefe do Departamento 
Federal de Segurana Pblica informou a um funcionrio da embaixada
americana que estava pronto para 
trancafiar pelo menos trezentos comunistas.'6 
Os comunistas no foram presos em maio de 1945, quando aAlemanha se
rendeu, mas em outubro, quando 
Getulio Vargas caiu. Inmeras sedes do PCB foram varejadas pela
polcia, encarceraram-se alguns de seus 
dirigentes, e Luiz Carlos Prestes asilou-se na embaixada do Mxico. Na
noite de 31 de outubro, dois dias 
depois da deposio do ditador, um visitante entrou no apartamento do
chanceler Pedro Leo Veiloso. Era o 
embaixador americano Adolf Berle Jr., pedindo o fim da perseguio aos
comunistas: "Manifestei-lhe a 
esperana de que o governo soltaria os lderes. [...] Disse-lhe que
fazia um mau negcio, dava a impresso 
de fraqueza"'7 Se- 
12 Adam B. Ulam, The rivais -America & Russia since Worid WarII, p. 3.
As cifras exatas so 8872 
avies, 3734 tanques, 206 771 caminhes. 
13 Inim Simes, Roteiro da intolerncia - A censura cinematogrfica
no Brasil, p. 28. 
14 Stanley E. Hilton, Brazil and the Soviet chailenge - 1917-1947, p.
185. 
15 Idem, pp. 185-6. Esse episdio ocorreu em dezembro de 1943. 
16 Idem, p. 189. 
17 Adolf A. Berle, Navigating the rapids - 1918-1971, p. 557. 
126 A DITADURA DERROTADA 
melhante bizarria, com um embaixador americano batalhando a libertao
de comunistas, era reflexo da personalidade de 
Berle, mas tambm de uma nova ordem mundial, nova, frgil, porm
liberal. 
O marechal Dutra assumiu a Presidncia da Repblica, em janeiro de
1946, indicando que o flego liberal da nova ordem 
brasileira seria curto. Na chefia do Gabinete Militar ps o general
lcio Souto. Dez anos antes, quando Adolf Hitler 
recomendava ao embaixador brasileiro que o governo "no tivesse
piedade" dos bolcheviques, Dutra pedia aos comandantes 
militares a "represso imediata e impiedosa" contra os comunistas.
Atacava os presos que "despem a camisola dos gals 
para vestirem a tnica dos mrtires"8 Na casa dele se comemorara a
queda de Paris.'9 Dutra elegera-se presidente com o 
apoio da base poltica da ditadura. Sob sua Presidncia as relaes
diplomticas com a URSS, cujo restabelecimento teve o 
incentivo da Casa Branca, duraram precisamente trinta meses e
esfumaaram-se em outubro de 1947.20 O Brasil foi o 
primeiro pas do chamado mundo ocidental a romper relaes com
Moscou.2' A legalidade do Partido Comunista durara 
menos: dezoito meses. Depois de ter conseguido 500 mil votos (10% do
eleitorado) para seu candidato a presidente e de 
ter feito uma bancada de catorze deputados, o PCB, com 180 mil
membros, controlando duas editoras e oito jornais, foi 
posto fora da lei em maio de 1947.22 
Na poca, bem como nas dcadas seguintes, a retrica e a propaganda 
stalinistas atriburam o refluxo poltico de 1947  inspirao
americana. 
18 Stanley E. Hilton, Brazil and the Soviet chalienge - 1917-194 7, p.
113, referindo-se a um telegrama do embaixador Moniz 
de Arago ao Itamaraty, de 29 de janeiro de 1936, no qual narrou a
conversa que teve com Hitler ao entregar-lhe suas 
credenciais. Para a frase de Dutra, ver Ferdinando de Carvalho,
Lembrai-vos de 35!, p. 163. 
19 Informao fornecida a Frank McCann por Euclydes Aranha, mensageiro
que foi  casa do ministro da Guerra para dar a 
notcia. Em McCann Jr., The Brazilian-American Alliance - 1937/1945,
p. 256. 
20 Pio Corra, O mundo em que vivi, p. 289. Para a influncia
americana no restabelecimento de relaes com a uitss, ver 
Gerald K. Haines, The americanization of Brazil, p. 26. 
21 Gerald K. Haines, The americanization of Brazil, p. 28. 
22 Para o tamanho do PCB, carta do embaixador William Pawley ao
presidente Harry Truman, de 
1946, em Stanley E. Hilton, Brazil and the Soviet chalienge - 1917-1
947, p. 208. 
O ESCRIBA 127 
O governo do presidente Harry Truman foi sem dvida anticomunista, mas
no lhe coube a concepo da virada brasileira, 
muito menos o ardor. Era o general lcio Souto quem informava ao
embaixador dos Estados Unidos, antes mesmo da 
abertura dos trabalhos da Assemblia Constituinte, que o PCB seria
cassado. Era tambm ele quem se queixava do que seria 
a excessiva tolerncia americana em relao ao comunismo.23 Foi o
marechal Dutra quem pediu ao presidente Truman que 
colocasse o combate ao comunismo no topo de sua agenda numa rpida
visita ao Brasil.24 O general George Marshall, 
chefe do estado-maior do exrcito americano durante a guerra e
secretrio de Estado em 1947, chegou a sugerir que fosse 
evitado o rompimento de relaes com Moscou.25 Jo ministro da Guerra,
general Goes Monteiro, em torno do qual 
gravitaram os oficiais germanfilos nos primeiros anos de combates,
dizia que"a primeira bomba atmica foi jogada em 
Hiroshima e a segunda em Nagasaki, a terceira e a quarta no atol de
Bikini, mas a quinta, a sexta, stima e oitava podem 
muito bem cair na Rssia".26 
Affonso Henrique de Miranda Corra, o tenente-coronel que comandara os
calabouos da Delegacia Especial de Segurana 
Poltica e Social da ditadura e estagiara por um ano na Gestapo,
tornara-se encarregado da administrao da Escola Superior 
de Guerra.27 O coronel Antonio Jos Coelho dos Reis, o Tom, que
dirigira a mquina de censura e propaganda do DIP e 
nela proibira a exibio d'O grande ditador, chefiava a Divi23 Stanley
E. Hilton, Brazil and the Soviet chailenge - 1917-
1947, p. 211. 
24 Idem, pp. 216-7. 
25 Telegrama do embaixador Oswaldo Aranha ao Itamaraty, de 18 de
outubro de 1947, em Joo Hermes Pereira de Arajo, 
"Oswaldo Aranha e a diplomacia", publicado no volume Oswaldo Aranha -
A estrela da Revoluo, de Aspsia Camargo e 
outros, pp. 345-6. 
26 Stanley E. Hilton, Brazil and the Soviet challenge - 1917-1947, p.
202, com telegrama transmitido pelo adido naval 
americano a Washington, de 6 de junho de 1946. 
27 Para a posio de Miranda Corra, Dicionrio histrico-biogrfico
brasileiro ps-1930, coord. de Alzira Alves de Abreu 
e outros, vol. 2, p. 1603, e o depoimento do general Antonio Carlos
Muricy ao CPDOC, vol. 2, fita 17, p. 325. Associados - 
1950-1987, da ADESG (1987), p. 2, registra Miranda como estagirio da
primeira turma, em 1950. Miranda Corra visitou a 
Alemanha em 1936. Geneton Moraes Neto, Dossi Brasil, p. 171. Para seu
estgio na Gestapo, onde foi condecorado por 
Himmler, Martha K. Huggins, Polcia e poltica - Relaes Estados
Unidos/Amrica Latina, p. 56. 
128 A DITADURA DERROTADA 
so de Assuntos Militares da ESG.28 Tendo passado inclume pela
Segunda 
Guerra Mundial, a direita brasileira entrara invicta na Guerra Fria. 
O tenente-coronel Golbery saiu da casca na Escola Superior de Guerra,
em 1952, com uma srie de conferncias 
que intitulou Aspectos Geopolticos do Brasil. A essa altura estava
revertida a onda esquerdista na 
Europa. Os comunistas haviam sido postos para fora de todos os
governos, os conservadores tinham o poder 
do Tejo ao Reno, e as economias prosperavam. As matanas ocorridas do
outro lado da Cortina de Ferro 
mutilaram o orgulho dos comunistas. Na Amrica Latina a esquerda
vira-se condenada a abandonar quaisquer 
tentativas de alinhamento com o Leste, reorganizando-se atrs de
propostas neutralistas. Getulio Vargas 
acabara de tirar do Ministrio da Guerra o general Newton Estillac
Leal, bomio da malandragem dos bares do 
centro do Rio e oficial audacioso na tropa, revoltoso de 1924 e 30. Em
1942, como coronel e orador da turma da 
Escola de Estado- Maior, chamara Hitier de "porco" diante de uma
platia onde se encontravam Vargas e 
Dutra.29 Na qualificao de um de seus inimigos, Estillac acreditava
que "o Exrcito no estava a para garantir 
privilgios'2 
Aspectos Geopolticos do Brasil  um trabalho meticuloso e pedante.
Nele o tenente-coronel procurou 
mostrar tudo o que sabia, a ponto de misturar, em dois nicos
pargrafos, profecias de Zaratustra, teoria dos 
nmeros e o espao curvo quadridimensional. Na primeira conferncia,
em apenas sete pginas, Golbery 
trabalha na formulao do conceito de segurana nacional. No era o
primeiro a faz-lo, mas, entre todos, viria 
a tornar-se o mais conhecido, chegando a se confundir com a prpria
idia. Com o tempo, repetiria o esquema 
de 1952 em diversos escritos, quase sempre complicando-o. 
28 Para a posio de Coelho dos Reis, depoimento do general Antonio
Carlos Muricy ao CPDOC, 
vol. 2, fita 17, p. 325. Coelho dos Reis deixou a ESG para comandar a
Escola de Estado-Maior e em 
1954 foi nomeado chefe-de-gabinete do ministro Henrique Lott. Para a
censura d'o grande ditador, Inim Simes, 
Roteiro da intolerncia - A censura cinematogrfica no Brasil, p. 28. 
29 Nelson Werneck Sodr, Do Estado Novo  ditadura militar, pp. 9 e
62. 
30 Carlos Lacerda, Depoimento, p. 120. 
II 
O ESCRIBA 129 
Seu preldio  a viso pessimista de uma democracia "exangue de foras
e de vontade", de uma civilizao 
ocidental prxima do aniquilamento e de um mundo atacado pela
"subverso csmica de valores e de 
conceitos' 31 Ctico em relao  ordem internacional, Golbery dizia
que "no se sabe j distinguir onde finda a 
paz e onde comea a guerra", "de guerra total a guerra global; [...] e
- por que no reconhec-lo? - 
permanente"32 
Nessa poca os Estados Unidos lideravam uma guerra na Coria (47 mil
mortos aliados) e a Frana, outra, na 
Indochina (106 mil mortos franceses at o final dos combates, um tero
dos aspirantes da Academia Militar de 
Saint- Cyr a cada ano). Mal tinham terminado guerras civis na China e
na Grcia, j comeava a revolta da 
Arglia. Desde a paz europia haviam- se consumado 25 golpes
militares, vinte dos quais na Amrica Latina.33 
O universo fracassado exibido pelo tenente-coronel era produto de uma
reciclagem do pessimismo do escritor 
alemo Oswald Spengler em sua Decadncia do Ocidente. Spengler
concebera a obra antes do incio da 
Primeira Guerra com a triste concluso de que a civilizao ocidental
chegara a um esgotamento cultural, 
aprisionada pelo poder do dinheiro, do qual s haveria de se libertar
com o advento de um cesarismo em que o 
imperador prevaleceria sobre instituies cuidadosamente preservadas,
porm defuntas. "Tudo girar em torno 
do poder inteiramente pessoal exercido pelo Csar ou por quem quer que
seja capaz de exerc-lo para ele."34 
Golbery acompanhara Spengler na formulao (e at mesmo na estridncia
do estilo), mas separara-se dele 
diante do Csar. Admitira a esterilidade institucional, chegara 
denncia da elite "corrompida em sua moral e 
alheia a seus deveres e responsabilidades", transformada em "minoria
de opresso", mas no dera o ltimo 
passo, aquele que levaria Spengler a esboar no perfil do Csar os
traos de Benito Mussolini.35 O te- 
31 Golbery do Couto e Silva, Geopoltica e poder, pp. 15-6. 
32 Idem,p. 19. 
33 Para o nmero de golpes de 1945 a abril de 53, Morris Janowitz,
Military institutions and coercion in the developing 
nations, pp. 53-6. Na tabulao de Janowitz no foi listada a
deposio de 
Vargas, em 1945. Acrescentei-a. 
34 Oswald Spengler, The decline ofthe West, pp. 376, 378 e 414. 
35 Golbery do Couto e Silva, Os Estudos Estratgicos de reas, Morte e
Transfigurao das Civilizaes e Culturas, em 
Geopoltica e poder, p. 57. 
130 A DITADURA DERROTADA 
nente-coronel vira no poder das armas um "militarismo suicida" e
apelara a um revigoramento da democracia, capaz de 
salv-la dos "braos speros do cesarismo'76 
Seu remdio contra a decadncia era o fortalecimento do Estado.
Primeiro pela necessidade do Estado de "ampliar cada vez 
mais a esfera e o rigor do seu controle sobre uma sociedade j cansada
e desiludida do liberalismo fisiocrtico de eras 
passadas".37 Depois, pela articulao de uma estratgia para a "guerra
onipresente".38 A Grande Estratgia transforma- 
se, por fim, numa "verdadeira poltica de segurana nacional".39
Atravs dela o governo "coordena, dentro de 
um conceito estratgico fundamental, todas as atividades polticas,
econmicas, psicossociais e militares".40 O que em 
Spengler era uma pessoa - o Csar - tornara-se em Golbery um conceito
- a Segurana Nacional. 
Essa viso embutia o projeto de um pas industrializado, com o Estado
regendo o desenvolvimento de setores estratgicos. 
Entre 1947 e 1955 a indstria brasileira crescera 122%.41 O sonho
desenvolvimentista da ESG era sincero, no entanto 
estava amarrado ao conservadorismo poltico e fiscal de seu grande
aliado na Guerra Fria. Os governos dos presidentes 
Truman e Eisenhower queriam oramentos equilibrados, mas condenavam
sobretudo a interferncia do Estado brasileiro na 
economia (ela passara de 17,1% em 1947 para 23,9% em 56) e associavam
iniciativas nacionalistas com ameaas  
segurana e aos negcios americanos. O secretrio do Tesouro, George
Humphrey, sustentava que os Estados Unidos no 
tinham motivo para subsidiar um desenvolvimento potencialmente
competitivo.42 
36 Golbery do Couto e Silva, Geopoltica e poder, pp. 57 e 15. 
37 Idem, p. 15. 
38 Essa noo de universalidade da guerra vinha do rescaldo das
batalhas de 1914-18. A guerra 
total  o ttulo do livro do general alemo Erich Ludendorff em 1935,
cuja edio brasileira saiu 
em 41, pela Editorial Inqurito. Numa de suas conferncias, Golbery
registrou que a idia de "guerra total" vem do 
pensamento alemo dos anos 20. Golbery Couto e Silva, Fortalecimento
do Potencial Nacional - Planejamento, em 
Geopoltica e poder, p. 464. 
39 Golbery do Couto e Silva, Geopoltica e poder, p. 20. 
40 Idem. 
41 Gerald K. Haines, The americanization of Brazil, p. 63. 
42 Memorando de conversa, de Edward C. Cole, diretor do Office of
Regional American Affairs, 
de 2 de outubro de 1953, citado em Gerald K. Haines, The
americanization of Brazil, p. 70. Para a 
participao do Estado na economia, idem, p. 63. 
O ESCRIBA 131 
A poltica americana desse perodo foi documentadamente narrada em
1989, por Gerald Haines, da equipe de 
historiadores da Central Inteiligence Agency. Em seu severo
Americanization ofBrazil, ele escreveu: 
"Advogando uma poltica neocolonial e neomercantilista, os
funcionrios americanos queriam criar e manter 
um fluxo de matrias-primas brutas brasileiras. Eles no queriam que o
Brasil desenvolvesse uma capacidade 
industrial competitiva, especialmente em relao a materiais
estratgicos'43 
Tal circunstncia esteriizava o pensamento da direita militar. Estavam
ao lado dos Estados Unidos na Guerra 
Fria e concordavam com as bases filosficas de seu capitalismo.
Supunham ter um parceiro no aliado, mas no 
conheciam a extenso do seu desinteresse pela expanso industrial
brasileira. Capturado pelo conflito 
ideolgico, esse pensamento associou-se a um projeto americano que
lhes oferecia qualquer tipo de 
solidariedade, menos a industrializao acelerada. Como observaria
Haines: "A poltica americana em relao 
ao Brasil baseou-se em imagens, valores, mitos, esteretipos e
distores da realidade. Foi uma combinao de 
clculo poltico, interesse, paternalismo e evangelismo. Ainda assim,
deu certo'44 
Do ponto de vista institucional a proposta de Golbery na ESG resumia-
se a um palavrrio. A prpria idia do 
Conceito Estratgico j fora apresentada em 1949 por Cordeiro de
Farias. Em tese seria algo como a Arca da 
Aliana do projeto nacional. Na prtica, era nada. Em 1969 o general
Joo Baptista Figueiredo, chefe do estado-
maior do iii Exrcito, descobriu que o planejamento das aes
militares de suas tropas no conferia com o 
Conceito Estratgico. Durante a maior parte do consulado militar os
principais textos de estratgia, 
planejamento e ordem de operaes foram documentos conflitantes.45 Em
junho de 1974, pouco depois de ter 
assumido a Presidncia da Repblica, Geisel informou ao Alto-Comando
das Foras Armadas que, tendo lido o 
misterioso enunciado do Conceito Estratgico, percebera-o velho e
inepto, mandando redefini-lo.46 Esse 
traba43 Gerald K. Haines, The americanization of Brazil, p. 87. 
44 Idem, p. 185. 
45 Conversa de Figueiredo com Geisel, 9 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF. 
46 Mao de quarenta folhas anotadas por Heitor Ferreira, intitulado
Primeira Transcrio do Pronunciamento do 
Presidente Geisel na Reunio do Alto-Comando das Foras Armadas, em 10
de junho de 1974. APGCS/HF. 
132 A DITADURA DERROTADA 
lho durou perto de um ano e, uma vez concludo, adquiriu tamanha
confldencialidade, que Heitor Ferreira, 
secretrio do presidente da Repblica, querendo descobrir a essncia
da estratgia da nao em que vivia, 
recorreu ao chefe do SNI, para conseguir-lhe uma cpia, sem sucesso.47
Nada de novo estava sucedendo em 1952 debaixo do cu da praia da Urca.
O Conselho de Segurana Nacional 
existia desde 1934, a Lei de Segurana Nacional, desde 35. A expresso
era corriqueira, carregando sempre 
(antes e depois dos ciclos de conferncias da ESG) um contedo
relacionado com a represso poltica. Ao 
renascer, no entanto, tinha uma aparncia mais utilitria do que
repressiva. Em maio de 1949, Cordeiro de Farias 
j dissera que, "s com uma organizao apropriada de governo, ser
possvel uma poltica de segurana 
nacional", indicando que a preocupao central do general e dos
oficiais que viriam a formar a ESG no era 
apenas a definio da poltica de segurana, mas acima de tudo a
"organizao apropriada do governo"48 Se 
possvel, com o projeto deles, de preferncia sem Getulio Vargas. 
Foi no incio dos anos 50 que, no Catete, algum teve a idia de dizer
que os oficiais envolvidos nas 
conspiraes contra o governo eram mais de "fritar bolinhos" Expresso
da malandragem, variante da velha 
conversa fiada, referia-se s mulheres que tricotavam a vida alheia
enquanto vigiavam suas frituras. O apelido 
foi perfilhado pelos conspiradores, e eles passaram a se denominar
"fritadores de bolinhos"49 Vagavam por 
apartamentos da Zona Sul do Rio, com freqncia pelo edificio Montese,
no Leme, onde vivia um naco da 
hierarquia militar. Desde o retorno de Vargas ao poder, insuflavam e
seguiam o jornalista Carlos Lacerda, cujos 
47 Bilhete de Heitor Ferreira a Figueiredo, de 8 de dezembro de 1976.
APGCS/HF. 
48 Oswaldo Cordeiro de Farias, Palestra sobre a Organizao da Escola
Superior de Guerra, realizada na Escola de 
Estado-Maior, p. 7. 
49 Em 9 de julho de 1958 Golbery usou essa expresso numa carta a
Heitor Ferreira: "Recebi ultimamente 
alguns encargos que me roubaram, tremendamente, o pouco tempo
disponvel que o 'fritar bolinhos' 
comumente nos permite' APGCS/HF. 
O ESCRIBA 133 
artigos na Tribuna da Imprensa devastavam o governo. Em 1954 Lacerda
estava entre os estagirios de 
meio expediente da ESG. 
Dois manifestos militares fritaram Getulio Vargas, O primeiro saiu em
fevereiro. Chamou-se Memorial dos 
Coronis. Assinado por 81 oficiais superiores, moralista e
antiinflacionrio, foi talvez o nico protesto de 
assalariados contra um aumento de salrio mnimo: "Perigosas s
podero ser hoje, portanto, nos meios 
militares, as repercusses que j se pressentem e anunciam de leis ou
decises governamentais que, 
beneficiando certas classes ou grupos, acarretaro pronunciado aumento
do custo j insuportvel de todas as 
utilidades'7 
Na tarde de 23 de agosto de 1954, assinado por trinta generais da
guarnio do Rio de Janeiro, circulou um 
Manifesto dos Generais pedindo a renncia do presidente: "Conscientes
dos seus deveres e 
responsabilidades perante a Nao [...] e solidarizando-se com o
pensamento dos camaradas da Aeronutica e 
da Marinha, declaram julgar [...j como melhor caminho para
tranqilizar o povo e manter unidas as foras 
armadas a renncia do atual presidente da Repb1ica"5' 
O estilo dos dois manifestos era inconfundvel. Corca, codinome de
conspirador que derivava de uma 
corruptela de Corcunda (o de Notre-Dame 
era marido de Esmeralda, no romance de Victor Hugo), escrevera os
dois.52 
Aquele tenente-coronel polido, culto e calado comeava a ser
conhecido. Golbery era um dos mais fortes 
candidatos  condio de "intelectual do Exrcito" Divertia-se
submetendo-se a torneios culturais, 
identificando pintores em livros, compositores nas transmisses de
msica clssica da rdio Ministrio da 
Educao, redigindo conferncias literrias para os chefes e
resolvendo problemas de matemtica moderna.53 
Em outubro de 1954, enquanto boa parte dos "fritadores de bolinhos" se
mu 5 
Edgar Carone, A Quarta Repblica (1945-1964), pp. 556 e segs. O
Memorial foi assinado por 42 
coronis e 39 tenentes-coronis. 
51 Quatro folhas com o texto do manifesto. APGCS/HF. 
52 Golbery reconheceu a autoria desses manifestos em diversas
conversas com o autor. 
53 Depoimento do general Antonio Carlos Muricy ao CPDOC, vol. 2, fita
19, p. 353. Para a conferncia literria, Semana de Euclydes da Cunha 
(Cinqentendrio de Os Sertes), conferncia do general Canrobert
Pereira da Costa, novembro de 1952 (plaquete). APGCS/HF. 
134 A DITADURA DERROTADA 
dara para o palcio do Catete, Golbery continuou na ESG e l deu
incio ao mais influente de todos os seus 
ciclos de conferncias. Chamava-se O Planejamento e a Segurana
Nacional. 
Aqui e ali ainda h ecos de Spengler ("uma civilizao talvez j
ferida de morte"), mas a influncia do 
pessimismo alemo se dissolvera. No lugar dela est o choque entre
dois modelos: a "anomia" dos Estados 
liberais ou o "totalitarismo" dos regimes socialistas. A sada? "Uma
nova era para a histria da humanidade, a 
era do planejamento, de liberdade e de justia ' Chegara a sugerir que
o Brasil fosse posto ao compasso de um 
plano qinqenal. (Adotado no final do primeiro ano do mandato de um
presidente, ele sempre se estenderia 
por todo o primeiro ano do seu sucessor.)54 Uma utopia, que se deveria
alcanar atravs de um mtodo: o 
"planejamento da Segurana Nacional" Na sua expresso mais simples a
poltica de segurana nacional era a 
promessa de um planejamento competente (nas mos dos "fritadores de
bolinhos"). Esse pensamento 
edificava-se numa concepo da atividade pblica desligada das
instituies republicanas. Uma utopia em que 
faltava relevncia s eleies, aos partidos e ao Parlamento. Na
definio de Oliveiros 5. Ferreira, um 
"liberalismo [...] sem cidados'55 Planos e diretrizes ocupavam e
abafavam o espao da vida poltica e da 
negociao do dissenso. O planejamento dependeria da definio dos
termos em que se amparava. De todos 
eles o mais complicado era precisamente o que parecia mais simples:
guerra. O que vinha a ser uma guerra? 
Em 1952, Cordeiro de Farias vira duas no horizonte: uma guerra
mundial, com pequena participao brasileira, 
outra sul-americana, talvez platina, na qual seria preciso brigar
feio.56 No entendimento de Golbery, "guerra" 
significava guerra: "Fiquemos, pois, com a distino corrente e at
mesmo popular entre guerra e paz. 
Pergunte-se a quem quer que seja se a iii Guerra Mundial j rebentou e
a resposta imediata no deixar 
quaisquer dvidas'57 
54 Golbery do Couto e Silva, O Planejamento e a Segurana Nacional, em
Geopoltica e poder, 
pp. 310 e 359. 
55 Oliveiros S. Ferreira, Foras Armadas, para qu?, pp. 5-28. 
56 Oswaldo Cordeiro de Farias, Conceito Estratgico Nacional -
Diretrizes Governamentais. Conferncia feita na ESG em 
10 de junho de 1952, pp. 1-2. 
57 Golbery do Couto e Silva, O Planejamento e a Segurana Nacional, em
Geopoltica e poder, p. 324. 
O ESCRIBA 135 
Mesmo assim, Golbery reconhecia que era preciso definir "o problema
complexo da guerra civi1' 
que ele tambm chama de "guerra subversiva' 58 Tratava-se de questo
essencial para todo 
planejamento. Isso porque era na classificao das presses internas
que se haveria de marcar a 
rgua de qualquer poltica de segurana nacional. Ela seria a base do
clculo para determinar o 
momento em que o governo declararia guerra a uma parte do seu povo. 
Golbery achava necessrio planejar a guerra contra movimentos internos
que culminassem "na 
subverso armada, na revoluo, na guerra civil" No caso da subverso
comunista, argumentava 
que a hiptese de guerra contra a "poderosa quinta-coluna" deveria ser
a mesma concebida para "a 
agresso externa partida da Rssia ou de seus satlites"59 Apesar de
total, a guerra s comearia 
de verdade quando houvesse uma ameaa tangvel: "De qualquer forma,
entre uma subverso 
armada e as perturbaes da ordem pblica que requeiram apenas mera
represso de carter 
policial, a diferenciao no apresenta, em geral, maiores
dificuldades" 6 
A Doutrina de Segurana Nacional cuja codificao se iniciou em 1953
fora pouco mais que um espichamento 
de velhas idias sadas do Estado Novo e de novas apostilas
americanas, quase todas resumidas por Cordeiro 
de Farias um ano antes.6' A noo de guerra revolucionria, que daria
um novo sentido ao anticomunismo 
militar em todo o mundo, mal comeara a ser formulada pelos generais
franceses batidos na Indochina, 
expulsos do Marrocos e da Tunsia, dispostos a uma desforra na
Arglia. A expresso "guerra revolucionria" 
no consta de nenhuma conferncia de Golbery nos anos 50. 
Ele denunciava "as tiranias despudoradas e retrgradas que, sob a
bandeira de um salvacionismo 
as mais das vezes insincero e sempre suspeito, 
58 Golbery do Couto e Silva, O Planejamento e a Segurana Naciona4 em
Geopoltica e poder, pp. 322-5. 
59 Idem, p. 328. 
60 Idem, pp. 325-6. 
61 Edmundo Campos Coelho, Em busca de identidade - O Exrcito e
apoltica na sociedade brasileira, 
p. 124. 
136 A DITADURA DERROTADA 
nunca trepidam em denunciar os perigos e invocar a Segurana Nacional,
para [...] alargarem, insaciveis, o 
seu poder de coao e de mando"62 
Entre 1952 e 1954 o tenente-coronel Golbery viveu os anos dourados da
ESG, mas nem ele nem ela formularam 
um pensamento original. Pode-se atribuir a ambos um grande esforo
metodolgico, buscando a 
sistematizao de esquemas capazes de facilitar estudos posteriores,
mas nada alm disso. Fora uma rdua 
maratona de estudos, marcada pelo zelo e pela humildade daquele ncleo
de "fritadores de bolinhos" Gerao 
como essa a escola jamais voltaria a ver. Em 1958 a Biblioteca do
Exrcito publicaria as palestras do tenente-
coronel num livro intitulado Planejamento estratgico, com uma
provvel tiragem de 10 mil exemplares, da 
qual sobraria encalhe sete anos depois.63 Com o tempo decairia at
mesmo o interesse de Golbery pelo 
assunto. S isso explica o fato de que um artigo intitulado
"Planejamento da Segurana Nacional - Conceitos 
Fundamentais", que saiu no final de 1960, seja uma cpia quase
integral de uma palestra de ttulo semelhante, 
feita dois anos antes.64 
Do conjunto das conferncias de Golbery na ESG ressalta um ausente: as
Foras Armadas. Em menos de meio 
sculo haviam derrubado dois presidentes e trs regimes. No h sobre
elas anlise ou juzo, muito menos 
crtica, como se no fizessem parte da problemtica nacional, vida
por planejamento e segurana. Refere-se a 
elas trs vezes, em passagens irrelevantes. 
O negcio do tenente-coronel era "fritar bolinhos", at que, na noite
de 11 de novembro de 1955, fritaram-no. A 
conspirao vitoriosa de 
62 Golbery do Couto e Silva, Planejamento da Segurana Nacional -
Conceitos Fundamentais, conferncia de 1958, em 
Geopoltica e poder, p. 431. 
63 Para a tiragem, Heitor Ferreira, novembro de 2002. Em 1965 a edio
do Planejamento estratgico ainda podia ser encontrada na 
banca da Biblioteca do Exrcito, na feira do livro realizada na
Cinelndia, no Rio de Janeiro. Geopoltica do Brasil, 
o livro seguinte de Golbery, foi publicado em 1967, com tiragem de 2
mil exemplares. Contrato de Direitos 
Autorais entre a Jos Olympio Editora e Golbery do Couto e Silva.
APGCS/HF. 
64 Ver Golbery do Couto e Silva, Geopoltica e poder, pp. 430-77. 
O ESCRIBA 137 
agosto de 1954 naufragara catorze meses depois, quando o general
Juarez Tvora, um dos seus corifeus, vira-
se derrotado pelo governador mineiro Juscelino Kubitschek na disputa
pela Presidncia da Repblica. O 
general rompera um pacto segundo o qual nenhum dos grandes chefes
militares disputaria a eleio.65 Golbery 
sempre achara aquela candidatura um desastre: "O lanamento do nome do
Juarez nos obrigava a apoi-lo e, 
tendo-o apoiado, a respeitar o resultado'66 Como em 1950, o resultado
fora adverso, e novamente o jornalista 
Carlos Lacerda pedia o golpe. Antes mesmo da eleio, propusera um
regime de exceo.67 Depois dela, 
chamou o resultado "mentira democrtica" e sustentou que Kubitschek
"no pode ser presidente, no ser 
presidente'68 Veio a "Novembrada' e Golbery foi levado preso para o
quartel-general, onde se guardavam os 
"fritadores de bolinhos" na Inspetoria Geral. O ambiente era corts, o
coronel Nelson Werneck Sodr, quadro 
do Partido Comunista, fez e serviu caf aos presos. A diviso militar
nascida naquela noite no permitiria a 
repetio de semelhantes cavalheirismos.69 
A direita militar vira-se batida por dois lances inesperados, O
primeiro fora o suicdio de Vargas, que 
transformou um presidente deposto num mito histrico invencvel. O
segundo foi o golpe de Lott, que 
transformou um general disciplinado e inflexvel no condestvel de uma
ordem distante e adversria dos 
"fritadores de bolinhos" 
Um ano depois da "Novembrada", promovido a coronel, Golbery estava no
Estado-Maior. L, haveria de 
comear a convivncia dele com o coronel Ernesto Geisel e com um novo
subordinado a quem se afeioaria, o 
tenente-coronel Joo Baptista Figueiredo, ento com quarenta anos.
Retornara  "guerra contra o bloco 
comunista' Completara trinta anos 
65 O pacto fora concertado pelo prprio Juarez com o general Canrobert
Pereira da Costa e o 
brigadeiro Eduardo Gomes. Depoimento do general Antonio Carlos Muricy
ao CPDOC, vol. 2, fita 22, p. 12. 
66 Golbery do Couto e Silva, 1973. 
67 Carlos Lacerda, Depoimento, p. 151. 
68 John W. F. Dulles, Carlos Lacerda -A vida de um lutador, vol.
1:1914-1960, p. 224. 
69 Nelson Werneck Sodr, Do Estado Novo  ditadura militar, p. 191.
Golbery foi libertado no dia 
13. Ele e outros 34 oficiais foram levados depois para o Centro de
Preparao de Oficiais da Reserva. Carta do 
general Newton Cruz ao autor, julho de 2003. 
138 A DITADURA DERROTADA 
de Exrcito, ajudara a derrubar um presidente, desenhara uma nova
repblica em suas conferncias, mas, tal 
qual Geisel, no cumprira os dois anos regulamentares de
arregimentao como coronel numa caserna. 
Golbery vagara por escrivaninhas com seus exrcitos imaginrios e
guerras apocalpticas, mas no Estado-
Maior viu-se diante de verdadeiros problemas de segurana nacional. Um
documento informava: "As atuais 
divises, organizadas com efetivos de paz e tendo suas sedes
escolhidas em funo das necessidades de 
manuteno da ordem interna, no estariam aptas  participao, em
curto prazo, em operaes de guerra'7 
Num exemplo dessa situao, o comandante da Artilharia de Costa de
Niteri registraria: "A artilharia, como 
artilharia, no poderia atuar de jeito nenhum, a no ser para fazer
barulho"71 Como dizia o adido militar 
brasileiro em Washington, "so passados quarenta anos do meu ingresso
no Exrcito e nunca tive o gostinho 
de trabalhar em unidades de fato constitudas, sempre fazendo de
conta, agindo como se fora!".72 Era um 
Exrcito voltado para a ordem interna, hipertrofiado no Rio de
Janeiro, refratrio a mudanas. As panelinhas 
predominavam a ponto de um comandante da Vila Militar ter organizado o
embrio de uma sociedade secreta 
destinada a alavancar a carreira dos oficiais de infantaria.73 
Em 1960 a eleio de Jnio Quadros levou os "fritadores de bolinhos"
ao poder, e poderia parecer que as 
Foras Armadas passariam por um saudvel programa de reformas. Golbery
recebeu uma carta de um tenente 
que pedia um plano "drstico" de mudanas na estrutura do Exrcito,
"um programa de cortes, um 
restabelecimento da verdade operacional' Para o planejamento da
segurana nacional, nada mais elementar e 
indispensvel. Para o planejamento da segurana poltica do governo,
nada mais perigoso. Golbery fulminou: 
70 Estudo da 3 Seo do EME sobre a situao do Acordo de Fernando de
Noronha. Sem data 
nem assinatura, anotado por Golbery. APGCS/HF. 
71 Depoimento do general Antonio Carlos Muricy ao ci'ooc, vol. 2, fita
23, p. 1. 
72 Carta de 20 de junho de 1957, do general Coelho ao coronel Ernesto
Geisel. APGCS/HF. 
73 Trs cartas de maio de 1959, do general Jair Dantas Ribeiro,
comandante da Vila Militar, 1 oi, 
endereadas a oficiais de infantaria em "carter confidencial"
APGCS/HF. 
O ESCRIBA 139 
No o julgo possvel, pelo menos no que se refere ao qualificativo do
"drstico". Convenhamos que vitria 
enorme houve, mas foi, em medida enorme, pessoal de Jnio Quadros.
Encaremos o problema do ponto de 
vista do vitorioso (j). Ser o caso de permitir que haja problemas na
rea militar, perguntar-se- ele? A 
Aeronutica exige mudana (os comunistas tero de ser afastados, sem
dvida). Na Marinha h luta de grupos 
a apaziguar (e o problema do porta-avies...). Ento, para que mexer
no Exrcito, onde as ambies esto 
contidas?74 
Rendido por um operador poltico, o coronel dos pargrafos empolados
sobreviveria apenas nas apostilas da 
ESG ou nos exemplares amarelados do Planejamento estratgico. A partir
de 1960 as circunstncias da 
poltica levaram Golbery a escrever para platias cada vez menores, ao
mesmo tempo que tomava gosto pela 
mitologia de mistrio que se formou em torno da figura dele. Esses
dois fatores produziram uma super- 
valorizao de suas conferncias dos anos 50. Como elas eram a nica
fonte de acesso ao pensamento daquele 
oficial introvertido, traaram-lhe as principais linhas da
personalidade pblica, embaralhando-a. Assim como 
no havia nenhuma relao entre as maneiras de ele escrever e falar,
tambm no havia relao entre a 
complexidade de seus esquemas e a simplicidade de seus objetivos. Na
mesma resposta ao tenente 
entusiasmado, acrescentaria: "Esquecia-me de responder a uma indagao
sua sobre os postos-chaves 
(estratgicos). O gabinete militar da presidncia, a secretaria geral,
o Servio Federal de Informao, so-no, 
sem dvida"75 
Pois em fevereiro de 1961 o coronel Golbery do Couto e Silva assumiu a
secretaria geral do Conselho de 
Segurana Nacional e o controle do Servio Federal de Informaes e
Contra-Informao, O SFICI surgira no 
final do governo Kubitschek, com o propsito de anexar uma central de
informaes  Presidncia. 
74 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 15 de outubro de 1960.
APGCS/HF. 
75 Idem. 
Ps de veludo 
"Ele era um homem misterioso. No era afirmativo, andava com ps de
veludo. Acho que da equipe de ento s 
o presidente o conheceu", recordaria Jos Aparecido de Oliveira,
secretrio particular de Jnio Quadros.1 
Golbery sentia-se num posto-chave, mas nem sequer tinha sala no
palcio. Aninhara-se a mil quilmetros de 
Braslia, no terceiro andar de uma das mais barulhentas esquinas do
Rio de Janeiro: avenida Presidente Vargas 
com rua Uruguaiana. O Conselho de Segurana ocupava quatro andares num
modesto edificio em cuja loja, 
sob um letreiro vermelho, funcionava a Casa da Borracha. Uma parte dos
"fritadores de bolinhos" comearia a 
formar a Turma da Casa da Borracha. 
No Servio Federal de Informaes e Contra-Informao havia quinze
oficiais. Comandava a equipe o coronel 
Ednardo D'Avila Meilo, um oficial benquisto, bom jogador de basquete,
signatrio do Memorial dos 
Coronis de 1954. Abaixo estavam os tenentes-coronis Joo Baptista
Figueiredo, Walter Pires de Carvalho e 
Mrio Andreazza.2 Vinham todos da militncia antigetulista e das
desordens que resultaram na queda do 
ministro Estillac Leal, em 1952, e do presidente Carlos Luz, em 55.
Enquanto na ltima equipe de oficiais do 
SFICI de Kubitschek podiam encontrar-se oficiais que discordavam da
poltica do governo, como o tenente-
coronel Ernani 
1 Entrevista de Jos Aparecido de Oliveira a Suzana Verissimo, de
Veja, original consultado em 
1986 no Departamento de Documentao da Editora Abril. 
2 Lista de Oficiais Lotados no SFICI em 1961, 1961. APGCS/HF. 
142 A DITADURA DERROTADA 
Ayrosa, futuro scio fundador da Oban, no Servio de Golbery no havia
brechas: "Tudo gente nova - e boa", 
escreveria.3 
O coronel no estava para brincadeira: 
Eles gregrios,4 corruptos, oportunistas, aproveitadores e comunas -
j esto estrilando, e vo estrilar ainda 
mais. Por enquanto, no tm ambiente. O povo goza da vassourada. Mas
quando a vida apertar - e vai apertar 
ainda (os desmandos de JK produziro frutos amargos por mais uns seis
meses); as medidas de austeridade e 
conteno so sempre amargas, como toda mezinha contra indigestes - a
onda de intranqilidade e 
desassossego vai crescer. E "eles" estaro  espreita para
aproveit-la em seu prprio benefcio.  preciso 
estar alerta. No nos descuidemos. A administrao pblica, civil, e
tambm militar, est muito infiltrada, Os 
canais oficiais de informao so lerdos e no merecem confiana
integral.  preciso no parar.5 
O misterioso secretrio do Conselho de Segurana abria sua alma
correspondendo-se com um tenente de 21 
anos que servia no 6 Esquadro de Reconhecimento Mecanizado, em Porto
Alegre. Chamava-se Heitor Aquino 
Ferreira. Filho de um ferrovirio, primeiro de turma, atrara a
ateno de Golbery por ser, como ele, um leitor 
compulsivo. Conspirava como tpico oficial latino-americano, mas dava
palpites como marechal de Napoleo. 
Gravitava em torno dos "fritadores de bolinhos" desde meados dos anos
50, ainda cadete. Era voluntrio para 
pequenos servios de datilografia, recados e tradues. Durante a
campanha presidencial assessorara Jnio na 
sua passagem por Porto Alegre e, manifestando um senso histrico que o
acompanharia Repblica afora, 
guardara no bolso as notas que o candidato a presidente levara para
uma 
3 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 11 de maro de 1961.
APGCS/HF. 
4 Denominavam-se "gregrios" os oficiais acusados de serem ligados ao
palcio presidencial. Tratavase de uma referncia crtica  condecorao
dada a 
Gregrio Fortunato, chefe da guarda pessoal 
de Getulio Vargas, pelo ministro da Guerra. 
5 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 18 de janeiro de 1961.
APGCS/HF. 
PfS DE VELUDO 143 
entrevista  rdio Guaba.6 Nas cartas a Heitor, a quem conhecera em
1955, Golbery praticava um dilogo 
pedaggico em que, ao mesmo tempo que ensinava, desabafava e aprendia.
Ora contava as malandragens dos outros: "Ningum admite sacrifcios, a
no ser  custa alheia; todos so 
como ostras, agarrados aos cargos melhores, de onde, para no sair, se
submetem a qualquer vexame. No 
fundo das mais amplas e sugestivas propostas, l vem, escondida, a
pretenso mesquinha - 'os amigos 
lembram meu nome para tal funo (civil, na sua maioria) e, afinal,
estou pronto a sacrificar-me.. . Conseguida a 
funo, o pedido  ento consider-la de interesse militar... E por a
vamos".7 
Ora contava as suas: "Afinal, podemos em alguns casos abrir mo de
punio de certas irregularidades 
passadas, contanto que isso contribua decisivamente para impor um
regime de moralidade, daqui por diante. 
Julga isso algo cnico? Quero sua opinio sincera"8 
Falava at mesmo daquilo que chamava de "cousas pessoais" Contava suas
emoes no casamento de Vera, 
sua filha mais velha: "Engalanar-se todo para, afinal, perd-la (at
certo ponto,  claro)"9 Gostava de receber as 
cartas do tenente: "Sua terceira carta foi econmica. Aumentou muito o
preo do papel? Escreva logo' 
Golbery entrava na Casa da Borracha s sete e meia da manh e saa s
oito e meia da noite. Sabia bem o 
que queria: "O urgente, para mim, so as informaes, depois, o
problema do planejamento de emergncia 
(segurana interna)"i' Tentava reformar o Conselho de Segurana
dividindo-o em cmaras e separando a figura 
do seu secretrio-geral da do chefe do Gabinete Militar. Conseguira
montar uma rede de telex que ia ao palcio 
do Planalto, onde pusera um aparelho capaz de operar men6 Uma folha,
com notas manuscritas de Jnio 
Quadros, de 9 de setembro de 1960. APGCS/HF. 
7 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 11 de maro de 1961.
APGCS/HF. 
8 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 25 de julho de 1961.
APGCS/HF. 
9 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 7 de setembro de 1960.
APGCS/HF. Golbery tinha um filho, Golbery do 
Couto e Silva Jr., e anos mais tarde ele e a mulher adotariam Anglica
do Couto 
e Silva. 
10 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 21 de abril de 1961.
APGCS/HF. 
li Idem. 
144 A DITADURA DERROTADA 
sagens em cdigo e se ligara ao Gabinete Militar por meio de um canal
de rdio. Abastecia a Presidncia com 
uma sinopse e flashes, alm de um boletim dirio, mandado por malote
areo. No fim de cada ms elaborava um 
relatrio de cinqenta pginas e uma Estimativa ultra-secreta de trs
ou quatro que, em tese, devia chegar s 
mos de Jnio.'2 Comeara, tambm, a organizar um arquivo com fichas
de funcionrios e polticos, sobretudo 
de esquerda. 
Numa dessas Estimativas previra um "srio perodo de agitaes sociais
e mesmo perturbao da ordem 
pblica" para o fim de 1961 ou incio de 62: "Impe-se dispor de um
sistema repressivo capaz de atuar com 
eficincia e presteza, fazendo mesmo abortar as manifestaes mais
perigosas' Queixava-se da "inadequada 
preparao, material e psicolgica, das prprias foras armadas para
intervenes, seja contra distrbios de rua 
e manifestaes grevistas, seja em face da agitao das massas
rurais")3 
A obra-mestra de Golbery no Conselho foi a tentativa de construo do
dispositivo policial.'4 Ele fizera um 
plano, produzira um documento intitulado Diretrizes Governamentais
para a Segurana Interna e 
obtivera a criao de uma comisso coordenadora para tratar do
assunto.15 Conhecem-se apenas alguns 
detalhes do projeto. Caberia ao EMFA o planejamento das aes
repressivas no campo militar, enquanto se 
reforariam pessoal e verbas dos rgos de busca das Foras Armadas.
Alm disso, seriam aparelhadas 
secretarias de Segurana Nacional nos ministrios civis. A comisso
coordenadora, com delegacias em 
diversos pontos do pas, teria regras para o funcionamento em perodos
normais e em caso de crise, equipada 
com planos de informaes e pedidos de busca, contra-informao,
propaganda e contrapropaganda.'6 
Tratava-se de enquistar nas Foras Armadas um aparelho policial
perfeito e acabado. 
12 Cartas de Golbery a Heitor Ferreira, de 21 de abril, 27 de maio e
25 de julho de 1961. APGCS/HF. 
13 Estimativa de 4 de abril de 1961. APGCS/HF. 
14 Estimativa de 5 de maio de 1961. APGcS/}-IF. 
15 As Diretrizes Governamentais para a Segurana Interna foram
expedidas em 9 de maio de 1961, 
em Estimativa de 5 de junho de 1961. APGCS/HF. 
16 Agenda da reunio de 12 de junho de 1961 da comisso coordenadora
para a Segurana Interna. Trs folhas assinadas pelo general Pedro
Geraldo de Almeida, chefe 
do 
Gabinete Militar e secretrio-geral do Conselho de Segurana Nacional.
Marcado "ultra-secreto' APGCS/HF. 
PS DE VELUDO 145 
Desde janeiro de 1959, quando Fidel Castro entrara em Havana, a
poltica latino-americana estava 
convulsionada pelo mito dos guerrilheiros e pela gradativa
radicalizao daquela revolta de barbudos 
romnticos. Castro anunciara que "estamos fazendo uma revoluo
socialista debaixo do nariz dos 
americanos" e assombrara o mundo repelindo em 72 horas uma invaso de
exilados patrocinada pelos Estados 
Unidos. Capturara 1100 combatentes e obrigara o presidente John
Kennedy a troc-los meses depois por 
comida e remdios. Francisco Julio, o lder das Ligas Camponesas do
Nordeste, principal candidato a Fidel 
Castro brasileiro, levara cem lavradores para Havana. No Conselho de
Segurana, um estudo sobre as Ligas 
resultara num documento de trinta pginas.17 
Havia uma novidade no pensamento militar ocidental. Chamava- se guerra
revolucionria. A expresso fora 
enunciada pela primeira vez por Mao Zedong em 1929 e resumia-se a trs
grandes princpios, um poltico e dois 
militares, todos tpicos da Guerra Civil Chinesa: 
O guerrilheiro est para o povo como o peixe est para a gua. 
Dividir as nossas foras para levantar as massas, concentr-las para 
lidar com o inimigo. 
O inimigo avana, ns nos retiramos, O inimigo acampa, ns
espicaamos. O inimigo est esgotado, ns 
atacamos. O inimigo bate em retirada, ns o perseguimos.'8 
No centro das preocupaes de Mao e de seus adversrios havia 
uma s questo: o apoio do povo. 
17 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 25 de julho de 1961.
APGCS/HF. 
18 A primeira frase  uma traduo livre de um trecho do captulo "O
problema poltico da guerra de guerrilhas", de Sobre a guerra de
guerrilhas 
<http://www.marxists.org/reference/archive/ 
mao/works/1937/guerrilla-warfare/chO6.htm>, e Jonathan D. Spence, The
search for modern China, 
p. 375. 
146 A DITADURA DERROTADA 
Derrotados em 1954 na Indochina (depois de terem sido batidos na
Segunda Guerra Mundial), os generais 
franceses buscaram nos alfarrbios maostas uma explicao tautolgica
para seus desastres: como as guerras 
revolucionrias so decididas pelo apoio popular, perdeu-se a
Indochina porque os vietnamitas ficaram do 
lado dos vietnamitas. 
Transformando o conflito militar numa competio psicolgica, os
generais franceses diminuram a importncia 
das guerras que perderam e aumentaram a relevncia dos combates que
no travaram. Em outubro de 1954, a 
Revue Militaire d'Information - o mais respeitado peridico do gnero
na Frana - publicou o artigo 
intitulado "O papel ideolgico no exrcito", do ex-comandante da
aviao na Indochina, general Lionel Max 
Chassin. Em fevereiro de 1957, a Revue saiu com um nmero especial
intitulado La Guerre 
Rvolutionnaire e teve de dobrar sua tiragem, chegando a quase 100 mil
exemplares. Nos trs anos que 
separaram essas duas publicaes, o exrcito francs conseguiu uma
explicao para o que lhe sucedera na 
Indochina e uma justificativa para o que faria na Arglia.' 9 Produziu
at mesmo uma denominao de 
convenincia: Guerra Suja.2 Influenciando uma parcela do pensamento
militar americano, o conceito de guerra 
revolucionria serviria, a partir de 1960, para explicar o que
acontecera em Cuba e para justificar o que 
aconteceria no Vietn.2' 
A novidade mal chegara ao Brasil. A temvel figura do guerrilheiro
estivera ao largo das formulaes da ESG. 
Em 1950 o general Castello Branco falara nele durante uma palestra
intitulada Tendncias de Emprego das 
Foras Terrestres na Guerra Futura, anexando-o ao arsenal das foras
nacionais: "Tem relevo o 
emprego de guerrilheiros que, no sendo numerosos, exigem que a
escolha das regies para guerrilhas se faa 
em combi19 Para a crtica do conceito de guerra revolucionria, ver a
argumentao de Edgar 5. Furniss 
Jr., em De Gaulle and the FrenchArmy, pp. 41-63. Para as publicaes
francesas, e tambm para o surgimento do 
conceito de guerra revolucionria, ver Raoul Girardet, "La crise
militaire franaise - 1945-1 962' Cahiers de la 
Fondation Nationale des Sciences Politiques, n5 123, 1964, Paris
(Armand Colin). 
20 "La guerre sa1e' em francs. David Halberstam, The Fifties, p. 399.
21 Para uma viso da matriz francesa do conceito de guerra
revolucionria, ver o depoimento do general 
Octavio Costa, em Vises do golpe, organizado por Maria Celina
d'Araujo, Glucio Ary Dillon Soares e Celso 
Castro, p. 78. 
1 
PS DE VELUDO 147 
nao bem delineada com as operaes regulares".22 Sete anos depois,
tratando da Doutrina Militar Brasileira, 
Castello continuou refratrio  idia de existncia de uma modalidade
de guerra subversiva.23 Na lista de tpicos da 
Doutrina de Segurana Nacional preparada para o ano letivo de 1955, a
ESG tambm no trata de guerras 
revolucionrias ou congneres.24 
Um conceito semelhante, de "guerra subversiva' fora introduzido no
vocabulrio dos chefes militares em 1953, pelo general 
Canrobert Pereira da Costa. Ele usou a expresso numa palestra, mas
ressalvou: "Se bem que alguns estudiosos a 
cataloguem como uma forma distinta de guerra, preferimos admiti-la
como um mtodo efetivo empregado pela 'guerra 
fria".25 Cinco anos depois o general Zeno Estillac Leal, chefe do
Estado-Maior do Exrcito, voltou a falar em "guerra 
subversiva".26 Um trabalho intitulado Estratgia Militar Brasileira,
preparado no EME em junho de 1958, 
mencionava essa nova modalidade de conflito, mas ainda definia guerra
como um "ato caracterstico pelo uso de armas 
blicas".27 
Em 1959, o general Augusto Fragoso fez na ESG uma palestra intitulada
Introduo ao Estudo da Guerra 
Revolucionria. Embebido na bibliografia francesa, o general achava
que "a Amrica Latina, provavelmente em futuro 
prximo, ser teatro de guerras revolucionrias".28 Acreditava que o
Brasil vivia um "estado pr-revolucionrio". Naquele 
ano j haviam 
22 Humberto de Alencar Castello Branco, Tendncia de Emprego das
Foras Terrestres na Guerra 
Futura,p. 17. 
23 Idem, A Doutrina Militar Brasileira, C1-82-57 e C2-15-57. 
24 Doutrina de Segurana Nacional - Tpicos para o Ciclo 2 do 12
Perodo. E-O 1-55, Anexo 1, ESG, 
1955. 
25 O Poder Nacional, conferncia do general Canrobert Pereira da Costa
na ESG, em 12 de abril de 
1953, p. 18. 
26 Entrevista do general Golbery a Mauricio Caminha de Lacerda, O
Jornal, 6 de agosto de 1967, 
"Testemunhos do nosso tempo (v). O grande mundo de Golbery' p. 6. 
27 Estratgia Militar Brasileira, seis folhas datilografadas, de junho
de 1958. APGCS/HF. Segundo 
uma anotao do general Ernesto Geisel a Heitor Ferreira, tanto ele
como Golbery podem ter sido o autor desse documento. Geisel certamente o
reviu. 
28 Augusto Fragoso, Introduo ao Estudo da Guerra Revolucionria,
C-85-59, citado em Jos Alfredo 
Amaral Gurgel, Segurana e democracia, p. 52. A expresso "guerra
revolucionria" popularizou- 
se em 1963, quando o deputado Bilac Pinto, presidente da UDN,
pronunciou na Cmara uma srie de discursos acusando o governo Goulart
de 
patrocinar esse tipo de ao poltica. A bibliografia citada pelo
deputado  basicamente francesa. Bilac Pinto, Guerra revolucionria. 
148 A DITADURA DERROTADA 
partido de Cuba expedies de guerrilheiros para o Panam (onde foram
capturados) e a Repblica Dominicana (onde 
foram massacrados). No Brasil a nica sedio fora uma revolta de 29
militares e cinco civis comandados pelo coronel Joo 
Paulo Burnier. Resultara na tomada da pista de pouso de Aragaras, na
Amaznia. Deveria ser o epicentro de uma rebelio 
que deporia o presidente Kubitschek, mas terminara com a fuga dos
insurretos ao som de um manifesto anticomunista. 
Golbery mostrava-se implacvel no controle dos comandos, afastando
oficiais e funcionrios com simpatias esquerdistas 
ou at de lealdade duvidosa. Refugava expurgos generalizados e
autos-de-f para os quais a direita militar, mesmo no tendo 
fora, revelava disposio: 
O macarthismo  um perigo tremendo e, ao cabo, contraproducente. Assim
viu-se nos EUA e, at certo ponto, houve o 
mesmo no Brasil com o penabotismo. 29 O que importa  manter os
indigitados em funes de onde no possam causar 
grandes males, reprimi-los sempre que necessrio, vigi-los
constantemente (no transform-los em mrtires). Todo 
comuna ou suposto comuna  um "risco" - risco varivel, cada um de per
si. Mas haver sempre suspeitas infundadas, 
erros de apreciao, calnias mesmo. Em nome desses possveis
inocentes advogo tratamento de quarentena para todos - 
no a eliminao.30 
O coronel operava a precria rede do SFICI, onde os boatos eram
indicativos do grau de tenso poltica e de delrios 
anticomunistas. Num s informe especial, o SFICI registrara o
desembarque de 22 pessoas sadas de um submarino diante 
da praia de Amaralina, na Bahia, e a desova de caixotes de armas com
inscries em tcheco no subrbio carioca. A mesma 
fonte calculava que na primeira metade de 1961 j haviam en29 O termo
maca rthismo, criado pelo chargista Herblock, do 
The Washington Post, designava a 
poltica de perseguio que o senador Joseph McCarthy promoveu nos
Estados Unidos entre 1950 
e 1954 contra militantes e simpatizantes do Partido Comunista
Americano. Penabotismo, termo 
muito pouco usado, referia-se ao almirante Carlos Penna Boto,
presidente da Cruzada Brasileira 
Anticomunista. Ele fora colega de Golbery na ESG. 
30 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 21 de abril de 1961.
APGCS/HF. 
PS DE VELUDO 149 
trado no Brasil 2 mil comunistas chineses, tcnicos em guerrilhas.31
Avisava-o tambm de que o governador 
Carlos Lacerda mandara instalar fechaduras especiais no seu gabinete
do palcio Guanabara e que os 
revoltosos de Aragaras poderiam estar preparando uma nova aventura. 
Em agosto de 1961 o coronel parecia satisfeito. No dia 3 conclura sua
Estimativa de Situao n2 6. Nela 
via o presidente fortalecido diante de uma oposio desorientada e um
congresso desmoralizado. Orgulhava-
se dos progressos feitos na montagem do Sistema de Segurana Interna e
achava que o pas estava em calma, 
mas ainda desconfiava que haveria uma crise entre o ltimo trimestre
do ano e o primeiro de 1962.32 
A crise chegou antes, na manh de 25 de agosto, Dia do Soldado.
Golbery mal completara cinqenta anos. Pelo 
resto da vida sustentou a tese de que tudo teria sido resolvido se
algum tivesse trancado Jnio Quadros num 
banheiro at que clareasse as idias. Durante a crise da renncia a
Casa da Borracha transformou-se num 
acampamento militar, ao qual no faltaram camas de campanha. Golbery
movia-se na cpula da conspirao e, 
sob o seu comando, funcionaram uma unidade de guerra psicolgica, um
servio de censura e uma rede de 
escuta telefnica. 
Por intermdio da Agncia Nacional, divulgavam-se notcias destinadas
a intoxicar a opinio pblica 
propalando a idia de que os ministros militares controlavam a
situao e a eles s se opunham os comunistas. 
O general Machado Lopes teria entregado o comando do iii Exrcito a
Cordeiro de Farias, nomeado por Denys. 
Brizola estaria preso, e Luiz Carlos Prestes comandava a resistncia
no interior do Rio Grande do Sul 
organizando destacamentos guerrilheiros.33 O prprio secretrio de
Segurana da Guanabara pedia  TV Rio 
que transmitisse a notcia das formaes paramilitares de Prestes.34 O
tenente Heitor Ferreira desertara o 
31 Mao de nove folhas, uma delas anotada por Golbery, intitulado
Informe Especial n225. APGCS/HF. 
32 Estimativa de Situao nC 6, de 3 de agosto de 1961. APGCS/HF. 
33 Amir Labaki, 1961 -A crise da renncia e a soluo parlamentarista,
p. 59. 
34 Walter Clark e Gabriel Priolli, O campeo de audincia, p. 104. 
150 A DITADURA DERROTADA 
iii Exrcito e sentara praa na Casa da Borracha. Projetava panfietos
para a central de guerra psicolgica, 
falando em nome do demnio vermelho: 
Aos trabalhadores: 
A China  a maior potncia comunista da sia. 
A Rssia  a maior potncia comunista da Europa. 
O Brasil deve ser a maior potncia comunista da Amrica. 
A greve geral  o melhor caminho. 
Partido Comunista Brasileiro.35 
Isso no mundo das notcias falsas. No das verdadeiras, organizara-se
um servio de censura atravs do qual o 
Conselho de Segurana cuidava das rdios e televises, enquanto a
polcia do Rio de Janeiro ficava com os 
jornais. Pela primeira vez desde os anos 40, os jornais do Rio
chegaram s ruas censurados. As primeiras 
pginas do Correio da Manh e do Dirio de Notcias estavam manchadas
por grandes espaos 
brancos, indicativos de textos suprimidos.36 O Jornal do Brasil e O
Dia foram apreendidos e s puderam 
voltar s bancas quando concordaram em esquecer o texto do manifesto
do marechal Lott condenando o 
golpismo dos ministros militares. 
Golbery parece ter percebido cedo que a usurpao encruara.
Articulou-se com a manobra que entregava a 
Goulart uma Presidncia mutilada. Os ministros militares divulgaram um
texto que proclamava "a absoluta 
inconvenincia do regresso ao pas do vice-presidente Joo Goulart'
mas nele havia um alapo. Deslocava 
uma parte do problema para o tipo de regime que Jango receberia,
abandonando a exclusividade da discusso 
do veto ao tipo de Jango que assumiria a Presidncia. Remetido a
Braslia, o papel dormiu um ou dois dias na 
gaveta do marechal Denys, que esqueceu at mesmo onde o tinha
guardado.37 Quando os ministros mi- 
35 Manuscrito de Heitor Ferreira, em papel da secretaria geral do CSN.
APGCS/HF. 
36 Dirio de Notcias, 30 de agosto de 1961. AA. Para o Correio da
Manh, lembrana do autor. 
37 Para o fato de o manifesto de Golbery ter ficado um ou dois dias na
gaveta de Denys, Ernesto 
Geisel, outubro e novembro de 1994. Ver tambm Ernesto Geisel, volume
organizado por Maria 
Celina d'Araujo e Celso Castro, p. 139. 
PS DE VELUDO 151 
litares divulgaram o texto, o estilo trara o escriba: "Na presidncia
da Repblica, em regime que atribui ampla 
autoridade de poder pessoal ao Chefe da Nao, o Sr. Joo Goulart
constituir-se-, sem dvida, no mais 
evidente incentivo a todos aqueles que desejam ver o pas mergulhado
no caos, na anarquia, na luta civil. As 
prprias foras armadas, infiltradas e domesticadas,
transformar-se-iam, como tem acontecido noutros pases, 
em simples milcias comunistas" 
No rascunho, Corca arrematara: "Seria o fim' Na verso final cortou o
toque apocalptico.38 
Os telefonemas internacionais em que Jango negociava sua volta eram
ouvidos pela central do Conselho de 
Segurana. Verdadeiras jias. Numa conversa com o ex-presidente
Juscelino Kubitschek, Goulart esclarecera o 
destino que pretendia dar ao regime parlamentarista: "Isso mudaremos
depois"39 
A guerra de Golbery estava terminada. Cometera um manifesto com duas
mesclises, tentara articular uma 
emenda constitucional que suspendesse as liberdades pblicas e
marcasse novas eleies presidenciais, mas 
nada ficou de p.4 Sua Censura fora derrotada pela sobrevivncia da
Rede da Legalidade e por uma novidade 
tecnolgica, os rdios portteis. Cabiam na palma da mo e ouviam
Porto Alegre. A reao popular ao golpe 
pusera em movimento um mecanismo que Golbery descrevia com freqncia:
"O Exrcito  como um navio. Ele 
fica imvel, at que se mexe um milmetro numa direo. Ento o resto
vai junto"4' Em 1961 o milmetro 
chamara-se general Machado Lopes. 
O dispositivo de segurana interna que Golbery costurava talvez
tivesse ficado pronto nos ltimos meses de 
1961, mas a verdade  que em 
38 Quatro folhas manuscritas a lpis, de Golbery do Couto e Silva.
APGCS/HF. Junto com essas folhas esto mais 
dois exemplares do manifesto, um impresso como se fora volante e outro
como o nmero 1104 da publicao 
Noticirio do Exrcito. 
39 Uma folha manuscrita, sem data nem assinatura, da pasta Guerra de
1961. APGCS/HF. 
40 Original de uma entrevista de Suzana Verissimo com Prudente de
Morais Neto, a quem Golbery mandou 
pedir o texto da emenda. Texto consultado no Departamento de
Documentao da Editora Abril, em 1985. 
41 Golbery repetiu esse conceito ao autor em diversas ocasies. 
152 A DITADURA DERROTADA 
agosto no serviu para nada. Os atos de fora das primeiras 48 horas
esgotaram-se na censura, nas prises e 
nas pancadarias. Quando  fora foi preciso adicionar a vontade de
brigar, os dispositivos golpistas 
dissolveram-se em desculpas e dissimulaes, perfilando-se por fim
para a posse do novo presidente. 
Derrotado, o coronel no tinha muito que temer. A ltima coisa que
interessava ao novo governo era abrir uma 
temporada de perseguies militares. Alm disso, Golbery jamais fora
prejudicado na carreira por conta das 
conspiraes em que se metia. Mesmo que Jango no o promovesse a
general, sobreviveria ao seu governo. 
Praticamente desconhecido fora do meio militar e do grupo de
conspiradores renitentes, estava longe do 
alcance das vinganas polticas. Quiseram transferi-lo para a Paraba,
mas Golbery pediu passagem para a 
reserva. Em fevereiro de 1962 o presidente Joo Goulart assinou o
decreto que dava ao coronel duas 
promoes a que tinha direito, transformando-o em
general-de-diviso-e-pijama. Nascera o General 
Golbery.42 Ele desabafaria: "Eu sa do Exrcito em 1961 porque me
enojei do que aconteceu.  claro que a 
batalha contra a posse de Jango estava perdida, mas o meu nojo veio da
maneira como as pessoas se 
comportaram diante da adversidade. No pensaram em resistir. Nosso
pessoal foi cago. Tnhamos de um lado 
os malucos que pretendiam desencadear a Operao Mosquito e do outro
os que no queriam se 
comprometer"43 
O coronel sumiu. Dos 34 anos que passara no Exrcito, vivera quatro
quintos fora da rotina dos quartis. Salvo 
uma rpida passagem pelo estado-maior da m-4, em Belo Horizonte, no
via uma tropa desde que voltara da 
FEB, em 1945. No comandava desde 1942, quando deixara o 13 Batalho
de Caadores, em Joinville. Sara 
ressentido, porm grato: "Nunca me arrependi. Obtive da carreira o que
ela podia me dar"44 Mudara-se do 
42 Golbery era o 1182 coronel com curso de estado-maior listado no
Almanaque do pessoal militar do Exrcito, de 
1962, p. 47. O 1172, coronel Joo Dutra de Castilho, foi promovido a
generalde-brigada em julho de 1964. 
43 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984. Golbery tratou desse
episdio, em outro contexto, tambm em 1975. 
44 Golbery do Couto e Silva, novembro de 1984. 
O paliteiro do ips 
Um, agnstico, recluso, autoritrio e asceta, s falava a srio. O
outro, educado pelos jesutas, 
corteso, tolerante e gastador, parecia estar sempre brincando. Numa
poca em que a burguesia 
brasileira cabia no cinema Palcio, Augusto Trajano de Azevedo Antunes
e Antonio Gallotti eram as 
nicas pessoas capazes de reuni-la em menos de uma semana. Antunes -
Dr. Antunes, para os 
ntimos, A. LA., para os empregados - era o dono da Indstria e
Comrcio de Minrios, a Icomi, 
scio da Bethlehem Steel e da Hanna Mining, amigo do banqueiro David
Rockefeller. Terceiro filho 
entre seis, comeara a vida como modesto engenheiro. Associara-se ao
dono de uma casa lotrica 
de Belo Horizonte para explorar o mangans do Tijuco e em 1946
descobrira as montanhas de 
minrio da serra do Navio, no territrio do Amap. Obcecado por
mtodos de gerncia e tcnicas 
industriais, trabalhava duro. Com 56 anos, era um caso raro de
milionrio socialmente imperceptvel. 
Gallotti - Tony, para os ntimos - era o presidente da maior empresa
privada do pas, a Light, 
companhia canadense que controlava os servios de energia eltrica,
bondes, gs e telefones do Rio 
de Janeiro e de So Paulo. Fascista nos anos 30, era um dos quinze
filhos de um casal de imigrantes 
italianos que se assentara em Santa Catarina. Tinha o sotaque do lugar
e a voz marcada pela lngua 
presa. Sua manso avarandada era um smbolo de fora e volpia: ficava
na rua So Clemente, em 
Botafogo, ao lado do palcio do embaixador ingls, da casa do
americano e do palacete do 
portugus. Anfitrio impecvel, com 54 anos dava a impresso de estar
sempre voltando da praia. 
156 A DITADURA DERROTADA 
Tinham em comum apenas um incio de vida como postalistas. No podiam
ser mais diferentes, no entanto a 
habilidade com que manipulavam a conexo do Estado com seus negcios,
o anticomunismo, um certo prazer 
poltico em articular seus pares e o medo da influncia esquerdista no
governo Goulart os faziam idnticos. 
Oitenta e trs dias aps a chegada de Jango ao Planalto, as "classes
produtoras' autodenominao gloriosa 
que o empresariado se atribua, aquartelaram-se, fundando o Instituto
de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPs. 
Antunes e Gallotti achavam-se no corao da manobra, um no comit
executivo, ambos no comit diretor. 
Haviam sido convertidos pela figura impetuosa de Gilbert Huber Jr.,
dono das Listas Telefnicas Brasileiras. 
Ao lado dele estava o general Heitor Herrera, bem-humorado "fritador
de bolinhos' que desistira do Exrcito 
ainda antes da posse de Jnio, porque se julgava incapaz de lidar com
"muito calhorda fantasiado de general"' 
Meses depois, quando seu amigo Golbery tomou a mesma deciso, Herrera
resgatou-o, instalando-o em quatro 
das treze salas que o instituto ocupava no 27 andar do edificio
Avenida Central, o mais moderno da cidade, 
erguido sobre o terreno onde ficara um dos tradicionais hotis da
Repblica Velha. No arranha-cu de 
elevadores falantes funcionavam tambm a agncia de notcias cubana
Prensa Latina e um pedao da cpula 
do Partido Comunista. 
Na dcada de 70, para o bem da memria poltica nacional e discreta
contrariedade de Golbery, o historiador 
Ren Armand Dreifuss encontrou o arquivo do IPS e reconstituiu boa
parte de sua existncia no livro 1964: 
a conquista do Estado. Ao nascer, o instituto tinha oitenta scios, e
em menos de dois anos chegaria a 
quinhentos. Uma estrutura semelhante formara-se em So Paulo, e a
sigla ramificara-se pelo Rio Grande do Sul, 
Minas Gerais, Paran, Pernambuco e Amazonas. Estatutariamente
apoltico, o IPS destinava-se a estimular 
pesquisas e debates a fim de "contribuir para o progresso econmico" e
"fortificar o regime democrtico do 
Brasil" Poucos clubes conseguiram agrupar tantos sobrenomes: Guinle de
Paula Machado, Jacobina Lacombe, 
Ermrio de Moraes, Toledo Piza, Quartim Barbosa, Dumont Villares.
Poucos negcios juntaram tantos 
logotipos: Esso, Mesbia, Rhodia, Amo, Sul Amrica, Antarctica
Paulista. Pou1 Carta de Heitor Herrera a Heitor 
Ferreira, de 11 de fevereiro de 1961. APGCS/HF. 
O PALITEIRO DO IPS 157 
cos ministrios reuniram tanto talento: Delfim Netto, Mano Henrique
Simonsen, Augusto Frederico Schmidt, 
Miguel Reale, Jos Rubem Fonseca.2 
O dinheiro abundou. Os documentos esparsos da contabilidade do
instituto indicam que em 1962 as sees 
carioca e paulista projetavam oramentos para o ano seguinte estimando
as despesas em cerca de 900 mil 
dlares mensais.3 O IPS teve uma caixa clandestina, e dela ficou
registro na gravao de uma conversa do 
embaixador Lincoln Gordon com o presidente John Kennedy, no final de
julho de 1963, na Casa Branca. 
Gordon pediu-lhe a abertura de um fundo clandestino de financiamento
de operaes polticas, semelhante ao 
montado em 1948, na Itlia, fazendo-se vista grossa a "possveis
desperdcios' O IPS seria o principal 
destinatrio desse dinheiro. Sete segundos suprimidos da fita deixada
por Kennedy impedem que se saiba 
quanto Gordon queria gastar. Conhece- se a reao do presidente
americano: " muito dinheiro. Sabe como , 
aqui, numa campanha presidencial, gastam-se mais ou menos 12. E [com]
nossos custos... j so 8 milhes.  
muito dinheiro para uma eleio"4 
Uma parte do dinheiro arrecadado pelo IPs emergiu da contabilidade
oficial das empresas que o ampararam. 
Os nmeros da Light revelam que a empresa contribuiu com 200 mil
cruzeiros mensais de dezembro de 1961 a 
agosto de 1963, num total equivalente a 2 milhes de dlares.5 Para
que no se rastreassem todos os seus 
financiadores, a maior parcela dos recursos chegava por meio do
complexo sistema de fraudes contbeis 
habitualmente utilizado para o saque s empresas em beneficio dos
donos ou diretores. Questo "delicada para 
o instituto e para as firmas", nas palavras do banqueiro Cndido
Guinle de Paula Machado, dono do Banco 
Boavista e das Docas de Santos. Ela foi resolvida atravs da
metodologia 
2 Ren Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, pp. 173, 172, 164
e (apndice B) pp. 501 e 
segs. Para um depoimento de Jos Rubem Fonseca sobre o ips,
"Anotaes de uma pequena histria' 
Folha de S.Paulo de 27 de maro de 1994. 
3 Ren Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 226. Documento
da Comisso de Planejamento - Substitutivo 
Orament rio para 1963. 
4 Timothy Naftali (ed.), Thepresidential recordings-John F. Kennedy,
vol. 1: July 30-August 1962, 
pp. 5-25. Transcrito na reportagem de Carlos Haag, "Todos os tapes do
presidente' Valor Econmico, 
19 de outubro de 2001. 
5 "Relatrios Demonstrativos de Contas da Brazilian Traction Light and
Power' em Luiz Alberto Moniz 
Bandeira, Ogoverno Joo Goulart, p. 82. 
158 A DITADURA DERROTADA#
do "por fora" Fraudaram-se transaes com a Pontificia Universidade
Catlica e com a Light, simularam-se
doaes de sindicatos patronais, forjaram-se contratos de assessoria e
servios-fantasmas.6 Algumas das
grandes agncias de publicidade do pas ofereceram-se para descarregar
no IPs recursos que as empresas
lanariam como despesas de propaganda. Em outros casos, como sucedia
com a Varig e a Cruzeiro do Sul, as
contribuies vinham sob a forma de servios gratuitos. A seo
mineira do Instituto, estudada por Helosa
Starling, recebeu 9 milhes de cruzeiros em doaes. Os scios
passavam-lhe entre 60 mil e 120 mil cruzeiros,
numa poca em que o maior prmio da Loteria Federal pagava 20 mil.7
A maior fonte de despesas - e de energia - do IPS era o seu servio
de divulgao. O instituto encomendava
artigos a 5 mil cruzeiros a pea (equivalentes a 1300 dlares, pagos
pela cervejaria Antrctica).8 No apogeu, em
1963, lanou 2,5 milhes de impressos, entre livros, apostilas e
folhetos. O iPs editou desde alguma
produo anticomunista nacional, como UNE: instrumento de subverso,
at clssicos como A
Revoluo dos Bichos, do socialista ingls George Orwell, e trabalhos
de alto nvel como Ideologia e
poder na poltica sovitica, do professor Zbigniew Brzezinski, cuja
sopa de letras s viria a se tornar
conhecida uma dcada depois. Distribuiu tambm pelo menos catorze
ifimes com durao de cerca de dez
minutos, apresentados no incio das sesses de cinema.9 Seus pequenos
documentrios eram produzidos pelo
jornalista Jean Manzon, diretor dos picos da propaganda juscelinista.
Um dos colaboradores annimos dessa
produo poltico-literria era o prprio Golbery. Escrevendo para um
programa de rdio, nem sequer parecia o
Corca:
O que  comunismo?
Para responder-lhe em poucas palavras, meu amigo, s posso dizer a
voc que o comunismo  uma grande farsa, a maior que o mundo todo j
viu at os dias de hoje.
#6 Ren Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, pp. 203-4.
7 Heloisa Maria Murgel Starling, Os senhores das Gerais, p. 68.
8 Ren Armanci Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 262.
9 ldern, pp. 654 e 237. Para os filmes, Catlogo de filmes do IPS.
O PALITEIRO DO JPS 159#
Voc vai dizer que isso  exagero, que  m vontade minha. Se houver
algum comunista por perto, vai me
xingar logo, "entreguista, vendido
aos americanos" etc. No importa.
Voc que  um homem honesto e que sabe mesmo o que  o comunismo - no
se precipite. Eu aqui estou para
demonstrar tudo aquilo, tintim por tintim. E com provas. Com
documentos. Com depoimentos at dos prprios
comunistas.
Acompanhe esta srie de programas e voc ver.'10
O instituto tambm patrocinava editoriais e reportagens na imprensa.
Com graus variveis de colaborao, os
principais jornais e emissoras do pas tinham conexes com o IPS.
Como explicava o prprio Antunes: "O
wes
far apenas o papel de espoleta para desencadear o debate dos
assuntos""11 O instituto teve seu momento de
brilho quando o jovem engenheiro Arlindo Lopes Corra, num trabalho
intitulado Conquista das classes
mdias para a ao poltica em grupo, usou a expresso "repblica
sindicalista" para designar o que
seria o projeto de poder da esquerda.12 Nunca se soube o que fosse,
assim como no se encontrou nenhuma
pessoa ligada ao governo Goulart que pudesse defini-la.
Em pelo menos um caso o instituto fez papel de censor, pressionando a
direo da TV Rio para moderar as
piadas do humorista Chico Ansio, um simpatizante do Partido
Comunista.'13 Subvencionou diretamente
jornais, revistas e emissoras. O gelogo Glycon de Paiva, colaborador
de Antunes, amigo de Golbery e membro
do comit executivo do IPS, ensinou: "Opinio pblica significava
dinheiro"'14
O IPS foi o mais articulado e bem-sucedido episdio de mobilizao da
histria da plutocracia nacional. Existiu
numa poca de proliferao de organizaes conservadoras e sobreviveu
a todas. Delas, a mais
#10 Manuscritos de Golbery, um de cinco pginas e Outro de quatro.
Ambos sem data. APGCS/HF.
11 Ren Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 769.
12 Idem, p. 291. O texto de Lopes Corra  de 1962.
13 Para o caso de Chico Ansio, Ren Armand Dreifuss, 1964: a
conquista do Estado, p. 248.
14 Ren Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 219.
160 A DITADURA DERROTADA#
influente foi o Instituto Brasileiro de Ao Democrtica, IBAD, grande
cofre dos candidatos conservadores nas eleies de
1962. Seu criador, Ivan Hasslocher, abandonou a vida pblica e
mudou-se um ano depois para a Sua. Nunca mais se ouviu
falar dele, mas do tesouro do IBAD falou-se por dcadas. "14 campanha
eleitoral de 1962 foi uma orgia de dinheiro'
lembrariaWalter Clark, o diretor-geral do canal 13. "A grana grossa
vinha mesmo do IBAD. S desse grupo a TV Rio
recebeu verba equivalente a trs vezes o seu faturamento"15 Pode-se
estimar que o instituto tenha derramado perto de 20
milhes de dlares na campanha eleitoral. Segundo o embaixador Lincoln
Gordon, o dinheiro do governo americano passou
de muito a casa do milho e pode ter chegado a 5 milhes de
dlares.'16
Na clandestinidade, praticando atentados terroristas, operava o MAC,
Movimento Anti-Comunista, formado por policiais,
militares e direitistas extremados. Assustado com as acusaes de que
as siglas eram farinha do mesmo saco, Gallotti
aconselhava: "Cada membro do IPS acusado de pertencer ao MAC deve se
defender. Porm, em sua defesa, no dever
positiva ou negativamente fazer a mnima referncia ao Ips". Em 1963,
inquieta com o funcionamento de uma comisso
parlamentar de inqurito que investigava o IBAD, a cpula do IPS
decidiu limpar seus arquivos.17
Golbery ciscava aqui e ali, mas seu negcio era o GLC, inicialmente
conhecido como Grupo de Levantamento da
Conjuntura, rebatizado depois como Grupo de Pesquisa. Suas atividades
ficaram fora das atas, seus trabalhos, fora do
arquivo. Como relembraria um dos dirigentes do instituto, a unidade de
Golbery agia numa "variedade de operaes de
#15 Walter Clark e Gabriel Priolli, O campeo de audincia, pp. 127-8.
16 Para o total de at 20 milhes, Luiz Alberto Moniz Bandeira, O
governo Joo Goulart, p. 83.
Moniz Bandeira trabalhou com dois valores, um de 5 bilhes de
cruzeiros (12 milhes de dlares), mencionado por Artur
Oscar Junqueira, secretrio da Ao Democrtica Popular (Adep), 
cpi do JBAD, e um valor entre 12 milhes e 20 milhes de dlares,
mencionado por Philip Agee,
ex-agente da Central Intelligence Agency, que vive em Cuba. A
declarao de Gordon est em Veja,
9 de maro de 1977, entrevista a Roberto Garcia.
17 Ren Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, pp. 400 e 208.
O PALITEIRO DO IPS 161#
natureza menos acadmica do que aquelas normalmente creditadas ao
wes".'18 Eram as operaes que a Casa
da Borracha no tivera tempo de fazer. O general trabalhava com dois
relgios. Num propunha que se
discutisse um "plano mestre para um prazo mximo de oito a dez
anos"'19 Noutro, para as necessidades da
ocasio, montara uma rede de informaes que custava em torno de 300
mil dlares por ano.20 Boa parte do
dinheiro ia para a ampliao do fichrio que tirara do sFIcI. Nele
tinham preferncia os esquerdistas, mas havia
lugar para todos. Cada ficha tinha espao para informaes triviais
como endereo, telefone e filiao, alm de
seis linhas para "outros dados". No rascunho do cadastro de Cecil
Borer, diretor do DOPS carioca e
companheiro de deteno de Golbery em 1955, anotara-se: "Acusado de
envolvimento no metralhamento da
UNE".21 No passou de 3 mil o nmero de fichas reunidas pelo IPs.22
Nas quatro salas de Golbery funcionava um servio de informaes. Nele
produziram-se desde uma Amostra
da Infiltrao Comunista no Brasil, listando nomes e cargos ocupados
pelo PCB, at um
Levantamento da Infiltrao Comunista na Imprensa, de circulao
reservada.23
"Todo mundo sabe que eu estou aqui. O pessoal almoa na vizinhana e
vem para c palitar os dentes",
explicava o general.24 Na poca o restaurante Terrasse, situado no
mesmo edifcio do IPS, era um dos
melhores da cidade. Alm disso, o Clube Militar, a Associao
Comercial e o Clube
#18 Ren Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado, p. 186, e
Glycon de Paiva, em Dreifuss,
idem p. 401.
19 Memorando confidencial de trs folhas intitulado Planejamento e
Conduta das Aes a Empreender, sem data. APGCS/HI-.
20 Informao dada por Glycon de Paiva, vice-presidente do IPS, a
Alfred Stepan. Em Stepan,
The military inpolitics, p. 154.
21 Golbery referia-se ao atentado praticado em 1962 no hotel
Quitandinha, onde estava reunido o Congresso da UNE. Foram disparados
tiros contra um
grupo de estudantes. Para a priso de
1955, Nelson Werneck Sodr, Do Estado Novo  ditadura militar, pp. 19
1-2.
22 O general Newton Cruz, que em 1964 recebeu o fichrio do SFICI,
para o qual Golbery transferira as fichas do ips, informou ao autor que
ele continha
cerca de 3 mil fichas. Newton Cruz,
outubro de 1985.
23 Para a Amostra, Ren Armand Dreifuss, 1964: a conquista do Estado,
p. 651; para o Levantamento, idem, p. 234.
24 Heitor Ferreira, dezembro de 1991.
162 A DITADURA DERROTADA#
dos Seguradores ficavam num raio de dez quarteires do paliteiro.
Golbery chamava seu servio de
"monitorao". Num exemplo de sua vigilncia, em janeiro de 1962 ele
avisava que os comunistas planejavam
reunir-se em Niteri e propunha: "Convm exercer presso, desde j,
sobre as autoridades do Estado do Rio,
para que se aparelhem e disponham a atuar quando necessrio".25
Um ano depois, quando um plebiscito devolveu a Jango seus poderes
presidenciais, Golbery voltara a fabricar
as Estimativas, como fazia no
SFICI. Dessa vez no tinham timbre. Eram duas por ms.
Mal comeara o regime presidencialista, o general propunha: "A
abertura, desde j, da questo sucessria tem
a vantagem de poder propiciar reaes mais fortes a qualquer manobra
continusta do presidente da Repblica,
despertando, por outro lado, esperanas novas nos meios ativistas da
poltica nacional".26
No dia 12 de abril de 1963, voltava  carga:
Impe-se atravs sobretudo de uma ao coordenada e intensa no Setor
de Opinio Pblica Nacional:
- Fortalecer o esprito de legalidade, denunciando a tempo quaisquer
manobras contra a Constituio e as leis
do pas.
- Apoiar o Congresso como indispensvel esteio democrtico. [... ]
- Apoiar o ministro da Guerra em sua posio de defesa da legalidade e
anticomunista.27
Golbery temia o continusmo de Jango, mas trabalhava, j em julho de
1963, com a idia do "contragolpe
inevitvel"28 A essa altura o grande barulho golpista vinha do outro
lado. O governador Leonel Brizola dizia
que "se no for eleito um parlamento popular a revoluo ser
inevitavel
#25 Trs folhas de bloco manuscritas, de
Golbery. APGCS/HF.
26 Estimativa de lide maro de 1963. APGCS/HF.
27 Estimativa de 12 de abril de 1963. APGCS/HF.
28 Estimativa de 15 de julho de 1963. APGCS/HF.
O PALITEIRO DO IPS 163#
 e o primeiro-ministro Fidel Castro reunia-se com esquerdistas
brasileiros para discutir la revolucin ao mesmo
tempo que subvencionava estruturas guerrilheiras em quatro estados do
pas.29 Em setembro, os sargentos que dois anos
antes haviam ajudado a desmontar o golpe contra Jango se amotinaram em
Braslia produzindo dois cadveres, trs
IPMS e
seiscentos presos.
Pouco depois da revolta dos sargentos, Golbery distribuiu uma
Estimativa em que o prprio estilo traa a atividade
clandestina do autor. Tanto no SFICI como nos primeiros trabalhos no
IPS, sempre narrara os acontecimentos na terceira
pessoa, secamente. Na Estimativa de 16 de setembro vocalizava suas
idias atribuindo-as a supostas "foras do centro
democrtico":
Estimam aquelas foras que, afinal, a melhor soluo para o pas ser
a que leve o Sr. Joo Goulart a completar o seu
mandato presidencial, por mais oneroso que venha a ser o preo a
pagar-se por isso, em termos principalmente de funda
depredao da economia nacional.
No deixam de admitir, porm, que se foradas a uma reao contra
qualquer golpe antidemocrtico, tero de agir com muita
cautela para que seu xito no propicie, por seu lado, a indesejada
implantao de um regime no democrtico, embora de
carter provisrio.30
Estranha construo. Num texto em que o golpe de GouLart era chamado
de "antidemocrtico", a ditadura do contragolpe
era chamada de
#29 Para Brizola, Dnis de Moraes, A esquerda e o golpe de 64, p. 79.
Para Fidel, professora Liana Cardoso de
Mello,
maro de 1988. Ela esteve presente  reunio de Castro com Francisco
Julio e Caio Prado Jnior, entre outros, realizada na
poca da Segunda Declarao de Havana. Para os dispositivos,
organizados em Gois, no Maranho, na Bahia e no Rio de
Janeiro, cartas de Gera rdo a Petrnio, publicadas em O Jornal de 23
de janeiro de 1963 ("Histria de agentes fidelistas
comprova a infiltrao em nosso pas. Dinheiro cubano para estimular
as Ligas e a 'revoluo popular' no Brasil: prova
concreta", p. 9), 24 de janeiro de 1963 ("Relatrio de agentes
fidelistas comprova a infiltrao em nosso pas - ii. Ttica de
fidelistas no Brasil  esconder que so socialistas para poder armar a
revoluo", p. 9) e 25 de janeiro de 1963 ("O relatrio de agentes
fidelistas comprova infiltrao
em nosso
pas - iii. Agitadores fidelistas possuem at trs fazendas em Gois
destinadas a adestramento de guerrilha' p. 6). Ver tambm
Jacob Gorender, Combate nas trevas, p. 51.
30 Estimativa de 16 de setembro de 1963. APGCS/HF.
164 A DITADURA DERROTADA#
"regime no democrtico" Esse regime nem existia, e j o acompanhava
uma lgica particular pela qual o
indesejado se tornava aceitvel em troca de uma promessa de
provisoriedade. Numa entrevista em Miami, o
jornalista Julio de Mesquita Filho, dono e orculo d'O Estado de S.
Paulo, previa: "Muito provavelmente
um governo forte substituir o atual, mas essa situao no ser
eterna, porque a ditadura no  compatvel
com a vontade do povo brasileiro"31 (Desde os primeiros meses de 1962
ele confidenciava o que seria esse
governo forte: junta militar, reforma constitucional, expurgo
administrativo, dissoluo do Congresso e
nomeao de um Conselho Nacional.)32
No final de maro de 1964, Golbery redigiu a ltima Estimativa do
IPS. Nela dissimulava a extenso da rede
de conspiradores a que tinha acabado de se juntar o general Castello
Branco, prestigioso chefe do Estado-
Maior do Exrcito. Sabia muito mais do que escrevia, mas dizia que se
entrara "num perodo crtico, que poder
durar de dois a trs meses". Entendia que o lanamento das
candidaturas de Carlos Lacerda e Juscelino
Kubitschek  Presidncia haveria de esvaziar as manobras do Planalto.
"O tempo conspira contra os desgnios
do bloco continusta-comunista." 33
Datada de 25 de maro, quarta-feira da Semana Santa, dificilmente essa
Estimativa circulou na cpula do
IPS. O certo  que  noite, quando Golbery chegou a Jacarepagu, o
mundo comeara a acabar: seiscentos
marinheiros liderados pelo Cabo Anselmo amotinaram-se no Sindicato dos
Metalrgicos e anunciaram que
no voltariam aos seus navios.
Em suas conversas mais secretas, a grande dvida dos conspiradores era
a durao da rebelio para depor
Goulart. No era pouca coisa, pois a histria das quarteladas
nacionais informava que, dos seis levantes
vitoriosos, cinco decidiram-se em 48 horas. Dos quatro que
ultrapassaram
#31 Jos Stacchini, Maro 64, p. 90.
32 Carta-circular de Julio de Mesquita Filho a "meu ilustre amigo' de
20 de janeiro de 1962. Em
Jos Stacchini, Maro 64, pp. 15 e segs. Cinco anos depois, Mesquita
no escondia sua contrariedade por no
ter sido feita a "ablao" do Congresso. Ver Roberto Campos, A
lanterna na popa - Memrias, p. 791.
33 Estimativa de 25 de maro de 1964. APGCS/I-IF.
O PALITEIRO DO IPS 165#
os dois dias, trs fracassaram.34 Chegou-se a pensar em seis meses de
luta. Golbery sempre insistira na
rapidez do desfecho: "Vai cair como um castelo de cartas".35
No dia 12 de abril de 1964, enquanto as cartas ruam, circulava nos
quartis um manifesto dos generais
Castello
Branco, Costa e Silva e De- cio Escobar. A certa altura ele dizia: ",
pois, na sua estrutura e na sua essncia
mesmo que as Foras Armadas esto sendo destrudas, quando se subverte
a hierarquia, e  o prprio
presidente da Repblica quem incita  indisciplina e oferece plena
cobertura a motins'26
Era o Corca de novo. Fazia dez anos que escrevia manifestos contra
Jango, mas aquele seria o ltimo. Dessa
vez tinha mais o que fazer. Como sempre, botou suas idias centrais
num papel e intitulou-o Misso a
Cumprir pelo Governo. Eram seis pontos: trs bvios (restabelecer a
ordem, acabar com a corrupo e
derrubar a inflao), um era desejo (elevar o nvel de educao
poltica do povo) e o quinto, um sonho (garantir
eleies limpas e a posse dos eleitos). O segundo item era aquele que
Golbery raramente tratava: "Reintegrar,
desde logo, as Foras Armadas no seu papel constitucional,
restituindo-lhes a coeso, a unidade e o ardor
profissional e restabelecendo o princpio da autoridade e da
hierarquia, para cuidar, logo a seguir, do problema
de sua adequada reestruturao e de seu aparelhamento'37
#34 Decidiram-se em 48 horas as seguintes quarteladas vitoriosas:
1889, 1937, 1945, 1954 e 1955.
Decidiu-se em mais de 48 horas a revolta de 1930. Fracassaram 1924,
1932 e 1961.
35 Para a previso de seis meses e a opinio de Golbery, general
Antonio Carlos Muricy, agosto
de 1988.
36 Glauco Carneiro, Historia das revolues brasileiras, p. 524.
  No palcio#
Aos 52 anos, Golbery entrara pela terceira vez no palcio. Na
primeira, em 1937, fora um capito
irrelevante metido num projeto de fabricao de propelentes de
artilharia. Na segunda, em 1961,
coronel subsidirio, empenhado na criao de um sistema de segurana
interna. Dessa vez estava
no corao do regime e do governo. Triunfara como conspirador: os
"fritadores de bolinhos"
estavam no poder. Era a um s tempo chefe do servio de informaes e
conselheiro direto do
presidente. Utilizou essa influncia para articular um plano
moderadamente reformista e foi um
defensor tenaz da extenso da permanncia de Castello no poder.
Fracassou.
Em junho de 1964, dois meses depois da deposio de Joo Goulart, o
poeta Augusto Frederico
Schmidt, gordo, teatral e escandaloso, parecia um louco quando entrou
gritando no apartamento do
deputado Armando Falco: "Oua bem o que venho dizer-lhe: O Juscelino
pode suicidar-se se for
cassado. Encontraram o esboo de uma carta dele debaixo do seu
travesseiro"
Schmidt pediu a Falco, ministro e amigo do ex-presidente Juscelino
Kubitschek, que fosse ao
palcio Laranjeiras advertir o marechal Castello Branco do risco que
se corria.
#168 A DITADURA DERROTADA#
"'O Kubitschek suicidar-se?! No, no creio que ele tenha coragem
de imitar o Dr. Getulio Vargas, O nosso Schmidt  muito
impressionvel. No vai acontecer nada', respondeu o
presidente."
Tratava-se de expurgar da vida pblica o principal candidato 
sucesso presidencial nas eleies marcadas
para outubro de 1965. Era o JK, Non, P-de-Valsa, Peixe-Vivo, o
criador de Braslia, smbolo da
tolerncia poltica do regime de 1946. Tinha 61 anos, fora abatido
pela vassourada janista, mas se recuperara
com o fiasco da renncia de seu adversrio. Em 1964 poucos lembravam
que no governo dele a inflao
chegara a 40%, numa economia sem indexador algum. Recordavam-se todos
de uma poca de progresso, com o
Brasil crescendo mais de 8% ao ano, ganhando a Copa do Mundo de
futebol e o torneio de Wimbledon de
tnis. Numa pesquisa de opinio pblica concluda menos de uma semana
antes da queda de Jango,
Kubitschek batera Lacerda por 37% a 25%, suplantando-o em todas as
oito maiores cidades do pas.2
Pelo calendrio constitucional, deveria haver uma eleio direta no
dia 3 de outubro de 1965, e dela sairia um
presidente para ser empossado em 15 de maro de 1966. A cassao de JK
interessava a Carlos Lacerda,
governador da Guanabara, candidato a presidente pela UDN, temeroso da
sua popularidade e do seu trnsito
junto  esquerda. Interessava a Costa e Silva, porque fortaleceria os
radicais, enfraqueceria
Castello Branco e
tiraria o favorito do preo. Interessava tambm ao palcio, onde se
cozinhava a prorrogao do mandato de
Castello.
No dia 8 de junho de 1964 JK perdeu a cadeira de senador por Gois e
teve seus direitos polticos suspensos
por dez anos. Na tarde seguinte Castello encontrou-se com o embaixador
americano Lincoin Gordon e disse-lhe
que seria "embaraoso para a Nao" tornar pblicas as provas da
desonestidade do ex-presidente.3 Terrvel
acusao, mas nem JK foi cassado por corrupto, nem provas de corrupo
havia. Golbery chamou as coisas
pelo nome num documento em que analisava a cassao: "Motivao
#1 Armando Falco, Tudo a declarar, pp. 291-2.
2 Pesquisa do IBOPE realizada entre 9 e 26 de maro de 1964, em
Antnio Lavareda, A democracia
nas urnas, p. 174.
3 John W. F. Dulies, Castello Branco, o presidente reformador, p. 33.
NO PALCIO 169#
real: Impedir que JK, fortalecido pela campanha contrria, enfrente a
Revoluo: retorno de Jango, da
corrupo e dos comunistas"4
Doze anos depois o general Ernesto Geisel, por cuja mesa passaram os
dossis contra JK, reconheceria: "O
lamentvel  que as provas no eram provas de qualquer valor jurdico.
Na realidade eram indcios, embora
todos soubssemos da ladroeira consumada'7
Golbery acreditava na possibilidade de rearticulao do regime com as
foras de centro da poltica brasileira.
Em setembro de 1964 enviou a Castello uma estimativa em que via o
governo diante da oposio de duas
coligaes polticas. Uma ficava  direita, e ele a chamava de "frente
revolucionria, avanada ou insatisfeita'
A outra,  esquerda, denominava "anti- ou contra-revolucionria"
Dividia a oposio  direita em trs blocos:
- O grupo da chamada linha dura - que s v, na vitria da Revoluo,
a oportunidade para esmagar os adversrios, comunistas ou no, e punir
os corruptos e negocistas, julgando o governo pouco ativo em suas
medidas repressivas, quando j no
comprometido por inconfessveis manobras polticas;
- o grupo do oportunismo insatisfeito (militar e poltico) que reclama
contra a sua no-participao influente
nos atos do governo atual e
aspira ser melhor aquinhoado, pelo menos quando da prxima sucesso;
- o grupo de interesses reacionrios, sobretudo econmicos, que
defendem privilgios cuja manuteno
esperavam da vitria da Revoluo,
e hoje se sentem ameaados pela poltica reformista do governo.6
#4 Uma folha manuscrita de Golbery de final de maio ou incio de junho
de 1964. APGCS/HF.
5 Anotao de Geisel,  margem da cpia xerox de uma carta de 24 de
agosto de 1976 do coronel
Argos Gomes de Oliveira ao general Joo Baptista Figueiredo. APGCS/HF.
6 Estimativa n2 1, do SNI, de 15 de setembro de 1964. APGCS/HF.
170 A DITADURA DERROTADA#
Na frente adversria de esquerda Golbery reunia janguistas,
brizolistas e comunistas, todos interessados em
derrubar o governo, mas assinalava a existncia de "vrios grupos da
esquerda no marxista e sinceramente
reformista" interessados no "pleno restabelecimento das liberdades
pblicas" para influrem na "obra de
reconstruo e reforma do pas' Propunha que se desse a esse grupo
"expresso cada vez mais livre no quadro
da atuao oposicionista legal' Achava conveniente "impulsionar o
programa reformista, em particular no
setor das conquistas sociais - reforma agrria, participao dos
trabalhadores nos lucros das empresas,
democratizao do capital, etc. - convencendo a essas esquerdas, por
atos concretos, dos sinceros propsitos 
do Governo"7 
Quando as foras conservadoras do empresariado e dos proprietrios
rurais pressionaram o governo, 
sobretudo na reao  reforma agrria e  reviso dos sistemas de
crditos oficiais, Golbery reclamava, em
documento secreto:
Quem ainda mais reage so, curiosamente, os senhores da indstria.
[...] Reagem tambm muitos proprietrios
rurais, justamente temerosos pela manuteno de seus privilgios
tradicionais. No pagar impostos, explorar o
suor do rurcola, recorrer livremente s burras do Banco do Brasil a
cada safra que vem, empregar os pingues
lucros em investimentos imobilirios nos grandes centros ou
dissip-los em consumo conspcuo - isso tudo
parece que vai acabar. E ser a derrocada de todo um estilo de vida
que embalou geraes.8
O projeto da reforma castelista mal arranhou o estilo de vida do
patronato brasileiro. Faltava-lhe base poltica
para buscar nas urnas um mandato que lhe permitisse a aproximao com
o centro, da mesma forma que lhe
faltava disposio para tentar criar uma base militar que lhe
permitisse ao menos dispensar o amparo que
recebia do patronato. Era a anarquia
#7 Estimativa n2 1, do SNI, de 15 de setembro de 1964. APGCS/HF.
8 Apreciao Sum ria da Situao Nacional, reunio ministerial de 30
de dezembro de 1964.
Marcado "secreto' APGCS/HF.
NO PALCIO 171#
que dava o tom ao regime, obrigando-o a simular uma corrosiva
aparncia de unidade militar. O prprio
Golbery associava-se aos surtos ditatoriais e, quando o Supremo
Tribunal Federal soltava presos polticos,
queixava-se de um "evidente esprito contra-revolucionrio" dos
juzes. Quando um senador atazanado por um
coronel de IPM bradava que "japona no  toga", o general via na
reao uma origem "provocadora'9 Em
setembro de 1964, por ocasio do regresso do general Ernesto Geisel de
uma viagem de inspeo s prises de
Pernambuco e So Paulo, Golbery cuidou da redao da nota oficial
divulgada pelo governo. Num rascunho
em que se mencionavam "as denncias de violncias ocorridas", o chefe
do SNI corrigiu: "violncias que
teriam ocorrido'10
Golbery sonhara com uma manobra que permitisse a Castello disputar a
reeleio habilitando-se a um mandato
de cinco anos, o que estenderia seu governo at maro de 1969.11 Em
meados de 1964, noutra articulao, mais
modesta, o marechal teve seu mandato prorrogado por um ano, at 15 de
maro de 1967, quando deveria
empossar um sucessor escolhido em pleito direto. Lacerda, nico
candidato civil sobrevivente, acusou o golpe
numa carta: "Numa palavra, votada a prorrogao, no haver eleies
nem em 1966 nem to
cedo"'12 No
salame do qual ajudara a cortar a fatia de JK, ele era agora a poro
da vez.
Carlos Lacerda tinha cinqenta anos, o vigor de um touro e a
versatilidade de um ilusionista. Ningum como
ele dividiu e marcou a gerao em que viveu. Lutador obsessivo, fora o
ltimo panfletrio brasileiro, quer como
jornalista, metralhando a mquina com rara velocidade, quer como
parlamentar, com uma oratria devastadora.
Numa ou noutra condio manipulava o insulto na grandiloqncia. Algoz
de Getulio Vargas ("patriarca do
roubo"), Juscelino ("O Cafajeste Mximo") e
#9 Impresso Geral n2 10, de 2 de novembro de 1964. APGCS/HF.
10 Folha datilografada, com anotaes manuscritas de Golbery.
APGCS/HF.
11 Folha manuscrita de Golbery, sem data, resumindo e analisando uma
conversa de automvel com Carlos
Lacerda. APGCS/HF. Nela escreveu: "O mais srio adversrio de CL em 66
ser o prprio presidente, ao qual parece
abrir-se a possibilidade legal de uma reeleio' Dirio de Heitor
Ferreira, 18 de junho de 1965.
12 Carta de Carlos Lacerda a Bilac Pinto, presidente da UDN. Em Luiz
Viana Filho, O governo Castello Branco, p.
112.
172 A DITADURA DERROTADA#
Jango ("marginal da lei").13 Sua natureza implacvel valera-lhe o
apelido de
Corvo.'14 Brigara com o pai, o irmo e
alguns dos melhores amigos. "Ele no gosta de ningum, nem dele",
escrevera um dos seus
ex-companheiros.'15 O general
De Gaulle chamara-o "o demolidor"'16 "Devastadoramente capaz",
definira-o a Central Intelligence
Agency.'17 Em menos
de vinte anos passara do PCB  militncia anticomunista. Eleito
governador da Guanabara em 1960, surpreendera o pas
com uma administrao exuberante. Tocara obras como a adutora do
Guandu e o tnel Rebouas, ao mesmo tempo que se
beneficiara do trabalho dos gvernantes anteriores, que lhe deixaram a
doce tarefa de plantar o jardim no Aterro do
Flamengo, mudando a silhueta do Rio de Janeiro. Xod dos "fritadores
de bolinhos' fora um adversrio destemido de Joo
Goulart. Vitorioso em 1 de abril, vira-se espremido pela
impopularidade da ordem que ajudara a erguer. Precisava da
ditadura para compensar seu desgaste popular, mas quanto mais o regime
se fechasse, menos a ditadura precisaria de
Carlos Lacerda.
Para Golbery a vitria da prorrogao cumprira dois objetivos: num
congelara Lacerda, noutro postergara uma eleio que
poderia levar ao julgamento do regime. Nos meses imediatamente
anteriores e seguintes a esse xito no Congresso, a
ditadura manteve sua rotina.  justo nessa poca que irrompe o surto
de rebeldia da guarnio goiana, com o coronel Danilo
Darcy da Cunha e Meio encarregado de um inqurito em que se arrancavam
sob tortura as confisses que deveriam instruir
a deposio do governo
#13 Para Vargas, Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps-1930,
coord. de Alzira Alves de Abreu
e outros, vol. 3, p. 2981. Para JK, John W. E Dulies, Carlos Lacerda -
A vida de um lutador, vol. 1:
1914-1960, pp. 286-7, citando a Tribuna da Imprensa de 15 de junho de
1957. Para Goulart, Carlos
Castello Branco, Introduo  Revoluo de 1964, tomo i: A agonia do
poder civil, p. 231
14 O apelido foi inventado por Samuel Wainer, que deu ao caricaturista
Lan a idia de retratar
Lacerda nas penas da ave, O primeiro Corvo foi publicado no jornal
ltima Hora de 25 de maio
de 1954, p. 3. Em John W. E Dulies, Carlos Lacerda - A vida de um
lutador, vol. 1: 1914-1960,
pp. 148-9.
15 David Nasser, citado em John W. E Duiles, Carlos Lacerda -A vida de
um lutador, vol. 1: 1914-
1960, p. 336.
16 Referncia feita por De Gaulle durante um almoo com Castelo
Branco. Em Armando Falco,
Tudo a declarar, p. 287.
17 Onze folhas da Central Inteiligence Agency, do Office of National
Estimates, de 31 de dezembro de 1964. Marcado
"secreto' BLBJ.
NO PALCIO 173#
Mauro Borges. Oficiais da Marinha de Santos recusaram-se a libertar
treze pessoas beneficiadas por um
habeas corpus.'18 Tropas indisciplinadas do Nordeste seqestraram o
ex-governador de Sergipe, Seixas
Dria,
e mantiveram preso num jogo de esconde-esconde o prprio filho do
inquisidor-mor, marechal Estevo
Taurino de Rezende.'19 Entre agosto e setembro desapareceram do 152
Regimento de Infantaria, em Joo
Pessoa, dois militantes das Ligas Camponesas.20 Comandava o 152 RI o
coronel Ednardo D'Avila
Melo, chefe
do Servio Federal de Informaes e ContraInformao durante o
mandarinato de Golbery no Conselho de
Segurana de Jnio Quadros. Foram os primeiros "desaparecidos" da
ditadura.
Conseguida a prorrogao do mandato de Castello, Golbery comeou a
tratar de Isabel, nome em cdigo da
operao poltica que deveria postergar a eleio de onze governadores
marcada para 3 de outubro de 1965.21
Costurou a manobra por quase um ano, e esse foi um dos poucos
movimentos em que ele e Lacerda andaram
na mesma direo. Essa aparente virtude ps a jogada a pique. Dois
dias depois de receber uma carta de
Lacerda informando que preferia a prorrogao dos mandatos dos
governadores  realizao de um pleito
indireto, no qual a escolha caberia aos deputados estaduais, Castello
decidiu-se pelo oposto. "Todo mundo de
pneu baixo. Eleies diretas nos onze estados!", registrou estupefato
Heitor Ferreira.22
A malquerena de Golbery com Lacerda tinha um aspecto emocional, mas
era tambm a projeo de uma luta
pelo poder. A marca da atividade poltica do general estava na sua
essncia antieleitoral. Ele manobrou contra
o pleito de 1965, da mesma forma como manobraria contra a eleio
presidencial de 66. No se tratava de
questo doutrinria, em que Golbery tivesse preferncia pelo sistema
indireto de preenchimento
#18 Para o caso de Gois, Carta de Simo Kossobudsky ao presidente
Castello Branco, de 11 de outubro de
1964, em O golpe em Gois, pp. 242-8. Correio da Manh, 27 de agosto
de 1964, capa do 12 caderno.
19 Correio da Manh, 26 e 30 de julho de 1964.
20 Dossi dos mortos e desaparecidos, pp. 104 e 117.
21 Seriam eleitos os governadores dos seguintes estados: Guanabara,
Minas Gerais, Paran, Maranho, Gois,
Alagoas, Mato Grosso, Par, Paraba, Rio Grande do Norte e Santa
Catarina.
22 Dirio de Heitor Ferreira, 22 de maro de 1965.
174 A DITADURA DERROTADA#
dos cargos executivos, mas de uma trapaa poltica destinada a manter
no poder pessoas que o voto popular
quase certamente defenestraria. A um interlocutor que chamava de
"suicdio" uma eleio indireta para
presidente, argumentando com o tamanho da bancada oposicionista, o
general respondeu: "E a direta 
suicdio certo".23 Lacerda era apenas um complicador das manobras
antieleitorais, pois embora no tivesse a
fora de JK, era sem dvida alguma o mais popular entre os polticos
que apoiavam o regime. Com rara
economia de palavras, Golbery resumiria o xeque a Lacerda: " indireta
sim, mas no para ele'24
Para quem? Para Castello Branco. Uma semana depois de o marechal ter
anunciado durante um almoo no
Clube Militar que no aceitaria uma segunda prorrogao, Golbery
queixava-se: "[As declaraes do
presidente] levaram o desnimo a amplas correntes de opinio
revolucionria que ainda no enxergam outra
soluo - garantia para salvaguarda do futuro da Revoluo e
complemento de sua obra renovadora'25 O chefe
do SNI pode ter desanimado, mas no desistiu. Chegou a obter de
Castello uma promessa de que no daria
mais declaraes daquele tipo.26 Em junho de 1965 achava-se de novo
numa articulao prorrogacionista.
Apesar das diversas denncias de que a manobra estava em curso, ela
sempre foi desmentida por Castello e
seu crculo mais prximo de assessores. O dirio de Heitor Ferreira
documenta essa articulao palaciana. So
cinco entradas, de junho a setembro de 1965.
18 de junho. O capito anotou que Golbery e Castello tiveram uma
"grande conversa no almoo' Nesse mesmo
dia o deputado Tedulo de Albuquerque, conhecido pelo trnsito que
tinha no gabinete presidencial, disse
que o Congresso estaria disposto a reeleger Castello.27
14 de julho. Heitor registra: "Golbery teve 'a conversa' com Geisel e
o presidente. 'Ento h que tocar logo o assunto, em agosto, setembro.
"28
#23 Dirio de Heitor Ferreira, 12 de outubro de 1965.
24 Idem, 6 de outubro de 1965.
25 Impresso Geral n2 16, de 9 de fevereiro de 1965. APGCS/HF.
26 Dirio de Heitor Ferreira, 4 de setembro de 1965.
27 Idem, 18 de junho de 1965.
28 Idem, 14 de julho de 1965.
NO PALCIO 175#
15 de julho. "O presidente deu luz verde ao Cordeiro. 'Isso agora 
com vocs"29
21 de setembro. Golbery diz a Heitor: "Estou me lixando para o que
possam pensar da continuao do Castello"30
24 de setembro. O capito Heitor ps no dirio a mais clara das
referncias.
Chegou o Malan [general Alfredo Souto Malan] para conversar com
Golbery e no meio do assunto anotei este trecho:
MALAN: Mas isso tem o rano de continusmo.
GOLBERY: Rano de continusmo?
MALAN: . Tem.
GOLBERY: No, no tem no.  o prprio continusmo.31
O projeto descarrilhou pela fora que Costa e Silva extraiu da
anarquia dos quartis e pela fraqueza inerente 
vacilao castelista. De um lado, recebeu o impacto da derrota dos
candidatos pr-regime nas eleies de
outubro de 1965. A nova ordem fora derrotada na disputa pelos governos
da Guanabara e de Minas Gerais,
mesmo levando-se em conta que os principais vitoriosos eram polticos
moderados. De outro, recebeu o golpe
da inquietao militar que se seguiu ao resultado eleitoral.
Na tarde de 27 de outubro, a desordem militar, manipulada pelo
ministro da Guerra, obteve de Castello um novo
Ato Institucional, chamado AI-2 e o primeiro a ser numerado. O Ato
reabria a temporada de cassaes, dilua o
Supremo Tribunal Federal, lesava o Congresso, extinguia os partidos
polticos e acabava com a eleio direta
como forma de
#29 Dirio de Heitor Ferreira, 15 de julho de 1965.
30 Idem, 21 de setembro de 1965.
31 Idem, 24 de setembro de 1965.
176 A DITADURA DERROTADA#
escolha do presidente da Repblica. Costa e Silva entrou no gabinete,
alcanou uma cpia do documento e
comeou a folhe-la: "Deixa ver, cad, onde est?"
Castello tomou uma pgina e mostrou um trecho. "Est a."
Estava numa das ltimas folhas. Era o pargrafo nico do artigo 26,
que regulava a eleio do prximo
presidente: "O atual Presidente da Repblica  inelegvel"32 Cara a
lpide sobre qualquer manobra
prorrogacionista. O ministro da Guerra, general Arthur da Costa e
Silva, tornara-se presidente eleito.
Nesses dias, acreditando ser possvel reverter a derrota, Golbery
assumiu uma atitude tpica de sua ao
poltica. "O importante  ganhar. A vitria redime tudo", disse a
Heitor Ferreira. "O importante agora  ganhar.
Depois vm todos rastejar."33 Perdeu. As manobras seguintes foram
afogadas pelas adeses pblicas e
secretas dos hierarcas do regime  candidatura do ministro da Guerra.
Golbery ainda tentou tramar uma
renncia coletiva dos ministros que fossem candidatos nas eleies de
1966, quando seriam escolhidos, alm
do presidente, dez governadores. Como Luiz Viana Filho, chefe do
Gabinete Civil, postulava o governo da
Bahia, era necessrio que liderasse o cordo dos demissionrios. Viana
temia deixar o palcio e perder a Bahia.
Acompanhado pelo amigo Antonio Carlos Magalhes, foi a Golbery e exps
a fraqueza do plano. Na verdade,
estavam com um p no Laranjeiras e outro no gabinete de Costa e
Silva.34 "Salve-se a Bahia, foda-se o Brasil",
respondeu o general.35 Dias depois, ao sair de uma conversa noturna
com Castello, entregaria os pontos:
"Tout estperdu"36 Ria-se no naufrgio, e o ministro da Justia, Mem de
S, contribua para o anedotrio:
"Como dizia Dante em seus melhores momentos poticos, siamo
tuttifottuti'37
#32 Narrativa de Ernesto Geisel a Heitor Ferreira, em Dirio de Heitor
Ferreira, 21 de junho de 1972.
33 Nota anexa ao Dirio de Heitor Ferreira, 14 de outubro de 1965.
34 Jayme Portella de Melo, A Revoluo e o governo Costa e Silva, p.
327.
35 Dirio de Heitor Ferreira, 3 de maro de 1966. Antonio Carlos
Magalhes narrou essa cena ao
autor em vrias ocasies.
36 ("Est tudo perdido.") Dirio de Heitor Ferreira, 15 de abril de
1966.
37 ("Estamos todos fodidos.") Idem, 16 de abril de 1966.
NO PALCIO 177#
So conhecidos 22 documentos de anlise poltica preparados pelo SNI
para leitura de Castello ou cincia dos ministros.
Foram quase todos escritos por Golbery. Neles Costa e Silva  o grande
ausente.38 Apesar de o primeiro pronunciamento
pblico em favor da candidatura do ministro  Presidncia ter sido
feito num jantar de quinhentos talheres no Jquei Clube
de Gois em julho de 1964, a primeira referncia do SNI  presena
dele na sucesso  de 21 de setembro.39 O Servio
volta a mencion-la superficialmente um ms depois, e s em novembro
associa o marechal a uma manobra dos adversrios
de Lacerda, que, deixados sem candidato, iriam buscar o seu no
Ministrio da
Guerra.40 Jo governador da Guanabara 
citado em dezesseis dos 21 documentos, ora como "vedete", ora como
administrador
fracassado.41
 provvel que Golbery tenha subestimado a audcia de Costa e Silva e
superestimado a coragem de Castello Branco. No
disputou a partida nos quartis e perdeu em silncio. O Corca que
conspirara contra Getulio, JK e Jango, no conspirou
contra Costa e Silva. Sua relao com o general era quase de desprezo.
Mesmo assim, diante das duas candidaturas, disse a
Castello: "Entre Costa e Lacerda, fico muitssimo mais com o Costa'42
Durante a crise das eleies de 1965 Golbery desejou se tornar
interventor na Guanabara. Chegou a listar 23 nomes de
pessoas que chamaria para o seu governo. Quase todos civis, iam de
velhos amigos, como o empreiteiro Haroldo Cecil
Poland e o banqueiro Jorge Oscar de Melo Flres, a estrelas do meio
cultural, como o romancista Adonias Filho e o
#38 So eles: Apreciao Sumria, de 30 de abril e de 30 de dezembro
de 1964; Estimativa, de 10 de
julho, 15 de setembro e 15 de dezembro de 1964, e Impresso Geral,
documentos numerados de 1
a 17, datados de 16,23 e 31 de agosto, 6, 14,21 e 28 de setembro, 5 e
19 de outubro, 2,9 e 23 de novembro, 14 e 29 de
dezembro de 1964,13 de janeiro, 9 de fevereiro e 16 de maro de 1965.
APGCS/HF.
39 Para o lanamento da candidatura, feito inesperadamente pelo
deputado Alfredo Nasser, ver
Jayme Portella de Mello, A Revoluo e o governo Costa e Silva, pp.
234-5. Impresso Geral n2 6, de
21 de setembro de 1964. APGCS/HF.
40 Impresso Geral n2 11, de 9 de novembro de 1964. APGCS/HF.
41 Para "vedete", Estimativa de 10 de julho de 1964. Para o fracasso
administrativo, Impresso Geral
n21, de 16 de agosto de 1964, e para a classificao de "oportunista
insatisfeito", Estimativa n22, de
15 de dezembro de 1964. APGCS/HF.
42 Dirio de Heitor Ferreira, 22 de maro de 1965.
178 A DITADURA DERROTADA#
arquiteto Srgio Bernardes.43 Mesmo nos dias mais tensos, quando o
receio de uma revolta militar provocou
uma distribuio de submetralhadoras no palcio Laranjeiras, Golbery
dormia no quarto dos ajudantes- de-
ordens pensando em governar o Rio.44 No dia em que a Justia Militar
deveria decidir se prendia ou no o
governador Negro de Lima, o general foi ao palcio vestindo o seu
melhor terno, de tropical azul.45 Negro
ganhou, e Golbery foi dormir como chefe do SNI.
Talvez a interventoria tenha sido uma miragem que lhe permitiria
continuar na poltica depois da "debacle" que
significava o triunfo do Seu Arthur. Era a quarta vez que Golbery
perdia a parada. Na sua conta:
"1950, 1955, 1961 e agora"46 Nos ltimos meses de 1966, quando Carlos
Lacerda e Juscelino Kubitschek se
juntaram numa frente oposicionista que mais tarde atrairia at mesmo o
ex-presidente Joo Goulart, Golbery
deu o ltimo tiro na direo de Lacerda. Tentou cass-lo, acusando-o
de "solapar a autoridade do presidente
da repblica, desmoralizar a obra da Revoluo, desprestigiar as
Foras Armadas perante a Nao e mesmo
dividi-las' 47 A idia no prosperou, sobretudo porque Costa e Silva
se esquivou de apoiar a medida.48
Batido, Golbery enfurnou-se. Como gostava de repetir, "quebrara a
mola' Cumpria a rotina, retraa-se e apagava
rastros. Primeiro parou de falar de poltica com o presidente, em
seguida determinou a suspenso das
interceptaes telefnicas e pediu a Heitor Ferreira que comeasse a
limpar os arquivos do SNI.49 No
crepsculo do governo, Geisel sugeriu a Castello que nomeasse o
general para o Tribunal de Contas da Unio.
Depois de remanchar por alguns dias, o marechal assinou o decreto.50
Pelo resto de sua vida Golbery haveria
de ser parcimonioso nos adjetivos que
#43 Nota anexa ao Dirio de Heitor Ferreira, 8 de agosto de 1965.
44 Dirio de Heitor Ferreira, 3 e 5 de dezembro de 1965.
45 Idem, 5 de dezembro de 1965.
46 Idem, 16 de abril de 1966.
47 Informao Especial, do SNT, acompanhada de um manuscrito de Heitor
Ferreira, revisto por
Golbery, sem data, de novembro de 1966. APGCS/HF.
48 Dirio de Heitor Ferreira, 29 de novembro de 1966.
49 Idem, 5 e 12 de maio de 1966.
50 Idem, 23 de janeiro de 1967.
NO PALCIO 179#
dedicava a Castello. Jamais o criticava, nunca o elogiava, era raro
que o mencionasse. Desencantado, aos 55
anos o conspirador julgava ter chegado ao fim da linha: "Eu no quero
mais conversar sobre poltica brasileira.
No tenho o que dizer".51
Depois de terem passado boa parte de suas vidas associados ao projeto
de um governo certamente
forte, provavelmente militar, Geisel e Golbery viviam um regime forte
e militar, mas pareciam no
ter mais nada a dizer.
#51 Dirio de Heitor Ferreira, 10 de fevereiro de 1967.
  PARTE II O caminho de volta
  A COSTURA#
  O peso do irmo
O primeiro passo documentado para a escolha do sucessor de Medici foi
dado pelo prprio presidente em janeiro de 1971.
O general tinha pouco mais de um ano de governo, e faltavam trs para
que acabasse seu mandato. Reuniu-se com os
colaboradores mais prximos na granja do Riacho Fundo, onde passava a
maior parte dos dias livres, fugido da fornalha do
Alvorada. Eram o general Joo Baptista Figueiredo, chefe do Gabinete
Militar, o professor Joo Leito de Abreu, do
Gabinete Civil, e o general Carlos Alberto da Fontoura, chefe do SNI.
Figueiredo levara um roteiro onde mencionava o "grande problema"
e listava dois caminhos: "a) permanncia; b) candidaturas'1
Pelo caminho das candidaturas sugeria a necessidade de buscar um
"nome nacional" que preservasse a unidade militar. No roteiro havia a
pergunta: "Quem?'
A conversa durou trs horas, e segundo assegurou Figueiredo, a
resposta foi Ernesto Geisel.1 Essa foi uma das respostas,
mas dificilmente foi
a nica e por certo no foi definitiva. O ministro do Exrcito,
Orlando
#1 Roteiro da exposio feita pelo general Figueiredo ao presidente
Medici em janeiro de 1971, acompanhado por um bilhete
de Figueiredo a Heitor Ferreira encaminhando-lhe o documento em 79.
APGCS/HF. No bilhete Figueiredo contou: "A
concluso final, com a qual o presidente Medici concordou
inteiramente, era que o candidato ideal seria o general Geisel'
Num recorte da revista Viso de 22 de maro de 1976, pp. 18-22,
intitulado "Retrospecto e perspectivas da sucesso
presidencial'  margem do trecho onde se diz que Medici s resolveu
tratar da sucesso no segundo semestre de 73,
Figueiredo escreveu: "Escolhido em junho de 1971 !' No Dirio de
Heitor Ferreira,
186 A DITADURA DERROTADA#
Geisel, sabia da conversa. Ao contrrio da sucesso de Castello, na
qual a imprensa e os polticos desempenharam um
papel relevante, a de Medici foi desde o primeiro momento uma disputa
subterrnea. Nela houve muitas manhas, mas entre
todas s uma realmente proibida: levar a questo para fora do palcio,
do centro do poder. Segredo tpico das ditaduras, era
permitido sab-lo, proibido propag-lo.
Na poca do encontro do Riacho Fundo a sucesso dependia do destino do
general Affonso de Albuquerque Lima. Lder da
linha dura no mandato de Castello Branco, tornara-se ministro do
Interior de Costa e Silva e vira-se defenestrado depois de
um confronto com o comando econmico do governo. Na crise de 1969
aparecera como forte candidato  Presidncia, na
substituio de Costa e Silva. A fora dele vinha da tropa, mas fora
derrotado no consistrio de quatro-estrelas que
simulara uma consulta aos quartis. Continuara na ativa e estava a um
passo da promoo a general-de-exrcito. Poderia
ganhar a quarta estrela no final de 1970 e, com ela no ombro, na certa
seria candidato a presidente. Sem ela, entraria num
glorioso pijama. O futuro do general ameaava o controle de Medici
sobre sua prpria sucesso. "Ele vai criar problemas
dentro do exrcito e dentro do Brasil. J criou uma vez e vai criar de
novo' reclamava Orlando Geisel.2 Com a ajuda do
chefe do Estado-Maior, Antonio Carlos Muricy, numa operao em que se
misturaram porretes e cenouras, o ministro
liquidou Albuquerque Lima.3 Foi o Capito Muricy quem fez o trabalho
de campo.
Tratando do assunto com o general Rodrigo Octavio Jordo Ramos, o
R.O., amigo e companheiro deAlbuquerque Lima na
arma da engenharia, Muricy foi ao nervo:
#1 entrada de 21 de julho de 1972, h uma narrativa resumida do que
teriam sido esse encontro e sua gestao. Em entrevista a
Glaucio Ary Dilion Soares e Maria Celina d'Araujo, do CPDOC, o general
Octavio Medeiros, assistente de Figueiredo, que
foi com ele ao Riacho Fundo, diz que a reunio aconteceu em junho de
1972. Prevaleceu o documento encaminhado por
Figueiredo a Heitor Ferreira.
2 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
3 O ministro Orlando Geisel promoveu o general Humberto Mello  quarta
estrela na expectativa de com isso receber o
voto de seu amigo Augusto Cesar Moniz de Arago contra Albuquerque
Lima. Dirio de Heitor Ferreira, 27 de janeiro de
1972. O general Syseno Sarmento, que votou contra Albuquerque Lima,
obteve uma cadeira de ministro no Superior
Tribunal Militar.
O PESO DO IRMO 187#
"Ganhando a quarta estrela ele vai trabalhar para ser presidente."
" um direito dele' argumentou R.O.
"E precisamente por ser um direito dele e por eu achar que ele no
pode ser presidente, trabalho contra'
respondeu Muricy.4
No fim da cabala e atravs de sucessivas preteries, Albuquerque Lima
caiu nos mecanismos compulsrios
de passagem para a reserva em maro de 1971. Nessa manobra o ministro
Orlando Geisel venceu a sua primeira
e nica dificuldade no Alto-Comando. Dissolveu o condomnio de
generais que controlara o Exrcito nas
desordens do governo Costa e Silva liquidando a frio, num episdio sem
precedentes, um chefe militar
experimentado na administrao, articulado na poltica e popular na
tropa. Albuquerque Lima afundou
atirando, j na reserva, durante um jantar de quatrocentos talheres.
Denunciou uma "tenaz e injusta
perseguio, a ponto de no permitirem [...] que a Imprensa [...] faa
uma referncia sequer ao meu nome'5 De
fato, poucos dias antes a Censura transferira o ex-ministro para o
limbo dos mortos vivos: "Urgentssimo: De
ordem superior fica terminantemente proibida a divulgao, por
qualquer meio de comunicao, imprensa, rdio
e televiso, de entrevista, memorial, carta ou qualquer outro meio de
manifestao, de autoria ou referente ao
general Albuquerque Lima"6
O general saiu do caminho e foi trabalhar com um cunhado milionrio.
Fechado em seu gabinete da Candelria (uma pequena sala sem sof nem
banheiro privativo), Geisel era uma
espcie de candidato prodgio para a mitologia do regime. Numa
ditadura militar que cultuava os tecnocratas,
era a um s tempo general e presidente da maior empresa do pas.
Administrava perto de 1,5% do PNB.7 Tinha
um p no castelismo e
#4 General Antonio Carlos Muricy, agosto de 1988.
5 O Estado de S. Paulo, 18 de maro, e The New York Times, 19 de maro
de 1971.
6 Paolo Marconi, A censura poltica na imprensa brasileira -
1968/1978, p. 232.
7 Para a participao da Petrobrs no PNB, Laura Randail, Thepolitical
economy ofBrazilian oi4 p. 13.
188 A DITADURA DERROTADA#
outro na nova ordem. Estava na reserva,  certo, mas seu irmo era
ministro. Seguindo a norma das burocracias
e das ditaduras, movia-se parado: "Eu quero fazer um favor a eles. No
me engajo. No movo uma palha por
essa candidatura. Vo ter que vir me buscar. A eu vou e atendo". 8
Dada a existncia de uma verdadeira
simpatia de Medici pelo nome dele, era difcil bat-lo.
Seu nico adversrio era o fantasma da prorrogao ou mesmo da
reeleio do presidente. A extenso do
mandato de Medici por um ano, levando-o at maro de 1975, tinha
alguma racionalidade poltica. Em abril de
1974 comeariam a caducar as cassaes feitas dez anos antes. Isso
significaria o retorno  poltica de
Juscelino Kubitschek, Jango e dezenas de proscritos. Alm do mais, em
novembro seria realizada uma
mastodntica eleio, em que se escolheriam toda a Cmara, um tero do
Senado e todas as assemblias
legislativas.
Golbery, escrevendo em cdigo a Heitor Ferreira, chegara a acreditar
nas virtudes da prorrogao: "Caso
Timteo - marchando bem. Claro que h outros interessados em solues
evidentemente inferiores mas nunca
a desprezar - no vou citar nomes. Creio que a s razo acabar
imperando.
[...] Em termos realistas, melhor
seria se o nosso Jorge agentasse de quatro para cinco e resolvesse
isso, deixando a pista limpa para
depois"9
Timteo era Geisel, que no gostava da idia. Jorge era Medici, que
no mencionava o assunto.
O fantasma transmutava-se. Ora aparecia como prorrogao, ora como
reeleio. O respeitado professor Leito
de Abreu sinalizava que tanto uma hiptese como a outra eram
plausveis, at mesmo para que o leque de
alternativas do Planalto permanecesse aberto.'10 Esse leque tinha
diversas funcionalidades. A mais elementar
preservava o poder do presidente, adiando o desgaste trazido pelo fim
do mandato e pelo surgimento de um
novo foco de poder. Outra, comum a todas as
#8 Dirio de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971 e 27 de janeiro
de 1972.
9 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 15 de outubro de 1971.
APGCS/FIF.
10 Carlos Castello Branco, "Leito de Abreu, vocao de poder e belo
companheiro' em Jornal
do Brasil de 15 de novembro de 1992, p. 2.
O PESO DO IRMO 189#
manobras continustas, destinava-se a manter no palcio as pessoas e
os interesses ali instalados.
Havia outra ainda, produzida pelo perodo de fausto da ditadura. O
continusmo contrapunha o prestgio e a
fora do presidente ao nome de eventuais candidatos. Bastaria que
Geisel movesse um dedo contra a manobra
para que a desavena com o hipottico projeto de glorificao de
Medici o liquidasse. Se o candidato no
concordava com a prorrogao do mandato do patrono, por que este
haveria de entregar-lhe a Presidncia?
O estratagema derreteu-se porque Geisel nunca lhe fez oposio. Se
Medici quisesse continuar, que
continuasse. "Ningum conte comigo para ir contra o Medici' advertia."
Essa reao inverteu a trajetria da
manobra, transformando a ameaa em proteo. Golbery explicava as
virtudes do prorrogacionismo: "Ele fecha
a lista de inscries. Depois que se comeou a falar na continuao de
Medici, quem se lanar candidato estar
em oposio a ele, no a Geisel" "Tudo vai depender do Grande
Eleitor."2
Medici e o regime viviam seus dias de esplendor. Uma pesquisa feita
junto a operrios indicava que o governo
e os militares eram as instituies em que mais confiavam para
defender seus interesses. Os mais
desacreditados eram os polticos e, entre eles, os da oposio.13
O general orgulhava-se do desempenho da ditadura: "Amadurecemos o
bastante para descobrir as vantagens
do equilbrio e da ordem, do planejamento, mtodo, da continuidade e
da convergncia. O Brasil emergiu, em
oito anos apenas, de longa infncia e de tumulturia adolescncia,
para o estgio de nao adulta e sria, que
sabe para onde vai e sabe o que pretende"'4 Beneficiado pela alegria
natural trazida pela Copa de 70, o
governo decidiu patrocinar uma temporada de patriotismo no ano do
Sesquicentenrio da Independncia.
Anunciou que d. Pedro 1
#11 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de setembro de 1972.
12 Golbery do Couto e Silva, 1972, e Dirio de Heitor Ferreira, 24 de
fevereiro de 1972.
13 Youssef Cohen e outros, "Representation and development in Brazil,
1972-1973' citado por
Cohen em The manipulation of consent, p. 45.
14 Emilio Garrastaz Medici, Nosso caminho, p. 76. Mensagem ao povo
brasileiro, no limiar do
ano-novo, transmitida por rede nacional de rdio e televiso, na noite
de 31 de dezembro de 1971.
190 A DITADURA DERROTADA#
regressaria ao Brasil, deixando a cripta do mosteiro dos Jernimos, em
Portugal, onde descansava desde 1834. Para
movimentar a festa, organizaria uma Minicopa Mundial de Futebol.
Medici canalizava a euforia moldando uma imagem comum e austera. O
apagado Milito sentara-se firmemente naquela
cadeira em que Tamanco e Portugus mal se haviam agentado. Era senhor
da sua prpria sucesso como nenhum
presidente o fora. Em pelo menos uma conversa admitiu que tinha um
candidato para cada situao. Num pas conflagrado,
indicaria o general Adalberto Pereira dos Santos, seu amigo, primeiro
colocado de sua turma, ministro do STM. Num pas
"com problemas' "o Ernesto" Numa situao de perfeita calma, o
professor Leito de Abreu, chefe do Gabinete
Civil.'15
Muitos presidentes desejaram continuar e no conseguiram. Dele se pode
dizer que se tivesse desejado, teria
ficado.'16
Do Exrcito partiam tnues reverberaes polticas, quase sempre
patrocinadas por generais sados da arma da engenharia,
contrafeitos com a destruio de Albuquerque Lima. O general Alfredo
Souto Malan, novo chefe do Estado-Maior do
Exrcito, sugeria que, excludas as "correntes radicais vermelhas",
talvez fosse possvel algum tipo de reconciliao com a
juventude esquerdista: "Por que no facilitamos a esses irmos a
tomada de um atalho que os possa trazer  estrada larga da
participao?'17 Malan retomaria o tema meses depois falando numa
"sociedade democrtica, em que o desenvolvimento,
a segurana e a liberdade marchem
#15 Informao dada a Heitor Ferreira pelo general Figueiredo, em
Dirio de Heitor Ferreira, 6 de dezembro de 1973. Para
uma verso sem nomes, feita logo depois da posse, ver Roberto Nogueira
Mdici, Medici - O depoimento, p. 31.
16 Medici jamais discutiu publicamente essa questo. Uma explicao
para tal conduta foi dada em 1995, pelo seu filho
Roberto: "Achava a prorrogao do mandato do Castello Branco um grande
erro poltico. Estabeleceu a desconfiana no
seio da liderana civil que at ento respaldava o movimento de 1964'
Folha de S.Paulo, 16 de julho de 1995.
17 Histria do Estado-Maior do Exrcito, p. 193.
O PESO DO IRMO 191#
de mos dadas", e no final de 1971 pediu mesmo o"desengajamento
controlado das Foras Armadas'18
Pouco depois do discurso, num almoo no restaurante do Museu de Arte
Moderna, Malan sugerira a Geisel e
Golbery que entregassem o Ministrio do Exrcito ao general Euler
Bentes Monteiro, estrela ascendente da
Engenharia. Golbery abateu a idia em vo.'19 Malan daria ainda
indicaes de que gostaria tanto de ser
ministro como de ter seu nome considerado na disputa pela Presidncia,
"nem que fosse para boi de piranha".
20 Eram meros sinais, quando muito desejos, sem nenhuma articulao
militar ou civil a ampar-los.
Quando as iniciativas dos generais ameaavam prosperar, mesmo
respeitando as regras da ditadura, Orlando
Geisel baixava o chanfalho. Em maro de 1971 o general Rodrigo Octavio
tratara da volta ao estado de direito
durante a aula inaugural do Instituto Militar de Engenharia e meses
mais tarde, como comandante da Escola
Superior de Guerra, convidara os estagirios a participar de um
trabalho sobre a "institucionalizao poltica do
processo revolucionrio' No momento em que os quadros de aviso da
escola anunciavam o projeto, Orlando
demitiu-o. Mal completara quatro meses no comando. R.O. saiu da Urca
lembrando "nossas mais caras
tradies: vocao democrtica, formao liberal e vocao crist", e
recolheu-se a obediente silncio depois
que a Censura proibiu que se noticiasse a sua exonerao.21
Em outros casos o ministro recorria  simples humilhao dos
adversrios. Ao receber os cumprimentos pelas
festas de fim de ano, reencontrou na fila dos generais seu velho
inimigo Jayme Portella:
#18 Veja, "Temas para a necessria reforma", 25 de agosto, p. 16, e "O
desengajamento
controlado'
22 de dezembro de 1971, p. 25. Documentos histricos do Estado-Maior
do Exrcito, p. 473.
19 Dirio de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971 e 20 de maro de
1972.
20 Idem, 31 de dezembro de 1971.
21 Para o discurso, Veja, "Mudana na ESG'
6 de outubro de 1971, p. 26, e "Despedida na ESG' 13
de outubro de 1971, p. 26. Para a Censura, Paolo Marconi,A censura
poltica na imprensa brasileira
- 1968/1978, p. 235. A demisso de Rodrigo Octavio foi tratada
discretamente em diversas publicaes.
192 A DITADURA DERROTADA#
- Espero que em 1972 voc pare de conspirar - disse-lhe Orlando
Geisel.
- Eu, general?
- O meu servio de informaes diz que voc est conspirando.
- E o senhor acredita?
- No, no acredito. Por isso  que eu quero que voc pare de
conspirar, que  para eu acreditar menos ainda.22
Portella no parou, nem pararam de vigi-lo.23 De acordo com o SNI,
reunia-se no escritrio de um amigo na avenida Rio
Branco e fazia uma mesa semanal no restaurante Nino's, em Copacabana.
O Servio atribua-lhe dois projetos. Um,
legalista, destinava-se a permitir a posse do vice-presidente,
almirante Augusto Rademaker, caso Medici tivesse algum
problema de sade. Baseava-se na formao de um "clima de
restabelecimento da legalidade, abertura democrtica" Outro,
liberticida, destinava-se a minar Geisel e propunha: "Suscitar nos
meios militares duas teses: a de que o governo Medici
reduziu o mpeto revolucionrio, que ainda precisa de dez anos; a de
que os cassados de 1964, que teriam seus direitos
polticos devolvidos em 1974, no podem voltar  vida poltica
- e com essa posio ressuscitar a mstica da punio
revolucionria"24 Segundo o SNI,
Portella - personagem decisivo na
trama que levara Costa e Silva  Presidncia - queria propagar nos
quartis a inconvenincia da escolha de generais com mais
de 65 anos, "quase sempre doentes". Queria "um presidente novo para um
pas novo", com um general jovem na cabea da
chapa e um coronel na vice. Caso Geisel resistisse a esse tipo de
sapa, o melhor seria lanar um candidato civil. Para isso
Portella julgava til jogar na frente o nome do ministro Delfim Netto,
da
#22 Dirio de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de
1971.
23 O general Joo Baptista Figueiredo, chefe do Gabinete Militar,
pediu ao coronel Edmundo Adolpho Murgel, chefe da
Agncia Rio do SNI, uma "ateno especial" para Portella. O pedido foi
feito por intermdio do coronel Newton Leito. Os trs serviram no SNJ
durante o governo
Castello. Dirio de Heitor Ferreira, 4 e 16 de fevereiro de 1972.
24 Trs folhas com cpia de um relatrio, carimbado "secreto' sem
data, assinatura ou origem. APGCS/HF. Datado, com a
entrega atribuda ao coronel Ivan de Souza Mendes, pela nota do Dirio
de Heitor Ferreira de 30 de abril de 1972. Em 1986
Heitor Ferreira informou ao autor que o documento provinha do SNI.
O PESO DO IRMO 193#
fazenda, queimando-o logo depois "pelos processos mais clandestinos,
sobretudo, fazendo chegar informes s
Foras Armadas - usando elementos do Itamaraty - sobre irregularidades
nas negociaes internacionais"
Carbonizado Delfim, o general teria a oferecer o nome do governador
mineiro Rondon Pacheco, de quem se
declarava fiador.25 Davam-se bem desde o governo Costa e Silva, quando
Portella, como chefe do Gabinete
Militar, tivera Rondon por inquilino no Gabinete Civil.
Generais como Portella, Rodrigo Octavio e Malan comandavam bibliotecas
e garagens. Entre os comandantes
de tropa o caminho para a notoriedade era bem outro, apocalptico,
delirante. O do ii Exrcito, Humberto de
Souza Mello, achava que a censura existente era pouca: "Isto nos leva
a dar combate ao inimigo subversivo
que utiliza, como instrumentos blicos em sua insidiosa guerra
revolucionria, armas convencionais brancas e
de fogo, e tambm a palavra escrita e falada, o teatro, a televiso e
o cinema para a pregao de um
materialismo selvagem e demonaco" 26 Senhor de barao e cutelo da
mquina repressiva em So Paulo, o
general era candidato. Gostava de festas e falava demais. Numa delas,
exps seus desejos polticos: iria para o
comando do i Exrcito, de l para o ministrio, e depois chegaria ao
Planalto. O obstculo, segundo ele,
chamava-se Orlando Geisel: "Est muito doente. Vai morrer, tem
enfisema"27
Asmtico na infncia, fumante na maturidade, enfisema o ministro
tinha. Mas no incio de 1972 no estava to
mal. Tomando um composto de vitaminas suas, nutrientes de abelhas, e
guas coletadas pela filha esprita,
atravessara uma sucesso de gripes que o haviam debilitado. Convencido
de que tinha as coronrias
entupidas, fugia dos mdicos.28 Trs meses aps a praga contra
Orlando, um distrbio intestinal derrubou o
obeso Humberto Mello no palanque das autoridades que recebiam o
#25-1025 Trs folhas com cpia de um relatrio, carimbado "secreto",
sem data, assinatura ou origem.
APGCS/HF. Datado, com a entrega atribuida ao coronel Ivan de Souza
Mendes, pela nota do Dirio de Heitor Ferreira de 30 de abril de 1972.
Em
1986 Heitor Ferreira informou ao autor que o documento provinha do
SNI.
26 Folha de S.Paulo, 31 de maro de 1971, p. 6.
27 Observao contada a Heitor Ferreira pelo general Antonio Luiz de
Barros Nunes, o Cacau,
em Dirio de Heitor Ferreira, 27 de janeiro de 1972.
28 Dirio de Heitor Ferreira, 25 de janeiro de 1972.
194 A DITADURA DERROTADA#
presidente boliviano em Mato Grosso. "O que ele teve?", perguntou dias
depois Heitor Ferreira ao general
Figueiredo. "U idia' respondeu o chefe do Gabinete Militar.29
O general Breno Borges Fortes, comandante do iii Exrcito, com
jurisdio sobre toda a fronteira sul do pas,
estava metido num esquema mais audacioso: a invaso do Uruguai caso o
candidato esquerdista Lber Seregni
vencesse a eleio presidencial de novembro de 1971. Pelo menos uma
unidade de combate, a 2 Brigada de
Cavalaria Motorizada, j concebera suas operaes e tinha comandante
escolhido. Entre os planos de
campanha chegara-se a redigir um item intitulado: "Ordem s outras
Foras"3 Helicpteros da FAB foram para
a fronteira com ordens para realizar vos de reconhecimento.30 Seregni
foi derrotado por Juan Mara
Bordaberry, o Uruguai deslizou em direo  ditadura militar, e os
projetos do general Breno nunca puderam
ser testados. Faltavam-lhe dois elementos essenciais para mover a
tropa: autorizao do presidente e gasolina.
Medici ameaou exoner-lo, e Geisel, ao saber que o general
requisitara combustvel  refinaria Alberto
Pasqualini, mandou que no lhe dessem uma s gota enquanto ele no
fosse lhe pedir pessoalmente. "Nunca
me disseram mais nada", lembraria.32
Geisel teve no irmo seu maior cabo eleitoral. No se pode precisar a
ocasio em que os dois trataram pela primeira vez da sucesso de
Medici.
Segundo o general, o assunto veio numa conversa em que Orlando lhe
disse:
- Prepare-se porque  possvel que voc venha a ser presidente da
Repblica.
#29 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de abril de 1972.
30 Informao dada pelo coronel Danilo Venturini a Heitor Ferreira, em
Dirio de Heitor Ferreira,
5 de maio de 1972.
31 Francisco Deilamora, fevereiro de 2001.
32 Para os detalhes do plano e para a ameaa de Medici, Ernesto
Geisel, maio de 1985. Conversa
de Figueiredo com Geisel, 9 de fevereiro de 1974, APGCS/HF. Ver tambm
Dickson M. Grael,
Aventura, corrupo, terrorismo, pp. 11-21.
O PESO DO IRMO 195#
- Por que eu? [...] Por que no voc?
- Porque eu no tenho sade.33
Essa conversa, pela sua lembrana, ocorreu no final de 1972.  difcil
que isso tenha acontecido to
tarde. Retrospectivamente, Geisel sempre cuidou para que no se
atribusse a escolha dele ao
irmo.34
Pode-se supor que, no segundo semestre de 1971, quando Geisel convidou
Heitor Ferreira para vir
ao Rio e instalar-se na Petrobrs "para cuidar dos meus assuntos' j
estava ocupado como
candidato a presidente. 35 O novo colaborador logo percebeu: "O
homem-chave de toda a manobra
 o Orlando"36 Em maro de 1972 o general garantia que o irmo nunca
tocara em seu nome com
Medici, da mesma forma que o presidente jamais lhe fizera aceno algum.
Era raro que a imprensa mencionasse Ernesto Geisel como eventual
sucessor de Medici.37 O nome de Geisel
circulava no Congresso desde os ltimos meses de 1970, mas ele no
dava oportunidade aos interlocutores
para tratar do assunto, at que em fevereiro de 72 um sargento que o
servira como motorista no STM,
transferido para Braslia, foi ao Leblon despedir-se do antigo chefe:
- E quando  que o senhor vai? - perguntou o sargento.
- Ah, eu no vou - respondeu Geisel.
- Vai sim. O senhor vai ser presidente.38
#33 Maria Celina d'Araujo e Celso Castro, orgs., Ernesto Geisel, p.
258. Numa conversa com o autor, Geisel narrou a mesma resposta de
Orlando, em
Outros termos: "Eu no posso. Sou um homem condenado".
34 Para a data, Ernesto Geisel, 1994.
35 Dirio de Heitor Ferreira, 13 de novembro de 1971.
36 Idem, 31 de dezembro de 1971.
37 A principal exceo a essa regra foi um artigo do jornalista Carlos
Chagas em O Estado de S. Paulo, de 21 de janeiro de 1972, p. 4, no qual,
entre
outras solues possveis, citou nominalmente o general Ernesto
Geisel.
38 Narrativa de Geisel a Heitor Ferreira, em Dirio de Heitor
Ferreira, 25 de fevereiro de 1972.
A turma da Candelria#
Geisel sabia que ia ser presidente, mas a ltima coisa que lhe
passaria pela cabea seria discutir
esse assunto com um motorista, sargento, ainda por cima. No seu
gabinete da Candelria, o general
manteve-se cercado por uma pequena rede de colaboradores que nunca
chegou a ultrapassar a
dezena. Todos amigos, todos militares, todos veteranos conspiradores.
Salvo um, instalado no
Planalto, operavam no Rio de Janeiro e concentravam-se nos nove
quarteires da avenida Rio
Branco que vo do sop do morro de So Bento  rua da Assemblia.
A principal pea era Golbery. Em abril de 1970 estivera inquieto:
"Preocupa-me continuarmos na estaca zero. Que ser em 1974? A mesma
papagaiada?") Menos
de um ano depois passara  euforia: "O Geisel presidente  uma soluo
to boa para o pas
[...]
que fao absolutamente qualquer coisa que ele quiser"2 Com as ligaes
do ips, costurava por
dentro no empresariado. "O Golbery esteve aqui e me fez meia dzia de
vezes a mesma
recomendao. Bico calado", contava o general Muricy.3 Numa de suas
raras aparies pblicas,
no quartel-general da Dow, em Coral Gables, na Flrida, repetiu
conceitos que arriscava discutir
com jornalistas e alguns poucos amigos militares:
#1 Carta de Golbery a Heitor Ferreira, de 28 de abril de 1970.
APGCS/HF.
2 Anotao de Heitor Ferreira, 10 de janeiro de 1972.
3 Idem, 26 de janeiro de 1972.
198 A DITADURA DERROTADA#
A centralizao do poder poltico nas mos do Executivo, as restries
ainda existentes para a atividade
poltica e o excessivo controle do Estado sobre a economia so todos
riscos calculados, aceitos
conscientemente de forma a assegurar uma rpida decolagem do pas.
Todos ns sabemos, como disse Lord
Acton: "O poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente'
Alm disso, a coero excessiva gera
muito mais perigos e tenses. [...] Freqentemente, como nesse caso,
h um certo grau de incompatibilidade
entre os diversos objetivos de um conjunto. Essa incompatibilidade s
pode ser contornada por uma manobra
estratgica a ser planejada e executada numa sucesso de etapas. Esse
contorno  em si mesmo um
estratagema.4
Com setenta anos de vida e meio sculo de conspiraes, ex-governador
de Pernambuco e do Rio Grande do
Sul, comandante da artilharia da FEB e ministro do Interior de
Castello, o marechal Cordeiro de Farias jogava
mais uma sucesso presidencial. Tornara-se conselheiro de um
conglomerado industrial nordestino, mas seu
negcio era poltica. Estava convencido de que os projetos de
colonizao s margens da Transamaznica
acabariam em fracasso e criticava a forma como se processava a obra da
ponte Rio-Niteri.5 Aos polticos
que o procuravam repetia o mesmo conselho: "Fiquem bem quietos. No
sabem nada. No abram a boca"6
Cordeiro no falava coisa sria no telefone e, embora estando a trs
quarteires do gabinete de Geisel, l
raramente punha os ps. Suspeitava que a entrada do prdio estivesse
vigiada.7 Perto do Carnaval de 1972,
chamou Heitor Ferreira ao seu escritrio para pedir-lhe que pusesse os
olhos num recrudescimento das prises
de estudantes no Rio de Janeiro. Era elptico at nas confidncias, e
disse a Heitor que temia a possibilidade de
se criar "um certo clima a fim de provocar um outro certo clima'8 A
4 Brazil - Realities and Prospects. Mao
de dezenove folhas com o texto da palestra de Golbery
ao Conselho da Dow, em 1972, pp. 5-6. AA.
5 Dirio de Heitor Ferreira, 25 de janeiro de 1972.
6 Idem.
7 Idem, 28 de janeiro de 1972.
8 Idem.
A TURMA DA CANDELRIA 199#
embaixada americana tambm captara esse clima, em Braslia. No
endossava a especulao, mas registrava que as
prises estavam sendo relacionadas com uma eventual tentativa de
"conter a candidatura do general Ernesto
Geisel"9 Haviam prendido quarenta jovens da classe mdia e matado o
comandante da ALN no Rio. Segundo a
dA, das dezoito mulheres presas, nenhuma participara de aes
terroristas.'10
Ao contrrio de Golbery e Cordeiro, que tinham a capacidade de atrair
a ateno sobre seus movimentos, o
marechal Ademar de Queiroz, o Tico- Tico, era um conspirador
inconspcuo. "Eterno", segundo o amigo
Ernesto Geisel.'11 Presidira a Petrobrs e substitura Costa e Silva
no Ministrio da Guerra durante o governo
Castello, e mesmo assim era praticamente desconhecido. Dirigia uma
empresa paulista de produtos
petroqumicos. Modesto e afvel, protegera os "fritadores de bolinhos"
nos perodos de desgraa poltica.
Chamava Golbery de "meu filho", e ele, 21 anos mais moo, chamava-o
"chefe' Surpreendera os amigos em
1964 quando se recusara a demitir funcionrios da Petrobrs com base
nos atos institucionais, preferindo usar
a legislao trabalhista: "Daqui a alguns anos vem uma anistia, e os
punidos pelos atos vo voltar. Pela lei ser
mais difcil que isso acontea'12 Pensava em colocar Geisel na
Presidncia desde a crise de 1969.' Era o
articulador da nica manifestao pblica do castelismo, a missa pelo
aniversrio da morte do marechal, a cada
18 de julho, na igreja de Santa Cruz dos Militares, no centro do Rio.
Por conta do passado comum de conspiraes, Tico-Tico e Cordeiro foram
procurados em janeiro de 1972 por
coronis da linha dura. Desmoralizados pelo fracasso do governo Costa
e Silva e lanados  orfandade com a
degola de Albuquerque Lima, os encrenqueiros dos primeiros anos do
regime estavam sem rumo. Como no
deslizaram para os
9 Telegrama da embaixada americana em Braslia ao Departamento de
Estado, de 26 de
abril de
1973, referindo-se a fatos do ano anterior. DEEUA.
10 Central Intelligence Agency, Weekly Report, 4 de fevereiro de 1972.
O lder da ALN morto  Hlcio Pereira
Fortes. DEEUA.
11 Ernesto Geisel, outubro de 1994.
12 Idem, 1988.
13 Dirio de Heitor Ferreira, 31 de dezembro de 1971.
200 A DITADURA DERROTADA#
pares dos DOIs, nem se associaram  retrica da represso, abdicaram
do rtulo de radicais de direita. Com as
costas lanhadas pela ditadura que ajudaram a construir, buscavam uma
porta que os reconduzisse ao poder.
"Esto muito arrependidos", assegurara Ademar de Queiroz, satisfeito
com a primeira conversa. "Acham que
Ernesto  o melhor nome"14
A reao de Geisel veio aos poucos. "Claro que eu no disse ao Ademar,
nem direi pois ser indelicadeza. Mas
era o caso: T bem. Ns aceitamos a adeso da linha dura e eles amanh
lhe entregam uma lista com o nome
dos ministros' Geisel pediu a Golbery que encerrasse as conversas do
marechal. Ademar de Queiroz acabou
aparecendo na Candelria, e Geisel trancou-se com ele por hora e meia.
Reabriu cicatrizes do governo Castello
e disse-lhe que no queria a aproximao. Quando Heitor Ferreira lhe
perguntou se ainda era necessria a
conversa com Golbery, respondeu: "Quero, claro. P de cal".15 Uma
semana depois os incansveis coronis
foram ao apartamento de Cordeiro de Farias, no corte do Cantagalo.
Propunham-se a trazer o apoio de
Albuquerque Lima, valendo-se para isso da influncia que sobre ele
exerciam alguns colegas, sobretudo o
general Euler Bentes. E mostraram a flecha envenenada:
"So homens que ns consideramos aproveitveis para o Esquema
Geisel".1 6 Quando o encontro lhe foi
narrado, o dono do Esquema divertiu- se: "Quer dizer que o Boaventura
j vai me trazer o ministrio, o Affonso
[...] o Euler...".17
No seu gabinete na Petrobrs, Geisel tinha trs escudeiros. O general
Antonio Luiz de Barros Nunes, o
Cacau, irmo do ministro da Marinha, chefe do servio de relaes
pblicas da empresa, era um feliz leva- e-
traz. J o coronel Gustavo Moraes Rego, o mais ntimo dos assistentes
de Castello Branco, vivia trancado na
chefia de gabinete da Presidncia.
#14 Narrativa de Geisel a Heitor Ferreira do telefonema que recebeu de
Ademar de Queiroz na
noite de 3 de janeiro de 1972, em Dirio de Heitor Ferreira, 4,5 e 17
de janeiro de 1972.
15 Dirio de Heitor Ferreira, 4 e 6 de janeiro de 1972.
16 Registro da conversa de Cordeiro de Farias com os coronis
Francisco Boaventura, Paladino
e um terceiro no identificado, em Dirio de Heitor Ferreira, 18 de
fevereiro de 1972.
17 Geisel a Heitor Ferreira, depois de ler um resumo da conversa de
Cordeiro com os coronis,
em Dirio de Heitor Ferreira, 21 de fevereiro de 1972. Boaventura era
o coronel Francisco Boaventura.
A TURMA DA CANDELRIA 201#
Passara os anos anteriores no "canil" de Tabatinga, comandando a rea
do alto Solimes. Cavalariano,
repetente na AMAN, era um chefe-de-gabinete fiel e barulhento. 
boemia alegre e relapsa de Cacau,
Moraes Rego contrapunha o senso de humor de uma porta e o rigor de um
mestre-escola. O terceiro era Heitor
Ferreira.
Depois de servir num regimento de cavalaria em Mato Grosso, Heitor
demitira-se do Exrcito e trabalhara em
Belm como gerente do Projeto Jari, investimento bilionrio de um
magnata americano nas matas do Par e do
Amap, onde pretendia cultivar arroz e plantar gmelinas para a
produo de papel. Ganhava alguns cobres
adicionais com tradues. Terminara o sucesso americano Peter
principie, uma divertida coletnea de
truques de gerncia, e procurava editor para "O mundo restaurado' tese
de doutorado do professor Henry
Kissinger sobre a Europa ps-napolenica.' 18 Essa temporada florestal
acabou-se no final de 1971, quando
Geisel o trouxe para o Rio. Tico-Tico chamava-o de Sombrinha.19 Ia to
pouco  tona que em 1973 o
Jornal do Brasil o identificou numa fotografia como guarda-costas de
Geisel.20 Viria a ser um elo cotidiano
com Golbery naquilo que denominava "segunda guerra". No dia 15 de
maro de 1967, quando Costa e Silva,
vencedor da "primeira guerra", assumira a Presidncia, Heitor
despedira-se de seu dirio: "Fui a Jacarepagu
deixar o chefe em casa".22 Retomou-o no dia 12 de novembro de 1971, no
momento em que seu avio pousou
no Rio: "s 14 hs. encontro com Golbery na Dow. Depois, Jacarepagu
at 21.3O'22
Fora do Rio de Janeiro, instalado na chefia do Gabinete Militar, no
quarto andar do palcio do
Planalto, ficava o general Joo Baptista de Oliveira Figueiredo, o
Figa. Seu pai, Euclides, paradigma
de cavalheirismo nas desordens militares da primeira metade do sculo,
fora um
irredutivel
#17 Peter principie, de autoria de Laurence J. Peter e Raymond Huli,
foi lanado no Brasil pela editora Jos Olympio, em 1970, com o ttulo
Todo mundo
 incompetente, inclusive voc -As leis da incompetncia.
19 Bilhete de Ademar de Queiroz, 6 de junho de 1973. APGCS/HF.
20 Jornal do Brasil, 20 de junho de 1973, p. 3.
21 Dirio de Heitor Ferreira, 15 de maro de 1967.
22 Idem, 12 de novembro de 1971.
202 A DITADURA DERROTADA#
 inimigo de Getulio Vargas. Depois do golpe do Estado Novo, passara
quatro anos entre a Casa de
Correo e a fortaleza de Santa Cruz. Transformado em morto vivo pela
burocracia, seus filhos cursaram o
Colgio Militar como rfos, descobrindo ainda na juventude as
vicissitudes que as ditaduras impem aos
adversrios. Primeiro colocado em todos os cursos do Exrcito, Figa
tornara-se conhecido tambm pelo
apelido de Cu-de-Ferro.23
Ao contrrio dos CDFSconvencionais, como Prestes, Geisel e Golbery,
era extrovertido, desbocado, vulgar
mesmo. Ficou de fora da Fora Expedicionria porque no tirara o curso
de motomecanizao e fez a guerra
como instrutor de cavalaria em Realengo.24 O antigetulismo
aproximara-o da direita militar nos anos 50, e dela
Figueiredo nunca se afastou. Servira com Golbery no Estado-Maior, no
Conselho de Segurana e,
semiclandestinamente, no IPs. Na madrugada de 12 de abril de 1964 o
tenente-coronel Figueiredo foi um
destacado insurreto da Escola de Comando e Estado-Maior do Exrcito.
Com a criao do SNI, ganhou o
segundo posto do Servio, a Agncia Central, baseada no Rio de
Janeiro. Dois anos depois Golbery nomeou-o
comandante da Fora Pblica de So Paulo na mesma operao em que
colocou o desconhecido professor
Antonio Delfim Netto na Secretaria da Fazenda do estado. "Voc tem
cara de polcia", disse-lhe o general, ao
telefonar-lhe para inform-lo das suas novas funes.25 Atazanado por
uma conjuntivite incurvel, o coronel
usava culos escuros at de noite.
A salvo da perseguio que os generais de Costa e Silva moveram aos
castelistas, Figueiredo escrevera a
Heitor Ferreira um ms depois da edio do AI-5: "Se agora as coisas
esto no p em que percebemos, imagina
quando comearem os candidatos  sucesso presidencial a se
digladiarem! Vamos assistir a 'peladas' piores
que as anteriores!"26
Na grande "pelada" pela Presidncia da Repblica que se jogou depois
do impedimento de Costa e Silva,
esteve no time campeo.
#23 Informao dada pelo general Figueiredo ao jornalista Orlando
Brito em 5 de
fevereiro de 1991.
24 Joo Baptista Figueiredo, dezembro de 1977.
25 Dirio de Heitor Ferreira, 5 de junho de 1966.
26 Carta de Figueiredo a Heitor Ferreira, de 13 de janeiro de 1969.
APGCS/HF.
A TURMA DA CANDELRIA 203#
chegara a general-de-brigada aos 51 anos, proeza nica entre os 121
generais do Almanaque, e a crise pegou-o
como chefe de estado-maior de Medici, no iii Exrcito, levando-o 
chefia do Gabinete Militar, no Planalto.27
Alternava o tipo do general de comdia com o de capito atltico,
apaixonado por cavalos e saltos. Poucos o
conheciam to bem como Geisel. Por detrs do esportista estava um
cardiopata atormentado por dolorosas
crises de hrnia de disco.28 Depois de Orlando Geisel, era a principal
pea na burocracia militar do governo. Na
posio em que ele se encontrava, nenhuma manobra podia escapar  sua
ateno. Jogava bruto. Dispunha da
mquina do SNI atravs de um coronel amigo que chefiava a Agncia
Rio.29 Fazia saber  Candelria parte do
que ouvia no Planalto, desde preciosas mincias (a bronquite de Medici
recrudesceu) a conselhos teis
("cuidado com os telefones").30 Numa lista de codinomes preparada por
Heitor Ferreira, era o Nabuco, e em
fevereiro de 1972 sua estrela brilhava, ora como futuro chefe do SNI,
ora como possvel vice- presidente do
prximo governo.31
Dois anos depois, relembrando essa poca, Golbery classificou de
"decisiva" a participao de
Figueiredo na sucesso. Ao que Geisel completou: "Bem verdade que ele
se aliou ao Orlando, e a
venceram todas as resistncias'32
#27 Almanaque do pessoal militar do Exrcito, de 1968, pp. 9-18.
28 Dirio de Heitor Ferreira, 2 de fevereiro de 1972.
29 Idem, 4 e 16 de fevereiro de 1972.
30 Para a bronquite, informao dada por Figueiredo ao general
Reynaldo Mello de Almeida e
transmitida por ele a Geisel, em Dirio de Heitor Ferreira, 6 de maro
de 1972. Para os telefones,
idem, 21 de julho de 1972.
31 Uma folha manuscrita, de Heitor Ferreira. APGCS/HF. Para a
cogitao de seu nome para chefe do SNJ, conversa de Geisel com Heitor
Ferreira, em Dirio
de Heitor Ferreira, 16 de fevereiro e
26 de maro de 1972. Para a cogitao para a Vice-Presidncia,
conversa de Geisel com Heitor Ferreira, em Dirio de Heitor Ferreira, 30
de setembro
de 1972. Duas folhas manuscritas, de Heitor
Ferreira a Geisel, marcadas "s para o presidente", de janeiro de
1973, com um exerccio de nomes
para o novo governo. Nele Figueiredo est entre os provveis
escolhidos para vice-presidente e
chefe do SNT. Mais tarde Figueiredo sugeriria que seu codinome fosse
Bagual, mas prevaleceu o
Nabuco. Bilhete de Figueiredo a Heitor Ferreira, de 22 de junho de
1973. APGCS/HF.
32 Conversa de Geisel, Golbery e Heitor Ferreira, no palcio do
Planalto, em Dirio deHeitorFerreira, 19 de fevereiro de 1975. 
204 A DITADURA DERROTADA#
Geisel presidia esse crculo. S Cordeiro, Tico-Tico e Cacau tinham
intimidade suficiente para cham-lo de
"voc' Golbery tambm a tinha, mas como era seu hbito com pessoas a
quem no queria tomar - ou dar -
intimidade, recorria a construes torturadas, expulsando os pronomes.
Por exemplo: "Leu o jornal hoje?", ou
"Acha que essa  a melhor soluo?' Raramente deixava escapar um
"Ernesto' Nenhum deles ia  Petrobrs
sem marcar hora, muito menos ao Leblon. S Cacau conhecia o
apartamento que Geisel acabara de comprar
em Terespolis.
Nos primeiros meses de 1972 o quadro poltico pelo qual passaria a
sucesso alinhava trs competidores. Na
dianteira estavam Geisel e a prorrogao do mandato de Medici. Atrs,
embolados, vinham os generais-
engenheiros, os coronis encrenqueiros e a figura esquiva e
perseverante do
general Jayme Portella, o
detestado articulador de Costa e Silva. Em pouco mais de um ms ele
foi plotado trabalhando por cinco
candidaturas, inclusive a de Geisel.33 Tornara-se um general em busca
de uma conspirao.
A prorrogao, manobra complexa, continuava dependendo do Grande
Eleitor. No final de maro de 1972
Medici jogou gua em todas as fervuras anunciando que no estava
disposto a tratar da sucesso presidencial
antes do segundo semestre do ano seguinte e que constitua um "grave
desservio" mexer no assunto antes
que ele abrisse as conversaes.34
Uma semana depois o general Anel Pacca da Fonseca, comandante da 4
Regio Militar, surpreendeu tanto o
Planalto como a Candelria. Numa cerimnia banal na Assemblia
Legislativa de Minas Gerais ele disparara: "O
pas no aceita a reeleio do presidente, dos governadores e dos
prefeitos, pois isso, sem uma estrutura
democrtica consolidada, significa
#33 Heitor Ferreira relacionou-o com Lyra Tavares, ex-ministro do
Exrcito e
embaixador do Brasil na Frana, cunhado do professor Joo Leito de
Abreu. Dirio de Heitor Ferreira, 18 de
fevereiro de 1972. O general Figueiredo ligou-o ao general Arthur
Candal Fonseca. Idem, 3 de maro de 1972. O
senador maranhense Vitorino Freire associou-o ao ministro da Educao
Jarbas Passarinho, ao governador
mineiro Rondon Pacheco e ao prprio Geisel. Idem, 25 de fevereiro, 16
de maro
15 de maio de 1972.
34 Folha de S.Paulo, 12 de abril de 1972, p. 1.
A TURMA DA CANDELRIA 205#
ditadura'35 Fora colaborador direto de Geisel durante o governo
Castello e, apesar de artilheiro, tangenciava
o nacionalismo e a insatisfao onde se confundiam os engenheiros e os
salvados da linha dura. Seu discurso
foi discretamente noticiado, mas assustou a hierarquia. Diante da
surpresa, um coronel do Gabinete Militar
ilustrava seus receios com um diagrama. Nele traou quatro linhas,
cada uma representando um grupo militar,
todas atravessando uma faixa denominada "incidente do Anel Pacca" e
convergindo para um ponto, a
candidatura do general Euler Bentes.36
No dia seguinte, Geisel fora ao palcio para discutir negcios de gs
com a Bolvia, mas o assunto era o
discurso de Pacca. Debateu-o com Figueiredo e Leito de Abreu, e ambos
concluram que o perodo de
segredo da candidatura estava se esticando demais e seria muito
dificil adiar o tema at o segundo semestre de
1973. Talvez fosse necessrio anunciar o nome pouco depois das festas
do Sete de Setembro. Geisel achava
que o governo devia evitar que a fala de Pacca conseguisse destaque ou
importncia na imprensa.37
A caminho do escritrio o general admitiu para Heitor Ferreira: ",
o negcio parece que vai acontecer mesmo"38
No dia seguinte a Censura informou: "De ordem superior fica
terminantemente proibida continuao
publicao declaraes general
Anel Pacca Fonseca, inclusive comentrio e editoriais"39
Geisel pouco tinha a temer, mas daqui e dali vinham advertncias. No
devia confiar no professor Leito de
Abreu. Captaram-se sinais de que o ministro Delfim Netto trabalhava a
candidatura do chefe do Gabinete
Civil.40 No devia confiar sequer no chefe do SNI, general Carlos
Alberto da Fontoura. Oficial retrado,
Fontoura era o melhor amigo de
#35 Carlos Chagas, A guerra das estrelas (1964/1984), p. 203.
36 Uma folha de bloco com rabiscos, intitulada por Heitor Papelzinho
da Conversa com Medeiros.
APGCS/HF. Refere-se ao coronel Octavio Medeiros.
37 Dirio de Heitor Ferreira, 10 de maro de 1972.
38 Idem.
39 Paolo Marconi, A censura poltica na imprensa brasileira -
1968/1978, p. 239.
40 O ex-governador baiano Luiz Viana contou a Heitor Ferreira que o
ministro da Fazenda Delfim Netto tentara
atrair seu colega Costa Cavalcanti, do Interior, para a candidatura de
Leito de Abreu. Dirio de Heitor Ferreira, 8
de maro de 1972.
206 A DITADURA DERROTADA#
Medici. Os coronis encrenqueiros diziam que ele era candidato. Seu
chefe-de-gabinete, coronel Jayme Mariath, andara
pelos quartis do Sul e chegara a marcar um encontro com o comandante
do iii Exrcito, Oscar Luiz da
Silva.41 Antes de
receb-lo, o general telefonou para Orlando Geisel. O ministro do
Exrcito ordenou-lhe que prendesse Mariath.42
Do Grande Eleitor nada se ouvia, at que na manh de 21 de junho de
1972, durante uma visita a So Paulo, Medici foi
avisado de que o governador Laudo Natel estava pronto para fazer um
discurso pedindo-lhe que continuasse no governo
por mais um ano. O bote seria dado  noite, num banquete no palcio
dos Bandeirantes, diante de outros governadores. 
tarde, depois de inaugurar um centro de convenes, Medici surpreendeu
Natel: "Vou agora mesmo para Braslia,
governador. Passe bem" Tomou o carro e foi para Congonhas, onde teve
de esperar meia hora e quatro cafezinhos at
aprontarem seu avio. Natel ficou sem convidado de honra e sem o que
dizer no banquete.43
Quatro dias depois, nova salva. O Correio da Manh, porta-voz
decadente dos empreiteiros que o arrendaram em
1969, publicou na primeira pgina um empolado editorial pedindo a
coincidncia dos mandatos dos governadores com o do
presidente. Em suma, a prorrogao do mandato de Medici por um ano.44
A Candelria agitou-se. Geisel soubera que na
operao havia o dedo do ministro dos Transportes, Mrio Andreazza.45
Cordeiro de Farias ouvira a mesma histria e
tambm a de uma nascente articulao de parlamentares. Golbery
recebera uma verso diferente: o inspirador do editorial
fora o general Fontoura, chefe do SNI. Prova: ele sustara uma cobrana
de dvidas do Correio da Manh com a
previdncia social.46
#41 Para os coronis, narrativa de Cordeiro de Farias a Heitor
Ferreira de seu encontro com trs
coroneis, liderados por Francisco Boaventura, no dia 9 de fevereiro de
1972, em Dirio de Heitor
Ferreira, 18 de fevereiro do mesmo ano. Para o coronel do SNT,
informao dada a Heitor Ferreira por Cacau de Barros
Nunes depois de um encontro com seu irmo, almirante Adalberto de
Barros Nunes, ministro da Marinha. Idem, 6 de
maro de 1972.
42 Carlos Chagas, A guerra das estrelas (1964/1 984), p. 210. Ernesto
Geisel, abril de 1995.
43 Carlos Chagas, A guerra das estrelas (1964/1984), p. 206.
44 Correio da Manh, 26 de junho de 1972, "Dever de fidelidade", capa
do 12 caderno.
45 Informao dada a Geisel pelo senador maranhense Vitorino Freire,
em Dirio de Heitor Ferreira, 26 de junho de 1972.
46 Dirio de Heitor Ferreira, 28 de junho de 1972.
A TURMA DA CANDELRIA 207#
Onze governadores reunidos em So Paulo e um editorial na primeira
pgina do Correio indicavam que se
existia algum no governo manobrando esses acontecimentos, faltava-lhe
fora para jogar parada to alta. Dez
governadores no haviam atendido ao chamado de Laudo Natel, entre eles
os do Rio Grande do Sul, da Bahia e
do Paran. Ademais, se o editorial fora para a primeira pgina de um
jornal agonizante, havia nisso a sugesto
de que os seus inspiradores no tiveram semelhante acesso nas
principais publicaes do pas.
Coisas estranhas estavam acontecendo  volta de Geisel. O ministro
da Fazenda, Delfim Netto, queria cobrar imposto de renda  Petrobrs.
O SNI vetara a matrcula de Leon Zeitel, chefe adjunto do servio de
planejamento da empresa, no curso da
Escola Superior de Guerra. "Em 1964
foi denunciado por atividades comunistas", dizia a ficha do
funcionrio.47
A Docenave, companhia de navegao da Vale do Rio Doce, brigava com
a Frota Nacional de Petroleiros.48 A burocracia do Ministrio de Minas
e Energia ordenara ao diretor financeiro da empresa que voasse para o
exterior na classe turstica.49 O ministro Antnio Dias Leite
rejeitara os
clculos de preos de derivados que a Petrobrs lhe encaminhara.
Com a ajuda de Leito de Abreu, Geisel acertou Delfim. "O professor me
transmitiu um recado de Medici: que
no amolasse o general Geisel, porque ele ia ser o presidente da
Repblica", contaria Delfim mais
tarde.50 Com
um tranco no general Fontoura, moeu o veto a Zeitel e matriculou-o na
ESG. Batido, o SNI passou a ver o
economista com outros olhos: " altamente conceituado e considerado
uma das maiores inteligncias da
Petrobrs"51 Com a cooperao do segundo escalo, pacificou
#47 Para o incidente, narrativa de Geisel, em Dirio de Heitor
Ferreira, 24 de fevereiro de 1972. Para
ocaso, Juzo Sinttico n2 114/1 O/A C/75, da Agncia Central do SNI,
de 21 de julho de 1975, referente ao
economista Leon Zeitel.
48 Dirio de Heitor Ferreira, 25 de fevereiro de 1972.
49 Idem, 23 de maio de 1972.
50 Delfim Netto, novembro de 1988.
51 Juzo Sinttico n2 114/1 O/AC/75, da Agncia Central do SNI, de 21
de julho de 1975, referente ao
economista Leon Zeitel. APGCS/HF.
208 A DITADURA DERROTADA
a Docenave, e, provavelmente, com a clarividncia poltica da Varig, o
diretor financeiro voou na primeira
classe. Com o ministro Dias Leite, a briga era mais funda. Geisel
detestava-o, e no lhe passava pela cabea
prestar a ele nenhuma subordinao alm daquela exigida pelo
protocolo. Nem sequer lhe mostrara os nomes
dos diretores que pusera nas subsidirias e, quando soube de sua
contrariedade, respondeu que no via razo
para t-lo consultado.52 Ao sentir-se desafiado, Geisel decidiu que
da em diante deveria dissimular: "Mais
tarde acertaremos as contas. Sei que  uma soluo safada. Mas para
safado, safado e meio'53
Engano. Em abril, Dias Leite voltou a contraditar os clculos de
preos da Petrobrs, e Geisel mudou de
conduta. Levou o caso a Figueiredo
e pela primeira vez falou em deixar a presidncia da Petrobrs.54
Repetiu
a advertncia a Leito de Abreu.
- Mas o senhor no pode fazer isso, general. O senhor  o nome em que
estamos pensando para suceder o presidente.
- Talvez isso tambm seja um bom motivo para eu sair - respondeu
Geisel.55
O chefe do Gabinete Civil ficou de conversar com o ministro.
Conversou, mas no se fez a paz. Na primeira
reunio com Dias Leite, Geisel esmurrou a mesa. Horas depois teve uma
idia: ia falar com Medici. 56
Figueiredo acertaria o encontro atravs do professor Leito de Abreu.
Nada. Dias Leite no cedeu. Exercendo
sua autoridade e aceitando a possibilidade de um choque, determinou a
Geisel que procedesse a um aumento
de capital da Petrobrs e tornou a discutir a tabela de preos dos
derivados.57
#52 Explicao de Geisel, em Dirio de Heitor Ferreira, 7 de maro de
1972. Ernesto Geisel, janeiro de 1995.
53 Geisel a Heitor Ferreira, em Dirio de Heitor Ferreira, 25 de
fevereiro de 1972.
54 Dirio de Heitor Ferreira, 27 de abril de 1972.
55 Idem, 28 de abril de 1972.
56 Idem, 3 de maio de 1972.
57 Idem, 13 de junho e 5 de julho de 1972.
A TURMA DA CANDELRIA 209 #
No dia 5 de julho, passadas trs semanas do fracassado banquete da
prorrogao, Geisel decidiu atirar de
volta. Foi ter com o irmo, botou as cartas na mesa e disse que
precisava levar o caso a Medici, pois estava
disposto a ir embora.58 Orlando deu-lhe razo, estranhou at que
tivesse agentado tanto. Falaria com Medici
no dia seguinte. Mais: iria junto.59
Menos de 72 horas depois os irmos Geisel chegaram ao Laranjeiras. A
cena impressionou Medici: "Eles
nunca se meteram nas coisas um do outro"60 Ernesto levou um roteiro
historiando suas divergncias com Dias
Leite, mas no falou em ir embora, nem tentou sair da conversa com a
cabea do ministro debaixo do brao. O
presidente apoiou-o com reminiscncias e platitudes, e do encontro
sobrou uma s frase, estudada e repetida:
"Seu Ernesto, faltam vinte meses e sete dias"61
E assim apareceram novas preocupaes. Onde instalar a equipe de
transio? Quem convidar para o primeiro
escalo de maneira a demonstrar continuidade administrativa? Quais
ministrios visitar? O que colocar na lista
das providncias a serem tomadas na primeira semana de governo?
Figueiredo acreditava que o convite formal
seria feito dali a cinco meses, em janeiro.62
Por mais fceis que parecessem as coisas, surgiam novas e pequenas
pedras no caminho. Em quase todos os casos, o pronto remdio usado
pelo governo sempre foi a censura.
Em menos de um ms, cinco ordens abafaram a sucesso. Desde dezembro
de 1969 a Censura jamais mostrara
tamanha ferocidade. Emitira 117 ordens, calando Anel Pacca com uma e
Rodrigo Octavio com duas. Todo o
esforo para silenciar a Igreja custara dezesseis proibies
#58 Dirio de Heitor Ferreira, 5 de julho de 1972.
59 Idem, 6 de julho de 1972.
60 Informao dada pelo general Figueiredo ao almirante Floriano Faria
Lima, em Dirio de HeitorFerreira, 21 de
julho de 1972.
61 Narrativa do encontro feita por Geisel a Heitor Ferreira, em Dirio
de Heitor Ferreira, 10 de
julho de 1972.
62 Dirio de Heitor Ferreira, 14 de agosto de 1972.
210 A DITADURA DERROTADA#
(seis delas s para impedir que se mencionasse a existncia de d.
Helder Cmara). Seu negcio era proteger a
tortura e combater o terrorismo (sessenta proibies). Negativo fiel
das preocupaes do governo, a imposio
do silncio ecoava as vozes dos fantasmas que assombravam o regime.
Era significativo que no "Brasil
Grande" se proibissem notcias que pudessem abalar as bolsas de
valores ou revelar a existncia de surto
hemorrgico na populao infantil da cidade de Altamira, jia da coroa
da colonizao transamaznica.63
O objetivo da operao era impor s empresas jornalsticas e aos
dignitrios que as cultivavam a percepo de
que assim como no podiam falar dos assassinatos polticos, no
poderiam tambm tratar da sucesso
presidencial, o mais precioso entre os temas de interesse da elite
nacional. Todos os grandes jornais, revistas e
redes de comunicao louvavam o Milagre Econmico e haviam tolerado a
Censura que protegia a represso,
cujas vtimas eram pessoas deliberadamente rompidas com a ordem
poltica da ditadura e com a ordem social. O
caso da sucesso era diverso. Tratava-se de marginalizar toda a elite
civil e quase toda a elite militar, bem como
as publicaes dispostas a vocalizar seus interesses.
Numa demonstrao da preferncia de Medici pela fora, o general
Figueiredo desembarcou no Rio de Janeiro
no meio da tarde de 24 de agosto e tocou direto para o palcio
Laranjeiras. Pouco depois chegou o general
Ernesto Geisel. Nessa mesma hora o presidente conversava com Orlando
Geisel. O ministro da Justia,
acompanhado pelo chefe da Polcia Federal, j deveria ter desembarcado
em So Paulo, no olho do furaco.64
O caso era o seguinte: em sua prxima edio O Estado de S. Paulo
deveria revelar, com grande destaque,
que o general Ernesto Geisel seria o futuro presidente da Repblica, e
o governo decidira apreender o jornal. Se
necessrio, sua sede seria ocupada militarmente. Figueiredo fora
enviado por Medici para prevenir o general e
evitar que ele viesse a interpretar a providncia como um ato de
hostilidade. Esse tambm era o
#63 Para a bolsa e o surto, ordens da Censura de 6 de janeiro e 22 de
maio de 1972, em Paolo Marconi,
A censura poltica na imprensa brasileira - 1968/1978, p. 243.
64 Dirio de Heitor Ferreira, 25 de agosto de 1972.
A TURMA DA CANDELRIA 211#
tema da conversa de Medici com Orlando Geisel, em Braslia.65 Geisel
concordou com o plano, agradeceu a comunicao,
lembrou que no estava interessado em ser presidente, pediu que no se
constrangessem em procurar outro nome e tratou
com Figueiredo do cronograma para o lanamento da candidatura. ("Bem
que eu queria colocar a mo num
exemplar desse
jornal amanh", comentou com Heitor Ferreira logo que deixou o
palcio.)66
 meia-noite, um censor e quatro agentes da Polcia Federal entraram
no prdio do Estado enquanto policiais armados
cercavam o edifcio e bloqueavam as sadas. Leram tudo o que quiseram
e no acharam nada.67 O governo se mobilizara em
torno de uma balela. A Candelria no tinha pacto com o jornal, nem
queria ter. Quando um amigo levou a Geisel uma carta
do diretor do Estado endereada ao seu irmo Orlando, reconstituindo a
bufa investida da polcia, ele sugeriu que a
levasse de volta: "Endereo errado,  assunto do ministrio da
Justia"68 Falhara o pretexto, mas persistia a determinao
de mostrar s empresas jornalsticas que deviam ficar ao largo do jogo
de presses para a escolha do prximo presidente.
Passaram-se trs semanas, e o marechal Cordeiro de Farias deu uma
entrevista ao Estado. Louvou o governo Castello
Branco, falou mal de Costa e Silva, defendeu a possibilidade de
reviso para algumas punies polticas e concordou
quando o reprter mencionou o risco de se repetir no regime vigente o
vcuo de quadros polticos provocado pela ditadura
do Estado Novo.69 Era carne magra, mas enfureceu o presidente. 70
Acionada, a Censura voltou a mostrar os demnios
que assombravam
#65 Narrativa de Geisel a Heitor Ferreira, em Dirio de Heitor
Ferreira, 25 de agosto de 1972.
66 Idem.
67 Narrativa de Julio de Mesquita Neto, em O Estado de S. Paulo, de 12
de dezembro de 1993, "Relatos de luta pelo poder
incomodavam militares", Caderno 2 Especial, p. D3, e Julio de Mesquita
Neto, dezembro de 1993.
68 Dirio de Heitor Ferreira, 4 de setembro de 1972. A carta era
assinada por Julio de Mesquita
Neto, e o portador fora o senador Vitorino Freire.
69 O Estado de S. Paulo, 13 de setembro de 1972, p. 4.
70 Informao dada a Heitor Ferreira por Antonio Carlos Magalhes, que
estivera com Medici
dias antes, em Dirio de Heitor Ferreira, 16 de setembro de 1972.
212 A DITADURA DERROTADA#
o Planalto. Proibiu entrevistas "cujo teor coloque em anlise governos
revolucionrios de forma crtica, ou
exaltao aos governos referidos' Traduo: era proibido falar bem do
presidente Castello Branco. Envolto
numa mortalha liberal produzida pela reavaliao de seu consulado e
pela divulgao dos documentos de seu
arquivo, o marechal acabara de ser pomposamente trasladado para um
mausolu de concreto em
Fortaleza.71
Ruy Mesquita, um dos diretores d'O Estado de S. Paulo, conspirador de
1964, telegrafou ao ministro da
Justia. Acusou-o de rebaixar o Brasil " condio de uma republiqueta
de banana" e denunciou o governo
por "enveredar pelos rumos de um caudilhismo militar que j est fora
de moda". 72 Recusando-se a aceitar as
ordens da Polcia Federal, o Estado foi submetido  censura prvia.
Passou a publicar receitas culinrias e,
depois, trechos de poemas e fragmentos d'Os lusadas nos espaos
abertos pelos textos proibidos. Foi,
assim, o nico peridico a mostrar sistematicamente aos leitores,
todos os dias, que estava sob censura. O
telegrama de Mesquita circulou pelo Congresso e pelas redaes, mas s
o gacho Breno Caldas, estancieiro
patriarcal e dono do Correio do Povo, resolveu divulg-lo. Arqutipo
da elite do Rio Grande, era amigo dos
Mesquita e tivera o general Costa e Silva a pedir-lhe barbadas nas
corridas de cavalos. Poucas semanas antes
Medici fizera-se convidar para um churrasco em sua casa. O Correio foi
impedido de circular e no voltou a
mexer com sucesso nem censura. O presidente conservou o apetite, e
Breno Caldas serviu-lhe a carne.73
No "Brasil Grande" daquele final de setembro de 1972, a investida
contra o Estado e o Correio do Povo
foi mantida ao largo do debate pblico. Medici era o dono da festa do
Sesquicentenrio. Reunira mais de 100
mil pessoas para um espetculo de som e luz em So Paulo e levara
30 mil a uma exposio industrial. Na parada do dia 7 as baterias de
#71 Veja, 26 de julho de 1972, p. 13.
72 Telegrama de Ruy Mesquita ao ministro Alfredo Buzaid, de 19 de
setembro de 1972, em Paolo Marconi, A
censura poltica na imprensa brasileira - 1968/1978, pp. 64-5.
73 Breno Caldas, Meio sculo de Correio do Povo, depoimento a Jos
Antonio Pinheiro Machado,
pp. 79-85.
A TURMA DA CANDELRIA 213
foguetes Sonda davam uma coreografia de potncia ao tradicional
desfile de velhos tanques americanos. As
autoridades, vestidas de fraque, davam um toque de passado 
hierarquia do pas do futuro.74 Depois de
vagar por todo o Brasil, d. Pedro foi deixado numa cripta do Museu do
Ipiranga. Na maior festa
do regime,
probiu-se a lembrana e que o Iono a ossada assinara em 1822 o decreto
abolindo a censura  imprensa.75
#74 Veja, 13 de setembro de 1972, pp. 12-9.
75 Paolo Marconi, A censura poltica na imprensa brasileira -
1968/1978, p. 243.
Um voto, o voto#
Emilio Medici e os dois irmos Geisel formaram um intrigante tringulo
poltico. Examinado pelos cdigos
convencionais de conduta, soava banal. Dado um presidente retrado, um
ministro do Exrcito poderoso e um
irmo candidato, o desdobramento  bvio: os irmos se entendem,
Orlando vai a Medici, empurra a
candidatura de Ernesto, e acabou-se. No se conhece documento ou mesmo
indiscrio capaz de amparar esse
raciocnio. Por bvio, pode-se entender que o ministro do Exrcito
trabalhou pelo irmo. Orlando contou que
dissuadiu o presidente da idia de entregar a escolha de seu sucessor
a um sacro colgio de generais.'
Humberto Barreto, amigo pessoal de Geisel, ouviu-o dizer, na casa do
irmo, que embora sentisse algumas
manobras contra sua indicao, o caso estava decidido: "No tem mais
volta.  voc".2 No foi pouca coisa.
Se a indicao passasse pelo Alto-Comando, quase certamente resultaria
na escolha de um quatro-estrelas da
ativa. Se houvesse volta, ela seria a prorrogao do mandato do
presidente. Foi a vontade de Medici que levou
Ernesto Geisel  Presidncia.
O presidente contou a Geisel: "Eu no fui buscar um general da ativa.
O fato de no ter ido buscar um general
da ativa demonstra que o pais est bem e est evoluindo, porque se
houvesse um problema militar e no sei o
qu, teria que buscar o general da ativa. [...] Voc que de um lado
#1 Informao dada por Ernesto Geisel a Heitor Ferreira, em Dirio de
Heitor Ferreira, 26 de maro
de 1972.
2 Humberto Barreto, fevereiro de 2001.
216 A DITADURA DERROTADA#
foi general, j est fora h algum tempo. Na administrao, na
empresa. No  isso?  um sujeito tambm empresrio. Isso
mostra uma evoluo, uma transio"3
Geisel sempre admitiu que Orlando trabalhou a sua candidatura, mas
ressalvava: "No vou dizer que ele no influiu, mas
que ele tenha imposto a minha candidatura, no acredito. [... ] As
relaes dele com o Medici no eram prprias para
isso" O presidente e seu ministro do Exrcito partilhavam uma amizade
tpica do meio militar, em que o afeto se subordina
 hierarquia. Socialmente retrados, no se tornaram ntimos quando
Orlando comandou Emilio, nem quando essa situao
se inverteu. J as relaes de Ernesto com o presidente eram nulas.
Durante todo o ano de 1972 viram-se trs vezes. Dois
encontros foram protocolares, e neles Medici manteve a conversa no
circuito das trivialidades. Num s - o da ofensiva
contra Dias Leite - tiveram agenda sria. Nesse mesmo perodo Geisel
foi ao palcio quatro vezes para discutir seus
assuntos. Nem foi ao presidente, nem ele o chamou.5
No dia 15 de janeiro de 1973, alterou-se a escrita. Medici recebeu o
ministro com um "ah, seu Orlando, faltam s 14 meses"6 Acabado o
despacho, perguntou:
- E ento, como  que vo as coisas? O que  que dizem por a?
- Dizem o de sempre, que voc vai continuar.
- Isso  uma safadeza desse pessoal. [...]
- Bom, olhe. Se esse negcio cair na mo do Ernesto, voc compreende,
eu no posso ficar.
- Que  isso? Por que no? Fica sim, deixe de histrias.7
#3 Narrativa de Geisel a Heitor Ferreira, 10 de dezembro de 1973.
APGCS/HF.
4 Ernesto Geisel, janeiro de 1995.
5 Geisel e Medici encontraram-se protocolarmente na inaugurao da
refinaria de Paulnia e no
traslado dos restos de Castello Branco. Geisel esteve no palcio em 10
de maro, 28 de abril, 5 de
maio e 21 de novembro. Dirio de Heitor Ferreira.
6 Narrativa de Orlando Geisel, em Dirio de Heitor Ferreira, 22 de
janeiro de 1973.
7 Telefonema de Orlando a Ernesto Geisel, 16 de janeiro de 1973, em
Dirio de Heitor Ferreira,
17 de janeiro de 1973.
UM VOTO, O VOTO 217#
Foi tudo. A Candelria esperava um sinal do Planalto nos primeiros
meses de 1973. Ningum acreditava que Medici
conseguisse manter a promessa de s tratar do assunto no segundo
semestre. Desde janeiro Heitor Ferreira comeara a
trabalhar na simulao da conversa que Geisel teria com o presidente e
a listar nomes de possveis ministros.8 Golbery
trabalhava nos anteprojetos de lei que deveriam criar o Ministrio da
Previdncia e o Conselho de Desenvolvimento
Econmico.9 Geisel estudava papis do Itamaraty remetidos pelo
gabinete do chanceler, leis eleitorais enviadas pelo
deputado Flvio Marclio e a posio dos generais no Almanaque do
Exrcito na poca de sua posse.
No dia 13 de fevereiro de 1973 Heitor Ferreira encontrou-se em
Braslia com Figueiredo. O general estava assustado.
Queixava-se de que estava tudo no ar, "o que me alarma". Detectara um
novo surto continusta, envolvendo at mesmo o
comandante do iii Exrcito. A permanncia de Orlando Geisel no
ministrio parecia-lhe essencial: "No pode sair. Saindo
pode alterar tudo". Heitor anotou as informaes de Figueiredo e
levou-as a Geisel. Nesse registro h uma linha onde se l:
"Golbery & Geisel".10  muito provvel que essa nota crptica contenha
um dos mistrios da sucesso de 1973.
Roberto Mdici, filho e assessor do presidente, sustentou que a
possibilidade de um retorno de Golbery ao poder
perturbava seu pai, levando-o a duvidar da prpria convenincia da
escolha de Geisel. Pela narrativa do
filho, Medici
explicitou sua angstia num encontro com Figueiredo, Leito de Abreu e
Fontoura, mas o chefe do Gabinete Militar disse-
lhe:
"No se preocupe, presidente. Esto completamente separados".11 Em
1995 o general Fontoura - nica testemunha
sobrevivente - considerou
#8 Cinco folhas manuscritas, de Heitor Ferreira, intituladas Notas
para a Conversa a Ocorrer entre
Hoje e 31 de Maro de 1973, de 10 de janeiro de 1973. Duas folhas de
Heitor para Geisel, intituladas S para o Presidente, de
janeiro de 1973. APGCS/HF.
9 Cinco folhas intituladas Anteprojeto de Lei que Dispe sobre a
Criao, na Presidncia da Repblica, do CDE e da Seplan, sobre o
Desdobramento do Ministrio do Trabalho e Previdncia Social.
APGCS/HF. Nelas Heitor Ferreira anotou: "Discutido por
Geisel e Golbery a 18 de janeiro de
1973".
10 Dirio de Heitor Ferreira, 13 de fevereiro de 1973.
11 Roberto Nogueira Mdici, Medici - O depoimento, p. 39.
218 A DITADURA DERROTADA#
verdadeiro o relato de Roberto Mdici.12 Tambm em 1995, Figueiredo
afirmou que, quando Medici lhe
perguntou se Geisel chamaria Golbery para o governo, sua resposta foi
outra: "Isso no sei,
presidente"13
Figueiredo mentiu duas vezes, a Medici em 1973 e ao pblico em 95. Ele
narrou o fato a Geisel de maneira
semelhante a Roberto Mdici. Anos depois, Geisel relembrou: "O
Figueiredo garantiu a ele que eu no levaria o
Golbery para o governo. Ele me disse isso" Passados mais de vinte
anos, j afastado de Figueiredo, Geisel
tratava desse episdio com perplexidade. Insistia: "Ele diz que
disse". Entendia o que acontecera: "Ele no
queria invalidar a minha candidatura"14
Que Golbery e Geisel estivessem separados era uma mentira absurda. Os
dois mantinham um permanente fluxo
de papis. Heitor, ex-assistente de um no SNI, durante o governo
Castelo, era secretrio do outro, na
Petrobrs. No ano anterior, Geisel e Golbery haviam-se encontrado pelo
menos sete vezes. Duas em pblico,
no casamento do filho de Golbery, em maio de 1972, e num almoo com
dois outros generais, em julho. Ao
contrrio de Cordeiro de Farias, que evitava entrar no prdio onde
funcionava a presidncia da Petrobrs,
Golbery l foi em fevereiro, maio e junho. Em julho visitou Geisel em
casa e em outubro, quando se restabelecia
de uma operao de catarata, recebeu-o em Jacarepagu.15 Que
Figueiredo no soubesse do retorno de
Golbery ao poder tambm era mentira absurda. Seis meses antes, numa
conversa em Brasilia, perguntara a
Heitor Ferreira:
- E se voc fosse presidente, que Chefe do Gabinete Civil escolheria?
- No sei. No conheo o pessoal. Que acha o senhor?
- Ah, o Golbery. No tem outro.16
#12 Folha de S.Paulo, 16 de julho de 1995.
13 Idem.
14 Ernesto Geisel, abril de 1995. Em 1975 Figueiredo contou a Heitor
Ferreira que, quando Medici
o autorizou a conversar sobre a candidatura de Geisel, "a reao era
contra o Golbery' Dirio de
Heitor Ferreiro, 14 de maio de 1975. Para a queixa contra Figueiredo,
ver tambm Antonio Carlos
Scartezini, Segredos de Medici, pp. 49-50, ou Carlos Chagas, A guerra
das estrelas (1964/1984), pp. 2 14-5.
15 Para todos esses casos, Dirio de Heitor Ferreira.
16 Dirio de Heitor Ferreira, 14 de agosto de 1972.
UM VOTO, O VOTO 219#
Medici desprezava Golbery por dirigir uma empresa americana depois de
ter passado pelo SNI, onde conheceu
"o direito e o avesso de todos os homens importantes do pas"
Atribua-lhe a capacidade de "explicar com
brilhantismo todos os seus fracassos"17 Habituado a se informar por
meio do SNI, o presidente no recorreu a
ele para saber as relaes e expectativas que uniam os dois generais.
Se o tivesse feito, bastariam uns poucos
dias para que o general Fontoura comprovasse a profundidade da
relao. Golbery retornara  atividade
poltica e falava em nome do futuro governo at para jornalistas
malvistos pelo regime.  certo que Figueiredo
mentiu ao presidente, mas  duvidoso que a angstia de Medici diante
de uma eventual volta do
GeneDol
ao poder fosse to incontornvel.
Orlando Geisel achava que seu irmo punha demasiada importncia na
conversa com Medici: "Mas, afinal, que
 que o Ernesto tanto quer que a conversa seja demorada? Ela vai ser
simples: um vai dizer: olha, voc  o
prximo presidente. O outro responde que no quer e o primeiro
replica: pois , eu tambm no queria e tive
que aceitar, vai ter que ser voc":18
Em meados de maro Medici disse a Orlando que resolveria o assunto na
sua prxima ida ao Rio de Janeiro.
Depois mudou de idia. O ministro do Exrcito no acreditava em
continusmo, at porque sabia que o
presidente tivera uma leve perturbao cardaca.19
Na tarde de 15 de maro o senador Vitorino Freire, velha raposa e
veterana vivandeira, entrou na sala de
Delfim: "Estou preocupado com uma informao que me deram a seu
respeito. Informaram ao ministro Orlando
Geisel que voc estava chefiando uma campanha ou operao continusta,
quando  pblico e notrio que o
Presidente Medici no deseja permanecer no Governo":
Delfim negou e perguntou-lhe como seria possvel desfazer essa
impresso.
#17 Roberto Nogueira Mdici, Medici O depoimento, p. 22.
18 Dirio de Heitor Ferreira, 14 de maro de 1973.
19 Idem, 14 e 15 de maro de 1973.
220 A DITADURA DERROTADA#
"Pule fora do barco ou faa como eu, que estou como macaco do rio
Graja, no Maranho, s bebo gua com canudo de talo de mamo para
preservar o beio da mordida da piranha", respondeu Vitorino.22
Durante dois meses a hierarquia do regime sugou talos de mamo. Medici
foi ao Rio de Janeiro, e Geisel
determinou aos seus colaboradores que no buscassem contatos com a
equipe da Presidncia. Mantiveram-se
quietos, e do outro lado veio apenas silncio.21 Atravs de um amigo,
o embaixador francs mostrou desejo em
conhec-lo. O recado de volta: "Se o embaixador quer falar sobre
petrleo, eu o recebo o tempo que ele
precisar, l na Petrobrs. Se no  petrleo, no me interessa ser
conhecido pelo embaixador da Frana"22 O
presidente da Arena, senador Filinto Miler, disse ao colega Luiz
Viana que pretendia sugerir a Medici a
preparao de uma lista de nomes para que ele escolhesse o sucessor.
Viana, colega de palcio de Geisel
durante o governo de Castello, fez que no entendeu a proposta,
destinada a embaralhar as cartas, puxou o
talo e argumentou que a lista haveria de estimular rivalidades nas
Foras Armadas.23 De canudo na boca, o
embaixador americano, William M. Rountree, informava a Washington que
Geisel era o "favorito' mas cobria a
retaguarda dizendo que a escolha de outro general era "uma
possibilidade que eu nunca descartei"24 Por via
das dvidas, a Censura avisava: "De ordem superior reiteramos manter
proibio referente sucesso
presidencial, principalmente evitar divulgao nomes provveis
candidato'25
As confabulaes de 1973 superaram em sigilo os debates do consistrio
de generais que escolhera Medici
quatro anos antes. Dos 100 milhes de brasileiros, talvez 500 mil
soubessem da existncia de Geisel. 
#20 Carta do senador Vitorino Freire ao ministro Orlando Geisel, de 15
de maro de 1973, em Dirio deHeitorFerreira, 15 de
maro de 1973. Delfim nega que esse encontro tenha ocorrido: "Tudo
inveno do Vitorino' Delfim Netto, outubro de 2002.
21 Dirio de Heitor Ferreira, 14 de maro de 1973.
22 Idem, 19 de abril de 1973.
23 Idem, 16 de abril de 1973.
24 Telegrama do embaixador William M. Rountree ao Departamento de
Estado, de 30 de maio de 1973.
25 Paolo Marconi, A censura poltica na imprensa brasileira - 1968/1
978, p. 255.
UM VOTO, O VOTO 221#
possvel que 100 mil tenham ouvido falar na possibilidade de ele vir a
governar o pas. Destes, pode ser que
no chegassem a 5 mil os que, tendo ouvido falar no seu nome, fossem
capazes de encher uma pgina com
tudo o que sabiam a respeito dele. Ao corrente dos principais
movimentos, ou do ritmo das conversas, havia
menos de quinhentas pessoas. Sabendo de tudo, talvez no fossem
cinqenta. Geisel calculou, anos depois,
que at maio de 1973 no chegaram a vinte as pessoas a quem deu
liberdade de mencionar o assunto em sua
presena.26
A oposio mantinha-se ao largo, e o deputado Ulysses Guimares,
presidente do MDB, recusava-se a discutir
a coreografia legal da sucesso argumentando que "no adianta debater
o nada".27 No dia 19 de maio o
ministrio esperava no aeroporto de Braslia o desembarque de Medici,
que regressava de uma viagem a
Portugal. Mrio Andreazza, dos Transportes, da Transamaznica e da
ponte Rio-Niteri, dirigiu-se a Orlando
Geisel. Tinha Delfim Netto ao seu lado.
- Ministro, h tempos estvamos para falar com o senhor para desfazer
uma intriga: sabemos que dizem por a, e
foram dizer ao senhor, que ns somos contra a candidatura do general
Ernesto. Isso  uma inverdade. [...
]
- Bem, o que sei no  isso. Sei, sim, e inclusive mandei a respeito
um recado aqui ao doutor,  que ele estava
envolvido numa articulao do continusmo do presidente Medici, coisa
sabidamente contra as intenes do
presidente e que perturba um processo ordenado de sucesso. Isso, sim.
Quanto a essa candidatura do
Ernesto, no me consta, no sei nada a respeito e no creio que seja
esse o problema.28
#26 Ernesto Geisel, fevereiro de 1995.
27 Veja, 13 de junho de 1973, p. 25.
28 Dirio de Heitor Ferreira, 30 de maio de 1973. Em 1984 o general
Gustavo Moraes Rego narrou ao autor dilogo
semelhante. Durante uma conversa em 1984, pouco antes da conveno do
PDS em que disputou a indicao de
candidato a presidente da Repblica, Mrio Andreazza confirmou ao
autor que teve um dilogo com o general
Orlando Geisel "no aeroporto' Em novembro de 1988, Delfim Netto
confirmou ao autor que falou sobre o
assunto com Orlando Geisel "no aeroporto' Nenhum dos dois reconstruiu
a conversa.
xxx
222 A DITADURA DERROTADA
Na tenso desses meses, produzida pelo silncio de Medici, circularam
diversas manobras. Em nenhuma delas
se percebe o beneplcito do presidente, da mesma maneira que em todo
esse perodo no partiu dele restrio
alguma a Geisel. Pelo contrrio. No incio de maio o general
Figueiredo informava que Medici introduzira um
bordo nas reunies matinais do palcio: "Isso agora  com o Alemo",
" problema que j vai ser do
Ernesto"29 Na Candelria, Geisel discutia nomes para suced-lo na
Petrobrs e para acompanh-lo na chapa.30
Em Braslia, o chefe da segurana do Planalto dedicava-se ao que
comeava a ser a nova brincadeira nacional:
compor o novo ministrio.3' 
No dia 30 de maio de 1973, o coronel Moraes Rego acabara de chegar ao
gabinete da Candelria, de volta de 
Braslia. Sentou-se, acendeu um cigarro e anunciou: "O troo, acho que
desembocou" Dois dias antes, no 
despacho com Orlando Geisel, o presidente dissera-lhe: "Vou conversar
em seguida com o Ernesto" Pelas 
contas de Figueiredo, "em seguida" significava quarta-feira, 13 de
junho, quando o presidente estaria no Rio 
de Janeiro para comemorar o aniversrio do Correio Areo Nacional. 
No dia seguinte, Heitor Ferreira entregou a Geisel a ltima verso do
ensaio da conversa com Medici.32 Era 
uma simulao trivial. Servia para determinar o ritmo de uma
entrevista que corria o risco de se transformar em 
conversa fiada. Estava entendido que Medici seria o primeiro a falar: 
- Mandei cham-lo aqui para conversarmos porque... voc  que vai
ser... Deix-lo falar o mais possvel e 
esclarecer bem o convite - depois a 
convocao. A esta altura do ano e das coisas, a proposta de
continuao 
j deve ser em tom menor e no pretrito. 
29 Dirio de Heitor Ferreira, 5 de maio de 1973. 
30 Idem, 11 de abril de 1973. 
31 Idem, 13 de abril de 1973. 
32 Idem, 31 de maio de 1973. 
UM VOTO, O VOTO 223 
- Medici, eu no sou candidato, presidncia da Repblica no  posto
que se busque, e tem mais, a minha 
opinio pessoal  que voc deveria 
ter concordado em continuar. 
Argumentar, se for o caso, mas como caso liquidado. Aqui ento deve
ocorrer a caracterizao de uma 
convocao de misso irrecusvel, de "eu tambm no queria e tive que
vir para c". Esta parte da conversa 
bem concluda, e chegado ao ponto ideal de presso, aceite. 
- Sim, est bem, em vista do que voc me diz, e entendendo que sou
convocado, a minha resposta  que 
aceito.33 
Depois, as providncias. A coreografia, um novo presidente da
Petrobrs, o vice e a necessidade de uma 
"vacina contra intrigas' 
Do outro lado da cena, Figueiredo informava que no Planalto se
concebera um pequeno bailado. Chamariam 
Geisel ao Laranjeiras s dezessete horas de quarta-feira, para tratar
um assunto de petrleo. L, por acaso, 
encontraria Medici, Leito de Abreu e o general Fontoura, do SNI.
Iriam para uma sala e pouco depois seriam 
deixados a ss.34 Isso quanto  forma. Quanto ao contedo, na noite de
segunda-feira Figueiredo reuniu- se 
com Heitor Ferreira em seu apartamento do Leblon e passou-lhe seu
projeto de conversa. 
Estava preocupado em desfazer a impresso de que se estivesse diante
de um retorno do castelismo, do qual 
Geisel - ex-chefe do Gabinete Militar de Castelo - seria produto, em
oposio ao costismo, do qual Medici - ex-
chefe do SNI de Costa e Silva - teria sido conseqncia: 
1. Falar em continuidade da Revoluo. 
2. Castelismo. 
3. Continuidade do governo Medici. 
Razes: sucesso em alguns setores, popularidade do presidente,
restries em setores das Foras Armadas. 
33 Nota apensa  transcrio do Dirio de Heitor Ferreira, 31 de maro
de 1973. APGCS/HF. 
34 Informao dada por Figueiredo a Humberto Barreto, em Dirio de
Heitor Ferreira, 4 de junho de 1973. 
224 A DITADURA DERROTADA 
Como? No hostilizar, no alterar as linhas gerais. Habilidade para
alterao, no hostilizar amigos, no nomear 
inimigos, manter alguns elementos do primeiro escalo, submeter a
Medici os nomes do primeiro escalo. 
4. Vice-presidente: submeter (deixar nome mais tarde). 
5. Como misso o convite. No deseja, no pode fugir, pedir apoio. 
6. Abertura poltica: No abrir mo do AI-5. Fazer ver a Medici a
necessidade de tomar iniciativa. Dilogos 
polticos. Censura. 
7. Contra sucessor e sucedido: vacina contra intrigas, necessidade de
entendimento contnuo.35 
Figueiredo e Heitor conversaram durante quatro horas, at meia-noite e
meia. Figueiredo insistiu na questo 
"essencial" da poltica: "Falar na 'abertura po1tica H de chegar,
mas de uma coisa no vou abrir mo,  
Medici: o AI-5. Mesmo porque no vou iniciar o meu governo
estabelecendo uma comparao com voc. 
[...] Estou convicto de que o AI-5 serve  Revoluo. Se voc acha que
chegou a hora de conversar um 
pouco mais com os polticos, por que voc no inicia? Assim eu no
estabeleceria comparao'36 
Na manh seguinte Heitor relatou o encontro. Geisel achou que havia
"um exagero de cuidados numa coisa 
que precisa de um pouco mais de franqueza", e refugou dois pontos dos
propostos por Figueiredo. No diria 
que estava convicto da serventia do AI-5, nem sugeriria a Medici que
iniciasse os contatos com os polticos: 
"Parece que estou dando lio" (Dias antes, em sua casa, Orlando
contara-lhe que receberia o governo com 
Ato e tudo.) Geisel seguiu para uma reunio de diretoria da Petrobrs,
e Heitor foi para o escritrio de Golbery. 
Estavam trancados, a secretria tinha ordens para barrar todos os
telefonemas at que tocou Moraes Rego. 
Emilio Medici mandara buscar Ernesto Geisel: 
35 Transcrio apensa  nota de 11 de junho de 1973 do Dirio de
Heitor Ferreira, sob o ttulo 
"Papel que Figueiredo havia preparado para a conversa' APGCS/HF. 
36 Dirio de Heitor Ferreira, 11 de junho de 1973. 
UM VOTO, O VOTO 
225 
O Nabuco [Figueiredo] tocou agora para c e a conversa  hoje,  mesma
hora, em vez de amanh... Ele estava 
preocupado e perguntou se voc j tinha podido conversar com o chefe,
se o chefe estava preparado... e 
perguntou muito se o Lessa [Golberyj estava informado... Mas o melhor
de tudo, voc vai rir,  o motivo da 
antecipao: tem futebol amanh [Brasil ustria], o prprio Nabuco
disse... estava telefonando do Galeo... 
Esta 
eu acho at melhor no contar ao Dr. S [Geisel] .. 
O Dr. S almoou em casa e s 16h35, com Heitor, tomou o carro a
caminho do Laranjeiras, o palacete dos 
Guinle onde oito anos antes vivera as angstias do emparedamento de
Castello Branco. Figueiredo levou-o 
para sua sala e retomou o tema do "costismo e caste1ismo" As feridas
que se pretendia esconder eram to 
profundas que os dois antigos colaboradores do governo Castello se
precipitaram numa troca de 
maledicncias contra Costa e Silva. Figueiredo contou que pouco tempo
antes, durante uma recepo, Yolanda 
Costa e Silva, viva do marechal, apresentara a Medici uma
ex-funcionria do Itamaraty posta para fora do 
servio por ter um p em grandes negcios e outro num plantel de
acompanhantes inesquecveis.38 Geisel 
acrescentou que a madama, comboiando um paraguaio, tentara v-lo na
Petrobrs. Um ajudante-de-ordens 
entreabriu a porta e avisou: "O presidente j est aqui embaixo" 
Eram 17h20. Medici estava com Leito de Abreu e o general Fontoura.
Sentaram-se todos nos 
sofs franceses do salo nobre. Passados alguns minutos, Medici e
Geisel ficaram a ss. Meia hora 
depois a platia voltou. "Cedo demais", pensou Heitor, que vigiava a
cena. Um garom serviu usque 
e queijinhos. s 19h10 estavam todos na porta, e Geisel tomou o carro.
Heitor sentou-se ao seu 
lado: 
- Como foi que ele iniciou a conversa? 
37 Dirio de Heitor Ferreira, 12 de junho de 1973. A partida empatou
em 1 x 1. 
38 Geisel conhecia a histria, pois Figueiredo a contara a Heitor
Ferreira. Dirio de Heitor Ferreira, 
5 de maio de 1973. 
226 A DITADURA DERROTADA 
- Ah, disse que j vinha pensando nisso h muito tempo, h mais de um
ano e meio, e tinha se fixado no meu nome, que
tinha que ser eu, que no havia outro. Eu fiz ver a ele todas as
desvantagens da soluo. Disse que por muito tempo desejei 
que ele permanecesse. 
Respondeu que por uma questo moral no podia. 
Disse-lhe que quando ele fechou as portas a continuar, por muito tempo
alimentei o desejo de que ele encontrasse outro. 
Que se eu fosse um sujeito vaidoso por certo me encheria com essa
escolha que ele estava fazendo. Mas no. Claro que 
experimentava uma satisfao ntima pelo fato de merecer um juzo bom
de um companheiro que h mais de 40 anos me 
conhecia. (Medici disse que sempre me acompanhou ao longo da vida
militar.) Mas eu me via na contingncia de aceitar a 
misso, embora sabendo que ela talvez at me liquidasse nesses poucos
anos que ainda posso ter pela frente. 
Os trs voltaram muito cedo e sentaram-se conosco. A eu aproveitei 
para tornar a dizer que tnhamos que nos vacinar todos contra o que de
uns diriam aos outros. 
Aproveitei para tocar na histria que corria de que eu tinha um
escritrio eleitoral. "Imagina, para que  que eu havia de 
querer um escritrio eleitoral quando o Grande Eleitor est aqui" - e
apontei ao Medici. 
Falou-se nesse negcio de costismo e castelismo. Disse que ele, ao me
nomear para a Petrobrs, havia liquidado com essa 
histria. Ele disse que isso no era coisa do Costa e Silva, que o
Costa e Silva at queria me dar o comando do iv Exrcito, 
que foi a turma dele que criou a coisa toda. 
- E voc no sabe como at eu sofri nas mos deles. 
- Ah, eu imagino, e o pior  que esto todos a, vivos, o Portella, a
dona Yolanda... 
- O senhor os nomeou, assim? - interrompeu Heitor. 
- Nomeei. 
- E o Fontoura? 
- Muito bem, muito cordial e muito positivo. 
- E o Leito de Abreu? 
UM VOTO, O VOTO 227 
- Sabe que confirma tudo que o Figueiredo disse? Negaceou o tempo
todo, sempre botando obstculos e 
coisas. No negcio da conveno, por exemplo, ele acha que no precisa
apressar. Que afinal, a executiva 
nacional decidindo, o efeito era o mesmo... O Medici disse que agora
vai dormir bem e eu acrescentei que "pois 
eu agora  que no vou dormir mais".39 
Dois anos depois, numa conversa com Figueiredo, Medici relembrou,
satisfeito, a deciso de passar 
o servio ao Alemo: "Eu tenho pena dele. Alis, ns sabamos e
comentvamos o rabo-de-foguete 
que ele ia pegar. O mundo  outro. Eu tive sorte".4 
Combinara-se que a notcia s seria "filtrada"  imprensa no fim do
ms, depois de um almoo do 
presidente com os governadores, mas o sigilo comeou a desabar em
pouco mais de 24 horas. Na 
quinta-feira o Correio do Povo, de Porto Alegre, circulou com a
manchete "Medici e Ernesto 
Geisel mantiveram encontro". Ruiu quando o jornalista Roberto Marinho
avisou ao governo que O 
Globo tinha pronta uma reportagem sobre a reunio. A essa altura o
Guaru News, pequeno 
semanrio de Guarulhos, na periferia de So Paulo, e o Nova Gerao,
de Estrela, no Rio Grande 
do Sul, j anunciavam a escolha de Geisel, notcia divulgada pela
rdio gacha de Taquari havia 
mais de uma semana.4' Leito de Abreu telefonou a Geisel: "Pois , no
tem jeito. O Presidente me 
pediu que lhe avisasse ainda hoje que resolveu antecipar tudo para
segunda-feira".42 
Estava eleito o 212 presidente da Repblica Federativa do Brasil.
Tivera um voto, o de Medici. 
Contra, s conversa de barbeiro. Douglas Guy McNair, cidado americano
e vice-presidente da 
Atlantic, estava numa das cadeiras do salo Vo 3 
Dirio de Heitor Ferreira, 12 de junho de 1973. 
40 Idem, 2 de junho de 1975. 
41 Jornal do Brasil, 22 de junho de 1973, 12 caderno, p. 4. Para o
Guaru News, Veja, edio extra 
de junho de 1973, p. 25.0 jornal oficial do governo da Paraba, A
Unio, informou: "Orlando Geisel  o futuro presidente' Sua tiragem foi
apreendida. O 
Estado de S. Paulo, 20 de junho de 1973, 
p. 4. Sobre esse episdio, ver tambm Claudio Humberto Rosa e Silva,
Mil dias de solido - Collor 
bateu elevou, p. 168. 
42 Dirio de Heitor Ferreira, 15 de junho de 1973. 
228 A DITADURA DERROTADA 
gue, na rua Santa Luzia, e criticava a escolha para o mestre que lhe
cortava o plo. O major Tancredo Bruno 
Porto ouviu-o, atravessou a rua, foi ao Clube Militar, recrutou um
funcionrio e capturou-o. Fez-lhe algumas 
perguntas, anotou o nmero de sua carteira de identidade, deu parte 
EsCEME e numa carta narrou o episdio 
a Geisel, dizendo-se convencido de que "a opinio emitida exprime,
provavelmente, muito mais que um ponto 
de vista pessoal, a posio de um grupo empresaria1"43 O incidente
custou a McNair uma visita de 
explicaes ao SNI, aonde chegou protegido pelo seu prprio
dispositivo: um capito-de-mar-e-guerra e o ex-
comandante do Corpo de Fuzileiros Navais.44 Ao que se sabe, essa foi
toda a mobilizao civil e militar 
resultante da indicao de Geisel. 
43 Carta manuscrita de Tancredo Bruno Porto a Geisel, de julho de
1973. APGcS/HF. 
44 Informao dada a Heitor Ferreira pelo coronel Edmundo Adolpho
Murgel, em Dirio de HeitorFerreira, 16 de 
julho de 1973. 
Primeiras encrencas 
Ungido, Geisel mudou-se para a residncia oficial do ministro da
Agricultura, nos fundos do Jardim Botnico. 
Ganhou ainda um gabinete no terceiro andar do bolo de noiva do
pavilho americano na Exposio do 
Centenrio, no largo da Misericrdia, a poucos passos do embarcadouro
da praa xv. Tinha sete meses para 
decidir o que fazer com o pas e trs pessoas para conversar
diariamente: Golbery, Heitor Ferreira e o coronel 
Moraes Rego. Reuniam-se a cada fim de tarde e passavam em revista o
que tinham ouvido. Faziam isso sem 
mtodo, mas tambm sem conversa fiada. Aqui e ali perdiam-se em
recordaes, aprofundavam maledicncias, 
mas se preocupavam sobretudo em partilhar informaes. 
Nas jornadas ansiosas da Candelria, Geisel dizia: "Eu s vou para l
sem compromisso.  um abacaxi e ainda 
vou amarrado? Nem com meus amigos, nem com Medici. Alis, no creio
que ele queira compromisso meu"' 
Medici viu-o cinco vezes antes de vestir-lhe a faixa, e em nenhuma
delas adiantou sugesto ou folha de papel.2 
Nem sequer perguntou o que lhe passava pela idia. O general que
presidia o pas como se comandasse um 
esquadro de cavalaria conclua sua escala de guarda com a
naturalidade que o regulamento determina aos 
capites. 
1 Dirio de Heitor Ferreira, 4 de janeiro de 1972. 
2 Medici deixou um s pedido: gostaria dever o professor Joo Leito
de Abreu, chefe de seu Gabinete 
Civil, no Supremo Tribunal Federal. Geisel deu a Leito a primeira
vaga aberta em seu governo. 
230 A DITADURA DRRROTADA 
Amigos que lhe cobrassem compromisso, Geisel tambm no tinha. Quando
sua mudana chegou ao Jardim Botnico, ele 
se viu diante de um problema banal, comum a toda famlia que troca de
casa: a quem dar o novo nmero de telefone, 246-
0655? 
Afora a diretoria da Petrobrs e o irmo Orlando, listou catorze
pessoas. Polticos, trs. Militar em funo de comando, 
nenhum.3 Dias depois Heitor Ferreira decidiu cadastrar os "amigos mais
chegados", a quem Geisel poderia oferecer 
posies no governo. Contando dois irmos e a filha, Golbery e Moraes
Rego, juntou 26 nomes.4 A uns poucos parentes 
que considerava "entres' Geisel mandou um recado: "Que se
comportassem, porque se eu soubesse de qualquer porcaria 
em que eles se metessem, iam para a cadeia"5 
Chegaria  Presidncia com 66 anos de idade e quase meio sculo de
servio pblico, mas no tinha equipe nem projeto. 
Ambos deveriam sair daquela cabea racional, nacionalista, autoritria
e moralista onde as grandes questes nacionais
conviviam com os pequenos problemas de uma existncia passada no meio
militar, nos apertos da classe mdia. Dava  
mulher "mil contos" - pouco mais de setecentos dlares - por semana, e
ela s vezes conseguia guardar a metade. No topo 
da montanha assombrava-se com a paisagem: "S num pas como o Brasil
na situao atual eu poderia chegar a presidente 
da Repblica"6 
3 Dirio de Heitor Ferreira, 16 de julho de 1973. Constavam da lista,
alm da diretoria da Petrobrs: 
Ademar de Queiroz, Antonio Luiz (Cacau) de Barros Nunes, Humberto
Barreto, Vitorino Freire, 
Luiz Viana Filho, Ney Braga, Joo Baptista Figueiredo, Carlos Alberto
da Fontoura, Joo Leito 
de Abreu, Adolpho Murgel, Orlando Geisel, Raimundo de Brito e
Norberto, gerente do banco onde 
Geisel tinha conta. 
4 Amlia, sua irm, morava com ele. O terceiro irmo de Geisel,
Henrique, morreu em junho de 
1973. Dirio de Heitor Ferreira, 28 de julho de 1973. Trs folhas
datilografadas com nota de Heitor Ferreira a Geisel, sem 
data. APGCS/HF. Da lista de 26 pessoas, doze no receberam funo
alguma, e duas seguiram suas carreiras nas corporaes 
burocrticas a que pertenciam, sem dele receber funes especiais. 
5 Ernesto Geisel, maro de 1995. 
6 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 20 de dezembro
de 1973. APGCS/HF. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 231 
O tenente que conspirara contra a posse de Julio Prestes, o major que
cercara Getulio Vargas no Guanabara e o 
general que estivera na derrubada de Joo Goulart do Planalto
transmutaram-se em fantasmas. Das desordens 
de que participara, Geisel tiraria o fulcro de seu projeto poltico.
Repetia com freqncia uma frase de 
Rodrigues Alves: "Quem senta nesta cadeira no perde"7 Perseguia-o o
receio do fracasso: 
Ao assumir uma funo dessas de presidente, a primeira principal
preocupao  assegurar os cinco anos. [...] 
Quer dizer, no ser posto para fora.8 
Um presidente perde o poder na esteira de trs tipos de crise: uma
incompatibilizao total com a opinio 
pblica (caso de Tango), um conflito decisivo com as foras polticas
(em parte o caso de Jnio); mas essas 
duas coisas hoje em dia seriam difceis; resta uma confrontao com as
foras armadas, a sim, pode 
acontecer.9 
O pior  que chega um dia em que o sujeito transige para no ser
deposto. 10 
Estava em paz com o regime e com a idia de que seu governo seria uma
continuao aprimorada do 
qinqnio de Medici. Congelara amigavelmente a publicao do livro
que Luiz Viana Filho escrevera sobre o 
governo de Castello, para evitar que as revelaes do ex-chefe do
Gabinete Civil reabrissem feridas do meio
militar." Preocupava-se em assegurar a permanncia de alguns hierarcas
do primeiro escalo. Pensara dar o 
governo do Rio Grande do Sul ao ministro dos Transportes, Mrio
Andreazza, e admitira a possibilidade de 
colocar Delfim Netto no palcio dos Bandeirantes.'2 
7 Rodrigues Alves disse a frase quando era governador de So Paulo.
Geisel mencionava essa circunstncia. 
8 Dirio de Heitor Ferreira, 20 de maro de 1972. 
9 Idem, 20 de maro de 1972. 
10 Idem, 23 de fevereiro de 1972. 
li Idem, 4 de dezembro de 1973. 
12 Para Andreazza, Dirio de Heitor Ferreira, 28 de janeiro de 1972.
Para Delfim, idem, 25 de fevereiro de 1972. 
232 A DITADURA DERROTADA 
Desde os tempos da Candelria, Heitor Ferreira colecionava idias e
desejos que Geisel enunciava em suas 
conversas. Chamava-os de Atinhos, e listou 452 tpicos. Neles se
misturavam projetos relevantes ("promover 
a fuso do Estado do Rio de Janeiro com o da Guanabara"),
remanejamentos ("escritrio de planejamento no 
Planalto"), idias perdidas ("ombudsman"), sonhos (acabar com as
polcias militares) e banalidades ("cortar o 
noticirio esportivo da sinopse matinal"). De cada quatro temas, trs
refletiam preocupao com a 
racionalidade burocrtica. Mais da metade perseguia a moralidade
administrativa. Nenhuma grande obra. Nada 
que se chocasse com a ditadura, ou mesmo que diferisse dela. Quando
Heitor ia longe, lembrava: 
"Dessensibilizar um pouco o povo. Impactos, etc.'3 
O triunfalismo nunca fizera o gnero de Geisel, e os irracionalismos
do "Brasil Grande" pareciam-lhe injustos, 
sobretudo porque lhe comprometiam a caixa que deveria administrar.
Contrariara-se com iniciativas 
megalmanas que o governo denominava de "Projetos de Impacto", como o
plano da Perimetral Norte, com 
uma estrada paralela e outra transversal  Transamaznica (4 mil
quilmetros, no total), ou a meta dos 12% de 
inflao durante o ano de 1973.14 
Enquanto Geisel foi um coadjuvante, as malquerenas com os "casacas" e
os plutocratas bastaram para 
definir-lhe a silhueta poltica. A caminho do papel principal,
tornaram-se insuficientes. Um general convencido 
de que todo poltico  falso e todo milionrio  ladro podia levar
uma vida tranqila e, com um pouco de 
pacincia, podia at mesmo presidir a Petrobrs. A Repblica j seria
outra conversa, sobretudo porque, ao 
contrrio de Medici, estava disposto a governar. Sentia-se prisioneiro
dessa irredutibilidade: "H o risco de um 
grande fracasso. Eu no sou flexvel o suficiente'5 
13 Temas para Ao ou Atinhos Possveis, 24 folhas manuscritas de
Heitor Ferreira, datadas de 
dezembro de 1973 e abril de 1974. APGCS/HF. 
14 Para a Perimetral Norte, Dirio de Heitor Ferreira, 1 de novembro
de 1972. Para a inflao, 
idem, 11 de abril de 1973. 
15 Dirio de Heitor Ferreira, 13 de junho de 1972. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 233 
Sua relao com a ditadura era intelectualmente tumultuada.
Apreciava-a como fonte de fora enquanto ela 
fosse s dele. Da em diante, 
vinham-lhe as dvidas: 
Um presidente, agora, no vai poder se apoiar exclusivamente nas
foras 
armadas. Nem nos polticos.16 
Os polticos ficam a dizer-se esperanosos - "ah, porque o Geisel
significa abertura" - no sei, significar?17 
Bom era no tempo dos reis, O problema da legitimao era simples. Era
o direito divino. Depois inventaram esse 
negcio de povo. O povo. Quem  o povo? Resultado, de Deus passou para
o povo, e agora para o sabre, um 
sabre enferrujado.18 
Sua peregrinao pelo pas parecia-lhe intil: "No houve um lugar a
que eu fosse que no me chateasse" Para 
os peregrinos que iam  Petrobrs, a questo era no chate-lo. Entre
o dia em que saiu da Candelria e aquele 
em que entrou no Planalto, Geisel encontrou-se com mais gente que em
todos os seus anos de vida. Reuniu-se 
com governadores, ministros, parlamentares, generais e empresrios.
Deles, s o senador LuizViana Filho, seu 
colega no governo Castello e ex-governador da Bahia, mencionou a
palavra maldita, lembrando que a oposio 
poderia explorar a "tortura de presos" ao longo da liturgia da eleio
indireta.'9 J o presidente da Arena, 
senador Petrnio Portella, classificou como "injrias" as denncias de
tortura, e Geisel interrompeu-o: 
"No, s h alguns casos isolados. No h vtimas, h alguns casos." 
"Exato' respondeu Petrnio.2 
16 Dirio de Heitor Ferreira, 16 de fevereiro de 1972. 
17 Idem, 13 de junho de 1972. 
18 Idem, li de setembro de 1972. 
19 Conversa de Ernesto Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 20 de
dezembro de 1973. Carta de Luiz Viana
Filho a Geisel, sem data, certamente de 1973. APGCS/HF.
20 Conversa de Geisel com Petrnio Portella, 15 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF. 
234 A DITADURA DERROTADA 
Proposta de desarticulao do AI-5, Geisel s recebeu uma. Veio do
senador Antnio Carlos Konder Reis, de 
Santa Catarina. Sugeria que nos primeiros seis meses de governo fosse
baixado um novo ato institucional, 
concedendo ao Congresso que seria eleito em novembro o poder de
reformar a Constituio, com base num 
projeto do Executivo. Apoiava- se na certeza de que a Arena
conseguiria a maioria de dois teros, essencial 
para fazer as mudanas constitucionais que bem entendesse. A nova
Constituio dispensaria o regime dos 
instrumentos liberticidas do AI-5, dando ao presidente a prerrogativa
de governar por decretos no caso de 
uma emergncia nacional. Konder acreditava ser possvel levantar a
censura criando-se um registro de licena 
para a publicao de peridicos. Golbery achou "esquisita" a idia do
registro, mas reconheceu que a reforma 
da Constituio merecia ser examinada.2' O nome do senador estava na
lista de candidatos ao Ministrio da 
Justia, mas Geisel no gostou do artifcio, que o levaria a baixar um
ato institucional, e desconsiderou a 
proposta, chamando-a de "meio girafa"22 
O general Figueiredo produziu uma lista com 65 tpicos de interesse
para o futuro governo. Banal, propunha a 
expanso do turismo, lembrava a necessidade de formao de lderes
polticos e alm disso no ia.23 Jos 
Amrico de Almeida, venerado paraibano, famoso por ter contribudo
para o restabelecimento da liberdade de 
imprensa no ocaso da ditadura de Getulio Vargas, aconselhava: "A
Censura deve ser exercida sem mentalidade 
policial. [...j O AI-5 ser mantido para segurana das instituies"24
Roberto Marinho, dono da Rede Globo de 
Televiso, queixara-se de humilhaes, mas reconhecera que "a censura
est bem nessa questo de terrorismo' 
Resumindo o que dele ouvira, Geisel contaria: "Aberturas, etc., 
21 Conversa de Golbery com Geisel, narrando-lhe um encontro com
Antnio Carlos Konder Reis, 
16 de novembro de 1973. APGCS/HF. 
22 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 6 de
dezembro de 1973. APGCS/HF. 
23 Seis folhas timbradas do Gabinete Militar, acompanhadas de uma nota
manuscrita de Figueiredo a Heitor Ferreira, de 1979, referindo-se aos
"meus 
apontamentos de agosto de 1 973' APGCS/HF. 
24 Trs folhas datilografadas, sem data nem assinatura, acompanhadas
por um bilhete de Heitor 
intitulado Notas Deixadas com Geisel pelo Jos Americo. APGCS/HF.
Golbery anotou: "Trs pancadinhas na madeira. ..' 
Jos Amrico, conhecido por trazer m sorte, esteve com Geisel no dia
16 
de julho de 1973. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 235 
acha besteira. Liberdade,  essa a mesmo. O importante  o Brasil
tocar pra frente'25 No Planalto, Medici 
costumava brincar: "Vocs no conhecem o Alemo. Vo ver que eu sou
bonzinho".26 
Ainda assim, o poro batia  porta de Geisel. Em alguns casos,
literalmente, como em maio de 1973, quando 
ZuzuAngel foi ao apartamento dele no Leblon para pedir-lhe que
ajudasse a localizar o filho desaparecido. 27 
Noutra ocasio, sua prpria filha lhe pediu ajuda para localizar um
amigo que estaria no DOI.28 A 
documentao conhecida revela que um s alto funcionrio utilizou o
canal de comunicaes de que dispunha 
junto a sua equipe para levar-lhe uma detalhada denncia de tortura.
Foi o embaixador Drio Castro Alves, 
chefe-de-gabinete do ministro das Relaes Exteriores. Por sugesto de
Heitor Ferreira, remeteu o depoimento 
de um contraparente de 62 anos que estivera numa das celas especiais
do DOI.29 "Ele ficava nu, obrigado a 
defecar e urinar na cela. Perdia o respeito por si prprio' lembrou o
diplomata anos mais tarde.3 Depois de ler a 
narrativa, Geisel sentiu-se mal, e no dia seguinte queixou- se a
Heitor: "Vocs me estragaram a noite. Deviam 
ter me dado aquilo de manh. A carta tem vrios pontos fracos e muita
mentira, mesmo assim  uma 
barbaridade"3' 
Geisel sabia o que acontecia no poro. Golbery encontrava-se quase
todas as segundas-feiras com o coronel 
Francisco Homem de Carvalho, o Carvalhinho, scio fundador do SNI e
comandante do batalho da PE da 
Baro de Mesquita, condmino do segredo da existncia de um aparelho
clandestino do CIE em Petrpolis. Ele 
lhe relatava o que acontecia no DOl. Um ex-deputado da Arena entregou
a Golbery uma lista 
25 Dirio de Heitor Ferreira, 17 de outubro de 1973. 
26 Idem, 7 de julho de 1973. 
27 Carta de Zuzu Angel a Geisel, de 29 de abril de 1975, em Angel, Eu,
Zuzu Angel, procuro meu 
filho, pp. 236-7. Geisel no recebeu Zuzu Angel. Ernesto Geisel, 20 de
fevereiro de 1995. 
28 Dirio de Heitor Ferreira, 30 de agosto de 1972. 
29 Idem, 25 de julho de 1973, e nota de Heitor Ferreira a Geisel, do
mesmo dia, passada a Golbery no dia 
seguinte. 
30 Drio Castro Alves, setembro de 1985. 
31 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de julho de 1973. 
236 A DITADURA DERROTADA 
com os nomes de seis oficiais acusados de torturar presos.32 Um
emissrio paulista contou-lhe que o arcebispo de So 
Paulo, d. Paulo Evaristo Arns, rompera relaes com o comandante do ii
Exrcito pelos agravos recebidos e vivia indignado 
com os casos de tortura que comprovara.33 Quando um grupo de deputados
do MDB arrolou quinhentas perguntas ao 
governo, indagando desde o tamanho da dvida externa at o nmero
exato de sindicatos sob interveno, ele pediu a Heitor 
Ferreira que extrasse do Dirio do Congresso a lista completa: "Creio
conveniente catalogar essas perguntas, pois 
ajudaro no futuro a indagar cousas. No creio que haja resposta
conveniente agora, mas sim no 'intramuros se houver'34 
Os contatos de Geisel circunscreviam-se quele mundo oficial em que as
pessoas se dividem entre quem est bem e no 
quer ficar mal e quem se julga diante de uma oportunidade de ficar
melhor. Tinha seu gabinete de trabalho no largo da 
Misericrdia. Quando no queria que a imprensa registrasse seus
encontros, marcava as reunies para o Jardim Botnico. 
Ningum o contrariava. Os polticos reconheciam-lhe o direito de
indicar no s os governadores, mas tambm os 
candidatos ao Senado nas eleies que aconteceriam no ano seguinte.
Ganhou da tropa de choque de Costa e Silva o 
adesismo que lhe negara. Ora chegava ao largo da Misericrdia uma
carta do general Albuquerque Lima, ora ali aparecia, 
declarando-se "um soldado' o ex-ministro da Justia Gama e Silva.35
Quan32 Folha de papel rasgada, com os nomes do 
major Innocencio Fabricio de Mattos Beltro e dos 
capites Homero Cesar Machado, Dalmo Lcio Cirilio, Benoni de Arruda
Albernaz e Carlos Alberto Brilhante Ustra. 
Numa folha de bloco Heitor Ferreira anotou: "Fonte afirma que so
torturadores' Noutra Golbery identificou a fonte: o ex-
deputado Gilberto Azevedo. APGCS/HF. Todos os oficiais listados
serviam no 001 de So Paulo. Esse papel deve ter sido 
entregue a Golbery no segundo semestre de 1972. 
33 Dirio de Heitor Ferreira, 30 de outubro de 1973. 
34 Recorte de O Estado de S. Paulo, sem data, e uma folha de bloco com
anotao manuscrita de Golbery. APGCS/HF. 
35 Carta do general Affonso de Albuquerque Lima a Geisel, de 7 de
junho de 1973. APGCS/HF. Para Gama e Silva, Dirio de 
Heitor Ferreira, 28 de outubro de 1972. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 237 
do um secretrio disse a Golbery que o general Jayme Portella
telefonara trs vezes, ele pensou que fosse trote.36 A elite
brasileira parecia dividida em duas castas: a que j estivera com
Geisel e a que ainda no estivera. 
O poeta Carlos Drummond de Andrade retratou esse clima narrando a
histria de sua passagem pelo Jardim Botnico: 
- Tem estado com o Golbery? 
- Nunca nos vimos. [...j 
- Voc no foi chamado? 
- Chamado para qu? 
- Pelo homem. 
- Que homem, homem de Deus? 
- O do Jardim Botnico, u. 
- Padre Raulino, o diretor? Tambm no tenho o prazer de conhec-lo.
Fui l ver as plantas. 
- Deixa de cortina de fumaa. Voc sabe que eu me refiro ao general
Geisel. 
- E por que o general havia de me chamar? 
- Sei l, voc foi visto saindo da casa dele. 
- Eu? 
- Voc sim. E depois de sair, ainda ficou olhando um longo tempo para
a casa, embevecido. 
- Eu olhava um gato dormindo. Adoro gatos. [...j 
Eu no seria um dos pedestais do futuro governo. [...j Minhas relaes
com os amigos do general limitavam-se a um gato. E 
gato visto  distncia, sem maior comunicao. O inquiridor
despediu-se com um muxoxo. Minha estrela apagou-se.37 
36 Dirio de Heitor Ferreira, 3 de dezembro de 1973. 
37 Carlos Drummond de Andrade, "Desenvolvimento e fim de um equvoco
de breve durao' 
p. 5 do Caderno B, Jornal do Brasil, 25 de agosto de 1973. 
238 A DITADURA DERROTADA 
No sbado, 12 de setembro de 1973, Orlando Geisel foi ao Jardim
Botnico com a mulher Alzira. A conversa 
caiu num tema banal: o discurso que Ernesto deveria fazer no dia 15,
quando a conveno da Arena 
formalizaria sua candidatura. Havia semanas que estudava um texto e o
descreveu ao irmo. Orlando detestava 
discursos e argumentou que Ernesto devia falar pouco. Fez algumas
observaes quanto ao contedo, e o 
irmo perguntou por que pensava daquela maneira. A certa altura
Orlando sugeriu que fizesse o que lhe dizia, 
pois sabia de coisas que ele desconhecia. Geisel fechou o tempo:
"Vocs no tm confiana em mim... Esto 
com medo das besteiras que eu vou dizer. Querem me tutelar, mas comigo
no. Se querem manobrar, arranjem 
outro" 
Orlando levantou-se, disse que no estava ali para ouvir desaforos e
chamou a mulher para irem embora. 
Postos panos quentes, ficaram, mas no se falou mais de poltica.38
Era o medo da tutela. Seu tamanho podia 
ser medido pela aparente desproporo entre as observaes de Orlando
e a reao de Geisel. O ministro do 
Exrcito tratava de um discurso destinado a uma cerimnia teatral onde
apenas se referendaria o nome imposto 
pelo regime. O candidato cuidava do primeiro pronunciamento poltico
da vida dele: "Tenho que dizer a que 
venho"39 Quatro anos antes, Medici classificara sua filiao  Arena
como "ato de comando" e avisara que 
no estava disposto "a trocar a firmeza do timoneiro pela habilidade
do chefe poltico"4 Quando discutiu com 
o irmo, Geisel trabalhava um conceito bastante diverso. Na folha
manuscrita de seu discurso lia-se: "o poltico 
- o homem votado pelo povo por seu mrito e capacidade de persuaso"41
Golbery aprontara o projeto de discurso em meados de agosto. O escriba
traa-se numa frase com 146 palavras 
e na grandiloqncia - "este 
38 Dirio de Heitor Ferreira, 3 de setembro de 1973. 
39 Idem, 4 de julho de 1973. 
40 "Tempo de reconstruo", discurso pronunciado na conveno da Arena
em 20 de novembro 
de 1969. Emilio Garrastaz Medici, O jogo da verdade, p. 46. 
41 Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1:1974, pp. 12-3. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 239 
Brasil que ainda chegar a assombrar o mundo - stupor mundi - de
alguma era do futuro'42 Metade do texto foi 
desprezada por Geisel, mas a metade que sobreviveu ocupou quase dois
teros da verso final. Entre o projeto 
e a fala que o pas ouviu na noite de 15 de setembro de 1973 deu- se
um dilogo entre os dois velhos amigos e 
duas cabeas diferentes. O Corca no escreveu a palavra subverso, e
deixou cair no meio do texto uma 
"ditadura asfixiante" e uma "abertura poltica" Geisel cortou as duas
audcias e agradeceu s Foras Armadas 
o restabelecimento da ordem, a salvao das instituies e a
resistncia s "investidas da subverso' 
Em alguns casos, Geisel expressou-se atravs de mudanas: 
GOLBERY: [A] pliade de ilustres homens pblicos que a Revoluo, de
Castello Branco a Garrastaz Medici, 
soube mobilizar. 
GEISEL: [...] Castello Branco, Costa e Silva e Emilio Garrastaz Me- 
dici [...j. 
GOLBERY: Ao calor desse progresso efetivo que estimula e a todos
contagia, despertaro, vivazes, 
expectativas antes dormidas na estagnao e desesperana da longa
noite do passado [...]. Preveni-las, 
aquiet-las, encaminhar-lhes a energia vital num sentido construtivo e
mais nobre, cont-las, se necessrio for, 
com energia mas esclarecida compreenso. 
GEISEL: Preveni-las, aquiet-las, encaminhar-lhes a energia vital num
sentido construtivo e mais nobre, impedir 
que sejam exploradas ardilosamente pelos que pretendem subverter as
instituies. 
GOLBERY: As grandes empresas multinacionais, cujo potencial, para o
bem, ou talvez para o mal , e s-lo-, 
em escala maior talvez, condio essencial ao prprio desenvolvimento
da Nao. 
GEISEL: [...j cujo potencial para o bem, ou talvez para o mal, ainda
no nos  dado avaliar. 
Em outros trechos, passou a faca. Trs exemplos: 
42 Maos de treze e dezoito folhas manuscritas de Golbery, anotadas
por Heitor Ferreira, sem data. 
240 A DITADURA DERROTADA 
Sem austeridade no h autoridade que se afirme, a no ser apelando 
coao e  violncia. 
Sem honestidade de propsitos no h poder que possa aspirar
legitimar-se, a menos que no trepide em 
recorrer, maquiavelicamente,  mistificao e  clssica manipulao
da vontade popular, mas essa legitimidade 
espria  de uma fragilidade irremedivel. 
Governo aberto, como os que mais o foram, almejo que venha a ser 
o meu, no sentido de aceitar e ponderar crticas e acatar sugestes,
de abrir 
e manter arejados canais mltiplos de comunicao com as elites
polticas, a intelligentzia brasileira, todas as 
demais minorias autenticamente representativas e responsveis do pas.
Lendo esse trecho para Geisel, Golbery soltou uma gargalhada: 
"'Governo aberto, espero tanto como os demais o foram [...j 
Governo fechado..." 
"Tudo o que voc botou a est tudo muito certo. [...J No est na 
hora ainda' cortou Geisel.43 
Nada houve na conveno que prenunciasse grandes mudanas ou mesmo
receios, mas uma frase, prxima do 
final, enunciava um trusmo tranqilizador: "Os partidos polticos -
tanto do governo como da oposio, 
cada qual no papel que lhe cabe desempenhar - so essenciais ao estilo
de vida democrtico'44 
Ao contrrio do que sucedia desde 1964, a oposio resolvera
participar da eleio de 74. Ulysses Guimares, 
presidente do MDB, encabearia a chapa. Suas chances eram nulas, pois
a Arena tinha mais de dois teros do 
Colgio Eleitoral. Da, denominava-se "anticandidato"45 
43 Conversa de Geisel com Golbery, 10 de janeiro de 1974. APGcS/HF. 
44 Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1:1974, p. 18. 
45 Veja, "Eu sou o anticandidato Como um semeador, o MDB vai para a
campanha eleitoral pensando no futuro", 
por Marcos S Corra, 12 de setembro de 1973, pp. 3-5. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 241 
A idia - e o termo - apareceu numa conversa do deputado Thales
Ramalho, secretrio-geral do partido, com Lus 
Maranho, o Miguel do comit central do PCB, responsvel por parte dos
contatos polticos da organizao. Amigos 
desde a juventude, tinham conversado por duas horas num automvel,
vagando pelas ruas do Rio de Janeiro.46 A sugesto 
atolara. Em junho de 1973, Ulysses Guimares assegurara que o MDB no
participaria da eleio. Mudou de opinio 
quando a ala mais combativa - do partido saiu em busca de um candidato
destinado a denunciar o processo eleitoral. 
Procuraram militares, mas acabaram se conformando com o nome do velho
libertrio Barbosa Lima Sobrinho. Em setembro, 
Ulysses anunciou-se "anticandidato" Aproveitaria a oportunidade da
campanha para atacar o governo e denunciar o 
processo poltico, abandonando-o dias antes da cerimnia eleitoral,
com uma renncia cinematogrfica.47 
Aquele paulista de poucos votos que presidia um partido sem passado
nem presente acabara de achar o futuro. Apelidado 
Ramss por conta da sua seca figura, cabia nas sete palavras com que
se auto-retratara em 1938, na disputa pelo lugar de 
orador da turma na Faculdade de Direito da usP: 
"Eloqente. Verboso. Arrebata e comove. Cultura slida"48 Produto do
irrelevante PSD de So Paulo, engrandecera-se na 
poltica interna da Cma- ra dos Deputados, aonde chegara em 1951.
Tinha o instinto de sobrevivncia que a gria poltica 
chamava de "pessedismo" Em abril de 1964, quando os comandantes
militares exigiram a degola da liderana parlamentar 
do governo deposto, fora um dos congressistas que ofereceram um
instrumento extraconstitucional capaz de expurgar a 
Cmara e o Senado. Nessa proposta, as suspenses de direitos polticos
durariam quinze anos.49 Relatara o projeto da Lei 
de Greve sancionada por Castello Branco.5 Viera  tona 
46 Thales Ramalho, agosto de 1986. Segundo Ulysses Guimares, em
entrevista a O Pasquim, o termo  de sua inveno. 
Teria surgido durante uma conversa com o advogado Luiz Lopes Coelho,
na avenida So Lus, em So Paulo. Luiz 
Gutemberg, Moiss, codinome Ulysses Guimares, p. 126. 
47 Para a articulao da candidatura dentro do MDB, depoimentos de
Alencar Furtado e Fernando Lyra, em Ana Beatriz 
Nader, Autnticos do MDB, semeadores da democracia, pp. 51 e 120. 
48 Antonio Carlos Scartezini, Dr. Ulysses, p. 21. 
49 Daniel Krieger, Desde as Misses, p. 172. Krieger no identifica
Ulysses como autor da proposta de quinze anos. Ele 
est identificado em Antonio Carlos Scartezini, Dr. Ulysses, p. 44. 
50 Luiz Viana Filho, O governo Castello Branco, p. 119. 
242 A DITADURA DERROTADA 
no naufrgio das eleies de 1970, nas quais a coao policial do
regime e a campanha da esquerda pelo voto 
nulo deixaram o MDB com sete senadores e 87 deputados, bancada
insuficiente para requerer a formao de 
uma cii.5' A derrota comera metade do partido e arrastara a cadeira de
senador do seu presidente, general 
Oscar Passos, obrigando-o a renunciar. Ulysses era o vice, e a ala
moderada de pessedistas trabalhou-lhe a 
promoo. 
Uma semana depois da conveno da Arena, chegou sua vez de discursar:
"No  o candidato que vai 
percorrer o pas.  o anticandidato, para denunciar a antieleio,
imposta pela anticonstituio que homizia o 
AI-5, submete o Legislativo e o Judicirio ao Executivo, possibilita
prises desamparadas pelo habeas corpus e 
condenaes sem defesa, profana a indevassabilidade dos lares e das
empresas pela escuta clandestina, torna 
inaudveis as vozes discordantes porque ensurdece a Nao pela censura
 imprensa, ao rdio,  televiso, ao 
teatro e ao cinema" 
Em outra faixa de onda, louvou a integridade do "futuro chefe da
nao", lembrou as virtudes da Oposio de 
Sua Majestade (tema caro ao general) e ofereceu-lhe "a mais eficiente
das colaboraes: a crtica e a 
fisca1izao" (Num de seus rascunhos Geisel escrevera que esperava do
MDB a "necessria vigilante 
fisca1izao')52 
Despediu-se citando um guerreiro romano que o poeta portugus 
Fernando Pessoa resgatara e Caetano Veloso ressuscitara: 
Navegar  preciso; 
Viver no  preciso.53 
Algumas emissoras de televiso e rdio haviam prometido transmitir o
discurso, mas fizeram saber ao MDB 
que ele iria ao ar no dia seguinte, 
aps um jogo de futebol.54 "Esse idiota no vai ao ar. No foi ao vivo
nem 
51 Em 1970 o Senado tinha 66 cadeiras e a Cmara, 310. No registro de
fundao, em 1965,0 MDB 
tinha 21 senadores e 140 deputados. 
52 Para a Oposio de Sua Majestade, Dirio de Heitor Ferreira, 4 de
julho de 1973. Para a "fisca1izao' folha 
manuscrita de Geisel com sete tpicos para o discurso da conveno.
APGCS/HF. 
53 Luiz Gutemberg, Moiss, codinome Ulysses Guimares, p. 116. 
54 Jornal do Brasil, 24 de setembro de 1973, p. 3 do 1 caderno. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 243 
vai em gravao' disse o general Milton Tavares de Souza, chefe do dE,
depois de ouvir Ulysses.55 Os 
grandes jornais, contudo, publicaram-lhe a ntegra, o que no era
pouca coisa. Criticando o AI-5, o processo 
de escolha do prximo presidente e as prises arbitrrias, Ulysses
transgredira trs tpicos do controle que o 
governo exercia sobre a imprensa. Afinal, poucos meses antes a Polcia
Federal lembrara que era proibido 
criticar "o sistema de censura, seu fundamento e sua legitimidade"56
Era pouco, mas era algo. 
A condio de candidato oficial deu a Geisel liberdade de movimento.
Visitou a Amaznia, o cacau baiano, o 
vale do So Francisco e uma escola de agronomia paulista. Ato final
de dezembro encontrou-se com 
dezesseis ministros, catorze governadores, 21 senadores e dezoito
deputados. 57 Ecos trazidos de Braslia pelo 
general Figueiredo sugeriram algum desconforto do Planalto diante dos
paralelos com a recluso de Medici. 
"Estou recebendo polticos, evidentemente. O ano que vem temos
eleies diretas. No podemos perder. Como 
?' rebateu Geisel.58 Oito meses depois de sua posse, presidiria uma
eleio que renovaria um tero do 
Senado, toda a Cmara e as assemblias legislativas, e Ulysses j
avisara que a anticandidatura seria o pontap 
inicial da mobilizao do MDB. Nenhuma grande encrenca. 
Duas, uma maior que a outra, apareceram no fim do ano. Em meados de
novembro Augusto Trajano de 
Azevedo Antunes, o dono das jazidas de ferro do Amap e financiador do
iis, orculo invisvel de boa parte da 
plutocracia nacional, tivera dois convidados para jantar num
apartamento da avenida Vieira Souto. Um era Julio 
de Mesquita Neto, da famlia proprietria d'O Estado de S. Paulo,
quatrocento conservador e irredutvel. 
59 Chamado a depor num 1PM, se recusara a aceitar a qualificao 
55 Luiz Gutemberg, Moiss, codinome Ulysses Guimares, p. 121. 
56 Paolo Marconi, A censura poltica na imprensa brasileira 1968/1978,
p. 256. 
57 Agenda de Geisel, 1973. APGCS/HF. 
58 Nota apensa  transcrio do Dirio de Heitor Ferreira, 19 de
outubro de 1973. APGCS/HF. 
59 Dirio de Heitor Ferreira, 10 de novembro de 1973. 
244 A DITADURA DERROTADA 
de diretor responsvel do jornal. Quando o oficial que o interrogava
lhe perguntou quem, nesse caso, era o 
responsvel pelo Estado, respondeu que essa funo estava com o
ministro da Justia, Alfredo Buzaid, 
"que todas as noites tem um censor na tipografia do jornal"6 O
depoimento foi encerrado. 
O outro convidado era Golbery. Naquele dia o jornal de Julio Neto
chegara s bancas com 65 versos d' Os 
lusadas ocupando o espao de uma reportagem do jornalista Alberto
Tamer, enviado especial  Brasil-Expo 
73, em Bruxelas. Tamer contava que a despeito do enorme sucesso de
pblico (20 mil visitantes) e de crtica (11 
milhes de dlares de negcios fechados), a feira se tornara uma
oportunidade para manifestaes contra a 
ditadura. Sofrera uma exploso, uma tentativa de invaso e pequenos
comcios. O ttulo do texto suprimido 
dizia tudo: "Feira: xito econmico, porm malogro poltico"6' 
A realizao desse jantar  mesa de Antunes indicava o interesse de um
setor tradicional da plutocracia por 
algum tipo de armistcio entre o regime e o jornal. No se tratava de
uma gesto para acabar com a censura, mas 
de um entendimento para amenizar as hostilidades contra o Estado.
Toda a indstria de comunicaes 
permanecia controlada. A Tribuna da Imprensa continuava com censores
dentro da redao. Os 
semanrios O Pasquim e Opinio estavam obrigados a enviar seus textos
a Braslia, onde, numa s edio 
do segundo, carimbaram "censurado" em 170 das 348 laudas escritas pela
redao.62 
Golbery e Julio Neto conversaram at as primeiras horas da madrugada.
Trataram do ministro Delfim Netto, da 
moralidade do Poder Judicirio, do delegado Fleury e do Esquadro da
Morte. O general passou suas 
mensagens: insinuava o fim da censura e pedia que se evitassem
turbulncias at a posse de Geisel.63 Levou o 
jornalista ao aeroporto e deu 
60 O Estado de S. Paulo, 30 de dezembro de 1996. 
61 Idem, 10 de novembro de 1973, edio submetida aos censores e
edio censurada, O Departamento de 
Pesquisas do jornal conserva as pginas preparadas pela redao antes
de serem mutiladas pelos censores. 
62 Bernardo Kucinsky, Jornalistas e revolucionrios, p. 271. 
63 Julio de Mesquita Neto, junho de 1994. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 245 
a misso por bem-sucedida: "A conversa em si no tem um outro fato,
uma coisa mais importante, a no ser o 
trabalho de amaciamento"64 Duas semanas depois Geisel receberia um
aviso: o DOPS gravara a conversa de 
um encontro de Golbery com os irmos Julio e Ruy Mesquita, em So
Paulo. 
"Ento est timo. Mandem a gravao. Vamos ver essa gravao", 
respondeu Golbery.65 
No era bem assim. Depois do jantar no Rio, Julio de Mesquita
telefonara ao irmo Ruy, diretor do Jornal da 
Tarde, narrara o encontro, e essa conversa fora gravada. Golbery
voltou a interessar-se pela fita: "Eu vou 
querer do Figueiredo a cpia, porque agora eu quero ver se os caras
esto falando certo ou mentindo. [...] 
Agora interessa a mim'66 Havia dois urubus na linha, a Polcia Federal
e o CIE. O diretor do DPF, general 
Antonio Bandeira, mandou o grampo ao SNI, e de l ele foi para a mesa
de Medici. 
Heitor Ferreira presenciou a reao de Geisel: 
Quer dizer, por causa desse sistema que est montado a, de SNI,
Bandeiras, e dE, e no sei o qu, eu vou ficar 
inibido, eu vou me meter num quarto e s vou falar no dia 15 de maro,
quando eu tomar posse. Porque a eu 
arrebento com todos eles. Eu quebro o dE, quebro o SNI, quebro o
Bandeira e quebro toda essa turma. [... j O 
primarismo dessa gente  o seguinte, Heitor: eles so contra O Estado
de S. Paulo. Querem massacrar O 
Estado de S. Paulo, mas no tm a coragem de chegar e liquidar o
jornal. Porque eu aceito isso, mas ento 
rasga a Constituio, rasga tudo, vai l, desapropria o jornal, quebra
o jornal, fuzila o Mesquita. Por que no 
vo a isso? No, O Estado de S. Paulo  livre, funciona, mas 
leproso, ningum pode tocar nele, ningum 
pode conversar.67 
64 Conversa de Golbery com Geisel, cerca de 15 de novembro de 1973.
APGCS/HF. 
65 Conversa de Golbery com Geisel, 3 de dezembro de 1973. APGCS/HF. 
66 Julio de Mesquita Neto, junho de 1994. Conversa de Geisel com
Golbery, 6 de dezembro de 
1973, APGCS/HF. 
67 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 10 de dezembro de 1973.
APGCS/HF. 
246 A DITADURA DERROTADA 
Dias depois o caso foi liquidado numa conversa de Geisel com
Figueiredo. 68 Medici nunca levantou o assunto, e Golbery 
ficou frio. Por falar em encontro com leprosos, Golbery acabara de
marcar outro, com d. Avelar Brando Vilela, cardeal-
arcebispo de Salvador. Meses antes o governador de Pernambuco
humilhara o arcebispo, tirando-lhe um crach. Convinha 
conversar num lugar discreto, e o cardeal-primaz parecia um senhor
cumprindo sua rotina de fim de tarde, quando entrou 
numa agncia de banco da esquina da rua do Carmo com a Ouvidor.
Caminhou at o fundo e subiu ao segundo andar. 
Golbery o esperava.69 
A dificuldade que influenciaria profundamente a formao do governo de
Geisel e que haveria de amargurar-lhe o resto dos 
tempos, esgueirou-se aos poucos. Na segunda metade de novembro,
chegaram-lhe murmrios de que seu irmo, insuflado 
por um grupo de generais, pretendia continuar no Ministrio do
Exrcito.7 No fazia sentido. Aos 68 anos, Orlando 
estava um caco. Havia mais de um ano, dissera a Ernesto que era "um
homem condenado" Tivera uma pneumonia e padecia 
de pericardite. Despachava freqentemente em casa. Enxergava mal: "Eu
estou com a impresso de que eu passei o pente 
nas sobrancelhas e estou vendo atravs dos cabelos" Em outubro tivera
febres, definhara catorze quilos. Geisel mandara-lhe 
seu mdico, e o diagnstico fora tifo. Temera pela vida dele, mas
resignara-se.7' 
Mesmo assim, no jogo dos palpites, Orlando continuava ministro, 
tanto na lista do senador Ney Braga como na do ajudante-de-ordens de 
68 Bilhete de Heitor Ferreira a Golbery, 10 de dezembro de 1973, com
os temas que Geisel trataria com Figueiredo durante 
um encontro marcado para o dia 15. APGCS/HF. 
69 Telefonema de d. Avelar Brando a Golbery, 11 de dezembro de 1973.
APGCS/HF. 
70 Dirio de Heitor Ferreira, 3 de dezembro de 1973. Conversa de
Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 20 de novembro 
de 1973, APGCS/HF. 
71 Ernesto Geisel, julho de 1988. Para a perda de peso, Octavio Costa,
maio de 1985. Para os olhos, conversa de Geisel 
com Golbery, 7 de janeiro de 1974. Para a possibilidade da morte de
Orlando, conversa de Geisel com Golbery, Heitor 
Ferreira e Moraes Rego, 22 de novembro de 1973. APGCS/HF. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 247 
Medici.72 O coronel Danilo Venturini, ntimo colaborador do general
Orlando, foi chamado a Jacarepagu, 
discutiu o assunto com Golbery, minimizou-o e achou boa a idia de que
tudo poderia ser resolvido atravs de 
um cuidadoso oferecimento do lugar de embaixador em Portugal.73 
No dia 20 de dezembro, Geisel voltou do almoo e encontrou o general
Cacau de Barros Nunes na ante-sala. 
Cacau vinha pedindo para ser recebido desde a tarde anterior.
Contrariando seu temperamento expansivo, 
recusava-se a revelar o assunto. S contou sua histria ao candidato.
Estivera com Orlando para entregar-lhe 
um presente de Natal, e a certa altura ouvira dele: "Os trs ministros
militares tm que permanecer' Encerrada a 
agenda, Geisel sentou-se com Golbery e Heitor. No admitia a hiptese.
Renunciaria  candidatura, e logo, 
evitando o constrangimento da eleio de 15 de janeiro.74 
O velho demnio reaparecera. A permanncia do ministro do Exrcito -
fosse quem fosse - significaria uma 
tutela militar disfarada em continuidade administrativa. Produto do
conchavo dos generais, resultaria num 
condomnio de tutores. Se tudo isso fosse pouco, aquilo era coisa "do
Mm guita, do Coalhada, do Gordo 
Sinistro", oficiais que Geisel sempre desprezara.75 Era tambm coisa
de sua famlia. Atribua-se  irm Amlia, 
uma frase to simples quanto significativa: "O Orlando cuida do
Exrcito, e o Ernesto cuida do resto'76 A idia 
de abater o prprio irmo transtornara-lhe o sto de emoes que
tanto protegia. 
Eram bons amigos, mas tinham uma relao mais prxima dos hbitos
alemes que da cultura familiar brasileira. 
Ainda tenente, Ernesto fizera um emprstimo na Caixa Econmica para
pagar uma encalacrada de Orlando nas 
mesas de pquer. J capites, casados, viveram na mesma casa. A fora
dos vnculos afetivos com a famlia 
podia ser medida 
72 Trs folhas manuscritas de Heitor Ferreira com o resumo de sua
conversa com o major Clvis Magalhes 
Teixeira, 15 de dezembro de 1973. APGCS/HF. 
73 Dirio de Heitor Ferreira, 20 de dezembro de 1973. 
74 Idem. 
75 Pela ordem, os generais Antonio Jorge Corra, Ramiro Tavares
Gonalves e Humberto de Souza Mello.
Ernesto Geisel, julho de 1988. 
76 Heitor Ferreira, 1998. 
248 A DITADURA DERROTADA 
pelo nome das crianas: Ernesto dera ao filho o nome do irmo.77 Mesmo
assim, visitavam-se de terno e gravata.78 Mais 
velho em casa e mais antigo no Exrcito, Orlando acumulara
precedncias. Em 1932, depois de combater a Revoluo 
Constitucionalista de So Paulo, Ernesto recusara a estrela de capito
porque com ela ultrapassaria o tenente Orlando. 79 
Evitavam discutir poltica militar. O ministro apreciava as histrias
do irmo, tanto que contou a Medici o chega-pra-l que 
levara quando quis influenciar o texto do discurso da conveno.80
Gostavam- se, mas Ernesto era o caula. E o caula lia 
nos jornais que tinha oito estrelas, quatro dele e outras quatro do
irmo mais velho.8' 
Desde que a encrenca aparecera, Geisel vinha repetindo: 
"Por mais que ns sejamos amigos, eu e o Orlando, ns temos pontos de
vista diferentes, ele  cabeudo, eu sou tambm. 
[...J Orlando  mais 
velho, eu sou mais moo, mas eu vou ser o chefe."82 
"No primeiro despacho ns vamos ter briga, ou ento eu vou passar
cinco anos fazendo coisas que eu no quero. [... 1 Por 
outro lado, vo dar uma imagem muito ruim do pas e do governo. Que eu
fui escolhido pelo Orlando, que o Orlando, por 
meu intermdio, manda neste pas, e que isso  uma comandita de dois
irmos, e que no sei o qu. Acho que isso  de um 
senso elementarssimo."83 
Era preciso que algum falasse com Orlando. Quem? Medici. 
Naquela mesma tarde Geisel chamou Figueiredo ao Jardim Botnico e
pediu-lhe que levasse o problema ao Planalto.84 
Poucos dias depois, 
no meio de um despacho de rotina, Medici tratou o assunto com Orlan77
Orlando teve dois filhos. A um deu o nome do 
pai (Augusto) e a outra o da me (Ldia). Ernesto deu a um o nome do
irmo (Orlando) e a Outra O da irm (Amlia). 
78 Amlia Lucy Geisel, julho de 1991. 
79 Golbery do Couto e Silva, 1983. 
80 Nota apensa ao Dirio de Heitor Ferreira, 28 de setembro de 1973. 
81 Conversas de Geisel com Golbery, 7 de janeiro e 8 de fevereiro de
1974, com Dyrceu Nogueira, 4 de fevereiro de 1974, 
e com Dale Coutinho, 16 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 
82 Conversa de Geisel com Golbery, 3 de dezembro de 1973. APGCS/HF. 
83 Conversa de Geisel com Golber Heitor Ferreira e Moraes Rego, 10 de
dezembro de 1973. APGCS/HF. 
84 Dirio de Heitor Ferreira, 20 de dezembro de 1973. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 249 
do. Segundo a verso de Figueiredo, que conversara com o presidente, o
velho general surpreendera: "Nem me 
passa pela cabea criar problema para ele. Eu apenas imaginei ajudar,
por alguns meses. Ele vai ter tanto 
problema no incio do governo. .." 
Parecera encantado com a embaixada em Portugal: "Ah, no deixa 
a minha mulher saber disso que ela vai ficar numa felicidade...'85 
Segundo a verso do coronel Venturini, as coisas foram diversas. Ele
continuava pensando em ficar "por 
alguns meses" e via a embaixada como simples hiptese: "Se fosse hoje,
a resposta seria no'86 Estava certo. 
Quando Medici insistiu com o lugar em Lisboa, o general desviou-se:
"Por que no nomeia o Fontoura?"87 
Orlando Geisel sabia transformar-se num mestre da esquiva, hbil
manipulador de subentendidos. Queria 
permanecer no ministrio e no se renderia a intermedirios. Seus
generais pouco podiam fazer num conflito de 
irmos. Depois de uma conversa com Medici, Figueiredo conclura que
esse era o pior caminho: "O nico que 
no pode entrar de sola nessa questo  o Alemo"88 
Ademais, o chefe do dE, general Milton Tavares de Souza, passara 
ao coronel Venturini informaes que ele se apressou em comunicar a 
Golbery. Foi ao largo da Misericrdia e revelou: 
"H uns espritas", disse Venturini. 
"Qual  a mensagem dos espritos?' indagou Golbery. [...j 
"A mensagem deles  de que o homem deve permanecer." 
"Por qu? Porque  esprita?", perguntou Heitor. 
"No, o general no  esprita. Os espritas  que dizem. Fazem l as 
suas sesses. Me disse o general Milton... 
Golbery achou que havia macumba na mensagem: 
"Olha aqui,  Venturini, esse negcio de esprita  o seguinte: h
men85 Ditrio de Heitor Ferreira, 27 de dezembro 
de 1973. 
86 Idem, 29 de dezembro de 1973. 
87 Duas folhas manuscritas de Heitor Ferreira, de 4 de janeiro de
1974. APGCS/HF. 
88 Telefonema de Figueiredo a Heitor Ferreira, 17 de dezembro de 1973.
APGCS/HF. 
250 A DITADURA DERROTADA 
sagens espritas, ou soi-disant espritas, ou por outra, mensagens que
os participantes acham que  esprita, 
convictamente. Se essa mensagem, ela  autntica ou se ela tem um
pouco de desejo, consciente ou 
inconsciente, no interessa. Quer dizer, o indivduo tem aquilo que
ele considera que . Mas essa mensagem 
nunca  essa: deve ser. Nunca. Essa mensagem vai ser. A mensagem
esprita nunca vem com isso: deve ser 
fulano. Nunca vi mensagem esprita, a no ser assim: cuidado com isso,
com aquilo, cuidado com aquilo outro, 
mas nunca assim no 'deve  mudar a orientao da coisa. Mas tambm
isto  um dos meios que se usa para 
plantar muito troo." 
"Foi o dado que o Milton me deu", argumentou Venturini.89 
Dias depois, referindo-se a esse episdio, Geisel teve um momento 
de humor cruel: "Mas diz que o astral  que diz que ele tem que
continuar, no ?".90 
No incio de janeiro, a poucos dias da eleio, Geisel convenceu-se de
que a isca da embaixada em Lisboa se 
perdera. Abandonou a idia da renncia e caminhou lentamente em
direo ao pior. Fechou-se em copas, como 
se ignorasse o problema. Embarcou para Braslia e, em vez de
hospedar-se na casa do irmo, foi para o hotel 
Nacional. No caminho, descobriu que a reserva de uma sute de 3400
cruzeiros ficara por conta do Centro de 
Informaes do Exrcito.9' Mandou desmanchar o trato, alugou um
apartamento comum e pagou pouco mais 
de mil cruzeiros do seu bolso.92 
Recebeu Orlando duas vezes no Jardim Botnico, mas as conversas no
saram da temtica familiar. Emitiu um 
s sinal: escolheu o almirante Geraldo de Azevedo Henning para o
Ministrio da Marinha sem nenhuma 
consulta fora do seu crculo de colaboradores. 
Orlando acusou o golpe. No fim da tarde de 9 de fevereiro, sbado 
89 Conversa de Golbery e Heitor Ferreira com o coronel Danio
Venturini, 19 de dezembro de 
1973. APGCS/HF. 
90 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 20 de dezembro de
1973. APGCS/HF. 
91 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 9 de janeiro
de 1974, APGCS/HF, e Dirio de Heitor 
Ferreira, 10 de janeiro de 1974. 
92 Dirio de Heitor Ferreira, 10 de janeiro de 1974. O dE acabou
pagando uma das dirias. Conversa de Geisel com 
Lilian e Humberto Barreto, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 16 de
janeiro de 
1974. APGCS/HF. 
E- 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 251 
de Carnaval, atravessou o porto do Jardim Botnico. O irmo o
esperava: "Olha, Orlando, no vou manter 
voc no ministrio, por diversas razes. Primeiro, porque militarmente
voc  mais antigo que eu. Segundo, 
porque voc  meu irmo, e o Brasil vai parecer uma repblica de
bananas, com um irmo na Presidncia e 
outro no Exrcito. Alm disso, eu penso diferente de voc em relao a
muitas coisas, inclusive no Exrcito. Na 
primeira lista de promoes a generais ns vamos brigar. No vai dar
certo, eu conheo o nosso 
temperamento'93 
Foi uma conversa melanclica. Ele ouviu em silncio. No respondeu
nada. Percebi que no gostou. Foi uma 
dor terrvel para mim. E olhe que ningum me ajudou nessa luta. Nem o
Medici, nem o Figueiredo, ningum. 
Com aqueles bestalhes botando coisa na cabea dele. Mas botei todos
na reserva, e ningum conseguiu 
colocao nenhuma. Todos eles me pagaram. 
O Orlando nunca mais me visitou. At morrer, nem foi ao palcio, nem
ao Riacho Fundo. Eu  que o visitei 
muitas vezes. Foi uma coisa muito dolorosa. Eu e o Orlando ramos os
mais ligados da irmandade.94 
Trs dias depois, contando a conversa a Antonio Carlos Magalhes, 
Geisel chorou.95 Vinte anos depois, relembrando-a ao autor, seus olhos
marejaram-se. 
Orlando morreu em 1979. At a, falaram-se pouco, nunca sobre assuntos
de Estado. Da fraternidade restara 
apenas um elo. Era uma senhora que todos os dias deixava o palcio da
Alvorada e, apoiando-se numa 
bengala, entrava no apartamento onde vivia o general, que respirava
com a ajuda de peridicas aspiraes de 
oxignio.96 Ficava pontualmente das duas s seis. Amlia Geisel, a
primognita, uma bela mulher que no se 
casara, cinco anos mais velha que Orlando, sete mais que Ernesto, fora
a primeira mestra dos dois. Aposentara-
se como pro93 Ernesto Geisel, julho de 1988. 
94 Idem. 
95 Antonio Carlos Magalhes, janeiro de 1998. 
96 Ernesto Geisel, maro de 1995. 
252 A DITADURA DERROTADA 
fessora do colgio de Cachoeira do Sul, e a famlia sempre lembrava
que faltara ao trabalho pela primeira vez em 
1930 para ir a Bento Gonalves informar a Ldia e Augusto Geisel que
seus dois filhos estavam na 
Revoluo.97 
Trs semanas antes da conversa com o irmo no Jardim Botnico, na
manh de 15 de janeiro, Geisel fora eleito 
por 406 votos contra 76 dados a Ulysses Guimares e 23 abstenes.
Dias antes da cerimnia o presidente do 
MDB informara aos deputados mais combativos da bancada 
- autodenominados "autnticos" - que romperia o compromisso assumido
no incio da campanha: no 
renunciaria  candidatura e iria  votao. Aos "autnticos", que no
queriam coonestar a deciso do Colgio 
Eleitoral, s restou o caminho da absteno. 
Num curto discurso, Geisel avisara que no se deixaria desviar por
"impulsos quaisquer, por mais generosos, 
de amizade ou do corao"98 Como a grande encrenca se circunscrevia ao
restrito plenrio de hierarcas, o sinal 
passara despercebido. 
A curiosidade fora noutra direo, atrada pela afirmao de Geisel de
que se julgava no dever de "estar aberto 
a quaisquer pleitos, sugestes ou crticas construtivas, todas
merecedoras de acolhida"99 O uso da palavra 
aberto tinha algo de intrigante. Os verbos abrir e fechar haviam-se
transformado em veculos de sntese da 
conduta e das intenes das personalidades do regime. Denominava-se
abertura o restabelecimento de 
quaisquer franquias democrticas, e chamava-se de fechamento s
ameaas de surtos punitivos. 
Comparada ao que se dera em Brasilia, a frase de Geisel continha uma 
tnue promessa de contraponto. A Agncia Nacional transmitira trechos 
da cerimnia do Colgio Eleitoral em rede de televiso e rdio. Do
pre97 Amlia Lucy Geisel, julho de 1991. 
98 Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1: 1974, p. 22. 
99 Idem. 
IPRIMEIRAS ENCRENCAS 253 
sidente do MDB, Ulysses Guimares, nem uma palavra.'00 s oito da
noite, depois da saudao de Geisel, e 
antes da novela O Semideus, o Jornal Nacional divulgou os fatos do
dia. Alm do resultado da eleio, 
noticiou que havia pouco o ministro Mrio Andreazza, a bordo de um
jipe, atravessara a ponte Rio-Niteri, 
ainda inacabada. Quanto ao discurso de Ulysses, uma s informao:
tinha onze pginas. Do que havia nelas, 
nada. O anticandidato anunciara que o MDB "sair deste recinto nem
vencido muito menos convencido, pois 
haver esperana para a liberdade enquanto restar um homem sobre a
face da terra".'' A poucos quilmetros 
do Congresso, uma tropa do Exrcito estivera de prontido. Eram duas
companhias de infantaria preparadas 
para dissolver a reunio do Colgio Eleitoral caso houvesse algum
imprevisto)02 
Assim como sucedera na conveno da Arena, Golbery redigira o projeto
do discurso de Geisel. E assim como 
sucedera trs meses antes, deu- se um eloqente dilogo entre seu
rascunho e a verso final. Golbery escreveu 
o texto no verso de quatro formulrios de consulta ao servio de
pesquisas da Enciclopdia Britnica, ao qual 
pedira informaes sobre arte pop, Botticelli e Chagall. 
Com a formalidade dos discursos de posse, queria que Geisel prometesse
o seguinte: "A coibio enrgica de 
toda violncia ilegal, partida 
de onde ou de quem partir".103 
Geisel argumentou: "Olha aqui, voc tem um negcio, uma coisa aqui, 
que no pode se referir agora. Quer ver? Isso  uma das grandes
verdades 
[...]. Isso  verdade, e vamos ver se fazemos, mas voc no pode
dizer".104 
Heitor Ferreira, diante da mesma argumentao, ponderara: "Tem 
um alerta bom, que : no venham querer criticar o senhor por qualquer
coisa que faam por ai. 
100 Gravao da cerimnia transmitida pela Agncia Nacional, 15 de
janeiro de 1974. APGCS!HF. 
101 Dirio do Congresso Nacional, 16 de janeiro de 1974. 
102 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 17 de
janeiro de 1974. APCCS/HF. 
103 Pasta com trs textos, cada um de quatro folhas. APGCS/HF. No
primeiro conjunto est o manuscrito de 
Golbery, no segundo o texto datilografado desse rascunho, com
anotaes manuscritas de Geisel. No terceiro, 
a verso final, manuscrita, de Geisel. 
104 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 10 de janeiro de
1974. APGCS/HF. 
254 A DITADURA DERROTADA 
"No  nessa hora que eu vou comear a brigar. No posso pegar essa
guerra. No devo, O negcio do 
Golbery est todo certo, agora,  discutvel a oportunidade", foi a
resposta de Geisel.'t 
Noutro trecho, Golbery escrevera: "[...] confiar num futuro prximo de
grandeza, paz e justia social que 
assegure, afinal, em nossa terra, clima salutar  plena expanso da
potencialidade humana de cada cidado 
brasileiro, sem privilgios indevidos, sem constrangimentos
arbitrrios" 
Geisel no quis: "Pois . Eu no vou falar nisso. Vo me cobrar. E
depois eu vou reconhecer, agora, que h 
constrangimentos arbitrrios? H, 
mas no sou eu que devo dizer isso".b06 
Golbery voltou com o pargrafo que preparara meses antes, para a fala
da conveno: "Governo aberto, almejo 
assim, venha a ser o meu, no sentido de abrir e manter, arejados
sempre, mltiplos canais de comunicao com 
as elites polticas e tcnicas, a intelligentzia sempre trepidante das
mais nobres insatisfaes, a mocidade 
incontida embora, em seus arroubos de idealismo, por vezes
transbordantes, todas as minorias autenticamente 
representativas e responsveis do pas e mesmo, partindo do rinco
mais remoto, a voz individual de qualquer 
cidado ferido em seus direitos ou clamando por justia" 
Geisel pescou o "cidado ferido": "H uma referncia velada s
torturas. Eu no posso dizer isso, no ? A  
que est, ento o sujeito no pode dizer o que ele realmente quer
dizer. O que que ele vai dizer? Vai embromar? 
No ?  difici1"'7 
O trecho se transformou no seguinte: "Entendo mesmo que das maiores
qualidades de um governante  saber 
dizer 'no' a proposies que lhe paream intempestivas ou que, em
justa anlise, se lhe afigurem ilegtimas. 
Dever no menor ser, por outro lado, o de estar aberto a quaisquer
pleitos, sugestes ou crticas construtivas, 
todas merecedoras de acolhida, para exame imparcial e sereno da
verdade que contenham"108 
105 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 7 de janeiro
de 1974. APGCS/HF. 
106 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 5 de janeiro
de 1974. APGCS/HF. 
107 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 7 de janeiro
de 1974. APGCS/HF. 
108 Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1: 1974, p. 22. 
PRIMEIRAS ENCRENCAS 255 
Golbery encaixou a mudana: "Graas a Deus est conservado aquele
negcio de dizer no"'9 
Se Ulysses Guimares tivesse lido trechos do rascunho que Geisel
dispensou, certamente seria chamado de 
provocador. Mal se pode dizer que Golbery insinuasse. Nos pores do
governo abundavam cidados feridos 
em seus direitos. O projeto chegara a condenar a "caada s bruxas,
sempre negativa e na verdade 
contraproducente em si mesma" 
Entre os rascunhos de setembro e de janeiro Golbery se tornara mais
audacioso em suas sugestes. Partiam da 
certeza de que o regime tinha de mudar. Em conversas reservadas,
argumentava: "Vamos tentar uma abertura 
gradual. Ningum ainda o conseguiu. Se der certo, bem. Seno, vir um
perodo de violncia do Estado e, 
depois, uma reao. A, vamos todos para o poste, menos o papai aqui,
que estar velho"" 
Geisel podia concordar com a estratgia, mas no estava disposto a
acompanhar a ttica. Refletindo a relao 
peculiar que mantinham, em nenhum dos dois casos a diferena estimulou
discusses proporcionais  
importncia dos temas propostos nos textos."1 Alis, eles no
discutiam. Ao sinal de divergncia, Golbery 
retraa-se, mudava de assunto. Fazia isso at mesmo nas conversas
inconseqentes de fim de tarde no largo da 
Misericrdia, quando Geisel provocava Heitor Ferreira e Moraes Rego em
polmicas que de certa forma se 
tornavam seu principal divertimento. Defendera a permanncia do trecho
que falava em canais de comunicao 
abertos, mas, no caso da "violncia ilegal", ele prprio sugerira o
corte. Se Heitor Ferreira no tivesse 
preservado os manuscritos, talvez fosse difcil acreditar que
guardassem tamanhas diferenas, pois nem Geisel 
se queixava dessas audcias, nem Golbery reclamava da cautela. Tais
documentos, bem como episdios em 
que os dois amigos se colocam em campos distintos, estimulam paralelos
entre as personalidades e as 
condutas desses dois importantes personagens da ditadura. Muitas vezes
essa comparao foi apontada ao 
prprio Golbery. Ele admitia di- 
109 Conversa de Golbery com Geisel, 10 de janeiro de 1974. APGCS/HF. 
110 Golbery do Couto e Silva, fevereiro de 1974. Em Veja, 19 de maro
de 1980,"O fabricante de 
nuvens", p. 27. 
111 Golbery do Couto e Silva, agosto de 1986. 
256 A DITADURA DERROTADA 
vergncias com Geisel, mas sempre ressaltava "minha condio de
oficial de Estado-Maior, cuja funo  
apresentar caminhos ao chefe, sabendo que a escolha, uma vez feita,
deve ser obedecida''12 Como se 
soubesse que a ditadura podia produzir um Geisel sem o aconselhamento
de Golbery, mas que no poderia 
haver um Golbery sem um Geisel na Presidncia da Repblica. 
Geisel no queria comparaes com o passado nem compromissos para o
futuro. Irritou-se quando um 
articulista viu no seu discurso um aceno liberal: "Como  que o
bestalho conclui que pelo fato de eu receber a 
crtica construtiva vou dar liberdade? Pois se eu disse l que no ia
abrir mo dos instrumentos que eu tinha.  
vontade de enganar a si mesmo' 
Logo depois, indicou sua preferncia: "Vocs viram o editorial do
Globo de ontem? Est muito bem-feito. Diz 
que os quatrocentos caras que 
votaram em mim votaram no Brasil'"3 
No fundo, no queria encrencas. Horas depois de sua conversa com o
irmo Orlando, sentara-se com o general 
Joo Baptista Figueiredo na sala da casa do Jardim Botnico: "Tenho
cinco anos e o cajado na mo. Se eu no 
for muito burro, me agento no poder""4 
112 Golbery do Couto e Silva, junho de 1987. 
113 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 17 de
janeiro de 1974. ApGcs/HF. 
114 Uma folha manuscrita de Heitor Ferreira intitulada Da Conversa
Geisel & Figueiredo na Noite de 09-02-74. 
APGCS/HF. 
A grande encrenca 
A me de todas as encrencas comeou em outubro de 1973. Em menos de
trs meses os pases produtores de 
petrleo subiram de 2,90 para 11,65 dlares o preo do barril. Num
mundo que nos 25 anos anteriores crescera 
quintuplicando o consumo de petrleo e quela altura bebia mais 20
milhes de barris a cada dia, teve incio um 
terremoto que redesenharia a sua economia. Os Estados Unidos entraram
numa crise que nos dois anos 
seguintes lhes reduziria em 6% o Produto Interno Bruto e dobraria a
taxa de desemprego. Pela primeira vez 
desde o fim da guerra a economia japonesa haveria de se contrair.'
Encerrava-se uma das fases de maior 
prosperidade da histria humana, que o historiador ingls Eric
Hobsbawm chamaria de a Era de Ouro. O mundo 
comeava a "deslizar num perodo de instabilidade e crises'2 
Em 1970, no esplendor do Milagre Brasileiro, o barril de petrleo
custava us$ 1,80. O pas dependia de leo 
para 44% do seu consumo de energia eltrica, importava 80% dos
combustveis fsseis que queimava. Desde 
1968 o consumo crescia uma mdia de 16% ao ano.3 Os novos pre1 Daniel
Yergin, The prize - The epic quest for ou, 
money & power, pp. 606, 625, 500, 567 e 635. 
2 Eric Hobsbawm, Era dos extremos, pp. 221-390. 
3 Laura Randali, Thepolitical economy of Brazilian ou, p. 13. Jos
Serra, "Ciclos e mudanas estruturais na 
economia brasileira do aps-guerra' Revista de Economia Poltica,
abril-junho de 1982, 
vol. 2/1, n2 6, p. 15. Para o crescimento do consumo, Joo Paulo Reis
Velioso, O ltimo trem para 
Paris,p. 139. 
258 A DITADURA DERROTADA 
os significavam um dreno de 2 bilhes de dlares anuais.4 Um ano
antes, Geisel destrura uma articulao dos ministros 
Dias Leite e Delfim Netto para franquear a explorao de petrleo aos
contratos de risco com empresas estrangeiras. 
Argumentava que o preo internacional estava baixo, as pesquisas da
Petrobrs eram promissoras, e no tinha sentido o 
"Brasil Grande" chamar estrangeiros para fazer esse servio.5 (A
administrao de Geisel na Petrobrs deu prioridade aos 
investimentos na distribuio, no refino e na petroqumica, colocando
em segundo plano a pesquisa e a explorao.)6 De 
uma hora para outra o petrleo abriu um buraco na economia brasileira
equivalente a 32% das suas exportaes.7 
Anos mais tarde o professor Henry Kissinger perguntaria: "Como uma
transformao to ampla e profunda pde 
acontecer repentinamente? Olhada em retrospecto, vem-se com nitidez
as sementes e os sinais daquela mudana 
dramtica. A revoluo do petrleo, como tantas revolues histricas,
manteve um padro. Era inevitvel, mas a sua 
inevitabilidade s foi vista depois"8 
Ela poderia ter sido percebida em 1960, quando a Esso derrubou o preo
do barril, levando-o para 1,76 dlar.9 A 
truculncia dos compradores abrira o caminho para os visionrios que
sonhavam com um cartel de vendedores, e dela 
resultou a Organizao dos Pases Exportadores de Petrleo, OPEP.
Poderia ainda ter sido percebida em 1970, quando a 
Lbia, a Arglia e o Ir introduziram os cortes na produo como arma
para negociar melhores preos, mas sucedeu o 
contrrio)0 O governo americano rejeitara uma proposta do x do Ir
que oferecia o barril a um d- 
4 Lincoin Gordon, A segunda chance do Brasil, p. 128. 
5 Ernesto Geisel, janeiro de 1995. Delfim Netto, novembro de 1988.
Delfim fora advertido pelo 
ministro das Finanas francs, Valery Giscard d'Estaing, de que os
pases rabes armavam uma 
alta do preo do barril de petrleo. 
6 Cinco folhas intituladas Petrobrs, Ernesto Geisel - As Grandes
Modificaes que Introduziu na 
Vida da Companhia. A alta do preo do barril viabilizou a explorao
das reservas de guas profundas descobertas no 
litoral fluminense um ano depois. 
7 Veja, 9 de janeiro de 1974, pp. 70-1. 
8 Henry Kissinger, Years of upheaval, p. 854. 
9 lan Skeet, OPEC - Twenty-five years of prices and politics, pp.
16-9. 
10 Idem, p. 60. Henry Kissinger, Years of upheaval, p. 862. Daniel
Yergin, The prize - The epic quest 
for oil, money & power, p. 580. 
AGRANDE ENCRENCA 259 
lar por dez anos. Afinal, a idia de um cartel coordenado pela OPEP
continuava como coisa de visionrios, 
desdenhada pelas petromonarquias do Golfo. 
O mundo dos pases produtores parecia confundir-se com a megalomania
do x Reza Pahlavi. Filho de um 
cossaco, em 1971 ele comemorou os 2500 anos da Coroa persa com uma
festa em que o presidente da Unio 
Sovitica e o vice-presidente dos Estados Unidos puxaram o comboio da
maior boca livre de todos os tempos. 
Nove reis, cinco rainhas, 21 prncipes, treze chefes de Estado e
convidados de todo o mundo beberam 25 mil 
garrafas de vinho, servidas por 565 cozinheiros e garons franceses,
com menu do restaurante Maxim's. No 
sorvete da sobremesa derramava-se champanhe Mot, safra 1911.11
Pahlavi simbolizava o sucesso das 
ditaduras desenvolvimentistas do Terceiro Mundo. Na dcada anterior o
Ir crescera 11% ao ano. A renda per 
capita pulara de 225 dlares anuais para perto de 2 mil. O governo
investira 12 bilhes de dlares naquilo que 
denominava Revoluo Branca. Hidreltricas e estradas asfaltadas eram
as jias da Coroa de seu regime.'2 
Sete em cada dez barris das reservas existentes fora do mundo
comunista e dois teros do leo destinado a 
suprir aumento do consumo 
estavam no isl.'3 E os grandes pases compradores apoiavam Israel. 
Numa noite de junho de 1973 o secretrio-geral do Partido Comunista
Sovitico, Leonid Brejnev, estava na 
casa de praia do presidente americano Richard Nixon, na Califrnia.
Passara nove dias nos Estados Unidos, e 
supunha-se que j esgotara a agenda. Repentinamente pediu uma nova
conversa, e os dois trancaram-se na 
biblioteca, pouco antes de meianoite. Nixon, sonolento, prestava pouca
ateno no que Brejnev lhe dizia e 
ajeitava almofadas para apoiar a cabea. Nervoso, o secretrio-geral
do pc sovitico repassava-lhe um discurso 
encomendado pelo Politburo: 
era preciso fazer alguma coisa no Oriente Mdio, pois a tenso entre
ra1 William Shawcross, The shah's last 
ride, pp. 38 41. Mansur Rafizadeh, Witriess - From the shah 
to the SecretArms Deal, ari insider's account ofU. S. involvement in
Iran, pp. 173 e segs. 
12 William H. Forbis, Fali of the Peacock Throne, pp. 236-7. 
13 Daniel Yergin, Theprize - The epic quest for ou, rnoney &power, pp.
500 e 568. 
260 A DITADURA DERROTADA 
bes e israelenses tornara-se explosiva. Nixon achou que seu velho
inimigo estava blefando.'4 
Ao alvorecer de 6 de outubro, Dia do Perdo no calendrio religioso
judaico, 2 mil canhes egpcios abriram 
fogo. Dois corpos de exrcito invadiram o deserto do Sinai. Do outro
lado avanaram duas divises srias. 
Somadas, as tropas que atacavam Israel tinham um efetivo maior que as
foras da OTAN. Dois dias de 
combates levaram o Estado judeu s portas do desespero. "O Terceiro
Templo est ruindo' advertia o general 
Moshe Dayan, chefe do estado-maior do exrcito, legendrio heri de
duas guerras, mundialmente conhecido 
pela venda negra que lhe cobria o olho esquerdo.'5 Amparado num macio
fornecimento de armas americanas 
e no herosmo de seus soldados, o exrcito israelense conteve a
ofensiva e contra-atacou. Entrou em territrio 
srio no dia 11 de outubro, e no dia 16 atravessou o canal de Suez e
invadiu o Egito. A quarta guerra do Oriente 
Mdio terminou como todas as outras, com a vitria de David. 
Na mesma manh de 6 de outubro, em Viena, os pases rabes produtores
de petrleo atiraram  sua maneira. 
Pediram um aumento de 100% no preo do barril. Dez dias depois o
mundo, perplexo, assistia ao colapso dos 
exrcitos egpcios, acompanhando uma daquelas histrias de guerra em
que se reconhece com facilidade 
vencedor e derrotado. A profunda transformao ocorrida naqueles dias
no foi devidamente percebida sequer 
quando aconteceu. Afinal, tanques israelenses rolando na estrada que
leva ao Cairo formavam uma realidade 
muito mais imediata e tangvel do que sheiks pitorescos aumentando o
preo do leo em 70%, de 2,90 dlares 
por barril para 5,12. 
De calo, tomando banho de sol no Jardim Botnico, Geisel perguntava
a Heitor Ferreira: 
14 Anatoly Dobrynin, In confidence - Moscow's ambassador to America's
six Cold Warpresidents, 
p. 283. 
15 DanielYergin, The przze- The epicquest for ou, money &power, p.
604. 
AGRANDE ENCRENCA 261 
- Como vo as coisas? 
- Tudo tranqilo. 
- Tranqilo como? Os rabes vo cortar o leo e est tudo tranqilo?
Preparem-se para deixar os carros na garagem.16 
O "Brasil Grande" combateu a guerra do petrleo com a retrica do
Milagre. Divulgou-se a descoberta, no litoral de 
Campos, de uma provncia petrolfera comparvel s do Oriente Mdio, e
anunciaram-se reservas de 9 mil toneladas de 
urnio.'7 (Nos dois casos faltava ao ufanismo qualquer base tcnica.)
Enquanto os preos subiam em Viena, o ministro 
Delfim Netto lutava no auditrio da FIESP: "S um idiota no v que a
escassez de matrias-primas de que muitos 
empresrios vm se queixando, numa atitude histrica, decorre do ritmo
de desenvolvimento de nossa economia. Quem  
suficientemente irresponsvel para propor que freemos o
desenvolvimento econmico por causa de matrias-primas?"'8 
Dias depois, em Porto Alegre, proclamou que o Brasil seria uma nao
desenvolvida, "a menos que os prprios brasileiros 
optem pelo subdesenvolvimento" '9 Voou de volta para o Rio de Janeiro
e reuniu-se com Geisel. Duas coisas o 
preocupavam: o racionamento - "desestmulo ao consumo suprfluo", no
jargo da Petrobrs - e um aumento dos preos 
internos dos derivados antes de janeiro.2 Preferiria um aumento
imediato de apenas 1O%.21 Geisel, por seu lado, 
preocupava-se com o ba16 Dirio de Heitor Ferreira, 15 de outubro de
1973. 
17 Para o petrleo, O Globo, 7 de outubro de 1973, capa do 12 caderno
e p. 28. Para o urnio, idem, 
11 de novembro de 1973, p. 25. 
18 Gazeta Mercantil, 13-15 de outubro de 1973, em Sebastio C. Velasco
e Cruz, Empresariado e 
Estado na transio brasileira. p. 45. 
19 Para Delfim Netto, O Globo, 17 de outubro de 1973, capa do 12
caderno e p. 18. 
20 Resumo da Conversa Geisel & Delfim, 18 de outubro de 1973, nota
manuscrita de Heitor 
Ferreira. Para a meno da Petrobrs ao "desestmulo ao consumo
suprfluo", seis folhas de Nota 
ao Senhor Presidente, do almirante Floriano Faria Lima, marcadas
"secreto' de 26 de dezembro de 
1973. APGCS/HF. 
21 Narrativa do almirante Floriano Faria Lima, presidente da
Petrobrs, a Heitor Ferreira, de 
uma conversa que teve com o general Joo Figueiredo, em Dirio de
Heitor Ferreira, 29 de outubro de 1973. 
262 A DITADURA DERROTADA 
lano da Petrobrs. Se vendesse combustvel barato, fecharia o ano com
um mau desempenho, apesar de ter conseguido lucros profusos.22 
No final de dezembro veio um novo choque. Reunida em Teer, a OPEP
subiu o preo do barril para 11,65 dlares. O 
diretor comercial da Petrobrs, Shigeaki Ueki, conversou por hora e
meia com Delfim e saiu com uma promessa de um novo 
aumento, dessa vez de 15%. Somados, os dois reajustes no cobriam o
efeito da pancada de outubro, mas Delfim oferecia 
recursos da reserva monetria para tapar o buraco que abria nas contas
da Petrobrs. "Como diretor da Petrobrs, resolvi o 
meu problema. Como brasileiro, fiquei com uma bruta dor de barriga",
observaria Ueki.23 Anos depois Delfim narrava a 
mesma conversa: "O que ele queria  que toda a inflao fosse
carregada ao governo Medici. O objetivo era 12. Ela 
terminou em 15. Se jogasse o petrleo, ia a 28. Mandei-o tomar no
rabo".24 
Capturado pela retrica do Milagre, o regime estava enfeitiado pela
prpria fantasia. Geisel se queixava de que a Petrobrs 
chegara a comprar petrleo iraquiano a dezoito dlares e o vendera,
refinado, a trs.25 Os avies que saam de Buenos 
Aires com destino a Nova York ou  Europa vinham com os tanques quase
vazios para ench-los com um dos querosenes 
mais baratos do mundo.26 O subsdio ao sucesso custava 150 milhes de
dlares por ms.27 
Como o sapo de Guimares Rosa, a ditadura no pulava por boniteza, mas
por preciso. Dois anos antes, durante um 
seminrio realizado na 
universidade americana de Yale, Juan Linz, um professor espanhol que
ja22 Num telefonema de Paulo Belotti, no qual 
soube que uma subsidiria tivera lucros enormes, 
Geisel disse-lhe: "Voc tem que escamotear isso, seno  um escndalo'
Quando Geisel sugeriu 
que usasse o dinheiro para quitar uma dvida junto ao BNDE, Belotti
respondeu: "O problema  
que ao BNDE eu pago juros de 4%. Por que  que vou pagar?' 
23 Bilhete de Shigeaki Ueki a Heitor Ferreira, 7 de janeiro de 1974.
APGCS/HF. 
24 Delfim Netto, novembro de 1988. A inflao de 1973 foi calculada
pela Fundao Getulio Vargas 
em 15,5%. Em 1977 o Banco Mundial recalculou-a em 22,5%. Logo depois a
FGV corrigiu suas contas e colocou-a em 20,5%. Margaret E. Keck, Thc
workers' party 
and dernocratization in Brazil, p. 63. 
25 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 23
de janeiro de 1974. AP(CS/I-TF. 
26 Veja, 19 de dezembro de 1973, pp. 13 1-2. 
27 Idem, 23 de janeiro de 1974, pp. 72-4. 
A GRANDE ENCRENCA 263 
mais pisara no Brasil e pouco conhecia das futricas de sua poltica,
surpreendeu um plenrio de especialistas 
reunidos para debater a ditadura e seu milagre. Falava-se em
"mexicanizao", "portugalizao", 
"dependncia", "ideologia gerencial dos militares". Linz comeou
refugando a noo corrente de que o Brasil 
vivia um regime autoritrio. "Situao autoritria", propunha. No via
futuro na capacidade desmobilizadora de 
uma ditadura obrigada a viver de siogans passados (as desordens dos
dias de Joo Goulart) ou a magnificar 
ameaas (o terrorismo). Faltava-lhe uma legitimidade que s poderia
advir da emergncia de um caudilho, o que 
a rotatividade da Presidncia desestimulava, ou de uma articulao
corporativa que carecia do necessrio 
apoio de uma elite catlica conservadora e influente: 
"Em termos prticos, um processo onde se misturam administrao,
manipulao, decises arbitrrias, 
mistificaes e mudanas freqentes de equipe s poder ser
bem-sucedido enquanto a economia for bem".28 
O fim do "Brasil Grande" seria o fim do regime. Os Estados Unidos, o
Japo e as potncias europias 
recalculavam suas taxas de crescimento, mas no Brasil o ministro
Delfim Netto dizia que "a viso apocalptica  
um produto da ignorncia histrica".29 Faltando-lhe poucos meses para
deixar o governo, Medici no 
pretendia reconhecer dificuldades. Preferiu usar o tempo de sua ltima
mensagem de fim de ano orgulhando- se 
de chegar ao final do mandato com um crescimento de 63% do PIB (11,4%
s em 1973).30 Entregava ao seu 
sucessor uma economia robusta, em dez anos o regime devolvera ao
Brasil o crdito internacional e 
investimentos estrangeiros. O Estado podia investir. Dispunha de
fontes de financiamento e criara uma 
eficiente mquina de arrecadao tributria. Para cada cruzeiro
arrecadado em 1963, arrecadavam-se nove em 
7331 
28 Juan J. Linz, "The future of an authoritarian situation or the
institutionalization of an authoritarian regime: 
the case of Brazil", em Authoritarian Brazil, editado por Alfred
Stepan, pp. 233 e segs. 
29 Veja, 9 de janeiro de 1974, pp. 70-1. 
30 O Estado de S. Paulo, 12 de janeiro de 1974, p 9. 
31 Em 1963 arrecadava-se 1,05 bilho de cruzeiros. Em 1973, 52,8
bilhes. Aplicando-se o IGP como deflator, 
resulta um aumento real de nove vezes. Conjuntura Econmica, vol. 30,
n2 3, maro de 1976. 
264 A DITADURA DERROTADA 
Mesmo sem o choque do petrleo o Milagre tinha vulnerabilidades.
Apresentava os desequilbrios tpicos de 
sua personalidade poltica e das economias que crescem a taxas
elevadas. Enquanto a produo de bens de 
consumo durveis (geladeiras, aparelhos de televiso e outras delcias
da classe mdia) praticamente dobrou 
entre 1970 e 1973, a de bens intermedirios (lingotes de ao,
parafusos, bens capazes de empregar novas levas 
de mo-de-obra) aumentou 45%32 Havia mais gente comendo o bolo do que
amassando a farinha. A felicidade 
do consumo permitira aos comerciantes de So Paulo acarpetar o asfalto
da rua Augusta na decorao do 
Natal de 1972. O nmero de passaportes expedidos, que at 1968 girara
em torno de 4 mil por ano, batera os 200 
mil, levando ao colapso as mquinas da casa Harrison, de Londres, e
obrigando o governo a fabric-los na 
Casa da Moeda.33 No perodo que foi de 1966- 67 a 1972-73, a
disponibilidade de alimentos cara 3% enquanto 
a renda por habitante crescera 56%. Prenunciavam-se presses
inflacionrias. 
Fosse qual fosse a gravidade dos problemas, viessem eles da fronteira
rural ou dos campos de petrleo do 
golfo Prsico, tudo poderia ser resolvido se a desmobilizao poltica
do pas preservasse a sensao de 
sucesso que legitimava o regime atravs do desempenho da economia.
Desmobilizar, no caso, significava 
desmobilizar mesmo, abafar o debate. 
No segundo semestre de 1973 o economista Paul Samuelson, do
Massachusetts Institute of Technology, 
publicara a nona edio do clssico Economics, o livro-texto mais
vendido do mundo sobre o assunto. Obra 
brilhante na sua elegante simplicidade, fora fator decisivo para que o
autor se tornasse o primeiro americano a 
ganhar o Prmio Nobel de Economia. 
32 Jos Serra, "Ciclos e mudanas estruturais na economia brasileira
do aps-guerra' em Revista 
de Economia Poltica, vol. 2/1, n5 6, abril-junho de 1982, pp. 5 e
segs. 
33 Ovidio de Meio, janeiro de 1999. 
34 Jos Serra, "Ciclos e mudanas estruturais na economia brasileira
do aps-guerra' em Revista 
de Economia Poltica, vol. 2/1, n2 6, abril-junho de 1982, p. 41. 
A GRANDE ENCRENCA 265 
Na pgina 870, oferecia uma reflexo poltica: 
Fascismo: 
 mais fcil caracteriz-lo poltica do que economicamente. Seja na
Alemanha de Hitler, na Itlia de Mussolini, na Espanha 
de Franco, em Portugal de Salazar, na Argentina de Pern ou nas juntas
da Grcia e do Brasil, o fascismo foi habitualmente 
identificado por ditaduras pessoais, partido nico e pela supresso
das liberdades pblicas. [...] O indivduo  secundrio 
diante do Estado. [...] 
Quando uma economia populista vai mal, com inflao e desemprego,
surge o desejo de que os fascistas assumam o poder, 
"restaurando a ordem e promovendo o desenvolvimento econmico"? Arre,
quase sempre a resposta : sim. 
Mais entristecedor  testemunhar o sucesso econmico ocasional de tais
regimes ditatoriais - coisa de curto prazo. Assim, 
nos anos 70 o regime militar brasileiro pode ter batido duro nos
professores, nos intelectuais e na imprensa livre. Mas 
como as pessoas diziam no tempo de Mussolini: "Pelo menos os trens
andam na hora" Quando se olha para o Anurio 
estatstico da ONU, verifica-se que nos ltimos anos o Brasil foi um
verdadeiro Japo na Amrica Latina, com taxas 
mdias anuais de 10% de crescimento do PNB. 
A histria mostra que  raro os despotismos benevolentes persistirem 
na benevolncia, e quase nunca conseguem manter-se eficientes. [...j
Na vida real, o fascismo  incapaz de realizar at 
mesmo seu prprio projeto.35 
Desde 1952 Economics era publicado no Brasil pela editora Agir, de
propriedade de Cndido Guinle de Paula Machado, 
amigo de Golbery do tempo do iis e do SNI. Vendera 100 mil
exemplares, e havia pouco o Ministrio da Educao co-
patrocinara a stima edio. A Agir informou  editora americana de
Samuelson que considerava as observaes do 
professor "preconceituosas" e "ofensivas" No havia jogo. Cortar no
seria 
35 Paul A. Samuelson, Economics, pp. 870-1. 
266 
A DITADURA DERROTADA 
suficiente. Ou ele reescrevia o texto, ou a edio seria recusada. A
Agir 
no a publicaria.36 
Noutra trincheira, Cndido Guinle mobilizou sua academia. O ex-
ministro da Fazenda Eugnio 
Gudin escreveu a Samuelson: "Ns temos um Congresso; os juzes so
independentes e as 
restries s liberdades que se deram de 1967 a 1969 so agora coisa
do passado"37 
Guinle levou a questo a Golbery, informando-o de que j haviam pedido
ao professor Mano 
Henrique Simonsen, da Fundao Getulio Vargas, que reforasse a gesto
de Gudin. 
Golbery contou a Geisel: "Tem um trecho horroroso contra o Brasil.
[...] O perigo  o livro, a significao [...]. 
Toda universidade tem, todo mundo estuda por aquele livro. Eles esto
querendo  no fazer a edio, mas 
tirar o trecho tambm no resolve. Eles querem que o homem
reconsidere'38 
Decidiu ampliar a ofensiva, pedindo ao economista Roberto Campos,
ministro do Planejamento no governo 
Castello Branco, mais presso sobre Samuelson.39 No precisava. O
Prmio Nobel capitulara diante da ameaa 
da Agir, antes de receber a carta de Gudin. No mexeria na verso
original, mas deixava seus censores 
brasileiros  vontade: "H 25 anos mantenho a prtica de no me
considerar responsvel pelas tradues. 
Assim, quando o livro foi traduzido em certos pases esquerdistas,
perguntaram-me se objetaria a omisso de 
trechos que seriam ofensivos aos governos. Minha resposta foi que no
me cabia recusar ou policiar a 
supresso de pginas ou mesmo captulos que tratavam de comparaes
entre sistemas econmicos"40 
Samuelson props a supresso da referncia  "Junta", reescreveu o
pargrafo seguinte, e sugeriu 
que a nova verso fosse transferida para longe da discusso do
fascismo. A edio brasileira diria: 
36 Carta de Ernst Fromm, diretor da editora Agir, a William Orr, da
McGraw Hili, 8 de novembro de 1973. APGCS/HF. 
37 Carta de Eugnio Gudin a Paul Samuelson, de 14 de novembro de 1973.
APGCS/HF. 
38 Conversa de Golbery com Geisel, 16 de novembro de 1973. APGCS/HF. 
39 Dirio de Heitor Ferreira, 25 de novembro de 1973. 
40 Carta de Paul Samuelson a Eugnio Gudin, de 26 de novembro de 1973.
APGCS/HF. 
r 
A GRANDE ENCRENCA 267 
 preciso encarar a realidade de que os sistemas de governo a que
muitos intelectuais se opem podem conseguir um 
crescimento razovel, muitas vezes por curto prazo. Assim, a
militncia sindical e as agitaes revolucionrias podem se 
tornar adversrias do investimento privado e da eficincia do mercado.
A preocupao com uma distribuio igualitria da 
renda pode custar um crescimento do bolo como um todo, resultando numa
perda do pedao desse bolo para os operrios e 
lavradores. Assim, quando se v o Anurio Estatstico da ONU,
verifica-se que o Brasil foi um verdadeiro Japo da 
Amrica Latina, com taxas mdias anuais de 10% de crescimento do PNB.
Os defensores desse sistema podem argumentar 
que no se teria conseguido isso no ambiente de desordem das dcadas
anteriores.41 
Sumira a frase premonitria: "Mais entristecedor  testemunhar o 
sucesso econmico ocasional de tais regimes ditatoriais - coisa de
curto prazo".42 
Cndido Guinle festejou a vitria num bilhete a Golbery pedindo- lhe
que desse um telefonema a Gudin, "pois ele ficaria 
satisfeito'43 Ficou to satisfeito que, dias depois, almoou com o
general e recomendou-lhe nomes para o Ministrio da 
Fazenda e para a presidncia do Banco Central.44 Entre eles, o de
Roberto Campos, conscrito tardio  brigada que 
pressionou Samuelson. Sua carta seguiu um ms aps a capitulao do
professor. 
Campos escreveu a Samuelson: "Podem ter ocorrido casos isolados 
de brutalidade policial ou de tortura. Coisa deplorvel e vergonhosa. 
41 Carta de Paul Samuelson a Eugnio Gudin, de 26 de novembro de 1973.
APGCS/HF. 
42 Nove anos depois dessa controvrsia o Brasil foi  bancarrota. Os
estudantes americanos haviam sido advertidos pela 9S 
edio do Econo mies. A editora Agir, Eugnio Gudin e Roberto Campos,
prncipes do conservadorismo econmico 
brasileiro, conseguiram, com a ajuda de um Prmio Nobel de Economia,
que os brasileiros no recebessem essa previso de 
Samuelson. 
43 Carto de Cndido Guinle de Paula Machado a Golbery, de 3 de
dezembro de 1973. APGCS/HF. 
44 Conversa de Golbery com Heitor Ferreira, narrando-lhe o almoo, 19
de dezembro de 1973. APGCS/HF. Gudin ofereceu o 
nome de Casem iro Ribeiro para a presidncia do Banco Central, alm de
elogiar Roberto Campos, Octvio Gouva de 
Bulhes e Mano Henrique Simonsen. 
268 
A DITADURA DERROTADA 
Mas seria injusto confundir acidentes de brutalidade policial com uma 
poltica deliberada de represso policial e punies fsicas".45 
(Entre o incio de novembro de 1973, quando comeou a controvrsia com
Samuelson, e o fim de dezembro, 
quando Campos mandou sua carta, os servios de represso mataram nove
pessoas nas cidades. Dois exilados 
foram seqestrados em Buenos Aires, e um casal de militantes da ALN
assassinado com quatro tiros na 
cabea no aparelho do DOl paulista. No Araguaia, dois dias antes da
carta de Campos a Samuelson, trs 
patrulhas do Exrcito surpreenderam a comisso militar da guerrilha do
rc do B e mataram quatro de seus 
combatentes. Inaugurara-se uma perseguio aos sobreviventes na qual a
tropa estava formalmente instruda 
para no manter prisioneiros. E prisioneiros no foram mantidos.)46 
Campos falava tambm em "censura voluntria da imprensa". Foram
dezoito as proibies 
expedidas pela Censura durante a ofensiva sobre Samuelson.47
Voluntria era a censura a que 
Roberto Campos se submetia. Colaborador d'o Globo e d'o Estado de S.
Paulo, escreveu em 
janeiro um artigo sobre o choque do petrleo, sugerindo que se abrisse
o territrio brasileiro  
prospeco por companhias estrangeiras. Acautelara-se apresentando uma
cpia a Golbery, que a 
engavetou. Campos insistiu, e o general encerrou a questo. O artigo
no deveria ser publicado, e 
ele no deveria publicar coisa alguma antes da posse de Geisel. 
Conservador audaz, adversrio da megalomania do Milagre, do monoplio
estatal do petrleo e de 
toda a mitologia amaznica, Roberto Campos deixara o Ministrio do
Planejamento em 1967 e 
passara por fugaz e fracassada experincia como banqueiro. Seu
cosmopolitismo valorizava-o para 
consumo externo, porm depreciava-o nas competies internas. Golbery
justificava o silncio 
obsequioso que lhe impunha: "Qualquer coisa, partindo dele, ser
inoportuna. Se ele prope uma 
45 Carta de Roberto Campos a Paul Samuelson, 27 de dezembro de 1973.
APGCS/HF. 
46 Para o casal de militantes da ALN, documento entregue em novembro
de 1991 pelo ex-sargento 
Marival Chaves Dias do Canto, do DO paulista, a Veja- 18 de novembro
de 1992, pp. 20-32. A guerrilha do Araguaia est contada em A ditadura 
escancarada (So Paulo: Companhia das Letras, 2002). 
47 Paolo Marconi, A censura poltica na imprensa brasileira-
1968/1978, pp. 268- 70. 
A GRANDE ENCRENCA 269 
idia boa, vai queim-la. Se partir dele, vai ser ruim.  uma
tristeza, mas  a verdade'48 Por conta do mau-olhado 
que Campos carregava, Geisel evitara cumpriment-lo em pblico durante
a cerimnia de traslado dos restos do 
marechal Castello Branco do Rio de Janeiro para um mausolu em
Fortaleza.49 
Verdadeira sinuca. A economia internacional prenunciava dificuldades
para o novo governo, e faltava espao 
poltico tanto para a crtica liberal de Paul Samuelson como para a
militncia conservadora de Roberto Campos. 
Os exerccios de triunfalismo haviam-se esgotado como recurso poltico
capaz de dar ao regime a legitimidade 
pelo desempenho. 
Como dizia o poeta Cacaso: 
Ficou moderno o Brasil 
ficou moderno o milagre: 
a gua j no vira vinho, 
vira direto vinagre.50 
O Milagre Brasileiro chamara-se Delfim Netto. Em quatro anos sara
dezoito vezes na capa da revista Veja, uma 
na edio latino-americana da Newsweek e outra, como Super-Homem, na
Institutional Investor.5' Era o 
principal personagem do governo nas primeiras pginas dos jornais.
Caso raro de ministro recebido pelo 
presidente Richard Nixon na Casa Branca. Nos seus sete anos de
mandarinato (1967-73) o Produto Interno 
Bruto crescera 85% e a renda per capita, 62%.52 Ao santo do Milagre, o
futuro governo reservava um lugar no 
inferno. 
48 Telefonema do coronel Newton Leito a Golbery, 8 de janeiro de
1974. APGCS/HF. 
49 Nota manuscrita intitulada Figueiredo e Medeiros com Golbery,
datada de 21 de julho de 1972. 
APGCS/HF. 
50 Antonio Carlos de Brito, "Jogos f1orais' em Lero-lero (1967-1 985),
p. 157. 
51 "The Brazilian Miracle", Newsweek, 19 de maro de 1973. 
52 Jeffry A. Frieden, Debt, development, & democracy, p. 117. 
270 
A DITADURA DERROTADA 
O Gordo era antes de tudo troncudo. O trax de cantor de pera
espetado em pernas curtas dava-lhe uma 
aparncia obesa mesmo quando conseguia derrubar vinte dos 105 quilos
que carregava em 1,60 m de chassis. 
Era um carcamano do Cambuci. Seu av, Antonio Delfini, pedreiro
calabrs, desembarcara com a mulher em 
So Paulo aos dezenove anos, em 1888. Trazido por uma companhia de
colonizao que fornecia mo-de- obra 
s fazendas abandonadas pela escravaria, escondeu-se nas vielas da
cidade e nela viveu uma modesta 
existncia. O luxo da casa era um rdio Cacique amarrado a trinta
metros de antena, capaz de receber as notcias 
das tropas de Mussolini na guerra africana. Orfo de pai aos seis
anos, Delfim foi educado pela me, Maria. 
Dela jamais esqueceu as jornadas de costura para a vizinhana e a
crena de que os filhos s teriam futuro se 
estudassem. As ms notas eram cobradas com a mo forte da senhora.
Comeara a vida como contnuo da 
Gessy aos catorze anos, e subira a escriturrio de uma oficina
mecnica do Departamento de Estradas de 
Rodagem. Na infncia, a maior autoridade em seu crculo de relaes
foi um tio policial, lotado no DOPS.53 Na 
adolescncia namorara o socialismo campestre de Monteiro Lobato.54
Catedrtico de Economia Brasileira da 
Faculdade de Cincias Econmicas da Universidade de So Paulo aos
trinta anos, ministro da Fazenda aos 38, 
aos 44 exercia no cargo um poder sem paralelo na histria nacional.
Nenhum ministro concentrou, como ele, 
poder e sucesso. 
Na manh de 31 de maro de 1964, quando as emissoras de rdio
noticiavam o levante do general Mouro 
Filho, ele fazia num Simca o trajeto habitual de sua casa para a usi.
Fazia bicos na Confederao Nacional da 
Indstria e na Associao Comercial de So Paulo. Ganhara algum
dinheiro com pequenos estudos para o 
ws.55 Chegara ao ministrio depois de uma curta passagem pela
Secretaria da Fazenda de So Paulo. Nunca 
tivera dvidas a respeito da base sobre a qual edificara seu xito: 
53 Luiz Apolnio, escriturario do DOPS, era casado com uma irm da me
de Delfim. Delfim Netto, dezembro de 2000, e Percival de Souza, Autpsia
do 
medo, p. 373. Apolnio era um destacado funcionrio da delegacia,
autor de dois livros: Mitos e tticas comunistas, de 1949, e Manual 
depolcio poltica e social, de 1954. 
54 Entrevista de Delfim Netto, em Histrias do poder, organizado por
Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e Nelma Salomo, vol. 3: Vises
do 
Executivo, p. 179. 
55 Delfim Netto, maro de 1988. 
A GRANDE ENCRENCA 271 
"Quando eu entrei no ministrio o servio j estava feito. O professor
Bulhes 56 e o Roberto Campos tinham 
terminado a obra de salsicharia"57 Haviam recebido o Tesouro com 300
milhes de dlares em contas 
atrasadas e entregaram-no com 400 milhes de dlares de reservas
cambiais. Baixaram a inflao de 90% para 
25% ao ano e reduziram o dficit federal de 4,2% do PIB para 1,1%.58 O
conjunto da economia, que em 1963 
crescera apenas 1,6%, expandira-se 5,1% em 
Desconhecido, solteiro e estrbico, Delfim falava rpido demais, com o
marcante sotaque dos italianos de So 
Paulo. A mulher do marechal Costa e Silva chamava-o Gordinho.6
Parecera um ministro fugaz, daqueles 
que surgem sem que se saiba como e somem sem que valha a pena
perguntar por qu. "Eu no conhecia 
ningum, e aquela burguesia carioca no aceitava um ministro paulista.
Como eu era solteiro, no tinha 
conversa. Tinha que ser fresco. Ento eu me vestia de terno preto,
camisa branca e gravata preta. Era fantasia 
de vivo, para parecer o mais srio possvel' comentaria trinta anos
mais tarde, de terno preto, camisa branca e 
gravata azul.61 
Dormia quatro horas por noite. Abria o escritrio do Ministrio da
Fazenda s sete da manh e dali raramente 
saa antes das sete da noite. Dividia-se entre Braslia, onde estava o
poder, So Paulo, onde se firmava a base 
poltica de uma nova plutocracia nacional, e o Rio de Janeiro, onde se
esfarelava a burguesia do Estado Novo. 
Era mais acessvel na pequena mesa do fundo do restaurante Le Bistr,
em Copacabana, do que no gabinete 
mussoliniano do seu ministrio. Acumulou poder pelo desempenho e pela
pertincia com que articulou uma 
rede de lealdades na administrao. Controlava diretamente o Banco
Central, a Caixa Econmica e o Banco do
Brasil, geria as grandes caixas dos fundos e dos incentivos. Numa
56 Octvio Gouva de Bulhes, ministro da Fazenda de Castello Branco.
57 Delfim Netto, novembro de 1988.
58 Rubens Penha Cysne, "A economia brasileira no perodo militar", em
21 anos de regime militar, organizado por
Glucio Ary Dilion Soares e Maria Celina d'Araujo, p. 245.
59 Donald V. Coes, Macroeconomic crises, policies, and growth in
Brazil - 1964 -90, p. 14.
60 Informao dada por Geisel a Heitor Ferreira, em Dirio de Heitor
Ferreira, 27 de julho de 1972.
61 Delfim Netto, novembro de 1998.
272 A DITADURA DERROTADA
disputa pelo comando da poltica cafeeira, defenestrara o ministro
da Indstria e Comrcio e, numa
controvrsia em torno do preo da carne, derrubara o ministro da
Agricultura. Operava estendendo linhas de
amizade e gratido na burocracia, no empresariado e na imprensa. Seu
curso era bvio: o governo de So Paulo
em 1974, a Presidncia da Repblica em 79.
Suas relaes com Geisel eram nulas. Nunca tinham se visto.62
Limitavam-se a cortesias e atritos burocrticos.
Delfim sabia que contrariara o presidente da Petrobrs em questes
tributrias. Alm disso, em outubro de
1972, ofendera-o defendendo a abertura do mercado brasileiro para
empresas estrangeiras de prospeco de
petrleo. Delfim e Geisel desentenderam-se novamente numa disputa
pelos preos da borracha sinttica. O 
ministro no permitia que eles subissem, at que o general ameaou
mandar-lhe a chave da fbrica e decidiu 
aumentar os preos sem ouvi-lo.63 Nada os separava, nada os
aproximava. Delfim no tinha - nem lanara - 
pontes em direo  Candelria. O general no sabia o que fazer com
ele, e via no distanciamento uma perigosa 
soberba. 64 Era forte demais para ser mantido no ministrio como
smbolo de continuidade, e fraco para impor a 
prpria permanncia. At 1971, Geisel admitia sem entusiasmo a
hiptese de escolh-lo para governador de 
So Paulo, mas reclamava de seu desembarao e notoriedade.65 A
partir do incio de maro de 1972 a 
Candelria comeou a receber sinais de que o ministro da Fazenda
trabalhava a substituio de Medici pelo 
chefe do Gabinete Civil) o professor Joo Leito de Abreu, mesmo que
para isso fosse necessrio prorrogar o 
mandato presidencial. Numa daquelas situaes que s as ditaduras
produzem, durante dois anos coexistiram 
dois Delfins. Um parecia carro de prstito, festejado e glorioso. O
outro, carreta de condenado. 
62 Geisel viu Delfim Netto pela primeira vez quando, j indicado
para a Presidncia, visitou-o 
em 1973. Ernesto Geisel, janeiro de 1975. 
63 Para o preo da borracha, Ernesto Geisel, dezembro de 1995. 
64 Ernesto Geisel, maro de 1994. Para as divergncias tributrias,
Dirio de Heitor Ferreiro, 21 de 
fevereiro de 1972. 
65 Geisel a Heitor Ferreira, em Dirio de Heitor Ferreira, 16 de
maro de 1972. 
A GRANDE ENCRENCA 273 
Do alto da alegoria proclamava a inexorabilidade do Milagre. Diante
do primeiro pulo do preo do petrleo, assegurava: "Se 
o progresso brasileiro se estagnasse por trs anos, ainda assim
pagaramos nossa dvida externa calmamente'66 Tornara-se 
uma usina de sucessos. Previa um crescimento de 10% para 1973, e no
incio do ano, pela primeira e nica vez no aps-
guerra, o cruzeiro valorizara-se em relao ao dlar. De Milo, a
Fiat informava que instalaria uma fbrica de automveis 
em Minas Gerais. Hermann Abs, ex-presidente do Deutsche Bank,
sugerira que a Alemanha precisava de um Delfim.67 
Milton Friedman escrevia que as taxas de crescimento "justificavam a
expresso 'Milagre Brasileiro"68 Medici chegara a 
duvidar que Geisel o substitusse.69 
O desmanche de Delfim teve no general Joo Figueiredo um precursor.
Haviam sido colegas no governo de So Paulo, 
quando um cuidava da Fazenda e o outro da Fora Pblica. O chefe do
Gabinete Militar ouvia-lhe o telefone. Acusava-o de 
manipular concorrncias para beneficiar a empreiteira Camargo
Corra. Combatia-o sobretudo pela obstinao com que se 
fixara na meta dos 12% de inflao para 1973.70 Afastar-se do Gordo
tornou-se meio eficaz de manter-se ancorado no 
regime. Mrio Andreazza, ministro dos Transportes, parceiro de
Delfim nos projetos do "Brasil Grande' confessou a 
Geisel que conseguira tantos recursos porque "conheo os podres do
Gordo"71 O plutocrata Augusto Trajano de 
66 Jornal do Brasil, 17 de outubro de 1973, 12 caderno, p. 18. 
67 Conversa de Golbery com Geisel e Heitor Ferreira, 22 de novembro
de 1973. APGCS/HF. 
68 Newsweek, 21 de janeiro de 1974, citado em Milton e Rose D.
Friedman, Two luckypeople, p. 426. 
69 Observao feita por Medici ao general Figueiredo e contada por
ele a Heitor Ferre ira, em Dirio 
de Heitor Ferreira, 11 de junho de 1973. 
70 Para o favorecimento da Camargo Corra, conversa de Figueiredo
com Geisel, 7 de julho de 
1973, em Dirio de Heitor Ferreira dessa data, e telefonema de
Figueiredo a Golbery, 18 de fevereiro 
de 1974, APGcs/HF. Nele, Figueiredo conta: "Eu tive um documento que
eu levei para o presidente h uns meses atrs, do 
Delfim, de que antes da concorrncia, aquela de gua Vermelha, ele
afirmava a um grupo francs que queria entrar no 
financiamento de que a firma construtora seria a 
Camargo Corra. Antes da concorrncia. Ento est ai, na cara. 
Camargo Corra,  Bradesco.  
tudo a mesma panela' Golbery pediu-lhe que juntasse todas aquelas
informaes "numa pastinha separada, ns precisamos 
ter uma pastinha' 
71 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego,
narrando o encontro que tivera 
com Andreazza, em Dirio de Heitor Ferreira, 22 de outubro de 1973. 
274 A DITADURA DERROTADA 
Azevedo Antunes assegurava a Golbery que o ministro da Fazenda
trapaceava nos negcios com 
carne, protegendo um frigorfico.72 Nenhum deles atacou Delfim em
pblico, nem enquanto esteve 
no governo, nem depois. Tambm no ofereceram prova de suas
acusaes ou se dispuseram a 
document-las.73 
Era Golbery quem ia fundo na sua crtica ao condestvel do Milagre:
"O Gordo  um ditador. No 
tem escrpulo em usar o poder. O Gordo faz misrias. Pega o sujeito,
pe na rua da amargura. Ele 
no tem iluso, para o bem ou para o mal, para proteger ou para
massacrar. Se ele amanh fosse 
presidente da Repblica, vamos ver o que seria [...j. Para ele no
ser, ele no pode ser governador 
de So Paulo [...j paulista e civil e ditador".74 
No andor, Delfim e o regime orgulhavam-se de ter baixado a inflao
para 15,5%. No desmanche, o professor 
Eugnio Gudin, nave-me do conservadorismo econmico, dizia a
Golbery que o ministro manipulava os 
preos das cestas de alimentos para o clculo do custo de vida. Quem
fazia as contas era a Fundao Getulio 
Vargas, e quem tinha assento no seu Conselho era Gudin, no Delfim,
mas isso lhe parecia secundrio: "Ns 
no podemos resistir a certas coisas. O homem  diablico. O homem 
diablico. Ns sabemos que ele sabe 
exatamente quais so os gneros que entram na cesta. Ele chama os
donos dos supermercados e diz: 'Esses 
gneros os senhores vo vender pela tabela ou abaixo da tabela. Os
outros, vocs vendam por fora".75 O 
ministro explicaria de outra maneira. Se o arroz estava caro no Rio
(cidade cujos preos determinavam o ndice) 
e barato em Minas, ele providenciava a transferncia 
72 Conversa de Golbery com Geisel, narrando-lhe um encontro com
Augusto Trajano de Azevedo 
Antunes, cerca de 15 de novembro de 1973. APGCS/HF. 
73 Todos tiveram com ele boas relaes. Em 1979 Golbery foi o orador
da cerimnia da ida de 
Delfim para o Ministrio do Planejamento. Em 1982, Antunes negociou
com Delfim a passagem 
do Projeto Jari para um grupo de empresrios nacionais. Dois anos
depois de sua reunio com 
Geisel, Andreazza encontrou-se com Delfim para articular a
candidatura do general Figueiredo  
Presidncia da Repblica. No governo de Figueiredo, Golbery,
Andreazza e Delfim viriam a ser 
colegas de ministrio. 
74 Conversa de Golbery com Geisel, cerca de 15 de novembro de 1973.
APGCS/HF. 
75 Conversa de Golbery com Geisel, Heitor Ferreira e Moraes Rego,
narrando seu almoo com 
Eugnio Gudin, 21 de dezembro de 1973. APGCS/HF. 
A GRANIJE ENCRENCA 275 
de estoques mineiros para o comrcio carioca.76 Nas estatsticas da
Fundao, em dezembro a carne de primeira estava a 
Cr$ 6,60, mas custava Cr$ 14,00 nos aougues do Rio ou Cr$ 15,00 nos
de So Bernardo do Campo. 77 Numa indicao da 
extenso do xito da poltica de desmobilizao da sociedade, uma
comandita de hierarcas e bares da academia oficialista 
fraudou o ndice econmico de maior relevncia social do pas com a
naturalidade de quem atrasa um relgio. (A FGV 
corrigiu o embuste em 1977, transformando os 15,5% de 73 em 20,5%.)
A Agncia Rio do SNI calculara o aumento do 
custo de vida na cidade em 32%, e seu chefe fizera saber a Golbery
que confrontara Delfim com essa estatstica.78 
Orlando Geisel fora afastado numa conversa cruel porm amiga. O
Gordo foi para a mquina de moer carne. Reclamando 
dos subsdios que a manuteno do Milagre cobrava  economia, Geisel
fechara o caso: "Ele est frito comigo".79 Mant-lo 
na Fazenda, nem pensar. Agricultura? "S se for para jejuar'
respondia Golbery.8 Depois de uma de suas longas 
conversas com Geisel, ele recomendou a Heitor Ferreira: "Dossi do
Delfim Netto no SNI. Selecionar antes".8' Heitor 
anotou no cartapcio de Temas para Ao: "Ver declarao de
rendimentos de Delfim Netto".82 
O petrleo azedara o Milagre. Seu mago virava vinagre. 
76 Antonio Delfim Netto, maio de 2003. 
77 Nota Apresentada pela FGV, entregue por Mano Henrique Simonsen a
Golbery em abril de 
1974. APGCS/HF. Tribuna Metalrgica de outubro-novembro de t973, p.
8. 
78 Telefonema de Adolpho Murgel, chefe da Agncia Rio do SNT, a
Golbery, 24 de janeiro de 1974. 
APGCS/HF. 
79 Conversa de Geisel com Golbery, 10 de janeiro de t974. APGCS/HF. 
80 Bilhete manuscrito de Heitor Ferreira, com resposta de Golbery,
sem data. APGCS/HF. 
81 Bilhete de Golbery a Heitor ferreira, sem data. APGCS/HF. 
82 Mao de 24 folhas manuscritas de Heitor Ferreira, datado de
dezembro de 1973. APG(S/HF. 
O PODER 
n 
A equipe 
No final de 1973 a importncia de uma pessoa podia ser medida pelo
desembarao com que dava palpites sobre 
o ministrio de Geisel. Quem arriscava a continuao de Delfim Netto
traa incompreenso do presente. Se 
arriscasse um retorno de Roberto Campos, traa desconhecimento do
passado. Bem informado, s quem sabia 
pronunciar Shigeaki Ueki.1 O diretor-financeiro da Petrobrs, 38
anos, filho de japoneses e at pouco tempo um 
annimo executivo da fbrica de plsticos Cevekol, seria ministro.
Do qu, nem Geisel imaginava. Quem 
tentava descobrir um nome para as Comunicaes era um nefito. O
general no esquecera a competncia e 
integridade do comandante Euclides Quandt de Oliveira, genro de Goes
Monteiro, o condestvel do Estado 
Novo, diretor da Siemens, seu assistente no Gabinete Militar de
Castello.2 Quem conhecesse os nomes dos 
ministros do Exrcito ou da Justia ainda em 1973 seria um simples
chutador, pois nem ele os sabia. 
Os vinte ministros foram escolhidos em 67 dias. Heitor Ferreira
manteve um minucioso registro 
desse processo.3 Comeou a colecionar hipteses em maio de 1972.
Bastava que um nome casse 
nas ro 
Num relatrio confidencial a Golbery, datado de 21 de abril de 1974,
o embaixador Roberto 
Campos, que conhecia Ueki havia tempo, grafaria "Shigeato' APGCSIHF.
2 Em maro de 1972 Geisel se referia a Quandt como provvel ministro
das Comunicaes. Dirio 
de Heitor Ferreira, 26 de maro de 1972. 
3 Os ministros eram dezesseis. Os chefes dos gabinetes Civil e
Militar, do SNI e do Estado-Maior 
das Foras Armadas eram membros do gabinete, do ponto de vista do
cerimonial. 
280 A DITADURA DERROTADA 
das de conversas do Jardim Botnico e do largo da Misericrdia para
que o capturasse. As listas renovavam-se, e de 
quando em quando o prprio Geisel as consultava. Alguns nomes batiam
e ficavam, outros passavam de raspo. 
Circularam 124 nomes. Podiam ser divididos em dois blocos. Num, os
41 militares que disputavam os cinco ministrios 
privativos da caserna. 4 Noutro, os 83 que rondaram as dezessete
cadeiras civis. Nesse grupo estampou-se um retrato da 
gestao da elite do poder da poca. Eram apenas dezesseis aqueles
que deviam renome pblico a atividades privadas. 5 Os 
polticos eram quinze.6 Os demais eram pessoas cujo prestgio fora
adquirido em funes burocrticas, de carreira ou 
fortuitas. A burocracia impulsionara seis em cada dez nomes da
lista. 
Como todos os presidentes antes e depois dele, Geisel comeou a
formar seu ministrio na suposio de que tinha grande 
liberdade de escolha e teria calma para analisar detalhadamente cada
nome, sobretudo nas pastas civis, onde a indicao 
estava livre dos constrangimentos dos almanaques militares. Nenhum
governante brasileiro disps de tanto tempo e 
liberdade quanto ele. Ainda assim, escolheu dois ministros que no
conhecia. Outros dois, conhecia, mas no lhe ocorrera 
escolh-los. A um, conhecia, mas queria-o em outra pasta. Houve
mesmo um caso em que, pretendendo nomear um general 
para trs ministrios, no conseguiu convid-lo. Geisel pensou
seriamente em colocar o general Euler Bentes Monteiro, a 
quem admirava, nos Transpor- 
4 Eram privativos, de fato, os ministrios da Marinha, do Exrcito e
da Aeronutica, bem como as chefias do Gabinete 
Militar e do Servio Nacional de Informaes. O nmero elevado de
nomes deveu-se ao excesso dos que foram 
mencionados para a chefia do Gabinete Militar. 
5 Eram os seguintes: Mano Henrique Simonsen (scio do Banco Bozano
Simonsen), Luiz Fernando Cirne Lima (fazendeiro 
gacho), Flexa Ribeiro (dono do colgio Andrews, no Rio de Janeiro),
Luiz Gonzaga do Nascimento e Silva e Jos Lus 
Bulhes Pedreira (advogados), Lafayette Prado (empreiteiro), Severo
Gomes (industrial), Marclio Marques Moreira 
(diretor do Unibanco), Jos Carlos Figueiredo Ferraz (empreiteiro),
Jos Mindlin (industrial), Hlio Beltro (diretor das 
lojas Mesbia), Og Leme (consultor), ngelo Calmon (dono do Banco
Econmico), Marinho Nunes (diretor da Icomi), Jorge 
Oscar de Mello Flres (diretor do Banco Lar Brasileiro) e Paulo
Maluf (dono da Eucatex). 
6 A saber: Ney Braga, Aureliano Chaves, Marco Maciel, Petrnio
Portella, Antnio Carlos Konder Reis, Armando Falco,
Clio Borja, Alacid Nunes, Nina Ribeiro, Antonio Carlos Magalhes,
Luiz Viana Filho, Arnaldo Prieto, Paulino Ccero, 
Accioly Filho e Bilac Pinto. 
A EQUIPE 281 
tes, no Interior e, mais tarde, na Previdncia. Acabou no o
chamando 
para nada.7 
A TROPA 
As cadeiras militares tiveram graus variveis de dificuldades. A
permanncia do brigadeiro Joelmir de Araripe Macedo na 
Aeronutica foi uma barbada. Amigo de Geisel e seu colega de turma,
tratava-o por "voc" Estivera praticamente escolhido 
para a Vice-Presidncia em junho, mas se percebeu que a sada dele
do ministrio seria o estopim de um conflito na rea. 
Continuaria ministro.8 Estava no cargo desde 1971, quando Medici o
tirara do pijama. Liquidara em algumas semanas o 
ncleo de insubordinao que controlava a Fora desde a crise do
Para-Sar, em 1968. A escolha do almirante Geraldo de 
Azevedo Henning, um oficial imponente, recomendado pelos poucos
amigos de Geisel na Marinha, foi fcil.9 
O Milagre triplicara as despesas militares do governo, levando-as
para 1,66 bilho de dlares em 1973.10 Entre 1968 e 
1971 as despesas com pessoal militar aumentaram 63,7%, enquanto o
pessoal civil sofrera uma contrao de 13%.h1 Essa 
expanso fizera estragos no Exrcito, na FAB e na Marinha. Uma
adquirira dezesseis jatos Mirage sem o material de terra 
necessrio para apoi-los.'2 A outra entrara num programa de
reequipa7 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de maro de 1972,26 
de junho e 28 de julho de 1973, 9 e 23 de janeiro de 1974. 
8 A primeira referncia de Geisel  permanncia de Araripe est no
Dirio de Heitor Ferreira, 12 de junho de 1973. Para a 
malograda ascenso  Vice-Presidncia, idem, 11, 12, 13, 20 e 24 de
junho de 1973. 
9 A primeira referncia ao almirante Henning est na lista preparada
por Heitor Ferreira em janeiro de 1973. 
10 Maria Helena Moreira Alves, Estado e oposio no Brasil
(1964-1984), p. 176, citando The MiiitaryBalance, do 
International Institute for Strategic Studies (1963-1980/81), Armed
Forces ofthe World: 
A Reference Handbook (1966, 1973), e o Alnianac of World Military
Power (1969, 1971, 1972, 1973). 11 Luciano Martins, 
Estado capitalista e burocracia no Brasil ps 64, p. 246. 
12 Para a compra dos avies, The New York Tirnes, 7 de junho de
1970. Para a falta de equipamento, conversa do marechal 
Cordeiro de Farias com o ministro Joelmir de Araripe, narrada por
Cordeiro a Heitor Ferreira, em Dirio de Heitor Ferreira, 
28 de janeiro de 1972. 
282 A DITADURA DERROTADA 
mento que custaria 1 bilho de dlares, comprometendo-lhe o
oramento por quinze anos.13 De sete submarinos 
comprados aos Estados Unidos, seis estavam enguiados. Alguns deles
iam para o ferro-velho quando foram vendidos por 
150 mil dlares cada. Para reform-los, pagaram-se 7,5 milhes de
dlares. Um navio de desembarque de carros-de-combate 
chegara do Vietn com a rampa quebrada. Havia quatro
contratorpedeiros mancos. Na Armada o cruzador Tamandar 
no funcionava, e o porta-avies Minas Gerais, tendo navegado dois
dias, passaria todo o ano seguinte no cais.'4 O 
chefe do Estado-Maior fazia saber que a situao era
"catastrfica".15 
O n do Exrcito fora desatado na penosa degola de Orlando Geisel,
mas faltava escolher o substituto. Os generais de 
quatro estrelas eram treze. No restavam sobreviventes da anarquia
de 1969, quando um sacro colgio de generais elegeu 
Medici para o lugar do marechal Costa e Silva; eram todos coronis
de 64, ano da grande alavancagem de generais, quando 
os expurgos e a rotina produziram o dobro das vagas habituais.
Cadetes da primeira metade dos anos 30, poca em que o 
capito Ernesto Geisel j participara de uma revoluo e combatera
outras duas. Garotos, enfim. "Eu no tenho ministro do 
Exrcito", queixava-se o general.' 6 Sem muito entusiasmo, a escolha
ficou entre dois: Vicente de Paulo Dale Coutinho, 
chefe do Estado-Maior, e Sylvio Couto Coelho da Frota, comandante do
i Exrcito. 
Geisel ponderou as duas hipteses. Aos 64 anos, Dale Coutinho tinha
a vantagem de ser mais antigo, "mais meu amigo", e 
conhecer melhor o Exrcito. Temia que fosse pedincho e que a mulher
se deslum13 Duas folhas manuscritas do general 
Antonio Carlos Muricy a Geisel, sem data. Para o custo, 
Estado Atual dos Meios Flutuantes, 23 pginas, de 12 de janeiro de
1974. APGCS/HF. Para uma viso 
oficial do programa de reequipamento naval, A Marinha no Governo
Medici, conferncia do ministro Adalberto de Barros 
Nunes na Escola de Guerra Naval, 26 de outubro de 1973. APGCS/HF. 
14 Estado Atual dos Meios Flutuantes. APGCS/HF. 
15 Conversa de Geisel com Golbery, 12 de fevereiro de 1974, para os
quatro almirantes. Nota de 
Euclides Quandt de Oliveira a Golbery, narrando um encontro com o
almirante Jos de Carvalho Jordo, chefe do Estado-
Maior da Armada, de 5 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 
16 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego, 22
de novembro de 1974. 
APGCSIHF. 
E 
A EQUIPE 283 
brasse com o poder. Suas desvantagens eram trs: "toma trs usques
e fica dizendo besteira' era "revolucionrio novo' e 
havia o "fsico".17 Com menos de 1,60 m, safenado, tinha um
histrico de doenas pulmonares. O tronco mirrado dava-lhe 
aparncia infantil. O pai dele comandara a guarnio do Rio em 1930
e fora o ltimo baluarte da Repblica Velha. 
Moderado de 31 de maro, o filho tornara-se um radical de 12 de
abril. 
Chefiara com mo de ferro a represso poltica no Nordeste. L, no
dia 11 de maro de 1972, foi assassinado no DCI do 
Recife o gelogo Ezequias Bezerra da Rocha, de 27 anos. Emprestara o
carro a dois militantes do PCBR. Numa farsa 
semelhante  que o DCI do Rio de Janeiro montara, um ano antes, para
encobrir a morte de Rubens Paiva, o iv Exrcito 
informou que ele ludibriara a escolta que o levava a um "ponto" e
desaparecera num Volkswagen 
branco de placa desconhecida. Nada adiantou a mulher t-lo visto,
aps uma sesso de torturas. 
Ele lhe disse: "Estou bem, meu amor. Tenha calma" Muito menos
provar-se que no poderia ter 
fugido s nove e meia da noite se a documentao do iv Exrcito
dizia que fora preso trs horas e 
meia depois. O corpo de Ezequias, com marcas de torturas, foi achado
no dia 13 de maro, 
numa barragem, mas o IV Exrcito no permitiu o reconhecimento e
enterrou-o como se fosse outra pessoa.'8 
Coutinho obstruiu as investigaes, mesmo sabendo que Ezequias
morrera dentro do seu DOI.'9 O general tinha a simpatia 
de Orlando Geisel, seu padrinho de espada.2 
Frota era filho de um suboficial, casado em famlia modesta, pai
abnegado de um excepcional, suburbano do Graja. 
Orlando divertia-se dizendo que o general era da "turma do Pedro
II", referindo-se aos fatos de 
17 Para os usques, conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e
Heitor Ferreira, 22 de novembro de 1973. Para 
"revolucionrio novo" e o "fsico' treze folhas de bloco,
manuscritas por Heitor Ferreira, intituladas Resumo da Conversa 
com Figueiredo, datadas de 18 de janeiro de 1974, e conversa de
Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 9 de janeiro de 
1974. APGCS/HF. 
18 Para a histria de Ezequias, Desaparecidos polticos, organizado
por Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa, pp. 10 1-4. Ver 
tambm Pedido de Busca 96B-E/2, do iv Exrcito, em Projeto Brasil:
nunca mais, tomo v, vol. 4: Os mortos, p. 117. 
Ezequias Bezerra da Rocha foi julgado pelo 72 (:JM e absolvido.
Dossi dos mortos e desaparecidos polticos a partir de 1964, pp. 
290-2. Ver ainda Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos
deste solo, pp. 586-7. 
19 Conversa de Dale Coutinho com Geisel, 16 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF. 
20 Padrinho  o oficial que entrega ao coronel, em cerimnia
pblica, a espada de general. 
284 A DITADURA DERROTADA 
no ter cursado o Colgio Militar e de gostar de escrever cartas.
Ernesto via nele trs qualidades. "Mais soldado", 
"conviveria melhor" com ele e "se submeteria a uma certa ascendncia
minha". Os defeitos: "curriola' "fsico" e "mais 
curto de idias que o outro".21 Tinham-se desentendido havia pouco
tempo, quando Frota, no comando do i Exrcito, 
mandou a Geisel um oficio pedindo que lhe encaminhasse cerca de
vinte funcionrios da Petrobrs suspeitos de subverso. 
Ernesto tratou o assunto com o irmo, e um telefonema de Orlando
colocou a Petrobrs fora da jurisdio de Frota.22 
Golbery j o chamara de "irritadio" e em 1969 dissera ao embaixador
americano que ele via fantasmas na ameaa 
comunista.23 
Um pouco mais alto que Dale Coutinho, Frota carregava debaixo do
nariz adunco uma figura redonda que lembrava o 
Reizinho das revistas infantis. Sua fala fina incomodava. No era
propriamente um oficial de curriolas, mas o quarto 
cavalariano de um alto-comando cujos outros trs Geisel
estranhava.24 Tinha grande influncia na tropa do Rio de Janeiro, 
onde comandava desde 1969. No governo Castello, freqentara as
desordens da linha dura e, com Costa e Silva, ocupara a 
chefia do gabinete do ministro Lyra Tavares.25 Fora um dos
articuladores da criao do dE. Esses dois pecados valiam-lhe 
a antipatia de Orlando Geisel, que o achava "detalhista" mas
reconhecia: "Ser leal".26 Golbery achava-o chato.27 
Figueiredo, que o classificara como "burro de todo" porm "milico",
dissera a Geisel que, num governo sem problemas 
militares, o melhor seria 
21 Treze folhas de bloco, manuscritas por Heitor Ferreira,
intituladas Resumo da Conversa com 
Figueiredo, datadas de 18 de janeiro de 1974. Para as "idias" de
Frota, conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes 
Rego, 9 de janeiro de 1974. APGCS/HF. 
22 Para o caso dos funcionrios da Petrobrs, Ernesto Geisel,
fevereiro de 1995. Ver tambm Ernesto Geisel, organizado por Maria
Celina d'Araujo e 
Celso Castro, p. 241. 
23 Telegrama do embaixador John Tuthill ao Departamento de Estado,
de 3 de janeiro de 1969, 
p. Ai 1, narrando um encontro com Golbery, em O Estado de S. Paulo
de 13 de dezembro de 1998. 
24 Eram os generais Ramiro Tavares Gonalves, Oscar Luiz da Silva e
Antonio Jorge Corra. 
25 Bilhete de Heitor Ferreira a Geisel, de 20 de dezembro de 1974.
APGCS/HF. Heitor listou aquilo 
que seria "O Grupo dos Onze" da linha dura: Syseno Sarmento, Jayme
Portella, Ramiro Tavares 
Gonalves, Henrique Assumpo Cardoso, Clovis Bandeira Brasil,
Sylvio Frota, Affonso de AJbuquerque Lima, Lauro Alves Pinto, Cesar
Montagna de Souza, Arthur  Candal 
Fonseca e Joo DuIra de Castilho. Geisel anotou: "' 
26 Conversa de Geisel com Figueiredo, 9 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF. 
27 Conversa de Golbery com Geisel e Heitor Ferreira, 18 de dezembro
de 1973. APGCS/FSF. 
A EQUIPE 285 
Dale Coutinho: "Agora, se o senhor vai ter que partir para uma
guerra, 
uma luta dentro do troo, vai para o Frota"28 
As maneiras compostas e o temperamento retrado de Sylvio Frota no
comando do 1 Exrcito tornavam-no a anttese do 
general Humberto Mello, o senhor da tropa de So Paulo, ferrabrs da
represso poltica. O comandante do ii Exrcito 
estava rompido com o cardeal Arns. Frota tinha boas relaes com d.
Eugnio Sales:29 Mello podia ser visto no saguo de 
Congonhas de roupa esporte, com um revlver na cintura. 30 Frota,
quando era visto, vestia farda ou terno. Essas 
diferenas de forma no se refletiram nas atividades do DOI do i
Exrcito sob seu comando. Entre fevereiro de 1972 e 
maro de 74, enquanto mandou no pedao, morreram 29 pessoas no Rio
de Janeiro (em So Paulo foram 33). Duas jovens 
assassinadas em "tiroteios" tinham balas na cabea, outra foi
entregue  famlia com afundamento do crnio.31 Destruindo 
o PCBR, 
o DOl do Rio foi o nico a encenar confrontos carbonizando os
cadveres dos prisioneiros dentro de automveis: trs no 
Graja e quatro em Jacarepagu.32 Das 29 mortes, duas foram
reconhecidas como execues 
28 Nota manuscrita de Heitor Ferreira, intitulada Notas de Conversa
com Figueiredo, datada de 12 de setembro de 1972. 
(Geisel encontrou-se com Figueiredo no dia 5.) Relato de Geisel a
Golbery, em 14 de fevereiro de 1974, de uma conversa 
que tivera com Figueiredo no dia 9 de fevereiro de 
1974. APGCS/HF. 
29 O cardeal Saies disse ao autor em junho de 1987 que "o Frota foi
um dos que mais me ajudou' 
30 Ernesto Geisel, 10 de dezembro de 1973, em conversa com Heitor
Ferreira. APGCS/HF. 
31 Morreram com tiros na cabea Lgia Maria Salgado Nbrega e Maria
Regina Lobo Leite de Figueiredo, ambas da vAR-
Palmares. Autpsias em Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 4:
Os mortos, pp. 223 e 276. Aurora Maria Nascimento 
Furtado, presa depois de balear um detetive em Parada de Lucas, foi
entregue  famlia num caixo lacrado.A autpsia (na 
obra citada, p. 55) registra "dilacerao cerebral' 
32 Os carbonizados do Graja, em 29 de dezembro de 1972, foram
Fernando Fonseca, Lourdes Maria Pontes e Getlio de 
Oliveira Cabral, este com um tiro na cabea. Projeto Brasil: nunca
mais, tomo v, vol. 4: Os mortos, p. 147. Os de 
Jacarepagu foram Ransia Alves Rodrigues, Almir Custdio de Lima,
Vitorino Alves Moitinho e Ramires Maranho do 
Vale. Jacob Gorender, Combate nas trevas, pp. 226-7. Segundo a
Informao n9 2805/73 do i Exrcito, de i de novembro de 
1973, Ransia foi presa pelo 001 no dia 27 de outubro. Em Folha de
S.Paulo, 27 de maro de 1994. As fotografias do 
cadver, feitas pela percia, mostram que Ransia foi morta a tiros.
Relatrio da Comisso Externa Destinada a Atuar junto 
aos Familiares dos Mortos e Desaparecidos Polticos aps 1964, na
Localizao de seus Restos Mortais, publicado no Dirio 
do Congresso Nacional de 23 de maro de 1995, seo 1, p. 4171. 
286 A DITADURA DERROTADA 
por um oficial que acompanhava o aniquilamento das organizaes de
esquerda. Dois dos mortos foram a ex-
estudante de sociologia Isis Dias de Oliveira e o ex-estudante de
economia Paulo Csar Botelho Massa, da 
ALN. No dia 31 de maro de 1964 ele estivera no palcio Guanabara,
com o pai general.33 
Geisel pensava em reforar a equipe nomeando um competente chefe do
Estado-Maior do Exrcito. Sustentava 
que havia dez anos ele no tinha chefe competente.34 Sua preferncia
ia para o general Euler Bentes Monteiro. 
Era quase uma empolgao. Queixava-se da m qualidade dos
quatro-estrelas, mas nesse caso parecia 
convencido da qualidade de sua deciso: "O Euler como chefe do
Estado-Maior, meu caro, ele vai arrumar 
aquela casa".35 
Depois da conversa de fevereiro com Orlando Geisel, Ernesto
decidiu-se por Dale Coutinho. Optara pelo 
radical da preferncia do irmo. No fim de uma conversa de mais de
trs horas com Dale Coutinho, desistiu de 
Euler, dando o Estado-Maior a Frota. Optara pela cautela, evitando
impor o general moderno e escolhendo um 
dos mais antigos. Fez o contrrio do que pretendera. Como ele mesmo
dizia, "Exrcito que no faz guerra  um 
organismo tremendamente conservador":36 O inesperado choque com o
irmo levara-o a uma linha de 
prudncia: "Eu no estou na hora de agora criar maiores ondas".37 
O Ministrio do Exrcito era o segundo cargo da Repblica, mas
tambm um osso duro de roer. O tenente de 
1928 assombrara-se com o fausto do Milagre. Mantinha-se uma
residncia de veraneio para o ministro na serra 
carioca, apesar de a capital estar no planalto goiano fazia mais de
dez anos. Seu mordomo chamava-se Jacy. 
Cada general-de-exrcito tinha dois carros, trs empregados e casa
decorada. Pelo menos um ten33 Para o 
reconhecimento das execues, "A represso  guerrilha urbana no
Brasi1' reportagem 
de Henrique Lago e Ana Lagoa publicada pela Folha de S.Paulo de 28
de janeiro de 1979. Para Paulo Massa e 
seu pai, Desaparecidos polticos, organizado por Reinaldo Cabra! e
Ronaldo Lapa, p.200. 
34 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego, 22
de novembro de 1973. APGCS/H5. 
35 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego, 10
de dezembro de 1973. AP(,CS/i IF. 
36 Nota de Heitor Ferreira, de i de outubro de 1973. APGCS/HF. 
37 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 12 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF. 
A EQUIPE 287 
tou conserv-la depois de passar para a reserva.38 No final de 1970,
os generais-de-brigada que se transferiam para Braslia 
recebiam 130 mil cruzeiros (equivalentes a cerca de 27 mil dlares)
para a compra de moblia. 39 Em 1971 incorporara-se  
rotina dos "milicos" a mordomia aeronaval da taifa, atravs da qual
cabos e sargentos prestavam servios domsticos aos 
comandantes.40 As verbas do Planalto pagavam transporte e hospedagem
da turma de aspirantes de Medici para um 
churrasco em Braslia. As da Companhia Siderrgica Nacional, o
almoo da turma de seu presidente, no Rio. Quando 
sugeriram a Geisel que acompanhasse a cadeia de gentilezas, pagando
o almoo da sua turma pela caixa da Petrobrs, 
respondeu: "Olha, a Petrobrs existe para furar poo de petrleo.
No fao"4' Sentira na pele o desconforto do pblico 
externo quando, logo que se mudou para a casa do Jardim Botnico,
recebera uma carta annima que ponderava: "Meu caro 
general, no  moral este proceder, nem revolucionrio"42 "O
Exrcito, do ponto de vista moral, caiu muito", observava 
Geisel.43 
O coronel de 1953 assombrara-se com os absurdos profissionais. 
Aborrecera-se com a promoo do general sob cujas barbas a guerrilha
de Carlos Lamarca escapara ao cerco do vale do Ribeira: "Quando
algum 
 testado e sai mal, deve ser posto para fora. Em qualquer Exrcito
decente o homem  convidado a pedir retiro"44 Atribua 
 "carranca do Orlando" 
a facilidade com que a tropa conseguia verbas e expandia seu
efetivo.45 
38 Para os carros, nota manuscrita de Heitor Ferreira intitulada
Conversa Geisel-Reynaldo Mello
de Almeida, de 17 de dezembro de 1973. APGCS/HF. Para o caso do
general que tentou manter a 
casa, Dirio de Heitor Ferreira, 2 de agosto de 1973, narrando uma
visita do general Reynaldo a 
Geisel. Para o decorador, conversa de Geisel com Heitor Ferreira, em
Dirio de Heitor Ferreira, 27 
de dezembro de 1971. 
39 Carta do major Athos Marques de Amorim a Heitor Ferreira, de 9 de
agosto de 1975. ApGcs/HF. 
40 Histria do Alto-Comando do Exrcito, reunio do Alto-Comando de
21 de julho de 1971. APGCS/HF. 
41 Dirio de Heitor Ferreira, 22 de janeiro de 1972. 
42 Carta annima endereada a Geisel em 28 de junho de 1973.
APGCS/HF. 
43 Duas folhas manuscritas de Heitor Ferreira, intituladas Conversa
Geisel-Reynaldo Mello de Almeida, 
de 17 de dezembro de 1973. APGCS/HF. 
44 Dirio de Heitor Ferreira, 12 de setembro de 1972. Geisel
referia-se ao general Paulo Carneiro 
Thomaz Alves. 
45 Dirio de Heitor Ferreira, 27 de dezembro de 1972. 
288 A DITADURA DERROTADA 
Entre 1971 e 1973, enquanto as despesas militares cresceram cerca de
35%, as do Exrcito aumentaram 45%46 Em 1964 
havia 124 generais; em 74, 155. (Na reserva, Geisel calculava que
fossem 3500.)48 No final de um dispendioso programa de 
modernizao, pretendia-se organizar dezessete brigadas mecanizadas,
mas faltavam engenheiros e sobravam cavalos. Em 
trs anos entraram nos quartis 7 mil viaturas, mas nenhum mecnico.
Compraram-se ao exrcito americano tanques para 
os quais no se fabricava mais munio, e de cada dois que chegavam,
um no andava. Equipou-se a brigada de Campinas 
com tamanha ferragem que sua mobilizao exigiria a requisio de
todas as pranchas de transporte de So Paulo.49 No fim 
de um relato dessas irracionalidades, o general Figueiredo
conclura: " um deus-nos-acuda.  aquilo que o senhor diz, esto 
botando dinheiro fora'5 
O futuro presidente acreditava que poderia dispor de uma pea de sua
confiana para tratar da represso poltica. Queria a 
permanncia do general Milton Tavares de Souza na chefia do Centro
de Informaes do Exrcito. 
No conseguiu. Num apelo emocional, Dale Coutinho pediu o lugar para
o amigo Confucio Danton de Paula Avelino, um 
general-de-brigada detestado por Geisel e Moraes Rego. No comando da
Fora Pblica de So Paulo em 1971, acobertara a 
tortura prolongada e sistemtica da neta do marechal Hasckett Hail,
de quem fora ajudante-de-ordens, di- 
46 Alfred Stepan, Os militares - Da abertura  Nova Repblica, p.
87. Stepan usa nmeros do 
Anurio estatstico do Brasil - 1971 e da Seplan, convertendo-os em
dlares correntes de 1978. 
Em 1971 gastou-se 1 milho e 862 mil dlares e em 73, 2 milhes e 51
mil. Para as despesas do 
Exrcito, Estatsticas histricas do Brasil, p. 623. So os
seguintes os gastos do Exrcito de 1970 a 
1973, em milhes de cruzeiros: 1970:2 598 515; 1971:3 195 319;
1972:3 901 144, e 1973: 5 183 870. 
De uma converso pelo cmbio da poca resultou: 1970: 577 milhes de
dlares; 1971: 560 milhes; 
1972: 630 milhes, e 1973: 836 milhes. 
47 Almanaque do pessoal militar do Exrcito, de 1964 e de 1975. 
48 Observao de Geisel, em Dirio de Heitor Ferreira, 28 de maio de
1975. 
49 Para o reequipamento, narrativa de Dale Coutnho a Geisel, 16 de
fevereiro de 1974. Para o caso dos tanques, narrativa 
de Figueiredo a Geisel, contando-lhe o que ouvira de Dale Coutinho, 
9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 
50 Conversa de Figueiredo com Geisel, 9 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF. 
AEQUIPE 289 
zendo  me que a filha estava sendo bem tratada.5' Interrogava
prisioneiros convalescentes.52 Geisel 
preparara o roteiro da conversa que teria com Coutinho disposto a
impedir a sua escolha, mas cedeu. "O Dale 
era meu amigo. Ele insistiu muito, alegando que tinha uma grande
ligao pessoal com ele, que fora ele quem o 
cuidara quando adoeceu e que tinha sido muito leal em outras
comisses."53 
Muitas foram as mudanas que Geisel pensou fazer no Exrcito. No
fez nenhuma. Nomeou um ministro 
inexpressivo, no conseguiu colocar um general moderno no
Estado-Maior e aceitou Confucio no dE. Havia 
mais: o que fazer com Orlando Geisel? Puxava de uma perna,
emagrecera. Embaixada, nem pensar. Como os 
outros ministros, deveria voltar para casa, mas seu apartamento da
rua Ribeiro da Costa, no Leme, pedia 
pintura. Era preciso pensar na segurana dele. O general Orlando
resolveu passar algum tempo na casa do 
comandante do i Exrcito, mas Ernesto sugeriu que continuasse no
palcio Laguna, residncia oficial do 
ministro no Rio de Janeiro. Treze dias depois da posse do irmo
caula, Orlando teve um pequeno acidente 
vascular cerebral enquanto fazia a barba, caiu no banheiro e quebrou
a perna.54 Suas dificuldades respiratrias 
agravaram-se. Mantinha ao seu lado um cilindro de oxignio. Usava-o
para respirar melhor mesmo durante 
conversas sociais. A mudana para o Leme foi esquecida. Aos 69 anos,
depois de ter vivido uma existncia 
frugal, a permanncia de Orlando Geisel no Laguna tornou-o smbolo
das mordomias dos hierarcas da ditadura. 
S duas pessoas podiam obrig-lo a mudar-se: o ministro Dale
Coutinho e seu irmo Ernesto. Nenhum dos 
dois tinha a coragem necessria para provocar-lhe tamanha
contrariedade. 
51 Trata-se do caso da jornalista Norma Freire, presa na Operao
Bandeirante. 
52 Em novembro de 1969 interrogou Digenes de Arruda Cmara dois
dias depois de ele ter sofrido uma crise cardaca na Oban. Projeto
Brasil: nunca 
mais, tomo v, vol. 1: A tortura, p. 724. 
53 Uma folha com anotao de Heitor Ferreira, de fevereiro de 1974,
anterior  conversa de Geisel com Dale Coutinho: CIE - Confucio no.
APGCS/HF. 
Ernesto Geisel, 12 de julho de 1988. 
54 O Estado de S. Paulo, 30 de maro de 1974, p. 15. Para o
distrbio vascular enquanto fazia a barba, Ernesto 
Geisel, 24 de abril de 1995. 
290 A DITADURA DERROTADA 
O COFRE 
Depois do Exrcito, a economia. Mano Henrique Simonsen, verdadeiro
Siegfried do imaginrio do regime, tinha 
38 anos. Aos 26 fora professor do Instituto de Matemtica Pura e
Aplicada e da Escola Nacional de 
Engenharia. Aos 28, simultaneamente aluno e professor da Faculdade
de Cincias Econmicas da 
Universidade do Brasil. Antes dos trinta dirigira o Departamento
Econmico da Confederao Nacional da 
Indstria e criara a frmula de clculo de reajustes salariais
imposta aos trabalhadores e conhecida por 
"arrocho" Era tudo isso e mais ex-aluno do colgio Santo Incio das
safras elitistas do jesuitismo pr-conciliar. 
Colaborador eventual do IPS, dirigia a escola de ps-graduao em
economia da Fundao Getulio Vargas, e 
sentava-se nos conselhos da Mercedes-Benz e da Souza Cruz. Dirigia
tambm um dos sonhos do Milagre, o 
Movimento Brasileiro de Alfabetizao, Mobral. Bartono fracassado
por conta de uma pneumonia, leitor 
voraz, polemista custico, unia numa personalidade tumultuada razo
matemtica e romantismo musical. Era 
scio e nome de banco (Bozano Simonsen), mas vestia-se como um
investigador. Bebia e fumava demais 
(Minister, "mas no trago"),55 matava o tempo ouvindo msica e
jogando xadrez com sua mulher arqueloga. 
Nada mais anti-social. Mesmo assim, era o quindim do empresariado e
da elite econmica. Em 1969, quando um 
futurlogo americano previu que o Brasil no iria longe, Simonsen
respondeu com um Brasil 2001, 
desmentindo-o e defendendo uma poltica de dirigismo estatal na
educao e nos setores eltrico e 
siderrgico.56 Seria ministro da Fazenda. Restava saber quando e de
quem. 
Humberto Barreto, amigo de juventude de Simonsen, j patrocinara 
um encontro superficial do professor com o general. Heitor Ferreira
lanou-o em sua lista em fevereiro de 1972 
e nunca mais o tirou.57 Em outu55 Conversa de Mano Henrique Simonsen
com Golbery e Heitor Ferreira, 5 de 
fevereiro de 1974. 
APGCS/HF. 
56 Mano Henrique Simonsen, Brasil 2001, p. 184. Simonsen respondia
aO ano 2000, de Hermann 
Khan. 
57 Dirio de Heitor Ferreira, 25 de fevereiro de 1972. 
T 
A EQUIPE 291 
bro do ano seguinte Golbery reuniu-se com ele, a pedido de Geisel.
Seguindo seu velho riscado, encomendou-
lhe alguns papis com idias para o futuro governo. Fazia isso com
todo mundo, mas era disso que Simonsen 
gostava. Mandou oito pginas de "esclarecimentos" e os nmeros de
seus telefones. Olhando para a frente, 
propunha que se jogasse no mercado financeiro uma parte dos recursos
do Programa de Integrao Social, o 
PIs, tributo criado em 1970 por Delfim Netto com o objetivo de
assegurar um peclio aos trabalhadores e o 
propsito de fazer caixa para o governo.58 No mundo do Milagre,
oferecia 32 salrios no fim de trinta anos de 
servio.59 No mundo real, recolhia 720 milhes de dlares anuais dos
cofres da Caixa Econmica, cuja chave 
Delfim mantinha na gaveta.60 Olhando para trs, como candidato a
ministro, Simonsen sugeria mais: "A partir 
de 1969 estabeleceu-se uma poltica de no deixar quebrar nenhuma
instituio financeira, e o Banco Central 
passou a cobrir com os conseqentes dficits. [...j Muitos dos
recentes problemas de insolvncia eram 
previstos no mercado e s chegaram s dimenses finais a que
chegaram, pela lentido da ao das 
autoridades. Por outro lado, a filosofia de que 'instituio
financeira no quebra alm de custar caro ao 
governo, nivela o mercado por baixo".6' 
Golbery anotou: "Caso do Banco Portugus e outros". "Outros", de
sada, era o Banco Mineiro do Oeste. 
Juntos formavam um buraco de 2 bilhes de cruzeiros, dinheiro
equivalente a cinco vezes a emisso de moeda 
em 1973.0 Banco Portugus do Brasil fora salvo por Delfim, trocando
de dono.62 Tambm conhecido como 
Bandoleiro do Oeste, o BMO fora praticamente dado de presente ao
Bradesco. Havia pelo menos trs 
outras instituies financeiras quebradas.63 
58 Carta de Mano Henrique Simonsen a Golbery, de 31 de outubro de
1973, com o anexo Problemas do Mercado de 
Crdito a Longo Prazo. APGCS/HF. 
59 Veja, 26 de agosto de 1970, pp. 28-33. 
60 Estrutura de Governo, Notadamente quanto  rea Econmica, oito
folhas do Ministrio do Planejamento, sem 
data nem assinatura, de 1973, refere-se a 4,7 bilhes de cruzeiros
do i'is na Caixa e 7,4 bilhes de cruzeiros do 
Pasep no Banco do Brasil. APGCS/HF. 
61 Liquidaes Banc rias, anexo  carta de Mano Henrique Simonsen a
Golbery, de 31 de outubro de 1973. 
APGCS/HF. 
62 Dirio de Heitor Ferreira, 24 de janeiro de 1973, e Informe
enviado a Heitor pelo general Barros Nunes, APGCS/HF. 
63 Os grupos Aurea e Audi, de So Paulo, e o Halies, do Rio de
Janeiro. 
292 A DITADURA DERROTADA 
Simonsen reuniu-se por duas horas com Geisel no final de novembro,
deixou boa impresso e continuou 
escrevendo papis para Golbery. Dele recebia consultas e leituras. O
general enviou-lhe um artigo de 22 
pginas tirado do exemplar de Authoritarian Brazil que lhe chegara
s mos. O texto conclua advertindo 
que "o problema no est num excesso de poupana para escassez de
gastos, mas exatamente o contrrio'64 
"Um claro de bom senso", respondeu Simonsen.65 Treinava para o novo
papel tentando parar de fumar e de 
beber. 
Geisel entrara na questo econmica com humildade. Lera artigos de
Simonsen, uma Introduo s contas 
nacionais e o clssico Inflao, trabalho do economista americano
Milton Friedman que prenunciava a 
alvorada do liberalismo econmico.66 Nem ele nem Golbery tiveram
espao em suas agendas para receber 
Friedman em dezembro de 1973, quando passou pelo Brasil. O professor
pedira para encontrar Geisel com uma 
semana de antecedncia, prontificando-se a ir ao Rio no dia que ele
marcasse.67 
O general comeou estudando mais os mecanismos de comando da
administrao do que a doutrina 
econmica. Suas diferenas com Delfim eram mais de forma que de
contedo, e estava decidido a organizar seu 
governo de maneira que dele no brotasse outro Gordo. 
Simonsen cumpriu seu destino. Foi escolhido para ministro da
Fazenda. Sua ascenso refletia no novo 
governo uma aparncia de restaurao da dinastia fundada pelo
professor Eugnio Gudin e projetada no 
consulado de Castelo Branco pela dupla Octvio Gouva de
Bulhes-Roberto Campos. Era engano. Geisel no 
queria Campos no ministrio, nem por perto. O professor Bulhes fez
saber a Simonsen que aceitaria a 
presidncia do Banco Central, mas o futuro ministro derrubou-o,
argu64 Samuel A. Morley e Gordon W. Smith, 
"The effect of changes in distribution of income on 
labor, foreign investment, and growth in Brazil", em Authoritarian
Brazil, editado por Alfred Stepan,pp. 119-41. 
65 Carta de Mano Henrique Simonsen a Golbery, de 10 de dezembro de
1973. APGCS/HF. 
66 Did rio de Heitor Ferreiro, 23 de agosto de 1972. 
67 Bilhete de Joo Carlos Palhares a Golbery, de 10 de dezembro de
1973. Friedman podia se encontrar com 
Geisel qualquer dia, entre 17 e 21 de dezembro. Geisel teve agenda
praticamente livre ou tomada por 
compromissos secundrios nos dias 17, 18 e 21. 
A EQUIPE 293 
mentando que no cairia bem no lugar com um "garoto" no Ministrio 
da Fazenda.68 
O empresariado aplaudiu a escolha, e Gudin saudou a indicao de
Simonsen com uma barretada ao "diablico" Delfim. 
Lembrou que, durante uma visita de Rachmaninoff a Paris, o crtico
musical do Figaro escrevera: "No  possvel tocar 
piano me1hor" Seis meses depois chegou  cidade Wladimir Horowitz, e
o mesmo crtico informou: "Este  o maior 
pianista do mundo' "O comentrio pode-se aplicar ao caso da nossa
substituio do ministro da Fazenda, em que com o 
timo ou com o excelente o nosso barco est em boas mos."
Assegurava que "em tudo quanto se refere  economia do 
pas", o "grande conselheiro" seria Simonsen.69 Dois erros: Geisel
no queria um "grande conselheiro", e ainda que o 
quisesse, uma louvao de Gudin mais atrapalhava do que ajudava. A
convivncia do general com o liberalismo cosmopolita 
era tributo  unidade da elite que apoiava a ditadura. Em outras
palavras, dele: "Voc pega a elite. [...] o Golbery teve a 
pacincia de aturar durante trs horas este patife do Gudin, que 
um salafra,  um judeu sem- vergonha, O Globo abre as 
colunas para o Gudin escrever as sandices todo dia. E o sujeito se
d o direito de escrever as maiores besteiras, as maiores 
barbaridades. Todo mundo tolera porque o Gudin  a favor da
Revoluo... Esse sujeito j devia estar h muito tempo num 
asilo de velhos'7 
Como Geisel no podia trocar de corifeus e a plutocracia no podia 
trocar de general, fez-se de conta que o novo ministro da Fazenda,
mes68 Para o desinteresse de Geisel por Campos, 
conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 18 de dezembro de
1973. Para Golbery e para o caso de Bulhes, 
conversa de Mano Henrique Simonsen com Golbery, 5 de fevereiro de
1974. APGCS/HF. Um ano depois, Paulo Egydio 
Martins quis nomear o banqueiro Olavo Setubal para a Secretaria da
Fazenda de So Paulo. Simonsen ponderou que ele 
seria visto como seu eventual substituto, e Setubal foi nomeado
prefeito da capital. Dirio de Heitor Ferreira, 11 de janeiro 
de 1975. 
69 O Globo, 8 de fevereiro de 1974, p. 3 do 1 caderno, citado em
Eugnio Gudin, Reflexes e Comentrios - 1970/1978, p. 
162. Gudin era parente afim de Simonsen. Sua mulher era irm gmea
da av paterna de Mano Henrique. Depoimento de 
Carlos Ivan Simonsen Leal, em Mano Henrique Simonsen - Um homem e
seu tempo, organizado por Dora Rocha, Verena 
Alberti e Carlos Eduardo Sarmento, p. 22. 
70 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 20 de
dezembro de 1973. APGCS/HF. 
294 A DITADURA DRRR0TADA 
mo no sendo um novo Gordo, seria o comandante da poltica
econmica. Entretanto, o Simonsen que 
impressionara Geisel no era o cosmopolita que Gudin aplaudia. Era o
interlocutor moralista que sugeria ao 
general transformar em presdio o prdio da praa xv de Novembro
onde funcionava a bolsa do Rio de 
Janeiro.71 
Campos e Gudin viam na internacionalizao da economia brasileira um
imperativo da eficcia. Acreditavam 
que havendo concorrncia estrangeira, a indstria e o comrcio
nacionais seriam obrigados a produzir melhor e 
"mais barato" para poderem sobreviver. Geisel detestava- os
exatamente por isso. Via a participao do capital 
estrangeiro como um complemento do processo de desenvolvimento do
pas. As empresas estrangeiras 
podiam fazer o que quisessem, desde que fosse coisa que brasileiro
no soubesse fazer. 72 Era um nacionalismo 
sincero, utilitrio e dirigista. Nele se infiltrava o conceito de
projeto nacional comum s formulaes dos 
autoritarismos de direita e de esquerda da metade do sculo xx.
Costumava repetir que nascera num pas que 
importava manteiga, e orgulhava-se de ter participado da sua
transformao numa nao industrializada. 
Achava que o cosmopolitismo econmico condenava o Brasil e os
brasileiros a uma posio subalterna. Mais: 
desde o tempo em que comia manteiga importada, nunca encontrara um
defensor do liberalismo econmico que 
tivesse se associado a um projeto de progresso acelerado para a
nao brasileira.73 
O general no tinha economistas no seu crculo de relaes, nem se
guiava por nenhum pensamento 
econmico articulado. 
Seu contato mais prximo com a espcie deu-se com Jesus Soares
Pereira, o colega de Conselho Nacional do 
Petrleo, tanto no trabalho como nos almoos que tiveram nos anos Em
abril de 1964 a figura discreta de 
Soares Pereira entrou na lista dos cem primeiros cidados 
71 Conversa de Geisel com Mano Henrique Simonsen, 29 de janeiro de
1974. APCCS/HF. 
72 Ernesto Geisel, janeiro de 1995. 
73 Um exemplo desse raciocnio: "Se o Victor Civita [criador da
editora Abriu dissesse ao Roberto Campos que 
pretendia publicar uma revista como a Veja, ele tentaria
dissuadi-lo, dizendo-lhe 
que era muito mais fcil traduzir a revista Time' Ernesto Geisel,
1988. 
74 Ernesto Geisel, abril de 1995. 
A EQUIPE 295 
a terem os direitos polticos cassados pela nova ordem.75 Do outro
lado do chicote, o general Geisel procurou salv-lo. 
Chegou mesmo a falar com Castello Branco, mas perdeu a parada: "Foi
safadeza do pessoal de Capuava junto ao Costa e 
Silva, foi a vingana deles".76 Cassado, Jesus Soares Pereira viveu
no Chile at 1969. Trabalhava na Cepal e era uma 
espcie de tesoureiro da caixa de socorro aos asilados. Convencido
de que sua cassao recebera o beneplcito do colega, e 
desinteressado de qualquer aproximao com o regime, comentara:
"Pelo que restar de considerao entre ns dois, vou 
pedir a Geisel que me casse por mais dez anos".77 (Jesus voltou ao
Brasil em 1969, mas ele e o general no se 
reencontraram.) 
O coronel do CNP sara da casca como presidente da Petrobrs.
Lanara agressivamente a empresa na distribuio de 
derivados, tomara  Shell os cobiados e simblicos postos do Aterro
do Flamengo, no Rio de Janeiro. Em 1972 tinha 23% 
do mercado distribuidor, contra 11% em 65.78 Quando o presidente da
Shell se mostrou surpreso por ter sido chamado a 
uma concorrncia para a montagem de uma unidade de refino, j que
competiam na distribuio, Geisel explicou-lhe: " por 
isso mesmo que eu sou a favor da participao da Shell. Porque a
Shell vem a nos ensinar alguma coisa, que  a tecnologia 
de produo na rea petroqumica, 
75 Trs folhas mimeografadas com a transcrio do Ato do Comando
Supremo da Revoluo, de 
10 de abril de 1964. Nesse documento os nomes esto listados de
forma desordenada, mas percebem-se nele alguns 
segmentos em que os cassados foram agrupados por atividade. Assim,
do nmero 11 ao 15 encontram-se dirigentes 
sindicais. Jesus Soares Pereira foi o 24, ficando entre Francisco
Mangabeira, ex-presidente da Petrobrs, Hugo Rgis dos 
Reis e Jairo Jos Farias, ambos diretores da empresa. Soares Pereira
no tinha ligao direta com a Petrobrs. Era diretor de 
vendas da Companhia Siderrgica Nacional. Foi colocado na lista por
ter contrariado algum interesse no Conselho Nacional 
de Petrleo. 
76 Ernesto Geisel, janeiro e abril de 1995. No dia 10 de abril,
quando saiu a primeira lista de cassaes, Castello ainda no 
fora empossado. Geisel era um general influente, mas sem funo. S
iria para a chefia do Gabinete Militar cinco dias 
depois. Doente e perseguido, Jesus Soares Pereira morreu em
Petrpolis, em dezembro de 1974. Deixou pouco mais que 
uma biblioteca, comprada  viva por amigos e doada  Fundao
Getulio Vargas. Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro 
ps-1930, coord. de Alzira Alves de Abreu e outros, vol. 4, p. 4554.
77 Ado Pereira Nunes, Do Planalto  Cordilheira - Memrias de um
mdico cassado, pp. 155-6. 
78 Edelmira del Carmen Alveal Contreras, Os desbravadores -A
Petrobrs e a construo do Brasil industrial, p. 90, nota. 
296 A DITADURA DERROTADA 
coisa que ns no sabemos, no sabemos nada. Agora, encher tanque de
gasolina ns j sabemos. No precisamos da Shell para isso'79 
Geisel levara as antigas relaes da empresa com a indstria
nacional de equipamentos pesados a uma indita 
parceria. Estimulou a formao de uma equipe tcnica, diretamente
ligada a ele, por meio da qual a Petrobrs 
perfilhava seus fornecedores brasileiros. Pagava-lhes em dia
equipamentos entregues com atraso, com 
defeitos, ou mesmo inteis. Prestava-lhes assesso ria tcnica
gratuita. Como diria mais tarde, "a Petrobrs, 
nessa ocasio, foi uma verdadeira me para a indstria pau1ista' Era
uma maternidade assumida, praticada por 
um general convencido de que a empresa devia servir de estmulo 
indstria nacional.8 
A segunda escolha para a rea econmica parecia fcil: Golbery, o
curinga da equipe, era a opo para o 
Planejamento. No lugar, estava o economista Joo Paulo dos Reis
Velloso. Geisel queria mant-lo no ministrio, 
transferindo-o para a pasta do Interior. Parecia um detalhe
irrelevante. Aos 43 anos, desgracioso e 
desengonado, Reis Veiloso encarnava a figura do nordestino
transplantado para o eixo Rio-Braslia. Filho de 
um funcionrio do correio em Parnaba, no Piau, estivera entre os
guias Brancas, brao juvenil do 
integralismo, e fora para o Rio aos vinte anos.8' Comeara a vida na
burocracia do Instituto de Aposentadoria 
e Penses dos Industririos. Tornara-se funcionrio de carreira do
Banco do Brasil, mas no conseguira chegar 
a conferente de seo. Em setembro de 1964, com um diploma da
Universidade de Yale, incorporara-se  equipe 
de Roberto Campos. Ajudara a fundar o Escritrio de Pesquisa
Econmica Aplicada, o futuro IPEA. Seu 
negcio eram os nmeros. Tinha horror a telefone e a documentos
assinados. Subira  secretaria geral do 
Planejamento e ganhara o ministrio na formao do governo Me- 
79 Ernesto Geisel, janeiro e fevereiro de 1995. Ver tambm Dirio de
Heitor Ferreira, 17 de janeiro 
de 1972. 
80 Ernesto Geisel, janeiro e maro de 1995. 
81 Para a relao de Reis Veiloso com o integralismo, citao de
Plnio Salgado em entrevista a 
Veja de 13 de maio de 1970, pp. 20-3. 
A EQUIPE 297 
dici. Era difcil defini-lo. O general Figueiredo chamara-o de
"besta" numa conversa com Heitor Ferreira. 
Avaliando-o diante de Geisel, vira-o "eficiente", ainda que
"chato'82 
Velloso produzira um documento com uma proposta audaciosa: o
Ministrio do Planejamento deveria ser 
apenso  Presidncia da Repblica "ao nvel dos Chefes do Gabinete
Civil, Gabinete Militar e SNI". Insinuara 
que, sem isso, o surgimento de um novo Gordo seria inevitvel: 
"A dificuldade de um sistema como o atual  que, mesmo na melhor das
intenes [... 1 os ministrios da 
Fazenda e da Indstria e Comrcio, na prtica, podem levar a
poltica econmica para direes que representem 
distores quanto  orientao geral de governo"83 Geisel comprou a
idia, mas decidiu que o nicho fosse 
chamado de secretaria, no de ministrio. Fosse qual fosse o ttulo
republicano de Velloso, a melhor definio 
partiu de Heitor Ferreira: "um baro do presidente' 
O baro tinha atrs de si a maior rede de economistas do pas. Eram
cem no IPEA e outros cinqenta no BNDE. 
Como ministro de Medici, tentara, sem sucesso, formular aquilo que
chamava de uma "orientao geral" Esse 
conceito hierrquico e disciplinador resultara num cronograma pelo
qual todo governo prepararia um plano 
estratgico. Na teoria, cada governo planejaria seus trs ltimos
anos e os dois primeiros da administrao 
seguinte. Na prtica, o texto do Programa de Metas e Bases para a
Ao do Governo estava na 
grfica quando Veiloso foi surpreendido pela deciso de Medici
(tomada durante uma conversa de avio) de 
mandar rasgar a rodovia Transamaznica.84 Tivera de recolher os
originais do seu plano estratgico, 
reescrevendo-os e fazendo crer que o voluntarismo presidencial fora
um ato pensado, inserido no Programa de 
Integrao Nacional, o PIN.85 
82 Anotaes da Conversa com Figueiredo, em Dirio de Heitor
Ferreira, 11 de junho de 1973. Para 
"chato", anotao manuscrita de Geisel num bilhete remetido por
Heitor Ferreira em 28 de setembro de 1973. 
APGCS/HF. 
83 Estrutura de Governo, Notadamente quanto  rea Econmica, oito
folhas do Ministrio do Planejamento, sem 
data nem assinatura, de 1973. APGCS/HF. Heitor Ferreira refere-se a
um documento, entregue a Geisel por Velloso, 
na entrada do dia 10 de novembro de 1973 de seu Dirio. 
84 Depoimento de Delfim Netto, em Histrias do poder, organizado por
Alberto Dines, Florestan Fernandes Jr. e 
Nelma Salomo, vol. 3: Vises do Executivo, p. 192. 
85 Marcos Vianna, novembro de 1997. 
298 A DITADURA DERROTADA 
Geisel ofereceu a Velioso o Ministrio do Interior. Para amaci-lo,
Heitor Ferreira elaborara at mesmo uma lista de 
argumentos que poderiam ser apresentados, inclusive chamando-o de
"um dos meus desafortunados curingas"86 
Aconteceu o impensvel: Velloso recusou. Argumentou que preferia
ficar na rea econmica. Polidamente: isso ou nada. 
Geisel deu-lhe razo e a Secretaria do Planejamento.87 
Ofuscado por Delfim, Reis Velloso parecia destinado a ser uma sombra
do brilho intelectual de Simonsen, de quem fora 
aluno em duas ocasies. Nas semanas de organizao do governo, levou
a Geisel uma idia e um projeto. Sugeriu a 
transferncia dos recursos do PIS/Pasep da Caixa Econmica e do
Banco do Brasil para o BNDE. Coisa de 12 bilhes de 
cruzeiros, uma montanha de dinheiro, considerando-se que em 1972 a
Unio financiara 30 bilhes de cruzeiros dos 44 
bilhes investidos em capital fixo. Desses 30, cerca da metade vinha
dos dois grandes fundos criados por Medici.88 Como 
o BNDE era subordinado ao Planejamento, no fim da manobra a arca de
investimentos sairia do Ministrio da Fazenda para 
o palcio do Planalto. Isso significava uma deliberada migrao de
recursos e poder.89 Transferia-se tambm o embrio de 
uma estratgia de ao do Estado. O projeto foi para as mos de um
general convencido de que "a nao no se desenvolve 
espontaneamente", precisa de "algum que a oriente e a impulsione",
e "esse papel cabe ao governo'9 
Simonsen queria jogar uma parte do dinheiro do iis no mercado
financeiro, mas Velloso tinha outras idias.9' Os 
economistas do IPEA es- 
86 Duas folhas manuscritas, de Heitor Ferreira, datadas de 12 de
fevereiro de 1974. APGCS/HF. 
87 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 12 de
fevereiro de 1974. APGCS/HF. 
88 Estrutura de Governo, Notadamente quanto  rea Econmica, oito
folhas do Ministrio do Planejamento, sem data nem 
assinatura, de 1973. APGCS/HF. Os nmeros referem-se a 1972. O
BNDEFiname havia financiado 7,7 bilhes de cruzeiros. 
Ficaram na caixa do Planalto cerca de 20 bilhes, 
equivalentes a 3 bilhes de dlares. Significavam o controle direto
sobre dois teros de todos os 
financiamentos federais. 
89 Conversa de Geisel com Golbery, 3 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
Golbery diz que a ida desses 
recursos para a gesto do ministro da Fazenda foi um "repasso de
poder' Geisel sustenta que o 
dinheiro no deve ir para o Banco do Brasil nem para a Caixa, mas
para o BNDE. E que o futuro 
ministro da Fazenda deve ser avisado, "para no vir depois criar
caso' 
90 Maria Celina d'Araujo e Celso Castro, orgs., Ernesto Geisel, p.
287. 
91 Problemas do Mercado de Crdito a Longo Prazo, documento de trs
pginas enviado no dia 31 
de outubro de 1973 por Mano Henrique Simonsen a Golbery, que o
anotou. APGCS/HF. 
r 
A EQUIPE 299 
tudavam os gargalos da economia brasileira e, se houvesse algum
interessado num projeto de 
desenvolvimento sob a coordenao do Estado, tinham mercadoria para
oferecer. No final de 1972, quatro 
deles comearam uma pesquisa intitulada Crescimento industrial no
Brasil, em que se esboava a idia 
de uma interveno organizada do Estado na economia de forma a
dinamizar a indstria pesada e os setores 
siderrgico, petroqumico e de construo naval.92 Um ano depois, um
jovem economista do BNDE preparou 
uma projeo do futuro da produo nacional. Havia sido encomendada
pelo presidente do banco, Marcos 
Vianna, ex- secretrio-geral de Velloso no Planejamento. 
Jos Clemente de Oliveira tinha 37 anos, morava com a mulher e um
casal de filhos num apartamento alugado 
de Santa Teresa. Ganhava duzentos dlares por ms. Era um
sobrevivente da esquerda de 1964 protegido por 
Vianna, que mantinha no BNDE inmeros tcnicos antipticos ao SNI.
Clemente conhecera Geisel em reunies 
com tcnicos da Petrobrs, discutindo questes da indstria pesada e
a montagem do plo petroqumico de 
Camaari, na Bahia. Trabalhou sem saber para que serviria seu
estudo.93 O trabalho, escrito em setembro 
(antes da crise do petrleo, portanto), chegou a Geisel em novembro.
Chamava-se Estimativa de 
Crescimento Macroeconmico para o Perodo de 1974 a 80. 
Propunha uma macia poltica de investimentos, notadamente nos
setores de minerao, energia e habitao, 
capaz de permitir um crescimento econmico de 10% ao ano. Isso seria
conseguido por meio de uma caa ao 
empresariado, financiando-se projetos que ainda no haviam sido
levados s agncias oficiais de fomento. 
No se tratava mais de os empresrios procurarem o BNDE, mas de o
BNDE procurar os empresrios. Em suas 
palavras: "uma programao firme de investimentos, no sentido de que
j ultrapassa a fase do mero desejo de 
investir' Para custear o 
92 Crescimento industrial no Brasil - Incentivos e desempenho
recente, de Wilson Suzigan, Regis 
Boneili, Maria Helena T. T. Horta e Celsius Antnio Lodder. 
93 Jos Clemente de Oliveira, novembro de 1997. 
300 A DITADURA DERROTADA 
salto, seria necessrio elevar brutalmente a taxa de poupana (37,5%
do PIB para 1975, contra 3 1,9% em 73 e 
16,6% em 69). O que faltasse viria do aumento dos financiamentos
externos, triplicando-os entre 1973 (3,0 1% 
do PIB) e 1979 (9,34%).94 Era o preo do crescimento. 
Geisel viu exagero na taxa de poupana: "No tem pas no mundo 
que faa isso".95  margem desse documento, Golbery anotou:
"Faranicos. E no querem que a Dow toque o 
projeto com recursos prprios.. .' 
O comentrio refletia um conceito e um dio pessoal. O general no
tinha simpatia pelo fortalecimento do 
BNDE e detestava Marcos Vianna. Haviam-se desentendido num episdio
em que Golbery defendia os 
interesses da Dow, cuja presidncia s abandonaria nos primeiros
dias de fevereiro. Numa simplificao 
grosseira, a Dow queria montar - com financiamento do BNDE - um plo
petroqumico prprio na Bahia. Vianna 
respondeu com uma carta dura. Golbery no o esqueceu. Quando a idia
da transferncia dos recursos do 
PIS/Pasep para o BNDE comeou a tomar corpo, ele disse a Geisel: 
"No fico confortvel em ter l o seu Marcos Vianna. [...] Eu acho 
que o presidente desse banco tem que ser um homem seu." 
"Mas o problema  que ele ' respondeu Geisel.96 
Golbery manteve a restrio. Influenciado pela animosidade, Geisel
chegou a pr na mesa a carta do governo 
do Esprito Santo, estado natal de Vianna, mas uma rpida defesa,
feita por Reis Veiloso, encerrou o assunto. A 
contrariedade de Golbery foi sentida pelo presidente do BNDE meses
depois, quando o encontrou numa das 
primeiras recepes diplomticas do novo governo. Vianna estendeu a
mo a Golbery e ele a congelou com um 
olhar.97 Desde ento, nunca trocaram uma palavra. 
94 Estimativa do Comportamento Macroeconmico: 1974-1980
(Confidencial), documento encaminhado por Paulo 
Belotti a Heitor Ferreira em 13 de novembro de 1973, anotado por
Golbery e visado por Geisel. APGCS/HF. 
95 Conversa de Geisel, Golbery e Heitor Ferreira, 20 de novembro de
1973. APGCS/HF. 
96 Conversa de Geisel com Golbery, 23 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
Para a opinio sobre Marcos Vianna, a 
quem Geisel chegou a pensar em nomear ministro da Fazenda ou do
Planejamento, ver Dirio de Heitor Ferreira, 
25 de fevereiro e 26 de maro de 1972. 
97 Marcos Vianna, novembro de 1997. 
r 
A EQUIPE 301 
A ESPLANADA 
Os "curingas" do presidente eleito eram trs. O primeiro, Golbery,
perdeu o Planejamento para Veiloso, mas foi 
para a chefia do Gabinete Civil. 
O segundo era o senador Ney Braga, 56 anos, coronel da reserva,
poderoso poltico paranaense.98 Convivera 
com Geisel em Curitiba, como governador do estado, quando inaugurava
uma escola por dia. Reencontrara o 
general no gabinete de Castello Branco, onde ocupou o Ministrio da
Agricultura. Fora um dos trs 
parlamentares premiados com o acesso ao nmero do telefone do Jardim
Botnico, mas somava ao 
temperamento discreto tamanha capacidade de dissimulao que at
seria capaz de negar que o conhecia. 
Haveria de ser o nico parlamentar a quem Geisel consultaria em suas
escolhas polticas. Mestre da costura 
silenciosa e inimigo implacvel, chamava seu rival no Paran de
"canalha' Listava os defeitos dos colegas de 
Congresso com crueza: "louco' "debilide' "chato' "narcisista'99
Iria para o governo por poltico. Podia ser 
ministro da Previdncia, de Minas e Energia, ou mesmo chefe do
Gabinete Civil. No segundo semestre de 1973 
bateu na Educao e l ficou.' 
O terceiro curinga era Shigeaki Ueki. Chegara  Petrobrs de Geisel
pelas mos do marechal Ademar de 
Queiroz. Humilde, didtico e grandioso, dava aulas de economia a
Heitor Ferreira, de quem recebia conselhos 
de conduta poltica. Gostava de repetir que aprendera a lio com o
armador chins Yue-Kong Pao: ' fonte do 
sucesso  a capacidade de simplificar coisas complicadas" Tinha o
dom de expor nmeros e idias com clareza, 
sem alterar a voz. Foi o grande negociador da Petrobrs, tanto para
cravar a ltima estaca nos bares de 
Capuava, como para arrancar contratos de petrleo aos pases rabes
durante a crise de 1973. Arquite98 Ney 
Braga chegou a coronel pelos mecanismos de promoes cumulativas das
Foras Armadas. Terminou a 
carreira militar em 1952, como major, aos 35 anos, quando se tornou
chefe de polcia do governo do cunhado, 
Bento Munhoz da Rocha. 
99 Tratava-se de Paulo Pimentel, que comeara a carreira sob sua
asa. Uma folha manuscrita de Heitor Ferreira, 
intitulada Detalhes da Conversa com Ney, de 27 de setembro de 1973.
APGCS/HF. Para os adjetivos, pela ordem: Dirceu 
Cardoso, Nina Ribeiro, Murilo Badar e Clovis Stenzel. Idem. 100 Um
Exerccio Direto sobre a Composio do 
Governo Geise4 trs folhas manuscritas de Heitor Ferreira, de 28 de
julho de 1973. APGCS/HF. 
302 A DITADURA DERROTADA 
tara uma aproximao comercial com o Iraque e at concebera um piano
para dominar o mercado internacional de acar.'1 
Medici chamava-o de "japonesinho po-duro".'2 Geisel chegava a
brincar: "Sabe o que eu queria? Ter algum dinheiro, me 
associar com o Ueki e deix-lo trabalhar".' 3 Foi um curinga para
os ministrios da Indstria e Comrcio, da Agricultura e 
de Minas e Energia. Um ms antes da posse sabia que seria ministro e
portanto devia ir a um alfaiate que lhe cortasse a 
casaca.'4 S no sabia de qu. Geisel informou-o de que iria para
Minas e Energia num breve telefonema, sem a 
formalidade das audincias que envolvera todos os outros convites,
salvo o de Golbery.'5 
Com Ueki fechava-se a conta dos colaboradores diretos que Geisel
tinha na cabea quando comeou a montar a equipe. 
Eram sete. Em apenas dois casos tivera o nome certo para o lugar
certo: Quandt para as Comunicaes e Figueiredo para o 
SNI. 
A escolha de Figueiredo tivera razes claras e prticas. Geisel
queria-o no palcio e colocou-o no SNI porque, tendo 
chefiado o Gabinete Militar de Medici, seria barreira eficaz para
impedir que se vasculhasse o governo de seu antecessor. 
Reforaria essa barreira pondo no Ministrio dos Transportes o
general Dyrceu Araujo Nogueira, cujas quatro estrelas 
serviriam de respaldo para neutralizar amigos e inimigos do coronel
Mrio Andreazza.'6 Restavam oito cadeiras. 
Trs foram ocupadas por ministros que Geisel no conhecia. O mdico
Paulo de Almeida Machado era o candidato do 
coronel Moraes Rego ao Ministrio da Sade. Navegou sem
contratempos, mesmo que no lembrassem direito seu nome. 
Heitor Ferreira, sempre to minucioso em suas anotaes, listava
todos os nomes cogitados, mas na Sade 
101 Para a relao com o Iraque, Ernesto Geisel, abril de 1995. Para
o controle do mercado de 
acar, conversa de Shigeaki Ueki com Golbery e Heitor Ferreira, 7
de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 
102 Dirio de Heitor Ferreira, 20 de junho de 1972. 
103 Idem, 14 de setembro de 1972. 
104 Bilhete de Heitor Ferreira a Geisel, informando-o: "Tomei a
liberdade de dizer ao Honorvel 
que sim, fizesse a casaca. Foi a So Paulo e j tirou as medidas'
APGCS/HF. Honorvel era o apelido de Ueki no grupo. 
105 Telefonema de Geisel a Shigeaki Ueki, 20 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF. 
106 Ernesto Geisel, abril de 1995. 
r 
A EQUIPE 303 
escrevia "Instituto de Medicina Tropical" Seria o nome da
instituio dirigida por Almeida Machado no Par, 
mas ainda assim estava errado. Esse mdico de 57 anos, 29 dos quais
passados dentro da mquina de sade 
do governo, dirigia o Instituto Nacional de Pesquisas da
Amaznia.107 De outros dois ministros, Geisel nem 
sequer ouvira falar. 
O agrnomo Alysson Paulinelli, secretrio de Agricultura de Minas
Gerais, tinha 37 anos e transformara o seu 
estado no maior plantador de caf do pas. Seu nome chegara ao largo
da Misericrdia numa sugesto 
inocente de um general por quem Geisel no nutria maiores simpatias,
mas foi o suficiente para atrair-lhe a 
curiosidade pelo jovem tcnico que de incio julgou chamar-se
Parelli.'t Leu algumas conferncias dele, 
encontrou-o numa visita a um projeto de irrigao e colocou-o entre
os favoritos para a Agricultura)09 Em 
menos de um ms o annimo Parelli converteu-se no ministro
Paulinelli. 
Maurcio Rangel Reis era um tmido burocrata do IPEA. Tinha 52 anos,
um currculo de economia agrcola e a 
proteo de Ney Braga. Quando Geisel voltou da conversa
surpreendente em que Velioso rejeitou o Ministrio 
do Interior, descobriu que estava sem estepe. Estudara perto de dez
nomes, cogitara seis, mas faltavam poucos 
dias para o anncio da equipe e no restava sobrevivente."
Engasgara, mas a essa altura Ney Braga, j 
escolhido para ministro, movia-se nos bastidores, sobretudo junto a
Golbery. Geisel viu Rangel Reis pela 
primeira vez na audincia em que o convidou. O SNI, que
habitualmente dispunha de alguns dias para verificar 
o passado dos candidatos, teve uma hora para liberar o nome do novo
ministro do Interior. 
Geisel acreditava que o Ministrio do Trabalho no lhe custaria
esforo. Pretendia nomear o advogado 
Arnaldo Sussekind, que ocupara o 
107 Novo Exerccio sobre a Composio do Governo Geisel, nota
manuscrita de Heitor Ferreira, datada de 10 de 
outubro de 1973. APGCS/HF. 
108 Dirio de Heitor Ferreira, 2 de janeiro de 1974. A sugesto foi
do general Carlos de Meira Mattos. Para 
"Pare11i' conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 3 de
janeiro de 1974. APGCS/HF. 109 Ernesto Geisel, 12 
de maro de 1995, e Dirio de Heitor Ferreira, 21 de janeiro de
1974. 
110 Os seis cogitados foram: Reis Velioso, Alacid Nunes, Severo
Gomes, Dyrceu Araujo Nogueira, Euler 
Bentes Monteiro e Moura Cavalcante. 
304 A DITADURA DERROTADA 
cargo no governo Castelo Branco. Sussekind detestava Braslia,
tivera problemas de sade e fizera saber a 
Golbery que no aceitaria o convite. Nada feito. Geisel regia-se
pela regra de Machado de Assis segundo a 
qual "ministrio no se rejeita" Convidou-o e recebeu a nica recusa
da rodada. Para o lugar foi o deputado 
gacho Arnaldo Prieto, amigo de Bernardo, irmo mais velho do futuro
presidente. 
Ao contrrio do que se supe olhando de fora e do que se pensa
estando dentro, os ministrios se formam 
numa dinmica que se autoinfluencia. Ueki ia para a Indstria e
Comrcio, mas caiu no Ministrio de Minas e 
Energia porque pouco menos de um ms antes da posse Geisel se deu
conta de que devia reforar a base 
paulista do gabinete. A sada de Delfim, sua substitujo por um
carjoca e a certeza de que disputaria o 
governo de So Paulo prenunciavam dificuldades que convinha
prevenir. Tinha dois ministros paulistas, Dale 
Coutinho e Ueki, mas um era general e o outro, mesmo nascido em
Bastos, japons. Como o problema estaria 
na ausncia de paulistas no comando econmico, o remdio era
entregar a cadeira da Indstria e Comrcio. E 
assim, em menos de uma semana, escolheu-se o empresrio Severo
Gomes, ministro da Agricultura nos ltimos 
sete meses de Castello, homem elegante e divertido, industrial
txtil e criador de bfalos. Estivera nas listas de 
Heitor Ferreira, ora na Agricultura, ora no Interior. Geisel vira
nele "um sujeito bom"i'1 Severo qualificara-se 
tambm por suas ligaes com a banca paulista e com o jornal O
Estado de S. Paulo.112 Chamava os 
Mesquita pelo primeiro nome e, se isso fosse pouco, sentava-se no
conselho de administrao do Banco 
Mercantil de So Paulo, de Gasto Vidigal. 
No final da tarde de quinta-feira, 21 de fevereiro, a dois dias do
Carnaval, o coronel Moraes Rego convocou a 
imprensa e leu a composio 
do ministrio. O primeiro nome anunciado foi o de Golbery.
Seguiram111 Conversa de Geisel com Golbery, 18 
de dezembro de 1973. APGCs/HF. 
112 Nota manuscrita de Geisel a Heitor Ferreira, 19 de fevereiro de
1974. Nela Geisel escreveu 
lando com Paulo Egydio sobre Severo Gomes", e Heitor acrescentou:
"Qual a posio em relao 
aos vrios grupos de So Paulo. Com Estado?' Conversa de Geisel com
Paulo Egydio Martins, 
19 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 
A EQUIPE 305 
se os chamados "ministros da Casa", os da rea econmica e, depois
deles, em nono lugar, o da Justia: 
Armando Ribeiro Falco. O embaixador Antnio Francisco Azeredo da
Silveira, novo chanceler, foi o 162 numa 
relao de dezenove. Isso nunca acontecera antes, nem aconteceria
depois, Os nomes foram listados sem 
respeito algum pela ordem de precedncia do cerimonial. Se a
tivessem respeitado, Falco seria o primeiro e 
Silveira o quarto, logo aps os ministros da Marinha e do Exrcito. 
Jogo de fichas 
A desordem da lista passou despercebida. Poderia ter parecido uma
banalidade, mas havia mtodo na barafunda de nomes e 
cargos. Trancado com Golbery, Heitor e Moraes Rego, Geisel consumira
boa meia hora embaralhando a relao de nomes, 
com o propsito de evitar que seu ministrio sasse com Falco na
cabea e dois ministros militares sanduichados entre ele 
e Silveira.1 Logo os dois indigestos. Algumas escolhas causaram
desconforto  equipe de Medici, mas a Censura se 
encarregara de impedir que o ressentimento aflorasse. Proibira
"opinies de ministros de Estado e outras autoridades do 
atual governo sobre pessoas indicadas para integrar o ministrio do
presidente Geisel"2 
A indigesto provinha da biografia de cada um. Armando Falco, um
produto tpico da associao da poltica nordestina 
(no seu caso, a cearense) com a mquina previdenciria do Rio de
Janeiro, fora ministro da Justia de Juscelino Kubitschek. 
Azeredo da Silveira, o Silveirinha, tinha a hostilidade da direita
do Itamaraty e cinco anos antes vetara-se sua indicao 
para a Secretaria Geral do Ministrio. Encurralado pelas presses 
1 Mao de seis folhas, intituladas por Heitor Ferreira Rascunho da
Nota Lida no Largo da Misericrdia, de 21 de fevereiro 
de 1974. A primeira folha tem s os cargos, listados pela ordem de
precedncia do cerimonial. Heitor preencheu-a, 
numerando-a de forma que Falco ficava em 15 lugar e Silveira em
penltimo. Uma segunda folha, datilografada nessa 
ordem, foi alterada por Golbery, que transferiu Silveira para o 12
lugar. Essa verso foi datilografada e novamente alterada, 
dessa vez por Geisel, que passou Falco para o nono lugar, deixando
Silveira em 16v. APGCS/HF. 2 Uma folha, vinda do 
fichrio de ordens da Censura, compilada pela redao do Jornal do
Brasil, datada de 2 de fevereiro de 1974, 
posteriormente anotada por Geisel e Golbery. APGCS/HF. 
308 A DITADURA DERROTADA 
dos inimigos, acabara embaixador em Buenos Aires. Os dois davam ao
ministrio um toque de surpresa. 
Quando o nome de Falco comeou a circular, chegou-se a pensar que
fosse brincadeira. Eram controvertidos, 
porm tenazes. Isso os diferenciava de todos os colegas. No haviam
sido ministros de governos da ditadura, 
como Ney Braga e Severo Gomes, nem eram politicamente irrelevantes
como Rangel Reis e Almeida Machado. 
Sem eles, Geisel produzira um ministrio bvio, quase trivial. Com
eles, prenunciava novidades e at audcia. 
Castelo Branco escolhera um ministrio de notveis, selecionado na
elite combativa da diviso ideolgica de 
1964. Dez anos depois, o melhor do velho conservadorismo parlamentar
distanciara-se do regime. Adaucto 
Lcio Cardoso deixara o Supremo Tribunal e advogava contra a censura
do semanrio Opinio. Aiiomar 
Baleeiro criticava o AI-5. Mesmo os heris do passado comportavam-se
de forma diversa. O marechal Juarez 
Tvora, dolo do tenente de 1930, chefe do coronel de 54 e colega de
palcio de 64, defendia publicamente a 
normalidade democrtica.3 O brigadeiro Eduardo Gomes, sempre bonito
e solteiro, dizia aos cadetes da FAB 
que "s a liberdade cria valores estveis'4 Cordeiro de Farias
sugeria a Geisel que lanasse no discurso  
Arena um apelo de unio nacional.5 Muricy denunciava a existncia de
uma "mentalidade policialesca que vem 
se firmando dentro dos rgos de segurana das Foras Armadas".6 At
o general Albuquerque Lima falava 
em "restaurao da Liberdade e do Direito", e atacava:7 "O Brasil
atual vive sob o signo do SNI, malconduzido 
e pessimamente compreendido como rgo de informaes,  seme3
Entrevista a O Estado de S. Paulo de 4 de 
maio de 1973, p. 5. 
4 Veja, 5 de julho de 1972, p. 20. 
5 Uma folha datilografada, intitulada por Heitor Ferreira
Contribuio do Marechal Cordeiro Entregue ao General 
Golbery. APGCS/HF. 
6 Conversa de Geisel com Golbery, Heitor Ferreira e Moraes Rego,
lendo um papel recebido de 
Antonio Carlos Muricy, 8 de maro de 1974. APGCS/HF. 
7 Carta do general Affonso de Albuquerque Lima a Geisel, de 7 de
junho de 1973. APGCS/HF. 
JOGO DE FICHAS 309 
lhana do que ocorreu com a Gestapo de Hitler, que prende e persegue
os que no esto na sua graa"8 
O estreitamento da ditadura estimulara a ascenso de burocratas
conhecidos e parlamentares de segunda 
linha. Magalhes Pinto, o nico grande poltico do gabinete de Costa
e Silva, foi encostado no Itamaraty. No 
ministrio de Medici s o coronel Costa Cavalcanti tivera
experincia parlamentar, e ainda assim se mantivera 
no cargo por militar, no por ex- deputado. Criara-se uma rede de
restries que estigmatizava a atividade 
poltica. Dela resultava um processo de recrutamento da hierarquia
pelo qual quem j tivesse sido, poderia 
voltar a s-lo (Ney Braga e Severo Gomes). Fora da, era sempre mais
seguro recorrer ao plantel de tcnicos 
ignotos (Ueki e Paulinelli). Espremidos entre esses dois blocos,
como numa modalidade de danados do inferno, 
ficavam pessoas que por uma razo ou por outra haviam sido marcadas
pela controvrsia. Falco e Silveira 
levaram Geisel ao primeiro choque com a Comunidade de Informaes. 
Armando Falco era ao mesmo tempo o poltico profissional que o
regime pretendera aposentar e o poltico 
profissional reciclado, exemplo de uma nova ordem. A estava seu
indigesto paradoxo. Cearense de 
Quixeramobim, comeara a vida no Rio de Janeiro com um terno de
caro, um primo ministro e um emprego na 
previdncia. Estivera em todas. Esquerdista em 1935, germanfilo em
39, petebista em 50, lacerdista em 54, 
antilacerdista em 56 e ministro de Kubitschek em 599 Sua
sinuosidade tinha duas caractersticas: a opo pela 
direita e a preferncia pela ferocidade. Dotado de uma grande
capacidade de expresso verbal, e at mesmo de 
algum estilo na escrita, era um charmeur na corte e um carrasco no
calabouo. Sara do governo Kubitschek 
com um rendoso, vitalcio e hereditrio cartrio de registro de
imveis da Zona Sul do Rio de Janeiro. Conhecia 
meio mundo e conseguia se tornar amigo de infncia de quem quer que
fosse. Bem relacionado na imprensa, 
era informado por empenho e mexeriqueiro por temperamento.' 
8 Carta do general Affonso de Albuquerque Lima a Golbery, de 24 de
dezembro de 1973. APGCS/HF. 
9 Armando Falco, Tudo a declarar, pp. 19,41,83, 88-9, 129, 161 e
segs. 
10 Um mexerico exemplar de Falco pode ser encontrado na sua
descrio das Circunstncias da 
morte do amigo Augusto Frederico Schmidt. O poeta morreu em 1965.
Segundo a verso publi- 
310 A DITADURA DERROTADA 
Havia nele o alvoroo da vivandeira." Falco exibia na biblioteca de
seu apartamento as placas de madeira e metal com que 
os comandantes de quartis presenteiam visitantes ilustres. Sua
reapario poltica foi resultado da tenacidade. Soubera 
fazer-se lembrar. Mandava carto de Natal a Geisel em 1967, quando o
futuro poltico do general no valia o selo, e estivera 
com ele em outubro de 73. Visitava Golbery com freqncia, e vinham
discutindo formas de melhorar o relacionamento 
com a Igreja e com a imprensa. Em campanha, intermediava contatos e
cortejava jornalistas. 
At a primeira metade de novembro, o favorito para o Ministrio da
Justia fora o senador Antnio Carlos Konder Reis, 
um poltico reservado, cauteloso e aplicado, produto da oligarquia
catarinense. Impressionara Golbery com seu projeto de 
reforma constitucional capaz de revogar o AI-5. (Geisel viria a
receber uma informao do SNI segundo a qual Konder Reis 
era um dos seis senadores que, em 1968, assinaram um telegrama a
Costa e Silva condenando o AI-5 e, doze dias depois, 
outro a favor. A informao era falsa.)'2 Na segunda metade de
novembro, Falco almoou com Golbery. A essa altura, o 
general tratava como uma brincadeira a idia de coloc-lo no
ministrio.'3 Aps alguns dias, o general Joo Baptista 
Figueiredo e Heitor Ferreira tiveram um de seus demorados encontros
no apartamento do general, no Rio. Como de hbito, 
Heitor anotava os principais tpicos numa folha de bloco. A certa
altura, Figueiredo disse: "O ministro da Justia tem que 
ser o Falco" Heitor mi- 
cada na poca, sentiu-se mal quando passava de carro pelo Aterro do
Flamengo, pediu ao motorista que o levasse ao 
apartamento de seu amigo Julio Barbero, no Leme, e l um colapso
cardaco matou-O. Em seu livro de memrias, Falco 
informa que "apurei os fatos, com absoluta segurana", e estabelece:
"Lia o ltimo poema de sua autoria, no Ciclo da 
Moura, para uma admiradora platnica". Armando Falco, Tudo a
declarar, p. 194. 
11 Qualificativo usado pelo general Gustavo Moraes Rego no seu
depoimento em A volta aos quartis, organizado por 
Maria Celina d'Araujo, Glucio Ary Dilion Soares e Celso Castro, p.
52. 
12 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 29 de janeiro
de 1974. APGCS/HF. Para os signatrios dos telegramas, 
Jayme Portella de Melo, A Revoluo co governo Costa e Silva, pp.
664 e 682. 13 Conversa de Golbery com Geisel, 23 de 
novembro de 1973. APGCS/HF. Nesse almoo estava o presidente da
Cmara dos Deputados, Flvio Marclio. Ele sugeriu a 
Golbery o nome de Falco para o Ministrio da Justia, e o general
lhe disse: "Esse  o nosso mestre.  o meu mestre". 
Depois, contou a conversa a Geisel, como piada. 
JOGO DE FICHAS 3H 
biu-se e escreveu: "um Falco"i4 (Nessa poca a palavra falco
designava tambm os polticos e militares 
americanos que pretendiam ampliar a Guerra do Vietn. Era sinnimo
de dureza.) 
Ao se despedirem, Heitor repassou para Figueiredo os tpicos que 
anotara. Figueiredo emendou: "Bem, quer dizer, um camarada do tipo")
"Eu quase ca da cadeira", disse Heitor a Golbery quando lhe narrou
a conversa, O general aceitou 
imediatamente a idia. Elogiou Konder Reis, mas ressalvou: "No  um
homem experimentado em certas coisas. 
No  provado, O outro . O outro ns no temos dvida. Era um
sujeito que ia funcionar mesmo''6 Geisel o 
conhecia desde que, juntos, operaram o combate a um surto de greves
ocorrido no final do governo 
Kubitschek.'7 A lembrana soprou o fogo: "O Armando Falco 
suficientemente inteligente. E  combativo e 
esperto para fazer o que a gente quer. Todo mundo vai se arrepiar")8
Em janeiro, diante do convite, Falco confirmou a expectativa:
"Presidente, sei muito bem que ministro no tem 
programa. O programa  do presidente. Como dizia Rodrigues Alves, o
ministro faz tudo o que quer, menos o 
que o presidente no quer")9 (Tiro certo: naqueles dias, Geisel lera
uma biografia de Rodrigues Alves e se 
encantara com essa frase.) 
A escolha de Falco ofendera a memria dos "fritadores de bolinhos"
dos anos 50. Aquilo que outrora 
parecera oportunismo ao coronel Golbery, continuava a ser
oportunismo para pessoas prximas a Geisel, como 
o coronel Moraes Rego.2 Era um bom nome pelo que fizera como
ministro de JK, e, exatamente pelo que fizera
como ministro de JK, era in 1
Nota de Heitor Ferreira, intitulada Conversa Heitor Ferreira com
Figueiredo, 26 de Novembro
de 1973, 20,35. APGCS/HF.
15 Conversas de Heitor Ferreira com Golbery, 30 de novembro de 1973,
e com Geisel, 3 de dezembro de 1973. APGCS/HF.
16 Conversa de Heitor Ferreira com Golbery, 30 de novembro de 1973.
APGCS/HF.
17 Ernesto Geisel, maro de 1995.
18 Reunio de Geisel com Figueiredo, 9 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF.
19 Armando Falco, Tudo a declarar, p. 324.
20 Depoimento do general Moraes Rego, em A volta aos quartis,
organizado por Maria Celina
d'Araujo, Glucio Ary Dillon Soares e Celso Castro, p. 52.
312 A DITADURA DERROTADA
digesto para os antigos adversrios. A ficha de Falco no SNI
registrava o papel dele na conspirao de 1964 e
listava algumas restries. Uma delas relacionava-se com um caso de
falncia. No se conhece o seu texto,
apenas uma curta observao de Heitor Ferreira a Geisel depois de
terem-na lido: "No  to ruim'21
O general decidiu bancar a escolha. 
O embaixador Antnio Francisco Azeredo da Silveira, Silveirinha,
tivera um cabo eleitoral discreto e 
eficiente. Desde maro de 1972, quando Geisel no tinha idia de
quem seria seu chanceler, o chefe-de-
gabinete do ministro do Exterior, Drio Castro Alves, mandava a
Heitor Ferreira uma seleta de telegramas 
enviados pelos embaixadores ao Itamaraty. 22 Desses envelopes,
chamados "papis do Rei", e dos contatos 
quase semanais entre os dois amigos, resultou que, enquanto esteve
na Petrobrs, Geisel teve naquela janela o 
nico posto de observao privilegiada do que acontecia na rea
civil do governo Medici. Foi das poucas 
pessoas a saber com antecedncia que o presidente Nixon receberia o
ministro Delfim Netto na Casa Branca, 
ou mesmo que o apoio brasileiro ao colonialismo portugus na frica
aumentava o risco de uma suspenso do 
fornecimento de petrleo pelos pases rabes.23 Quando o processo de
escolha entrou na reta final, Drio 
abriu-se com Heitor: "Minha torcida  por Silveira, pois sou a
pessoa de maior confiana dele na minha 
categoria. Claro, se ele vier, o controle do Jtamaraty por vocs e
ele, e com a minha colaborao direta, seria 
total"24 No incio de dezembro, Geisel conversara por quase duas
horas com o embaixador. Silveira teve um 
desempenho brilhante, mostrando conhecimentos tcnicos e segurana
doutrinria na complexa questo da 
encrenca criada pelo governo argentino, que se opunha  construo
da hidreltrica de Itaipu.25 
21 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974, e
de Geisel com Golbery, 30 de 
janeiro de 1974. APGCS/HF. 
22 Para o incio da remessa dos telegramas e para o fato de Geisel
no ter nome para a chancelaria, Dirio de 
Heitor Ferreira, 26 de maro de 1972. 
23 Para Nixon, Dirio de Heitor Ferreira, 26 de julho de 1972. Para
o boicote, telefonema de Drio 
Castro Alves a Heitor Ferreira, 21 de novembro de 1973. APGCS/HF. 
24 Carta de Drio Castro Alves a Heitor Ferreira, de 7 de fevereiro
de 1974. APGCS/HF. 
25 Reunio de Geisel com Azeredo da Silveira, 5 de dezembro de 1973.
APGCS/HF. 
JOGO DE FICHAS 313 
Tinha 56 anos, trinta de carreira, com mais de dez postos no
exterior. No fazia o gnero do diplomata de salo. 
Era pequeno, estridente e falava sem parar. Conhecia como ningum a
mquina do Itamaraty e passara seis 
anos entre a chefia da Diviso do Pessoal e do Departamento de
Administrao. Com o poder desses dois 
cargos fizera todos os amigos e inimigos a que a vida lhe daria
direito. Silveirinha era irredutvel em suas 
lealdades e insupervel nas vinganas. Tinha uma cultura utilitria,
acompanhada por um egocentrismo que lhe 
permitia formular teorias com a naturalidade de quem manuseia um
catlogo de ferramentas. Havia nele um 
nacionalismo assustador, quase xenfobo. Ningum o julgava pelo que
pensava, mas pelo que fazia. 
Logo depois da conversa, Geisel resumira-o: "Ele no  bobo no. Eu
acho que ele  um dos melhores de 
cabea, do ponto de vista diplomtico. Agora, ns tnhamos que ver a
vida dele, aquela srie de acusaes 
que faziam com ele".26 
Da srie mobilizada contra Silveira, so conhecidos trs papis.
Como Geisel obtinha as fichas de seus 
provveis colaboradores por meio de uma gambiarra montada com a
ajuda do chefe da agncia do SNI no Rio 
de Janeiro, nenhum dos trs tem timbre. Dois foram produzidos no
Ministrio do Exrcito, e um saiu do SNI. 
Formam o nico conjunto completo de fichas de um nome cogitado para
o ministrio, O primeiro, e mais 
detalhado, chegou em janeiro, mandado por Orlando Geisel, que
detestava Silveira. 
Dizia: 
1) Brilhante, excelente profissional, competentssimo, hbil
negociador. 
2) a) de 59 a 61 - Chefe do Departamento Administrativo do
Itamaraty. 
[...] 
b) de 61 a 63 Cnsul-Geral em Paris. [...] 
c) de 63 a 66 - Voltou a ser chefe do Departamento de Administrao.
Em 64 foi promovido a ministro de 
primeira classe, por influncia de 
Almino Afonso. Tinha ligaes com o governo Tango, envolvido por um 
26 Conversa de Geisel com Go1ber> Moraes Rego e Heitor Ferreira, 6
de dezembro de 1973. APGCS/HF. 
314 A DITADURA DERROTADA 
irmo que era comunista (obteve para o irmo passaporte especial
para viajar a Cuba, onde esse irmo foi eleito 
presidente da associao internacional de arquitetos). Trocou
correspondncia com Tango, essa 
correspondncia foi interceptada e est arquivada no SNI. 
d) Quando da Revoluo de 64 sua situao no Itamaraty teria sido
contornada, segundo duas verses: 
1 - Foi defendido pelo ministro das Relaes Exteriores Vasco Leito
da Cunha, que intercedeu tambm por Sette Cmara, Nogueira Porto e
Celso
Diniz, conhecidos na Casa como esquerdistas.
28 - Teria sido amigo do presidente Castello Branco.
e) De 66 a 69 foi chefe da delegao em Genebra.
f) Em princpios de 69 foi convidado pelo ento ministro Magalhes
Pinto para o cargo de secretrio-geral do
Itamaraty. Regressou de Genebra mas no tomou posse por
interferncia do SNI, sendo ento designado
embaixador em Buenos Aires, cargo que ocupa atualmente.27
Uma informao era falsa: Silveira no estivera na lista dos
diplomatas que poderiam ter sido cassados em
1964.28 A ficha tinha uma s acusao letal. Bastaria que aparecesse
uma nica pea de correspondncia do
embaixador com Jango para que ele fosse desqualificado, mas Geisel
queria v-la. Pediu-a em quatro ocasies
diferentes. Heitor Ferreira saiu no rastro da denncia, e aquilo que
era um documento com base no qual seria
julgado um provvel ministro, transformou-se num instrumento de
avaliao da mquina de informaes do
governo. Heitor perguntou pelas cartas ao chefe da Agncia Rio do
SNI e ouviu que elas deviam estar no
arquivo. Passou-se uma semana sem que as achassem. Acharam o autor
da acusao. Era um oficial da
Marinha lotado no SNI. Admitiu que as cartas no estavam no Servio,
mas assegurou que existiam. Tratavam
de uma nomeao para o setor comercial da embaixada em Roma,
27 Uma folha manuscrita, anotada por Heitor Ferreira: Papel que Veio
do Orlando [Geisel], Letra
do Ivan?, datada de 27 de dezembro de 1973. APGCS/HF.
28 Observao de Geisel, numa conversa com Golbery, Heitor Ferreira
e Moraes Rego, de 17 de
janeiro de 1974. APGCS/HF.
JOGO DE FICHAS 315
mas no se sabia se eram cartas de Silveira a Jango ou de Jango a
Silveira. 29 Se a correspondncia fora
interceptada e arquivada no SNI, estava implcito que Silveira se
entendera com Goulart depois de sua
deposio. Falso. Descobriu-se que o funcionrio fora nomeado em
1962. O autor do pedido fora Leonel
Brizola, e no Jango. No se sabia ao certo se o destinatrio era
Silveira, muito menos se o que se chamara de
"correspondncia" era uma carta ou um simples telegrama.
E Seria razovel supor que diante da trapalhada Silveira fosse
deixado em paz, mas deu-se o inverso. A
Comunidade contra-atacou. O chefe da Agncia Rio do SNI sugeriu a
Heitor Ferreira que localizasse um dossi
guardado no CIE. Nele haveria segredos da vida do embaixador.
Pressionado, o coronel Murgel passou da
condio de oficial de informaes para a de mexeriqueiro: informou
que a morte de uma das filhas do
embaixador, ocorrida poucos anos antes, em Roma, parecia "meio
fantasiada' porque a jovem senhora teria
sido eletrocutada pela descarga de uma escova eltrica.30 (Na
realidade, ao escorregar numa banheira cheia
d'gua, ela se agarrara  fiao da parede e, ao cair, fora morta
pelo curto-circuito). Cartas, nada.
A essa altura, Geisel decidira ultrapassar as restries da
Comunidade. Quando o SNT se meteu na dor que
Silveira carregava, tocou na corda sensvel da morte do filho do
coronel de Quitana. O embaixador e sua
mulher perderam no s a filha morta em Roma, grvida, mas tambm
outra, assassinada pelo marido, diante do
filho.
Faltavam poucos dias para o anncio do ministrio, e o general
Figueiredo entregou a Geisel outra ficha do
embaixador, baseada em investigaes feitas na infncia do SNI,
durante o governo Castello Branco.  um
exemplo da estrutura e da linguagem das fichas do Servio.
Dizia:
29 Telefonema de Heitor Ferreira a Adolpho Murgel, 5 de fevereiro;
conversa com Figueiredo, 6
de fevereiro de 1974, e telefonema de Murgel a Heitor, 7 de
fevereiro de 1974. APGCS/HF. Duas notas manuscritas
de Heitor Ferreira, uma delas datada de 7 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF. O pedido relacionava-se com Giacomo
Mandarino, ex-secretrio particular de Batista Lusardo.
30 Telefonema de Adolpho Murgel a Heitor Ferreira, 9 de fevereiro de
1974. APGCS/HF.
316 A DITADURA DERROTADA
Antonio Francisco Azeredo da Silveira
DLN - 22 set 1917 - Rio de Janeiro (GB)
Filiao: Flavio da Silveira e Lea Maria Azeredo da Silveira.
Posto: Ministro de Primeira Classe do Quadro Permanente do
Ministrio das Relaes Exteriores.
Funo: Embaixador do Brasil na Argentina.
Aspecto funcional: Um dos melhores conhecedores da parte
administrativa do Itamaraty.
Foi chefe do Departamento de Administrao do Itamaraty antes e
depois da Revoluo de Mar 64.
Tal departamento  uma funo-chave no MRE, porque lhe cabe a
responsabilidade de remoo dos funcionrios,
designao pelos departamentos e divises, poder seletivo para
promoes, manuseio de verbas, inclusive a Verba Secreta,
isenta de fiscalizao do Tribunal de Contas.
Fonte: Comisso de Sindicncia no Ministrio das Relaes
Exteriores. (24 Out 64)
Homem de Joo Goulart, que nomeou o marginado chefe do Departamento
Administrativo do Itamaraty. Movimenta todo
o pessoal do MRE e manobra com as verbas tanto em cruzeiros como em
dlares. Elemento corruptor de jovens
inexperientes do MRE, face ao poder que enfeixa em suas mos. Abusou
de sua posio para favorecer o irmo, Flavio Leo
Azeredo da Silveira, elemento suspeito por suas atividades
internacionais ligadas aos comunistas. Como presidente da
Comisso de Promoes permitiu que na organizao do quadro de
acesso fosse obedecida uma orientao tipicamente
comunista para as promoes que se viriam a processar em 1964.
Aspecto poltico Dotado de grande mimetismo poltico. No tinha
escrpulo de indicar para postos importantes, do
Itamaraty, elementos reconhecidamente de esquerda.
Aspecto moral - Carter fraqussimo, sem escrpulos, egocntrico. 
Inteligncia privilegiada, muito viva, bem acima do normal. Conceito
social: muito bem relacionado, possui enorme encanto 
pessoal. 
JOGO DE FICHAS 317 
Aspecto religioso - catlico. 
Aspecto econmico-financeiro - x x x 
Aspecto cultural - x x x 
Aspecto sanitrio - x x x 
Outros aspectos - 
[...j Em 1966, aos 49 anos de idade e 23 de servios na carreira
diplomtica, era sem dvida alguma um dos embaixadores 
que atingiram o posto mximo da hierarquia itamaratiana, numa idade
onde muitos ainda esto a se iniciar. Com o manejo da 
mquina do DA, sobressaa na distribuio de favores a polticos
poderosos e tambm somas monetrias principalmente a 
jornalistas. [...] 
 criatura insinuante, extremamente inteligente e astuto e, no campo
profissional, um funcionrio competente, imensamente 
relacionado, inclusive atravs da indstria de favores polticos em
que transformou o DA da Casa. [...j 
Tpico da atuao do embaixador Silveira  o caso da compra de uma
casa relativamente velha numa parte afastada da 
cidade de Washington, para instalao, ali, da chancelaria da
embaixada do Brasil, mas pessimamente colocada e sem 
condies para perfazer esta finalidade. Adquirida por 250 mil
dlares foi, de certa forma, abandonada, durante uns dois 
anos. O senhor Leo da Silveira, arquiteto de medocre reputao,
irmo do embaixador Antonio Azeredo da Silveira e 
"cliente" contumaz das generosidades do Itamaraty, passou por
Washington e, sem autorizao do embaixador, avocou a si 
a iniciativa de elaborar e, eventualmente, executar os projetos de
reforma do prdio velho [...].31 
Silveira no comprara uma casa, mas o terreno vizinho ao palacete
onde vivia o embaixador, adquirido em 1934 por 
Oswaldo Aranha. Desenhado nos anos 20 por John Russeil Pope, o maior
arquiteto americano de seu tempo, era um 
patrimnio cultural da cidade. No novo lote construra-se o prdio
da chancelaria, dando ao conjunto uma conveniente 
31 Cinco folhas sem marca de origem. A primeira tem o visto de
Geisel. APGCS/HF. Esse documento veio do SNI. 
318 A DITADURA DERROTADA 
funcionalidade. No ficava longe (a meia hora da Casa Branca), muito
menos era mal localizado (a duzentos metros da embaixada britnica).
As presses militares contra Silveira artilharam-se no gabinete do
ministro do Exrcito. Num caso indito na 
composio de sua equipe, Geisel permitiu que Figueiredo discutisse
o assunto com Medici. "No Itamaraty 
uns se destruam aos outros' respondeu o presidente.32 
Naqueles dias Geisel recebera um documento sem assinatura
descrevendo seis dos provveis ministros das 
Relaes Exteriores de seu governo. Acusava Silveira, "cuja
instruo sistemtica , apenas, primria' de ter 
cuidado, em Paris, de negcios pessoais de Jango.33 Dias depois,
chegou ao general outro papel, assinado 
pelo diplomata Jos Maria Vilar de Queiroz, ex-assessor de Roberto
Campos e chefe da rea internacional do 
Ministrio da Fazenda. Nele, Silveira era homem "de grande
inteligncia, perspiccia, capacidade de trabalho e 
experincia na poltica multlateral e bilateral'24 
As dificuldades surgidas com Silveira e Falco foram produto de suas
biografias, mas essas mesmas trajetrias 
os fizeram ministros. Nos dois casos, por terem construdo fama de
operadores. Silveira deveria sacudir uma 
diplomacia anacrnica cujos fundamentos remontavam a 1964. Falco
deveria sacudir o marasmo poltico. De 
seu primeiro encontro com Geisel, sara com a encomenda de botar por
escrito algumas idias. Preparou cinco 
documentos. Um tratava do "problema da liberdade de manifestao do
pensamento e de informao' Outro, 
do "problema da Igreja".35 Em suma, do futuro da ditadura. 
32 Telefonema de Figueiredo a Heitor Ferreira, 7 de fevereiro de
1974. APGCS/HF. 
33 Sete folhas datilografadas, visadas por Geisel e anotadas por
Golbery: "Annimo, trazido 
por...' Heitor Ferreira completou: "Vilar de Queirs' APGCS/HF. Numa
conversa com Geisel, Moraes Rego e Heitor 
Ferreira, de 19 de fevereiro de 1974, Golbery conta que "a carta
annima no 
 dele' Menciona que a recebeu de Vilar e a passou para Geisel, que
mostrou a carta ao senador 
Vitorino Freire. APGCS/HF. 
34 Carta de Jos Maria Vilar de Queiroz a um "prezado senador",
visada por Geisel. APGCS/HF. 
35 Armando Falco, Tudo a declarar, p. 324. 
E 
"Esse troo de matar" 
De todas as conversas com seus futuros ministros, a mais demorada e
reveladora foi a que Geisel 
teve com o general Dale Coutinho no dia 16 de fevereiro de 1974, um
ms antes da posse. Eram 
velhos conhecidos, sem intimidades. Comearam-na tratando de
assuntos aparentemente triviais, 
como o casamento recente de Coutinho, tirado da solido da viuvez
por uma senhora vinte anos mais 
moa. O general contou que pensara em afastar-se mas decidira
pedi-la em casamento. 
"Muito melhor voc casar do que voc ter uma vida irregular",
disse-lhe Geisel. 
"Pela minha formao que meus pais me deram, me repelia uma outra
situao que no o 
casamento. Eu achava injusto, eu gostando dela, eu no poder
apresent-la, isto  uma humilhao 
para ela' respondeu o general. 
Passaram  safena de Coutinho. Ele reportou que seguia uma dieta e
fazia exerccios em dias 
alternados, pedalando uma bicicleta ergomtrica. Levava sua pulsao
a 120 em dez minutos. 
Esgotadas as duas questes extracurriculares, Geisel convidou-o para
o Ministrio do Exrcito e 
engatou uma dissertao poltica. Louvou os xitos da Revoluo e
foi ao tema: 
Na rea poltica continuamos com a mesma droga. [...] Todos ns, de
um modo geral, temos uma 
repulsa ao poltico, mas o poltico  necessrio. Ns no podemos
ter os polticos s para dar uma 
fantasia, quer dizer, no 
320 A DITADURA DERROTADA 
vamos ter o poltico para chegar no dia l e votar no general Geisel
ou votar no Medici. No ? Ou chegar no dia tal e votar 
a lei que o governo quer. Quer dizer, isso tem que evoluir. Eu no
vou fazer, eu vou ver se consigo fazer um esforo para 
melhorar esse pas, tem que trabalhar nesse sentido. No vou dar aos
polticos o que eles querem, no vou, no vou me 
mancomunar com eles, mas vou viver com eles, eu tenho que viver com
eles. Porque seno como ? Ns vamos, ns temos 
a outra alternativa, que  ir para uma ditadura. Ento vamos fechar
esse troo, vamos fechar Congresso, vamos fechar tudo 
isso e vamos para uma ditadura, que  uma soluo muito pior. No ?
Quer dizer, esse  um dos quadros em que a 
Revoluo, no meu modo de ver a coisa, fracassou. [...] Ora o
sujeito vai conversar com os polticos, ora dar coice nos 
polticos, fecha o Congresso, abre o Congresso, e vivemos nessa
porcaria. Temos que ver se melhoramos esse quadro, 
vamos ver se a gente consegue melhorar esse partido da Arena, vamos
ver se a gente d... porque em todo lugar onde voc 
chega  um saco de gatos. [...] 
O general ouvia em silncio. 
Eu, hoje em dia, tenho que pensar,  Coutinho. Admitindo que eu
consiga governar cinco anos. O que que vai ser nesses 
cinco anos? A quem eu vou passar e como  que eu vou passar isso?
No  verdade? Eu muitas vezes dizia ao Castello, 
digo: "No adianta o senhor estar fazendo lei, isso e aquilo, sem
pensar como vai ser depois' [...j Ns vamos pensar em 
eternizar esse quadro que est a? No pode. Passaram-se dez anos
[...] voc pega, analisa essa nossa Revoluo, e voc v 
que ela foi uma coisa que eu chamei muitas vezes de arca de No,
entraram todos os bichos l dentro: como ela tambm no 
durou na sua parte operacional, no houve depurao. Voc teve como
lderes polticos, teve o seu Lacerda, teve o seu 
Magalhes Pinto, teve o seu Adhemar de Barros. [...] Na rea militar
voc teve Justino Alves Bastos, voc teve Amaury 
Kruel e teve uma srie de outros. No ? Ento a comeou a primeira
salada. Acabou o Lacerda se juntando com Juscelino 
e com Jango. No ? O Magalhes Pinto, que  um grande
revolucionrio e no sei o qu, era um sujeito que comia tambm 
no cocho do Jango. Foi muito tempo o homem do Jango. Voc pega os
outros revolucionrios da rea 
"ESSE TROO DE MATAR" 321 
civil, e voc repara que eles esto quase todos contra ns. Voc
pega o Aliomar Baleeiro, era lder 
revolucionrio, no era? Pega Adaucto Lcio Cardoso. Pega o meu
amigo Daniel Krieger. Liberal, porque no 
sei o qu, porque isso, porque o Ato 5. [...] Voc no conta com
essa gente, no ? Esses so piores do que os 
outros. Porque eles, por personalismos, por vaidade, abandonaram o
barco, querem fazer bonita figura. Ento, 
voc no pode hoje em dia estar dizendo s: " revolucionrio, no 
revolucionrio": Se voc or azer essa 
iagem, aca'ba quase soirn'ho. 
Dale Coutinho foi seco: "Na rea poltica s houve decepes para 
,, 
mim. 
GEISEL: Mas, olha aqui, no houve de nossa parte a preocupao de
melhorar. No houve. Tanto o ,overno do 
Costa e Sva como o do MedcX de ce cc sl& a\a.'xosso es corraa os
polticos se eu resolver no ter mais 
poltica. Mas isso no  mais possvel. Se ns queremos ter um
regime aberto, democrtico no pas algum dia, 
ns temos  que construir uma poltica, no ? Agora, isso
evidentemente  um trabalho ?erseyeante de s is 
No sou eu que vou dizer que em cinco anos 
tem que trabalhar para isso.  um trabalho difcil, persistente,
tenaz. Temos que ser realistas. 
COUTINHO: E, se Continuar sem uma abertura a, iss 
o vai ter que acabar numa ditadura mesmo. 
1':1J, X Sex, TI2L Ofle que vai parar? 
COUTINHO: A no pra mais. 
GEISEL: Inclusive, Coutinho, vamos pr a mo na conscincia, O nosso
Exrcito tem condio de durar numa 
ditadura? Com os fossos homens? Porque os fossos homens, dentro do
Exrcito tem muita gente boa, mas 
tambm tem muita gente que no presta. Voc sabe muito bem disso.
Tem de tudo, O Exrcito  de certa forma 
uma representao do que  a nao. Assim como tem gente boa l
fora, aqui dentro tambm tem.  claro que 
ns temos outra formao. Mas quantas vezes voc chega com o sujeito
l em cima e voc comea a ter uma 
sujeito individualista,  per 
322 A DITADURA DERROTADA 
sonalista. [...] O Exrcito pode manter uma ditadura? Eu acho que o
Exrcito pode manter uma ditadura, mas 
no a longo prazo. No dura. Outro setor onde a Revoluo no
conseguiu fazer nada e que est a, continua a 
mesma porcaria,  a Justia. Ns nunca tivemos ministro da Justia.
Olha aqui, o Castello botou o Milton 
Campos, um homem de primeira ordem, liberal. Olha aqui, quem foi
ministro da Justia durante grande parte do 
governo Castello fui eu. O Costa e Silva arranjou um ministro da
Justia que era revolucionrio mas era louco, 
o seu Gaminha.' Agora o Medici botou a um ministro da Justia que 
o qu?  muito bom sujeito, mas  
inoperante. [...] Voc tem problema de padre, que  um problema
srio, complicado. Voc hoje em dia tem 
problema de entorpecente. Voc continua a ter o problema da
subverso. Tem uma infinidade de problemas l. 
A palavra subverso acendeu a loquacidade de Coutinho: "Os
comandantes de exrcito esto sem um 
respaldo legal para esse problema. A verdade  essa. [... 1 Para a
guerra externa a gente tem legislao, mas para 
a nossa guerra especfica, no temos. Muitas vezes eu era obrigado a
deter um homem por mais de trinta dias. 
Era ilegal. [...] ". 
Geisel contornou o assunto: "Ns temos problemas na rea econmica.
[...] O Delfim, querendo fingir que no 
tem inflao, no deixa os preos seguir naturalmente. Ento, ele
agora no quer deixar subir o preo da 
gasolina como deve subir. Ele entrou na mentira. Ele est entrando
no sistema do Jango, subsdio [...]" 
"Est se voltando ao tempo do Juscelino", observou o general. 
Geisel continuou: "Tudo isso  a preocupao de criar a imagem do
Medici. Eu acho que o Medici no precisa 
disso. Foi o nico sujeito que conseguiu levar a Revoluo para o
povo. Ento ele no precisa dessa coisa. 
Mas  a entourage, o Delfim [...]. Hoje em dia existe um dique
represando a inflao, e esse dique vai romper 
quando eu for presidente. Ento eu sou ruim porque a inflao foi
para vinte e tanto. Mas eu estou aqui para 
isso, eu sou pago para isso, no  verdade? Eu no tenho razes
personalistas. No me queixo do Medici" 
1 Professor Luiz Antonio da Gama e Silva, ex-reitor da Universidade
de So Paulo. 
"ESSE TROO DE MATAR" 323 
Seguindo sua pauta, foi ao item seguinte: 
Eu no abro mo do Ato 5. O Ato 5  um cajado. Eu sou besta de abrir
mo desse negcio? Eu sei l o que que vem. Como 
essa histria de abertura e descompresso. Ah, eu sou um sujeito
profundamente democrtico. Toda a minha vida fui. Eu 
sempre fui um homem muito simples, despido de coisas, e cansei de ir
com minha mulher fazer compra na feira. Agora, no 
sou nenhum burro de amanh fazer uma vasta abertura, fingir a uma
democracia e depois ter que recuar dois, trs, quatro 
passos. Eu no vou recuar. Eu s vou caminhar para a frente,
devagar, para no ter que recuar, no ? Seria uma beleza eu 
chegar: no h mais censura, e agora o troo  vontade, e a Cmara
vota como quer, e no sei o qu. E no dia seguinte est o 
estudante fazendo baguna na rua, est o padre fazendo meeting, est
no sei o qu. No aconteceu isso com o Costa e 
Silva? Quer dizer, o Castello fez uma Constituio, convencido de
que aquilo era para valer, o Costa e Silva na sua boa 
inteno quis cumprir, e dali a pouco estava a esculhambao a. Os
estudantes foram inclusive apedrejar e pintar l o 
Tribunal Militar. Ento eu no vou voltar para trs. 
COUTINHO: Naquele AI-5, eu estava vendo que o presidente ia cair. Ia
cmdir a Revoluo. 
GEISEL: [...J  evidente. Brincaram tanto com o fogo, mexeram tanto,
tanto, tanto. Ou o governo faz um ato institucional, 
ou ento isso aqui vai 
virar baguna. [...] 
COUTINHO: Mas estavam dispostos a fazer com ele ou sem ele. [... 
GEISEL: Ele fez o AI-5 constrangido como o Castello fez o AI-2
constrangido, tambm. Porque por tendncia eles no 
fariam, eles foram quase que obrigados. Agora, eu no quero ser
obrigado. Quando for o caso, eu aplico. Porque se amanh 
tiver um ministro, um desembargador, no sei o qu, salafrrio,
fazendo um mundo de bandalheiras por a, e eu tiver as 
provas do troo, eu fao, porque eu tenho o AI-5. [...] Eu vou
aplicar  racionalmente, com moderao e com decncia e 
pronto. 
324 A DITADURA DERROTADA 
Finalmente, Geisel chegou ao ponto que Coutinho esperava: "Agora
vamos ver [...j o problema da subverso 
nossa. Bom, eu acho que a subverso continua. Esse negcio no se
acabou. Isto  um vrus danado que no 
h antibitico que liquide com facilidade. Est amainado. Est
resolvido. Voc v, de vez em quando h uma 
desarticulao, morre gente, ou  gente presa, ele continua a se
movimentar. [...j E fazem uma propaganda 
externa tremenda contra o Brasil' 
O general fechou a guarda: "[...j Repare o seguinte. Que antes de 64
no havia propaganda praticamente 
nenhuma contra ns. E ningum mais investia no nosso pas. Hoje, com
toda essa propaganda que h, quem 
tem, quer vir investir no Brasil, que  obrigado a fazer um estudo
mais detalhado sobre o nosso pas, ele no 
titubeia e vem. [...j" 
Geisel manteve-se na posio: "Temos que dar valor relativo a isso".
Dale Coutinho tambm: "A resposta  o nosso progresso. Porque isso
para mim  coisa de dom Helder, dessa 
turma progressista por a. Eu acho que ningum que tivesse vontade
de empregar dinheiro no Brasil, tenha 
deixado de empregar' 
Geisel recuou: "[...] o Brasil hoje em dia  considerado um osis. 
a rea mais procurada. [...]". 
Coutinho tinha o recado do poro: "E eu que fui para So Paulo logo
em 69,0 que eu vi naquela poca para 
hoje... Ah,o negcio melhorou muito. Agora, melhorou, aqui entre
ns, foi quando ns comeamos a matar. 
Comeamos a matar" 
Geisel: "Porque antigamente voc prendia o sujeito e o sujeito ia l
para fora. [...j  Coutinho, esse troo de 
matar  uma barbaridade, mas 
eu acho que tem que ser" 
Dale Coutinho contou sua experincia no Iv Exrcito: "Eu fui
obrigado a tratar esse problema l e tive que 
matar. Tive que matar. Outro dia ainda tive uma satisfao que, no
ltimo relatrio do dE, a origem, o fio, o 
incio da meada dessa guerrilha l em Xambio comeou num estouro
que ns fizemos em 72 l em Fortaleza. 
Foi dali que um falou que tinha guerrilheiros no norte de Gois, no
sei o qu". 
r 
"ESSE TROO DE MATAR" 325 
GEISEL: Sabe que agora pegaram o tal lder e liquidaram com ele. No
sei qual  o nome dele. 
COUTINHO: . O Chico. Luizo. [Referia-se a Osvaldo, o
guerrilheiro Osvaldo Orlando da Costa, morto semanas 
antes.] 
GEISEL: Bom, o que eu queria assinalar  isso. Ns vamos ter que
continuar ano que vem. Ns no podemos largar essa 
guerra. Infelizmente ns vamos ter que continuar.  claro que vamos
ter que estudar [...]* processo, vamos ter que 
repensar... 
(Continuavam. Exterminavam-se o c do B no Araguaia e a APML nas
cidades. Havia pelo menos vinte guerrilheiros no 
mato. Fugiam como bichos e, quando no morriam na cena da captura,
eram assassinados na priso. O guerrilheiro Piau2 
foi capturado nesses dias. Viram-no duas vezes. Numa, amarrado,
quando o colocaram numa camionete. Noutra, com os 
olhos vendados, quando desceu de um helicptero e foi metralhado 
beira de um igarap.3 A matana continuava tambm 
com os que se rendiam. Esse pode ter sido o caso de Josias.4 Ele
sumiu no dia 18 de dezembro, mas, segundo um 
relatrio da Marinha, s morreu no dia 15 de fevereiro de 1974,
vspera do encontro de Geisel com Dale Coutinho.5 Uma 
semana depois, desapareceram no Rio Eduardo Colher Filho e Fernando
Santa Cruz Oliveira. Ambos estudavam direito e 
militavam na APML, que nada tinha a ver com a guerrilha do Araguaia.
Teriam sido levados para o DOl de So Paulo. 
Estava-se a no prosseguimento da poltica de extermnio das
organizaes armadas que agiam no meio urbano, iniciada em 
1971.)6 
Pedao de difcil audio, Pode ser "algum processo" ou "um novo
processo' 
2 Antnio de Pdua Costa, 28 anos, ex-aluno do Instituto de Fsica
da UFRI. 
3 Para a priso, declaraes de Jos Francisco Dionsio, Salviana
Xavier Lima, Sinvaldo de Souza 
Gomes, e Adalgisa, Jos e Pedro Moraes da Silva aos procuradores
Felcio Pontes Jr. e Guilherme 
Zanina Schelb, e "Guerrilha ainda tortura lembranas", reportagem de
Sonia Zaghetto, O Liberal,
5 de junho de 2001. Para a morte, entrevista de Manuel Leal Lima, o
Vanu, em O Globo de 2 de
maio de 1996, capa e pp. 8-10 do i caderno.
4 Tobias Pereira Jnior, 24 anos, ex-estudante de medicina.
5 O Globo, 28 de abril de 1996, p. 15, reportagem de Adriana
Barsotti, Aziz Filho e Consuelo Dieguez.
6 Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos deste solo, pp.
501-2.
326 A DITADURA DERROTADA
Dale Coutinho retomou o fio que perdera minutos antes:
A  que entra a Justia. Eu comandei exrcito e sofri habeas corpus
em cima de mim.  que os comandantes de exrcito
esto completamente sem cobertura legal das aes deles. A gente
assume a responsabilidade porque tem que assumir. Eu
me lembro que eu perdi... morreu l dentro do meu DOI um homem, foi
justamente em cima daquele que veio o habeas
corpus. O homem tinha morrido dentro do meu DOl. E eu tive que
responder. Eu crente que j tinha acabado o negcio
com o Perdigo,7 o relator, um brigadeiro, passaram uns dois ou trs
meses veio outro. Agora pior, porque veio em cima de
mim e do meu major-chefe do meu DOl. A eu no deixei ele
responder.8
Geisel estava diante de um ministro do Exrcito que no lhe pedia
diretrizes. Ao contrrio, mostrava-se disposto a unificar
a doutrina de acordo com os mtodos que empregara no iv Exrcito. O
presidente eleito retomou o tema da
unidade militar:
Ns temos que estudar bem isso. Vamos ver se ns conseguimos uma
certa uniformidade nisso.
Eu no tenho... Eu confesso a voc que eu no estudei isso em
mincias. Se ns amolecermos na
ao, no tenha dvida que isso cresce. Isso  um fogo, est meio
apagado. Se voc parar, daqui 
a pouco ele levanta outra vez. Agora, neste quadro todo, ns s
conseguimos viver esses dez 
anos porque ns conseguimos nos unir. As Foras Armadas, apesar de
certos personalismos, 
certas coisas, nestes dez anos, elas conseguiram se unir. A tcnica
da intriga do Juscelino e do 
Jango, dessa gente, era nos dividir: era o general do povo, era o
Lott, era isso, era aquilo [...j. 
7 Brigadeiro Armando Perdigo, ministro do Superior Tribunal
Militar. 
8 Coutinho refere-se ao caso de Ezequias Bezerra da Rocha. Conversa
de Geisel com Dale Coutinho, 16 de fevereiro de 
1974. APGCS/HF. 
"ESSE TROO DE MATAR" 327 
Geisel pontilhou o restante da conversa com momentos fraternais, 
mas sempre hierrquicos: 
Me botaram neste abacaxi, agora vo ter que confiar em mim. Eu
estarei 
sempre com os ouvidos e os olhos abertos para receber toda e
qualquer 
crtica. [...] 
Ns dois podemos nos entender. A partir desta hora voc  um homem
meu. Voc bota o seu corao  
mostra. Voc no crie compromissos, no avance s vezes certas
situaes para no criar dificuldades, porque 
muitas vezes voc pode inocentemente assumir um compromisso, chega
para mim e no pode, a voc fica mal. 
Eu nunca vou lhe deixar mal. Agora, para poder haver isso, voc tem
que se abrir comigo. 
Vocs tm  que ter confiana em mim. {...j Muita coisa que eu vou 
fazer, vocs vo achar errado. Mas vocs tm que partir do princpio
que eu estou fazendo porque acho que 
est certo. E vocs tm que muitas vezes chegar a mim e dizer:
"Olha, chefe, est acontecendo isso, eu estou 
pensando isso". E eu vou dizer: "No, voc no tem razo, ou tem".
Quer dizer, a convivncia que vocs tm 
que ter comigo tem que ser... tm que ter confiana, tm que
acreditar em mim. Agora, tm que ter a franqueza 
de me dizer as coisas. Eu no sou dos tais que s quer receber
notcia agradvel. Claro que voc no vai me 
dar notcia ruim na hora que eu vou dormir. Deixa para o outro dia
de manh, para pelo menos eu dormir  noite 
tran qilo 
[...j Eu, por exemplo, no sou do tipo que gosta de ser cortejado
[...]. 
Vou dizer no muitas vezes a vocs, e vou discutir, e vou ficar
veemente.9 
Estavam no fim do que Geisel chamaria depois de "trs horas de
parola' quando ele disse ao futuro ministro:'0 
"Coutinho, ns estamos 
100% em tudo" 
Terminara o treino. Ia comear a quarta Presidncia da Revoluo, 21
perodo de governo republicano. Duraria 
1826 dias, de 15 de maro 
de 1974 a 15 de maro de 1979. 
9 Reunio de Geisel com Dale Coutinho, 16 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF. 
10 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e Moraes Rego, 16 de
fevereiro de 1974. APGCS/HF. 
PARTE ni No Planalto 
O REGIME  IMPLACVEL 
1' 
A escolha essencial 
Geisel entrou no palcio do Planalto com o nome de seu provvel
sucessor na mochila. Era o general Joo 
Baptista Figueiredo. Seria exagero dizer que fosse um propsito
irremovvel, mas em maro de 1974 essa era a 
primeira e principal opo de Geisel. Contavam-se nos dedos de uma
s mo as pessoas que sabiam disso.' 
Dois anos antes da posse, Heitor Ferreira j estava convencido de
que o general governaria com um olho no 
mandato e outro no nome de seu substituto: "Conhecendo como eu
conheo o Dr. S, no dia 16 de maro ele 
j estar preparando a soluo, atrs da cabea".2 
At o final de 1972,0 nico nome mencionado por Geisel como seu
possvel sucessor foi o do general Euler 
Bentes Monteiro. Pensava em aproveit-lo no Ministrio do Interior:
"Uma excelente posio para ele para ser 
o seguinte, no fim dos cinco anos. Eu admito isso".3 
Em dezembro de 1973, Geisel via as coisas de outra maneira.
Figueiredo tornou-se "uma das hipteses de ser o 
futuro presidente".4 Carregava uma dificuldade: era um simples
general-de-brigada, subiria a general-de-
diviso em julho de 1974, mas em 78, quando a sucesso deveria ser
decidida, haveria de lhe faltar a quarta 
estrela, essencial para preen1 Geisel, Heitor Ferreira, Golbery e,
meses depois, o prprio Figueiredo, informado 
por Golbery. 
2 Dirio de Heitor Ferreira, 11 de setembro de 1962. 
3 Idem, 26 de maro de 1972. 
4 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 10 de dezembro
de 1973. APGCS/HF. 
334 A DITADURA DERROTADA
cher o requisito eleitoral que a ditadura impunha aos seus
candidatos a
presidente. No seria fcil promov-lo a tempo, e Geisel achava
pouco
provvel que se conseguisse. Trs dias antes da posse, conversou
sobre o
assunto com Heitor Ferreira:
Eu estive estudando esses dias muito o Almanaque. [...] Eu vejo a
carreira do Figueiredo retardada. Quer dizer, o Figueiredo no vai
chegar em meados de 78 como general-de-exrcito. A no ser que ele
desse
muita carona. O azar dele  que na frente dele est o Ayrosa, e est
o
Walter Pires de Aibuquerque, que  outro amigo dele, e est esse
Chupeta, o Hugo Abreu. E so caras que no devem levar carona. O
ideal,
se a gente olhar o problema sucessrio, e se esse troo no evoluir
para
uma outra posio, o nico homem que eu vejo a em condies de ser
o
futuro presidente seria o prprio Figueiredo.5
Na noite de 15 de maro de 1974, quando o novo chefe do SNI entrou
na
recepo do Itamaraty com seu uniforme de gala, culos escuros,
quatro
medalhas espetadas na tnica, uma faixa sobre o peito, um par de
cruzes
penduradas no pescoo e um cigarro (Parliament) na mo, j era o
candidato do presidente que acabara de ser empossado.6
Em julho Geisel o promoveu a general-de-diviso, pensando em
mant-lo no
SNI o tempo suficiente para corrigir o curso do Servio. Queria
entregar-lhe o comando da Vila Militar do Rio de Janeiro nos
primeiros
meses de 1975.
Desde 1972 Geisel sabia que Figueiredo tinha problemas de sade.
Conversando com Heitor Ferreira, observara que ele estava "muito
gordo -
comida  um derivativo quando se anda agoniado - tem aquele problema
de
espinha e tambm de corao"8 Ele confessava que seu apetite por
costelas gordas, rabadas e coisas do gnero o levava a engordar
5 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 12 de maro de 1974.
APGCS/HF.
6 Fatos e Fotos, 12 de abril de 1974, pp. 26-33.
7 Dirio de Heitor Ferreira, 15 de junho de 1974.
8 Idem, 2 de fevereiro de 1972. Para uma referncia posterior, idem,
12
de novembro de 1974.
  A ESCOLHA ESSENCIAL 335
um quilo por dia.9 A coluna no o incomodava desde 1969.10 O corao
recomendava exames peridicos.
O coronel Americo Mouro, chefe do servio mdico da Presidncia,
disse
a Geisel que a cardiopatia de Figueiredo era assunto srio. Indicava
que
ele j sofrera um enfarte do miocrdio, daqueles que passam deixando
sintomas brandos, como uma dor de barriga.1 Geisel tinha confiana
absoluta em Mouro. Era o mdico de toda a sua famlia. Oito anos
antes,
diagnosticara o entupimento do marechal Costa e Silva.
No final da tarde de 12 de novembro de 1974 o presidente entrou na
sala
de Heitor Ferreira e demorou-se na anlise do futuro de Figueiredo:
"Tem
o complicador que  o problema da sade. Ah,  o maior complicador,
 o
maior complicador de toda a lista. De um lado, porque eu tenho que
poup-lo, apesar de que isso  extremamente difcil, de outro lado
eu
no vou incorrer na besteira do Costa e Silva, de o camarada estar
com
problemas, eu sabendo, eu empurr-lo para a presidncia para ele se
matar. No  verdade? No vou fazer isso. Ento, estou a numa [...]
angstia danada")2
No dia seguinte Golbery teve uma longa conversa com Figueiredo.3 Do
que
conversaram no ficou registro, mas o chefe do SNI passou a carregar
um
corao de candidato. Comentou o resultado de seu eletrocardiograma
com
o coronel Moraes Rego, garantindo: "Eu nunca vou ter um enfarte")4
9 Conversa de Figueiredo com Geisel, 9 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF.
10 Dirio de Heitor Ferreira, 13 de janeiro de 1975.
11 Sete folhas manuscritas de Heitor Ferreira, intituladas
Presidente
Geisel e HF em 12 de Novembro de 1974 na Secretaria Particular.
APGCS/HF. Americo Mouro, fevereiro de 1998.
12 Sete folhas manuscritas de Heitor Ferreira, intituladas
Presidente
Geisel e HF em 12 de Novembro de 1974 na Secretaria Particular.
APGCS/HF. Dirio de Heitor Ferreira, 12 de novembro de 1974.
13 Dirio de Heitor Ferreiro, 13 de novembro de 1974.
14 Idem, 14 de novembro de 1974.
  Um mundo dificil
A casaca  a ltima instncia do fardo do homem pblico. Geisel
vetou o
fraque na cerimnia de posse, mas se conformou com o seu uso na
recepo
da noite, no Itamaraty. Reclamava das sesses de prova, e aprendeu
com a
irm a usar no colete os botes de madreprola do pai. Um empregado,
apelidado de Casa queiro, vigiou o transporte da ilustre carga at
Braslia. O tenente de 1930 vestiu-a reclamando de um defeito na
gola.
A de Golbery custou-lhe 5600 cruzeiros (pouco mais de oitocentos
dlares) e ficou pronta em cima da hora. O ministro Quandt de
Oliveira
arrependeu-se de ter jogado fora a sua. Heitor Ferreira trocou-se no
guarda-roupa dos agentes da segurana de Medici.
Era a primeira posse com cerimonial desde o desastre de 1967, quando
o
marechal Costa e Silva e a Repblica ficaram engarrafados no caminho
para o palcio da Alvorada. Seu Arthur safara-se com os batedores,
mas
seus convidados viram-se debaixo de um temporal, at que algum teve
a
idia de iluminar a pista com um holofote de artilharia antiarea,
somando pnico ao desconforto. Um embaixador cara no espelho-dgua
do
Alvorada, e muitas senhoras de salto alto tiveram de escolher entre
chegar ao palcio com os sapatos na mo ou correr o risco de ficar
espetadas no gramado dijardim, com as toaletes arruinadas.
Geisel recebeu a faixa no salo nobre do Planalto e saudou o povo
do alto da tribuna de mrmore branco que tem aos ps a praa dos
Trs
Ernesto Geisel, maro de 1995.
  338 A DITADURA DERROTADA
Poderes. Trs fotografias da cena indicam que havia pelo menos seis
pessoas na tribuna e, no mximo, sessenta na praa.2
No palcio, umas quinhentas. O mundo em que Geisel governaria o
Brasil
era o do choque do petrleo. Se isso fosse pouco, nele o presidente
dos
Estados Unidos lutava pela sobrevivncia poltica, um general tomara
o
lugar do presidente civil chileno e um civil, o do presidente
militar
argentino. A Amrica do Sul estava praticamente loteada entre
generais.
No Uruguai mandavam pela mo de um presidente civil. Na Argentina o
caudilhismo peronista renascera nas urnas. Havia ditaduras velhas,
como
a do Paraguai, recentes como a chilena, esquerdistas como a peruana
e
direitistas como a boliviana. Alguns personagens dessa histria se
encontravam na cerimnia.
A AMRICA DE NIXON
Pat Nixon, mulher do presidente dos Estados Unidos e sua
representante
na festa, passou pelo Brasil em silncio. As lembranas que deixou
foram poucas: um vestido rosa, um Cadillac  prova de balas e um
coral
do Sesi cantando na sua despedida. Richard Nixon estava no centro da
maior crise constitucional da histria americana desde a Guerra
Civil.
Raras vezes a biografia de um governante conteve tenso semelhante 
que
ele suportara nos dois anos anteriores. Sua personalidade mesquinha
e
paranica produziu o escndalo que moeu a vida poltica do homem
mais
poderoso do mundo.
 um drama que pode ser ilustrado pelos acontecimentos de trs dias:
9 de julho de 1971
Enquanto Carlos Lamarca lia as obras de Mao Zedong em Buriti
Cristalino
, no serto baiano, um Boeing da Pakistan Airlines decolou do
2 O Estado de S. Paulo, 16 de maro de 1974. Uma terceira foto, mais
ampla, que no foi publicada, mostra metade da platia, e nela
podem-se
contar cerca de sessenta pessoas. Ela est na capa deste livro.
  UM MUNDO DIFCIL 339
aeroporto de Chaklala.3 Levava secretamente um passageiro de culos
escuros e chapu, com cinco acompanhantes. Era o professor Henry
Kissinger, assessor especial da Casa Branca. A bordo encontrou uma
equipe de navegadores, intrpretes e diplomatas chineses. Com eles
foi
para Pequim, onde se reuniu com Mao, o Grande Timoneiro. Terminara
uma
hostilidade de 22 anos desfazendo-se a macumba que travava a
diplomacia
americana na sia.
No dia em que Kissinger entrou na Cidade Proibida, o chefe da
Assessoria
de Assuntos Internos de Nixon concebeu, em Washington, uma manobra
que,
a seu juzo, abalaria a credibilidade da elite intelectual
democrata.
Pretendia satanizar como traidor e louco o cientista poltico Daniel
Ellsberg, que depois de servir na Guerra do Vietn e no Departamento
de
Defesa, entregara ao The New York Times uma coleo de documentos
secretos relacionados com o envolvimento militar americano no
Sudeste da
sia. Conhecidos como os Pentagon Papers, tinham exposto a
futilidade do
conflito.4 Supunham que Ellsberg guardasse mais informaes e
queriam
inibi-lo. Tentavam capturar sua pasta no consultrio do psicanalista
que
o atendera. O servio ficou sob a coordenao de um ex-agente da CIA
que
acabara de ser contratado a cem dlares por dia pela Casa Branca. O
consultrio foi invadido, mas no havia pasta no arquivo.5
27 de maio de 1972
Depois de uma viagem triunfal a Pequim, em fevereiro, Nixon estava
em
Leningrado, visitando o cemitrio Piscarev. Era a primeira visita de
um
presidente americano  URSS. Percorreu o monumental gramado plantado
aos
ps de uma escultura enorme da Me-Ptria, lembrana dos trs anos
de
cerco nazista que matou de fome 650 mil pessoas. Mostraram-lhe o
dirio
de Tanya, uma menina de doze anos que registrou, uma aps a outra,
as
mortes de seus familiares. A ltima entrada do caderno
3 Para Lamarca, carta a lara Iavelberg, em Folhetim, Folha de
S.Paulo de
10 de julho de 1987. Para
a viagem, Henry Kissinger, White House years, p. 740.
4 Nota de John Ehrlichman, The New York Times, equipe, The end of a
Presidency, p. 109.
5 Testemunho dos envolvidos, The New York Times, equipe, The end of
a
Presidency, pp. 114-5.
Daniel Ellsberg, Secrets - A memory of Vietnam and the Pentagon
Papers,
pp. 440-1.
  340 A DITADURA DERROTADA
dizia: "Morreram todos. Ficou s Tanya" Chorando, a intrprete
informou-o de que ela estava enterrada por perto. Nixon chegara a um
acordo com o Kremlin limitando a produo de msseis
intercontinentais,
e no dia seguinte falou aos russos pela televiso. Contou a histria
da
menina e pediu um mundo sem Tanyas, no qual "suas crianas e as
nossas,
todas as crianas do mundo, possam viver sua vida em paz e amizade
O
chefe sovitico Leonid Brejnev disse-lhe que chorou ao ouvi-lo.
Despediram-se com o russo oferecendo a ele o envio de um qualificado
general ao Vietn para ajud-lo a negociar a paz. Nixon deixou um
aviso
a Brejnev: "O senhor precisa acreditar s no que eu lhe digo pelo
nosso
canal privado. No acredite em mais ningum6 (Ningum mesmo. O
presidente americano conversava com Brejnev sem testemunhas
americanas,
valendo-se do intrprete russo.)7
 noite, em Washington, sete pessoas entraram sorrateiramente no
edifcio onde funcionava a direo nacional do Partido Democrata.
Chamava-se Watergate. (O ex-agente da CIA que tentara roubar a pasta
de
Ellsberg estava no lance.) Carregavam maletas com equipamento para a
instalao de escutas clandestinas. O arrombador no conseguiu abrir
a
porta do escritrio, foi a Miami buscar ferramentas, e no dia
seguinte
as coisas deram certo. Gastaram-se dois filmes fotografando
documentos,
e plantaram-se transmissores nos telefones do presidente e do
coordenador dos comits estaduais do partido. S um funcionou,
rendendo
perto de duzentas gravaes. Quando o material foi examinado,
decidiu-se
reanimar o grampo morto. A equipe recebeu ordens para voltar ao
prdio.
17de junho de 1972
Dos sete visitantes do Watergate, voltaram cinco. s duas e meia da
manh estavam no meio do servio quando foram presos. Richard Nixon
descansava na casa de um amigo, na Flrida. Leu uma pequena notcia
no
jornal, mas no lhe deu importncia. Desse dia a nica providncia
que
ficou na sua memria foi um telefonema  Casa Branca para
6 Richard Nixon, The memoirs of RichardNixon, pp. 6 16-7.
7 Henry Kissinger, WhiteHouseyears, p. 1208.
  UM MUNDO DIFCIL 341
descobrir onde poderia achar John Connally, ex-secretrio do
Tesouro.
Ele deixara o cargo e partira numa viagem semi-oficial ao redor do
mundo. Passara pelo Brasil uma semana antes.
O Imprio Americano estava financeiramente frgil. Tinha as contas
pblicas desorganizadas. Pior: enquanto suas reservas de ouro
estavam em
14 bilhes de dlares, havia 300 bilhes de dlares-papel
entesourados
nas reservas de outros pases. Em 1971 os Estados Unidos fecharam o
ano
com dficit comercial, coisa que no acontecia desde 1893. Nixon
enfrentou as dificuldades formulando uma Nova Poltica Econmica.
Desvinculou o dlar do padro-ouro. Quem tivesse nas mos 35
daquelas
notas verdes, passaria a ter apenas 35 notas verdes, e no mais o
compromisso da guia americana de troc-las por 28 gramas de ouro.
Desvalorizou a moeda duas vezes em pouco mais de um ano,
derrubando-a em
15%.8 Caducara a ordem monetria criada no aps-guerra. O Imprio,
que
parecia encurralado, recuou para reorganizar sua fortaleza.
Em janeiro de 1973, quando Richard Nixon foi novamente empossado na
presidncia dos Estados Unidos, Watergate deixara de ser nome de
edifcio para designar um escndalo poltico, mas ainda assim se
contavam nos dedos das mos as pessoas que viam no acontecimento uma
ameaa ao previsvel esplendor de seu segundo mandato. Aos 59 anos,
Nixon tivera uma das maiores vitrias do sculo, com 61% dos votos
populares e 97% dos votos eleitorais. Sabia que o Caso Watergate
comeara na Casa Branca e que tentara acobert-lo, mas acreditava
que
tudo se resumia a "um problema de relaes pblicas, que precisava
apenas de uma soluo de relaes pblicas9 Dois dias depois
anunciou a
sada das tropas americanas do Vietn, que resultaria na posterior
reunificao do pas, sob domnio comunista.
Aos poucos, aquilo que parecia um xito se dissolvia em
irrelevncia,
e um episdio considerado irrelevante foi se tornando a maior
desgraa
j
sofrida por um presidente americano. De um lado, Nixon tinha do que
se
8 Paul Volcker e Gyohten Toyoo, Changingfortunes - The worlds money
and
the threat to American leadership, pp. 59-90 e 347.
9 Stephen E. Ambrose, Nixon, vol. 3: Rum and recovery - 1973-1990,
p.
27.
  342 A DITADURA DERROTADA
orgulhar: pela primeira vez em dezoito anos os Estados Unidos
estavam em
paz com o mundo. De outro, o Senado instalou uma comisso para
investigar o Watergate. De um lado, sua popularidade chegara a 60%,
contra 20% para o Congresso. De outro, os sete grampeadores do
Watergate se declararam culpados  Justia, e seis deles foram
condenados a penas que variavam de vinte a quarenta anos de priso,
ressalvada a possibilidade de elas serem reduzidas na hiptese de
que
contassem o que sabiam. A linha de defesa do governo mais poderoso
do
mundo recuou gradativamente. Primeiro se admitiu uma relao entre
os
arrombadores e funcionrios da Casa Branca. Depois se reconheceu que
trs dos principais assessores de Nixon, entre os quais seu
chefe-de-gabinete e o consultor jurdico da presidncia, no podiam
continuar nos cargos. A cada recuo, a imprensa, o Senado e a Justia
pegavam novos fios da meada. No estava mais em questo a
cumplicidade
com os arrombadores, mas o fato de o presidente dos Estados Unidos
ter
mentido para acobertar um crime.
Era esse Richard Nixon que Pat carregava nos ombros quando enfeitava
a
posse de Geisel. Filha de um plantador de repolhos e legumes no
deserto
da Califrnia, passara a infncia na misria, criada numa casa sem
gua
corrente nem eletricidade. Dormia num vo de corredor.11 Era uma
mulher
frgil na aparncia, dotada de uma inesgotvel capacidade de
dissimulao: "Se eu tenho uma dor de cabea, ningum fica sabendo.
Se
eu estiver morrendo, no deixo ningum saber". Era sonmbula, afora
isso
nada tinha de excepcional.12 Dias antes de ela chegar a Braslia, a
Cmara de Representantes comeara a discutir o impedimento de Nixon.
Era
a derrocada. O presidente, que no tomava remdios, nem mesmo
vitaminas,
j fora derrubado por uma pneumonia. Sua popularidade cara para
29%, o
ndice mais baixo desde a dcada de 30, quando o Instituto Gallup
comeou a medir o tamanho da alma pblica dos presidentes
americanos.
Trs ex-ministros e dois conselheiros pessoais do pre10 Stephen E.
Ambrose, Nixon, vol. 3: RuIn and recovery - 1973-1990, p. 59.
11 Roger Morris, Richard Milhous Nixon, p. 211.
12 Anatoly Dobrynin, In confidence - Moscows arn bassador to
Americas
six Cold Warpresidents,
p. 282. Durante uma conferncia com Brejnev na Casa Pacfica, em
1973,
um dos guarda-costas
do governante sovitico viu Pat Nixon andando de camisola pela
varanda.
Carregou-a nos braos e levou-a para a cama.
  UM MUNDO DIFCIL 343
sidente estavam no banco dos rus. Enquanto Pat circulava em
Braslia,
Nixon repetiu em Chicago, pela ensima vez, que no renunciaria.
Geisel recebeu-a duplamente contrariado, num suspiro da agenda, no
meio
da recepo noturna. Achava impertinente o fato de o presidente dos
Estados Unidos mandar sua mulher represent-lo em atos oficiais e
indelicado ela ter vindo para a festa do presidente brasileiro numa
perna da viagem que fizera  Venezuela, para a posse de Carlos
Andrs
Prez. Quando o Itamaraty estava montando o programa da cerimnia,
ele
avisara: "Vai ver quem vai pajear a dona Pat, porque ela vai querer
ir
num asilo ver crianas e minha mulher no vai faz-lo. Ela no vem
como
mulher, vem como chefe da delegao americana")3 Recusou-se a
inclu-la
no almoo que daria aos chefes de Estado.4 Heitor Ferreira brincou:
"
a Isabelita deles".5
Pat Nixon fez sucesso. Na solenidade do Planalto s perdeu em
popularidade para Pel. Visitou as crianas da Casa do Pequeno
Polegar e
meteu-se numa gafe quando a embaixada distribuiu uma nota em que
dizia:
"Quando estive no Brasil na ltima vez, assistindo, juntamente com
meu
marido,  posse do ex-presidente Juscelino Kubitschek, Braslia era
somente um sonho" JK e seus sonhos no eram bem-vindos na cidade dos
generais. Reescrita, a nota limitou-se a lembrar "as cerimnias de
inaugurao de Braslia")6
A lua-de-mel da Casa Branca com a ditadura brasileira mudara de
qualidade. A destruio da experincia socialista chilena e o golpe
de
Banzer na Bolvia haviam mitigado as dificuldades americanas. A
entrada
de Pern em Buenos Aires adicionara riscos a uma excessiva
fraternidade
de Washington com Braslia. Geisel vira um tom de capitulao na
viagem
de Nixon  China.7 O general no tinha maiores simpatias pelo
presidente americano - como de resto por nenhum de seus antecessores
ou
sucessores. Resignava-se: "Os fatos l de fora nos comandam. No h
13 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 22
de
fevereiro de 1974. APGCS/HF.
14 Reunio de Geisel com Azeredo da Silveira, 28 de fevereiro de
1974.
APGCS/HF.
15 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 22
de
fevereiro de 1974. APGCS/HF.
Referia-se  mulher de Juan Pern, presidente da Argentina.
16 O Estado de S. Paulo, 15 de maro de 1974, p. 5.
17 Dirio de Heitor Ferreira, 21 de fevereiro de 1972.
  344 A DITADURA DERROTADA
nada que se possa fazer para control-los. Se o seu Nixon administra
mal, e h inflao l, ns pagamos aqui"8 Em termos econmicos
Nixon
estava nas cordas. Fechara 1973 com um modesto saldo comercial e
reduzira o dficit do balano de pagamentos  metade, mas produzira
uma
inflao de 8,9%, a maior dos 25 anos anteriores.9
O novo governo brasileiro e a administrao americana j tinham
conversado, longe das audincias pblicas. Uma semana antes da
posse,
Golbery e Heitor Ferreira almoaram numa sala do Banco Cidade, com
Steve
Creane e Wilfred (Bili) Koplowitz. Um, veterano funcionrio da
Central
Inteiligence Agency, a dA, conhecido dos dois desde o governo
Castello,
chefiava a estao da companhia no Rio de Janeiro. O outro mandava
na de
Braslia.20
Noutro nvel, passara pelo Rio o professor americano Samuel
Huntington,
autor de um estudo clssico sobre o poder militar, emissrio
informal do
secretrio de Estado Henry Kissinger, de quem fora colega na
Universidade Harvard. Tinha hora marcada com Golbery. O professor
ganhara alguma notoriedade no Brasil um ano antes, ao entregar ao
governo um documento em que propunha uma poltica de "descompresso"
para a ditadura. Sua proposta tinha um leve sabor mexicano e
recomendava
que o Brasil, "sendo uma ditadura sem ditador, tenha uma
descompresso
sem descompressor" Ao contrrio da propaganda do Milagre, Huntington
alertava para os riscos polticos despertados pelo processo
econmico:
"A triste lio da Histria  que, durante esses perodos, tanto os
que
se beneficiaram melhorando de vida, como os que pioraram, ficam mais
insatisfeitos psicolgica e politicamente" .2 Golbery guardara m
lembrana do trabalho sobre a descompresso, chamando-o de
"pedestre22
18 Dirio de Heitor Ferreira, 22 de junho de 1972.
19 Paul Volcker e Gyohten Toyoo, Changingfortunes - The worlds
money
and the threat to American leadership, pp. 372 e segs.
20 Carta de Joseph Kiyonaga, chefe da estao da CIA em Brasilia, a
Heitor Ferre ira, de 26 de janeiro de 1976. APGCS/HF.
21 Dezesseis folhas, sem data, intituladas Approaches to Political
Decompression, cedidas ao autor
pelo professor Wanderley Guilherme dos Santos.
22 Golbery do Couto e Silva, 1973.
  UM MUNDO DIFCIL 345
O general preparou-se para o encontro. Conversou com Geisel, recebeu
um
roteiro de recomendaes compiladas por Heitor Ferreira, fez suas
prprias observaes e sentou-se com o professor. Tramitando fora
dos
canais diplomticos, to ao gosto de Kissinger e do estilo de
Golbery, o
recado era claro. O governo queria preservar a aliana com os
Estados
Unidos, desde que a Casa Branca entendesse que a relao entre os
dois
pases no cabia numa generalizao latino-americana, pois "no nos
interessa ser nivelados ao Uruguai Informava tambm duas alteraes
de
curso: o Brasil realinharia sua posio no Oriente Mdio e na
frica. No
primeiro, "vamos na linha rabe" No segundo, relacionado com o apoio
que
se dava  poltica ultramarina de Portugal, "tiramos o chapu para a
me-ptria, [mas] vamos mudar a poltica nas colnias"23 Em ambos os
casos, a mudana decorria da garantia de fornecimento de petrleo.
Geisel se assustara com a possibilidade de um boicote rabe e se
tornara
um crtico do que considerava um apoio gratuito do Brasil a Israel.
Alm
disso, guardava uma irredutvel antipatia pela criao do Estado
judeu:
"Francamente, eu era muito a favor dos rabes. Eu achava que o judeu
era
um intruso. Quer dizer, no  o fato de h dois mil anos atrs
aquela
terra ter sido deles, que hoje em dia devesse ser. Os romanos, os
italianos tambm podiam reivindicar. Houve poca em que aquilo foi
dos
romanos, dos italianos. Aquilo foi uma poltica do ingls, secundado
por
Wall Street24
Referindo-se  poltica de Nixon, dizia: "Ele est cheio de
petrleo,
resolve dar armas e bilhes de dlares para Israel. E o resto do
mundo
que se fomente? O japons que se arrase, o Brasil que se
esbandalhe?25
Geisel queria que o governo americano influsse na banca para que
ela
emprestasse mais, em melhores condies e com prazos longos ao
Brasil. O
mundo comeava a ser inundado pela maior transferncia de capitais
j
ocorrida em poca de paz. A dvida externa brasileira estava em 10
bilhes de dlares, e os emprstimos eram feitos quase sempre por
quin23
Duas folhas, uma manuscrita e anotada por Golbery, outra
datilografada,
intituladas Notas
para a Conversa Golbery-Huntington, de 8 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF.
24 Ernesto Geisel, maro de 1995.
25 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 10 de janeiro
de
1974. APGCS/HF.
  346 A DITADURA DERROTADA
ze anos, contra uma praxe internacional de apenas OjtO.26 O dinheiro
tomado em So Paulo ao Citibank de Nova York saa de 5% a 20% mais
barato que o do mercado nacional.27 A Secretaria do Tesouro acabara
de
eliminar as restries para que os bancos americanos emprestassem no
exterior. Sugeriu tambm s grandes casas bancrias que colocassem
no
Terceiro Mundo boas quantidades dos depsitos feitos pelos sheiks
empanturrados de dinheiro. Eram os "petrodlares recursos que os
pases
exportadores de leo passaram a receber, sem saber onde pr.
Golbery passou a Huntington a preocupao de Geisel com o risco de o
governo americano criar barreiras tarifrias s exportaes
nacionais.
Dois anos antes, quando Nixon massageou o ego da ditadura afirmando
que
o Brasil determinava os rumos da Amrica Latina, Geisel condenou a
"mania de se dizer que o Brasil  potncia": "A ns importaria se os
Estados Unidos comprassem 400 mil pares de sapatos ou decidissem
comprar
s o nosso caf28 O professor registrou a preocupao, mas explicou
que
nessa rea a Casa Branca pouco tinha a fazer.29 Semanas depois os
americanos impuseram sobretaxas s exportaes brasileiras de
calados.
Ao receber a notcia, Geisel decidiu que no visitaria os Estados
Unidos
enquanto vigorassem sobretaxas aduaneiras contra produtos
nacionais.3
Huntington passou os recados a Kissinger e presenteou Golbery
com um livro de Gerald Ford, o vice-presidente de Nixon. O professor
achava-o "fraco, porm confivel21
A BOLVIA DE BANZER
Banzer, ou El Petiso, era o xod da diplomacia militar brasileira.
Numa
carta a Richard Nixon, Medici chegara ao ponto de interceder pelo
cole-
26 Phillip L. Zweig, Wriston, p. 422.
27 Idem.
28 Dirio de Heitor Ferreira, 28 de janeiro de 1972.
29 Duas folhas, uma manuscrita e anotada por Golbery, outra
datilografada, intituladas Notas
para a Conversa Golbery-Huntington, de 8 de fevereiro de 1974.
APGCS/HF.
30 Ernesto Geisel, abril de 1995.
31 Bilhete de Golbery a Heitor Ferreira, de maro de 1974. APGCS/HF.
  UM MUNDO DIFCIL 347
ga, para que o presidente americano o ajudasse.32 O boliviano tomara
o
poder aos 45 anos, em 1971, no oitavo golpe militar desde 64. Com um
pedao da carreira feita nos Estados Unidos e na Argentina, e a vida
poltica armada na regio de Santa Cruz de La Sierra , cuja prspera
economia estava associada a interesses brasileiros. Fazia tempo que
Banzer se tornara o golpista de planto.
Derrubara o general Juan Jos Torres na segunda tentativa. Na
primeira,
em janeiro de 1970, os conspiradores pretendiam tomar o palcio e
duas
rdios. Tomaram o estado-maior do exrcito, mas foram dominados. Um
major e seis capites negociaram a paz e se asilaram na embaixada do
Brasil, bateram pique em So Paulo e retornaram clandestinamente ao
pas.33 O SNI intermediou o pouso de um avio militar brasileiro com
armas para os conspiradores de Santa Cruz.34 Expulso da Bolvia por
Torres, o ex-embaixador brasileiro Hugo Bethlem, general da reserva,
acusara-o de planejar "o imediato estabelecimento de uma ditadura
socialista na Bolvia, com ajuda direta do comunismo sovitico"35 Em
agosto de 1971 Torres desembarcou como asilado em Buenos Aires , e
Hugo
Banzer entrou no palcio de La Paz. Assim a burguesia crucefa
produziu
seu primeiro presidente.
Colaborando com a nova ordem, o coronel Jos Maria de Toledo
Camargo,
segundo homem da mquina de propaganda palaciana de Medi- ci, foi
mandado  Bolvia em misso secreta, com um passaporte falso em nome
de
Jos Manoel Torres Correa para lustrar a imagem do governo de
Banzer.
"Uma verdadeira comdia", nas palavras do prprio Camargo. Assinou
nota
de restaurante com o nome verdadeiro, encabulou-se rejeitando
marafonas
e se constrangeu fingindo ser Torres Correa durante um jantar na
casa do
embaixador brasileiro em que diversos convidados sabiam
perfeitamente
quem era.36
32 Narrativa de Medici a Geisel, registrada por Heitor Ferreira em
seu
Dirio , na entrada de 12
de maio de 1972.
33 Jornal do Brasil, 19 de fevereiro de 1971, p. 22. Para o retorno
clandestino, acusao feita pelo
ministro boliviano Jorge Galiardo Lozada, telegrama da agncia Latin
de
4 de abril de 1971.
34 General Newton Cruz, adido militar em La Paz entre 1971 e 1972,
dezembro de 1996.
35 Telegrama da ANSA, de 15 de janeiro de 1971.
36 Jos Maria de Toledo Camargo, A espada virgem - Os passos de um
soldado, p. 155.
  348 A DITADURA DERROTADA
Durante o governo de Banzer a Bolvia servira de trilha para o
contrabando de armas de militares chilenos que conspiravam contra
Allende em bases montadas no meio empresarial americano-brasileiro.
Afora as afinidades polticas, o general queria vender petrleo ao
Brasil e, desde 1938, o Brasil queria controlar as reservas de gs
natural da Bolvia. Enquanto esteve na Petrobrs, Geisel complicou a
compra de leo boliviano pois custava mais que o rabe.37
Depois de se reunir com Geisel, El Petiso deixou uma lista mida.
Queria
negociar um gasoduto e se contentava com coisa modesta na rea
qumica.
Parecia mais interessado em conseguir 50 milhes de dlares e, no
mnimo, dois avies para transporte de tropas.38 Levou os avies.39
Pelos canais da Comunidade de Informaes, o SNI estava cuidando de
remeter 750 capacetes de combate a La Paz.4  Meses mais tarde
Banzer
pediria um lote de granadas, para serem pagas em vinte anos com dez
de
carncia e juros de 5% ao ano.41
O URUGUAI DE BORDABERRY
Dos trs ditadores latino-americanos que vieram  sua posse, o que
melhor impresso deixou em Geisel foi o estancieiro uruguaio Juan
Mara
Bordaberry.42 Tinha 45 anos, era civil, chegara  presidncia pelo
voto
e tinha um temperamento reservado. Desde junho de 1973, quando o
exrcito fechara o Congresso e suspendera as liberdades pblicas,
Bordaberry se tornara uma figura decorativa, mas desempenhava o
papel
com gosto, pois contribura para o desfecho ditatorial da crise.
37 Didrio de Heitor Ferreira, 26 de maro de 1972.
38 Notas de Geisel, relativas s conversas com Banzer, Bordaberry e
Pinochet, de 15 de maro de
1974, recebidas por Heitor Ferreira no dia 18. APGCS/HF.
39 Informao para o Senhor Presidente da Repblica, do ministro
Azeredo
da Silveira, de 11 de
abril de 1974, narrando uma rodada de negociaes com os bolivianos.
APGCS/HF.
40 Heitor Ferreira, junho de 1974.
41 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de dezembro de 1974.
42 A uma nota de Heitor Ferreira pedindo-lhe que comparasse os trs
presidentes que estiveram
na posse, Geisel respondeu; "12 Bordaberry, 2 Banzer, 32 Pinochet
APGCS/HF.
  UM MUNDO DIFCIL 349
Os conflitos latino-americanos sempre tiveram algo de espetacular,
mas
nos cinco anos de durao da agonia do regime democrtico uruguaio o
componente de teatralidade mrbida adquiriu nveis inditos. Pela
esquerda, os Tupamaros, com 3 mil militantes, fizeram coisas nunca
vistas e at mesmo dificeis de imaginar. Suas aes, iniciadas em
1968,
eram romnticas, vingativas, pirotcnicas. Eles assaltaram um
cassino e
devolveram as gorjetas dos crupis pelo correio.43 Depenaram a
manso de
um plutocrata e divulgaram que nela havia 400 mil dlares em
dinheiro e
barras de ouro.44 Incendiaram o prdio da General Motors e
explodiram a
sede do Montevideo Country Club.45 Praticaram o maior roubo de jias
dos
tempos modernos, levando o equivalente a 6 milhes de dlares da
caixa-forte de um banco.46 Seqestraram o cnsul brasileiro e o
embaixador ingls. Assassinaram um policial americano e um coronel
acusados de torturar presos.47 Expuseram a conexo brasileira do
terrorismo de direita uruguaio divulgando a confisso de um policial
seqestrado. Agentes metidos com exploses e assassinatos tinham
feito
cursos no Brasil e retornado ao Uruguai com armas que repassaram a
um
grupo paramilitar.48
O maior espetculo tupamaro foi a fuga, por um tnel, de 106 presos
do
presdio de Punta Carretas em setembro de 1971. O Estado uruguaio,
que
parecera inerte diante da audcia tupamara, entregou o caso aos
militares. Em trs meses o terrorismo de esquerda estava
desarticulado.
49 No final de 1972 havia na cadeia 2600 pessoas.
Se houve uma teatralidade no terrorismo, correspondeu-lhe outra
na represso. At certo ponto a ditadura uruguaia assemelhava-se s
de-
43 Lawrence Weschler, Um milagre, um universo - O acerto de contas
com
os torturadores, p. 110.
Para as gorjetas, idem, p. 109.
44 Arturo C. Porzecanski, Uruguays Tupamaros, p. 40.
45 The New York Times, 22 de junho de 1969.
46 Arturo C. Porzecanski, Uruguays Topa maros, p. 40.
47 Alain Labrousse, The Tupamaros, p. 131.
48 Carlos Wilson, The Tupamaros, the unmentionables, pp. 92-111.
49 Martin Weinstein, "The decline and fail of democracy in Uruguay;
lessons for the future", em
Repression, exile, and democracy, editado por Sal Sosnowsky e
Louise B.
Popkin, p. 86. Ver tambm Lawrence Weschler, Um milagre, um universo
- O
acerto de contas com os torto radores p. 113.
  350 A DITADURA DERROTADA
mais. Proibiram-se as reunies polticas, censurou-se a imprensa, e
se
loteou a administrao pblica para a oficialidade. O exrcito que
em
1967 se recusara a treinar oficiais em tcnicas antiguerrilheiras,
em 73
assenhoreou-se, pela primeira vez na histria, de verbas superiores
s
destinadas para a educao.5
A ditadura uruguaia comeou a se tornar tpica quando se
autodenominou
um regime "cvico-militar" Dias antes da chegada de Bordaberry a
Braslia uma nova Lei Orgnica das Foras Armadas informava que "o
Estado Militar impe: obedincia, sacrifcio, estoicismo, rigorismo,
renncia em prol da eficcia e continuidade do servio" .5 Os
cidados
haveriam de ser divididos em trs categorias: A, B e C. Um A podia
trabalhar no servio pblico, mas um C, indigno da confiana do
regime,
nem numa empresa privada podia entrar sem causar embarao ao patro.
Os
militares supervisionavam at mesmo as escolhas de capites de times
de
futebol.52 O principal presdio da ditadura chamou-se La Libertad.
Os
prisioneiros polticos foram transformados em cobaias de vingana e
de
experincias psiquitricas. Ao banimento dos textos freudianos nas
universidades correspondeu um experimentalismo behaviorista nos
crceres. Nas palavras do principal psiquiatra do regime, "a guerra
continuava na cadeia [...J a cada dia, a cada regra, tudo fazia
parte de
um plano para faz-los sofrer psicologicamente"53 Criavam-se
ambientes
instveis, onde aquilo que era privilgio num dia virava delito no
outro. Punia-se com um ms de solitria um gesto paternal de afeto
durante a visita das crianas (nove horas por ano).54
Mauricio Rosencof, teatrlogo de 38 anos, fundador dos Tupamaros e
negociador da ajuda de Fidel Castro ao movimento, foi preso em
50 Lawrence Weschler, Um milagre, um universo - O acerto de Contas
com
os torturadores,
pp. 117-8.
51 Relatrio da Comisso de Direitos Humanos da Organizao dos
Estados
Americanos, de janeiro de 1978. Em A. Veiga Fialho , Uruguai - Um
campo
de concentrao?, pp. 49 e segs. Para o Estado militar, Jos Luiz
Baumgartner e outros, Os desaparecidos - A histria da represso no
Uruguai, p. 158.
52 Lawrence Weschler, Um milagre, um universo - O acerto de contas
com
os torto radores, pp. 96-8.
53 Idem, pp. 136-7.
54 Idem, pp. 137 e segs.
  UMMUNDO DIFCIL 351
1973 e torturado por nove meses. Ficou onze anos na priso, durante
os
quais calcula que no enxergou a luz do sol por mais de oito horas.
Soube do golpe chileno com trs anos de atraso. Nunca viu o rosto de
outro prisioneiro, viveu em celas de trs metros quadrados, perdeu a
noo das cores e freqentemente teve de matar a sede com a prpria
urina.55 Resistiu sonhando passeios. Quando era chamado para as
sesses
de tortura, se lembrava da filha, dos judeus do gueto de Varsvia, e
recitava: "Eu sou os que foram"56
Antes da ofensiva militar, quando os Tupamaros ainda metiam medo, o
ministro da Justia, Alfredo Buzaid, exps a um grupo de convidados
que
reuniu  mesa no Jockey Club a possibilidade de um conflito militar
"com
um pas do Sul" Seria algo como o surgimento de uma legio
estrangeira
atravessando o Chu. Um dos comensais associou essa eventualidade a
uma
inevitvel prorrogao do mandato de Medici. Trs semanas depois a
conversa estava nos ouvidos de Golbery.57
As duas ditaduras se entendiam. O presidente americano Richard Nixon
contara ao primeiro-ministro britnico Edward Heath que os
brasileiros
ajudaram a fraudar a eleio que levara Bordaberry  presidncia.58
No
meio das tropas que ocuparam as ruas de Montevidu durante o golpe
de
junho, havia veculos militares brasileiros, parte de um lote de
trezentos, remetidos numa transao de governo para governo.59
Geisel,
que em 1971 no levara a srio os planos de invaso do Uruguai pelos
soldados do iii Exrcito, se equipou para proteger a nova ordem,
caso
ela precisasse de combustveis da Petrobrs para dobrar uma greve
das
refinarias.60
55 Depoimento de Mauricio Rosencof, "On suffering, song, and white
horses", em Repression, exile, and deniocracy, editado por Sal
Sosnowsky e Louise B. Popkin, pp. 120-32.
56 Idem, p. 130.
57 Narrativa feita a Heitor Ferreira por Paulo Egydio Martins, que
participara do jantar, em Dirio de Heitor Ferreira, 5 de maio de
1972.
58 Memorando secreto de Henry Kissinger sobre um encontro do
presidente
Richard Nixon com
o primeiro-ministro Edward Heath, de 20 de dezembro de 1971.
National
Security Archive:
<http://www.gwu.edu/-nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB71/docl 5.pdf>.
59 Telegrama da agncia Latin, de 13 de julho de 1973, transcrevendo
uma
denncia do senador
Wilson Ferreira Aldunate, publicada no jornal La Opinin , de Buenos
Aires.
60 Dirio de Heitor Ferreira, 29 de junho de 1973.
  352 A DITADURA DERROTADA
As duas polcias colaboravam, e as cidades fronteirias se tornaram
uma
espcie de zona de livre captura. Em outubro de 1972, Adamastor
Bonilha,
veterano do ic do B e da guerrilha de Capara, manco de tantas
surras,
conseguiu escapar a uma patrulha brasileira que foi ca-lo na
cidade
uruguaia de Rivera.6
Bordaberry veio e voltou com uma agenda leve. Trouxera duas
preocupaes: um projeto de hidreltrica para o rio Jaguaro -
destinado
a irrigar terras de cultura de arroz - e, sobretudo, a falta de
freguesia para suas exportaes de carne, que tinha levado os
estancieiros a suspender os abates.62 Trs meses depois, o Brasil
comprou um pedao do estoque uruguaio, e o prprio Bordaberry fez
chegar
a Geisel um agradecimento formal.63
O CHILE DE PINOCHET
Augusto Pinochet, chefe da junta militar que governava o Chile,
chegara
na vspera. Em sua primeira viagem ao exterior, era um hspede
constrangedor. timo que existisse, prefervel que no tivesse
vindo.
Tinha 58 anos, e foi percebido no dia 11 de setembro de 1973, quando
comandou a rebelio militar que derrubou o governo do presidente
Salvador Aliende. A experincia neo-socialista chilena durara mil
dias,
arruinara a economia e dividira a sociedade. O palcio presidencial
foi
bombardeado sete vezes pela aviao, atacado por tanques e invadido
pela
tropa no incio da tarde. Allende foi encontrado num salo, sobre um
sof de veludo vermelho, com a cabea destroada. Matara-se com uma
submetralhadora sovitica. Nela fora gravada uma dedicatria: "Para
Salvador, do teu
61 Jos Wilson da Silva, O tenente vermelho, p. 198.
62 Notas de Geisel, relativas s conversas com Bordaberry, Banzer e
Pinochet, de 15 de maro de
1974, recebidas por Heitor Ferreira no dia 18. APGCS/HF.
63 Nota do embaixador uruguaio Carlos Manini Rios ao ministro
Azeredo da
Silveira, transcrevendo uma mensagem de Bordaberry a Geisel, de 14
de
junho de 1974. APGCS/HF.
  UM MUNDO DIFCIL 353
companheiro de armas, Fidel Castro64 Em 19670 Che Guevara jogado
numa
cova  beira do campo de pouso de Vailegrande significara o fim da
experincia do guerrilheiro herico. Em 1973, com Aliende,
acabara-se o
caminho eleitoral para o socialismo. Retirado do La Moneda num
poncho,
o presidente foi sepultado em caixo lacrado num tmulo sem
inscrio. A
palavra Pinochet designava muito mais uma modalidade de represso
p0-
ltica do que aquele general de rosto fechado, bigodes grisalhos e
olhos
azuis, duas vezes recusado pela Academia Militar (uma por baixo,
outra
por magro). Fizera uma carreira comum e se comprometera com o golpe
48
horas antes da revolta. Entre o momento em que foi disparado o
primeiro
tiro contra o La Moneda e o instante em que o cadver de Allende
deixou
o palcio, Pinochet comportou-se como um chefe militar audacioso e
violento.65 Descontando-se sua sade de ferro, era um Costa e Silva
que
vinha dando certo. Ainda assim, havia alguma insegurana acerca da
extenso de seu predomnio e da durabilidade de seu poder pessoal.
Heitor Ferreira resumira essa sensao no dirio: "Assumiu uma junta
de
4. Vamos ver. Por enquanto manda o general Pinochet"66
Prenderam-se 45 mil pessoas. Ministros do governo deposto foram
mandados
como "prisioneiros de guerra" para a base militar de Dawson, no
estreito
de Magalhes, tendo sido submetidos a trabalhos forados e ginstica
na
neve. Sete mil presos foram trancados no Estdio Nacional de
Santiago,
onde Garrincha ganhou a Copa de 1962.
Panfletos e comunicados radiofnicos pediam que caassem os
forasteiros
que haviam confludo para o pas em busca de proteo, prestgio ou
proezas. "No se ter compaixo dos estrangeiros que vieram matar
chilenos."67 Jos Serra, ex-presidente da UNE, que vivia no Chile
desde
64 Pamela Constable e Arturo Valenzuela, A nation of enemies - Chile
under Pinochet, p. 17. Para
Outra narrativa do golpe, Joan Garcs, Allende e as armas da
poltica,
pp. 299 e segs.
65 Para o comportamento de Pinochet durante as horas decisivas do
golpe,
ver Patricia Verdugo, Interferencia secreta - 11 de Septiembre de
1973.
Trata-se do livro e do disco compacto com a
gravao das conversas telefnicas mantidas pelos comandantes das
trs
armas entre a manh e
o meio da tarde do dia 13 de setembro. Para a adeso, Nathaniel
Davis,
Os dois ltimos anos de
Salvador Allende, pp. 252-3.
66 Dirio de Heitor Ferreiro, 28 de setembro de 1973.
67 Alfredo Sirkis, Roleta chilena, p. 35.
  354 A DITADURA DERROTADA
1965 como economista da CEPAL e, mais tarde, professor da Faculdade
Latino-Americana de Cincias Sociais, a Flacso, e colaborador
bissexto
de Aliende, foi levado para o estdio. Preso em outubro, foi
libertado
dois dias depois graas a uma gesto do embaixador sueco junto ao
major
encarregado da triagem. Esse oficial se chamava Ivan Lavanderos, era
um
esquerdista assumido, e j soltara outros prisioneiros a pedido do
diplomata. Quando sua tolerncia (aliada  sua conhecida militncia)
chegou ao conhecimento do coronel que comandava os interrogatrios,
fuzilaram-no. 68 Tlio Quintiliano, um ex-militante do PCBR, foi
entregue  tropa por vizinhos e desapareceu no dia 13 de setembro. O
fisico Luiz Carlos Almeida foi fuzilado s margens do rio Mapocho.69
O ex-sargento Jos de Arajo Nbrega, veterano do ataque ao QG do ii
Exrcito e do confisco do cofre de Adhemar de Barros, era conhecido
como
Sete Vidas. Escapara do cerco da base de Itapecerica da Serra e j
fora
dado por morto e sepultado depois de um tiroteio no Rio. Foi
retirado do
Estdio Nacional com as mos amarradas com arame. Trs anos antes,
capturado na guerrilha do vale do Ribeira, vira-se diante da mira de
um
coronel que ia execut-lo e, certo de que morreria, gritara "Viva a
Revo1uo" No vale do Ribeira a execuo era teatro.7 Em Santiago
puseram-no num nibus com outros presos, levaram-nos para a
periferia da
cidade, mandaram que corressem e os metralharam. Sete Vidas tomou
dois
tiros de raspo na cintura, machucou o p, pulou de um barranco,
caiu
num charco, fingiu-se de morto e esperou algumas horas para procurar
abrigo.7
As embaixadas que recebiam perseguidos estavam lotadas. Na do
Panam, um
pequeno apartamento, entraram 364 asilados. O embaixador
68 Pamela Constable e Arturo Valenzuela, A nation of enemies - Chile
under Pinochet, p. 54.
69 Alfredo Sirkis, Roleta chilena, p. 80. Dossi dos mortos e
desaparecidos polticos a partir de 1964,
pp. 4 14-5. Mais tarde o governo chileno reconheceu sua
responsabilidade
pela morte de Tlio Quintiliano, Luiz Carlos Almeida, Vnio Jos de
Matos, Nelson de Souza Kohl e Jane Vanini. Veja, 20
de janeiro de 1994, p. 31.
70 Marcelo Rubens Paiva, No s tu, Brasil, pp. 172-3.
71 Depoimento de Jos de Arajo Nbrega, em Isto de 7 de novembro
de
1990.
  UM MUNDO DIFCIL 355
panamenho estendeu a extraterritorialidade de sua representao 
casa
do economista Theotonio dos Santos, protegendo dezenas de
brasileiros.72
No palacete da Argentina, havia setecentos asilados, 120 eram
brasileiros.73 Na do Brasil, ningum. Chefiava-a o embaixador
Antonio da
Cmara Canto, um gacho famoso no Itamaraty pela severa sinceridade
e,
nos postos por onde passou, pelas habilidades como cavaleiro.
Pinochet o
associava ao comportamento da diplomacia brasileira no dia do golpe:
"Ainda estvamos disparando, quando chegou o embaixador e
comunicou-nos
o reconhecimento"74 (A Casa Branca s normalizou suas relaes com a
junta treze dias depois.) No meio da tarde do dia 11, Cmara Canto
festejava atendendo o telefone com a notcia: "Ganhamos"75 Era um
gol-
pista militante. Em maro, durante um almoo com o embaixador
americano
Nathaniel Davis, convidara-o para trabalharem juntos pela deposio
de
Allende.76 A essa altura a organizao ultramontana e terrorista
Patria
y Libertad contrabandeava armas valendo-se de contatos no Brasil e
na
Argentina.77 A prpria CIA detectou uma conexo financeira entre os
conspiradores chilenos e o empresariado estabelecido no Brasil.78
Meses
mais tarde, quando a Patria y Libertad se meteu num putsch, Cmara
Canto
asilou um de seus dirigentes.
 verdade que nem mesmo o medo levava a disp ora esquerdista de
Santiago a confiar na embaixada, mas dela no partiu sinal de
piedade
para com os brasileiros perseguidos. Nos dias seguintes, foi negado
um
salvo-conduto para que a companheira do ex-capito da PM
paulistaVnio
Jos de Matos, morto no Estdio Nacional, deixasse o pas, com a
con72
Martha Vianna, Uma tempestade como a sua memria - A histria de
Lia,
Maria do Carmo
Brito, p. 134.
73 Alfredo Sirkis, Roleta chilena, pp. 130-3. Para o nmero de
brasileiros, Fernando Gabeira,
O crepsculo do macho, p. 161.
74 O Estado de S. Paulo, 15 de maro de 1974, p. 5, citando a
revista
chilena Ercilia.
75 Dorrit Harazim, setembro de 1973. Dorrit esteve em Santiago at o
dia
18 de setembro, e no
dia 11 telefonou ao embaixador.
76 Nathaniel Davis, Os dois ltimos anos de Salvador Aliende, p.
374.
77 Idem, p. 179.
78 Depoimento de Frederick Davis, da dA, ao Congresso Americano.
Citado
em Nathaniel Davis,
Os dois ltimos anos de Salvador Aliende, pp. 373-4.
  356 A DITADURA DERROTADA
cordncia da junta e sob a proteo das Naes Unidas.79 A ditadura
s
tinha interesse nos mortos. O Centro de Informaes da Aeronutica
informava  Comunidade que quatro banidos tinham sido mortos. Um
deles
era Jos de Arajo Nbrega, o Sete Vidas, que vivo continuava.80
Havia regozijo pela virada chilena. Em seu escritrio da Dow, o
general
Golbery dizia: "No se faz omelete sem quebrar ovos8 Para ajudar a
quebr-los, quatro avies militares brasileiros desceram em Santiago
ainda quando as fronteiras do Chile estavam fechadas. Oficialmente,
levavam remdios e comida.82 Jos Serra, naquela altura preso no
Estdio
Nacional, ouviu carcereiros falando portugus.83 Um acidente
burocrtico
fez com que 26 anos depois sasse de sua pasta do DOPS paulista um
bilhete dos dias em que viveu asilado na embaixada da Itlia em
Santiago. Continha trechos da ficha dele e conclua: "Como vs,
trata-se
de boa gente, que bem merece ser tratado pelos chilenos84
Para Pinochet a visita ao Brasil servia como uma tnue demonstrao
de
que furava o isolamento internacional. Associava-se  milagrosa
ditadura
brasileira, que, bem ou mal, tinha prestgio. O regime chileno
encerrara
o ano com 1500 mortos e 7 mil exilados.85 Fechara o Congresso,
banira os
partidos e cancelara qualquer tipo de eleio, at mesmo para a
indicao das diretorias de associaes esportivas. Dois mortos o
acompanharam na viagem. Na vspera de seu embarque os chilenos
souberam
que o general Alberto Bachelet, diretor do sistema nacional de
abastecimento durante o governo Allende, desaparecido desde o golpe,
sucumbira a um ataque cardaco na cadeia pblica de Santiago.86 No
dia
da posse de
79 Dorrit Harazim, setembro de 1973. Em Santiago, Dorrit acompanhou
as
negociaes para a
obteno do salvo-conduto. Denise Rollemberg, Exlio, p. 175.
80 Informa p30 n2 583, do CISA, de 11 de novembro de 1973, em O
Globo de
3 de janeiro de 1999,
pp. 37-40. Em 1992 o Estado chileno reconheceu-se responsvel pela
morte
de cinco brasileiros.
81 Comentrio feito por Golbery ao autor dias depois do golpe
chileno.
82 O Globo, 24 de setembro de 1973, 12 caderno, p. 19.
83 Jos Serra, 2000.
84 Dcio Malta, "Documento mostra ameaa a Serra no ChiIe O Globo
de 21
de maio de 2000,
p.45.
85 Pamela Constable e Arturo Valenzuela, A nation of enemies - Chile
under Pinochet, p. 20.
86 O Estado de S. Paulo, 14 de maro de 1974, p. 16.
  UM MUNDO DIFCIL 357
Geisel, veio a notcia de que o ex-ministro da Defesa Jos Toh se
enforcara na priso da ilha de Dawson.87
Aquilo que podia parecer uma exposio desnecessria foi um gesto de
astcia de Pinochet. Ele visitou Braslia e o Rio de Janeiro com
todas
as honras de chefe de Estado e sem as aporrinhaes de ditador.
Ainda
obrigado a partilhar poderes com os outros trs comandantes da
junta,
tirava partido da sua condio de representante da nao, chegando
inclusive a forar uma reunio com o presidente boliviano Hugo
Banzer.
Afora o espetculo, Pinochet no tinha agenda, e da audincia com
ele
Geisel registraria poucas linhas: "Pede constituio de uma comisso
de
alto nvel para estudar todas as questes, no s econmicas, que
devem
servir para incrementar as relaes com o Brasil"88
A grande colaborao chilena j estava consumada. Os documentos da
Associao Chileno-Brasileira de Solidariedade, que funcionava em
Santiago, foram capturados e levados para a Agncia Central do
SNI.89 A
dispora brasileira sofreu em 1973 uma nova derrota de seus sonhos.
At
1969, dividida entre a Europa e o Uruguai, ela fora o exlio da
radicalizao do regime de 46, desterro de Joo Goulart, Leonel
Brizola
e Darcy Ribeiro. A partir de 1969, mudara de qualidade. Era formada
por
revolucionrios dispostos a combater pelo socialismo retornando ao
pas
ou mesmo fazendo a Revoluo Chilena. Era o desterro de Onofre
Pinto,
dos sargentos da VPR e dos dlares do cofre de Adhemar de Barros,
dos
banidos e dos combatentes da ALN. Perdida a base operacional de
Santiago, essa dispora se espalhara pelo mundo, buscando apenas
abrigo.
Como registrou Herbert Jos de Souza, o Betinho da AP, deu-se um
"salve-se-quem-puder e embarque para onde possa (Ele embarcou para
o
Panam e, de l, refugiou-se no Canad.)9 No inverno europeu de
1973,
os brasileiros deixaram de ser os exilados-combatentes que vi-
87 O Estado de S. Paulo, 16 de maro de 1974, p. 14.
88 Notas manuscritas de Geisel, entregues a Heitor Ferreira no dia
18 de
maro de 1974. ApGcs/HF.
89 Centro de Informaes do Exrcito, Relatrio Especial de
Informaes
n2 04/74, intitulado Subverso Comunista no Brasil, de 20 de junho
de
1974. AA.
90 De muitos caminhos, coord. de Pedro Celso Ucha Cavalcanti e
Jovelino
Ramos, p. 106.
  358 A DITADURA DERROTADA
nham da VPR e da ultra-esquerda chilena, como ngelo Pezzuti, ou da
central cubana, como Chizuo Osava, o Mrio lapa. Na Europa,
tornaram-se
simples refugiados, protegidos pelo Alto Comissariado da ONU. No
campo
de refugiados de Alvesta, na Sucia, para onde foram mandados alguns
brasileiros, havia cerca de mil. Uns vinham de Uganda e de
Bangladesh.
Outros, do Leste europeu ou da Turquia. Quase todos migrantes
econmicos. Terminara a viagem dos codinomes. Elisa e Diogo de
Santiago,
que haviam sido Mrcia e Honrio do seqestro de Elbrick, voltaram a
ser
Vera Slvia Magalhes e Fernando Gabeira. Ele, motorneiro de metr
em
Estocolmo. Ela , vendo o tamanho da mudana: "At ento o exlio era
uma
coisa transitria. [...] Foi na embaixada da Argentina, no Chile,
que me
identifiquei como Vera Slvia. A, tive a viso de que ia ficar
muito
tempo no exterior" 9 "Nosso estatuto legal era o de aptridas",
registrou Maria do Carmo Brito, a Lia da VPR, assentada na
Blgica.92 A
professora Denise Rollemberg, autora de um criterioso estudo sobre a
dispora brasileira, procurou quantificar os expatriados e concluiu
que
"qualquer tentativa de faz-lo seria mera suposio, sem nenhum
fundamento" Sabe-se que em agosto de 1973, um ms antes do golpe
chileno, a ONG Cimade contara 1500 brasileiros na Frana.93 Com
todas as
ressalvas,  possvel que os brasileiros que partiram naquilo que
anos
mais tarde Joo Bosco e Aldir Blanc chamariam de "rabo de foguete"
tenham ficado entre 2500 e 5 mil.94
A esquerda moderada, na qual anos antes o socilogo Fernando
Henrique
Cardoso comera em Santiago o "amargo caviar do exlio", migrou para
a
Europa e para os Estados Unidos. Jos Serra chegaria em julho 
Universidade de Corneli.
91 Denise Rollemberg, Exlio, p. 55. Fernando Gabeira, O crepsculo
do
macho, pp. 163-9.
92 Martha Vianna, Uma tempestade como a sua memria - A histria de
Lia,
Maria do Carmo
Brito, pp. 140-1.
93 Denise Rollemberg, Exlio, pp. 53 e 115-21.
94 Joo Bosco e Aldir Blanc, "O bbado e a equi1ibrista Esses
nmeros
incluem os exilados (que no podiam regressar porque estavam
condenados
ou tinham certeza de que seriam presos) e todos aqueles que deixaram
o
pas por suspeitarem que tinham a liberdade ameaada.
  UM MUNDO DIFCIL 359
A ARGENTINA DE PERN
Os dois grandes caudilhos sul-americanos se mantiveram longe da
festa de
Geisel. Alfredo Stroessner, que completava vinte anos de poder
pessoal
no Paraguai, no viera, porque era inimigo de Banzer. Juan Pern,
novo
presidente da Argentina, mandara o ministro do Interior. Havia
encrenca
no pedao. Refletia o reencontro com o fantasma das demagogias dos
anos
50, mas tambm a complexidade das relaes entre dois vizinhos que
no
podiam aparar suas divergncias com sentimentalismos anticomunistas,
partidas de capacetes ou importaes de carne.
Pern tinha uma biografia de trapezista. Em 1916, quando era
subtenente,
os argentinos viviam com uma renda per capita maior que a dos
japoneses,
70% da canadense.95 Chegara ao poder em 1946, coroando um perodo de
anarquia militar. Depuseram-no dez anos depois, numa crise em que
bombardearam o palcio, metralharam a multido, mataram duzentas
pessoas
e inauguraram nos bivaques um novo perodo de baguna, perceptvel
desde
a primeira hora, quando o poder ficou com uma junta de transio
onde se
sentavam dezessete generais.96
Ele encarnava o general latino-americano de caricatura. Juntou uma
fortuna calculada em algo como 12 milhes de dlares da poca. S no
esplio de Evita, sua mulher, os generais acharam 1650 diamantes, 65
quilos de ouro, outros tantos de prata e trs lingotes de platina.97
Exilado em Madri, Pern cultivou rosas e a destruio do que chamava
de
"canalha ditatoria1" Em 1955 a ditadura militar se denominava
Revolucin Libertadora. Onze anos depois, o novo surto denominou-se
Revolucin Argentina. Os militares empossaram e depuseram dois civis
(Arturo Frondizi e Arturo Ilha) e dois generais (Juan Carlos Ongana
e
Roberto Levingston). Por mais que perseguissem o ex-ditador,
generais e
plutocratas nunca conseguiram calar uma antiga rima peronista:
95 William C. Smith, Authoritarianism and the crisis of
theArgentinepolitical economy, p. 16.
96 Para a cena da crise do golpe, Robert A. Potash, El ejrcito y la
poltica en la Argentina , 1945-
1962, pp. 259 e segs. Para a junta, idem, p. 279.
97 Alicia Dujovne Ortiz, Eva Pern, p. 293.
  360 A DITADURA DERROTADA
Se siente, se siente,
Pern est presente.
O caudilho tinha nas costas a cicatriz da antipatia da ditadura
brasileira. Para os hierarcas da Revoluo de 31 de Maro, o
peronismo
era a verso virulenta da demagogia nacional. Em novembro de 1964,
num
documento do SNT, Golbery sugeria que "se v alertando a mente para
a
existncia real de um plano perono-comuno-brizolista, visando 
agitao
na Amrica Latina"98 Temia que Pern sasse de Madri, desembarcasse
em
Buenos Aires e virasse a poltica argentina de cabea para baixo. Na
manh de 2 de dezembro de 1964 um jato da Iberia que fazia o vo
Madri-Buenos Aires, com escala no Rio, pousou no aeroporto do Galeo
com
Juan Pern a bordo. O governo sabia de sua presena e no deixou
sequer
que ele descesse para tomar um caf no bar. O chefe do cerimonial do
Itamaraty entrou no avio e informou ao passageiro que ali comeava
sua
viagem de volta para a Espanha.
Pern retornou a Buenos Aires oito anos depois, em novembro de 1972.
Tinha 76 anos e a sade alquebrada por padecimentos da bexiga e do
pulmo e por uma infeco no pericrdio.99 Meio milho de pessoas
foram
esper-lo no caminho do aeroporto de Ezeiza. Aproximava-se da
senilidade
como senhor de um pas cuja renda per capita cara a menos da metade
da
japonesa, um quinto da canadense. Somando-se a uma sucesso de
desastres, a salada de teorias corporativas, cosmopolitas e
contracionistas dos oito ministros da Economia de sete anos de
ditadura
militar havia produzido uma inflao de 75,9% e um dficit pblico
de
6,3% do Produto Interno Bruto.
A natureza militarista e repressiva do regime, bem como a
militarizao
das bases peronistas, levou a violncia poltica argentina a um n98
Impresso Geraln2 11, de 9 de novembro de 1964.
99 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, narrando-lhe
uma
entrevista com Azeredo da Silveira, 5 de dezembro de 1973. APGCS/HF.
100 William C. Smith, Authoritarianism and the crisis of the
Argentine
political economy, pp. 201
e 204.
  UM MUNDO DIFCIL 361
vel indito. Antes do retorno de seu lder a Buenos Aires, o brao
terrorista do peronismo explodira 1817 bombas e seqestraravinte
pessoas. Matara o presidente da Fiat, o comandante da guarnio
militar de Rosano e o general Pedro Aramburu, ex-presidente da
Repblica, que autorizara o fuzilamento de dezoito militares (um
deles,
general) e nove civis na represso a um levante peronista. Era a
guerrilha urbana mais prspera, ativa e letal do mundo. At o final
de
1973 arrecadara mais de 20 milhes de dlares extorquindo e
seqestrando
empresrios.102 Em 1972 os terroristas italianos haviam matado cinco
pessoas em 595 aes (um morto para cada 119 aes).103 Os
argentinos,
68 em 737 (um morto para cada onze aes). Do outro lado
institucionalizara-se a tortura e, no primeiro massacre de um triste
ciclo, dezesseis prisioneiros foram assassinados na base naval de
Trelew. O chefe da operao, contra-almirante Horcio Mayorga, diria
mais tarde: "Para mim, era preciso que tivesse havido fuzilamento no
estdio do River, com Coca-Cola grtis e tudo sendo
televisionado"4
Os comandantes militares tinham concebido uma manobra de entrega do
poder aos civis na qual tosariam o lobo velho e desdentado.
Chamavam-na
Gran Acuerdo Nacional. Asseguravam-se o direito de veto s decises
do
novo poder civil e se mantinham como supervisores do que haveria de
ser
um governo de "transio e consolidao"5 Trs anos antes de
assumir a
presidncia, quando comandava o exrcito, o general Alejandro
Lanusse j
dizia que a melhor sada para as foras armadas era "embolsar"
Pern,
permitindo seu regresso.6 Pern tosou-os.
  1
  101 "Archive on socio-political violence in Argentina, 1956-1 974
citado em William C. Smith,
Authoritarianism and the crisis oftheArgentinepolitical economy, p.
141.
102 Susanna W. Purneli, "Business and terrorism in Argentina, 1969-
1978" , em Terrorism and personaiprotection, editado por Brian M.
Jenkins, pp. 91 e 93.
103 Alison Jamieson, The heart attacked - Terrorism and conflict in
the
Italian State, p. 20. Um
levantamento feito pela Central Inteiligence Agency, Patterns
oflnternational Terrorism. A Research Report, Washington, junho de
1981,
usando critrios que no permitem uma comparao
direta entre os dois nmeros, diz que em 1972 as vtimas de atos
terroristas foram 157.
104 Horacio Verbitsky, O vo - A histria da operao militar de
extermnio que abalou a Argentina, p. 21.
105 William C. Smith, Authoritarianism and the crisis of the
Argentine
political economy, p. 212.
106 Pio Corra, O mundo em que vivi, p. 1056.
  362 A DITADURA DERROTADA
O lobo velho imps aos generais no s a eleio dele (com 62% dos
votos), mas a presena de sua mulher, Isabelita, na
vice-presidncia.07
Era a humilhao definitiva para uma tropa que rosnara em 1951,
quando 1
milho de argentinos marcharam por Buenos Aires pedindo a Pern que
colocasse Evita na chapa de sua reeleio. A nova vice-presidente se
chamava Mara Estela Martnez. Pern conhecera-a quando era uma
danarina gostosona no Panam. Afora o diminutivo, em nada lembrava
a
gloriosa antecessora. Atarracada, com uma boca pequena e um
temperamento
tmido, faltavam-lhe a elegncia esguia, o sorriso aberto e a
energia
cruel da primeira. Descendo as escadas do palcio com seus Dior
longos,
Evita fora um personagem de um conto de fadas fraudulento.
Isabelita,
aos 42 anos, com suas saias apertadas, no conseguira sair da
crnica
banal dos oportunistas. O casal entrou na Casa Rosada no dia 12 de
outubro de 1973.
Trs semanas depois, o comandante da armada argentina, de viagem
marcada
para o Brasil, pediu que Geisel o recebesse e informou que lhe
sugeriria
um encontro com Pern, em Buenos Aires. 8 O pedido foi recusado, e
a
proposta nem sequer foi ouvida. Pern simbolizava tudo o que Geisel
detestava: general corrupto, politiqueiro e demagogo. Nas conversas
pessoais chamava-o de "uma mmia mas policiava-se para no agravar
a
verdadeira dificuldade surgida nas relaes com Buenos Aires ainda
na
poca dos consulados militares: era Itaipu.9
Em abril de 1973 os governos brasileiro e paraguaio haviam assinado
o
tratado que permitiria a construo, em condomnio, de uma barragem
no
rio Paran, na altura das cataratas do Iguau. Com 18 milhes de
quilowatts, seria a terceira hidreltrica do mundo, garantindo o
abastecimento d parque industrial brasileiro e dos cofres da
plutocracia militar paraguaia.
Os militares argentinos temiam que uma barragem daquele tamanho
resultasse numa "irradiao brasileira" ou mesmo na incorporao
econmica da regio nordeste do seu pas, sobretudo as provncias de
For-
107 William C. Smith, Authoritarianism and the crisis
oftheArgentinepolitical economy, p. 227.
108 Telegrama do embaixador Azeredo da Silveira ao Itamaraty, de 30
de
outubro de 1973. APGCS/HF.
109 Para "uma mmia", conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor
Ferreira, 5 de dezembro de
1973. APGCS/HF.
  UM MUNDO DIFCIL 363
mosa e Baseavam-se nos prprios receios e num trecho do Conjuntura
poltica nacional - O Poder Executivo e geopoltica do Brasil, do
general Golbery, em que ele chamou de "fronteira viva" a linha que
separa os dois pases na altura da Mesopotmia argentina."1 Como
fronteira viva pode se mexer e a do Vice-Reinado do Prata sempre se
moveu reduzindo o territrio da Argentina, enquanto o tamanho do
Brasil
e do Chile dobrava, a obsesso geopoltica tinha pelo menos
antecedentes
histricos. 12 Julgavam ainda que a obra colocaria o Paraguai
definitivamente sob influncia brasileira.
Armaram-se de diversas teorias jurdicas (a soberania compartilhada
dos
rios internacionais), hidrolgicas (uma catstrofe que rompesse
Itaipu
inundaria cidades argentinas) e sanitrias (o lago da barragem
propagaria a esquistossomose rio abaixo). Sustentavam a tese segundo
a
qual o pas que fica a montante de um rio internacional de curso
sucessivo est obrigado a submeter seus projetos de utilizao das
guas
s naes que ficam a jusante. Em midos: para represar o rio Paran
e
erguer Itaipu, Brasil e Paraguai precisavam consultar a Argentina,
scia
da foz da bacia do Prata. Com o apoio do Chile, da Bolvia e do
Uruguai,
o presidente Lanusse forou um convite para visitar o Brasil.
Durante o
banquete oferecido por Medici, provocou um incidente ao enfiar um
"caco"
no discurso de agradecimento que entregara ao Itamaraty: condenou o
uso
do rio sem consultas prvias."3 Sua comitiva cortou do comunicado
conjunto dos dois presidentes o rotineiro indestructible que
adjetiva a
amizade dos pases latino-americanos."4
110 Para a preocupao argentina, ver Osiris Guiliermo Villegas,
Polticas y estrategias para ei desarroilo y la seguridad nacional,
pp.
214-5. O general Osiris Villegas foi embaixador da Argentina no
Brasil
de 1969 a 1972. Antes, durante trs anos, fora secretrio-geral do
Conselho de Segurana Nacional. Ver tambm Juan Enrique
Guglialmeili,
"Argentina frente aI Operativo Misiones dei Brasil em Estrategia,
Buenos Aires, n 19/20 de novembro e dezembro de 1972 e janeiro e
fevereiro de 1973.
111 Golbery do Couto e Silva, Conjuntura poltica nacional - O Poder
Executivo e geopoltica do Brasil, p. 58.
112 Em Osiris Guillermo Viliegas , Polticas y estrategias para ei
desarrolio y la seguridad nacional, a pgina 225 desdobra-se em trs
mapas comparativos do tamanho dos trs pases sob o ttulo "La
geografa
en marcha
113 Mano Gibson Barboza, Na diplomacia, o trao todo da vida, pp.
114-6.
114 Informao dada pelo general Joo Baptista Figueiredo a Heitor
Ferreira, em Dirio de HeitorFerreira, 13 de maro de 1972.
  364 A DITADURA DERROTADA
Todas as restries argentinas a Itaipu podem ser resumidas numa s
frase, do chanceler argentino Luis Mara de Pablo Pardo a seu colega
brasileiro Mano Gibson Barboza, num almoo a ss: "O que no
queremos,
realmente,  que vocs construam essa hidreltrjca com o Paraguai5
Geisel via na rivalidade argentina um exerccio ftil. Achava que
Lanusse errara o tiro procurando despertar um sentimento de
hispanidade
sul-americana. "Devia juntar-se ao Brasil e ao Paraguai no esforo
anticomunista." 6 Para surpresa dos generais que em 1964 temiam o
perono-comuno-brizolismo, o velho lobo congelou a manipulao da
rivalidade com o Brasil. Para o governo brasileiro, Pern foi um
vizinho
menos encrenqueiro que os generais.
PORTUGAL E SUAS COLNIAS
O chanceler Rui Patrcio chegou ao Rio de Janeiro quase uma semana
antes
das cerimnias da posse de Geisel. Quadro coadjuvante da ditadura
instalada em Portugal desde os anos 30, foi de festa em festa,
seguindo
o receiturio da diplomacia portuguesa: costurar por cima a amizade
luso-brasileira. A cada novo governo brasileiro, ela tratava de
desarticular os impulsos de boa parte do Itamaraty, que estava
interessada em afastar o Brasil da poltica ultramarina de Lisboa.
Portugal mantinha colnias em Angola, Moambique, Guin-Bissau e
Cabo
Verde - tudo o que restava do seu imprio, quase tudo o que restava
da
experincia colonial europia. Nem colnias eram mais. Eram guerras
perdidas de uma metrpole falida.
Com a economia estagnada, drenado pela imigrao para a Frana e
para a
Alemanha, Portugal padecia um declnio populacional. Tinha 8,2
milhes
de pessoas em casa e 1 milho fora, a maioria na faixa dos dezoito
aos
35 anos. Um portugus ganhando salrio mnimo na Frana con115 Mano
Gibson Barboza, Na diplomacia, o trao todo da vida, p. 109. Esse
almoo
ocorreu em
junho de 1971.
116 Didrio de Heitor Ferreira, 17 de janeiro de 1972.
  UM MUNDO DIFCIL 365
seguia uma renda superior  de 92% de seus compatriotas." 7 A
segunda
maior populao de portugueses vivia na cidade de Paris."8 Um em
cada
trs dos 120 mil portugueses que emigraram em 1973 eram operrios
qualificados. A poupana remetida pelos emigrados equivalia a 70% do
total das exportaes do pas."9
Esse imprio anacrnico enfrentava os movimentos de libertao
africanos
mantendo 150 mil homens armados no alm-mar. Estava batido na
Guin-Bissau, onde o poder dos guerrilheiros j fora reconhecido por
54
governos, quase todos africanos ou comunistas. Passava dificuldades
em
Moambique e se segurava em Angola, com 60 mil homens aquartelados.
As
despesas militares chegavam a 425 milhes de dlares, cerca de 7% do
Produto Interno Bruto, percentual maior que o dos Estados Unidos e
trs
vezes superior ao da frica do Sul.120 De cada quatro homens com
idade
suficiente para o servio militar, um estava na tropa. A percentagem
da
populao portuguesa em armas s era superada em Israel e nos dois
Vietns.
Todos os governos brasileiros apoiaram Portugal na sua guerra contra
os
africanos. Desde 1964, faziam isso por solidariedade ao
anticomunismo de
Lisboa. Em 1965 o governo Castello Branco no disse uma nica
palavra
quando a brasileira Arajaryr Moreira de Campos foi assassinada perto
da
fronteira espanhola junto com seu companheiro, o general Humberto
Delgado, ltimo candidato oposicionista  presidncia de Portugal. A
polcia poltica portuguesa operava no Rio, e o ministrio do
exrcito
portugus ofereceu estgios de guerra antiinsurrecional a oficiais
brasileiros.2 Fez isso tambm por conta do poder de presso da
pequena
e decadente plutocracia portuguesa do Rio de Janeiro. Esse foi o
caso de
polticos como Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, que tinham
117 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 23-4.
18 Donald Sassoon, One hundred years of socialism, p. 603.
119 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 23-4.
120 Idem, pp. 29 e 32.
121 Para a ao da PIDE, artigo de Hermano Alves no Correio da Manh
de
22 de julho de 1964
denunciando a invaso da casa de um jornalista angolano. Para os
estgios, carta do embaixador
brasileiro em Lisboa, Boulitreau Fragoso, ao general Ernesto Geisel,
de
16 de setembro de 1964.
APGCS/HF.
  366 A DITADURA DERROTADA
amigos em Lisboa. Tanto os Dirios Associados como O Globo e o
Jornal do
Brasil, embora em graus variveis, eram militantes da guerra
portuguesa.
A indstria blica brasileira contrabandeava armas para as tropas
coloniais em Angola.22 A conexo se sustentava ainda num romantismo
utilitrio. Rendera ao presidente Medici os ossos de d. Pedro i para
enfeitar a festa do Sesquicentenrio da Independncia.
Enquanto o apoio brasileiro a Portugal foi uma questo de
anticomunismo
e romance, Geisel se incomodou pouco com ele. Tentou se associar ao
imprio, juntando a Petrobrs aos portugueses na explorao do
petrleo
angolano. Foi contraditado e vencido pelo chanceler Gibson Barboza,
que
via na iniciativa um perigoso envolvimento brasileiro na guerra
africana. 23 O general s se transformou num adversrio do
colonialismo
lusitano depois da crise do petrleo de 1973. Pressionado pelos
americanos, o governo de Lisboa permitiu que a ponte area destinada
a
garantir o suprimento de armas para Israel se reabastecesse nos
Aores.
Os pases rabes responderam embargando as exportaes de petrleo
para
Portugal.
Discutindo um editorial do Jornal do Brasil que defendia uma
negociao
afro-luso-brasileira para a questo angolana, Geisel disse a
Golbery:
"Eu acho que ns deveramos mandar Portugal passear. [...J Acho que
est
na hora de pegar Portugal e dizer: Olha, no conte mais com o
Brasil".24 No dia seguinte a essa conversa, o Itamaraty informou-o
de
que era grande a possibilidade de o Brasil sofrer alguma retaliao
dos
rabes por conta do apoio que dava  poltica colonial
portuguesa.25
Quando um diplomata lhe ofereceu um esboo de poltica externa,
sugerindo que o Brasil trocasse com Portugal o apoio  poltica
colonial
pelo petrleo angolano, Geisel anotou um seco N.26
122 Antonio Delfim Netto, julho de 1988. Delfim afirmou que o
Itamaraty
fazia de conta que no
via. "Eles estavam fartos de saber que havia [venda de armas], mas a
gente respondia dizendo que
no constava nada a esse respeito, e o assunto se encerrava."
123 Mano Gibson Barboza, Na diplomacia, o trao todo da vida, p.
244, e
Dirio de Heitor Ferreiro,
19 de setembro de 1972.
124 Para o editorial, intitulado "Famlia atlntica", Jornal do
Brasil
de 7 de novembro de 1973,
12 caderno, p. 6. Conversa de Geisel com Golbery, 20 de novembro de
1973. APGcS/HF.
125 Telefonema de Drio Castro Alves a Heitor Ferreira, 21 de
novembro
de 1973. APGCS/HF.
126 Carta do embaixador Vasco Mariz a Geisel, de 6 de dezembro de
1973.
APGCS/HF.
  E
UM MUNDO DIFCIL 367
Em fevereiro, durante a conversa em que convidou o general Dale
Coutinho para o Ministrio do Exrcito, foi mais didtico.
Argumentou
que a crise do petrleo obrigava o Brasil a se aproximar dos rabes:
Eu tenho a impresso de que est na hora da gente dizer para
Portugal:
Ns somos amigos, ns somos parentes, somos irmos, mas esse troo
vocs tm que evoluir, vocs tm que estudar a maneira de dar
liberdade
a esses pases. O ingls no deu, o francs no deu? [...] Eles vm
com
o negcio que aquilo no  colonialismo, que eles so provncias,
mas
isso  tapeao. [...] Mas eu acho que a nossa poltica em relao a
Portugal tem que mudar. Eu tenho informaes de que a mocidade de
Portugal toda est contra. J no quer prestar o servio militar, o
nmero de mutilados moos que voltam a Portugal, que se v nas ruas,
j
 muito grande. E os comunas esperando. J esto infiltrados,
esperando
as coisas l dentro. Aquela posio monoltica que havia antigamente
em
Portugal, no tempo do Salazar,127 hoje em dia j no tem mais.128
Conheciam-se os nmeros que alimentavam a inquietao militar. Um
milho
de soldados portugueses j haviam passado pela guerra da frica. A
maioria dos combatentes era analfabeta, e os filhos das boas
famlias se
protegiam servindo nos estados-maiores, que alm de ficarem longe do
fogo, s comeavam a trabalhar depois do almoo. Em Angola, um
subtenente ganhava menos que porteiro de cinema, metade do que
recebia
um barbeiro. Como a classe mdia fugiu do servio militar, o governo
preencheu com conscritos as vagas dos nveis inferiores da
oficialidade.
Os conscritos no podiam subir na hierarquia e, portanto, evitavam
as
linhas de combate.29 Em julho de 1973, procurando quebrar o crculo
vicioso, ampliou-se o acesso dessa parte da tropa s promoes. Como
seria levada em conta a antiguidade de servio, a providncia obs127
Refere-se a Antnio de Oliveira Salazar, o pai e encarnao da
ditadura,
que governou Portugal por quase cinqenta anos, at 1968, quando a
cadeira em que estava sentado se desmanchou, ele bateu a cabea,
teve um
derrame e viveu os dois anos seguintes em coma. Tinha 81 anos quando
morreu.
128 Reunio de Geisel com Dale Coutinho, 16 de fevereiro de 1974.
APGC5/HF.
129 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 19-20 e
36-7.
  368 A DITADURA DERROTADA
truiria as promoes dos oficiais regulares e, com isso, estaria
criado
outro crculo vicioso. Em dezembro o governo recuou, revogando as
facilidades oferecidas aos conscritos e aumentando os salrios dos
Podia
no ser um retorno ao monolitismo de Salazar, mas tentava ser
paliativo
aceitvel. Parecia que nem havia por que temer os comunas. Vinte e
dois
membros do Partido Comunista Portugus tinham gramado um total de
308
anos de cadeia, e seu secretrio-geral, depois de pagar treze de
crcere, estava no 14 de exlio. O chefe da Central Inteiligence
Agency,
William Colby, pensara em fechar a estao da companhia em Lisboa. O
adido militar americano se orgulhava de nunca ter conversado com
nenhum
oficial portugus cuja patente fosse inferior  de coronel.3
Geisel duvidava que a guerra africana pudesse resultar numa vitria
portuguesa, mas confiava na estabilidade do regime. S isso explica
a
sua vontade de mandar o irmo Orlando para a embaixada do Brasil em
Lisboa. A idia lhe ocorreu antes de saber que ele queria continuar
no
ministrio. Garantia-lhe a segurana, proporcionava-lhe uma
vilegiatura
e mantinha-o prximo da filha, casada com o coronel-adido em
Lisboa.132
Orlando recusou, e a embaixada rolou para o general Carlos Alberto
da
Fontoura, chefe do Servio Nacional de Informaes. Era general-de-
diviso, a permanncia dele no Brasil seria encrenca certa, e Geisel
queria que sumisse no exlio.33
O rompimento com a parceria colonialista relacionava-se s
conseqncias
embaraosas que ela produzia junto aos rabes. Por isso, Geisel
queria
resolver logo a questo. Disse isso ao embaixador Azeredo da
Silveira
quando o convidou para o ministrio, e insistiu dias depois, ao
receber
dele um projeto de poltica gradualista. Preparando-o para as
conversaes que haveria de ter com o chanceler portugus Rui
Patrcio,
foi claro: "Ele no pode ter iluso. Ns temos que mostrar para
Portugal
que a poltica mudou"
130 Hugo Gil Ferreira e Michael W. Marshall, Portugals Revolution,
p.
29.
131 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 69-70.
132 Para vilegiatura, reunio de Geisel com Golbery, Moraes Rego e
Heitor Ferreira, 3 de dezembro de 1973. APGCS/HF.
133 Conversa de Geisel com Moraes Rego, Americo Mouro e Heitor
Ferreira, 8 de janeiro de 1974.
APGCS/HF.
  IUM MUNDO DIFCIL 369
Silveira justificou-se: "O problema de Portugal  muito emocional
no Brasil. Ento, a gente tem que botar uma azeitona na empada. [...
1"
.
Geisel foi duro. Disse-lhe que trouxera um documento "muito fraco"
e repetiu o recado que tinha para a diplomacia portuguesa: "Olha,
no
conte mais conosco"34
O general entendeu que o embaixador estava preocupado com a presso
interna dos portugueses. Seu prprio irmo, ao saber do projeto de
reviravolta, lhe dissera: "Vai devagar"35 Da conversa resultou que
Silveira trataria do assunto, mas seria o general Fontoura, ao
chegar a
Lisboa, quem cravaria a estaca. O chefe do SNI pretendia tirar
frias e
passear um pouco pela Europa.
Uma semana antes da posse, Geisel tinha consigo um livro que fazia
imenso sucesso em Lisboa e no alm-mar: Portugal e o futuro, do
general
Antnio de Spnola. Lanada em fevereiro, a edio de 50 mil
exemplares
esgotara-se em doze horas. O autor era vice-chefe do estado-maior e
comandara as tropas na Guin-Bissau, onde, desde 1968, dava a guerra
por
perdida.36 Dizia que "o caminho para o futuro prspero de
sobrevivncia
da Nao passa necessariamente pelo rpido restabelecimento da paz
"Pretender vencer uma guerra subversiva por meio de uma soluo
militar
 aceitar, de antemo, a derrota."137 Era o ltimo general de
monculo.
Combatera ao lado das tropas franquistas durante a Guerra Civil
Espanhola e acompanhara o cerco de Leningrado como observador junto
s
foras alems.138 Rui Patrcio desceu em Braslia e fingiu
desdenh-lo:
"Vocs falam tanto sobre este livro que estou pensando em l-lo"39
Era tarde para a diplomacia colonial. Era tarde tambm para Geisel,
cuja
diplomacia anticolonialista ficara restrita ao seu crculo de
interlocutores. A essa altura as caravelas coloniais perdiam
tripulao.
Mesmo Carlos Lacerda, um ardoroso defensor da aliana
luso-brasileira,
escre134 Reunio de Geisel com Azeredo da Silveira, 28 de fevereiro
de
1974. APGCS/HF.
135 Reunio de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 14 de maro de
1974. APGCS/HF.
136 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, p. 31.
137 Antnio de Spnola, Portugal e o futuro, pp. 43 e 47.
138 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, p. 34.
139 O Estado de S. Paulo, 14 de maro de 1974, capa do 2 caderno.
  370 A DITADURA DERROTADA
via: "O Brasil no pode mais apoiar uma causa perdida"4 J o
primeiro-ministro portugus, Marcello Caetano, lera o livro de
Spnola
de uma s vez, numa madrugada de fevereiro, e conclura que havia um
golpe militar em marcha.41 O imprio rua em Portugal.
Desde setembro de 1973 um grupo de oficiais se organizara
secretamente
numa rede que se estendia s colnias. Autodenominara-se Movimento
dos
Capites, mas logo depois ficara conhecido como Movimento das Foras
Armadas, MFA. Em dezembro j recrutara duzentos dos 1600 capites e
majores portugueses, e era dirigido por uma comisso de quinze
oficiais.
Planejavam um golpe de estado que derrubasse a ditadura.42
No dia 5 de maro, discutindo o projeto gradualista apresentado por
Silveira, Golbery implicara com um trecho em que o embaixador dizia
ser
necessrio "manter a posio brasileira anticolonialista"
Argumentava:
"Ningum acredita nisso. A nossa posio anticolonialista  quase
que
subconsciente, porque os outros no se do conta disso".43 Em
Lisboa,
nesse mesmo dia, o MFA colocou-se secretamente sob as ordens do
general
Spnola. Enquanto Geisel era empossado em Braslia, a Guarda
Republicana
cercou a Academia Militar, onde se realizava uma reunio de
oficiais.44
No dia seguinte um regimento de infantaria tentou marchar sobre
Lisboa,
foi contido, e prendeu-se uma centena de oficiais. Diante da
agitao
militar, Geisel ps o p no freio: "Nosso propsito  chegar no fim
com
uma posio clara contra [a poltica colonial], mas a crise interna
deles nos obriga a ir mais devagar"45
Rui Patrcio recebeu o recado de Silveira com uma postura fatalista:
"Se
o Brasil no pensa como ns pensamos, o que  que podemos fazer?"
46
Num projeto de circular  delegao brasileira nas Naes Uni- das,
Silveira pedia moderao, mas informava: "O Brasil votar a favor
140 No prefcio de Portugal e o futuro, de Antnio de Spnola, p. 9.
141 Marcelio Caetano, Depoimento, p. 196.
142 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 38 e
43.
143 Reunio de Golbery com Geisel, 5 de maro de t974. APGCS/HF.
144 O Estado de S. Paulo, 16 de maro de 1974, capa do 1 caderno.
145 Nota de Heitor Ferreira, de 16 de maro de 1974. APGCS/HF.
146 O Estado de S. Paulo, 17 de maro de 1974, p. 33.
  UM MUNDO DIFCIL 371
de projetos que condenem a ao colonialista, ainda que dirigidos
especificamente contra Portugal"47 Ao instruir a embaixada em
Lisboa,
foi mais longe: "Vossa Excelncia [...] no permitir que a
Chancelaria
portuguesa possa alimentar a esperana de que o Brasil dar a
Portugal o
apoio [...] que dele espera o Governo portugus48 A virada
pretendida
por Geisel estava feita, mas, por falta de oportunidade e de
pronunciamento pblico, manteve-se no circuito burocrtico do
Itamaraty.
Aos 25 minutos do dia 25 de abril uma rdio de Lisboa transmitiu a
voz
de um locutor lendo a letra da msica "Grndola, vila morena", que
falava de uma "terra da fraternidade Era a senha de um novo
levante. s
oito horas a praa do Comrcio foi tomada por tanques insurretos. s
onze o governo se mudou para um quartel. s 17h45, vestindo uma capa
bordada e empunhando um chicote de cavaleiro, o general Spnola
recebeu
a rendio de Marceilo Caetano. Mandou coloc-lo num blindado e
remeteu-o para a mesma guarnio onde funcionara o comando
operacional
do golpe. Na manh seguinte, escoltado por um sargento, Caetano foi
embarcado num avio e exilado na ilha da Madeira.49
Portugal chegou ao futuro misturando anarquia e liberdade. As
mulheres
punham cravos nas armas dos soldados, dando  revoluo o nome da
flor.
A classe mdia estacionava seus carros em locais proibidos, os
cafetes
tomaram o Rossio, e as prostitutas ocuparam a calada da pastelaria
Sua. Os homossexuais juntaram-se aos anarquistas, e todos puderam
ver
a estria de Hair, que sete anos antes anunciara na Broadway "a
Alvorada
da Era de Aquarius".5 No dia 14 de maio foi oficialmente abolida a
censura. O Partido Comunista Portugus saiu da clandestinidade,
assumiu
o controle da central sindical e ganhou o Ministrio do Trabalho.
147 Portugal-Projeto de Circular s Misses junto s Naes Unidas
em
Nova York e em Genebra,
 Misso junto  Unesco e  Representao junto  FAO, sem data nem
assinatura, preparado por
Silveira em fevereiro de t974. APGCS/HF.
t48 Portugal - Projeto de Instrues para o Embaixador do Brasil em
Portugal no que Respeita s
Questes entre Portugal e os Estados e Territrios Africanos, sem
data
nem assinatura, preparado
por Silveira em fevereiro de 1974. APGCS/HF.
149 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 58-60.
Para
o sargento, Marceilo
Caetano, Depoimento, p. 205.
150 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, pp. 61-2.
  372 A DITADURA DERROTADA
O governo brasileiro acabou comprando o pior pedao do passado
portugus. No dia 19, no Rio de Janeiro, o ministro da Justia,
Armando
Falco, expediu uma nota aos seus censores informando que nada se
podia
escrever a respeito da iminente chegada ao Brasil do ex-primeiro-
ministro Marceilo Caetano e do ex-presidente Amrico Thomaz, um
almirante senil que batia continncia para porta de elevador. Depois
viriam o ex-chanceler Rui Patrcio e boa parte da plutocracia
portuguesa, inundando de pratas e obras de arte o mercado carioca de
antiguidades. Na cadeira de chanceler sentava-se agora o advogado
socialista Mrio Soares. Pagara com uma deportao para a ilha de
So
Tom o empenho em tentar desvendar o assassinato de Humberto Delgado
e
Arajaryr Moreira de Campos. Era figura fcil para a intelectualidade
da
esquerda carioca, um desconhecido para a ditadura.
Aconteceu tudo isso, e o general Carlos Alberto da Fontoura ainda
no
havia chegado a Lisboa. O novo governo portugus fez saber ao
embaixador
brasileiro em Londres que talvez fosse o caso de substitu-lo.5
Geisel
tomou a sugesto por insulto e respondeu que ou Portugal recebia o
general ou ficaria sem embaixador nos cinco anos seguintes. Em sua
primeira carta escrita em Lisboa, Fontoura se queixou das greves, da
falta de po e do excesso de liberdade. Arriscou um palpite: "Penso
que
as coisas mudaro" (Mudariam, no sentido inverso das esperanas
dele.)
Indicou que comeara a operar: "J andam  minha cata para saber
como se
organiza um SNI. [...j O Diabo no  to feio assim".52
(Organizou-se
um servio de informaes, mas ficou sob o controle de oficiais
esquerdistas.)53
Geisel nunca modificou sua posio favorvel  independncia das
colnias, mas ela veio a lhe custar bem mais caro do que parecera.
Assim
como o embaixador Silveira procurara dissolver a crueza do
rompimento
desejado pelo general, a burocracia militar do prprio governo
procurava
cont-lo. Se no incio do ano Portugal era um aliado fiel porque
151 Telegrama do embaixador Sergio Corra da Costa ao Itamaraty, de
24
de maio de 1975. APGCS/HF.
152 Carta do general Carlos Alberto da Fontoura ao general Joo
Baptista
Figueiredo, de 28 de
maio de 1974. APGCS/HF.
153 Kenneth Maxwell, The making of Portuguese democracy, p. 88.
  UM MUNDO DIFCIL 373
l no existia esquerda, tornara-se um pesadelo quando pareceu ter
ficado sem direita. O rompimento com a poltica colonial, que
parecera
um gesto racional de distanciamento de um velho amigo, tornara-se
uma
aproximao perigosa com o eterno inimigo, a esquerda.
  A costura da prpura
s nove e meia da manh do dia 15 de maro, os cinco cardeais
brasileiros, todos de batina, com largos cintos cor de prpura,
entraram
no prdio do Congresso e duas horas depois, em fila, estavam no
palcio
do Planalto, cumprimentando o novo presidente.1 A hierarquia
catlica
dava ao regime um sinal de que recebia o governo com a pedra limpa.
A
cena era o triunfo de uma costura, mas persistia o conflito de
propsitos.
  Geisel enquadrava a questo da Igreja no seu universo de hierarquias
e
preferncias. Havia os cardeais bons e os ruins, os canais de
entendimento possveis e os esprios, os temas discutveis e os
intocveis. No campo das preferncias, d. Eugnio Saies, do Rio de
Janeiro, era um bom cardeal. O arcebispo felicitara-o pela eleio e
oferecera-lhe "a contribuio de minhas oraes2 Geisel agradeceu,
chamando-o de "bom pastor Cogitara visit-lo.3 Tambm eram bons os
cardeais Vicente Scherer, de Porto Alegre, e Avelar Brando, de
Salvador. Ruim: Paulo Evaristo Arns, de So Paulo. O presidente da
CNBB,
d. Alosio Lorscheider, arcebispo de Fortaleza, estava classificado
entre os maus bispos.
  1 Eram os cardeais Eugnio Saies (Rio de Janeiro), Paulo Evaristo
Arns
(So Paulo), Avelar Brando (Salvador), Vicente Scherer (Porto
Alegre) e
Vasconcelos MoIta (Aparecida).
2 Carta de d. Eugnio Saies a Geisel, de 17 de janeiro de 1974.
APGCS/HF
3 Carta de d. Eugnio Saies a Geisel, de 23 de janeiro de 1974, e
uma
tira de papel de Heitor Ferreira, intitulada Um Programa Tentativo
para
a Retomada at a Conveno, de 2 de agosto de 1973. Previa o
encontro
para o dia 5 de setembro. A visita no ocorreu. APGCS/HF.
  376 A DITADURA DERROTADA
Luterano por hbito familiar, o general era um agnstico discreto e
anticlerical assumido. Acreditava quando muito na existncia de uma
fora criadora do universo, a qual, no entanto, seria um ente da
fsica,
no uma divindade. Nunca se dirigira ao sobrenatural. Entendia as
religies como sacrrios de princpios.4 Lembrava-se dos padres de
Bento
Gonalves ameaando com o inferno quem entrasse em templo
protestante,
da professora primria ensinando que a Santa Madre era a Igreja
"nica e
verdadeira"5 Em condies normais, Geisel era anticlerical por
agnstico. Com uma Igreja na oposio,  sua esquerda, por
convico.
Suas queixas eram fundas:
O ato sexual, a reproduo,  pecado. Pois no . Eu acho que Deus
no
seria to cretino de dar rgos de reproduo ao homem e  mulher
para
no serem usados. [...} A Igreja, desde a histria de Eva, inventa
que
aquilo  um pecado. Isso  uma coisa que eu no aceito. Ento o
cachorro, o gato, o boi, a vaca, todo mundo est pecando? E Deus fez
esse troo por qu?6
Eles no tinham nada que ir atrs dos direitos do homem, porque
esses
direitos so direitos aqui na terra, e eles deviam ver os direitos
do
homem no cu. Isso no  deles. Para mim, isso inclusive foi feito
pela
Revoluo Francesa, que era contra eles. [...]  uma atividade
espria.
[...] O sujeito que quer resolver um problema social quer se impor
ao
governo. [...} A Igreja quer impor uma soluo cretina, porque 
irreal.7
Isso no campo das idias. No mundo das estruturas polticas, Geisel no
conseguia absorver a complexidade da hierarquia catlica. Se a
Igreja era uma organizao comandada por um monarca, ento o interlocutor
do governo deveria ser seu embaixador, o nncio apostlico. Se era uma
organizao verticalizada, os generais deveriam conversar com os
cardeais. Geisel no entendia que o cardeal-arcebispo de So Paulo
no
4 Ernesto Geisel, abril de 1995.
5 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 4
de
fevereiro de 1974. APGCS/HF.
6 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 23
de
novembro de 1973. APGCS/HF.
7 Idem.
  A COSTURA DA PRPURA 377
  tivesse, como o comandante da 28 Regio Militar, jurisdio sobre
todos os padres paulistas.8
  Buscava um gancho hierrquico e, acima de tudo, uma forma de evitar
contatos com a Conferncia Nacional dos Bispos, presidida pelo
franciscano Lorscheider. Como Geisel, Alosio descendia de pobres
imigrantes alemes. Nascera em Estrela, a pequena comunidade onde o
general guardava seus poucos vnculos familiares. D. Ivo Lorscheiter,
primo do arcebispo, era o secretrio-geral da CNBB. Num momento da
histria do Brasil em que as instituies republicanas se viram
debilitadas, suas mais poderosas corporaes - o Exrcito e a Igreja
estavam sob o controle de quatro descendentes de colonos alemes, os
irmos Geisel e os primos Lorscheider. Uns tinham a marca da tropa e os
outros, a marca da Igreja. Assemelhavam-se na noo de hierarquia e
disciplina, bem como na frugalidade da origem comum. O general no os
queria por perto. Reclamava:
  O Lorscheider acha que ele  igual a mim. Eu sou o presidente da
Repblica, e ele, o Alosio, ou o outro, ele  o presidente da Igreja.
[...] os direitos dele vm de Deus. E os meus so esprios, vm do voto
indireto. [...] Ele tem o direito divino de esculhambar a poltica e
todo esse troo, foi Jesus Cristo que deu para ele. [...] Eu no vou
aceitar que o Lorscheider sente aqui e venha conversar comigo: Bom,
porque a Igreja brasileira tem essa reivindicao, porque tem isso, tem
aquilo [...] do governo, porque isso, porque aquilo. Eu no posso
aceitar isso. No reconheo nele essa condio.  esprio, o direito
dele  esprio. Isso a  um arranjo que eles fizeram para, pela unio,
eles se transformarem numa fora.9
  O antagonismo abrandava-se, contudo, diante da possibilidade de um
choque com o conjunto da Igreja: "Eu tambm tenho que ter certas
condutas, mais ou menos decentes, nessa coisa para eu no estar brigan
  Conversas de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 23 de
novembro de 1973 e 4 de janeiro de 1974. APGCS/HF. 9 Conversa de Geisel,
Golbery e Heitor Ferreira, 15 de fevereiro de 1974. APGCS/HF.
  378 A DITADURA DERROTADA do com o papa. O papa daqui a pouco me
excomunga. No por mim, mas pelo reflexo que isto vai ter depois para o
pas". A romaria de cardeais a Braslia tinha sido coisa de Golbery.
Conversara primeiro com d. Avelar Brando. Sugeriu-lhe o impossvel: que
a Igreja falasse por uma s voz.1 Almoara com o cardeal do Rio, d.
Eugnio Saies, em tamanho segredo que levou cinco dias para contar a
conversa a Geisel.2 Dois meses antes da posse do novo governo,
negociava dois encontros. Um, com os primos da CNBB. O outro, com o
cardeal Paulo Evaristo Arns, de So Paulo. No se sabe at que ponto o
SNI acompanhava os movimentos da hierarquia catlica, mas  certo que
lhes censurava a correspondncia e, quando queria, seguia-lhes os
passos. O chefe da agncia carioca do SNI, coronel Edmundo Adolpho
Murgel, presenteara Golbery com o livro Destin du Brsil, do padre belga
Michel de Schooyans, endereado - com dedicatria do autor - a d. Jos
Maria Pires, bispo de Joo Pessoa. Fora interceptado pela censura postal
e remetido ao Servio. Como o trabalho tinha tinturas geopolticas e uma
referncia elogiosa ao interesse do general pelos problemas do seu pas,
Murgel mandou-lhe o volume.3 No dia 24 de janeiro o telefone de Golbery
tocou. Era Murgel. Passara-se pouco mais de um ms do encontro do
general com d. Avelar, e faltava pouco para se marcar o almoo com os
primos da CNBB. Murgel contou-lhe que o SNI seguira d. Ivo Lorscheiter e
o fotografara, abraado a uma senhora, no escurinho do cinema Azteca, no
Catete. Combinaram engavetar o assunto, ficando entendido que uma cpia
da fotografia j 10 Conversa de Geisel com Moraes Rego, 23 de novembro
de 1974. APGCS/HF. 11 Conversa de Golbery com Geisel, Moraes Rego e
Heitor Ferreira, 4 de janeiro de 1974. APGcS/HF. 12 Conversa de Golbery
com Geisel, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 14 de fevereiro de 974.
APGCS/HF. 13 Golbery leu-o, anotou e, numa margem da pgina onde havia
uma referncia  sua obra, escreveu: "Obrigado . Telefonema de Adolpho
Murgel a Golbery, 29 de novembro de 1973. APGCS/I-IF. Monsenhor Michel
de Schooyans tornou-se um destacado intelectual no pontificado de Joo
Paulo II, que o nomeou para a Academia Pontificia de Cincias Sociais.
  1
  r A COSTURA DA PRPURA 379 fora enviada a Braslia.4 Pouco depois
desse telefonema, o general sentou-se  mesa com os dois primos. Por
volta de meio-dia da tera-feira 19 de fevereiro, Golbery chegou sozinho
ao apartamento do professor Candido Mendes de Almeida, no Parque Guinle.
Era esperado para um almoo com o cardeal-arcebispo de So Paulo, Paulo
Evaristo Arns. Conversaram por trs horas. Discutiram a tortura, e o
general pediu que lhe levassem as denncias.5 Props at mesmo um
mecanismo. Reconhecia que a Igreja se transformara na ltima instncia
de oitiva das vtimas, mas temia a publicidade. Mais tarde explicou o
estratagema a Geisel: Eu disse: concordo, se vier ao conhecimento depois
de uma triagem, vencendo uma fase. [...] Mas, primeiro: ao encaminhar, 
preciso no fazer escndalo. [...j Fazer escndalo pblico desmerece o
encaminhamento. O encaminhamento , a meu ver, um auxlio ao governo.
[...] Agora, public-lo, mesmo depois da soluo,  criar um escndalo
em torno do fato, e isso est errado. [...] Segundo: quem encaminha 
autoridade deve admitir que essa autoridade  senhora de dar a soluo
que lhe parea certa. Quer dizer, ele no pode brigar com a soluo,
porque a responsabilidade  da autoridade.6 O primeiro e antigo
objetivo de Golbery era zerar a partida, congelar todas as divergncias
at o dia da posse para, ento, "comear do zero absoluto".7 O segundo,
manter sob o controle do governo as denncias encaminhadas pela Igreja.
Era mais do que havia, mas no haveria 14 Telefonema de Adolpho Murgel a
Golbery, 24 de janeiro de 1974. APGCS/HF. A fotografia e sua histria
foram publicadas em 21 de setembro de 1975 pelo peridico neofascista
italiano 11 Borghese. A reportagem intitulava-se "O monsenhor e a amiga
Identificava a senhora, que morreu em maro de 1975. Essa fotografia foi
vista tambm por Walter Clark, diretor da TV Globo. Ver O campeo de
audincia, de Clark e Gabriel Priolli, p. 259. 15 O encontro se deu no
dia 19 de fevereiro de 1974. Candido Mendes de Almeida, maio de 1988.
Depoimento de d. Paulo Evaristo a Jos Casado, em 22 de novembro de
1994. 16 Conversa de Golbery com Geisel, Moraes Rego e Heitor Ferreira,
19 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 17 Conversa de Golbery com Geisel,
Moraes Rego e Heitor Ferreira, 23 de novembro de 1973. APGCS/HF.
  1
  4
  9
  380 A DITADURA DERROTADA de ser suficiente. Difcil admitir que "a
autoridade" fosse "senhora" da soluo, impossvel aceitar que "ele no
pode brigar com a soluo sobretudo porque, na maioria dos casos, a
soluo da autoridade no resolvia coisa alguma. (Duas semanas antes, o
cadver do guerrilheiro Osvaldo fora degolado depois de ser mostrado 
populao de Xambio, pendurado num helicptero.) Havia na proposta de
Golbery um ingrediente que enfraquecia o seu estratagema.
Institucionalmente, a "autoridade" no era parte da soluo. Ela era o
problema. As foras repressivas do governo  que torturavam e matavam
prisioneiros dominados. Pouco depois dessa exposio a conversa de
Geisel com Golbery girou em torno da tortura. No foi longa, nem
conclusiva: GOLBERY: Eu sou contra tortura de qualquer jeito. Tenha
pacincia. Esse negcio de tortura para mim... Quer dizer, o sujeito
prende um camarada, tortura o sujeito, e depois solta porque no h nada
contra ele. Francamente, isso  uma enormidade. Eu posso admitir...
GEISEL: Mas voc no sabe se... Eu no acredito em 50% do que o Arns
diz. Espera a.  uma forte distoro. GOLBERY: Eu no acredito em 100%
do que ele diz, mas que eu acho que pode ter acontecido, ah, ns vimos
no comeo. Comeam por torturar o indivduo antes de saber o que .
[...j Espera a,  a mentalidade que ns conhecemos. Ns no vemos esse
Fleury. Eu vou dar crdito a um sujeito desses, que  um bandidao
sem-vergonha. No, tenha pacincia. Entregam o troo na mo do Fleury.
Que  que pode acontecer. Eu vou at o ponto de admitir que num assunto
de importncia do Estado o sujeito possa ir um pouco alm para obter do
indivduo uma informao vital. Eu vou at esse ponto. Suponha um
negcio de atentado ao presidente, que h indcios, voc aperta o
indivduo, vai at um pouco alm. Mas para comeo de conversa? Comeam a
torturar, para depois ento conversar, quebrar o moral do sujeito.
GEISEL:  o tal troo do ingls... Foram l na Inglaterra e estudaram o
troo do ingls.8 18 Conversa de Geisel com Golbery, 19 de fevereiro de
1974. APGCS/HF.
  A COSTURA DA PRPURA 381 Numa amostra da estrutura das conversas de
fim de tarde no largo da Misericrdia, o assunto morreu a. Passaram a
discutir a legitimidade da CNBB, as presses contra a escolha de Azeredo
da Silveira e as observaes do marechal Cordeiro de Farias sobre a
poltica cearense. O mecanismo oferecido a d. Paulo era bem mais tnue
que "a coibio enrgica de toda violncia ilegal, partida de onde ou de
quem partir mas revelava o temperamento do general. Ele queria se
assenhorear das informaes que chegavam  Igreja, fazendo-as tramitar
de acordo com sua percepo poltica. A eficcia da proposta de Golbery
dependia do tipo e da quantidade de solues que retornasse. quela
altura, sua proposta era apenas uma promessa. At o encontro com d.
Paulo Evaristo, toda a romaria ficara em sigilo. O general sabia se
mover em silncio.  por isso que um mistrio envolve o seu caminho
naquela tarde. Ele saiu do Parque Guinle e ia para o largo da
Misericrdia. Estava sem automvel. D. Paulo ia para o aeroporto Santos
Dumont, e Candido Mendes deu carona aos dois. Em 1973, como hoje, quem
sai de Laranjeiras com um carona para o Santos Dumont e outro para a
Misericrdia, passa primeiro pelo aeroporto. Candido Mendes queria
conversar a ss com o cardeal, pois um almoo daqueles no era coisa
comum. Poderia desembarc-lo, deixar Golbery quinhentos metros adiante,
e voltar ao Santos Dumont. Essa manobra impediria que a imprensa -
sempre de planto na entrada do edifcio do Ministrio da Agricultura -
visse o cardeal e o general juntos. Golbery tambm poderia ter saltado
no meio do percurso, buscando conduo prpria. Era comum v-lo tomando
txis. Passava pouco das trs da tarde. Candido Mendes parou diante da
pequena porta dos fundos do prdio, por onde entravam os notveis da
Repblica. Aos reprteres surpreendidos pela tripulao daquele Opala
azul, Golbery disse que se encontrara com d. Paulo mas no falaria da
conversa porque era seu direito ter relaes pessoais.9 Segundo o
cardeal, ele lhe disse no automvel que se no houvesse jornalistas na
rua, iriam
  19 O Estado de S. Paulo, 20 de fevereiro de 1974, p. 4. Para a cor do
carro, Candido Mendes de Almeida, setembro de 1995.
  382 A DITADURA DERROTADA ao gabinete de Geisel. D. Paulo estranhou,
mas o general insistiu.20 Havia jornalistas, e Golbery subiu sozinho.
Passados 21 anos, Candido Mendes no se recordava dessa proposta. 
indiscutvel que o general no tomou cuidado algum para manter em
segredo o encontro com d. Paulo Evaristo.  quase certo que
deliberadamente o tornou pblico. Quando os reprteres contaram ao
coronel Moraes Rego que viram o general e o cardeal no mesmo carro, ele
achou que estavam confundindo uma viagem de Golbery a So Paulo com um
encontro de Golbery com d. Pau- 10.2 1 Depois o coronel confidenciou a
Heitor Ferreira que o general fizera um foul, mas o discpulo do
Satnico Dr. Go tinha dvidas: " mesmo, a menos que ele esteja com
alguma sacanagem".22 Durante o resto da tarde o general conversou com
Geisel, narrou- lhe a conversa, mas no se referiu  cena do
desembarque. O futuro presidente soube dela pelos jornais do dia
seguinte e no gostou. Desabafou com Heitor Ferreira e Moraes Rego em
dois tempos. No primeiro:  muito cedo para rasgar esse troo. Os nossos
inimigos esto a, dentro do SNI, dentro do dE, essa merda. E ns
estamos provocando os caras. Ele tinha que sair do almoo e ir embora e
dizer: "Olha, essa conversa  confidencial". Como os outros. O Arns 
marcado demais do outro lado. O pessoal j no gosta do Golbery, j
marca o Golbery. [... 1 No segundo: Daqui a pouco vem presso do
Exrcito, que o Exrcito no se conforma, porque o Exrcito no aceita.
Daqui a pouco, quando menos se espera, vem essa presso em cima da
gente. E a? Como ? Ah, porque esto fazendo a abertura com a Igreja, o
Exrcito no aceita... O Exrcito no aceita, por- 20 Depoimento de d.
Paulo a Jos Casado, em 22 de novembro de 1994, e d. Paulo Evaristo
Arns, Da esperana  utopia, pp. 369-70. 21 Conversa de Geisel com
Moraes Rego, 20 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 22 Idem.
  A COSTURA DA PRPURA 383 que o Arns... E a, que que eu vou fazer, no
? Eu no posso mandar o Exrcito  merda. Ento vou eu embora. Ento
vocs tomem conta, e at logo. Vou acabar fazendo isso. O pessoal no se
d conta do que  o Exrcito. A maior excrescncia.23 Quando Heitor lhe
narrou a tempestade, Golbery recuou: "Foi muito ruim, e eu pensei que
passasse despercebido"24 Na rodada de conversas daquela tarde, Geisel e
Golbery trataram o assunto superficialmente. Dois dias depois O Estado
de S. Paulo divulgou um boletim da Arquidiocese de So Paulo informando
que o general e d. Paulo discutiram "diversos problemas de importncia e
interesse para a Igreja em So Paulo e no Brasil "O general Golbery
mostrou-se sensvel a todos os problemas levantados, externando grande
apreo pela ao da Igreja", acrescentava a nota.25 Cada pea se movera
na direo que desejava. Ele dera publicidade ao encontro, e o cardeal
mantivera o segredo de seu contedo. Como havia mais gente no jogo, um
pedao da notcia foi censurado. No seu lugar entrou Gonalves Dias: Meu
canto de morte, Guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, Nas selvas
cresci, Guerreiros, descendo Da tribo Tupi.26 Golbery aceitou a carona
do professor Candido Mendes trs semanas depois de tomar conhecimento da
operao do cinema Azteca. 23 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira e
Moraes Rego, 20 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 24 Telefonema de Heitor
Ferreira a Golbery, 20 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. Vinte anos depois
do episdio, Geisel estava convencido de que Golbery se deixou ver com
d. Paulo involuntariamente. Heitor Ferreira tendeu a acompanhar a
opinio do ex-presidente, mas no fim das contas preferiu ficar com a
opinio que deu no fragor da hora, ainda que inconclusiva. 25 O Estado
de S. Paulo, 23 de fevereiro de 1974, p. 4. 26 Idem.
  384 A DITADURA DERROTADA Passada uma semana, o largo da Misericrdia
cuidava de que todos os cardeais recebessem convites para a posse.
Narrando sua conversa com a CNBB a Geisel, Golbery registrou: " uma
sociedade civil que est aos poucos procurando coordenar e ter a
autoridade da Justia, mas que isto  um processo lento [...j"27 Geisel
sabia das discusses secretas que o governo Medici e a Igreja mantinham
desde o final de 1970. Organizada pelo general Antonio Carlos Muricy,
essa linha de comunicao juntava bispos, leigos e oficiais, entre os
quais se fazia representar at mesmo o SNI. Denominava-se Comisso
Bipartite e j se reunira 21 vezes. Geisel no queria que o general
Muricy, seu principal arquiteto, se transformasse no canal de
comunicao com a Igreja, nem que o foro de debates e mtuas acusaes
prosperasse.28 H indicaes de que lhe chegavam  mesa algumas das
denncias levadas aos militares pelos bispos. Golbery via nas reunies
dos religiosos com generais, no mnimo, uma oportunidade para "os caras
perderem um pouco o rebolado"29 O contencioso do Estado com a Igreja
poderia parecer extenso. Havia a peregrinao cosmopolita de d. Helder
Cmara, que acabara de receber na Noruega o Prmio Popular da Paz. Aqui
e ali pipocavam crises com bispos. Em Sorocaba, pela morte de um
estudante. Em So Flix do Araguaia por conflitos de terra. Isso
constitua uma espcie de rotina, mas em novembro de 1973 o governo
Medici criou uma crise de ltima hora com d. Paulo Evaristo. Cassou-lhe
a rdio arquidiocesana Nove de Julho. Era a mais poderosa das 118
emissoras catlicas do pas e foi tirada do ar. O bispo auxiliar d.
Lucas Moreira Neves no conseguira sequer uma audincia com o ministro
das Comunicaes.3 Cada um desses casos, com graus variveis de
complexidade, sempre poderia ser negociado. Os dois lados giravam em
torno da busca do 27 Conversa de Geisel, Golbery, Moraes Rego e Heitor
Ferreira, 29 de janeiro de 1974. APGCS/HF. 28 Conversa de Geisel,
Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 16 de novembro de 1973.
APGCS/HF. 29 Conversa de Geisel, Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira,
29 de janeiro de 1974. APGCS/HF. Para uma histria da Bipartite, ver
Dilogos na sombra, de Kenneth P. Serbin. 30 Fernando Prandini, Victor
A. Petrucci e frei Romeu Dale, O. P., orgs., As relaes Igreja-Estado
no Brasil, vol. 3, pp. 220-2.
  e-
  l
  Golbery: "Eu acho que estamos sofrendo uma ditadura dos rgos de
informao. [...] Toda vez que a cousa comea a acalmar, o pessoal
decide e cria troo, prende gente. [...] Isso  exatamente criar
averses, mas eles criam averses porque querem perdurar. Quer dizer,
todo mundo est acuado com esses caras. Compreende?  o que est
acontecendo. Todo mundo acuado com eles
  .7
  A COSTURA DA PRPURA 385 interlocutor autorizado, quando a questo no
estava na interlocuo. As diferenas do governo com a Igreja
resumiam-se a uma palavra: tortura. Era ela quem envenenava as reunies
da Bipartite, toda vez que aparecia um bispo com um caso perfeitamente
documentado. Ela limitava e desautorizava qualquer interlocutor. Do lado
do regime, pouco poderia fazer um negociador qualificado diante de um
dossi de torturas. A impotncia dos delegados do governo enfraquecia os
representantes da Igreja, pois embaraava os dignitrios quando se viam
obrigados a reconhecer que, levada a denncia, nada acontecera. A cena
dos cinco cardeais no Planalto simbolizava uma busca. Do qu, eles
sabiam. Tratava-se de desmantelar o poro. Como? No tinham idia. A
teoria de Golbery de que se devia comear tudo do "zero absoluto" era
uma promessa. Pressupunha que o novo governo estava disposto a discutir
os casos que surgissem a partir daquela manh. Geisel e Golbery sabiam o
que j sucedera no poro do regime. No sabiam, contudo, o que sucederia
a partir do dia seguinte.
  4
  O poro intocado Em 1974 chegou ao apogeu a poltica de extermnio de
presos polticos. As verses oficiais j no produziam mortos em
tiroteios, fugas ou suicdios farsescos nas cidades. Geisel sabia dessa
poltica. Em janeiro tivera duas conversas com veteranos da luta contra
o terrorismo. Uma, com o general Dale Coutinho, quando o convidou para o
Ministrio do Exrcito. Dias depois, numa prosa fiada com o chefe de sua
segurana, tenente-coronel Germano Arnoldi Pedrozo, Geisel soube que um
grupo de pessoas que viera do Chile e passara pela Argentina, havia sido
capturado no Paran. Pedrozo fora ajudante-de-ordens do marechal Castelo
Branco, passara pelo CIE e merecia do general no s a confiana, mas
tambm estima. "Pegaram a1guns? perguntou Geisel. "Pegamos. Pegamos.
Foram pegos quatro argentinos e trs chi1enos respondeu Pedrozo. "E
no liquidaram, no?" "Ah, j, h muito tempo.  o problema, no ? Tem
elemento que no adianta deixar vivo, aprontando. Infelizmente,  o tipo
da guerra suja em que, se no se lutar com as mesmas armas deles, se
perde. Eles no tem o minimo escrupulo. ", o que tem que fazer  que
tem que nessa hora agir com muita inteligncia, para no ficar vestgio
nessa coisa falou Geisel.2 1 No h registro que permita supor quem
sejam. 2 Conversa de Geisel com o tenente-coronel Germano Pedrozo, 18 de
janeiro de 1974. APGCS/HF.
  388 A DITADURA DERROTADA  improvvel que Geisel s tenha tratado da
matana nas duas conversas registradas, com Pedrozo e Dale Coutinho. No
se conhecem as conversas entre ele e seu irmo Orlando. Sabe-se que no
incio do governo convocou uma reunio em que o general Milton Tavares
de Souza, chefe do dE, contou, no mnimo, o que a tropa vinha fazendo no
Araguaia. 3 Ao defender a permanncia de Miltinho na chefia do dE, 
certo que Geisel conhecia, apoiava e desejava a continuao da poltica
de extermnio. No final de 1973, d. Paulo Evaristo comeou a colecionar
nomes e vestgios que documentassem uma lista de "Desaparecidos"4 Essa
palavra haveria de ser um dos principais itens da agenda da primeira
metade do governo. Englobava todos os cidados capturados cujos
cadveres sumiam sem ficar vestgio. Resultava da conjugao da poltica
de extermnio com a clandestinidade usufruda pelo poro.
Clandestinidade, no caso, no significava paralelismo, autonomia ou
descontrole. Os assassinatos eram praticados pela mquina do Estado, com
o beneplcito da hierarquia. Eram clandestinos porque, dentro dela,
ocultavam-se. O sumio dos cadveres era uma resposta  estratgia do
estorvo. Cortava caminho s denncias baseadas em autpsias ou em
testemunhos de moradores das localidades onde os DOIs inventavam
tiroteios. As pessoas simplesmente desapareciam. Em 1964, morreram
dezenove pessoas, mas apenas duas desapareceram. Em 1969, os oficiais da
Operao Bandeirante sumiram com o cadver de Virglio Gomes da Silva, o
comandante militar do seqestro do embaixador americano Charles Burke
Elbrick. Nos anos seguintes o nmero de desaparecidos cresce, at que,
em 1973, os dois nmeros aproximam-se. (Veja o quadro.) 3 Entrevista do
general Newton Cruzem O Globo de 15 de abril de 1999, p. 8. 4 Reinaldo
Cabra! e Ronaldo Lapa, orgs., Desaparecidos polticos, p. 33.
  4
  O PORO INTOCADO 389
  * O nmero de desaparecidos de 1973  impreciso. Os comandantes
militares nunca reconheceram as datas das execues praticadas no
Araguaia. Assim, em vez de 28, podem ser trinta ou 32. Nesse caso, baixa
o nmero de desaparecidos de 1974. Fonte: Levantamento do autor, com
base em Dos filhos deste solo - Mortos e desaparecidos polticos durante
a ditadura militar: a responsabilidade do Estado, de Nilmrio Miranda e
Carlos Tibrcio, e Dossi dos mortos e desaparecidos, documento do
Comit Brasileiro pela Anistia, Seo do Rio Grande do Sul. Na lista dos
militantes urbanos misturavam-se pessoas mortas em sesses de tortura
que possivelmente no se destinavam a liquid-las, presos executados nas
cadeias, e at mesmo quadros cujo codinome era desconhecido pelos
familiares, enquanto seu nome verdadeiro no era conhecido pelos outros
militantes, muito menos pela polcia. No Araguaia no se mantinham
prisioneiros. Em maro de 1974, quando Geisel assumiu, no havia um s
morto na contabilidade oficial do ano que comeava. A brandura era um
disfarce do extermnio. Nos 63 dias anteriores  posse desapareceram
pelo menos nove pessoas, sete no Araguaia e duas nas cidades.5 Foram
assassinadas. Salvo no caso do guerrilheiro Osvaldo, do Araguaia, cujo
corpo foi pendurado a um helicptero para que a populao de Xambio o
visse, agia-se com cautela, e muitas vezes no ficava vestgio da coisa.
O prprio PC do B no sabia onde estavam os militantes que deixara na
floresta. Eles eram caados pelas equipes Zebra, armadas e comandadas
pelo Exrcito e formadas por mateiros em busca de recompensas. Em maro
5 Entre i de janeiro e 15 de maro de 1974 desapareceram no Araguaia,
pelo menos, Jos Lima Piauhy Dourado (Nelito), Luiz Ren Silveira e
Silva (Duda), Jana Moroni Barroso (Cristina), Maria Clia Corra (Rosa),
Pedro Carretel e Jos Humberto Bronca (Zeca Fogoi). Nas cidades
desapareceram Eduardo Colher Filho e Fernando Santa Cruz Oliveira.
  ANO 
  1964 
  1965 
  1966 
  1967 
  1968 
  1969 
  1970 
  1971 
  1972 
  1973 
  1974 
  TOTALDEMORTOS 
  19 
  3 
  2 
  3 
  12 
  19 
  30 
  50 
  58 
  59 
  52 
  DESAPARECIDOS 
  2 
  1 
  O 
  O 
  O 
  1 
  5 
  16 
  18 
  28* 
  52 
  390 A DITADURA DERROTADA O SNI estimava que os guerrilheiros fossem
vinte e, numa anlise encaminhada a Geisel, antevia que, com o fim do
perodo das chuvas, recomeassem as operaes "visando  destruio dos
elementos que ainda se encontram na regio"6 Os dois desaparecidos
urbanos eram quadros da APML e sumiram sem deixar vestgio. (Seus
corpos, bem como os dos combatentes do Araguaia, nunca foram
encontrados.) Geisel tomou posse numa sexta-feira. No sbado, na cidade
de Uruguaiana, perto da fronteira com o Uruguai, sumiram David
Capistrano da Costa e Jos Roman. Capistrano, o Enas, ou Ribeiro, era
um veterano dirigente do Partido Comunista Brasileiro. Ex-sargento,
lutara na insurreio de 1935, na Guerra Civil Espanhola e na
Resistncia francesa. Tornara-se um dos mais destacados articuladores do
Partido no Nordeste. Retornava da Tchecoslovquia. Roman, um corretor
de imveis ligado ao sistema operacional do PCB, fora busc-lo. Pegaram
a estrada para So Paulo e nunca chegaram. Comeara o desbaratamento do
Partido. O regime que fazia do anticomunismo quase que uma razo de ser
e da represso um instrumento primordial de ao poltica, dera ao PCB
um tratamento diferenciado. To diferenciado quanto a linha do Partido
diante da luta armada. Em 1970, Luiz Carlos Prestes a classificara como
"aventureirismo "oportunismo de esquerda" e "sarna do revolucionarismo
pequeno-burgus"7 Os militantes comunistas moviam-se sem assombro, numa
espcie de liberdade condicional. Alguns de seus dirigentes, mesmo
vivendo na clandestinidade, podiam ser encontrados nas noites da
esquerda festiva carioca ou nos cinemas da moda em So Paulo.8 6
Apreciao Sumria, do SNI, de maro de 1974. APGCS/HF. 7 Artigo de Luiz
Carlos Prestes na Revista Internacional, citado em telegrama da agncia
France Presse, de 29 de dezembro de 1970. Para a "sarna", Prestes com a
palavra, organizado por Dnis de Moraes, p. 200. 8 Jos Salles, membro
do secretariado da comisso executiva do PCB, esteve num dos rveillons
mais animados do incio dos anos 70, realizado na casa do casal Mauro e
Gilse Campos, na Urca.
  4
  O PORO INTOCADO 391 O pc sofria ataques espasmdicos e perifricos. A
grande perseguio de 1964 resultara em centenas de demisses e num
processo de 157 volumes com 962 implicados, mas as condenaes no
passaram de algumas dezenas. Carlos Marighella e Mrio Alves, presos
nessa poca, foram libertados poucos meses depois. Mais tarde, como
dirigentes da luta armada, foram assassinados. Banidos do servio
pblico, os comunistas se adaptaram, acautelando-se nas fbricas e
protegendo-se nos meios intelectuais e jornalsticos. No final dos anos
60 um surto repressivo prendeu pouco mais de cem quadros do Partido,
desmontando- lhe a estrutura carioca.9 Em 1974 foram detidos cerca de
sessenta militantes de sua clula na fbrica da Volkswagen, em So
Bernardo.0 Em seguida, ruiu uma parcela das bases nordestinas. At a
chegada de Geisel ao Planalto a ditadura custara a vida a cerca de 260
pessoas. Dezessete militavam no PCB.11 Quase todos eram quadros de base,
muitos deles com liderana sindical. A nica vtima preeminente dentro
da estrutura do partido foi Clio Guedes, um dentista de 53 anos, morto
em 1972. Clandestino, estava no ncleo de operaes da direo, quer
servindo de motorista a Luiz Carlos Prestes, quer indo buscar dirigentes
na fronteira.2 Desde 1971 o Partido mantinha boa parte dos dirigentes
no exterior (dez dos trinta membros do comit central), mas preservava a
legalidade dos militantes. Eles se abrigavam no MDB, e, na dura eleio
de 1970, o engenheiro comunista Alberto Goldman elegeu-se deputado
estadual em So Paulo. O PCB decidira privilegiar a atuao nas
fbricas, mas, mesmo assim, alguns de seus quadros influam nos
sindicatos.3 No dos metalrgicos de So Bernardo, por exemplo, militava
o Frei Chico, apelido de Jos Ferreira da Silva, um pernambucano que
tinha uma calva seme9 Transmisso da rdio Globo e telegrama da agncia
Efe, de 28 de maro de 1969, mencionando 53 e setenta presos,
respectivamente. Essas prises estenderam-se at julho. Givaldo
Siqueira, maio de 1977. 10 Joo Guilherme Vargas Neto, maio de 1997. 11
Para os mortos do PCB, ver Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos
filhos deste solo, pp. 302-57. 12 Para a condio de motorista de
Prestes, entrevista de Hrcules Corra ao Jornal do Brasil de 8 de maro
de 1990, p. 13. 13 Joo Guilherme Vargas Neto, maio de 1997.
  392 A DITADURA DERROTADA lhante a uma tonsura. Em 1969 ele incluiu o
nome de um de seus irmos na lista de suplentes da diretoria. Aos 24
anos, Luiz Incio s pensava em futebol. Chamavam-no Taturana e Lula.4
O PCB se reorganizara. Exceto no Nordeste, onde baqueara, levantara a
cabea no Rio de Janeiro e ia bem em So Paulo. Em cada um desses
estados tinha algo como 2 mil militantes.5 Em So Paulo, conseguira
reagrupar os setores universitrio e cultural. Sua base sindical tentava
reerguer-se. Um veterano dirigente, Emilio Bonfante Demaria, ex-oficial
da Marinha Mercante, tornou-se Ivo, delegado da direo do PCB junto aos
metalrgicos de So Bernardo. Chegou a encontrar-se com Lula num banco
de praa da matriz da cidade, mas a aproximao do jovem sindicalista
com o Partido terminou a.6 O Setor Mil, que reunia os militares
comunistas, fizera uns poucos recrutamentos.7 Nesses dias, tornara-se
uma temeridade falar em partido comunista neutralizado. Durante quase
quarenta anos se acreditara que aos comunistas portugueses nada restara
afora o crcere, o exlio e a irrelevncia. Derrubada a ditadura
salazarista em abril, bastaram poucas semanas para que os comunistas
recebessem o Ministrio do Trabalho, formassem a mais poderosa central
sindical do pas, tomassem os sindicatos controlados por pelegos e
estabelecessem uma base slida na oficialidade. Da noite para o dia, o
Partido Comunista Portugus se convertera numa das principais foras
polticas do pas. Da noite para o dia, O PCB poderia fazer a mesma
coisa. O Partido era um sobrevivente praticamente intacto, porm
surpreendentemente vulnervel. Pelo menos trs dirigentes que viviam em
regime de severa clandestinidade, com documentos falsos e domiclios
ignorados, foram parados na rua por cidados que sabiam suas identidades
verdadeiras e lhes ofereceram a possibilidade de uma colaborao 14 Frei
Betto, Lula - Biografia poltica de um operrio, pp. 23-4. Depoimento de
Frei Chico, em Denise Paran, Lula - O filho do Brasil, pp. 154-7. 15
Joo Guilherme Vargas Neto, junho de 1997. 16 Depoimentos de Luiz Incio
da Silva e Jos Ferreira da Silva (Frei Chico), em Denise Paran, Lula -
Ofilho do Brasil, pp. 130 e 157. 17 Srgio Cavallari, junho de 1997. 4
  O PORO INTOCADO 393 com o inimigo.18 Um deles era Severino Teodoro de
Mello, o Meilinho, elemento de ligao entre Prestes e a comisso
executiva.9 Num caso, o de Armnio Guedes, o desconhecido falava em
nome da Central Intelligence Agency. Abordou o sereno dirigente diante
do aparelho onde ele vivia, em Laranjeiras, no Rio, no incio de 1971.
Queria informaes sobre o terrorismo e deixou-lhe dois pontos de
contato: o telefone da embaixada americana e um endereo em Bonn, na
Alemanha.2 Situaes desse tipo s eram possveis porque no PCB havia
inifitrados. Tantos, que os estranhos personagens no se preocupavam em
esconder os conhecimentos que tinham. Um telegrama da dA, de setembro de
1964, indica que sua estao no Brasil foi capaz de levar  Casa Branca
o relato de uma conversa de um funcionrio da embaixada sovitica com
trs dirigentes comunistas brasileiros.21 O chefe do servio poltico do
consulado em So Paulo, John Blacken, asseguraria que, mesmo no
dispondo de infiltraes nos movimentos armados, a CIA penetrara o
PCB.22 O Centro de Informaes do Exrcito, tambm.23  penetrao,
somavam-se normas de segurana frouxas. Em 1970, quando a direo do
partido decidiu tirar Luiz Carlos Prestes do pas, remetendo-o para
Moscou, mandou-o por terra ao Uruguai (levado por um motorista com
carteira vencida) e colocou-o num avio que sobrevoaria o Brasil. Um
problema tcnico forou um pouso de quarenta minutos no Rio, e os
passageiros foram desembarcados. O acompanhante 18 Foram Severino
Teodoro de Meilo, Armnio Guedes e Orestes Timbava. Casos semelhantes
ocorreram com Jarbas Holanda e Almir Neves. Para todos eles, exceto
Armnio Guedes, a fonte  Dinarco Reis, citado em Joo Falco, Giocondo
Dias - A vida de um revolucionrio, p. 298. Para Jarbas Holanda, ver
tambm Maria Conceio Pinto de Ges, A aposta de Luiz Igncio Maranho
Filho, p. 249, com depoimento de Hrcules Corra. 19 Para esse caso,
relacionado com Severino Teodoro de Meio, o Meilinho, Hrcules Corra,
Memrias de um stalinista, p. 105. Givaldo Siqueira, fevereiro de 1988.
Maria Prestes refere-se ao caso, atribuindo o contato ao SNI, em Veja de
20 de maio de 1992, pp. 40-5. 20 Armnio Guedes, 1988. 21 Memorando de
W. G. Bowdler a McGeorge Bundy, assessor de Segurana Nacional da Casa
Branca, de 20 de setembro de 1965, encaminhando um telegrama da dA, de
14 de setembro, onde se relata o encontro, ocorrido em i de agosto. 22
John Blacken, janeiro de 1990. 23 Coronel Carlos Alberto Brilhante
Ustra, setembro de 1988.
  394 A DITADURA DERROTADA de Prestes era mdico e conseguiu convencer
os tripulantes a deixar a bordo aquele ancio de bigodes.24 Pelo menos
um dos infiltrados, Adauto dos Santos, o Carlos, com mais de vinte anos
de militncia e sete na seo de relaes exteriores, era pessoa da
confiana de Prestes. Estivera seis vezes na Unio Sovitica, quatro a
servio, em Moscou, e duas, de frias, no mar Negro. Sua mulher j o
denunciara ao partido, mas o caso foi tomado como rusga familiar.25 De
Moscou, o gro-cacique comunista avisara que desconfiava dele. Supe-se
que Adauto tambm desconfiou deles quando lhe cortaram os contatos e
pediram que viajasse para o Mxico. Como talvez soubesse que era l que
os comunistas latino-americanos acertavam suas contas clandestinas, ele
pulou o muro e explodiu as conexes internacionais do PCB numa
entrevista ao Jornal do Brasil.26 Alm de Capistrano ter desaparecido,
os dirigentes do PCB perceberam que estavam sendo observados. Giocondo
Dias, o sergipano pacato que, na ausncia de Prestes, dirigia o partido
no Brasil, entrou em casa e descobriu que havia sido visitado por
estranhos. O mesmo sucedera a Hrcules Corra, a quem roubaram uma
televiso. Ambos resolveram ir embora de So Paulo.27 Num mesmo dia, ao
menos seis dirigentes do partido passaram, por motivos diferentes, pela
praa das Bandeiras, no centro da cidade. Givaldo Siqueira, encarregado
das operaes clandestinas, desconfiou que o seguiam. Subiu num
automvel com quatro colegas e verificou que tinha dois fuscas no
rastro. Conseguiu despist-los. Nessa ocasio suspeitou que Walter de
Souza Ribeiro, ex-oficial do Exrcito e chefe do partido em So Paulo,
tambm estivesse campanado.28 24 Salomo Malina, julho de 1989, e
Givaldo Siqueira, fevereiro de 1988. Para o incidente, Maria Prestes,
Meu companheiro -40 anos ao lado de Luiz Carlos Prestes, p. 150. Ver
tambm entrevista de Hrcules Corra a Istode 19 de maio de 1987, p.
26. Para a carteira vencida e os bigodes, Joo Falco, Giocondo Dias, p.
290. 25 Givaldo Siqueira, fevereiro de 1988, e Joo Falco, Glocondo
Dias, pp. 290-1 e 296. 26 Givaldo Siqueira, maio de 1987, fevereiro de
1988 e maio de 1997. Jornal do Brasil, 3 e 7 de dezembro de 1972. 27
Entrevista de Hrcules Corra  Folha de S.Paulo de 26 de maio de 1991.
28 Givaldo Siqueira e Jos Salles, fevereiro e novembro de 1988.
  O PORO INTOCADO 395 No dia 3 de abril, Ribeiro saiu de uma reunio
numa casa em cuja vizinhana havia pessoas consertando a fiao de
postes. Foi a um "ponto" conversar com Lus Incio Maranho. Ex-deputado
estadual no Rio Grande do Norte, defensor da anticandidatura de Ulysses
Guimares  Presidncia da Repblica e amigo do cardeal Eugnio Sales,
Maranho era uma espcie de chanceler do Partido. Encarregava-se dos
contatos com parlamentares e com a Igreja.29 Tambm iria a esse encontro
Joo Massena Mello, ex-deputado estadual carioca e veterano agitador
sindical do PCB. Pagara trs anos de cadeia e estava em liberdade fazia
pouco mais de um ano.3 Sumiram todos. Jamais se conseguiu uma prova
material do que sucedeu aos cinco comunistas capturados nos primeiros
vinte dias do governo Geisel. O ministro da Justia, Armando Falco,
sustentou que eles continuavam foragidos. A um senador governista
conterrneo de Lus Maranho, teria dito que "era uma vela apagada"3
Afora isso, todas as pistas foram tnues. Um cidado que trabalhava num
posto de gasolina de So Paulo procurou uma irm de Jos Roman e
contou-lhe que o corretor, pressentindo a priso, identificou-se.32 O
mdico do DOl, Amilcar Lobo, disse  viva de David Capistrano que o viu
no Rio de Janeiro.33 Um relatrio da Marinha informou que ele esteve
preso no manicmio paulista de Franco da Rocha.34 Em 1992 um ex-sargento
do Exrcito, Marival Chaves Dias do Canto, narrou ao reprter Expedito
Filho, da revista Veja, uma parte de seus sete anos de servio na
mquina de represso militar em So Paulo. Segundo ele, Lus Maranho e
Joo Massena acabaram num crcere montado numa fazenda da estrada da
Granja 20, em Itapevi. Liquidaram-nos com injees de uma droga
destinada a matar cavalos e jogaram seus cor- 29 Para a amizade, d.
Eugnio Saies, junho de 1987. 30 Carta de d. Aiosio Lorscheider a
Geisel, de 24 de setembro de 1975. APGCS/HF. 31 Luiz Cortez, "Lus
Maranho Mrtir das Lutas Popuiares" publicada no jornal Dois Pontos,
de Natal, e republicada nos Cadernos de Jornalismo da Federao Nacional
de Jornalistas, em dezembro de 1990. O interlocutor de Falco foi o
senador Dinarte Mariz. 32 Nilmrio Miranda e Carlos Tibrcio, Dos filhos
deste solo, p. 326. 33 Manchete, 22 de outubro de 1988, pp. 124-8. 34
Folha de S.Paulo, 12 de dezembro de 1993, p. D3.
  396 A DITADURA DERROTADA pos num rio. Walter de Souza Ribeiro, David
Capistrano e Jos Roman foram levados para a casa que o CIE mantinha em
Petrpolis. Esquartejaram-nos. 35 Na primeira reunio com o ministrio,
Geisel anunciou que buscaria um "gradual, mas seguro, aperfeioamento
democrtico" Uma no cravo. Outra na ferradura: numa referncia direta s
entidades da sociedade civil e indireta  Igreja, repeliu "a
intromisso, sempre indevida, em reas de responsabilidade privativa do
Governo, a crtica quando desabusada ou mentirosa, as presses
insistentes e descabidas"36 Prenunciava um novo rumo para a poltica de
seu governo, mas mantinha-se suficientemente vago para evitar cobranas.
Anteviam-se mudanas, quer pelo que Golbery contava, quer por escolhas
como a do deputado liberal Clio Borja para o lugar de lder do governo
na Cmara. Suave, irnico e catlico, tivera uma militncia lacerdista
to profunda que fazia parte do pequeno grupo de colaboradores do
"Carlos" que jamais perderiam o leve sotaque da pronncia cadenciada do
chefe. Estivera no preo para os ministrios da Justia e do Trabalho,
mas fora congelado porque Geisel temia que ele viesse "logo com
aberturas"37 O SNI o acusara de ter assinado um manifesto em que o
governo Castello Branco fora classificado como "regime de opereta", e
Geisel pensou em no cham-lo para cargo algum.38 Ao decidir
entregar-lhe a liderana, viu-o espingardeado na contorcida linguagem de
Petrnio Portella, presidente da Arena: "A constante dele  a palavra
mgica estado de direito". 39 Mesmo assim, foi em frente. 35 Veja, 18 de
novembro de 1992, pp. 20-32. 36 Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1: 1974,
pp. 3 1-60. 37 Uma folha manuscrita de Heitor Ferreira, intitulada
Resumo da Conversa Geisel, Moraes Rego e Heitor, no Jardim Botnico, de
26 de julho de 1973. APGCS/HF. Ver tambm Conversando sobre poltica -
Clio Borja - Depoimento ao CPDOC, coord. de Marly Silva da Motta, p.
182. 38 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974.
APGCS/HF. 39 Reunio de Geisel com Petrnio Portella, 15 de fevereiro de
1974. APGCS/HF.
  O PORO INTOCADO 397 O general chamou-o. Disse-lhe que desejava
coloc-lo na liderana mas "no quero lhe criar dramas de conscincia
"Eu no sei se o presidente conhece as minhas idias respondeu o
deputado. Quando se despediram, Clio deu o tom: "Eu confio na sua
conscincia moral. [...] Estamos nos engajando numa aventura"4 Havia
naquilo a imprevisibilidade das aventuras. Em abril, depois de uma
costura conduzida por Golbery com a ajuda de Armando Falco, a revista
Veja fora dispensada da censura prvia a que vinha sendo submetida.
Retornara ao sistema da autovigilncia, que consistia em esquecer o que
sucedia no poro, respeitando as proibies transmitidas pela Polcia
Federal. O jornalista Millr Fernandes, que sustentava uma seo de duas
pginas com seus desenhos brilhantes e seu cido senso de humor,
estampou um cidado acorrentado  parede de uma masmorra, sobre a
seguinte legenda: "Nada Consta4 Do Rio, onde visitara a Vila Militar,
o ministro do Exrcito, Dale Coutinho, telefonou ao ministro da Justia:
"Comunico-lhe que encontrei aqui a oficialidade em polvorosa. A Veja fez
uma provocao que os militares no aceitam. Peo ao senhor uma
providncia reparadora e imediata "No vacilei", lembraria Falco.
"Restabeleci a censura na revista."42 Nesse rpido episdio
encapsulavam-se todos os ingredientes da anarquia. O general pedia
providncias a Falco, quando deveria pedi- las ao chefe comum, o
presidente da Repblica, a quem caberia decidir se, de fato, houvera
"provocao Pior: Coutinho no pedia providncias em nome da sua
condio de comandante, mas por conta de uma "oficialidade em
polvorosa". Sacou o bordo segundo o qual "os militares no aceitam" e
arrastou as fichas. Por vontade, cautela ou ignorncia, Falco imps a
Veja uma modalidade letal de censura. Exigia que a revista, se- 40
Reunio de Geisel com Clio Borja, 19 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 41
Veja, 8 de maio de 1974, pp. 10-1, referido em Maria Aparecida de
Aquino, Censura, imprensa, Estado autoritrio (1968-1978), p. 226. 42
Armando Falco, Tudo a declarar, p. 373. Nesse livro de memrias Falco
diz que fizera com Veja uma "experincia de liberao da censura No se
tratava de liberar Veja da censura, mas de retirar da redao da revista
a equipe de censores que l ia para conferir previamente o material a
ser publicado. Persistia a obrigao de respeito s ordens emitidas pela
Polcia Federal.
  398 A DITADURA DERROTADA diada em So Paulo, remetesse seus textos a
Braslia at a noite de terafeira. Cassava-lhe a capacidade de noticiar
o que acontecesse de quarta a sexta. Golbery entrou no circuito, a
censura foi mantida, mas o exagero do ministro foi revogado, sem ter
chegado a vigorar. Uma onda de prises ocorrida no meio universitrio de
So Paulo durante as cerimnias do dcimo aniversrio da "Revoluo
Redentora de 31 de Maro" levou Golbery a reclamar, numa conversa com
Heitor Ferreira: Eu acho que estamos sofrendo uma ditadura dos rgos de
informao. Esses rgos, hoje, esto misturados, porque o DOl prendeu
quatro, mas o DOPS prendeu quarenta. Quando cobrarem, vai se dizer: o
que  que eu tenho a ver com o DOPS? Tem, o presidente tem. Tanto com o
DOPS quanto com o DOl. O governo federal est tomando a responsabilidade
de tudo que o DOPS faz por causa desse troo. Toda vez que a cousa
comea a acalmar, o pessoal decide e cria troo, prende gente. Porque,
voc compreende,  para permanecer, para mostrar servio. Isso 
exatamente criar averses, mas eles criam averses porque querem
perdurar. Quer dizer, todo mundo est acuado com esses caras.
Compreende?  o que est acontecendo. Todo mundo acuado com eles.43 O
general queria tambm tirar o delegado Srgio Fleury de cena. O matador
de Marighella, cone do combate  subverso, obtivera da hierarquia do
regime solidariedade e amparo. Geisel concordava com o afastamento do
delegado. Fleury era ru nos processos de extorses e assassinatos do
Esquadro da Morte no submundo do trfico de drogas de So Paulo, mas
continuava forte. Numa eleio de que participaram os 44 reprteres,
radialistas e fotgrafos que faziam a cobertura rotineira das atividades
da Secretaria da Segurana do estado, conquistaria a quarta colocao
entre os "melhores do ano".44 Golbery reclamava: "Mas tira esse homem
para fora. Bota esse homem em frias, manda ele passear na China. Alis,
o chefe est de acordo nisso. [j  uma burrice ter esse homem a, 
vista de todo mundo" 43 Telefonema de Heitor Ferreira a Golbery, 11 de
abril de 1974. APGCS/HF. 44 Jornal do Brasil, 29 de novembro de 1974, p.
20.
  O PORO INTOCADO 399 "Manda ele fazer um curso na Frana. Com esse
nome: Fleury.., aconselhou Heitor. ", mas talvez ele no possa se
afastar, porque est sub judice. Manda ele para Foz do Iguau. Tem um
negcio onde criam jacar, manda ele tomar banho l. Esse  bandido.
Esse  um bandido. Agora, prestou servios e conhece muita coisa."
"Sobretudo isso arrematou Heitor.45 Os desaparecidos do PCB
realimentavam a estratgia do embarao. Eram pessoas com passado de
militncia poltica, no estavam metidos na luta armada e dispunham da
rede de solidariedade do partido. Uma coisa era sumir com os integrantes
do Grupo Primavera, da ALN, vindos clandestinamente de Cuba na esperana
de reorganizar as bases brasileiras. Outra, fazer desaparecer um
ex-parlamentar como Lus Maranho. Esse caso levou o deputado Thales
Ramalho, secretrio-geral do MDB e chefe da corrente moderada do
partido,  tribuna da Cmara. Maranho era seu velho amigo. Ramalho
entrincheirou-se no embarao, cobrando explicaes ao governo. Leu uma
carta da viva e concluiu: " com sentimento de vergonha que transmito a
esta Casa esse impressionante documento para o conhecimento de todos.
Vergonha de que, em meu pas, uma carta dessas possa ser escrita. Daqui,
quero fazer um apelo ao presidente Ernesto Geisel: mande apurar este
caso".46 Pouco depois o cardeal Eugnio Sales foi a Geisel. Como de
hbito, deixou com seu interlocutor os tpicos tratados na audincia.
Foram seis, e o ltimo dizia: "Importncia da localizao de um grupo de
presos que se encontra desaparecido. Comprovar as intenes do governo
em respeitar os direitos humanos"47 45 Telefonema de Heitor Ferreira a
Golbery, ii de abril de 1974. APHF. 46 Dirio do Congresso Nacional, 15
de maio de 1974, p. 2850. 47 Uma folha datilografada, assinada por d.
Eugnio Saies, sem data. APGCS/HF.
  400 A DITADURA DERROTADA Golbery tinha uma posio parecida, em
linguagem mais crua: "Eu quero que os cadveres desses desaparecidos
saiam de meu armrio. Quero tir-los daqui. Que fiquem no gramado a em
frente ao Planalto. Haver um perodo de assombro, de horror, mas o
problema desaparece. Se os cadveres continuarem aqui, o problema no
acaba to cedo".48 O general j percebera que nessa matria o chefe do
SNI no era seu aliado, mas registrava que Geisel estava "numa posio
mdia, nem tanto com a minha, nem com a do Figueiredo"49 A de
Figueiredo, de acordo com uma Apreciao Sumria que ele remeteu a
Geisel, era a do poro. Referindo-se  "campanha sobre prises e
desaparecimento de subversivos alertava: "Tais iniciativas se ajustam
aos desgnios do Movimento Comunista Internacional, MCI, no qual se
inserem as atividades do PCB [j  A vida de Figa no Servio no estava
fcil. Afunilava-se nele boa parte do ressentimento militar contra as
novidades, O general tinha sob suas ordens uma mquina de que fora scio
benemrito, como chefe do Gabinete Militar de Medici. Figueiredo
colocara o amigo Newton Cruz, o Nini, na chefia da Agncia Central,
segundo cargo em importncia na hierarquia do SNI. Ele dispensara o
coronel Sebastio Ramos de Castro, que servia no setor de assuntos
externos da Agncia. Anos depois, Nini recordaria suas razes: "Tinha-se
que conter o CIE, que atravs de Castro controlava o SNI. O SNI ficava a
reboque do CIE".51 Figueiredo sabia disso, mas trocou seis por meia
dzia, amparando o coronel em seu gabinete. Sabia tambm que Castro
detestava Golbery.52 48 Golbery do Couto e Silva, maio de 1974. Veja, 19
de maro de 1980, "O fabricante de nuvens", p.27. 49 Golbery do Couto e
Silva, maio de 1974. 50 Apreciao Sumria, do SNI, de 15 a 24 de julho
de 1974. AEG/CPDOC. 51 General Newton Cruz, novembro de 1987 e julho de
1997. 52 Nota manuscrita de Heitor, apensa ao Dirio de Heitor Ferreira,
intitulada Conversa Heitor & Figueiredo, Sbado 28 de Setembro de 1973,
na qual lista nove militares considerados "anti-Golbery 4 APGCS/HF.
  OPORO INTOCADO 401 Castro tivera algumas simpatias esquerdistas nos
anos 50 e fora considerado cristo-novo nos primeiros dias do regime.53
Depois de viver os primrdios do SNI, tornara-se um diligente oficial de
informaes. Passara pelo lugar de adido em Buenos Aires e era conhecido
tanto pelo rigor pessoal como por uma descomunal capacidade de trabalho.
Era um homem seco, formal. Quando queria distncia, tratava a pessoa por
"Vossa Excelncia" at em bilhete manuscrito.54 Geisel tinha-lhe
amizade. 55 O SNI comportava-se como um comissariado ideolgico. Um
exempio disso pode ser encontrado no primeiro relatrio guardado por
Geisel. Nele aprecia-se uma entrevista concedida por d. Paulo Evaristo
Arns  Associated Press. O cardeal de So Paulo denunciara a censura e
as torturas, mas mostrara-se otimista com o novo governo: "Haver, muito
provavelmente, uma melhora nas relaes entre Igreja e Estado O
analista do SNI zangou-se: "Parece-nos que D. Evaristo Arns, na condio
de Cardeal-Arcebispo de So Paulo, no estava - e no est - investido
da nobre e sria responsabilidade de falar  imprensa internacional em
nome da Igreja Catlica Apostlica Romana no Brasil, principalmente
considerando-se o importante e grave assunto das relaes entre Igreja e
Estado"56 No caso de d. Paulo, a implicncia do SNI revelava-se
contraproducente, pois as posies do cardeal eram conhecidas por Geisel
e Golbery. Em outros casos, o Servio manipulava omisses e inflava
irrelevncias. Esse foi o caso de Glauber Rocha. Geisel raramente ia ao
cinema. Golbery, nunca. Para ambos, o cineasta baiano era um intelectual
catico dos anos 60, inimigo do regime, auto-exilado na Europa. Em maro
de 1974, 53 Para as simpatias esquerdistas de Castro, entrevistas com
Golbery (1985) e Geisel (1989). Em 1945, quando servia como tenente numa
unidade da diviso blindada, Castro era considerado esquerdista.
Leonidas Pires Gonalves (que servia como ajudante-de-ordens de lcio
Souto), dezembro de 1999. General Gustavo de Moraes Rego, 1984. 54
Bilhete do general Sebastio Ramos de Castro a Golbery, de 11 de
dezembro de 1974. APGCS/HF. 55 Cinco folhas, de 25 de novembro de 1974,
com a lista dos coronis promovidos a general. Numa lista de 27 nomes,
Geisel marcou trs para receberem o adjetivo amigo. Um deles era o
general Castro. APGCS/HF. 56 Apreciao Sumria, do SNI, de maro de
1974. AEG/CPDOC.
  402 A DITADURA DERROTADA a revista Viso publicara sob a forma de
depoimento uma carta dele ao jornalista Zuenir Ventura. Seu contedo
estarreceu a esquerda: Acho que o Geisel tem tudo na mo para fazer do
Brasil um pas forte, justo, livre [...].Antonio das Mortes  o profeta
de Alvarado e Khadafi. Vejam as coisas: agora a histria recomea. Os
fatos de Geisel ser luterano, e de meu aniversrio ser a 14 de maro,
quando completo 35, me deixam absolutamente seguro de que cabe a Ele
responder s perguntas do Brasil falando para o mundo [...]. Para
surpresa geral, li, entendi e acho o general Golbery um gnio - o mais
alto da raa, ao lado do professor Darcy Ribeiro.57 Golbery no deu
maior importncia ao episdio. O SNI, contudo, pareceu molestado. No
registrou a surpreendente declarao do cineasta, publicada no Brasil,
mas passados dois meses acusou: "Glauber Rocha atacou violentamente,
pela TV portuguesa, o governo Medici, qualificando-o de fascista".58
(Meses depois, quando o ministro Reis Velloso perguntou a Geisel se
Glauber podia voltar ao Brasil, ele foi frio: "Que venha, mas calado e
comporte-se")59 Na manh de 24 de maio, deu-se um imprevisto. Na tarde
da vspera o ministro do Exrcito tivera uma discusso spera com o
general Rodrigo Octavio Jordo Ramos, um veterano "fritador de bolinhos
colega de turma de Geisel na ESG, que fora engavetado no Superior
Tribunal Militar. L, vinha denunciando casos de tortura.60  noite,
Dale Coutinho foi a um jantar na casa do presidente da Cmara, voltou
para casa sentindo-se mal e morreu. Dos seus setenta dias no ministrio
pouca lem57 Glauber Rocha, Cartas ao mundo, pp. 482-3. O general Juan
Velasco Alvarado presidia o Peru. 58 Apreciao Sumria 02/74, do SNI,
para o perodo de 6 a 15 de maio de 1974. AEG/CPDOC. 59 Dirio de Heitor
Ferreira, 5 de fevereiro de 1975. Glauber Rocha s regressaria ao Brasil
em junho de 1976, depois de uma paciente negociao, graas ao interesse
do senador Luiz Viana Filho, ex-colega de Golbery no governo Castello
Branco. 4 60 Para a discusso de Dale Coutinho com Rodrigo Octavio,
Ernesto Geisel, maro de 1995.
  O PORO INTOCADO 403 brana restou. Geisel preencheu a vaga de acordo
com o manual. Nomeou o general Sylvio Frota, chefe do Estado-Maior do
Exrcito. No fazia tanta diferena. A chegada de Frota coincidiu com o
primeiro ato formal de conteno da "tigrada Uma Diretriz de Atuao do
CIE pretendeu tolher- lhe a autonomia. Mantinha a estrutura do aparelho
de informaes, mas determinava que o Centro se entendesse com os
comandantes dos quatro exrcitos para quaisquer operaes que viesse a
conduzir dentro de suas reas.6 Em tese, terminara a fase em que o CIE
mandava onde queria, atropelando os comandantes militares e at mesmo os
DOIs. Mudana radical, pretendia recompor parte da hierarquia nas reas
das grandes unidades.  provvel que essa mudana tenha sido responsvel
pelo adormecimento dos aparelhos clandestinos mantidos pelo Centro no
Rio e em So Paulo. Entre junho de 1974, quando foi baixada a Diretriz,
e janeiro de 75, quando os dois aparelhos acordaram, no h notcia de
presos assassinados em Petrpolis ou em Itapevi. A prpria tortura
refluiu. Segundo o levantamento feito anos depois pela Arquidiocese de
So Paulo, em 1974 foram apenas 67 as denncias de suplcios. Um nmero
que aproximava o governo das estatsticas anteriores  edio do AI-5.
Entre 1965 e 1968 essa mdia ficara em 71 casos por ano. Em 1973, ltimo
ano de Medici, as denncias haviam sido 736.62 O presidente no se dava
a chacrinhas com generais. No os recebia no Alvorada por falta de
intimidade, nem no Planalto, por questo de hierarquia. Seu primeiro
encontro com a cpula militar ocorreu na manh de 10 de junho. Reuniu o
Alto-Comando das Foras Armadas, composto pelos ministros, seus chefes
de estados-maiores e pelo chefe do EMFA. Geisel falou por mais de uma
hora valendo-se de um roteiro de quinze 61 Para uma referncia 
Diretriz de junho de 1974 e  sua essncia, Informao n2 017/70/A C/76,
da Agncia Central do SNI, de 20 de fevereiro de 1976. APGCS/HF. 62
Projeto Brasil: nunca mais, tomo v, vol. 1: A tortura, p. 64.
  404 A DITADURA DERROTADA folhas de bloco com notas manuscritas. Nessa
reunio, apresentou o seu projeto poltico. O AI-5 era um "tacape"
intimidador. Repetiu boa parte da exposio que fizera a Dale Coutinho
quando o convidou para o ministrio, mas formulou de maneira diversa o
problema da subverso. Queria ver luz no fim do beco: Eu no creio que
presentemente [sei pudesse imaginar uma subverso interna de natureza
generalizada. Absolutamente. O grau que ns atingimos, o grau de
represso a que ns chegamos impede isso. A subverso poder ocorrer, em
grande parte alimentada de fora, e poder haver dentro do pas
determinados focos, mas qualquer foco destes  fator de intranqilidade
e ns temos que continuar no nosso sistema de combate  subverso
interna, por maiores que tenham sido os xitos alcanados. [... 1 Ns
temos que trabalhar em medidas preventivas, e temos que trabalhar com
medidas repressivas, se necessrio. As medidas preventivas so muito
importantes, inclusive no sentido psicolgico, porque por mais que se
liquide, se elimine esses focos, ou se prendam, ou matem, ou no sei o
qu, a determinados grupos, a subverso  constantemente realimentada.63
Poucos dias depois, a assessoria do SNI enviou ao general Figueiredo um
documento que dizia o contrrio. Admitia que a guerrilha urbana tinha
acabado, registrava que o ltimo ato terrorista ocorrera em outubro de
1973, mas prevenia o governo contra um novo perigo. Denunciava a
hiptese da "existncia de uma estratgia global das esquerdas,
destinada a criar um falso clima de tranqilidade interna, desarmando o
esprito dos rgos de Segurana e criando um clima para a reivindicao
do restabelecimento de liberdades".64 63 Mao de quarenta folhas,
anotadas por Heitor Ferreira e Moraes Rego, intitulado Primeira
Transcrio do Pronunciamento do Presidente Geisel na Reunio do
Alto-Comando das Foras Armadas, em 10 de junho de 1974. APGCS/HF. 64
Subverso Comunista no Brasil, de 20 de junho de 1974, referindo-se ao
Relatrio Especial de Informaes n2 04/74, do dE, citado na Informao
n2 01 7/70/A C/76, da Agncia Central do SNI, de 20 4 de fevereiro de
1976. A esse respeito, ver tambm Apreciao Sumria, do SNI, de 25 de
junho a 14 de agosto de 1974. APGCS/HF.
  O PORO INTOCADO 405 Projetando a reivindicao do restabelecimento
das liberdades como item da agenda subversiva, fechava o beco. Se no
houvesse tranqilidade, deveria haver represso, porque s assim se
restabeleceria a paz. Havendo tranqilidade, ela seria falsa, manha
subversiva. Portanto, a represso era indispensvel. A tranqilidade
tornava-se ameaa para a anarquia. Essa anomalia iria se transformar no
principal fator de desordem do perodo. Influenciando o comportamento da
"tigrada", e at mesmo o de Geisel, produzir crises cada vez mais
artificiais. Em 1964 a desordem do janguismo era um fato real, falava-se
em rebelio de marinheiros, e havia marinheiros rebelados no Rio de
Janeiro. As passeatas de 1968 foram instrumentalizadas, mas podiam ser
vistas das janelas dos prdios da avenida Rio Branco. O vigor do surto
terrorista foi exorbitado, mas atentou-se contra o virtual presidente da
Repblica, seqestraram- se quatro diplomatas estrangeiros e
assaltaram-se centenas de bancos e casas de comrcio. Em 1975 no havia
subversivos no Planalto, estudantes na rua, muito menos terroristas em
ao. Temendo a normalidade, o aparelho de segurana do governo
precisava de uma ameaa. Fabricou-a no PCB. Viu no Partido "o maior
perigo para as instituies democrticas", pelas seguintes razes: -  o
partido que conta com quadros mais capazes e de maior experincia. -  a
organizao que menos recebeu os reflexos da ao direta dos rgos de
segurana. -  a organizao que conta com maior experincia de
clandestinidade. - E a organizao que conta com maior apoio externo. -
 a organizao em que a condenao de seus quadros se faz mais dificil
na Justia, possibilitando a rpida volta dos seus militantes 
atividade partidria. -  a organizao que apresenta mais elevado
estgio de organizao em todo o territrio nacional. -  a organizao
que encontra maior receptividade e facilidade de penetrao junto s
classes poltica, operria, religiosa e intelectual. [...]
  406 A DITADURA DERROTADA -  a organizao que no age
precipitadamente e tem maior tradio. -  a nica organizao que
superou uma srie de crises sem haver desarticulao, tendo assegurado
maior firmeza de posio e homogeneidade. -  a melhor organizao na
aplicao da poltica de acumulao de foras.65 Sugeria que a
Comunidade de Informaes cuidasse do PCB, para a tomada das "medidas
preventivas indispensveis"66 Numa manobra surpreendente, em junho
Golbery foi  sede da Conferncia Nacional dos Bispos, em Braslia, e se
reuniu com um grupo de familiares de treze desaparecidos. O encontro foi
marcado e realizado em sigilo. Durou o dia inteiro, e Golbery
interrompeu-o para almoar com d. Paulo Evaristo Arns. Recebeu um dossi
em que cada caso era documentado e prometeu dar notcias. Mais tarde o
cardeal contou que Golbery chorou ao ouvir duas das narrativas. Anos
depois do encontro, o general no se lembrava de ter chorado e, medindo
as palavras, disse: " uma verso emotiva, que no  fantasiada"67
Despedindo-se de d. Paulo, j no carro que o levaria ao Planalto,
admitiu: "Infelizmente, ainda no conseguimos limpar os quartis"68
Pouco depois, os quartis de So Paulo emitiram um sinal. Um contnuo
foi a uma agncia do correio para despachar um volume mal embrulhado
para um endereo na Esccia. O pacote se abriu, e materiali65 Subverso
Comunista no Brasil, de 20 de junho de 1974, referindo-se ao Relatrio
Especial de Informaes n2 04/74, do dE, citado na Informao n2
017/70/A C/76, da Agncia Central do SNI, de 20 de fevereiro de 1976.
APGCS/HF. 66 Idem. 67 Golbery do Couto e Silva, abril de 1985. Jos
Carlos Dias, novembro de 2001. Para outro testemunho desse encontro, ver
Maria Conceio Pinto de Ges, A aposta de Luiz Igncio Maranho Filho,
p. 257. 68 O Estado de S. Paulo, 8 de setembro de 1996, p. A30.
  JO PORO INTOCADO 407 zou-se uma carga de jornais e publicaes
clandestinas. Preso, o moo revelou que trabalhava para o Centro
Brasileiro de Anlise e Planejamento. O DOl resolveu prender o Cebrap. O
Cebrap funcionava num casaro da rua Bahia. Nele, desde o final de 1969,
o ncleo de professores expulsos da Universidade de So Paulo vivia
protegido atrs de uma couraa legalista. Formavam um grupo exigente,
criativo e aplicado, que discutia e estudava problemas polticos e
econmicos do pas. Seus quadros mais destacados comeavam a abandonar a
referncia marxista que os atraa desde o final dos anos 50. A
instituio juntava autores de pelo menos 37 livros e 168 artigos
acadmicos, produo intelectual certamente superior  das Foras
Armadas desde a edio do AI-5.69 Segundo o SNI, o Centro era parte de
"uma nova frente de propaganda adversa, com implicaes na rea
estudantil7 A principal fonte financiadora do Cebrap foi a Fundao
Ford. Financiou-lhe 70% do oramento no primeiro ano de vida. At 1972,
dera-lhe 893 mil dlares.7 O Cebrap recebia tambm a ajuda de
empresrios paulistas. 72 Reunia em torno de vinte acadmicos. Sua mola
mestra era o socilogo Fernando Henrique Cardoso, autor do famoso
Dependncia e desenvolvimento na Amrica Latina (1969). 69 Para uma
histria do Centro, ver "O Cebrap e as cincias sociais no Brasil de
Bernardo Sorj e Antonio Mitre. Estavam no Cebrap, entre outros: Elza
Berqu, Juarez Brando Lopes, Fernando Henrique Cardoso, Cndido
Procpio Ferreira de Camargo, Jos Arthur Giannotti, Octavio Ianni,
Bolivar Lamounier, Carlos Estevam Martins, Francisco de Oliveira, Paul
Singer e Francisco Weffort. 70 Apreciao Sumria n2 11, do SNI, de 5 de
setembro de 1974. AEG/CPDOC. 71 Bernardo Sorj e Antonio Mitre, "O Cebrap
e as cincias sociais no Brasi1 p. 77, e Elisabeth Station e
Christopher J. Welna, "Da administrao pblica  participao
democrtica", em Os 40 anos da Fundao Ford no Brasil, organizado por
Nigel Brooke e Mary Witoshynski, p. 172. At 1992 a Fundao Ford deu ao
Cebrap 2,21 milhes de dlares, tornando-o o quarto maior receptor de
fundos no Brasil, vindo logo depois da puc-Rio (2,7 milhes), da
Fundao Carlos Chagas (2,3 milhes) e da Universidade Federal de Viosa
(2,26 milhes). A Fundao Ford no Brasil, volume organizado por Sergio
Miceli, p. 95. 72 Segundo o professor Antonio Delfim Netto, na poca da
fundao do Cebrap, quando ele ocupava o Ministrio da Fazenda, foi
procurado pelos empresrios Joseph Safra (Banco Safra) e Antonio Ermrio
de Moraes (Votorantim). Indagavam como o governo veria uma eventual
colaborao financeira para a instituio. Delfim disse-lhes que via com
naturalidade. Antonio Delfim Netto, janeiro de 2000. H uma referncia
superficial, sem documentao,  ajuda de empresrios ao Cebrap na
Informao n2 007/16/AC/75 de 7 de fevereiro de 1975, da Agncia Central
do SNI. AA.
  408 A DITADURA DERROTADA Um deles, o economista Frederico
Mazzucchelli, que em 1968 freqentara um grupo de estudantes radicais do
qual saram pelo menos trs quadros da luta armada, foi preso na rua.
Apanhou durante seis horas e ficou 25 dias na cadeia. Estava no
pau-de-arara, e os policiais se divertiam aconselhando-o: "Vai reclamar
com o Geisel".73 Em setembro, prenderam mais trs professores do Cebrap.
Um deles, Vinicius Caldeira Brant, ex-presidente da UNE, foi
demoradamente torturado. A partir desse momento o poro comeou a perder
a parada. Fernando Henrique Cardoso bateu na casa do cardeal Arns s
onze horas da noite e pediu-lhe socorro. s sete da manh seguinte, d.
Paulo encontrou-se com o comandante do ii Exrcito. A tortura cessou.
Noutra linha, os professores pressionaram o corao do governo. Nesse
episdio desponta a figura de Severo Gomes. O ministro da Indstria e
Comrcio entrara no governo por suas relaes com a plutocracia
paulista, inclusive aquele pedao da banca que financiara a represso.
Nele, seria mais um adversrio do poro. Sabendo que haveria novas
prises, levou o assunto a Geisel, e firmou-se um compromisso: os trs
professores seriam soltos, o DOI chamaria quem quisesse mas no tocaria
nos presos, que seriam interrogados e liberados no mesmo dia.74 Assim,
entre o final de setembro e as primeiras semanas de outubro, da
secretria a Cardoso, o Cebrap foi ao DOI.75 Ningum dormiu na cadeia,
mas todos ficaram encapuzados nos corredores enquanto esperavam a hora
do interrogatrio.76 Durante quinze dias passaram pelo poro quase todos
os professores do Cebrap. Pela primeira (e ltima) vez desde o seu
surgimento, o DOl fora obrigado a respeitar a integridade fisica dos
presos de um arrasto. Os interrogatrios mostraram-se improdutivos e,
na lembrana de muitos pro73 Luiz Maklouf Carvalho, Mulheres que foram 
luta armada, p. 109. 74 Paul Singer foi preso no dia 19 de setembro e
libertado no dia 24. Seis folhas assinadas por Falco e visadas por
Geisel, detalhando a situao de pessoas dadas por desaparecidas, de 6
de fevereiro de 1975. APGCS/HF 75 Para as prises e todo o episdio, ver
tambm a Informao n2 007/16/A C/75 de 7 de fevereiro de 1975, da
Agncia Central do SNI. AA. 4 76 Jos Arthur Giannotti e Francisco de
Oliveira, fevereiro de 1998. Para um depoimento de Fernando Henrique
Cardoso, ver Brigitte Hersant Leoni, Fernando Henrique Cardoso, p. 171.
  O PORO INTOCADO 409 fessores, ridculos. A Fernando Henrique
surpreenderam as perguntas que buscavam estabelecer suas conexes com o
pensador trotskista Ernest Mandei, que encontrara no Mxico, e com o
ex-ministro Roberto Campos, com quem jantara em So Paulo. J o
professor Jos Arthur Giannotti, cujo interrogatrio durou cerca de doze
horas, intrigou-se com o antiamericanismo de um oficial, brasileiro, que
calava botas do uniforme americano.77 O DOI havia sido ferido na
amplitude de suas funes. Nesses dias Golbery narrou a Heitor Ferreira
uma conversa em que Geisel reclamara de oficiais do CIE, dizendo que "
preciso implantar uma poltica de prises sem violncia78 Goibery no
tinha o hbito de guardar papis. Passava-os, aos lotes, a Heitor
Ferreira. Essa caracterstica torna intrigante o fato de ter guardado
consigo, por toda a vida, um mao de cinco folhas onde esto listados
misteriosos episdios que rondaram sua casa de Jacarepagu a partir de
setembro de 1974. Primeiro ligou uma pessoa, puxando conversa e
perguntando ao PM de servio quantos homens faziam a segurana da
propriedade. Outro telefonema informou que a mulher de Golbery fora
seqestrada. A informao era falsa, mas no dia seguinte decidiu-se que
Esmeralda do Couto e Silva embarcaria para Brasilia.  dessa poca o
aparecimento nos quartis do Rio do primeiro panfleto contra o
governo.80 77 Fernando Henrique Cardoso e Jos Arthur Giannotti, junho
de 2003. 78 Dirio de Heitor Ferreira, 17 de outubro de 1974. 79 Mao de
cinco folhas, entregue por Golbery a Heitor Ferreira no apart-hotel Park
Avenue, em So Paulo, quando estava morrendo. Intitula-se Transcrio
das Ocorrncias no Ano de 1974. Ocorrncias de 11 e 30 de setembro.
APGCS/HF. A ida para Braslia est em Dirio de Heitor Ferreira, 1 de
outubro de 1974. 80 Carta do tenente-coronel Athos Amorim a Heitor
Ferreira, de 21 de outubro de 1974. APGCS/HF. No se conhece o texto
desse panfleto.
  4
  Interldio pessoal A Presidncia deu a Geisel alguns confortos. Com o
Alvorada para morar e o Riacho Fundo para os fins de semana, hospedou a
irm no palcio e os sogros octogenrios na granja. Tinha piscina e
cinema nas duas residncias. Raramente caa ngua, e quando pedia um
filme, variava do bangue-bangue ao kung fu. Logo o kung fu, que a
Censura banira, chamando-o de "derivativo maosta" Seus hbitos
continuaram os mesmos. Acordava s 6h. Quando saa do banho, a roupa do
dia j estava separada. Sapatos, meias e terno pretos, camisa branca e
gravata escura, com algum detalhe em vermelho. Lia jornais, boletins do
SNI e a sinopse do noticirio da imprensa, tomava caf e entrava no
Planalto - sempre pela rampa - s 9h. Almoava no Alvorada, dormia
quinze minutos (de pijama) e s 15h estava de volta ao gabinete.2
Fechava a quitanda pontualmente s 18h. Levava servio para casa, mas
abandonava o palcio para liberar seus assessores diretos. Em torno das
23h estava na cama. Comeou a acordar no meio da madrugada e, pela
primeira vez na vida, tomou remdios para dormir.3 1 Veja, 6 de junho de
1990, pp. 39-40. Para uma anlise da Subverso e Filmes de Kung Fu, do
professor Waldemar de Souza (a servio da Censura), ver O Globo de 19 de
dezembro de 1992, 2 caderno, p. 2. Para a preferncia de Geisel, Amlia
Lucy Geisel, junho de 1997. 2 Ernesto Geisel, abril de 1995. 3 Para a
interrupo do sono, Dirio de Heitor Ferreira, 5 de junho de 1974. Para
os remdios, Amlia Lucy Geisel, junho de 1997.
  412 A DITADURA DERROTADA Dentro dessa rotina, Geisel alterou
profundamente a administrao de seu tempo. Acabaram-se as conversas
dirias, soltas, com Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira.
Acabaram-se, na verdade, todas as conversas soltas. Ele seccionou os
espaos privado e pblico. Alm disso, deu  agenda oficial uma
estrutura de resguardo e hierarquia. No deixava que lhe banalizassem as
audincias. Recusava crachs e no quis receber as candidatas a Miss
Brasil.4 Numa deciso surpreendente, no segundo dia de trabalho chamou
Heitor Ferreira e disse-lhe que, como seu secretrio particular, deveria
se retrair da atividade poltica e administrativa que desenvolvera nos
dois anos anteriores.5 Aos 38 anos, com a intimidade e os ouvidos de
Geisel e Golbery, Heitor se tornara um dos homens mais poderosos do
pas. Influenciara a formao do governo de tal maneira que eram os
ministros, e no ele, que foravam o tratamento por "voc". Falava em
nome do presidente eleito com tamanha determinao e clareza que se pode
dizer que dera ordens a quase toda a Repblica. Geisel informara-o de
que no daria mais ordem nenhuma. Teria de costurar para dentro,
cuidando de todos os papis que chegavam ou saam de sua mesa, inclusive
os relatrios e os "drages" enviados pelo SNI.6 ("Drago" era o apelido
das transcries de escutas telefnicas. Como se grampeavam as linhas no
cabo do distribuidor geral das centrais, surgiu primeiro a abreviatura
DG, e depois passou-se ao "drago") Foram raras as ocasies em que
Geisel mandou Heitor sentar-se. Falavam-se com a mesma confiana de
sempre, mas o presidente ficava na cadeira e o secretrio, em p.7
Mantiveram o hbito de dialogar por bilhetes. Eram trs ou quatro por
dia. Heitor avisava que encontrara erva- mate Saphyra numa loja da
Superquadra 106, propunha que se erguesse uma vedao acstica numa das
paredes do gabinete, pois as conversas de Geisel podiam ser ouvidas na
sala ao lado, ou persistia numa campa- 4 Para o caso das misses, bilhete
de Ney Braga a Heitor Ferre ira, de 23 de maio de 1974. Para os crachs,
bilhete de Heitor Ferreira a Armando Falco. APGcs/HF. 5 Dirio de
Heitor Ferreira, 19 de maro de 1974. Ernesto Geisel, abril de 1995. 4 6
Trs folhas manuscritas de Heitor Ferreira, sem data, intituladas O Que
Fao. APGCS/HF. 7 Dirio de Heitor Ferreira, 17 de maro de 1975. Heitor
Ferreira, agosto de 1998.
  INTERLDIO PESSOAL 413 nha para afastar militares uniformizados da
proximidade do presidente em seus compromissos pblicos. Contava as
fardas nas comitivas que viajavam para os estados, e mostrou-lhe que
numa passagem por Campinas, entre vinte pessoas, levara dezessete
militares da ativa.8 A poda de maro foi to dolorosa para Heitor que
ele descuidou de seu dirio e, em abril, registrou: "Estas minhas
anotaes esto muito fracas. Sei disso e me perdoe quem um dia as vier
a ler9 Os dois s voltaram a ter uma conversa demorada trs meses
depois. As seis horas de vida pblica de Geisel no Planalto
dividiram-se em dois blocos. Armava o time em duas reunies de at 45
minutos - uma s 9h, outra s 15h - com os chamados "ministros da Casa
Sentavam- se nelas os chefes do Gabinete Civil, do Gabinete Militar e do
SNI, alm do secretrio do Planejamento, que meses depois foi dispensado
da sesso vespertina. Os demais ministros tinham 45 minutos de despacho
por quinzena, e as tardes das quartas-feiras ficaram para os
parlamentares. Esse sistema viria a concentrar a convivncia com os
ministros do palcio. Num s ano, Golbery, Hugo Abreu e Figueiredo
teriam 324 horas de despachos conjuntos, contra 323 para todos os
outros, cujos encontros com o presidente variaram de um mximo de 45
horas (Armando Falco) a um mnimo de 8h40 (Paulo de Almeida Machado, da
Sade).1 Geisel amparava seus despachos numa lista de assuntos
pendentes, mapeados por Heitor Ferreira. Nela se misturavam novos
problemas e velhas idias, ecos do largo da Misericrdia. Em julho, a
lista de cobranas ao chanceler Azeredo da Silveira tinha 35 itens. Iam
da compra de uma casa para a embaixada em Lisboa at a antiga pendenga
da verba federal que sustentava o colgio Pio Brasileiro, em Roma.2
Quando um assunto entrava na lista de cobranas, era impossvel
esquec-lo. Geisel descobriu que o Ministrio do Exrcito mantinha no
Rio 8 Cinco folhas de notas de Heitor Ferreira a Geisel, de 14 de julho
de 1974. APGCS/HF. 9 Dirio de Heitor Ferreira, 27 de abril de 1974. 10
Bilhete de Heitor Ferreira a Geisel, agradecendo a conversa, anotado por
Geisel, de 14 de junho de 1974. APGCS/HF. ii Controle dos Despachos com
os Ministros de Estado, de 1976. APGCS/HF. 12 Nota de Heitor Ferreira a
Geisel, que a visou, de 9 de julho de 1974. APGCS/HF.
  414 A DITADURA DERROTADA de Janeiro um asilo dos Invlidos da Ptria.
Como essa expresso surgira com o socorro aos veteranos da Guerra do
Paraguai, coisa acabada havia mais de um sculo, pediu ao general Sylvio
Frota que lhe explicasse o fenmeno. Ficou sabendo que o asilo dava
emprego a 126 servidores, 57 dos quais militares, seis oficiais, e que
tinha 63 casas. Afora os salrios, a instituio gastava 346 mil
cruzeiros por ano (em torno de 50 mil dlares). Beneficiava quatro
pensionistas e um ex-combatente. Somando- se a eles duas vivas e uma
filha de veterano que entraram na conta, eram oito os assistidos.
Dividindo-se a verba anual entre os oito favorecidos, cada um poderia
buscar outra pousada com uma penso de quinhentos dlares mensais. O
presidente cobrou o fechamento do asilo em inmeros despachos. Pela sua
lembrana, s o conseguiu quando informou ao ministro que no assinaria
papis do Exrcito enquanto aquele caso no estivesse encerrado.3 O
tempo de Geisel no Alvorada e na granja do Riacho Fundo tornou-se
privado. No levava convidados para casa. Almoava e jantava com a
famlia. Era comum que o ajudante-de-ordens, um jovem capito, sentasse
 mesa, mas era impossvel que a ela chegassem os hierarcas da
Repblica. Demorou um ano para perceber que nunca convidara Golbery e
Heitor para jantar no palcio: "Eu sou chucro mesmo. Mas tem que ser,
n?".4 Raramente chamava ministros para conversas  noite ou durante os
fins de semana. S saa de casa quando no havia outro jeito. Recusou-se
a comparecer ao jantar em homenagem  duquesa de Kent: "S porque 
princesa?"15 Procurou separar sua vida pblica da vida particular da
mulher e da filha, a ponto de pedir ao ministro da Justia que sugerisse
aos donos de jornais mant-las fora do noticirio das colunas sociais.
Radicalizado, o pedido resultou numa ordem da Censura proibindo
referncias a Amlia Lucy Geisel.16 13 Para os dados do asilo, Dados
sobre o Asilo Invlidos da Ptria, do gabinete do ministro do Exrcito,
sem data. APGCS/HF. Ernesto Geisel, 1982. Para a ameaa, Ernesto Geisel,
abril de 1995. 14 Dirio de Heitor Ferreira, 17 de maro de 1975. 15
Para o jantar da duquesa, nota manuscrita de Geisel a Heitor Ferreira e
nota de Heitor Ferrei ra ao chefe do cerimonial, de 13 de julho de 1974.
APGCS/HF. 16 Armando Falco, Tudo a declarar, pp. 324-5. Ordem da
Censura de 29 de maro de 1974. Paolo Marconi, A censura poltica na
imprensa brasileira - 1968/1978, pp. 277-8.
  INTERLDIO PESSOAL 415 O isolamento, somado ao silncio sepulcral que
envolve o Alvorada, derivou em tamanha solido que sua filha lembraria,
23 anos depois: " noite, eu ficava olhando para o gramado, acompanhando
os faris dos carros que se aproximavam. Quando o carro vinha, eu
pensava: Esse vai entrar Mas eram turistas, dobravam. Eu ficava
esperando que algum nos visitasse, mas no vinha ningum7 No circuito
domstico mandava sua mulher, Lucy. Tinha 56 anos e padecia de uma
agorafobia que a afastava de aglomeraes e a fazia sofrer nas viagens
areas. S era vista em cerimnias em que sua presena fosse
protocolarmente indispensvel. Passou pelo poder sem mudar o penteado, a
cor dos cabelos ou mesmo a costureira. Ensinava os cozinheiros do
palcio da Alvorada a preparar tortas. Era uma senhora da classe mdia
europia, daquelas que falam baixo e levam a mo  boca para encobrir
uma risada. Se algum dia tratou de poltica com o marido, ningum ouviu,
nem a filha. Lucy Geisel nunca falou de si. Cuidava do marido, dos pais
e da rede de parentes que viviam em Estrela. Raros foram os seus
comentrios sobre o perodo da Presidncia. Gostava de lembrar a mulher
de um ministro que abusava dos decotes e a surpreendeu numa recepo com
o vestido fechado  altura do pescoo, revelando, ao virar-se, que tinha
as costas nuas no limite do possvel.8 Afeioou-se a Duquesa, uma
dlmata que recebeu logo que chegou ao Alvorada. Deu-lhe por nicho um
canto de seu quarto de vestir e, anos depois, em Terespolis, levou-a
para o dormitrio do casal. O capito que prometera  noiva uma vida de
"misria dourada" com dez contos de ris no banco, agora vivia num
palcio servido por 73 empregados civis e tinha uma renda prxima de 500
mil cruzeiros anuais (equivalentes a 71 500 dlares), mas no havia
alegria em sua casa.9 17 Amlia Lucy Geisel, junho de 1997. 18 Lucy
Geisel, 1995. 19 Bilhete de Geisel a Heitor Ferreira, de 17 de novembro
de 1974. Para os empregados, uma folha manuscrita de Heitor Ferreira, de
5 de dezembro de 1974. APGCS/HF. Heitor monitorava penodicamente o
nmero de funcionrios civis e militares da Presidncia.
  416 A DITADURA DERROTADA A Presidncia foi mais um golpe na vida da
filha, Amlia Lucy. A morte do irmo desestruturara o equilbrio
familiar, e a nova posio do pai haveria de desestruturar o que ela
conseguira construir. Geisel protegia-a obsessivamente, como se vivesse
sob o pavor daquela manh de Quitana, quando lhe contaram que
Orlandinho morrera. At a chegada a Braslia, onde Amlia ganhou a
escolta de um guarda-costas, o pai telefonava-lhe duas vezes por dia e
freqentemente lhe pedia que tomasse cuidado ao atravessar a rua.2
Tinha 29 anos e era professora concursada do colgio Pedro ii, alm de
trabalhar no Conselho Federal de Cultura. O pai se recusou a nome-la
para qualquer cargo pblico, e a segurana desaconselhava que arrumasse
um emprego qualquer. Amlia Lucy acabou se instalando na Funarte e
matando o tempo em recepes diplomticas. Suportou at mesmo que se
propagasse o apelido de Mosa, derivado de "Mimosa que lhe deram ao
nascer. Ela no gostava da intimidade invasiva e muito menos do apelido,
improvisado pela surpresa da chegada de uma menina no lugar de um garoto
que se chamaria Frederico, nome que no podia ser adotado na variante
feminina.2 Levava uma vida modesta, restrita s relaes com parentes e
com um pequeno ncleo de amigos. Seu gosto pela msica popular deu-lhe
desconfortvel notoriedade quando o compositor Chico Buarque de
Hoilanda, escondido sob o pseudnimo de Julinho da Adelaide, cantou:
"Voc no gosta de mim, mas sua filha gosta".22 Numa poca em que era
comum os filhos dos hierarcas protegerem a individualidade
distanciando-se da ditadura, Amlia, mesmo sem ter o menor interesse em
projetar uma imagem liberal, disputou cada palmo de sua escassa
autonomia. No discutia poltica com o pai, mas nas raras ocasies em
que o fazia, cortava como faca. Numa manh em que Geisel tratava de um
discurso de agradecimento ao Colgio Eleitoral, ela o ouviu falar que
pretendia "mostrar que o meu mandato vem do povo". 20 Amlia Lucy
Geisel, julho de 1991. 4 21 Idem. 22 A msica  "Jorge Maravi1ha de
1974.
  INTERLDIOPESSOAL 417 " difcil, porque no  disse.23 Criou um caso
com a me porque o chefe da segurana tentou impedi-la de ir ao
aeroporto do Galeo buscar uma amiga dos tempos de escola, irm de um
banido.24 Geisel considerava-a ingnua e temia que amizades esquerdistas
pudessem envolv-la, mas no se meteu na encrenca: " muito difcil
[...j porque ela briga logo".25 Num dos Natais de Braslia, quando seu
pai ceava com a tropa da guarda do Riacho Fundo para encurtar a
comemorao familiar que lhe causava sofrimento, ela foi para a casa de
um casal amigo  procura da festa que desde a adolescncia lhe era
negada.26 O crculo de ferro afrouxava-se nos fins de semana. No Riacho
Fundo, o pai desfrutava a companhia de seu melhor amigo.  impossvel
dizer se Humberto Barreto, aos 42 anos, era um amigo do presidente, de
66, ou a projeo recndita do filho, que completaria 33. Cearense do
Crato, fora garoto para o Rio, disposto a tentar uma vaga na Escola de
Cadetes do Ar. Morava com um tio coronel quando Geisel regressou sozinho
do Uruguai e se instalou no apartamento. Conviveram cerca de um ano.
Humberto foi reprovado no exame mdico e empregou-se como contnuo na
Sears, at que o amigo lhe conseguiu um lugar no Sesi. Afeioaram-se de
tal modo que, ao ser designado para o comando de Quitana, Geisel pensou
em deixar o filho no Rio, aos cuidados dele.27 Humberto e a mulher,
Lilian, foram constante companhia nos fins de semana do casal Geisel. Em
1964, formado em direito, era tesoureiro da Caixa Econmica Federal. O
general ajudou-o a conseguir a chefia do servio de penhores e mais
tarde levou-o para uma diretoria da distribuidora da Petrobrs. Em pelo
menos uma ocasio, precisando de um lugar discreto para conversar com um
general, Geisel usou o apartamento de Humberto.28 23 Conversa de Geisel
com Amlia Lucy Geisel e Heitor Ferreira, 7 de janeiro de 1974.
APGCS/HF. 24 Amlia Lucy Geisel, junho de 1997. A amiga era Elisabeth
van der Weid, irm de Jean Marc van der Weid. 25 Conversa de Geisel com
Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974. APGCS/HF. 26 Amlia Lucy Geisel,
junho de 1997. 27 Humberto Barreto, maio de 1991. 28 Dirio de Heitor
Ferreira, 24 de junho de 1973. Geisel encontrou-se com o general
Figueiredo para discutir a escolha do general Adalberto Pereira dos
Santos para a Vice-Presidncia.
  418 A DITADURA DERROTADA Se Reis Velioso tivesse aceitado o Ministrio
do Interior, Golbery iria para o Planejamento. Nesse caso, Humberto
Barreto poderia vir a ser o chefe do Gabinete Civil. Fracassada a
manobra, virou aposta fcil para a presidncia da Caixa. No dia seguinte
 eleio, Moraes Rego teve uma idia: "Por que no o Humberto para
secretrio de Imprensa? Heitor Ferreira, em cujas listas nunca entrara
um assessor de Imprensa, resumiu as convenincias: "Resolve o gabarito,
resolve a amizade com ele, resolve levar esculhambao. [...j Resolve o
fato de no termos ningum e resolve o que fazer com Humberto, que ns
no sabamos o que fazer" Resolvia tambm o conforto emocional de
Geisel, que gostava da companhia e da proximidade de Barreto.29 Geisel
achou que era pouco. Convidou-o, e de fato era pouco. Humberto aceitou,
mas abriu-se uma curta crise entre as duas famiias. Moraes Rego repetia
que "se arrependimento matasse, eu j estava morto. Estou
arrependidssimo de ter inventado isso".30 Haveria de ser uma das
melhores solues surgidas na formao do governo. A seca elegncia
sertaneja de Humberto Barreto, aliada  audcia que a intimidade com o
presidente permitia, fizeram dele um assessor de Imprensa festejado
desde a primeira hora. A principal qualificao de Humberto Barreto
junto aos jornalistas decorreu do desembarao com que criticava a
Censura e da sinceridade com que reconhecia a impossibilidade de sua
suspenso imediata. Estabeleceu canais de comunicao com reprteres e
editores e, em maio, entregou a Geisel um mao com 35 folhas de
proibies enviadas ao Jornal do Brasil desde o dia da posse.3 Meses
depois, repassou a Golbery os textos massacrados na edio de um s dia
do Estado de S. Paulo.32 Transformaria um cargo inexpressivo num dos
mais importantes postos da Repblica. Era o nico civil nos fins de
semana no Riacho Fundo. Os demais tinham passado pela AMAN. Aos sbados
compareciam Heitor Ferreira e 29 Conversa de Heitor Ferreira com Moraes
Rego, 16 de janeiro de 1974. APGCS/HF. 30 Conversa de Moraes Rego com
Heitor Ferre ira, 4 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 31 Mao de 35 folhas
com cpias das ordens recebidas pelo JB. APGCS/HF. 32 Carto com bilhete
de Carlos Chagas a Humberto Barreto, de 28 de outubro de t974. APGCS/HF.
  INTERLDIO PESSOAL 49 o tenente-coronel Germano Pedrozo. Aos domingos,
Moraes Rego e o tenente-coronel Gleuber Vieira, que Geisel comandara nos
anos 50, no Regimento Escola de Artilharia. Desde ento, sempre que
pde, teve-o por perto. s vezes, o administrador do Planalto, Mrio
Almeida Purificao da Costa, amigo de Geisel desde os dias de Quitana.
Hospedava-se na granja o coronel Americo Mouro, mdico da Presidncia.
Golbery no ia ao Riacho Fundo. Como Geisel, Golbery no ia a lugar
algum. A semelhana, contudo, parava a. O que num era ordem, hierarquia
e cultivada introverso, no outro era informalidade e cultivada
extroverso. Bastava que se comparassem as duas mesas de trabalho. A de
Geisel, inclume. A de Golbery, empilhada. Ou a agenda. Uma, pontual e
severa. A outra, errtica e imprevisvel, juntando na sala de espera
polticos, jornalistas e at pai-de-santo. Golbery se instalara na
granja do Ip, onde sua mulher fizera construir um enorme viveiro de
pssaros e espalhara animais pelo mato. O bode se chamava Deputado.
Apreciava as crises de insnia e as viagens do presidente porque umas
lhe permitiam avanar na leitura e as outras, adiantar a papelada. s
vezes cavalgava nos fins de semana. Chegava ao Planalto um pouco antes
de Geisel, e saa muito depois. Almoava quase sempre em sua prpria
sala, sem nenhum ritual, simplesmente continuando uma conversa que j
comeara e que terminaria depois do caf. Passava o dia trancado, e
nisso havia, alm do costume, uma certa premeditao. Denominava-a Lei
da Bunda. Enunciava-a mais ou menos assim: "Voc entra aqui e senta a
bunda. Os outros esto ocupados. Uns com agenda repleta, outros
viajando. Aos poucos as pessoas sabem que voc est aqui e te procuram.
Voc acaba sendo procurado pelo simples fato de estar com a bunda na
cadeira"33
  A Lei, somada  fama do general, tornava a sala de Golbery ponto de
confluncia de assuntos proporcionais  sua importncia poltica, mas
tambm de toda sorte de banalidades. Um editor do Rio de Janeiro
propunha que se elegesse uma mulher com o propsito de sent-la  mesa
do ministrio, como representante do gnero. Um embaixador informa-
  33 Heitor Ferreira, julho de 1997.
  420 A DITADURA DERROTADA va que os centros irradiadores de notcias
sobre a tortura estavam em Paris, Londres e Nova York, e, falando muito
bem de si, sugeria que o nomeassem para Paris, Londres ou Nova York.34
No mundo dos assuntos relevantes, o general Affonso de Albuquerque Lima,
lder putativo da linha dura e alavanca da ascenso de Costa e Silva nos
anos 60, reaparecia em cartas. Politicamente anmico, propunha a paz:
"Vamos ento viver do presente para a construo de um novo Brasil"
Afastado da tropa, trabalhava como diretor do conglomerado financeiro de
um cunhado. Pedia os bons ofcios de Golbery junto ao Banco Central e
anexava um memorando do prprio parente pleiteando "um tratamento
melhor" ao seu banco e rapidez na liberao de um emprstimo de 12,6
milhes de dlares da Caixa Econmica  loja de roupas Ducal, que
pertencia ao grupo. Por prtico, fornecia o nmero do processo: 2374/74
PIS-RJ.35 Quando Geisel ritualizou o expediente do palcio, Golbery
manteve-se em seu lugar. Desde o primeiro dia de governo, formalizou o
tratamento com o amigo. S descia ao terceiro andar se solicitado. Era
pouco freqente que se reunisse a ss com o presidente. Pode-se estimar
que, ao longo de uma semana, a mdia desses encontros dificilmente
ultrapassasse uma hora. Conversas soltas como as do largo da
Misericrdia tornaram-se raras. Trs por ano, talvez.3b Ao contrrio de
Geisel, buscava divertimento na funo. Expandia- se nas breves
respostas aos bilhetes de Heitor Ferreira. Recebeu uma fotografia do
ministro Simonsen com as mos afastadas, num gesto que poderia dar a
impresso de que estivesse mostrando o tamanho de alguma coisa, e
anotou: "Que grande, no!".37 Havia um recm-chegado no ninho de
oficiais que Geisel levara ao Planalto: o general Hugo Abreu, chefe do
Gabinete Militar. Pra-quedista mido porm atltico, tinha a cabea
inteiramente raspada, e de sua for- 34 Uma folha, sem data,
provavelmente de 1974, com a parte final de uma carta do embaixador em
Tquio, Hlio Cabal. APGCS/HF. 35 Carta de Affonso de Albuquerque Lima a
Golbery, com um memorando de Jos Luis l4rei- ra de Souza, de 13 de
junho de 1974. APGCS/HF. O emprstimo pretendido era de 86 milhes de
cruzeiros, equivalentes a 12 milhes de dlares. 36 Heitor Ferreira,
2003. 37 Recorte de jornal com nota manuscrita de Golbery, sem data, de
1974. APGCS/HF.
  INTERLDIO PESSOAL 421 ma nasceu-lhe o apelido: Chupeta, ou Pinduca,
numa referncia ao personagem das histrias em quadrinhos. Aceitando uma
idia de seu irmo Orlando, em fevereiro Geisel convidara o general
Dilermando Gomes Monteiro para o cargo. Duas semanas antes da posse,
Dilermando saiu para passear de bicicleta, levou um tombo e quebrou a
cabea do fmur. Caso para trs meses em cadeira de rodas e outros trs
com bengala. Geisel recusou todas as sugestes para mant-lo. A idia de
entrar no Planalto com um chefe militar entrevado no era coisa de seu
mundo: "Eu vou prestigiar o Dilermando pela vida afora, mas sinceramente
eu acho que no d".38 Quem no lugar? Resolveu-se o assunto em quatro
dias. Geisel mal conhecia Hugo Abreu. Fora outra sugesto de Orlando
Geisel.39 Era um combatente, homem de muito servio na tropa e de pouca
conversa. Passara com louvor pela FEB. Fizera fama na Brigada
Aeroterrestre, chamada de "fbrica de dores de cabea disciplinando um
corpo de oficiais que se rebelara durante o seqestro do embaixador
americano, em 1969.40 Aos 51 anos, aprendeu a saltar. Comandara os
pra-quedistas na campanha contra a guerrilha do ic do B no Araguaia e
no combate ao terrorismo no Rio. Tentaram abat-lo, mas o presidente
fixou-se na escolha. De um lado, fazia o possvel para no contrariar o
irmo ofendido. De outro, respeitava a cruz de combate de primeira
classe que o capito Hugo trouxera da Itlia. "Essa ressalva em relao
ao rapaz no  nada. O rapaz  soldado, tem vida correta, tem certo
poder de liderana, teve bom destaque na guerra. O que  que tem? Ele 
teimoso, ele  ranheta, no sei o qu?  radical? Isso comigo no tem
muito..."4 Dias depois, impressionou-se com as poucas palavras que
trocaram no telefonema em que o convidou: "Ele estava nervoso. Ser que
 sempre assim? 38 Reunio de Geisel com Dale Coutinho, 6 de maro de
1974. APGCS/HF. 39 Conversa de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor
Ferreira, 6 de maro de 1974. APGCS/HF. 40 Hugo Abreu, O outro lado do
poder, p. 20. 41 Conversas de Geisel com Golbery, Moraes Rego e Heitor
Ferreira, 6 e 7 de maro de 1974. APGCS/HF. Hugo Abreu foi chamado de
"radical" por Orlando Geisel e pelo general Reynaldo Mello de Almeida.
  422 A DITADURA DERROTADA "Ele est com uns tiques de nazista, no ?
Ele  muito enquadrado,  muito dedicado", respondeu Golbery, que o
conhecia e apreciava. "Eu falei a ele que foi escolhido porque 
soldado. [...] Embora ele no seja um homem da minha intimidade."42 Era
um oficial de tropa sentado  mesa com Geisel, Golbery e Figueiredo.
Somando-se o tempo de comando de quartel dos trs desde a poca em que
eram coronis, no chegava aos cinco anos de Hugo na Brigada.
Habituara-se de tal maneira aos uniformes e aos coturnos marrons dos
pra-quedistas que nem terno tinha. Sua entrada no Planalto foi
dolorosa. Vestia uma roupa feita s pressas por um alfaiate de subrbio
e calava sapatos pretos novos que lhe doam nos ps a ponto de ele no
conseguir distinguir quem estava cumprimentando nas recepes. "Passei
de pra-quedista a palaciano diria mais tarde.43 Hugo Abreu no deu
palpite na formao da equipe do Gabinete Militar, pois Geisel pusera
coronis de sua prpria confiana em todos os postos-chaves do
palcio.44 Sofreu tambm um rebaixamento imobilirio. A granja do Torto,
grande propriedade onde viviam desde 1964 os chefes do Gabinete Militar,
continuaria com Figueiredo. L ele tinha suas baias, pista de montaria e
23 serviais.45 Geisel decidira preservar-lhe a mordomia e, na conversa
em que convidou Hugo Abreu, se esqueceu de mencionar esse detalhe.
Quando recebeu a notcia, o general no reclamou.46 Sua presena na
reunio das 15h trouxe um ingrediente adicional  formalizao das
relaes de trabalho imposta pelo presidente. O general tinha poucas
semanas no cargo quando Heitor Ferreira o informou de que pretendia
mudar o sistema por meio do qual seriam gravadas - com o consentimento
de Geisel - algumas das conversas do gabinete presidencial. Hugo tratou
do assunto com o presidente e disse-lhe que um 42 Conversa de Geisel com
Golbery e Heitor Ferreira, 6 de maro de 1974. APGCS/HF. 4 43 Hugo
Abreu, O outro lado do poder, pp. 3 1-2. 44 Idem, p. 23. 45 Levantamento
do nmero de funcionrios da Presidncia, de 31 de dezembro de 1973.
APGCS/HF. 46 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor Ferreira, 7 de
maro de 1974, e telefonema de Moraes Rego a Heitor Ferreira, 10 de
maro de 1974, para o esquecimento. APGCS/HF. Ver tambem Ernesto Geisel,
organizado por Maria Celina dAraujo e Celso Castro, p. 272.
  INTERLDIO PESSOAL 423 suboficial do servio de comunicaes do
Gabinete Militar cuidaria dos detalhes tcnicos. Ao perceber que j
havia gente demais sabendo daquilo que no largo da Misericrdia e no
Jardim Botnico fora um segredo, disse a Heitor que desmontasse a
escuta.47 Partira-se o principal elo fsico da intimidade de Geisel com
a pequena equipe que se formara no gabinete da Petrobrs. Desde novembro
de 1973, Heitor gravava praticamente todas as conversas do general, bem
como as longas tertlias das manhs no Jardim Botnico, das tardes no
largo da Misericrdia, e at mesmo alguns telefonemas. Comeara com um
aparelho Philips 85, ao qual Geisel narrou um encontro com Medici.48
Duas semanas depois, Heitor remetera-lhe duas pginas de transcries
com um bilhete anunciando que a fita seria apagada e dizia: "A est. Eu
no vou fazer coisa nenhuma  sua revelia - e um troo desses tem seus
perigos. [1  um problema danado de confiana.  uma arma de fofoca. E
s o senhor pode pensar a respeito e ver se vale a pena. Prefiro
cancelar tudo a que a conseqncia possa ser o senhor guardar-se ao
conversar comigo"49 Geisel concordou com o prosseguimento das gravaes,
desde que posteriormente fossem condensadas e no se fizesse daquilo uma
sistemtica. 50 O interesse de ambos era a preservao de um registro
histrico. Heitor no apagou as fitas. Conservou uma documentao que,
se tivesse sobrevivido apenas nas transcries incompletas e precrias,
perderia a autenticidade e, em certos episdios, tambm o sentido. Essas
fitas ha47 Heitor Ferreira, 1986. 48 Dirio de Heitor Ferreira, 12 de
novembro de 1973. 49 Idem, 15 de novembro de 1973. Durante a gravao
Heitor disse a Geisel: "Bom, chefe, eu gravei esta conversa nossa
agora... o senhor viu? GEISEL: , eu vi que voc estava gravando.
HEITOR: Pois , agora eu no sei se a distncia est boa, porque se ns
conseguirmos gravar uma conversa desse tipo, a gente pode, depois,
reconstituir sem escrita e apagar. 50 Nota apensa ao Dirio de Heitor
Ferreira, 15 de novembro de 1973, com um bilhete de Heitor a Geisel.
ApGcs/HF. A ele Heitor acrescentou a anotao de uma conversa com Geisel
no dia 22.
  424
  A DITADURA DERROTADA
  veriam de se tornar um dos segredos mais bem guardados do perodo.
Somaram cerca de 222 horas em sessenta rolos de quatro faixas. A escuta
s foi conhecida por Geisel, sua mulher, sua filha, Heitor, Golbery,
Moraes Rego, Humberto Barreto e Nancy Souza Leo, a secretria que as
transcreveu em parte, sem que o texto viesse a ser conferido. Jamais
algum as ouviu, e nunca houve vazamento de seu contedo.
  Os gravadores foram ligados regularmente durante quatro meses. Nesse
perodo, Geisel deu pelo menos catorze demonstraes - gravadas - de
pleno conhecimento da escuta e de sua sistemtica.5 Ouviu uma conversa
de Golbery com um senador. Enquanto falava com um almirante, viu Heitor
colocando no seu telefone a "chupeta" que lhe permitia gravar a voz do
interlocutor.52 Numa ocasio temeu que o visitante (o general
Figueiredo, na conversa em que foi convidado para chefiar o sNI) tivesse
percebido a situao. Em janeiro de 1974, no Jardim Botnico, Amlia
Lucy perguntou como funcionava o equipamento e assistiu a uma
demonstrao. Heitor recitou um monlogo na saleta onde estava o
transmissor que remetia as vozes a um aparelho de rdio sintonizado em
88 MHz e acoplado a um gravador. Geisel regulou o receptor, e se escutou
a voz de Heitor. " horrvel.  pior que o Watergate comentou Amlia,
afastando- se. (O sistema de escuta montado pelo presidente Richard
Nixon na Casa Branca fora desligado em julho de 1973.)
  Moraes Rego lembrou que Golbery ria muito quando ouvia as fitas, e
Geisel acrescentou: "Ri com as minhas besteiras54
  Na nova ordem, Geisel s pediria a Heitor que gravasse umas poucas
conversas com estrangeiros. Nunca consultou as transcries, no quis
saber o destino das fitas. Apagou o episdio.
  51 Dirio de Heitor Ferreira, 1 de novembro de 1973. Duas folhas de
Heitor Ferreira a Geisel, de 15 de novembro de 1973. Ver tambm
conversas de Geisel com Golbery, Moraes Rego ou Heitor Ferreira de 15 e
22 de novembro; 10,16,17,18 e 20 de dezembro de 1973; 2,3 e 21 de
janeiro; 12 e 16 de fevereiro; 10 e 14 de maro de 1974. 4 52 Para
a"chupeta", antes de uma conversa de Geisel com o almirante Faria Lima,
em 17 de dezembro de 1973. APGC5/HF. 53 Conversa de Geisel, Amlia Lucy
Geisel, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 7 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
54 Idem.
  O regime  implacvel O calendrio poltico de 1974 estava
sobrecarregado. Em abril comeariam a caducar as cem primeiras cassaes
de direitos polticos feitas dez anos antes. Em outubro seriam eleitos
indiretamente os 22 governadores e em novembro, em eleio direta, um
tero do Senado, toda a Cmara dos Deputados e todas as assemblias
legislativas. As cassaes podiam ser prorrogadas, mas nisso haveria um
grau desnecessrio de violncia, visto que os cassados, e at mesmo seus
familiares diretos, eram inelegveis. O comandante do iii Exrcito
achava que era o caso de "dez mais dez" anos. Geisel dissuadiu-o com
relativa facilidade. Dos grandes nomes de 1964, Juscelino Kubitschek e
Jnio Quadros viviam no Brasil. Joo Goulart, que se mantivera longe das
insurreies planejadas pelo cunhado Leonel Brizola, continuava sua vida
de estancieiro no Uruguai. A atividade poltica de JK era nula. Aos 71
anos, tinha a vida familiar infernizada pela persistncia de um romance
iniciado em 1958 com Lcia Pedroso, linda senhora da gr-finagem
carioca. Sua vida financeira estava sobressaltada por negcios
imobilirios feitos com uma ricaa portuguesa.2 O cotidiano, atormentado
pelas dificuldades do casamento da filha Mrcia com o banqueiro
Baldomero Barbar, de quem era s- 1 Conversas de Geisel com Heitor
Ferreira e Figueiredo, narrando um encontro com o general Oscar Luiz da
Silva, de 7 e 9 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 2 Dirio de JK, 15 e 29
de outubro, 2 e 11 de novembro de 1973, e 10 e 14 de janeiro de 1974.
426 A DITADURA DERROTADA cio.3 S um homem com sua energia conseguiria
manter um eterno sorriso vivendo semelhantes contrariedades somadas s
seqelas de um cncer de prstata, diabetes e crises de angina.4
  A ditadura segurava-o pelo bolso, conservando em banho-maria um
processo em que era acusado de enriquecimento ilcito e que o impedia,
por exemplo, de assinar escrituras.5 Numa caminhada pela praia de
Ipanema, 1K encontrou o general Arthur Moura, adido militar americano, e
dele soube que sua cassao caducaria suavemente, desde que se
mantivesse em resguardo.6 Conhecia o tamanho de sua popularidade. Aonde
ia, quer s bodas de ouro dos condes Matarazzo, em So Paulo, quer 
Pousada do Rio Quente, em Gois, via-se saudado com a melodia de
"Peixe-Vivo modinha celebrizada pelas serenatas de que participava em
Diamantina.7 Havia na letra um tom de saudade e lamento poltico:
  Como pode
  o peixe vivo
  Viver fora
  Da gua fria?
  Como poderei viver,
  Como poderei viver
  Sem a tua, sem a tua,
  Sem a tua companhia?
  No dia 21 de abril de 1974, 14 aniversrio da inaugurao dBraslia,
JK passeou pela cidade, caminhou pela praa dos Trs Poderes e en
  3Para as dificuldades do casamento de Mrcia Kubitschek, Dirio de JK,
29 de novembro e 5 de dezembro de 1973. Para a relao empresarial com
Barbar, Dirio de 1K, 4,7 e 19 de junho de 1974. 4 Dirio de JK, 15 de
julho de 1974, e Veja, 14 de maio de 1997, pp. 108-18. 5 Dirio de 1J,
14 e 19 de maro, 7 de agosto e 8 de setembro de 1974. Para as
escrituras, quando a proibio foi suspensa, idem, 5 de agosto de 1974.
6 Dirio de 1K, 7 de fevereiro de 1974. 7 Idem, 28 de fevereiro, 2 de
maro e 7 de novembro de 1974.
  O REGIME  IMPLACVEL 427 trou no prdio do Congresso. Era um domingo,
no havia vivalma, mas uns poucos funcionrios o reconheceram e
iluminaram-lhe os plenrios da Cmara e do Senado. Voltou para a
fazenda, nos arredores da capital, com a lembrana do gesto e a
melancolia que a viso de sua cidade lhe despertava.8 Cavalgava ao
amanhecer, fiscalizava obras, tomava banho de cuecas na represa, era
capaz de viajar 25 mil quilmetros numa semana, mas, no fundo, sonhava
"com coisas que no viro mais".9 Aos 56 anos, Joo Goulart estava gordo
e doente. Sofria desmaios e crises circulatrias, tivera dois enfartes e
no largava o cigarro. Tinha o corao de um homem de oitenta anos. Seu
cardiologista francs dera- lhe um triste prognstico: "Presidente, se a
gente no quer viver, no vive".0 Seus poucos passos eram vigiados. Os
generais o humilhavam, negando-lhe at mesmo um passaporte. Viajava por
cortesia do ditador Alfredo Stroessner, do Paraguai, que lhe dera um
passaporte no qual vinha qualificado como "ex-presidente da Repblica
Federativa do Brasil". A ditadura que mantinha a tradio de conceder
passaportes diplomticos aos descendentes do imperador d. Pedro ii,
obrigava um ex-governante brasileiro a andar pelo mundo como
beneficirio de um favor paraguaio." Jango tentou negociar sua volta e
chegou a anunciar o propsito a um jornal venezuelano.2 Sondara o
ambiente valendo-se das amizades de um sobrinho de Getulio e recebera do
governo Medici uma resposta ambgua. Poderia vir, arcando com as
conseqncias.13 Quais conseqncias, no diziam, mas Orlando Geisel
narrou o caso ao irmo e resumiu sua resposta: "Se entrar a, prende".4
Quando a gesto foi a Geisel, acabou numa curta conversa: 8 Dirio de
1K, 21 de abril de 1974. 9 Idem, 17 de agosto de 1974. Para a cavalgada
e o banho, idem, 18 de agosto de 1974. 10 Joo Pinheiro Neto, Jango, p.
15. 11 Essa tradio surgiu quando o presidente Epitcio Pessoa revogou
o decreto de banimento da famlia real. Lembrete n2 122, do ministro
Azeredo da Silveira a Geisel, de 7 de abril de 1977. APGCS/HF. Geisel
quis suspender a prerrogativa. 12 El Nacional, de Caracas, 7 de setembro
de 1973. 13 Narrativa das gestes, feita por Figueiredo a Heitor
Ferreira, 5 de dezembro de 1973. APGCS/}-IF. 14 Narrativa de Geisel a
Golbery, 12 de fevereiro de 1974. APCCS/HF. 428 A DITADURA DERROTADA
"Prende e manda solt-lo do outro lado da fronteira. Pode usar o AI-5 em
cima dele." "Ele seria uma belssima cabea para levar uma paulada",
acrescentou Golbery.15 No dia 10 de abril, quando se completaram os dez
anos do regime e de sua primeira onda punitiva, o ministro da Justia
informou que os cassados podiam viver em paz, "sem tentar perturbar o
processo revolucionrio, ostensiva ou disfaradamente"6 Jango
aquietou-se. Recebera o recado.
  O problema do regime no estava no passado, nos exilados ou nas
caminhadas de JK pela praia de Ipanema. Estava no corao do Milagre, em
So Paulo. Antonio Delfim Netto queria governar o estado. Em tese, a
Arena escolheria os candidatos pelo voto de suas convenes estaduais.
Delfim contava com o silencioso apoio do governador Laudo Natel e era o
sujeito oculto do noticirio que mencionava a necessidade de "um nome
nacional" para suced-lo.7 Estava certo de que tinha a maioria dos 1300
votos da conveno da Arena.8
  Faltava-lhe um s, o de Geisel. A m vontade do presidente contra
Delfim aumentara com o peso da herana deixada pelo ministro. Entre o
final de 1973 e o incio de abril a carestia represada soltara-se. A
galina e a carne de segunda dobraram de preo, e o leite subira 33%19
Delfim era tambm um problema do futuro. Eleito governador de So Paulo,
seria candidato natural  Presidncia. Seu prestgio de ex-ministro
lanaria sobre o governo a sombra do desempenho do Milagre. Ademais, o
precedente de um candidato sado da conveno daria uma indita li-
  15 Conversa de Geisel com Golberye Heitor Ferreira, 30 de janeiro de
1974. APGCS/HF. 16 Jornal do Brasil, 14 de maro de 1976, Caderno
Especial, p. 2. 17 O Estado de S. Paulo, 13 de novembro de 1973, p. 5.
18 Nota de Heitor Ferreira, de 13 de fevereiro de 1974, registrando uma
conversa de Simonsen com Delfim. APGCS/HF. 19 Opinio, 8 de abril de
1974, p. 5.
  O REGIME IMPLACVEL 429 berdade  Arena, desorganizando todo o
quebra-cabea das sucesses estaduais de 1974. Se tudo isso fosse pouco,
a metodologia da escolha se refletiria sobre a rodada seguinte de
sucesses, em 1978, no ltimo ano de mandato de Geisel, influindo em sua
prpria sucesso. Era preciso mostrar quem mandava. Para isso, era
preciso degolar Delfim, e depressa. Geisel preparou-se para lutar contra
o fantasma paulista que combatera, ainda moo, na serra da Tempestade.
Tinha consigo Golbery, outro veterano das tropas legalistas de 1932. Os
dois e Heitor Ferreira conversaram: GEISEL: Eu estou muito preocupado
com esse problema do Delfim ser governador de So Paulo. O que ns
faramos se na conveno aparecesse o mais votado, ou, por aclamao, o
nome do Gordo? [...j Voc pode ir para a cassao, voc pode ir para
interveno no estado, mas voc vai a frio. [...j HEITOR: Sim,
praticamente ele derrota o regime. GOLBERY: Ele afronta, fica com uma
fora muito grande. GEISEL: [...j A gente pode ficar quieto e pegar ele
na volta. [...] A concluso que ns temos, eu acho vlida: ele no deve
ser governador, porque ele sendo governador... GOLBERY: ... ningum
impede ele de ser presidente... HEITOR: ... e vai ser um governador
independente, que vai sair por a... GEISEL: No, independente no vai,
porque eu no dou crdito no banco, no Ministrio da Fazenda. Aperto
ele. Isso no  assim. [... 1 GOLBERY: Ele junta So Paulo em torno
dele. Campanha civilista, e tal... GEISEL: Pois . Ento [... 1 acabou a
Revoluo. GOLBERY:  impedir. [...] GEISEL: Sim, mas voc vai fazer a
frio uma interveno em So Paulo. Vou intervir porque o Gordo foi
escolhido? GOLBERY: No impedir nesta fase. GEISEL: Estou raciocinando
na pior hiptese.  claro que vou fazer tudo para impedir.  sempre essa
porcaria desse SNI. Esse troo  uma coisa
  430 A DITADURA DERROTADA
  que tem me irritado. Porque o SNI, a esta hora, deveria ter uma ficha
deste tamanho...
  HEITOR: Mas dizem que tem...
  GEISEL: Tem coisa nenhuma.2
  Aceit-lo seria impossvel. Vet-lo em pblico, difcil. Derrot-lo na
conveno, improvvel. A soluo chegou a Geisel pouco mais de um ms
antes da sua posse. Levou-a o senador Petrnio Portella. Bastava mudar a
lei, transferindo para os diretrios estaduais a escolha dos candidatos.
O senador assegurava que j tinha os votos de catorze dos 31 membros do
diretrio paulista. Geisel gostou da idia, mas ainda assim perguntou a
Petrnio qual seria o risco de uma falseta. "Sou o fiador respondeu o
presidente da Arena.2
  Petrnio Portella era uma estrela em ascenso. Um prodgio literal de
sobrevivncia, dissimulao e audcia. Em alguns polticos, atributos
desse tipo podem ser ilustrados por manobras de bastidores. No caso de
Petrnio, ilustravam-se por sua vida. Com 48 anos, j derrotara um
cncer de pulmo. No tocava no assunto e, para espantar suspeitas,
evitava cumprimentar publicamente o cirurgio q o salvara.22 Mais:
fumava. Na poltica, sobrevivera a um mau passo de retrica. Depois de
uma militncia convencional na esquerda estudantil do Rio de Janeiro,
voltara ao Piau e se elegera governador do estado. Na manh de 1 de
abril de 1964, recebera no seu gabinete uma comitiva de dirigentes
sindicais que lhe cobravam uma definio perante a revolta militar. Foi
claro: "No sou homem de oportunismo. [...] Fiquem sabendo os golpistas
que no Piau h homens livres dispostos a lutar com o
  20 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, 18 de janeiro de
1974. APGCS/H. 21 Reunio de Geisel com Petrnio Portella, 4 de
fevereiro de 1974. APGCS/HF. 22 Petrnio foi operado pelo mdico Jesse
Teixeira. Ele contava que o senador se escondia, ao contrrio de outro
cliente famoso, Abelardo Chacrinha, que sempre o saudava. Antonio Carlos
Magalhes, novembro de 1997.
  OREGIME  IMPLACVEL 431 sacrifcio da prpria vida pela liberdade"23
Da em diante lutou em silncio, para evitar que o cassassem. Nada
escrevia e nada dizia. No telefone era quase indecifrvel, evitava
nomes, substituindo-os por expresses tais como "o nosso amigo" OU "o
outro Elegera-se senador e reinava nas costuras da poltica interna do
Congresso. Tinha forte sotaque nordestino e paixo por construes to
vazias quanto eloqentes. "O Petrnio se defendia pela prolixidade
diria dele um dos seus mais argutos interlocutores.24 Como o ministro
Reis Velloso, o outro piauiense federal, usava camisas com colarinhos e
punhos exageradamente compridos. Ascendera  liderana da maioria no
Senado e  vice-presidncia da Arena, mas ainda era um coadjuvante.
Assim teria continuado, at que, na manh de 11 de julho de 1973, um
Boeing da Varig caiu nos arredores de Paris, matando Filinto Mller,
presidente do partido do governo. No havia como negar-lhe a promoo, e
Geisel soltou um comentrio amargo: "O Petrnio, presidente do partido
da Revoluo.. "25 O senador soube se mostrar til. Nas primeiras
semanas, pisando em ovos, fez saber a Geisel que julgara rala a Carta de
Princpios do partido. Queria modific-la, dando-lhe mais substncia, e,
para isso, pedia idias ao general.26 Conversa de periquito. Quando foi
recebido no largo da Misericrdia, sugeriu-lhe que no tivesse "respeito
humano" pela doutrina partidria, at porque a Carta e o programa da
Arena, por incuos, eram iguais aos do MDB. Para evitar ecos de 1964,
pisou fundo: "O governo no vai abrir coisssima nenhuma. [...] Deixar
isso sem iluses aos candidatos a lder. Meu temor  que se abram
esperanas liberais".27 Firmou- se por prtico. Ofereceu-se para simular
consultas na escolha dos 23 Recorte do Jornal do Piau, de Teresina, do
dia 7 de julho de 1964, no qual se informa que o texto transcreve a fita
em que o discurso foi gravado. Petrnio emitiu tambm uma nota oficial,
protestando contra "a ao revolucionria dos que ontem faziam intocvel
a Constituio e hoje no vacilam em desrespeit-la Cpia xerox, com
firma reconhecida no 32 Cartrio de Notas Themstocles Sampaio.
APGCS/HF. 24 Entrevista de Raymundo Faoro a Marcelo Coelho, em Folha de
S.Paulo de 14 de maio de 2000. 25 Dirio de Heitor Ferreira, 16 de julho
de 1976. 26 Nota do comandante Palhares ao coronel Moraes Rego, de 4 de
agosto de 1973. APGCS/HF. 27 Quatro folhas manuscritas de Heitor
Ferreira, intituladas Smula da Conversa de Geisel e Golbery com
Petrnio, de 9 de novembro de 1973. APGCS/HF.
  432 A DITADURA DERROTADA
  governadores e percorreu diversos estados anunciando que estava
ouvindo as correntes governistas. Na verdade, avisava aos descontentes
que as dissidncias seriam punidas com oito anos de ostracismo.28
Convenceu Geisel a aceitar listas com sugestes, assegurando-lhe que o
nome de sua preferncia jamais seria esquecido.29 Uns poucos encontros
foram suficientes para que o general o apreciasse e buscasse lastro
histrico para sua comodidade: comparava a transmutao de Petrnio
Portella  de Rodrigues Alves, que chegara a presidente da Repblica
tendo sido conselheiro do Imprio.30 Ia fundo, reconhecendo que era
prefervel trabalhar com ele a lidar com velhos conspiradores liberais
que tinham se voltado contra a ditadura.
  Delfim julgava-se forte. Supunha ter at mesmo o apoio explcito de
Medici. O presidente dissera-lhe que sugerira a Geisel a sua
indicao.3 Segundo a narrativa de Geisel, feita dois dias depois de se
encontrar com Medici, a conversa foi outra. Haviam falado da escolha dos
governadores, mas fizeram-no como dois generais.
  "Esses caras so uns bestas. Eles no sabem que existe o Ato 5. f...]
Quem vai escolher  voc."
  "Pois , mas o Delfim est todo aodado a, criando prob1ema
respondeu Geisel.
  "O Delfim no quer ser. S quer ser se voc concordar."32
  Dois encontros, um com Petrnio e outro com Armando Falco, mostraram
a Delfim a extenso do veto. Nos dojs casos o mjnjstro da Fazenda tentou
argumentar, exigindo que lhe reconhecessem o direito de
  28 Um dissidente ficaria fora do poder de 1974 a 1978 e, novamente, de
1978 a 1982, pois esses governadores tambm seriam escolhidos durante o
mandato federal de Geisel. 29 Reunio de Ceisel com Petrnio Portella,
28 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 30 Conversa de Geisel com Moraes Rego
e Heitor Ferreira, 23 de novembro de 1973. APGCS/HF. 31 Delfim Netto,
dezembro de 1997. 32 Conversa de Geisel com Moraes Rego e Heitor
Ferreira, 20 de fevereiro de 1974, narrando sua audincia com Medici,
naquele dia. APGCSII-IF.
  O REGIME f IMPLACVEL 433 disputar, inclusive no diretrio. "O regime
 implacvel disse-lhe Petrnio. 33 "O presidente no  obrigado, por
fora da sua condio de chefe da nao, a dar explicaes", acrescentou
Falco.34 Batido, Delfim viajou para o exterior. Num sbado de junho de
1974, Delfim regressou a Braslia. Veio num jatinho, foi apanhado na
pista e levado para a granja do Ip, onde Golbery o esperava.
Conversaram durante quase trs horas, como se nada tivesse acontecido.
Nem Delfim perguntou, nem Golbery explicou. Nos minutos finais o general
pediu que lhe mandasse um papel analisando a poltica cafeeira e
lembrou-lhe: "Apreciaremos muito a sua colaborao" Delfim respondeu com
a contra-senha: "E eu tenho o maior interesse em cooperar Era o incio
da caminhada do Gordo para o exlio. Trs meses depois aceitou a
embaixada em Paris. Geisel foi alm do veto a Delfim. Fechou sua manobra
num s nome, recusou qualquer conciliao e imps um candidato sem base
poltica relevante. Liquidou a fatura paulista na segunda semana de
governo, mostrando que assim como bastava seu voto para vetar Delfim,
bastava esse mesmo voto para eleger o engenheiro Paulo Egydio Martins
governador de So Paulo. Ministro da Indstria e Comrcio durante o
governo Castello Branco, Paulo Egydio mantinha com Geisel uma rara
relao pessoal. Hospedara-o duas vezes em sua casa de Campos do
Jordo.35 Era uma das poucas figuras civis do regime que jamais militara
na esquerda estudantil. Educado pelos jesutas, presidira a Unio
Metropolitana dos Estudantes (na gesto dele criara-se o restaurante do
Calabouo) e l ganhara o apelido de Paulinho Coria, por defender a ida
de um peloto brasileiro aos combates do primeiro conflito da Guerra
Fria. Casara-se com a filha do industrial paulista Alberto Byington,
scio da mineradora americana Alcoa, e dirigira uma de suas empresas.
Tinha um p na velha plutocracia, sentava-se no conselho do Banco
Comrcio e Indstria de So Paulo. Tentara medir seu cacife nas urnas,
mas acabara em oitavo e lti33 Delfim Netto, dezembro de 1997. 34
Narrativa de Armando Falco a Geisel e Heitor Ferre ira, em telefonema
de 14 de maro de 1974. APGCS/HF. 35 Paulo Egydio Martins, novembro de
1997.
  434
  A DITADURA DERROTADA
  mo lugar numa disputa pela prefeitura de So Paulo, com menos de 100
mil votos.
  Aos 46 anos, conservador e cristo, tinha fascnio quase juvenil por
John Kennedy. Havia nele algo de novo, um certo destemor. Quando
ministro, tivera a coragem de responder aos crticos da poltica
recessiva de Castello que "a falncia  essencial como elemento de
purificao do sistema capitalista"36 Terminado o governo, continuara a
cultivar Geisel e Golbery. Sugerira que os ex-ministros de Castello se
mantivessem articulados, por meio de um "secretrio-coordenador", e se
tornara o principal interlocutor paulista de Geisel, a quem via com
regularidade.37 Sabia que poderia ser escolhido, mas conhecendo o
padrinho, no avanava. Na primeira conversa mais concreta, firmou duas
estacas: "Eu cumpro misso. Se  que me ser dada uma misso, posso ir
amanh para Fernando de Noronha Logo depois: "Se o senhor chegar amanh
e resolver fazer o Joaquim, Pedro, Antnio ou Manuel governador de So
Paulo, o senhor no tenha muita preocupao, general, porque isto ser
feito, de acordo com seu desejo" Paulo Egydio dizia a Geisel coisas que
outros no ousavam dizer. Advertia que o atrito com o clero poderia
criar um fenmeno semellnte ao da "Igreja do Silncio" do mundo
comunista e recomendava que no se brincasse com o efeito psicolgico
decorrente da censura imposta a O Estado de S. Paulo.38 No fim de um de
seus encontros Geisel disse-lhe, com estudada naturalidade, que haveria
de ter o problema da escolha do vice- governador. Paulo Egydio estava
escolhido. Feita a indicao formal, o governador Laudo Natel
aplaudiu-a, e o presidente fechou a conta: "Eu no queria a coisa assim
como foi, mas fiquei bem: tenho fora para empurrar um governador de So
Paulo boca abaixo dele. Se posso em So Paulo, ningum vai se meter a
besta em outros Estados39
  36 Dicionrio histrico-biogrfico brasileiro ps-1 930, coord. de
Alzira Alves de Abreu e outros, vol. 2, p. 1972. 37 Dirio de Heitor
Ferreiro, 23 de fevereiro de 1967. 38 Reunio de Geisel com Paulo Egydio
Martins, 4 de janeiro de 1974. APGCS/HF. 39 Dirio de Heitor Ferreira, 4
de abril de 1974.
  0REGIME IMPLACVEL 435 Foram poucos os que se meteram, e quando o
fizeram, usaram armas antigas, supostamente eficazes. No Rio Grande do
Sul, Geisel desatou um n de caciquias interessando-se no jovem deputado
Sinval Guazzeili. Pediram sua ficha ao SNI. Geisel leu o seguinte: Em
1956, vice-prefeito de Vacaria. Comunista. Quando estudante era um dos
lderes do movimento comunista na Faculdade de Direito de Porto Alegre.
(Informe sem classificao) [...] Segundo informao 87ssP de 14 de
maro de 1966, em outubro de 1958, em suas palestras, passou a fazer
proselitismo da doutrina comunista.  comunista atuante. [...j Em 1960,
convidado pelo primeiro-ministro Fidel Castro, seguiu para Cuba a fim de
assistir aos festejos do segundo aniversrio da Revoluo Cubana.4 A
primeira reao de Geisel foi esquec-lo. Em seguida, como Heitor
Ferreira argumentasse que em 1960 os barbudos cubanos ainda estavam
envoltos no romantismo da poca, o presidente voltou-se contra o
fichrio do sNi: " falncia. [...j No tem ningum que se aproveite.
No pode, no tem jeito. Voc tinha que pegar vinte mil sujeitos e
fuzilar. Vamos comear de novo." "Inclusive o pessoal que faz as fichas
rebateu Heitor. "Ento vamos acabar com o SNI. Qual  a soluo? [...j
Eu acho que a primeira providncia que a gente devia tomar no SNI era
uma providncia de maluco.  dizer: incinera todas as fichas e comea
tudo de novo."41 Aquilo que parecia ser uma verificao dos antecedentes
das pessoas cogitadas para cargos pblicos revelava-se como uma
tentativa de 40 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de
1974. Geisel leu a ficha em voz alta. Cinco dias antes, quando pediu a
ficha de Guazzelli ao SNI, Golbery no sabia o seu primeiro nome.
Telefonema de Golbery a Adolpho Murgel, 24 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
41 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974.
APGCS/HF.
  436
  A DITADURA DERROTADA
  manipulao poltica. O SNI encrencara com Armando Falco e Azeredo da
Silveira, com o novo lder na Cmara, Clio Borja, por liberal, e com um
de seus diretores da Petrobrs por comunista.42 As acusaes entravam
nas fichas muito mais pela vontade dos inimigos dos fichados do que pela
investigao do Servio. Orlando Geisel remetera um bilhete
classificando o deputado Aureliano Chaves, futuro governador de Minas
Gerais, como comunista metido em negociatas.43 No caso de Guazzelli,
verificou-se que ele era esquerdista no arquivo do Rio. No de Porto
Alegre era "democrata convicto"44 A ficha foi reescrita, Guazzelli
tornou-se um azaro na corrida pelo governo do Rio Grande do Sul, e
Geisel resolveu indic-lo. Seus adversrios procuraram reavivar a
controvrsia dos antecedentes, e chegou-se a garantir que ele perdera a
parada por ter sido vetado pelo SNT. Fracassaram.
  Se a sucesso paulista servira a Geisel para impor sua vontade ao
poderio econmico e poltico acumulado por Delfim, na gacha, sem
alarde, o general desprezara a Comunidade de Informaes. Uma novidade,
pois quatro anos antes o Servio filtrara as listas levadas a Medici.
  No final de junho, escolhidos todos os governadores, o czar da
economia estava exilado em Paris e o general Carlos Alberto da Fontoura,
ex-chefe do SNI, em Lisboa. Estava entendido que o regime era implacvel
e o epicentro dessa implacabilidade era Ernesto Geisel.
  42 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 29 de janeiro de 1974.
APGCS/FIF. 43 Conversa de Geisel com Moraes Rego, Americo Mouro e
Heitor Ferreira, 18 de janeiro de 1974. APGCS/HF. Aureliano nunca se viu
acusado de uma coisa ou outra, nem durante esse processo de escolha, nem
antes nem depois dele. 44 Heitor Ferreira, abril de 1974.
  O p no acelerador Na primeira reunio ministerial, Geisel anunciou
que as altas taxas de crescimento da economia seriam a "prioridade
nmero um" do governo. A idia de refrear o Milagre no passava pela
cabea dos hierarcas de Braslia. O nmero mgico dos 10% de crescimento
do PIB era moeda corrente. Ao ser convidado para o Ministrio da
Fazenda, Mano Henrique Simonsen mantivera essa meta e dissera a Geisel
que uma das condies para obt-la era no cortar investimentos
pblicos: "No  a hora de fazer isso. [...] Se nessa crise mundial o
Brasil consegue, em 74, at 10% ou 9%, um crescimento bastante grande
[...] o senhor consegue uma projeo internacional muito boa"2 A
ditadura tinha medo do fantasma identificado por Juan Linz em 1971. Como
sua legitimidade derivava do desempenho, qualquer coisa que ferisse o
desempenho feriria tambm a legitimidade do regime. "Como  que eu iria
justificar uma recesso depois da euforia, do desenvolvimento do governo
do Medici? E como iria resolver o problema social que resultaria do
conseqente desemprego? perguntaria Geisel, vinte anos depois.3 1
Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1:1974, p. 43. 2 Reunio de Geisel e
Golbery com Mano Henrique Simonsen, 29 de janeiro de 1974. APGCS/HF.
Nessa conversa Simonsen referiu-se quatro vezes  taxa de 10%. 3 Maria
Celina dAraujo e Celso Castro, orgs., Ernesto Geisel, p. 288.
  438
  A DITADURA DERROTADA
  O presidente no associou a busca do crescimento a nenhum projeto de
mudana do regime. Pelo contrrio, sustentou a estratgia de crescimento
para preservar a base legitimadora da ditadura. Pisou no acelerador para
manter o curso. A recesso era vista muito mais como um perigo poltico
do que como uma probabilidade econmica. O governo tinha pouco mais de
um ms quando a Censura emitiu a seguinte ordem: "De ordem superior,
fica terminantemente proibida a divulgao, atravs de meios de
comunicao social, escrito, falado e televisado, notcia, comentrio,
transcrio, entrevista, comparaes e outras matrias relativas 
recesso econmica. Fica igualmente proibida a divulgao de anlises,
resultados, ainda que hipotticos, sobre recesso econmica"4
  Por absurda, a proibio causou estupor a Golbery e Simonsen.5 No se
pode dizer que ela tenha fantasiado as pginas econmicas dos jornais.
Sua importncia est mais na origem do que nos resultados. Uma ordem
desse tipo s saa da Polcia Federal depois de passar pelo ministro da
Justia, e dificilmente Armando Falco tomaria tal iniciativa sem ter
recebido recomendao do prprio presidente.
  Na reunio secreta que teve com o Alto-Comando das Foras Armadas, em
junho, Geisel esclareceu a natureza poltica dos riscos trazidos pelas
incertezas mundiais: "Vivemos numa situao de crise econmica, com
possibilidade de recesso. [...] H um ambiente propcio para a ofensiva
da esquerda. Exploram tudo o que  possvel, todos os velhos chaves so
explorados"6
  A inquietao do presidente relacionava-se tambm com o seu juzo da
sociedade que governava. Pouco antes de tomar posse, rebatendo uma
observao crtica de Heitor Ferreira a respeito das obras pblicas no
Nordeste, o general se expressava no vocabulrio das conversas soltas:
"Ento voc depois vai agentar a revoluo no Nordeste. Quando aqueles
trinta milhes de vagabundos esfarrapados vierem todo dia azu
  Ordem da Censura de 22 de abril de 1974. Paolo Marconi, A censura
poltica na imprensa brasileira - 1968/1978, p. 279. 5 Golbery do Couto
e Silva e Mano Henrique Simonsen, abril de 1974. 6 Mao com quarenta
folhas anotadas por Heitor Ferreira, com a transcrio da fita da
reunio do Alto-Comando das Foras Armadas, de 10 de junho de 1974.
APGCs/HF.
  ov NO ACELERADOR 439 crinar, chatear e brigar e no sei o qu. Como
? Voc deve reconhecer que tem que se fazer alguma coisa ali".7 Pouco
antes de morrer, referindo-se ao desemprego industrial de 1994, ele
reelaboraria essa concepo: "Voc tem uma massa de gente sem cultura,
sem preparo, sem coisa nenhuma. O afluxo de nordestinos para So Paulo e
para o Rio  um fenmeno que a gente compreende, mas  uma desgraa".8 A
preservao do desempenho da economia precisava de um milagre, e ele
aconteceu. Desde os primeiros anos da dcada de 60 circulava no mercado
financeiro londrino uma nova modalidade de dinheiro. Resultava da
captao de depsitos, em dlares, pelos bancos internacionais e se
chamava eurodlar. Livre dos regulamentos monetrios nacionais, ia para
onde queria. No incio dos anos 70, pela primeira vez em meio sculo, as
economias americana e europia haviam-se contrado ao mesmo tempo,
levando os bancos a caar novos clientes para seus emprstimos.9 O
Terceiro Mundo tornara-se destino atraente para o dinheiro abundante.
Entre 1970 e 1973 o nmero de bancos americanos com agncias no exterior
passou de 79 para 125, e suas aplicaes financeiras naArnrica Latina
pularam de 165 milhes de dlares anuais para 1,4 bilho. Enquanto isso,
os investimentos diretos praticamente permaneceram no patamar de 300
milhes de dlares. Entre 1969 e 1973, refletindo essa primeira onda
de liquidez, a dvida externa brasileira cresceu 286%, indo para 12,6
bilhes de dlares." 7 Conversa de Geisel com Heitor Ferreira, 20 de
novembro de 1973. APGCS/HF. 8 Maria Celina dAraujo e Celso Castro,
orgs., Ernesto Geisel, p. 252. 9 Para uma descrio do processo de
endividamento da Amrica Latina pela tica de um banco americano, ver
Ron Chernow, The House of Morgan, pp. 636-52. 10 Para a
internacionalizao da banca americana, Srgio Goldenstein, A dvida
externa brasileira - 1964-1982, p. 55, citando Pierre-Bruno Ruffini, Les
banques multinationales, p. 81. Para o movimento dos capitais, Barbara
Stallings, Banker to the Third World, p. 334. 11 O valor da dvida
lquida deixada pelo delfinato era igual ao das exportaes de 1973.
Descontando-se as reservas internacionais, essa dvida estava em 6,2
bilhes de dlares. Pedro Malan, "A questo externa", em Adroaldo Moura
da Silva e outros, FMI x Brasil, p. 71.
  440 A DITADURA DERROTADA Os bancos emprestavam rpido, mal perguntavam
para onde o dinheiro ia e pediam taxas de juros menores do que as
cobradas pelo Banco Mundial, onde a anlise de um financiamento para uma
obra pblica demorava em mdia seis meses.2 Supriam aquilo que o jargo
dos economistas chamava de "hiato de recursos reais" Em janeiro de 1974,
o Chase Manhattan dedicou mais da metade do segundo nmero de sua
pblicao intitulada The Brazilian Economy ao tema da dvida e, por
duas vezes, lembrou que era mais barato tomar emprstimos no mercado de
eurodlares que no de cruzeiros.13 Conjugada com essa tendncia, a crise
do petrleo agravou a recesso nos pases desenvolvidos e colocou nas
mos de meia dzia de potentados rabes, num s ano, um supervit
comercial de 62 bilhes de dlares.4 Os eurodlares tornaram-se
petrodlares. Geisel chamava esse excesso de dinheiro de "vultosos e
crescentes recursos "em busca de aplicaes rendosas e garantidas")5
Fecharia o ano de 1974 levando a dvida para 17,2 bilhes de dlares.6
Em relao ao binio 72-73 isso significava um salto de 2,3% para 6,8%
do PIB.17 Tendo consumido 950 milhes de dlares das reservas que
recebera, produziu um indito aumento de 92% da dvida lquida)8
Endividaria o pas a uma taxa 12% acima da mdia dos pases
subdesenvolvidos que importavam petrleo.9 Essa deciso era estimulada
por um benevolente incentivo financeiro. Levando-se em conta a projeo
da inflao das moedas em que se 12 Pedro-Pablo Kuczynski, Latin
American debt, p. 40. 13 The Brazilian Economy - Trends and
Perspectives, janeiro de 1974, pp. 6-7. Segundo um diretordo Citibank, a
diferena oscilava entre 5% e 20% do preo dos crditos. Phillip L.
Zweig, Wriston, p. 423. 14 Para o supervit rabe, Joo Paulo Reis
Velioso, O ltimo trem para Paris, p. 163. Para a conexo do excesso de
liquidez do incio dos anos 70 com os petrodlares, Pedro-Pablo
Kuczynski, Latin American debt, p. 5. 15 Ernesto Geisel, Discursos, vol.
1: 1974, p. 42. 16 Estatsticas histricas do Brasil, p. 590. 17 Joo
Paulo Reis Velioso, O ltimo trem para Paris, p. 223. 18 Pedro Malan, "A
questo externa", em Adroaldo Moura da Silva e outros, FMI x Brasil, p.
72. 19 Estatsticas histricas do Brasil, p. 590. O total da dvida
desses pases passou de 130,1 bilhes de dlares em 1973 para 160,8
bilhes de dlares no ano seguinte. Em William R. Cline, "International
debt and the stability of the world economy", Policy Analyses in
International Economics, Institute for International Economics, n9 4,
setembro de 1983, Washington, p. 14.
  OP NO ACELERADOR 441 contraam os emprstimos, as taxas de juros neles
cobradas eram virtualmente negativas. Em 1974, para uma taxa nominal de
8,9%, operava-se na verdade com juros reais negativos de 4,1%.20 Era a
quintessncia do dinheiro fcil e barato, ainda que arriscado. Os juros
nominais dos emprstimos flutuavam, contratualmente, de acordo com as
taxas dos mercados. Se a inflao nos pases emprestadores casse, o
dinheiro se tornaria caro e, eventualmente, dificil. Se a inflao
subisse, provocando uma alta dos juros, os pases devedores estariam
arruinados. A abundncia de capital patrocinou uma festa global. Depois
de ter perdido 6 milhes de dlares nos cassinos de Mnaco, o prncipe
Fahd, da Arbia Saudita, mandara dizer  Casa Morgan que gostaria de
criar uma fundao filantrpica com fundos de 1 bilho de dlares para
recuperar as boas graas do rei Faial.2 Um diretor do Citibank enviava
ases do bridge ao deserto para divertir o presidente da Agncia
Monetria Saudita. Em 1973 o Citibank dobrou para 4 milhes de dlares o
lucro com suas operaes no Brasil e coletou mais da metade dos ganhos
em operaes internacionais. Seu presidente, Walter Wriston, corria o
mundo com uma raquete de tnis na bagagem, uma caneta no bolso e um lema
na ponta da lngua: "Nosso negcio  fazer as pessoas gastarem dinheiro,
no economiz-lo" Wriston tornara-se uma personalidade internacional.
Visitara as Filipinas com quinze batedores escoltando-o. Ao ditador
congols Joseph Mobutu, que lhe devia 84 milhes de dlares e parecia
montado na riqueza eterna produzida pela alta do preo do cobre,
oferecia outros 256 milhes. Em junho de 1974 as carteiras de
emprstimos externos do Citi e do Chase Manhattan registravam um
crescimento de cerca de 30% em relao  mesma poca do ano anterior. No
ms seguinte, o Citi anunciou que ergueria em Manhattan o quinto prdio
mais alto de Nova York, um monolito de alumnio e vidro com 69 andares
energeticamente corretos, cobertos por uma plataforma receptora de
energia solar. Todos os bancos ganhavam, alm dos juros de mercado,
taxas adicionais de 1,24% at 3%. Os grandes, que organizavam consrcios
de pequenas casas de cr20 Donald V. Coes, Macroeconornic crises,
policies, and growth ia Brazil - 1964 -90, pp. 112 e 188. 21 Ron
Chernow, The House of Morgan, p. 611.
  442
  A DITADURA DERROTADA
  dito, s quais repassavam o grosso das promissrias, cobravam
comisses que giravam em torno de 0,5% do total do emprstimo.22
  Vistos de um lado do guich o de quem financiava - eram bons negcios.
Segundo o organizador desses emprstimos na Casa Morgan, a equipe que
montava o consrcio para um crdito de 100 milhes de dlares a um
governo como o brasileiro trabalhava uns trs meses, gastava
aproximadamente 50 mil dlares e, no fim da operao, entre comisses e
taxas, dava ao banco uma receita lquida de 300 mil dlares, tendo
emprestado, em geral, por volta de 2 milhes em dinheiro da casa.23 No
Citi, um emprstimo de 100 milhes de dlares rendia em torno de 500 mil
pelo pagamento dos servios, O banco costumava ficar com 10% da
emisso.24 Somando-se salrios e bonificaes, os operadores desses
pacotes faturavam cerca de 100 mil dlares por ano.25
  Vistos pelo outro lado, o de quem tomava o dinheiro, como Geisel, eram
uma fonte de sossego: "Os rabes, que se encheram de dinheiro  custa do
primeiro choque do petrleo, colocaram os petrodlares nos bancos, e os
bancos no tinham outra coisa a fazer seno emprestar26 Para o Brasil,
os emprstimos significavam acima de tudo injees de dlares numa
economia debilitada pela quadruplicao da conta de petrleo, de 700
milhes em 1973 para 2,8 bilhes em 7427 Esse choque contribuiu para a
formao de um dficit comercial de quase 7 bilhes de dlares.28 Cada
dlar tomado em Londres ou em Nova York, quer para a construo de uma
hidreltrica, quer para fausto dos scios de uma corretora de valores,
trazia divisas para os cofres do Banco Central. Servia para equilibrar
as contas externas do pas, e, por isso, em setembro o governo baixou de
dez para cinco anos o prazo mnimo dos emprstimos internacionais.29
  22 Phillip L. Zweig, Wriston, pp. 436-7, 428, 231, 347, 386, 470 e
403-5. 23 Antonio Gebauer, maio de 1993. 24 Phillip L. Zweig, Wriston,
pp. 405-8. 25 Antonio Gebauer, maio de 1993. 26 Maria Celina dAraujo e
Celso Castro, orgs., Ernesto Geisel, p. 293. 27 Joo Paulo Reis Veiloso,
O dltimo trem para Paris, p. 226. 28 Idem, p. 243. 29 O Estado de S.
Paulo, "Atualidade Econmica", 15 de setembro de 1974, p. 59.
  O PE NO ACELERADOR 443 As relaes entre os bares da gesto econmica
brasileira e a banca internacional eram de grande cordialidade. Em maio
de 1974 desceu no Rio de Janeiro o prprio Wriston, acompanhado pelos
conselheiros do Citi e precedido por uma equipe encarregada de provar as
receitas da comida e a marca dos vinhos que lhe seriam servidos.30
Delfim, viajando logo aps a derrota na busca pelo governo paulista,
almoou em Nova York com um diretor do Chase e advertiu do risco de
emprstimos a governos estaduais ou empresas estatais brasileiras.3 Aos
36 anos, com quase dez na Casa Morgan, a estrela ascendente desse
mercado se chamava Antonio Gebauer. Casado na plutocracia paulista,
relacionado com a nata da banca e do soaite nacionais, dividia seu
tempo entre um belo apartamento em Manhattan e a Samambaia, casa de
praia na periferia chique de Nova York. Fechara seu primeiro negcio
importante emprestando 10 milhes de dlares ao estado do Paran para a
construo de uma ferrovia que ligava Apucarana a Ponta Grossa.32
Associando desenvoltura pessoal ao prestgio do logotipo, era capaz de
conseguir o ttulo de Homem do Ano da Cmara de Comrcio Brasil-Estados
Unidos para Ellimore Patterson, presidente do conselho do banco.33 Ou de
levar a Nova York o ministro do Planejamento, Reis Veiloso, para
desfazer a m impresso provocada pelos custos das importaes de
petrleo.34 Na sua aparente irrelevncia, o secretrio do Planejamento
conclura uma das mais brilhantes manobras burocrticas j produzidas em
Braslia. Naqueles primeiros meses de governo, quando todas as idias
so grandiosas, ele dava a impresso de cuidar de assuntos pequenos,
quase mesquinhos. Uma sala no Planalto, por exemplo.35 Conseguiu-a
rachando o 30 Phillip L. Zweig, Wriston, p. 450. 31 Francis Mason,
diretor do Departamento de Amrica Latina do Chase Manhattan Bank na
poca, maio de 1993. Delfim Netto, dezembro de 1997. 32 Antonio Gebauer,
maio de 1993. 33 Ron Chernow, The House of Morgan, p. 641. 34 Antonio
Gebauer, maio de 1993. 35 Conversa de Joo Paulo Reis Veiloso com
Geisel, 12 de maro de 1974. Nota de Heitor Ferreira aVenturini, de 15
de janeiro de 1979. APGCS/HF.
  444
  A DITADURA DERROTADA
  enorme banheiro adjacente com Golbery. Ou o ttulo. Geisel queria que
fosse apenas secretrio do Planejamento.36 Veiloso tornou-se secretrio
do Planejamento, acumulando essa funo com o cargo de ministro do
Planejamento e Coordenao Geral. Revelara-se tenaz na captura de
smbolos e acessos (ministrio vale mais que secretaria, ministro no
palcio vale mais que ministro na esplanada, e secretrio que despacha
diariamente com o presidente vale mais que ministro de despachos
quinzenais).
  Simonsen, que para todos os efeitos era a principal estrela econmica
do governo, aceitou essa estrutura sem reclamao. Anos mais tarde diria
que ela "no encontra paralelo na maioria dos pases dignos de imitao"
e desabafaria sua saudade do delfinato: "Sob o ponto de vista da unidade
e coerncia de comando, o sistema atual  provavelmente pior do que
aquele que funcionou at maro de 1974"
  Ao contrrio de Simonsen, Velloso no era visto como o apstolo de um
pensamento econmico, nem pretendia s-lo. Absorvia sinais vindos de
baixo e de cima, acomodando-os na mquina da burocracia planejadora. De
cima ouviu que era necessrio continuar crescendo a 10% ao ano. De
baixo, que era necessrio promover uma "diversificao da
diversificao" das exportaes brasileiras.38 Uma pesquisa do IPEA
mostrara que a expanso econmica se aproximava de um gargalo. Para
manter as taxas de crescimento da economia, o pas precisaria comear a
produzir coisas que ainda no produzia, entrando naquilo que seria uma
nova fase do processo de substituio de importaes. Com o apoio
logstico dos economistas do governo, Velloso ps-se a preparar um
documento que se tornou o smbolo da estratgia econmica de Geisel.
  Chamava-se II PND. Resultava da abreviatura de ii Plano Nacional de
Desenvolvimento e se destinava a fixar prioridades para a administrao,
mas servia sobretudo para saciar a mitologia planejadora dos militares e
a mquina de propaganda do governo num ano eleitoral. Sucedeu com o
  36 Heitor Ferreira, 1986. 37 Cinco folhas datilografadas, sem data nem
assinatura, de Mano Henrique Simonsen, para serem entregues ao
presidente eleito Joo Baptista Figueiredo em janeiro de 1979. APGCS/HF.
38 Crescimento industrial no Brasil - Incentivos e desempenho recente,
de Wilson Suzigan, Regis Boneili, Maria Helena T. T. Horta e Celsius
Antnio Lodder, p. 211.
  O P NO ACELERADOR 445 livrinho de capa azul do PND o mesmo processo de
metabolizao intelectual que celebrizou o Manual do guerrilheiro
urbano, de Carlos Marighella. Se um foi uma construo herica de
atributos implausveis a servio da revoluo, o outro viria a ser um
repositrio de planos e banalidades a servio da ditadura. O
guerrilheiro de Marighella era um super-homem. O II PND de Velioso era
um superpiano. Definia assim as relaes econmicas com os Estados
Unidos: "Devero continuar a ser diversificadas, para evitar
concentrao excessiva na Costa Leste. Consolidando- se a abertura j
realizada em relao  Costa Oeste (Califrnia) ser desenvolvido
esforo especial com referncia a regio de Chicago (Meio-Oeste), ao Sul
e  rea de Miami, esta como forma de penetrao no Caribe"39 O governo
tinha duas idias bsicas, com prioridades decrescentes: 1. a manuteno
do crescimento, e 2. o endividamento como forma de compensar as perdas
na conta do petrleo. Essas idias se associaram a dois procedimentos:
1. o dinheiro do PIs/Pasep foi para o BNDE a fim de impedir o surgimento
de um superministro da Fazenda, e 2. a caixa ficava centralizada, sob a
guarda de Veiloso, no gabinete do presidente. Isso era tudo. O governo
Geisel no seguiu um plano. Objetivos, talvez. Uma vontade ou "ideologia
do desenvolvimento", sem dvida.40 Velloso tratou do PND com Geisel
repetindo duas vezes que era assunto importante para a "opinio
pblica4 Intitulava-se ii Plano Nacional de Desenvolvimento, mas no
se fez balano formal do primeiro. Se no plano anterior Velloso tivera
de incluir s pressas a rodovia Transamaznica, nesse teve de expurgar o
texto final de uma explicao (e de um 39 Projeto do II Plano Nacional
de Desenvolvimento (1975-1 979) pp. 67-8. 40 Depoimento de Maria da
Conceio Tavares no iv Encontro Nacional de Economistas, de dezembro de
1976, publicado na Folha de S.Paulo de 12 de dezembro de 1976 e
republicado em Opinio de 24 de dezembro do mesmo ano. Conceio disse:
"O PND foi sendo paulatinamente abandonado como ideologia do
desenvolvimento. Nunca passou disso. No chegou a ser um plano
propriamente dito e no h no momento alternativa alguma". 41 Conversa
de Joo Paulo Reis Velloso com Geisel, 1 de maro de 1974. APGCS/HF.
  448 A DITADURA DERROTADA Em setembro, s portas de uma campanha
eleitoral que seria decidida nas grandes cidades, o governo queria metas
e promessas urbanas. A oposio levara o custo de vida para a campanha.
Em Minas, o MDB lembrava que um dia de trabalho remunerado pelo salrio
mnimo valia um quilo e meio de frango, ou dzia e meia de tangerinas.50
Como no se ganham eleies falando em desacelerao da economia, Geisel
respondia oferecendo crescimento. Seus discursos do perodo, estudados
pelo semanrio Opinio, mostravam que falara 52 vezes em
"desenvolvimento" e quinze em "progresso contra 34 referncias 
"segurana" e 29  "Revoluo"51 Velloso construra um plano para a
opinio pblica, mas sua retrica tinha a conteno dos tcnicos.
Entregou a Geisel um projeto de discurso de serena racionalidade
econmica. O presidente deveria l-lo na cerimnia de entrega do PND ao
Congresso. Nele, usava os componentes dramticos da crise mundial como
contraponto s virtudes do Plano: Os fantasmas que, simultaneamente,
ameaam a economia desenvolvida do Ocidente, e, com ela, o mundo
vulnervel dos pases em desenvolvimento, compem um quadro em que se
interligam o perigo da recesso, no curto prazo, e do crescimento nulo
ou medocre, com a exacerbao inflacionria, a crise do balano de
pagamentos, a inquietao social. Sabdamente, a perspectiva dos
prximos anos  de dificuldades, possivelmente de crises.52 Golbery
reescreveu-o, fazendo do drama, epopia: 50 Veja, 16 de outubro de 1974,
pp. 20-5. 51 "O presidente e os partidos", por Fernando Henrique
Cardoso, Opinio, 9 de setembro de 1974, p. 4. 52 Mao com catorze
folhas, onze das quais em papel da Secretaria do Planejamento, sem data,
anotado por Heitor Ferreira - Primeira Forma - e por Golbery - Do
Veiloso. As trs outras, anotadas por Heitor Ferreira - 2 Forma, Golbery
- esto anotadas  mo por Golbery e por Geisel. APGCS/HF.
  o  NO ACELERADOR 449 Lugar no poderia haver para otimismos
exagerados, num universo de profecias macabras que vo da estagflao
emoliente  depresso econmica arrasadora e fulminante. Mas reagir, a
priori, a tais expectativas sombrias de dias dificeis com um pessimismo
derrotista seria refugar o esforo construtivo que, com f, tudo pode, e
assegurar, pela apatia e pelo desnimo, a generalizar-se em ondas
sucessivas, a realizao, afinal, daquelas mesmas perspectivas negativas
que nos haveriam mesmerizado. Por isso, o Brasil vai crescer, no
qinqnio prximo, a taxas que se comparam s dos ltimos anos.53
Velloso falava num pas amadurecido para enfrentar crises. Golbery
atribuiu o amadurecimento aos "prodigiosos dez anos de Revoluo
regeneradora" e anunciou que o Brasil tinha diante de si "o futuro que
j chegou entre ns". Antes de ler o texto, Geisel enxugou-lhe o estilo.
Lixou "macabras "depresso" e "mesmerizado" Trocou "vai crescer" por
"dever crescer" e reposicionou o futuro para "prximo de ns". Ainda
assim, ficou com o p no acelerador. A minuta de Veiloso no falava em
manuteno das taxas de crescimento. (No texto do Plano ele chegara a
mencionar a "dificuldade de manter taxas de crescimento da ordem de 10%
a partir de 1975.) Fora cauteloso at mesmo na promessa central do PND:
"At 1979, o Brasil j teria superado a barreira dos us$ 1000 de renda
per capita." "Ter", corrigiu Geisel.55 O presidente estava em campanha.
Dali a pouco mais de dois meses seriam realizadas as eleies. Havia
trs semanas, recebera um prog53 Mao com catorze folhas, onze das quais
em papel da Secretaria do Planejamento, sem data, anotado por Heitor
Ferreira - Primeira Forma - e por Golbery - Do Velioso. As trs outras,
anotadas por Heitor Ferreira - 2 Forma, Golbery - esto anotadas  mo
por Golbery e por Geisel. APGCS/HF. 54 Projeto do II Plano Nacional de
Desenvolvimento (1975-1979) p. 21. 55 Anotao de Geisel feita na parte
da minuta de Velioso aproveitada por Golbery. APGCS/HF. O texto final do
discurso, pronunciado em 10 de setembro de 1974, est em Geisel,
Discursos, vol. 1: 1974, p. 129.
  450 A DITADURA DERROTADA
  nstico do SNI. Elegeria com facilidade doze dos 22 senadores. Com
dificuldade, outros seis. Eleio indefinida, s a do Rio Grande do Sul.
Num cenrio absolutamente otimista, quela altura o MDB capturaria
apenas duas cadeiras. Nesse resultado ideal, a oposio manteria no
Senado uma cadeira pela Guanabara e outra pela Paraba, com o seu velho
amigo Rui Carneiro.56
  56 Uma folha do Servio Nacional de Informaes, marcada
"confidencial" e anotada por Heitor Ferreira: Pgina Tirada da
Apreciao n2 10, de 15 de Agosto de 1974, para Conferir os Resultados.
APGCS/HF.
  PARTE IV A derrota
  " isso, e pronto" Geisel preparou-se para a eleio de 1974 com a
serenidade do vitorioso. Antes da posse, quando ela era ainda um
acontecimento remoto, exprimiu seus sentimentos ao senador Luiz Viana
Filho: "No  por vaidade minha, nem para me comparar com o Medici, mas
no interesse da Revoluo, a Arena no pode - j nem digo perder - mas
baixar de votao. Uma maioria do partido da Revoluo  um argumento
que podemos usar l fora1 Misturava duas situaes. Manter a maioria da
Arena no Congresso era uma coisa. Repetir a votao alcanada por Medici
em 1970, outra. O MDB s conseguira seis das 46 cadeiras de senador
disputadas na eleio. Fora surpreendentemente varrido em Pernambuco. O
que lhe restou, sete senadores, cabia num elevador.2 Na Cmara, a
oposio tivera menos da metade dos votos da Arena, ficando com uma
bancada menor que o tero da Casa, o que a impedia, por exemplo, de
obstar a aprovao de emendas constitucionais ou mesmo de criar
comisses de inqurito.3 Se o resultado de novembro confirmasse tal
predomnio, o pas caminharia para um regime de partido nico, e Geisel
no buscava esse tipo 1 Dirio de Heitor Ferreira, 4 de dezembro de
1973. 2 A observao  do senador Amaral Peixoto. Em Aspsia Camargo e
outros, Artes da poltica - Dilogo com Amaral Peixoto, p. 497. 3 A
Arena teve 10 867 814 votos para a Cmara e fez uma bancada de 223
deputados. O MDB, com 4 777 927 votos, elegeu 87. Dados estatsticos,
vol. 9: Eleies federais e estaduais realizadas no Brasil em 1970, p.
25.
  454 A DITADURA DERROTADA de supremacia: "A vitria sobre o MDB tem que
ser de tal maneira que no liquide o partido. [...] Suponha que amanh
no haja oposio no Senado. No pode".4 O general perseguia um
resultado simblico. A vitria no devia ser to grande que parecesse
fraude, nem to pequena que parecesse derrota. Esse projeto se amparava
na percepo do prprio poder e na imensa fora de seu governo. Noves
fora o AI-5 e a censura, controlava o Congresso, 21 dos 22 estados, 91%
das prefeituras e 86% das cadeiras de vereadores.5 Reunido com o senador
Petrnio Portella, Geisel explicou-lhe que sua tolerncia tinha limites.
No admitia perder no Rio Grande do Sul: "Uma derrota nossa no Maranho
no tem significado [...]. O MDB deve ganhar alguma coisa, mas no no
Rio Grande". Petrnio racionalizou o desafio, lembrando a importncia da
fronteira, que "arrasta at coisas institucionais". Geisel acalmou-o
dizendo-lhe que no se preocupasse, pois "ningum pode mais do que
ns".6 Sua idia era unir a Arena at o dia 15 de novembro, para
discutir as divergncias depois da vitria. Nas conversas, dizia que o
candidato da Arena "ia ser" senador. Num caso, em menos de uma hora
repetiu trs vezes que estava oferecendo a um hierarca "o lugar de
senador".7 Foram raras as ocasies em que usou a palavra disputa. Aos
poucos, contudo, o general desceu aos intestinos da Arena. Complicara a
formao das chapas proibindo os governadores que estavam no exerccio
do mandato de renunciar ao cargo para disputar cadeiras no Congresso.8
Cada estado tinha seu prprio quebra-cabea, e todas as peas
peregrinaram ao gabinete do presidente. Em So Paulo achava-se
inadmissvel que Delfim Netto, refugado para o governo, disputasse o
Senado. O candidato natural, Carvalho Pinto, fa4 Conversa de Geisel com
Golbery, 7 de janeiro de 1974. APGCS/HF. 5 O Estado de S. Paulo, 11 de
agosto de 1974. 6 Reunio de Geisel com Petrnio Portella, 21 de janeiro
de 1974. APGCS/HF. 7 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira,
21 de janeiro de 1974. APGCS/HF. 8 Para uma anlise da presuno da
Arena durante a campanha eleitoral, ver Wanderley Guilherme dos Santos,
"As eleies e a dinmica do processo poltico brasileiro revista
Dados, Instituto Universitrio de Pesquisas do Rio de Janeiro, n2 14,
1977, pp. 211-39.
  " ISSO, E PRONTO" 455 zia-se de rogado para tentar a reeleio.
Poderiam recorrer ao ex-governador Lucas Garcez, mas Golbery o
desqualificava.9 No Rio Grande do Sul, a alternativa era Nestor Jost,
presidente do Banco do Brasil. Geisel julgava que chegara a hora de ele
colher o proveito dos favores que fizera aos gachos, dando emprstimos
"fora das regras, das normas, dos limites". 1 Jost preferia continuar
no banco, que lhe proporcionava um padro de vida e mordomias bem
superiores s dos senadores. Golbery mandou-lhe um recado para que
escolhesse entre cinco anos sem "po nem laranja" e uma cadeira de
senador da qual seria resgatado para um cargo federal.1 Confrontado com
a situao, informou: "Se o general Geisel mandar que eu seja chofer de
caminho, eu vou ser".2 No Paran o poderoso Ney Braga no aceitava que
se compensasse a faco rival, liderada pelo ex-governador Paulo
Pimentel. Acusava-o de sugar do Tesouro Estadual 300 mil cruzeiros
mensais para seus jornais e emissoras.3 Em Sergipe, o senador Lourival
Baptista incriminava o oligarca arenista Augusto Franco de ter comprado
a mquina federal, empregado a mulher do chefe do escritrio do SNI e de
ter captado para suas empresas 37 dos 42 bilhes de cruzeiros que o
Banco do Brasil emprestara no estado.14 No Cear, o astucioso coronel
Virglio Tvora, ressentido, denunciara a Geisel "o artificialismo e
improvisao de lderes forjados  conta da mquina estatal" e se
ausentara da campanha.15 Eram arreganhos tpicos das rivalidades
estaduais, insuficientes para abalar a confiana do Planalto. Estava-se
na primeira fase da campanha, aquela em que as manobras partidrias
prevalecem sobre a movimentao dos candidatos e as preferncias
populares so estimuladas apenas pela exposio superficial das chapas.
No Paran o candidato da Arena 9 Dirio de Heitor Ferreira, 26 de
novembro de 1973. APGCS/HF. 10 Reunio de Geisel e Golbery com Petrnio
Portella, 15 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 11 Para o uso da palavra
mordomias, Petrnio Portella, em telefonema a Heitor Ferreira, de 11 de
fevereiro de 1974. Para o recado, conversa de Golbery com Geisel, 15 de
fevereiro de 1974. APGcSJHF. 12 Reunio de Geisel e Golbery com Petrnio
Portella, 15 de fevereiro de 1974. APGCS/HF. 13 Almoo de Ney Braga com
Golbery e Heitor Ferreira, 7 de dezembro de 1973. APGCSIHF. 14 Reunio
de Geisel com o senador Lourival Baptista, 19 de dezembro de 1973.
APGCS/HF. 15 Sete folhas sem assinatura nem data e uma folha de bloco
anotada por Geisel: "Ao Golbery. Documento do Virgilio Tvora APGCS/HF.
  456
  A DITADURA DERROTADA
  tinha 80% das preferncias.6 Em So Paulo, 75%, contra 5% para o
MDB.17 A medida da ambio do MDB justificava a autoconfiana da Arena.
Exceto no Rio Grande do Sul, todos os notveis da oposio rejeitaram a
disputa pelo Senado. Preferiram reeleies garantidas para a Cmara. S
em Pernambuco um deputado federal resolveu batalhar pelo Senado,
arriscando-se a ficar sem mandato. Quatro de seus candidatos a senador
nunca tinham disputado uma eleio, e outros seis, tendo disputado a
anterior, em qualquer nvel, a haviam perdido. Ulysses Guimares
recusou-se a correr o risco em So Paulo.8 Em Minas Gerais, Tancredo
Neves temia que se estivesse dando mais um passo em direo ao partido
nico.19 Optou por preservar sua cadeira na Cmara, deixando ao prefeito
de Juiz de Fora, o desconhecido engenheiro Itamar Franco, a disputa pelo
Senado.2 At agosto, o senador Franco Montoro, um dos coordenadores
nacionais da campanha, s dava como certo o resultado no Rio Grande do
Sul.
  Geisel no afrouxara os principais parafusos do regime. Com poucos
dias de governo, valera-se de um discurso irrelevante do deputado
Francisco Pinto, do MDB baiano, para dar sua primeira demonstrao de
fora sobre o Congresso. Da tribuna, Chico Pinto chamara o general
Pinochet de "assassino", "mentiroso" e "fascista Reclamara da
tranqilidade com que se recebera o ditador chileno: "Para que no lhe
parea, contudo, que no Brasil todos esto silenciosos e felizes com sua
presena, falo pelos que no podem falar, clamo e protesto por muitos
que gostariam de reclamar e gritar nas ruas contra a sua presena em
nosso pas2
  16 Sebastio Nery, As 16 derrotas que abalaram o Brasil, p. 62. 17
Nicodemus Pessoa, Qurcia, p. 65. 18 Franco Montoro, janeiro de 1998. 19
Jornal do Brasil, 14 de outubro de 1974, 1 caderno, p. 3. 20 Franco
Montoro, janeiro de 1998. Tancredo pediu a Montoro que ajudasse a
convencer Itamar Franco a se candidatar. 21 Jornal do Brasil, 22 de
abril de 1978, 1 caderno, p. 3.
  E
  " ISSO, E PRONTO" 457
  No primeiro ato politicamente relevante de seu governo, o presidente
ordenara ao procurador-geral da Repblica que processasse o deputado
junto ao Supremo Tribunal Federal por ter insultado um chefe de Estado
estrangeiro. Pura demonstrao de poder, pois nenhum presidente se
incomodara com as acusaes feitas por seus aliados a ditadores de
pases socialistas com os quais o Brasil mantinha relaes diplomticas.
A imprensa foi intermitentemente proibida de tratar do assunto, e, em
outubro, o Supremo condenou Chico Pinto a seis meses de priso. Fez dele
o primeiro parlamentar brasileiro a sair - por deciso do Supremo
Tribunal Federal - do Congresso para o crcere, num batalho da PM de
Braslia.
  Francisco Pinto no era um oposicionista qualquer. Alm de ser um dos
lderes do grupo "autntico" do MDB, pregava uma aliana da esquerda com
os militares considerados nacionalistas. Seus primeiros contatos com os
granadeiros vinham de 1969, e chegara a se encontrar com o general
Affonso de Albuquerque Lima. Tinha a cabea a prmio desde 1971, quando
estreou na tribuna da Cmara com um discurso destinado ao pblico
militar, enumerando as intervenes democrticas, nacionalistas e
antioligrquicas das Foras Armadas na vida poltica brasileira.
Procurara, sem sucesso, achar um general que topasse desafiar, como
candidato do MDB, a indicao de Geisel para a Presidncia.22
  Ainda que a imprensa se mostrasse menos policiada, a mquina da
censura no s persistia como revelava um grau indito de truculncia.
Num dos seus piores momentos, proibiu por quatro dias que a imprensa de
So Paulo noticiasse a existncia de uma epidemia de meningite na
cidade, inclusive "dados e grficos" relacionados com a doena.23 Os
censores dO Estado de S. Paulo suprimiram a informao de que, durante
o ms de julho, aproximadamente setecentas pessoas haviam procurado
  22 Depoimento de Francisco Pinto, em Ana Beatriz Nader, Autnticos do
MDB, semeadores da democracia, pp. 177-81. 23 Paolo Marconi, A censura
poltica na imprensa brasileira - 1968/1978, p. 286. A primeira
proibio deu-se no dia 26 de julho de 1974 e a segunda, no dia 28. No
dia 30 o tema foi liberado, ressalvadas "matrias alarmistas e
tendenciosas que possam gerar pnico entre a populao
  458 A DITADURA DERROTADA o hospital Emilio Ribas. Estima-se que a
epidemia atingiu cerca de 18 mil pessoas e matou quase duzentas.24 O
prprio Golbery acabou censurado. Recebeu um modesto deputado da Arena
paulista e, como era seu hbito, disse-lhe que a censura seria
abrandada. O deputado saiu do Planalto e deu uma entrevista contando a
conversa. Resultado: "De ordem superior, fica terminantemente proibida a
divulgao atravs dos meios de comunicao social, escrito, falado e
televisado, de notcia, comentrio, transcrio, referncia e outras
matrias, sobre declarao do deputado Mrio Telies, atribuindo ao
Ministro Golbery do Couto e Silva informao relativa  suspenso da
censura e abertura total25 Para quem supunha que o governo traria
mudanas, tudo continuou na mesma. s vsperas da posse, o ministro da
Justia, Armando Falco, chegara a anunciar que pretendia conversar
"atrs das linhas inimigas" Chamando-o de "louco" e acusando-o de ter
"pressa em aparecer como bonzinho Geisel mandou que o aquietassem.26
Proibiu-o de admitir a hiptese de um encontro informal com Ulysses
Guimares: "Ele no tem nada que chamar, nem conversar, nem arranjar
almoos e jantares. Em matria de oposio ele deve conversar com o
cara, o sujeito que pedir audincia para ele. [...] Quando um sujeito
desses vem e promete apoiar, ele quer bar- ganhar, ele vai querer alguma
coisa em troca. E eu no estou disposto a dar nada em troca a eles. O
que eu posso dar em troca  oposio  o direito deles me criticarem,
fazerem os candidatos que eles quiserem"27 No era pouca coisa. Se
Geisel achava que podia oferecer  oposio uma eleio relativamente
livre, o SNI, nem isso. Previa uma onda de impugnaes de candidaturas
"impregnadas de conotaes ideolgicas de contestao ao re24 O Estado
de S. Paulo, 12 de dezembro de 1993, Caderno 2 Especial, p. D5. 25 Paolo
Marconi, A censura poltica na imprensa brasileira 1968/1978, p. 285. 26
Conversa de Geisel, Golbery, Moraes Rego e Heitor Ferreira, 28 de
fevereiro de 1974, para "louco", e conversa de Geisel com Heitor
Ferreira, 9 de maro de 1974, para "pressa em aparecer como bonzinho
APGCS/HF. 27 Conversa de Geisel com Golbery e Heitor Ferreira, da qual
participou tambm Humberto Barreto, 6 de maro de 1974. APGCS/HF.
  " ISSO, E PRONTO" 459 gime28 Em meados de agosto uma estimativa
eleitoral do Servio refletira razoavelmente o cenrio. Era um documento
reservado, sem propsitos publicitrios. Alimentara a crena sincera de
que, com cinco meses de poder e a noventa dias da eleio, o governo
pouco tinha a temer. Ganharia "fcil" treze das 21 cadeiras do Senado.29
Foi mais ou menos com esse cenrio na cabea que, duas semanas depois,
Geisel copiou  mo, em sete folhas de papel almao, um projeto de
discurso que Golbery lhe encaminhara. Nele estavam as cinco palavras
mais importantes de sua vida: "lenta, gradativa e segura distenso3
Disse-as numa sentena oblqua, em que condenava a presso dos
oposicionistas. Salvo a palavra mgica, repetiu o que dissera em maro,
na primeira reunio do ministrio. Foi esta a construo de agosto:
"Tais presses serviro, apenas, para provocar contrapresses de igual
ou maior intensidade, invertendo-se o processo da lenta, gradativa e
segura distenso, tal como se requer, para chegar-se a um clima de
crescente polarizao e radicalizao intransigente, com apelo 
irracionalidade emocional e  violncia destruidora. E isso, eu lhes
asseguro, o Governo no o permitir"31 Falara-se em "redemocratizao",
depois em "abertura", finalmente tentou-se "descompresso", mas agora
era o presidente quem trazia ao lxico poltico um termo em cujo
significado estava embutido o fim da ditadura. O general Medici viu um
risco na proposta. No primeiro encontro com Geisel disse-lhe que haveria
de suportar a cobrana da "distenso" at o ltimo dia de seu governo.32
28 Apreciao Sumria, do SNT, de 25 de julho a 14 de agosto de 1974.
AEG/cPDOC. 29 Uma folhado SNI, de 15 de agosto de 1974. APGCS/HF. 30
Ernesto Geisel, Discursos, vol. 1: 1974, p. 122. Discurso aos dirigentes
da Arena, de 29 de agosto de 1974. Para o projeto, mao com sete folhas
manuscritas de Geisel, acompanhando oito folhas datilografadas e
anotadas por Golbery. Junto, num bilhete a Heitor Ferreira, datado de 28
de agosto, Geisel escreveu: "Peo que voc mande bater, como minuta, o
projeto de discurso anexo.  praticamente igual ao proposto pelo Golb.,
com pequenas modificaes APGCS/HF. 31 Ernesto Geisel, Discursos, vol.
1: 1974, p. 122. Em maro Geisel referira-se a um "gradual, mas seguro,
aperfeioamento democrtico 32 Nota manuscrita de Heitor Ferreira a
Geisel, de 2 de setembro de 1974, com anotao manuscrita de Geisel
resumindo sua conversa com Medici. APGCS/HF.
  460 A DITADURA DERROTADA A previso do SNI fora feita quinze dias
antes do incio da programao eleitoral gratuita na televiso. A
telinha, quintessencial acessrio do Milagre, surgia como pea
fundamental da disputa poltica. Na primeira semana os telespectadores
reagiram  intromisso que retardava a novela O Espigo, e 50% dos
aparelhos estiveram desligados. Logo depois, em Porto Alegre, 70%
ligaram-se para assistir a um debate entre os candidatos da Arena e do
MDB ao Senado. Em Pernambuco, um candidato da Arena servia-se de um
cordel que associava o regime a um mundo com poos de caf quente, rios
de leite, barreiras de charque e fontes de mel. Ele mesmo admitia: "O
governo no chegou a isso, mas est providenciando" A oposio falava do
custo de vida, lembrava que o quilo do charque estava a 26 cruzeiros,
enquanto a jornada do cortador de cana valia oito. Tocava trechos da
verso musical do poema Morte e vida severina, de Joo Cabral de Melo
Neto, composta por Chico Buarque de Hollanda.33 Em meados de setembro,
quando a campanha ainda estava morna, Ulysses Guimares fez um
prognstico eleitoral para O Globo. Refletia o otimismo profissional dos
dirigentes partidrios, mas mostrava que parecia resignado com sete
derrotas (Alagoas, Bahia, Maranho, Par, Piau, Rio de Janeiro e Rio
Grande do Norte).34 O SNI tinha certeza de que lhe imporia outras sete
(Acre, Amazonas, Cear, Esprito Santo, Mato Grosso, Paran e Sergipe).
Em relao a esses estados, Ulysses estava moderadamente otimista. No
assegurava a vitria, apenas estimulava a possibilidade. Num s, a
Paraba, ambos concordavam que o MDB venceria. Restavam sete. Tanto pela
previso de Ulysses como pela do SNI, o corao da batalha estava em
sete estados. Eram os seguintes: Rio Grande do Sul, So Paulo, Minas
Gerais, Guanabara, Pernambuco, Santa Catarina e Gois. Nos cinco
primeiros estavam 19 dos 36 milhes de eleitores. Em junho o general
Figueiredo dera por certa a derrota do governo no Rio Grande, mas em
agosto o SNI ainda dava essa disputa por "indefinida"3 33 Veja, 25 de
setembro de 1974, pp. 20-5. 34 O Globo, 23 de setembro de 1974, 12
caderno, p. 3. 35 Dirio de Heitor Ferreira, 24 de junho de 1974, e nota
de Heitor Ferreira, de 15 de agosto de 1975.
  " ISSO, E PRONTO" 461 A partir da segunda metade de outubro, a
campanha deu sinais evidentes de que o MDB se sairia muito melhor que em
1970.0 senador Montoro previa a vitria em catorze estados.36 As
pesquisas do IBOPE tateavam um resultado mais modesto. O MDB, numa curva
ascendente, ultrapassara a Arena em So Paulo. Ganhava por pouco no Rio
Grande do Sul (40% x 35%). Estava empatado em Minas Gerais (33% x 33%).
Perdia em Santa Catarina (52% x 27%) e no Paran (39% x 33%). No era em
todos os estados que havia pesquisas, mas um cenrio desse tipo sugeria
que se a oposio elegesse dez senadores, j poderia comemorar vitria.
Seria uma vitria associada muito mais ao campo das emoes polticas,
sem efeitos prticos sobre a maioria parlamentar do regime. A Arena
continuaria majoritria nas duas Casas do Congresso. Se o MDB elegesse
dez senadores e expandisse sua bancada na Cmara de 87 cadeiras para
120, formaria uma representao de 142 parlamentares. Ficaria com duas
cadeiras a menos que o tero do Congresso. Como a Constituio poderia
ser alterada pelo voto de dois teros dos deputados e senadores, o
governo aprovaria as reformas institucionais que bem entendesse.37 Por
mais que as coisas mudassem, o poder permaneceria no mesmo lugar: todo
nas mos do Planalto. As contrapresses, ligadas com a relativa
liberdade exercitada pelo MDB durante a campanha, comearam antes mesmo
da abertura das urnas. O SNI fez circular no Planalto um papel
intitulado Temas Discutidos em Setores Militares. Era tpico da poca.
Dava voz a "setores" annimos que falavam em nome de uma Revoluo da
qual o governo seria instrumento e o presidente, delegado. O Servio
advertia da existncia de uma "certa inquietao" na oficialidade e
passava adiante o recado dos "setores": A campanha eleitoral vem dando
ensejo a certos pronunciamentos de candidatos do MDB que tm provocado
inquietao nos setores militares. Essa preocupao decorre da
insistncia nas teses de levantamento dos atos ex- 36 Folha de S.Paulo,
8 de novembro de 1974, 12 caderno, p. 8. 37 Nos dias seguintes 
eleio, ainda sem os resultados finais, Heitor Ferreira escreveu numa
folha de bloco: "Os dois teros para certas coisas importantes seriam
258 votos APGCS/HF.
  462 A DITADURA DERROTADA
  cepcionais de que o governo se acha investido e dos relativos a
acusaes sobre desrespeito aos direitos humanos. [...j Argumenta-se que
o problema de uma abertura poltica, no sentido de um aperfeioamento
progressivo do regime, constitui um campo propcio para a explorao por
parte de contestadores, saudosistas e subversivos comunistas.38
  O SNI via fantasmas. A caciquia do MDB temera que o desinteresse
popular, a desmobilizao da esquerda e a truculncia da ditadura
levassem a oposio a repetir o fiasco de 1970. Afora o Partido
Comunista, a oposio clandestina mantinha-se longe da campanha. As
siglas  esquerda do PCB viam na eleio um truque destinado a legitimar
a ditadura. Um grupo de exilados parisienses editara, em outubro, um
boletim chamado Conjuntura Brasileira. Era uma colagem de recortes de
jornais. Tinha cem notcias. Entre elas, 32 tratavam de reivindicaes
de trabalhadores urbanos e rurais. As notcias da eleio do ms
seguinte eram trs, uma das quais indicando a progresso do voto nulo.39
  O problema no estava na campanha do MDB, mas na indisciplina militar.
Ocorrera uma panfletagem nos quartis, e, no Rio, o comando do i
Exrcito reunira uma parte da oficialidade para discuti-la.4 Um
misterioso telefonema para a casa de Golbery ameaara sua mulher de
seqestro.4 Numa conversa com Heitor Ferreira, Figueiredo advertiu-o:
"Linha dura em cima do Golbery. Ele  o culpado de tudo".42
  A eleio foi numa sexta-feira. Geisel votou cedo, em Braslia. Trocou
algumas palavras com os jornalistas: "Quero que o povo todo vote. [...j.
Quanto ao resultado, depois  que se vai ver Golbery foi pelo mes 3
  Duas folhas do SNI, de 7 de outubro de 1974, carimbadas "confidencial
APGCS/HF. 39 Conjuntura Brasileira, n2 1, outubro de 1974, Paris. Devo
ao deputado Jos Anbal, criador e diretor do Conjuntura, o acesso a uma
coleo completa dessa publicao. 40 Carta do major Athos Amorim a
Heitor Ferreira, de 21 de outubro de 1974. APGCS/HF. 41 Dirio de Heitor
Ferreira, 12 de outubro de 1974. 42 Idem, 4 de novembro de 1974.
  " ISSO, E PRONTO" 463 mo caminho: "Vamos ver, depois, o resultado"43
Ambos j sabiam que o resultado seria ruim. Tratava-se de saber o
tamanho da ruindade. Na manh de sbado, baseando-se exclusivamente em
pesquisas, os jornais previam trs vitrias espetaculares do MDB: no Rio
Grande do Sul, em So Paulo e no Rio de Janeiro. Paulo Brossard mal
completara cinqenta anos. Era um gacho de carto-postal, com os
cabelos encaracolados, criador de 1200 cabeas de gado, professor de
direito constitucional e herdeiro de tradies liberais que remontavam
s disputas do Imprio. Em 1964, nos dias mais duros da revanche dos
vitoriosos, ocupara a Secretaria da Justia do governo do estado.
Conservador e legalista, estava no MDB porque a ditadura se
incompatibilizara com sua espcie. Perdera a mesma eleio, em 1970, por
30 mil votos. Puseram-no para fora da universidade, e ele voltou  sua
banca de advocacia, achando que fazia melhor desistindo da poltica.
Percebera a vitria numa tarde de domingo, um ms antes da eleio, ao
chegar a Veranpolis. A caravana entrara numa cidade pequena e vazia. Na
hora marcada, enchera-se o salo onde se realizaria a manifestao do
MDB. "Ganhamos", disse ao presidente do MDB gacho. "Tu no ests
falando srio", respondeu Pedro Simon. "Ganhamos por trs razes. O
salo estava vazio,  domingo, e encheu repentinamente. No havia gente
na rua. Essa gente veio nos ouvir. Metade do auditrio  de mulheres.
Quando as mulheres entram, a coisa muda. Metade tambm  jovem.  gente
que nunca votou."44 Ganharam por quatro razes. A ltima foi o retorno
da esquerda ao jogo eleitoral. Em 1970 ela ficara de fora, contribuindo
para um indito ndice de 30,8% de votos em branco e nulos.45 Nesse
pleito, regressara. O 43 Folha de S.Paulo, 16 de novembro de 1974. 44
Paulo Brossard, janeiro de 1998. 45 Dados estatsticos, vol. 9: Eleies
federais e estaduais realizadas no Brasil em 1970, p. 17, e Dados
estatsticos, vol. 11: Eleies federais e estaduais realizadas no
Brasil em 1974, p. 15. 464 A DITADURA DERROTADA
  ndice de votos brancos voltou  marca habitual, em torno dos 14%. Do
exlio, Leonel Brizola e Joo Goulart o haviam apoiado. Brossard venceu
com 485 mil votos de vantagem.
  Se o Rio Grande deu ao MDB um personagem cuja vitria, mesmo sendo
considerada inadmissvel, era plausvel, So Paulo produziu uma
excentricidade. Orestes Qurcia tinha 36 anos, bisav e me italianos,
costeletas de caminhoneiro e nariz de comediante. Prefeito de Campinas,
sara do nada. A rigor, nada era. Os adversrios ridicularizavam-no
chamando-o de "produto por conta de sua campanha tcnica e fria, ou de
Cacareco, o rinoceronte que nos anos 50 simbolizara a capacidade dos
paulistas de escoar o protesto pelo voto. Era ainda menos se comparado
ao candidato da Arena, o senador Carlos Alberto de Carvalho Pinto.
Sobrinho-neto do presidente Rodrigues Alves, governara So Paulo, fora
ministro da Fazenda e, aos 64 anos, encarnava de tal forma a austeridade
quatrocentona que usava roupa esporte com o colarinho da camisa
abotoado.
  Sua campanha foi dada por perdida no incio de outubro, quando teve
uma isquemia cardaca e se recolheu  sua fazenda. Outorgou  filha
Lucila e ao suplente, Aldo Lupo, a tarefa de conduzir o barco. Dono de
uma fbrica de meias em Araraquara, Lupo era um novio. Num comcio na
cidade de Luclia, saudou a multido: "Povo de Lucila, quero lhes
apresentar Luclia" 46 Qurcia reestruturara o MDB paulista. Valendo-se
das bases oposicionistas e at dos descontentes da Arena, aumentara o
nmero de diretrios municipais do partido de 204 em 1969 para 371 em
7447 Fizera sua campanha circulando pelas ruas, tocando violo, jogando
bola e falando o mnimo possvel. Antes do incio da propaganda gratuita
na televiso, tinha 7% das preferncias numa pesquisa realizada em Bauru
e na regio do ABC.48 Iniciada a campanha, subiu. Carlos Matheus, que
naquele ano comeava a montar a mquina de pesquisas do Instituto
Gallup, deu-se conta do fenmeno ainda em setembro: "Esse calabrs vai
ganhar
  46 Paulo Egydio Martins, janeiro de 1998. 47 Maria dAlva Gil Kinzo,
Legal opposition politics under authoritarian rule in Brazil, p. 33. So
Paulo tinha 506 municpios. 48 Sebastio Nery, As 16 derrotas que
abalaram o Brasil, pp. 35-6.
  " ISSO, E PRONTO" 465 a eleio disse a um jornalista.49 Paulo
Egydio deu-se conta disso mais ou menos na mesma poca: Depois da
isquemia do Carvalho Pinto eu propus ao Golbery que se trocasse de
candidato, mas ele no quis. Disse que se perdssemos, seria de pouco. A
campanha foi decaindo. Eu ameacei os prefeitos, no adiantou nada.
Chamei o Qurcia de Cacareco, tambm no adiantou. Se o Carvalho Pinto
tivesse ido para a rua, ou se tivssemos posto outro candidato, tambm
no adiantaria. No final da campanha ns s fazamos comcios em lugares
fechados, porque no juntvamos gente na rua. Em Sorocaba e Guaruj, nem
isso conseguimos. Falei com o Golbery, mas ele me mostrou estimativas
indicando uma grande vitria no Nordeste. 50 Dois dias antes da eleio,
a Arena desmarcou o comcio de encerramento de sua campanha, em
Campinas. Na hora do almoo, em Teresina, o senador Petrnio Portella
recebeu um rdio urgente de Paulo Egydio: "Campanha perdida. Qurcia 5 a
1 na capital7 No Rio de Janeiro, Roberto Saturnino, um engenheiro
tmido que migrara da aristocracia poltica do PSD, onde nascera, para o
gentil socialismo da elite dos economistas de esquerda, produzira o
impossvel. Brossard quase vencera em 1970. Qurcia trabalhara sua
candidatura durante dois anos. Saturnino estava fora da poltica. Fora
deputado at 1966, mas o SNI embargara sua candidatura  reeleio. At
o dia 11 de setembro, vivera apenas como chefe do Departamento de
Planejamento do BNDE. O candidato do MDB adoecera, e o senador Amaral
Peixoto, genro de Vargas, amigo do pai de Saturnino e condestvel da
poltica fluminense at os anos 50, lhe ofereceu a vaga. Saturnino
aceitou e foi para a televiso. Menos de um ms depois, e 36 dias antes
do pleito, o SNI dava por perdida a eleio no estado do Rio.52 49
Fernando Morais, janeiro de 1998. 50 Paulo Egydio Martins, janeiro de
1998. 51 Sebastio Nery, As 16 derrotas que abalaram o Brasil, p. 36. 52
Ditlrio de Heitor Ferreira, 9 de outubro de 1974.
  466 A DITADURA DERROTADA Estava moda a candidatura do marechal Paulo
Torres, presidente do Senado, veterano da FEB, ex-governador do estado.
O marechal contou o que lhe sucedeu: "E apresentava grficos e
estatsticas na televiso, mostrando que em 1963 havia tantos
analfabetos e que agora s existiam tantos. Falei das obras da
Revoluo, principalmente da ponte Rio-Niteri. A eles vinham e falavam
que precisavam tantas horas de trabalho para comprar um quilo de carne e
que ponte no enche barriga53 Geisel passou a manh de sbado, o
primeiro dia das apuraes, na granja do Riacho Fundo. Estava
contrafeito com as pesquisas que antecipavam a derrota no Rio Grande do
Sul e em So Paulo, por larga margem.54 Leu um pouco, e, com a chegada
de Heitor Ferreira, foram para a piscina jogar bola. Quando viram o
Jornal Nacional, no estavam mais diante de trs maus resultados. Os
nmeros da noite indicavam um desastre. Minas Gerais estava perdida para
um baiano surgido na poltica de Juiz de Fora. Itamar Franco tinha 51
mil votos, 16 mil a mais que seu adversrio. O Paran, que o SNI dera
por garantido no incio de outubro, desabara.55 L, o paraibano
Francisco Leite Chaves, o Franois, um ex-advogado do Banco do Brasil
que nunca disputara uma eleio, tinha 46 mil votos de frente. No
Amazonas, Evandro Carreira, o Pororoca, vereador fracassado que vinha de
uma derrota para deputado (a quinta) batia a Arenapor4x 1.56 No Rio
Grande do Norte, o deputado Djalma Marinho, xod da Arena liberal,
estava sendo derrotado por um ex-marinheiro da frota mercante, daqueles
que tm ncora tatuada no brao. Ex-lavrador, ex-deputado estadual e
ex-arenista, Agenor Maria, o Marinheiro S, disputara sua ltima eleio
em 1972. Quis ser prefeito de Currais Novos e acabou em 53 Sebastio
Nery, As 16 derrotas que abalaram o Brasil, p. 101, citando Veja de 5 de
novembro de 1975. 54 Dirio de Heitor Ferreira, 22 de novembro de 1974.
55 Para o otimismo do SNI, Dirio de Heitor Ferreira, 9 de outubro de
1974. 56 Para os resultados, Folha de S.Paulo de 17 de novembro de 1974,
p. 10. A relao entre os resultados publicados pela Folha e os nmeros
disponveis at pouco antes das vinte horas, quando o Jornal Nacional ia
ao ar, foi estabelecida com base em informaes recebidas do jornalista
Domingos Ferreira Alves, responsvel pelo fechamento da primeira pgina
em 1974. Aos domingos a edio da Folha fechava s dezessete horas, com
trocas at as dezenove.
  " ISSO, E PRONTO" 467 terceiro lugar, com 282 votos.57 Agora estava
com 9500, quase mil  frente da Arena. O MDB liderava as apuraes em
dezoito estados. A Arena s estava garantida no Maranho, onde no
tivera adversrio, e na Bahia. Poderia ganhar no Piau, em Alagoas e no
Acre. Mas para quem estava perdendo at em Sergipe, tudo era possvel. O
venerando senador Leandro Maciel, com 72 anos, vencedor de seis eleies
parlamentares (a primeira em 1930), perdia de 7 x 4 para Gilvan Rocha,
um ginecologista que fazia poltica mas nunca disputara eleio.
Terminado o noticirio, Geisel mostrou-se preocupado com os resultados
para a Cmara. Achava que o MDB podia capturar a maioria. A preocupao
era terrvel. Mesmo se o MDB tomasse as 21 cadeiras que disputava no
Senado (onde se renovava apenas o tero da Casa), a Arena continuaria
majoritria por 41 x 26. Se o resultado da eleio majoritria se
replicasse na votao proporcional, a oposio controlaria a Cmara,
pois l estavam em jogo todas as cadeiras. O general levantou-se e saiu
para caminhar no jardim plano e escuro que circunda a casa. Andou s por
algum tempo. Quando lhe disseram que a Arena haveria de ter a maioria da
Cmara, respondeu: "Vamos ter por qu? O que nos assegura? Acho bem
possvel que no tenhamos. [...] Eleio  isso mesmo. O povo vota livre
e, normalmente, no contra. E ns temos que respeitar. Pois no fizemos
uma eleio?  isso, e pronto58 No havia mais o que discutir. Ernesto
Geisel sentou-se para uma partida de biriba.59 57 Dicionrio
histrico-biogrfico brasileiro ps- 1930, coord. de Alzira Alves de
Abreu e outros, vol. 3, p. 3563. 58 Dirio de Heitor Ferreira, 22 de
novembro de 1974. 59 Idem. Jogaram duas duplas: Lucy Geisel e o coronel
Moraes Rego contra o presidente e Maria Ldia, mulher do coronel. Noutra
mesa jogou-se pquer.
  E A autonomia sepultada Juscelino Kubitschek votara em Diamantina e
escrevera em seu dirio: "Dei uma volta na cidade para ver as eleies.
Tudo livre e tranqilo. [...] Fui colhido de surpresa. No esperava.
Agradeo a Deus me ter concedido vida at hoje"1 Quando Geisel chegou ao
Planalto, na manh de segunda-feira, dia 18, a Arena lutava pela vida.
Na vspera, O Estado de S. Paulo informara: "A oposio est vencendo em
dezoito Estados" Abaixo dessa manchete, uma fotografia simbolizava o
resultado. Montado numa gua de plo tostado, com o pampa de sua fazenda
de Bag ao fundo, o professor Paulo Brossard erguia o chapu e pedia
passagem.2 Segundo o Jornal do Brasil, as bancadas de cinco grandes
estados j garantiam ao MDB o tero da Cmara. Numa projeo pessimista,
j elegera 139 deputados.3 Faltavam 44 para a maioria. A ltima
tabulao do SNI, concluda s trs da madrugada, projetava uma maioria
de 193 x 171 para a Arena.4 Heitor Ferreira comparou essa tabela com
previses anteriores do Servio e assombrou-se. No Rio de Janeiro,
segundo a ltima estimativa pr-eleitoral, pensava-se em ga1 Dirio de
1K, 15 de novembro de 1974. 2 O Estado de S. Paulo, 17 de novembro de
1974. 3 Jornal do Brasil, 18 de novembro de 1974, capa do 12 caderno e
pp. 3-5, 7 e 11-4. 4 Estimativa da Composio da Cmara Federal em
Funo dos Resultados Obtidos at as 03:00 hs. do Dia 18-11-74, do SNI.
APGCS/HF.
  470 A DITADURA DERROTADA nhar por 14 x 7 e se perdia por 18 x 8. Em
So Paulo, a previso de vitria da Arena por 32 x 11 virara uma
projeo de derrota por 30 x 16.6 Ele anotou numa folha de bloco:
"Inacreditvel, mas a fantasia para o Senado j se materializou da
maneira mais surpreendente. No entendemos nada de poltica, ou o povo
no entende nada de governo"7 O MDB elegera dezesseis senadores e fizera
a maioria nas assemblias legislativas de So Paulo, do Rio de Janeiro e
do Rio Grande do Sul. As primeiras anlises do governo desprezavam a
possibilidade de que o eleitorado tivesse votado contra a ditadura.
Exploravam superficialmente o surto de carestia que fizera os preos dos
alimentos subirem 37% desde janeiro. No se referiam aos quebra-quebras
que destruram quarenta nibus em Braslia e de um trem no Rio, onde
perto de 3 mil pessoas incendiaram e danificaram quinze vages.8 Nem
sequer mencionavam a epidemia de meningite em So Paulo. No dia da
eleio, a Folha de S.Paulo circulara com sua rotineira tabela
informando que havia 1606 pessoas internadas e que na vspera tinham
morrido doze. Em outubro a epidemia matara 287 pessoas em 26 hospitais
paulistas, e o governo no conseguia cumprir as metas de vacinao que
anunciara.9 Acorrentada ao triunfalismo, a ditadura pagou tambm pelo
que no podia entregar: por 2 >< 0, a Holanda secara, em julho o sonho
nacional do tetracampeonato mundial de futebol. 5 Os totais diferem
porque nas eleies proporcionais o tamanho das bancadas depende do
comparecimento dos eleitores. 6 Duas notas manuscritas de Heitor
Ferreira, anexas  Estimativa do SNI de it de novembro de 1975.
APGCS/HF. Os nmeros da previso anterior do 5N1 parecem-se com os da
Apreciao de 21 de setembro de 1975. 7 Nota manuscrita de Heitor
Ferreira, anexa  Estimativa do SNI de 18 de novembro de 1975. APGCS/HF.
8 O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, de 16 de outubro de 1974,
citados em "A revolta dos suburbanos ou Patro, o trem atrasou", de
Jos Mvaro Moiss e Verena Martinez-Allier, em Moiss e outros,
Contradies urbanas e movimentos sociais, p. 31. 9 Folha de S.Paulo,
10, 11, 14 e 15 de novembro de 1974. 10 O general Moraes Rego atribuiu 
derrota da seleo um peso relativo no resultado eleitoral. Depoimento
do general Gustavo Moraes Rego, em A volta aos quartis, organizado por
Maria Celina dAraujo, Glucio Ary Dillon Soares e Celso Castro, p. 57.
  E A AUTONOMIA SEPULTADA 471 Na segunda-feira, dia 18, saram do SNI e
chegaram a Geisel trs anlises do resultado eleitoral. Diferentes e
conflitantes, refletiam a um s tempo a perplexidade dos hierarcas e a
anarquia instalada no Servio. Uma atribuiu os resultados a catorze
fatores. Primeiro, a alta do custo de vida, conseqncia de dois tipos
de inflao, a "importada" (culpa do mundo) e a"herdada" (culpa de
Medici). Depois, condenou a Arena (culpa dos civis) contaminada por
alguns dirigentes de mau passado (culpa do Petrnio) ou mau presente
(culpa do Petrnio, de novo), O surrado partido governista foi chamado
de inautntico e omisso, acusado de ter lanado candidatos sem
prestgio, desgastados e ultrapassados. Registrava-se tambm a "atuao
das esquerdas em prol dos candidatos do MDB reconhecendo-lhe uma
campanha "bem articulada e inteligente Se houvera algum erro da parte
do governo, estivera na falta de comunicao. Mesmo banal, essa anlise
do SNI listava dois importantes "ensinamentos e concluses":
"reestruturar a Arena" e "trabalhar para as prximas eleies" Outra
anlise negava legitimidade ao resultado: "Para que o voto atingisse seu
verdadeiro papel, seria mister que fosse livre, mas tambm, e sobretudo,
que fosse esclarecido Negava, ainda, equilbrio ao processo: "A
legislao eleitoral, ao considerar padres de um formalismo democrtico
inexistente, por opo consciente, na realidade brasileira, estimulou o
voto de protesto, que beneficia a oposio" Dito isso, reinterpretava o
resultado: "O MDB organizou amplo movimento de contestao que penetrou
nos lares atravs de servios pblicos de rdio e televiso, estes
atualmente com imenso alcance popular, para a rendosa tarefa da
desinformao Concluso: "Apresentam-se sombrias as perspectivas de
evoluo da situao poltica nacional, tudo a indicar que, alm da
fixao de novos parmetros de comportamento poltico, possa o governo
sentir-se futuramente obrigado a medidas extremas destinadas a garantir
a continuidade do processo revolucionrio"i2 11 Anlise da chefia do
SNI, de 18 de novembro de 1974, visada por Geisel. APGCS/HF. 12
Apreciao Sumria, do SNI, de 18 de novembro de 1974. Esse documento
destinava-se  leitura de Geisel, em cujo arquivo foi conservado, O
pargrafo com a parte conclusiva est quase todo sublinhado. AEG/CPDOC.
  472 A DITADURA DERROTADA O terceiro papel mostrava o cabo da faca:
"Tem sido possvel detetar no seio da oficialidade das trs foras
armadas uma interrogao de como pretende o governo atuar, no caso em
que a oposio procure desenvolver temas contestatrios aos princpios
da Revoluo de 31 de Maro de 1964"13 A artilharia do SNI associava-se
a um documento de dez itens, entregue no mesmo dia pelo ministro da
Marinha, almirante Henning. A culpa, sem dvida, era da Arena, mas a
oposio, ressalvada a existncia de uma corrente moderada no MDB, no
era o que se pensava. Assim: O MDB est se transformando, de partido de
oposio, em partido de contestao, face  infiltrao crescente de
elementos subversivos. A dialtica comunista vem, perante a opinio
pblica, desacreditando a Revoluo, dando a entender que ela representa
a ditadura militar permanente, que dever ser substituda por um regime
democrtico (socialista de esquerda)" Diagnosticada a doena, prescrevia
o remdio: Segundo noticirio da imprensa, os tribunais eleitorais
julgaro, aps as eleies, os pronunciamentos dos candidatos durante a
campanha eleitoral. Seria essa uma oportunidade de se expugnarem os
partidos polticos dos elementos que tenham feito declaraes
contestatrias ao regime. [...j Tal medida, no entanto, s alcanaria o
efeito desejado se idntica providncia fosse tomada em relao aos
candidatos da Arena que se tiverem revelado omissos, incapazes ou
corruptos.14 Era uma proposta de golpe embutida num truque. Sugeria uma
onda de cassaes, com base no AI-5, fingindo que a tarefa ficaria nas
mos da Justia Eleitoral. Prova disso estava na impossibilidade lgica
de um juiz condenar arenistas por "omissos" ou "incapazes A Marinha
propunha um surto semelhante ao de 1965, quando Castelo Branco,
emparedado, rea13 Consideraes sobre a Situao Interna, da chefia do
gabinete do SNI, de 18 de novembro de 1974. AEG/CPDOC. 14 Duas folhas
datilografadas, com a anotao de Heitor: "Documento da Marinha,
18-11-74. Entregue pelo ministro APGCS/HF.
  A AUTONOMIA SEPULTADA 473
  briu o processo de cassaes. Salvo a surpresa de Geisel diante do
verbo expugnar (sinnimo de cassar) esse documento no produziu maiores
conseqncias, nem revelava uma articulao dos ministros militares.
  Geisel se encontrou com o ministro do Exrcito quando j estava
dissolvido o receio da maioria do MDB na Cmara. A Arena caminhava para
fechar uma bancada de 204 deputados contra 160.
  O general Sylvio Frota tinha uma pergunta:
  "E agora?"
  "Agora vamos ganhar a prxima, que  uma eleio municipal, onde se
elege a base do sistema poltico, que  o prefeito", respondeu o
presidente. 5
  Noutra conversa dissera-lhe: "Pilote l sua rea"16 E assim fez o
general. Manteve-se calado e quando teve de falar, por conta da rotina
dos pronunciamentos militares, leu uma ordem do dia semiliterria
lembrando que o Exrcito "foi sempre fiel ao povo, do qual nunca se
separou27
  Comeava-se a construir um caso clssico de orfandade da derrota. A
votao da Arena declinara em relao a 1970. Perdera 9% dos votos para
o Senado (o MDB crescera 2 1,4%) e 7,5% na Cmara (contra um crescimento
de 16,5% do MDB).8 Para quem no queria ver no resultado uma
manifestao da vontade popular, eram trs os responsveis. Para os mais
valentes, pela ordem: Geisel, Golbery e Petrnio. Para os menos
corajosos: Petrnio, Golbery e Geisel.
  Geisel culpou o povo: "No considero eleio um julgamento.  uma
reao. O eleitorado  muito despreparado e no se informa. No entende
de governo. [...] Eu tenho a conscincia tranqila de que fiz tudo o que
era possvel fazer nestes oito meses. Tenho trabalhado como um burro9
  15 Ernesto Geisel, novembro de 1988. 16 Didrio de Heitor Ferreira, 18
de novembro de 1974. 17 Folha de S.Paulo, 19 de novembro de 1974, p. 6.
18 Maria dAlva Gil Kinzo, Legal opposition politics under authoritarian
rule ir, Brazil, p. 155. 19 Dirio de Heitor Ferreira, 20 e 24 de
novembro de 1974.
  474 A DITADURA IaERROTADA Figueiredo foi alm: "[...J Povo de merda,
que no sabe votar".20 Nessa linha, Heitor Ferreira perguntou a Golbery:
"Que esperar de um eleitorado assim, de um povinho assim?" "Que melhore,
praticando",2 respondeu o general, culpando o regime. "O povo no est
com a Revoluo."22 Petrnio culpou o impondervel: "No agrido fatos"
"No vi o invisvel e no previ o imprevisvel23 Tantas foram as
construes destinadas a explicar a derrota e atribuir culpas, que
Heitor Ferreira se saiu com a seguinte: "O MDB ganhou porque os
eleitores foram s urnas, cada um depositou uma cdula. Quando essas
cdulas foram contadas, havia mais votos para os candidatos do MDB ao
Senado do que para os da Arena. Fora disso, no tenho explicao"24
Entre todas as explicaes, encorpava-se aos poucos a mais simples e
mais antiga. Aquilo teria sido coisa dos subversivos. O velho senador
sergipano Leandro Maciel, que a Marinha chamava de "desacreditado",
admitiu a derrota com elegncia para a imprensa ("Venceu o melhor")25
mas tinha outra conversa para Geisel. Apontava o dedo vermelho: "Aos
olhos fechados da polcia arregimentou-se, com toda a agressividade, o
comunismo". Aproveitou a oportunidade para informar que eram comunistas
o bispo de Propri, o chefe do distrito da Superintendncia do Vale do
So Francisco e o diretor de uma escola agrcola federal.26 Esse tipo de
construo deslizaria aos poucos para dentro do regime, mas, nas semanas
que sucederam ao resultado, Geisel preservou a disciplina, tanto entre
os militares como entre as vivandeiras. Ningum, nem 20 Figueiredo a
Heitor Ferreira, 4 de dezembro de 1974. APGCS/HF. 21 Bilhete de Heitor
Ferreira para Geisel, sem data, anotado por Golbery. APGCS/HF. 22 Dirio
de Heitor Ferreira, 9 de dezembro de 1974. 23 Petrnio Portella,
novembro de 1974, e Folha de S.Paulo, 21 de novembro de 1974. 24 Heitor
Ferreira, novembro de 1974. 25 Veja, 27 de novembro de 1974, pp. 20-30.
26 Carta de Leandro Maciel a Geisel, de 25 de novembro de 1974.
APGCS/HF.
  A AUTONOMIA SEPULTADA 475 o comando da Marinha com seu plano de golpe,
props que se virasse imediatamente a mesa.27 O resultado eleitoral
abichornou Golbery e Heitor Ferreira. Na segunda-feira seguinte 
eleio, Heitor anotou: "Vamos cuidar do jardim. "28 De fato, nesses
primeiros dias Geisel s tratou com ele de vencimentos de letras de
cmbio, de depsitos bancrios e da m paginao dos decretos que o
chanceler Silveira lhe trazia, sem espao onde coubesse sua
assinatura.29 O chefe do Gabinete Civil quisera passar  ofensiva.
Props a Geisel que falasse ao pas antes do trmino oficial das
apuraes. Na minuta que preparou, lia-se: "Reconforta-me, sobremaneira,
o reconhecimento geral, partido at mesmo, para honra deles prprios, de
setores antes dos mais contestadores, de que o governo estimulou to
magnfico espetculo de maturidade poltica democrtica e buscou
assegurar o maior respeito  consciente deciso de cada cidado [...j
sobretudo dos mais humildes, tradicionalmente arregimentados e coagidos
pelo poderio econmico esmagador, quando no pelo exerccio desnudo do
autoritarismo mais despudorado"3 Geisel pensou no assunto durante uma
semana e decidiu ficar calado. Pela primeira vez o presidente se ops de
forma irredutvel a uma sugesto insistente de Golbery.3 Depois de ter
sido derrotado nas urnas, o chefe do Gabinete Civil via-se batido no
palcio. s vsperas da eleio, convencido de que a tortura tolhia a
liberdade de ao poltica do governo, Golbery chegara a redigir uma
nota oficial 27 Dirio de Heitor Ferreira, 28 de novembro de 1974. 28
Idem, 18 de novembro de 1974. 29 Idem, 26 de novembro de 1974. 30 Uma
folha datilografada, emendada por Golbery e anotada por Geisel a Heitor
Ferreira: Projeto de Pronunciamento que no Foi Feito. APGCS/HF. Esse
trecho foi includo na mensagem de fim de ano de Geisel. 31 Dirio de
Heitor Ferreira, 21 e 28 de novembro de 1974.
  476 A DITADURA DERROTADA tratando do assunto.32 Entregue a Geisel,
nunca mais foi vista. Golbery sentiu que comeava a lhe faltar cho.
Encurtando a conversa, informou a Heitor: "Ir embora, eu no devo ir".33
Seu discpulo tambm sofria e se queixava ao dirio: "Conversar com meu
amigo presidente da Repblica est ficando penoso. Para ele, mas para
mim tambm. No  mais o mesmo homem"34 Surgiam novas estrelas. Uma era
a do general Hugo Abreu. Ele incomodava Golbery quando expandia sua ao
alm dos assuntos estritamente militares. Em seguida  eleio. props a
derrubada de Petrnio e sua substituio pelo senador Jarbas Passarinho,
ex-ministro da Educao de Medici.35 Patrocinou candidatos  presidncia
da Cmara e do Senado. Foi dele a melhor anlise escrita da derrota.
Registrou a influncia da carestia ("Os preos no param de crescer,
mesmo quando se fala em conteno ou controle da inflao") e culpou os
candidatos da Arena ("Acreditaram- se nomeados").36 Queria uma nova
reunio do Alto-Comando das Foras Armadas.37 Temia, sem estridncia,
que um setor da oficialidade pendesse para as teses da oposio. Sugeriu
a reformulao da poltica de comunicao do governo, at porque uma
censura "inadequada" teria favorecido o MDB.38 Oficiais sob sua
jurisdio chegaram a produzir um documento tcnico, analisando uma fala
do presidente. Criticaram o encadeamento desordenado dos pargrafos e
at a impropriedade da cor de seu terno claro.39 32 Para o tolhimento e
a nota, sete folhas manuscritas de Heitor Ferreira, intituladas
Presidente Geisel e HF em 12 de Novembro de 1974, na Secretaria
Particular. APGCS/HF. Heitor registra a existncia da nota tambm em
Dirio de Heitor Ferreira, 14 de novembro de 1974. 33 Dirio de Heitor
Ferreira, 10 de dezembro de 1974. 34 Idem, 26 de dezembro de 1974. 35
Idem, 19 de novembro de 1974. 36 Onze pginas, intituladas Anlise
Sucinta das Eleies de 15-11-74, de 3 de dezembro de 1974. APGCS/HF. 37
Dirio de Heitor Ferreira, 4 de dezembro de 1974. 38 Onze pginas,
intituladas Anlise Sucinta das Eleies de 15-11-74, de 3 de dezembro
de 1974. APGCS/HF. 39 Expediente do Conselho de Segurana Nacional
intitulado Anlise do Discurso do Presidente Proferido em 30-12-74.
APGCS/HF.
  A AUTONOMIA SEPULTADA 477 A outra estrela era Armando Falco. Geisel
viria a despachar com ele semanalmente, diferenciando-o dos demais
ministros, a quem recebia duas vezes por ms.4 Falco chegara ao
Ministrio da Justia pela f que Golbery tinha em sua capacidade de
cumprir ordens, mas surpreendera o padrinho indo busc-las sobretudo no
gabinete do presidente. No que se distanciasse, apenas procurara uma
faixa prpria, mais prxima dos generais do que de Petrnio Portella.
Estava acampado abaixo das linhas amigas. Geisel lhe recomendara que
freqentasse os ministros militares, e ele o fez com gosto. Bastaram
poucas semanas para que a questo dos desaparecidos o afastasse de
Golbery. Enquanto o general queria investigar o caso, sem esconder essa
vontade aos jornalistas com quem conversava, Falco preferia evitar a
explorao do assunto, "por motivos bvios Tornara-se conhecido pelo
que mais tarde chamaria de "montono estribilho": "Nada a dec1arar4 A
principal conseqncia do resultado eleitoral foi o sepultamento do
projeto autnomo de distenso. Valendo-se da maioria de dois teros do
Congresso, Geisel poderia reformar a Constituio como bem entendesse.
Abrandaria alguns dispositivos do AI-5, criaria as salvaguardas que
julgasse convenientes e iria em frente.42 Essa maioria estava perdida.
Com 244 deputados e senadores, faltavam agora ao governo 44 cadeiras. O
MDB, com 186 congressistas, batera com folga a marca dos 144 votos
necessrios para bloquear projetos de alteraes constitucionais. A lei
da fidelidade partidria, criada para acorrentar a Arena ao Planalto,
impedia que se fabricasse uma dissidncia oposicionista. A nova
composio do Congresso obrigava o projeto de reforma poltica a passar
pela oposio, coisa para a qual Geisel nunca se preparara. O governo
no tivera um plano concreto de reformas constitucionais. Em 1974,
Heitor Ferreira propusera a prorrogao, por um ano, do mandato dos
deputados eleitos em novembro, para evitar que o sucessor de Geisel
fosse escolhido com uma Cmara nova, mas a sugesto no vol40 Dirio de
Heitor Ferreira, 3 de abril de 1975. 41 Armando Falco, Tudo a declarar,
pp. 325 e 334-5. 42 Dirio de Heitor Ferreira, 17 de maio de 1975:
"Pensvamos nisso e numa infinidade de outras coisas, mas depois das
eleies de 15 de novembro [.1".
  478
  A DITADURA DERROTADA
  tou a ser discutida.43 Mais tarde, o presidente revelaria que
trabalhava com diversas idias, inclusive a da criao de um sistema
parlamentar unicameral. 44 Viu-se forado a recomear do zero.
  O governo ficara preso nos mecanismos construdos para bloquear a
oposio. O deputado Etelvino Lins, respeitado alquimista de Braslia
defensor da incorporao do AI-5  Constituio, aconselhou uma fuga
para a frente. Sugeriu que se aproveitasse o recesso parlamentar,
convocando-se extraordinariamente o Congresso para votar um projeto de
reforma institucional. Esse expediente daria a uma legislatura arenista
e caduca atribuies que se queria negar aos eleitos do dia 15 de
novembro. Geisel decidiu parar o jogo: "Como no fizemos dois teros do
Congresso, vou deixar a Constituio como est a.  essa que o povo
quer,  essa que fica".45 Meses mais tarde explicaria melhor sua reao:
"Desisti e abandonei todos os projetos. Agora  fazer fora no campo
econmico, tomar as decises econmicas necessrias a longo prazo e ver
depois o que d".46 Com o MDB retrado e os comandantes militares em
silncio, o regime parecia absorver a plula amarga. No entanto, ao
contrrio do que supuseram o general Hugo Abreu e o SNI, a indisciplina
da tropa no partiu de um novo elo com a oposio, mas de onde sempre
partira, desde 1964: das foras de represso.
  Faltava pouco para o meio-dia de quarta-feira, dia 20 de novembro. A
professora Maria da Conceio Tavares, uma economista portuguesa de 44
anos, eloqente e incansvel, que vivia no Brasil fazia quase vinte,
estava no aeroporto do Galeo. Ia para Santiago do Chile, sede da Co-
  43 Cinco folhas de Heitor Ferreira para Golbery, datadas de 28 de
julho de 1974, intituladas Um Detalhe Eleitoral para o Modelo Poltico
Brasileiro. Geisel anotou: "Bom exercicio Golbery opinou: "Voc tem
razo, O chefe est preocupado com o assunto. Mas s depois da eleio e
de Sentir a composio do Congresso, examinando a possibilidade de
reforma constitucional, poderemos nos fixar no assunto. Take it easy 44
Didrio de Heitor Ferreira, 17 de maio de 1975. 45 Idem, 26 de novembro e
24 de novembro de 1974. 46 Idem, 17 de maio de 1975.
  A AUTONOMIA SEPULTADA 479 misso Econmica para a Amrica Latina,
organismo das Naes Uni- das do qual era funcionria. Assistente do
professor Octvio Gouva de Bulhes, lecionava no curso de ps-graduao
de economia da Fundao Getulio Vargas. Era respeitada no meio acadmico
por seu trabalho intitulado "Auge e declnio do processo de substituio
de importaes no Brasil"47 Custica e interminvel, era respeitada em
todos os meios por ter previsto, em 1971, o colapso da bolsa de valores.
Conceio achegou-se ao balco da Polcia Federal suspeitando de algo.
Uma amiga lhe contara que, durante um interrogatrio, em So Paulo,
haviam-lhe mostrado sua fotografia. Fora ao aeroporto com a filha. Na
hiptese de um imprevisto, ela deveria buscar um contato com o ministro
Severo Gomes, a quem conhecera por intermdio de amigos comuns. "A
senhora tem que me acompanhar disse-lhe o funcionrio da Polcia
Federal a quem entregara o passaporte.48 Severo foi avisado e avisou
Golbery. Com quem Golbery falou, no se sabe, mas a resposta vinda do 1
Exrcito foi assombrosa. No havia ningum preso com aquele nome. Maria
da Conceio tinha desaparecido.49 Do aeroporto, fora levada ao prdio
da Polcia Central, na rua da Relao. No fim da tarde, encapuzada,
estava deitada no cho de um automvel, a caminho do DOI da Baro de
Mesquita. J na primeira noite dormiu nua numa das frias, brancas e
iluminadas celas inglesas. Teve de limpar a prpria urina. Tomou alguns
cachaes.5 Durante um interrogatrio, mencionou sua condio de
professora e relacionou o ministro Reis Velioso entre seus ex-alunos. O
oficial respondeu: "Pode ser professora at do Geisel, que daqui voc
no sai". Nesse momento Maria da Conceio assustou-se.5 47 Trata-se da
primeira parte do livro Da substituio de importaes ao capitalismo
financeiro Ensaios sobre economia brasileira, pp. 27-124, editado pela
primeira vez em 1972. 48 Maria da Conceio Tavares, fevereiro de 1998.
49 Dirio de Heitor Ferreira, de 26 de novembro de 1974, com o registro
de que, nesse dia, Figueiredo narrou a Golbery aspectos do episdio. 50
Maria da Conceio Tavares, fevereiro de 1998. 51 Idem.
  480 A DITADURA DERROTADA Dois lances de sorte haviam-na favorecido. Um
policial do aeroporto dissera a sua filha que ela fora para a sede da
Polcia Federal, e um amigo a vira l. Logo, existiam testemunhas de sua
priso. Esses depoimentos levaram Golbery a Geisel, e do que
conversaram, sobreviveu o registro de Heitor Ferreira: "Golbery disse a
Geisel que  a segunda vez que mentem a respeito das prises. Hbito
adquirido"52 O CIE era onipotente. Dois dias antes, o prprio SNI
avisara: "A bem da verdade  necessrio que se afirme ter sido observada
uma falta de coordenao entre os centros de informaes militares ou
at mesmo entre o CIE e os D015 ou, o que ser mais nocivo, uma falta de
confiana em informar aos escales superiores a verdade quando um
elemento  preso para averiguao73 Construo tpica da anarquia. Uma
tropa que prende um cidado e no avisa os superiores - nem mesmo o
presidente da Repblica - no est descoordenada, mas insubordinada.
Quanto  "falta de confiana" dos carcereiros em seus superiores, pouco
importava que fosse "nociva" Era indisciplina. Geisel irritou-se com o
episdio e desabafou com Golbery: "Tenho que botar metade do Exrcito no
olho da rua. [}  possvel que a essa hora voc e eu sejamos o inimigo
desse nosso pessoal"54 Eram, e foi isso que Mano Henrique Simonsen
contou a Conceio: "Tudo aquilo era contra o Geisel".55 Pouco tempo
depois, quando a professora teve de fazer outra viagem ao exterior, o
professor Bulhes, ministro da Fazenda de Castello Branco, disse-lhe:
"Voc no vai para o aeroporto sozinha. [...j Eu vou falar com o Mano e
ele te manda com a segurana dele" Conceio narrou seu embarque: "Com a
segurana do Mano, fui direto para o avio".56 52 Dirio de Heitor
Ferreira, 20, 21 e 28 de novembro de 1974. 53 Consideraes sobre a
Situao Interna, do SNI, de 18 de novembro de 1974. AEG/CPDOC. 54
Dirio de Heitor Ferreira, 20 e 21 de novembro de 1974. 55 Idem, 21 de
novembro de 1974. 56 "Porque amei Octvio Bu1hes entrevista de Maria
da Conceio Tavares  revista Insight Inteligncia, julho-setembro de
2001, p. 145.
  A AUTONOMIA SEPULTADA 481 A derrota de novembro dividiu o regime de
maneira irremedivel. A deciso de Geisel (" isso, e pronto") inibiu o
caminho de um futuro "golpe dentro do golpe", e sua firmeza nos dias
seguintes evitou a corroso da autoridade presidencial numa repetio do
desgaste que abateu Castello em 1965 ou Costa e Silva em 68. A vitria
do MDB mostrou-lhe o que no poderia fazer, mas ningum sabia o que
deveria ser feito. O automvel do ministro da Fazenda levava para o
aeroporto uma ex-presa do DOl do 1 Exrcito, mas um documento da
secretaria geral do Conselho de Segurana Nacional reclamava porque
Geisel registrara num discurso a boa conduta do MDB durante a campanha.
O Gabinete Militar atacou o texto, sabidamente preparado por Golbery, e
o idioma: "As referncias polticas relativas ao comportamento do MDB
quanto a seu comedimento e autodisciplina, fugiu  realidade
pr-eleitoral, conforme disseminado pelo SNI".57 A "lenta, gradativa e
segura distenso" dependeria da capacidade do general Ernesto Geisel de
impor o seu comando  anarquia que regressava aos bivaques dos
granadeiros. 57 Mao de 34 pginas com o texto da mensagem de fim de ano
de Geisel. Guardou-se o rascunho de Golbery e a cpia manuscrita que
dele fez o presidente. Esse texto repete longos trechos do
pronunciamento que Geisel no quis fazer em novembro. Sete folhas da 3
Subchefia do Conselho de Segurana Nacional, de 2 de janeiro de 1975.
APGCS/HF.
  1
  APNDICE BREVE NOMENCLATURA MILITAR i Patentes So as seguintes as
patentes dos oficiais das Foras Armadas: MARECHAL (cinco estrelas)
Patente honorfica, extinta no governo Castello. Ao passarem para a
reserva, os generais-de-exrcito eram promovidos ao marechalato. Em 1975
eles eram 73* GENERAL-DE-EXRCITO (quatro estrelas)  a patente mais
alta dos oficiais da ativa. Em 1964 o Exrcito tinha catorze
quatro-estrelas. Quatro em comandos de exrcitos, um na chefia do
Estado-Maior e outros quatro na chefia dos departamentos
administrativos. Juntos, formavam o Alto-Comando. Um oficial pode ter
quatro estrelas e ficar sem funo, assim como pode ter funo (o
comando da Escola Superior de Guerra, por exemplo) e no pertencer ao
Alto-Comando. (Essa patente corresponde  de almirante-de-esquadra na
Marinha e tenente-brigadeiro na Fora Area.) GENERAL-DE-DIVISO (trs
estrelas) Em 1964 eram 31.** Em 1975, 42. Os trs-estrelas comandam as
divises de tropas (a 1 Diviso de Infantaria, da Vila Militar, por
exemplo). Ocupam as vice-chefias do Estado-Maior e dos departamentos.
Tambm chefiam as Regies Militares. (Corresponde ao vice-almirante e ao
major-brigadeiro.) * At 1968, quando morreu, o marechal Mascarenhas de
Moraes foi mantido no servio ativo, por deciso do Congresso. Era uma
homenagem ao comandante da Fora Expedicionria Brasileira. **
Computaram-se os engenheiros militares (dois), mdicos (um),
veterinrios (um) e intendentes (um).
  484 A DITADURA DERROTADA GENERAL-DE-BRIGADA (duas estrelas) Em 1964
eram 73. Em 1975, 93. Um general de duas estrelas pode comandar uma
unidade importante, como a Brigada Pra-Quedista, ou uma diretoria
burocrtica. Em 1964 a idade mdia dos generais-de-brigada ficava em
pouco menos de 54 anos. (Corresponde ao contra-almirante e ao
brigadeiro.) Pela reforma de 1967, devida ao presidente Castello Branco,
nenhum oficial pode permanecer mais de doze anos na ativa como general.
Alm disso, cada uma das patentes deve ter 25% de seu quadro renovado a
cada ano. Essas normas vigoram at hoje. CORONEL Em 1964 o Exrcito
tinha 340 coronis em funes consideradas militares. Em 1975, 408. Na
tropa, o coronel comanda um regimento. (Corresponde ao
capito-de-mar-e-guerra da Marinha.) Pela reforma de Castello nenhum
coronel pode permanecer menos de sete e mais de nove anos na patente.
TENENTE-CORONEL Comanda um batalho. Patente em que se ficava em torno
de cinco anos. A etiqueta militar d aos tenentes-coronis o tratamento
de "coronel (Corresponde ao capito-de-fragata da Marinha.) MAJOR
Comanda um batalho. (Corresponde ao capito-de-corveta da Marinha.)
CAPITO Comanda uma companhia. Em 1975 o Exrcito tinha cerca de 2 mil
capites. TENENTE Comanda um peloto. Na mdia, de cada cem tenentes,
seis chegam a general. 2 Estrutura No Exrcito convivem duas estruturas.
Uma, diretamente relacionada com as tropas de combate,  bastante
simples. Outra, na qual est a burocracia,  mais complexa.  a seguinte
a estrutura de uma tropa de combate, vista de baixo para cima: PELOTO
Tem um efetivo que pode variar entre trinta e cinqenta homens. 
comandado por um tenente. COMPANHIA Trs pelotes formam uma companhia.
Tem de cem a 150 homens.  comandada por um capito.
  APNDICE 485 BATALHO Trs companhias formam um batalho. Seu efetivo
oscila de trezentos a 450 homens, comanda- dos por um major ou
tenente-coronel. REGIMENTO Trs batalhes formam um regimento. Tem entre
mil e 1500 homens e  comandado por um coronel. BRIGADA  uma unidade de
composio mista, sempre comandada por um general de duas estrelas. Seu
efetivo pode variar entre 5 mil e 10 mil homens. DIVISO Um nmero
varivel de brigadas e regimentos agrupam-se numa diviso. Essa  a
principal unidade combatente. Rene tropas das diferentes Armas. Nelas,
as tropas de infantaria e de artilharia ficavam sob o comando de
generais numa Infantaria Divisionria (ID) e numa Artilharia
Divisionria (AD). EXRCITO Conhecido como "grande comando", agrupa
todas as tropas de uma determinada regio geogrfica. Os exrcitos
estavam assim divididos: 1 Exrcito, com jurisdio sobre as tropas do
Rio (onde ficava o seu comando), Minas Gerais e Esprito Santo; II
Exrcito, incluindo So Paulo (sede do comando) e Mato Grosso; III
Exrcito, incluindo o Rio Grande do Sul (sede do comando, em Porto
Alegre), Santa Catarina e Paran, e IV Exrcito, com sede no Recife,
englobando todos os estados do Nordeste. Alm desses grandes comandos
ocupados por quatro-estrelas, havia dols outros, sob as ordens de
generais-de-diviso: Comando Militar da Amaznia, com sede em Manaus, e
Comando Militar do Planalto, com sede em Braslia e jurisdio sobre o
Distrito Federal e Gois. Existiam tambm onze Regies Militares,
comandadas por generais-de-diviso. A regio cuida essencialmente do
apoio logstico ao Exrcito em cuja rea se situa. Eram as seguintes as
Regies Militares: l EM, com sede no Rio de Janeiro; 2 RM, com sede em
So Paulo; 3 RM, com sede em Porto Alegre; 4S EM, com sede em Juiz de
Fora; 5 RM, com sede em Curitiba; 6 RM, com sede em Salvador; 7 RM, com
sede no Recife; 8 RM, com sede em Belm; 9 RM, com sede em Campo Grande;
10 EM, com sede em Fortaleza, e 1 l EM, com sede em Braslia.
  CRONOLOGIA
  488 A DITADURA DERROTADA
  GEISEL E GOLBERY
  1883 Wilhelm August Geisel chega ao Brasil. Tem 16 anos. Fixa-se em
Estrela (Rs). Anos depois casa-se com Ldia Beckmann. 1900 Nasce Amlia
Geisel. 1905 Nasce Orlando Geisel. 1907 Nasce Ernesto Geisel. A famlia
vivia em Bento Gonalves. Augusto  oficial do cartrio. 1911 Nasce
Golbery do Couto e Silva.  filho de uma famiia de prateiros de Rio
Grande. Seu pai faz experincias medinicas. 1919 Augusto Geisel acerta
no milhar (5852). 1920 Augusto Geisel d aos filhos as obras de Jlio
Verne. 1921 Ernesto Geisel vai para a Escola Militar de Porto Alegre.
1925 Ernesto Geisel ingressa na Escola Militar de Realengo. 1927 Golbery
vai para a Escola Militar de Realengo. 1930 Ernesto Geisel, seu irmo
Orlando e Golbery participam da Revoluo.
  POLTICA
  1888 Abolida a escravido. 1889 Proclamada a Repblica. 1895 Termina a
Revoluo Federalista: 10 mil mortos. 1897 O Exrcito cerca, toma e
destri Canudos: mais de 5 mil mortos. 1898 Borges de Medeiros assume o
governo do Rio Grande do Sul. 1904 Revolta da Vacina, no Rio. 1906 Greve
geral em Porto Alegre. 1910 Revolta da Chibata, no Rio. 1912 Rebelio
dos posseiros no Contestado. Termina em 1915, com a caada aos sobre-
viventes. 1916 Comea o servio militar obrigatrio. 1922 Fundado o
Partido Comunista do Brasil. Rebelio do Forte Copacabana. 1924 Revolta
militar em si. Comea a Coluna Prestes. 1930 Washington Lus  deposto.
Getulio Vargas torna-se presidente.
  93
  1939 1931 Geisel e sua tropa so enviados para com bate um levante no
Recife. 1932 Geisel e Golbery combatem a Revoluo Constitucionalista.
Pela primeira vez atiram contra alvos de verdade. 1935 Depois de ter
sido secretrio da Fazenda da Paraba, Geisel vem para o Rio. Conhece o
coronel lcio Souto. Geisel bombardeia a Escola de Aviao, toma d pelos
comunistas. Golbery se casa com Esmeralda Fierro. 1936 Golbery 
suspeito de ligaes comunistas. 1937 Morre Ldia, me dos irmos
Geisel. Geisel est pronto para bombardear a Escola de Aviao, caso
resista ao golpe de Vargas. O capito Golbery passa pela Diretoria do
Material Blico e pela secretaria geral do Con selh de Segurana
Nacional. 1938 Geisel conclui em primeiro lugar o curso de
aperfeioamento de oficiais com nota 9,48.
  1932 Revoluo Constitucionalista em si. Lanado o Manifesto
Integralista. 1934 Promulgada a Constituio. Prev eleies em 1937.
Greves operrias no Rio e em So Paulo. 1935 O Exrcito domina a revolta
comunista no Rio, no Recife e em Natal. Cerca de 120 mortos. So presas
7 mil pessoas. 1936 A polcia prende Luiz Carlos Prestes. Hitler
recomenda ao embaixador Moniz de Arago: "O Brasil no deve ter piedade
dos comunistas O ministro da Guerra, general Dutra, defende medidas
"impiedosas" contra os comunistas. 1937 Vargas torna-se ditador. 1938
Revolta Integralista. 1939 Criado o Departamento de Imprensa e
Propaganda. Comanda a censura e glorifica Getulio, o Pai dos Pobres.
  i88o 1930
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
  CRONOLOGIA 489
  1892 Inaugurada a primeira linha de bondes eltricos no Rio. 1897
Funciona no Rio o primeiro cinema. Chama-se Animatgrafo Super Lumire.
19000 Brasil tem 17,4 milhes de habitantes. O Rio de Janeiro, 811 mil;
So Paulo, 239 mil, e Porto Alegre, 73 mil. 1905 Inaugurada a avenida
Rio Branco. 1914 Primeiro vo So Paulo-Rio. O piloto Edu Chaves gastou
pouco mais de 4 horas. 1918 Epidemia da gripe espanhola. Mata 30 mil
pessoas no Rio e em So Paulo. 1922 Semana de Arte Moderna em So Paulo.
19300 Brasil tem 37,6 milhes de habitantes. O Rio de Janeiro, 1,5 mil;
So Paulo, 887 mil, e Porto Alegre, 394 mil. O Exrcito tem 30 generais,
2300 tenentes e 45 mil homens. A expectativa de vida do brasileiro  de
39 anos para homens e 42 anos para mulheres.
  1901 Theodore Roosevelt assume a presidncia dos EUA. 1908 Instituda
a jornada de 8 horas nas minas inglesas. 1914-1918 Primeira Guerra
Mundial. 1916 Morre o imperador Francisco Jos, da ustria. 1917
Revoluo na Rssia. O czar  preso. 1918 Institudo o voto feminino da
Inglaterra. O czar  morto. 1921 Einstein ganha o Nobel de Fsica. 1922
Mussolini toma o poder na Itlia. Spengler publica A decadncia do
Ocidente. 1929 Stalin comea sua matana na URSS. Crash de Wall Street.
1930 Entre 1930 e 1932, com a participao dos militares, so derrubados
os governos dos seguintes pases: Brasil, Argentina, Bolvia, Chile,
Equador, El Salvador, Panam e Peru. Ditaduras governam Rssia, Itlia,
Portugal, Grcia e Turquia.
  1931 Inaugurado o Cristo Redentor. o governo defende o preo do caf
queimando parte de sua produo. Essa poltica perdura at 1944. Chega
ao Brasil a misso de sir Otto Niemeyer para propor reformas econmicas.
Vargas suspende o servio da dvida. 1933 O Zeppelin passa pelo Rio.
1934 Fundada a Universidade de So Paulo. A Constituinte cria as frias
obrigatrias de 15 dias para os trabalhadores sindicalizados. A bancada
industrial  contra. Artur de Souza Costa assume o Ministrio da
Fazenda. Ficar at 1945. Um recorde. 1936 Inaugurada a linha area
Rio-So Paulo. 1937 Morre Noel Rosa. Vargas suspende o servio da
dvida. 1938 Vargas estatiza as jazidas petrolferas. O Estado Novo paga
a construo do prdio da Associao Brasileira de Imprensa.
  1931 AI Capone vai para a cadeia. 1932 O Japo invade a China. O
professor Oliveira Salazar torna-se ditador de Portugal. 1933 Franklin
Roosevelt assume a presidncia dos Estados Unidos e lana o New Deal.
Hitler torna-se chanceler da Alemanha. 1934 Terror na URSS. 1935 Leis
anti-semitas na Alemanha. 1936 A Itlia anexa a Etipia. Charles Chaplin
faz Tempos modernos. Comea a Guerra Civil Espanhola. John Maynard
Keynes comea a publicar sua Teoria geral do emprego, do juro e da
moeda. 1939 O general Francisco Franco entra em Madri. Terminou a Guerra
Civil Espanhola. O cardeal Eugenio Pacelli  eleito papa. Ser Pio xii.
Hitler invade a Polnia, comea a Segunda Guerra Mundial.
  490 A DITADURA DERROTADA
  GEISEL E GOLBERY
  1940 Aos 34 anos Ernesto Geisel se casa com sua prima Lucy, de 23. Vo
morar numa penso (na Tijuca) como Golbery (no Catete). Nasce Orlando
Geisel Sobrinho. 1941 Geisel e Golbery vo tirar o curso de
estado-maior. 1943 Geisel  promovido a major. Ele e seu irmo Orlando
so mantidos fora da FEB. 1944 Golbery chega aos EUA, para o curso
intensivo do estado-maior americano. Vai para a Itlia, integrando a
FEB. No ouve um s tiro. 1945 Nasce Amlia Lucy Geisel. Geisel comanda
os blindados que depem Vargas. Vai para o Gabinete Militar do novo
governo, chefiado por lcio Souto. 1947 O major Golbery vai para a
Comisso Militar no Paraguai. Fica at 1950. Geisel conhece Humberto
Barreto. Geisel vai para o Uruguai como adido. Fica at 1950.
  POLTICA
  1945 Roosevelt manda seu amigo Adolf Berle para a embaixada dos EUA no
Brasil. Deposto Vargas. Vai para sua fazenda em So Borja. O Pc13 obtm
a legalidade. O Brasil reata com a URSS. O general Eurico Dutra  eleito
presidente. O general lcio Souto  o chefe de seu Gabinete Militar.
1946 Diz o ministro da Guerra, Goes Monteiro: A primeira bomba atmica
foi jogada em Hiroshima e a segunda em Nagasaki, a terceira e a quarta
no atol de Bikini, mas a quinta, a sexta, stima e oitava podem muito
bem cair na Rssia". Instala- se a Assemblia Constituinte. 1947 O
Brasil rompe relaes com a URSS. Cassado o registro do PCB. 1948
Cassados os parlamentares comunistas. 1949 Criada a Escola Superior de
Guerra.
  1950 Geisel  nomeado para o EMFA. 1951 Golbery  promovido a
tenente-coronel e vai para a seo de informaes do EME. 1952 Golbery e
Geisel vo para a ESG. 1953 Golbery comea suas palestras na ESG. Geisel
 promovido a coronel. 1954 Golbery redige o Memorial dos Coronis,
contra Vargas. Geisel se recusa a assin-lo. Diz que  indisciplina.
Golbery redige o Manifesto dos Generais, pedindo a renncia de Vargas.
1955 Geisel vai para a subchefia do Gabinete Militar. Orlando Geisel
apia o golpe de Lott. Ernesto fica contra. Os dois se afastam. Autor do
discurso que provocou a crise de novembro, Golbery  preso. Geisel 
nomeado comandante do Regimento Escola de Artilharia. Quatro meses
depois vai ser superintendente da refinaria de Cubato.
  1950 Getulio Vargas  eleito presidente. 1951 Vargas dobra o valor do
salrio mnimo. 1952 Assinado o Acordo Militar Brasil-EuA. Criada a
Conferncia Nacional dos Bispos do
  Brasil. 1953 Jnio elege-se prefeito de So Paulo. Vargas nomeia Joo
Goulart, de 35 anos, para o Ministrio do Trabalho. 1954 Vargas volta a
dobrar o valor do salrio
  mnimo. Pistoleiros contratados pela guarda pessoal de Vargas tentam
matar o jornalista Carlos Lacerda. Erram o tiro, e morre um major.
Getulio Vargas se mata. Assume o vice-presidente Caf Filho. 1955
Juscelino Kubitschek derrota o general Juarez Tvora e  eleito
presidente. Lacerda quer um golpe contra JK. O general Lott depe o
presidente Carlos Luz e impede o retorno do titular, Caf Filho.
  194 1950
  1950 1955
  CRONOLOGIA 491
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
  19400 Brasil tem 41,2 milhes de habitantes. o Rio de Janeiro, 1,7
milho; So Paulo, aproximadamente 1 milho, e Porto Alegre, 300 mil.
Assinado o acordo para a construo da usina de Volta Redonda. Os EUA
garantem 20 milhes de dlares. Aos 23 anos, Roberto Campos perde a
virgindade num bordel da Lapa, com uma loura chamada Natasha. Vargas
concorda em negar vistos consulares aos judeus da Europa. Nos anos
seguintes, simular receb-los. 1941 O DIP probe O grande ditador, de
Charles Chaplin. 1943 Vargas assina a CLT. 1944 Friedrich Hayek publica
O caminho da servido. 1946 Guimares Rosa publica Saga rana. 1948 Chega
ao Brasil a Misso Abbink, mandada pelo Tesouro americano para propor
reformas econmicas.
  1940 A Frana capitula. Winston Churchill  escolhido premi. 1941
Hitler invade a URSS. Os japoneses atacam Pearl Harbor. 1943 Os EVA
invadem a Itlia. Mussolini cai. 1944 Os Aliados desembarcam na
Normandia. 1945 Os russos instalam um governo polons fantoche em
Lublin. Criados o FMI e o Banco Mundial. Os americanos destroem
Hiroshima e Nagasaki. O Japo se rende. Termina a Segunda Guerra
Mundial. 1946 Discursando nos EVA, Churchill cria a expresso "Cortina
de Ferro 1947 James Burnham publica Luta pelo mundo. Diz que a nova
guerra j comeou. Walter Lippmann usa a expresso "Guerra Fria 1948
Truman lana o Plano Marshall. Maurice McDonald abre a primeira loja de
sanduches, na Califrnia. 1949 Mao toma o poder na China.
  19500 Brasil tem 51,9 milhes de habitantes. O Rio de Janeiro, 2,3;
So Paulo, 2,1, e Porto Alegre, 394 mil. Na dcada a expectativa devida
do brasileiro passar de 45,9 anos para 52,4. Quase dois teros da
populao vivem no campo. Um em cada dois adultos  analfabeto.
Inaugurada a Via Dutra. Inaugurada a refinaria de Mataripe. Uruguai 2,
Brasil 1. A Copa  deles. 1951 Seca no Nordeste. 1952 Criado o BNDE.
Adhemar Ferreira da Silva ganha a medalha de ouro no salto triplo nas
Olimpadas de Helsinque. 1953 Vargas sanciona a lei que cria a
Petrobrs. Graciliano Ramos publica Memrias do crcere. 1955 O Brasil
entra num ciclo de progresso indito em sua histria. At 1960 o PIB
crescer uma mdia de 8,1% e a renda per capita, 4,8%.
  1950 O mundo tem 2,5 bilhes de habitantes, com 480 milhes de
crianas desnutridas. O embaixador americano George Kennan escreve um
telegrama em que informa que na Amrica Latina no h base para regimes
democrticos. Comea a Guerra da Coria. 1952 A Europa retoma o
crescimento econmico. Exaure-se o avano da esquerda, iniciado em 1945.
1953 Eisenhower na presidncia dos EVA. Morre o marechal Stalin. Vivem
sob regimes comunistas 800 milhes de pessoas. Termina a Guerra da
Coria. 1954 Treze das vinte naes latino-americanas tm governos
controlados por militares. Comea a Guerra da Arglia. A Revue Militaire
dinformation publica o artigo "0 papel ideolgico do Exrcito do
general Lionel Max Chassin.
  492 A DITADURA DERROTADA
  1956 Golbery  promovido a coronel, vai para a seo de operaes do
EME. Geisel deixa a refinaria de Cubato. Vai comandar o 2 Grupo de
Canhes de Quitana. 1957 Aos 16 anos, morre Orlando Geisel Sobrinho.
Foi atropelado por um trem, em Quitana. Ningum viu o acidente. Geisel
vai para a chefia da seo de informaes do EME e encontra Golbery na
seo de operaes. Geisel  nomeado representante do Exrcito no
Conselho Nacional do Petrleo. Conhece o economista Jesus Soares
Pereira. Comea sua briga com as refinarias particulares, sobretudo com
a de Capuava. 1958 A Biblioteca do Exrcito publica Planejamento
estratgico, coletnea das conferncias de Golbery na ESG. 1959 Golbery
est no grupo de militares que assessora a campanha de Jnio Quadros.
  POLTICA
  1956 1K assume. Lana o Programa de Metas. Oficiais da FAJ3 rebelam-se
contra o governo. Rendem-se diante da possibilidade de confronto com a
tropa legalista. 1957 Greve geral em So Paulo, param 400 mil
trabalhadores, durante 10 dias. 1958 Surgem as Ligas Camponesas. O PCB
adquire um estatuto de semilegali dade.
  1K impede que Lacerda fale na TV. Lucas Lopes assume o Ministrio da
Fazenda com o propsito de cortar gastos e controlar a inflao. Comea
a inflexo da Juventude Universitria Catlica para a esquerda. Disso
advir a AP. 1959 Fidel Castro visita o Brasil. O rinoceronte Cacareco
consegue 90 mil votos na eleio municipal de So Paulo. Nova rebelio
de oficiais da FAB. Rendem-se em trs dias.
  1960
   Golbery assume a chefia da seo de operaes do EMFA. Comanda uma
mesa.  Orlando Geisel assume a chefia do gabinete do ministro da
Guerra, Odylio Denys.  Ernesto Geisel assume a chefia da seo de
informaes anexa ao gabinete de Denys. Diz ao ministro que no concorda
com a presena de oficiais comunistas em comandos.  A refinaria de
Capuava oferece ajuda  cam panha de Lott, desde que tire Geisel do
Conselho Nacional do Petrleo.  Geisel recusa um convite de Lacerda
para a Secretaria de Segurana do Rio. Sugere Golbery, que tambm
recusa.  Geisel manda apurar uma denncia de que o servio de rdio do
Exrcito foi usado para ajudar a campanha do marechal Lott.  Geisel
redige e o chefe do EME, general Zeno Estillac Leal assina uma denncia
do avano comunista no Brasil.
  Fevereiro Jnio Quadros vai a Cuba. Promete fazer uma reforma agrria.
Abril 1K inaugura Braslia. A obra custou o equivalente a 2,3% do PNB e
simboliza o otimismo dessa poca. Agosto Em clima de semilegalidade, com
noticirio na imprensa, o PCB realiza no Rio o seu v Congresso. Os
comunistas buscam uma aliana com a burguesia nacional. Outubro Jnio
Quadros elege-se com 5,6 milhes de votos (48%), e Joo Goulart fica na
Vice-Presidncia. Carlos Lacerda elege-se governador da Gua nabara.
  Os martimos e os ferrovirios fazem a Greve da Paridade. Pedem
equiparao com os militares.  1K manda um bilhete ao ministro da
Guerra para designar o general Olympio Mouro Filho como adido em
Lisboa. O papel  engavetado.
  GEISEL E GOLBERY 1956-
  1959
  CRONOLOGIA 493
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
  1956 Inaugurada a fbrica de caminhes da Mercedes-Benz, iniciados os
estudos para a construo da refinaria de Caxias e a obra da barragem de
Trs Marias. Instalado o Grupo Executivo da Indstria Automobilstica.
Joo Cabral de Melo Neto publica Morte e vida severina. 1957 A
Volkswagen do Brasil produz sua primeira Kombi, com 50% de peas
nacionais. Escalado um novo atacante na seleo brasileira. Chama-se
Pel e tem 16 anos. 1958 O Brasil  campeo mundial de futebol. 1959
Circula o primeiro fusca. Inaugurada a ponte area Rio-So Paulo. Criada
a Sudene. O Brasil termina a dcada com 70 milhes de habitantes. O PIB
cresceu 9,8%, a inflao, 39,4%. Joo Gilberto grava "Chega de saudade
  1956 Nikita Kruchev, secretrio-geral do Partido Comunista Sovitico,
denuncia os crimes de Stalin. Rebelio na Hungria contra o governo
comunista. Kruchev manda invadir o pas. Fidel Castro desembarca em
Cuba. 1957 Existem 71 cidades com mais de 1 milho de habitantes (duas
no Brasil). Em 1914 eram 16, nenhuma no Brasil. A URSS pe em rbita o
primeiro satlite artificial.  o Sputnik. Pesava 83 quilos. A Revue
Militaire dInformation publica seu nmero especial La Guerre
Rvolutionnaire. 1958 Uma rebelio militar derruba a Repblica Francesa.
De GaulIe vai formar um novo governo e um novo regime. Morre o papa Pio
xii.  eleito Joo xxiii. S h cinco ditaduras na Amrica Latina. 1959
Fidel Castro entra em Havana. Joo xxiii convoca o Conclio Ecumnico.
   O Brasil tem 598 mil aparelhos de televiso. Os LUA tm 85 milhes.
 O Rio tem 147 favelas, com 337 mil mora-
  dores.  Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitam o Rio, Salvador
e So Paulo.  O economista Igncio Rangel publica Elementos de economia
do projetamento.  Criada a Organizao dos Pases Exportadores de
Petrleo. Rene apenas cinco naes: Arbia Saudita, Ir, Iraque, Kuwait
e Venezuela.  considerada uma entidade intil. O barril custa US$ 1,50.
 Comea nos Estados Unidos a comercializao da plula
anticoncepcional.  Nos cinemas, La dolce vita, de Federico Fellini, e
Psicose, de Alfred Hitchcock.  O alemo Armin Hary corre 100 metros em
10 segundos.
   A China se afasta da URSS.  Che Guevara comea a escrever A guerra
de guerrilhas.  Comeam as manifestaes de estudantes americanos
negros contra a segregao racial em lugares pblicos. Abril O Senegal
torna-se independente.  o processo de descolonizao da frica. Maio
Israel captura o nazista Adolf Eichmann, que vivia como operrio em
Buenos Aires. Vai julg-lo e enforc-lo em Tel Aviv. Junho A Blgica d
a independncia ao Congo. Patrice Lumumba, de 35 anos, assume o governo.
 deposto em setembro e assassinado em janeiro. Julho Fidel Castro
confisca as refinarias americanas de petrleo em Cuba. Outubro
Independncia da Nigria. Novembro John Kennedy  eleito presidente dos
Estados Unidos.
  494 A DITADURA DERROTADA
  Fevereiro Golbery vai para o Conselho de Segurana Nacional. Opera no
Rio e tem sob suas ordens o spici. Maro Geisel  promovido a general.
Recebe o Comando Militar de Braslia. Junho Golbery articula a criao
de um sistema de segurana interna unificando os aparelhos policiais
civis e militares. Agosto Com a renncia de Jnio, Geisel  nomeado
chefe do Gabinete Militar do presidente interino Ranieri Mazzilli.
Golbery redige o manifesto em que os ministros militares vetam o retorno
de Goulart e a sua posse num regime presidencialista. Setembro Geisel
combina com Tancredo a sua ida ao Uruguai para conferenciar com Jango.
Geisel recebe Jango em Braslia. Golbery  exonerado do CSN. Leva
consigo uma parte do fichrio do SFICI. Transferido para a Paraba, vai
para a reserva.
  Janeiro Geisel  nomeado comandante da Artilharia Divisionria da 52
Diviso de Infantaria, em Curitiba. Fevereiro Jango transfere o coronel
Golbery para a reserva. Com direito a duas promoes, ele se torna o
General Golbery. Maro Tancredo Neves l uma palestra na ESG. O texto 
de Golbery. Junho Golbery vai para o ws. Monta uma mquina de
informaes e organiza o fichrio, ampliando o acervo que levara do
srici. Setembro O comandante do iii Exrcito, Jair Dantas Ribeiro,
ordena a prontido de suas tropas para forar o Congresso a convocar um
plebiscito. Geisel telegrafa a Jair insinuando que ela  desnecessria.
 exonerado e vai comandar uma mesa no Departamento de Proviso Geral.
Sem muito o que fazer, Geisel ajuda nos deveres escolares da filha e
dedica-se  leitura, inclusive da Bblia.
  Janeiro Jnio assume a Presidncia e, para desencanto dos
conspiradores de 1954 e 1955, mantm Odylio Denys no Ministrio da
Guerra. Maio Francisco Julio, das Ligas Camponesas, vai a Cuba e pede
ajuda a Fidel. Agosto Jnio pede ao Gabinete Militar que estude um plano
de anexao das Guianas. Jnio renuncia. Acha que voltar ao poder. Os
ministros militares vetam a posse de Joo Goulart, que acaba de visitar
a China Comunista e est em Cingapura. A tropa do Sul no aceita o veto
a Jango. Orlando Geisel manda bombardear o palcio Piratini. 
desobedecido. Setembro Jango aceita o parlamentarismo, desce em Braslia
e toma posse. Tancredo Neves  escolhido primeiro-ministro. Novembro
Liderados por Azevedo Antunes, da mineradora Icomi, e por Antonio
Gallotti, da Light, o empresariado funda o Ips.
  Fevereiro Num racha do PCB (sovitico) surge o pc do B (chins). Abril
Jango vai a Washington e v Kennedy. Junho A esquerda catlica funda a
AP. Tancredo renuncia ao cargo de premi. Saques na Baixada Fluminense:
42 mortos. Julho Criado o Comando Geral dos Trabalhadores, o CGT.
Kennedy decide colocar no baralho a carta do golpe militar no Brasil.
Atentado contra o Congresso da UNE, em Petrpolis, com a participao de
militares. Criado o 132 salrio. Setembro Greve geral contra o regime
parlamentarista. Outubro Eleies parlamentares em que o governo
americano gastou entre 1 milho e 5 milhes de dlares. O empresariado
deu a seus candidatos algo como 20 milhes de dlares. Foi a eleio
mais corrompida da histria.
  1961
  GEISEL E GOLBERY POLTICA
  1962
  r
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
  CRONOLOGIA 495
   O Brasil bate a marca de 1 milho de aparelhos de TV.  O ndice de
nacionalizao das Kombis e fuscas chega a 95%. e O Brasil produz 350
mil geladeiras, com quase 100% de nacionalizao. Em 1956 produzia 160
mil, com 47% de nacionalizao.  Nelson Rodrigues estria O beijo no
asfalto.  Sai o livro Latin American issues, de Albert Hirschman. Nele,
num artigo, Roberto Campos cunha os termos estruturalismo e monetarismo
para a anlise da inflao. Janeiro O banqueiro baiano Clemente Mariani
 escolhido ministro da Fazenda. Maro Jnio desvaloriza a moeda. O
dlar, que custava Cr$ 90,00, passa a valer Cr$ 200,00. Outubro Jango
cassa as concesses ilegais de jazidas  empresa americana Hanna.
Dezembro A esquerda controla a CNTI.
  Janeiro Os EUA rompem relaes com Cuba. Posse de John Kennedy. Aos 43
anos,  o mais jovem presidente da histria. Fevereiro Rebelio angolana
contra Portugal. Maro Kennedy apresenta a Aliana para o Progresso.
Pretendeimpulsionar reformas na Amrica Latina e conter a influncia
cubana. Abril O sovitico Yuri Gagarin torna-se o primeiro homem a
entrar em rbita e informa: "A Terra  azul Uma fora de exilados
treinada pela CIA invade Cuba e se rende em 48 horas. Maio Com a ajuda
da dA, oficiais dominicanos matam Rafael Trujillo, no poder desde
  1930. Agosto A Alemanha comunista ergue o Muro de Berlim, smbolo da
Guerra Fria. Outubro Nikita Kruchev tira o corpo de Stalin da cripta do
mausolu da praa Vermelha. Transfere-o para um gramado lateral, onde
esto outros tmulos de soviticos ilustres.
   Tom Jobim e Vinicius de Moraes compem "Garota de Ipanema  O
pagador de promessas, de Anselmo Duarte, ganha a Palma de Ouro em
Cannes. e No fim do ano, o Brasil tem 400 mil funcionrios pblicos. Em
1959 tinha 300 mil. Junho Criada a Eletrobrs. Setembro O banqueiro
Walter Moreira Salles, principal interlocutor do governo com o
empresariado, deixa o Ministrio da Fazenda. Criado o Ministrio do
Planejamento. Ser ocupado por Celso Furtado. Dezembro Anunciado o Plano
Trienal. Pretende levar a inflao para o patamar de 10% em 1965.
  O governo concede um aumento de pouco mais de 50% no salrio mnimo.
Surgem no Brasil as sandlias Havaianas.  O ano termina com 52% de
inflao e um crescimento do PIB de 8,6%.
  Fevereiro Criado o Colgio Interamericano de Defesa, em Fort McNair,
nos EUA.  parte da rede de treinamento de militares latino-americanos
contra guerrilhas urbanas e rurais. Militares argentinos depem o
presidente Arturo Frondizi. Julho Depois de cinco anos de guerra, a
Arglia torna-se independente. Kennedy muda sua poltica e resolve
reconhecer o governo de militares peruanos que derrubaram o presidente
Manuel Prado. Agosto Os russos colocam, em segredo, msseis nucleares em
Cuba. Outubro Os americanos descobrem os msseis russos e bloqueiam
Cuba. Os russos retiram os foguetes em troca da promessa de que Cuba no
ser invadida. Nesses dias a guerra nuclear esteve por um fio de cabelo.
Comea o Conclio Ecumnico. Os Beatles gravam seu primeiro disco.
  496 A DITADURA DERROTADA
  GEISEL E GOLBERY
   Geisel rene rotineiramente um pequeno grupo de ficiais
antijanguistas em sua casa. Encontram-se quase sempre s quintas-feiras.
 Orlando Geisel  matriculado na ESG. Tomar cerca de dez caronas nas
promoes a general- de-diviso.  Golbery e Heitor Ferreira selecionam
livros e artigos para serem editados com recursos do IPS. Trabalham
juntos na edio brasileira de Anmal farm, de George Orwell.  Muricy
conta a Orlando Geisel que o general Mouro Filho planeja rebelar-se
contra o governo de Joo Goulart e ouve: "Voc  louco, Muricy. Amanh o
Jango sabe que voc est conspirando". Junho Golbery prev as manobras
janguistas. Numa de suas Estimativas para a direo do us diz que o
presidente poder tentar ampliar a durao de seu mandato, "se no mesmo
a reeleio".
  POLTICA
   O jornalista Carlos Leonam cunha a expresso "esquerda festiva",
variante daquilo que se autodenominava "esquerda positiva".  Surge o
Comando de Caa aos Comunistas (ccc). Janeiro Um plebiscito restabelece
o regime presidencialista. Abril A CNBB teme "subverses imprevisveis
dos valores democrticos". Julho Numa pesquisa do IBOPE em 10 grandes
cidades, Jango tem 35% de avaliao tima ou boa, 41% de regular e 19%
de m ou pssima. Setembro Carlos Lacerda defende um golpe militar
contra Jango. Castello Branco assume a chefia do EME. Outubro Jango
tenta colocar o pas em estado de stio, v-se isolado e recua. Fracassa
uma tentativa de seqestro e priso de Lacerda por oficiais
pra-quedistas do "dispositivo" do governo.
  1964
  Janeiro/Fevereiro Geisel reluta, mas acejta ligar-se a Castello Branco
na conspirao. No gostava dele por irnico e "arestoso". Maro 30
Golbery e Geisel assistem na casa de Castelo ao discurso de Jango. 31
Geisel e Golbery passam o dia num apartamento, com Castello. Abril
Geisel tenta evitar a cassao de Jesus Soares Pereira. No consegue.
Castelo nomeia Geisel para a chefia do Gabinete Militar. Junho Golbery
projeta, cria e assume o SNT. Agosto Incio de uma inimizade. Lacerda
faz ataques a Golbery na TV. Setembro Geisel vai ao Nordeste para apurar
denncias de tortura. Inaugura a doutrina da "pedra limpa". O que houve
 passado, desde que no haja novos casos. Novembro Geisel vai a
general-de-diviso.
  Janeiro Em Moscou, Prestes assegura a Nikita Kruchev: "Se a reao
levantar a cabea, ns a cortaremos de imediato". Maro 31 O general
Mouro Filho se rebela. Abril IQ Costa e Silva proclama-se "comandante
do Exrcito Nacional". 2 Jango est deposto. 9 Baixado o Ato
Institucional. Cassados 40 mandatos. 11 Castello Branco  eleito
presidente. Junho Aos 27 anos, o capito Heitor Ferreira, assistente de
Golbery, comea o seu Dirio. O Congresso prorroga por um ano o mandato
de Castello, at 15 de maro de 1967. Setembro O Correio da Manh comea
sua campanha contra a tortura. Outubro Caduca o artigo punitivo do Ato
Institucional. Foram atingidas 4454 pessoas.
  1963
  CRONOLOGIA 497
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
  Janeiro San Tiago Dantas assume o Ministrio da Fazenda. Junho San
Tiago Dantas deixa a Fazenda.  substituido por Carvalho Pinto. Julho
Surge o eurobnus.  um prenncio da internacionalizao do sistema
financeiro. Setembro Um dos diretores da mineradora Hanna informa ao
Departamento de Estado que vai jogar bruto Contra Joo Goulart. Dezembro
Ney Galvo substitui Carvalho Pinto na Fazenda.  o quinto ministro em
27 meses. Fundado no final de 1961 com 80 membros, o IPS tem 500
scios. Esto nos seus conselhos 27 dos 36 dirigentes da FIESP.  O ano
fecha com os seguintes indicadores econmicos: Inflao de 79,9%.  a
maior da histria. Crescimento do PIB de 0,6%.  a menor taxa desde
1947, quando comeou o clculo sistemtico do produto interno.
   O Brasil tem 79,8 milhes de habitantes. O Rio de Janeiro, 3,6; So
Paulo, 4,5, e Porto Alegre, 770 mil. Janeiro Jango sanciona a Lei de
Remessa de Lucros votada pelo Congresso. Abril Castello entrega o
comando da economia a Octvio Gouva de Bulhes (Fazenda) e Roberto
Campos, que ir para o Ministrio do Planejamento. Maio A Sumoc acaba
com os subsdios. Julho Castello baixa a frmula para o clculo dos
reajustes salariais. (Seu autor  Mano Henrique Simonsen.) Surge a
expresso "arrocho salarial". Agosto Institui-se a correo monetria.
Setembro Apesar da crise, a Volkswagen revela que bateu seu recorde de
produo. Dezembro Criado o Banco Central.  O ano termina com a
inflao em 92,1%. A economia cresce 3,4%.
   Jorge Masetti, amigo do Che Guevara, lana um foco guerrilheiro na
Argentina. A idia de Guevara era juntar-se a ele. Janeiro De GaulIe
impede a entrada da Gr- Bretanha no Mercado Comum Europeu. Abril Na
Guatemala, o general Ydgoras Fuentes  deposto por um golpe militar.
Maio Uma expedio de 35 peruanos treina- dos em Cuba interna-se na
selva. Junho Morre o papa Joo xxlii. O cardeal Montini torna-se Paulo
vi. Julho O presidente Arosemena  deposto pelos militares no Equador.
Agosto O pastor Martin Luther King Jr. diz em Washington: "Eu tenho um
sonho". Setembro Um golpe militar derruba o presidente Juan Bosch, da
Repblica Dominicana. Novembro John Kennedy  assassinado. Assume o
vice-presidente, Lyndon Johnson.
  Abril Desmancha-se a guerrilha guevarista da Argentina. Jorge Masetti
desaparece na mata. Junho Organiza-se na Colmbia a guerrilha do
Exrcito de Libertao Nacional. Agosto O presidente Johnson recebe
poderes para ampliar a presena americana no Vietn. Outubro Nikita
Kruchev  deposto na Unio Sovitica. Assume um triunvirato em que
prevalece Leonid Brejnev. Os trabalhistas ganham a eleio inglesa.
Harold Wilson torna-se primeiro-ministro, iniciando um predomnio que
durar seis anos. Novembro Golpe na Bolvia. Assume o general Ren
Barrientos. Dezembro Juan Pern deixa a Espanha, onde vivia exilado. E
voa para a Argentina. Ao fazer escala no Galeo,  barrado e obrigado a
voltar. Martin Luther King Ir. ganha o Prmio Nobel da Paz.  o apogeu
da luta dos negros americanos pelos seus direitos civis.
  498 A DITADURA DERROTADA
  GEISEL E GOLBERY
  Fevereiro Golbery acha que Costa e Silva no dura no Ministrio da
Guerra. Golbery e Geisel tentam impedir a realizao das eleies
marcadas para outubro. Maro Geisel a Golbery: "Vamos terminar com um
Costa e Silva". Golbery: " uma soluo de borra, mas  uma soluo".
Maio Golbery vai a Washington. Fica uma semana. O biombo  uma reunio
da OEA. Meados do ano Geisel se rene com Lacerda. Junho Golbery tenta
prorrogar Castello. Julho Golbery liga um gravador em sua sala. Agosto
Golbery acha que a eleio da Guanabara pode levar a uma interveno
federal.  candidato a interventor. Geisel a Heitor: "Eu acho que vamos
ter que colocar essa nossa democracia na geladeira". Outubro Geisel diz
a Castello que ele deve demitir Costa e Silva. Quando percebe que isso
no acontecer, comenta: "O outro arrastou as fichas".
  POLTICA
  Maro Contra a opinio de Geisel e Golbery, Castello decide manter o
calendrio eleitoral. Em outubro sero escolhidos 11 governadores. O
ex-coronel Jeiferson Cardim invade o Rio Grande do Sul com 22
combatentes.  cercado e preso.  preso o editor nio Silveira. Ele se
encontrar com Golbery em junho. Junho Castello libera Golbery e Geisel
para tratar de sua prorrogao. Depois recua. Numa conversa com um
governador, Castello chama Lacerda de "crpula". Outubro Negro de Lima
 eleito governador da Guanabara e Israel Pinheiro, de Minas Gerais.
Notcias de rebelio na Vila Militar. Castello baixa o AI-2. Dissolve os
partidos e torna indireta a eleio de seu sucessor. Os crimes polticos
vo para a Justia Militar. Dezembro Lanada a candidatura do general
Costa e Silva  Presidncia.
  1966
  Janeiro Geisel quer acabar com o posto de general-de-exrcito. Geisel
insiste: sendo candidato, Costa e Silva deveria ser demitido. Geisel e
Golbery resolvem sair do governo. Fevereiro Golbery: "Eu prefiro o
showdown, e que o Costa e Silva d o golpe e assuma o poder agora a que
haja uma eleio que coo- neste tudo e difira por um ou dois anos o
golpe e a ditadura". Maio Geisel e Golbery pedem demisso. Golbery manda
Heitor limpar os arquivos. Geisel diz que quer passar para a reserva.
Agosto Desanimado, Heitor Ferreira abandona parcialmente seu Dirio.
Novembro Geisel vai a general-de-exrcito. Golbery prepara o expediente
para cassar Lacerda. Costa e Silva tira o corpo fora. Dezembro Golbery:
"S guarda segredo quem no sabe".
   Osvaldo Orlando da Costa, Osvaldo, chega ao Araguaia, mandado pelo
ic do B. Janeiro Costa e Silva embarcando para a Europa: "Vou ministro
e volto ministro". Fevereiro Lincoln Gordon deixa a embaixada americana
no Brasil.  sucedido por John Tuthill, que reduz a presena americana.
Castello torna indiretas as eleies para governadores. Maro Protestos
no Rio, em So Paulo e Belo Horizonte. Explode a primeira bomba da AP no
Recife. Junho Enquanto Geisel e Golbery ficam no governo, o marechal
Cordeiro de Farias vai-se embora. Julho Atentado a bomba contra Costa e
Silva no aeroporto dos Guararapes, no Recife. Outubro O Congresso elege
Costa e Silva. Novembro 1K e Lacerda encontram-se em Lisboa. Unem-se na
Frente Ampla.
  1965
  CRONOLOGIA 499
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
   Surge a minissaia. Janeiro O FMI abre um crdito de 125 milhes de
dlares para o governo brasileiro. Quebra em st o grupo Jafet, um dos
maiores do pas. Fevereiro Os governos do Brasil e dos EUA assinam um
acordo de garantia para os investimentos americanos. O governo fecha a
Panair do Brasil. A Varig fica com suas linhas internacionais. Abril Vai
ao ar a TV Globo. O Brasil tem 2,3 milhes de aparelhos de Tv. Estria a
pea Liberdade, liberdade. Maio Lacerda pede a demisso de Octvio
Gouva de Bulhes e de Roberto Campos. Quer uma mudana da poltica
econmico- financeira. Lanado nos Estados Unidos o primeiro satlite de
comunicaes.  o Early Bird.  O ano termina com uma inflao de 34,2%
e um crescimento do PIB de 2,4%.
  Fevereiro A polcia portuguesa mata o general oposicionista Humberto
Delgado. Com ele morre a brasileira Arajaryr Moreira de Campos. Maro
Chega ao Vietn a primeira tropa de combate terrestre americana. Abril
Um golpe de oficiais esquerdistas derruba o governo militar da Repblica
Dominicana. Johnson manda invadir o pas.  a primeira invaso americana
desde 1927. Castello a apia, manda uma tropa brasileira e ganha o
comando das foras de ocupao. Junho O coronel Boumdienne derruba e
prende o presidente argelino, Ben Bella. Agosto Quebra-quebra em Watts,
Los Angeles, 35 mortos e 4 mil prises. Novembro Sete meses depois de
ter desembarcado no Congo com uma pequena fora cubana, Che Guevara
foge. Passar quase um ano escondido na Tanznia e na Tchecoslovquia.
   Chico Buarque ganha o Festival da Cano com "A banda Junho Antonio
Delfim Netto  nomeado secretrio da Fazenda de So Paulo. O Citibank
lana, em Londres, o primeiro certificado de depsitos em dlares.
Agosto O ministro da Indstria e Comrcio, Paulo Egydio Martins, comenta
a onda de falncias e concordatas: "O perecimento" de certas empresas 
conseqncia de um processo de "seletividade e purificao Setembro
Criado o FGTS. Novembro Unificada a Previdncia Social, surge O INPS.
Como presidente eleito, Costa e Silva recusa- se a endossar a carta de
intenes que o ministro da Fazenda de Castelo negociara com o FMI. O
ano termina com 39,1% de inflao e 6,3% de crescimento do PIB.
  Janeiro Realiza-se em Havana a Conferncia Tricontinental. Fevereiro
Morre na selva colombiana o padre- guerrilheiro Camilo Torres. Maio
Comea em Xangai a "revoluo cultural" chinesa. Manifestao em
Washington contra a Guerra do Vietn. Junho Golpe militar na Argentina.
Assume o general Juan Carlos Ongana.  o quarto governo militar na
Amrica do Sul. Julho Fracassam duas tentativas cubanas de implantar uma
guerrilha na Venezuela. Setembro Comea a circular na China o Livro
vermelho do presidente Mao. Novembro De volta  Amrica Latina, Guevara
est nas montanhas bolivianas. Ronald Reagan, ex-presidente do Sindicato
dos Atores de Hollywood, elege-se governador da Califrnia.
  500 A DITADURA DERROTADA
  POLTICA
  1968
  Fevereiro Para desgosto da dA, o SNI suspende as interceptaes
telefnicas. Golbery publica Geopoltica do Brasil. Numa exposio ao
Alto-Comando, Golbery admite a possibilidade de um surto terrorista. O
general Medici sugere a Costa e Silva que nomeie Geisel para a
Petrobrs. Moraes Rego transferido para Tabatinga, Heitor Ferreira para
Ponta Por. Golbery e a poltica: "No tenho o que dizer". Maro
Castello nomeia Geisel para o STM e Golbery para o TCU. Julho Daniel
Krieger vai  casa de Castello e encontra Geisel e Golbery. Castello lhe
diz que teme um golpe. Agosto Golbery diz a O Jornal que segurana
nacional nada tem a ver com ditadura ou militarismo. Outubro Os
ministros Geisel e Pery Bevilaqua se estranham no STM.
  Janeiro Promulgada uma nova Constituio. Maro Costa e Silva toma
posse. Abril O Exrcito desbarata a guerrilha brizolista de Capara.
Lyndon Johnson rene-se com Costa e Silva na conferncia de presidentes
de Punta del Este. Dir aos seus assessores que ele o impressionou. Maio
Criado o Centro de Informaes do Exrcito, o dE. Julho Castello Branco
volta de uma viagem  Frana, faz uma visita sentimental ao interior do
Cear, e morre num desastre de avio quando o Piper entra numa rea de
exerccio da FAB e  atingido por um jato. Outubro Costa e Silva: "A
plenitude democrtica est alcanada, resta consolid-la Novembro No
incio do surto terrorista, a ALN de Carlos Marighella assalta um carro
pagador e mata um fazendeiro em So Paulo.
  Janeiro Geisel e Golbery mantm-se afastados da poltica. Geisel
raramente v militares fora do STM. Afora o STM seu nico programa
regular  andar pela praia do Leblon, antes do sol forte. Maro Brigado
com o ministro do Exrcito, Lyra Tavares, Orlando Geisel deixa o comando
do Estado-Maior. Vai para o EMFA, onde comanda uma mesa. Setembro
Golbery se aposenta do Tribunal de Contas. Roberto Campos  convidado
para presidir a Dow Qumica no Brasil. No aceita e sugere que a empresa
convide Golbery, que  contratado como consultor. Novembro Confirmando
eu desempenho de juiz severo, Geisel nega um pedido de habeas corpus dos
estudantes Jos Dirceu de Oliveira e Silva e Luiz Travassos, presos em
Ibina. Dezembro Geisel apia a edio do AI-5.
  Maro Um PM mata o estudante Edson de Lima Souto durante uma
manifestao no Calabouo. Comea a agitao estudantil. Abril Greve
operria em Contagem (MG). Maio O governador paulista Abreu Sodr 
apedrejado num comcio articulado pelo PCB. Greves operrias em So
Bernardo e Osasco. Junho Passeata dos Cem Mil. Atentado a bomba ao QG do
Ii Exrcito. Morre o sentinela. Julho Comeam os atentados, com a
participao de militares, contra teatros. Setembro O deputado Marcio
Moreira Alves pergunta, num discurso: "Quando o Exrcito no ser um
valhacouto de torturadores? Outubro Presos 920 estudantes em Ibina,
onde se realizava o Congresso da UNE. Dezembro A Cmara nega licena
para que o governo processe Moreira Alves. Baixado o AI-5. A imprensa
fica sob censura.
  1967
  GEISEL E GOLBERY
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
  CRONOLOGIA 501
   A Texas Instruments produz a primeira calculadora de mo.  Lanado
o Movimento Tropicalista.  John Kenneth Galbraith publica O novo Estado
industrial.  Surge a palavra hippie.  Hlio Oiticica mostra suas
instalaes. Uma homenageia o bandido Cara de Cavalo: Seja marginal,
seja heri. Fevereiro Muda a moeda: um cruzeiro novo (Ncr$) vale mil
cruzeiros. O dlar vai de NCr$ 2,20 para NCr$ 2,70. Maro Antonio Delfim
Netto assume o Ministrio da Fazenda. Maio Os juros caem de 36% para 22%
ao ano. Setembro O FMI faz sua reunio anual no Rio. Novembro Concedida
a iseno de impostos para manufaturados destinados  exportao.
Dezembro Rveillon na casa de Heloisa Buarque de Hollanda.
  Abril Deposto o rei Constantino da Grcia. Ele foge com a mulher para
Roma, e uma junta de coronis assume. Meio milho de americanos
manifestam-se contra a Guerra do Vietn, no Central Park. Junho Guerra
dos Seis Dias. Israel entra em Jerusalm e toma  Sria as colinas de
Golan e o Sinai ao Egito. Comea na Nicargua a guerrilha sandinista.
Julho Quebra-quebra em Detroit, com 43 mortos e 1300 prdios destrudos.
 o 134w quebra-quebra do ano nos LUA. Outubro Manifestao em
Washington contra a Guerra do Vietn. Hippies vo ao Pentgono para
faz-lo levitar. Guevara  capturado e assassinado na Bolvia. Os EUA
tm perto de 500 mil homens no Vietn.
   O Brasil tem 278 mil estudantes universitrios. Em 1950 eram 53 mil.
Em 1964, 142 mil. Maio O governo brasileiro anuncia que no abrir mo
do seu direito de fabricar artefatos nucleares. Julho O papa Paulo VI
divulga a encclica Humanae Vitae, em que condena o uso de
anticoncepcionais. Dezembro O governo decreta a conteno das despesas
pblicas e baixa o Ato Complementar n2 40, aumentando a sua receita em
prejuzo dos estados e municpios. Presos (e depois exilados) Caetano
Veloso e Gilberto Gil.  O ano termina com um crescimento de 9,8% do PIB
e uma expanso de 15% na indstria e nas exportaes. Recorde de
produo de automveis e cimento. O maior nvel de emprego j
registrado. A inflao fecha em 25,5%.  o incio do Milagre Brasileiro.
  Janeiro O vietcongue lana a ofensiva do Tet.  repelido, mas vira a
opinio pblica. Comea a Primavera de Praga. Manifestaes estudantis
em Roma, Milo, Londres, Madri, Varsvia e Nanterre. Johnson diz que no
concorrer  reeleio. Maio Ocupada a Sorbonne. Agitao em Paris. De
Gaulle teme ser deposto. Junho Assassinado Robert Kennedy. De Gaulle
ganha a eleio francesa. Sua bancada vai de 38% para 46%. Julho
Primeiro seqestro de avio em vo internacional. O jato da El Ai ia
para Tel Aviv. Agosto Termina a Primavera de Praga. A URSS invade a
Tchecoslovquia, ocupa a capital e prende o governo. Outubro Golpe
militar no Peru. Assume o general Velasco Alvarado. Novembro Richard
Nixon  eleito presidente dos Estados Unidos.
  502 A DITADURA DERROTADA
  Janeiro O embaixador americano John Tuthill visita Golbery. O general
lhe diz que o AI-5 era "completamente desnecessrio". Acredita que ele
ser radicalizado e duradouro. Atribui o desfecho da crise  "inpcia do
governo, da falta de liderana do presidente". Depois de pedir demisso
do Exrcito, Heitor Ferreira vai para o Par, como funcionrio da Jari,
de Daniel Ludwig. Fevereiro Golbery e Candido Mendes tentam montar um
centro de estudos polticos. Maio Depois de uma pancreatite que quase o
mata, Geisel  operado. Pega hepatite e fica na cama at novembro.
Setembro Golbery acha que se Medici no aceitar a Presidncia, Orlando
Geisel tem chan ces.
  Novembro Geisel nomeado presidente da Petrobrs. O general Cacau de
Barros Nunes lhe diz: "Prepare-se para ser presidente".
  POLTICA
  Janeiro Cassados 39 parlamentares, trs ministros do STF e um do STM.
Maio Professores expulsos da us fundam o Cebrap. No grupo, Fernando
Henrique Cardoso. Julho Os conservadores prevalecem na CNBB. Agosto
Costa e Silva sofre uma isquemia cerebral. Assume uma junta militar.
Setembro Perodo de anarquia militar. O Alto- Comando do Exrcito
escolhe Medici para substituir Costa e Silva, com mandato de cinco anos.
Seqestrado o embaixador americano Charles Elbrick. Virglio Gomes da
Silva, da ALN,  preso em s e some.  o primeiro desaparecido depois da
edio do AI-5. Outubro Nova Constituio. Reaberto, o Congresso elege
Medici. Orlando Geisel  ministro do Exrcito. Novembro Morre Carlos
Marighella.
   Geisel se engaja num programa de encomendas de mquinas  indstria
paulista, mesmo que ela ainda no saiba faz-las. Janeiro Um ataque
cardaco mata o general Newton Reis, chefe-de-gabinete de Orlando
Geisel. Amigo de Ernesto e Golbery. Golbery organiza um jantar com
velhos amigos de Geisel. Um deles escreve: "Discutiu-se descaradamente a
idia da manobra [...j Acho que ainda vai ouvir muito a respeito".
Fevereiro O Jornal do Brasil informa que Golbery ser candidato a
governador do Rio de Janeiro. Ele nega. Abril Geisel passa por Belm e
convida Heitor Ferreira para ser seu chefe-de-gabinete na Petrobrs. O
convite no acontece.
  Maro O historiador Caio Prado Jnior  condenado a quatro anos e meio
de priso. O papa Paulo vi condena a tortura brasileira. Junho
Seqestrado o embaixador alemo Von Holleben.  trocado por 40 presos.
H no pas 500 presos polticos: 56% so estudantes cuja idade mdia 
23 anos. Depois de uma visita  seca do Nordeste, Medici anuncia a
abertura da rodovia Transamaznica, unindo o Maranho ao Acre. Seria o
eixo de um grande projeto de colonizao. Setembro Criados os DOIS.
Outubro D. Paulo Evaristo Arns  o novo arcebispo de So Paulo. Novembro
Eleies legislativas. O governo faz mais de dois teros da Cmara.
Dezembro Seqestrado o embaixador suo Giovanni Enrico Bucher. 
trocado por 70 presos.
  GEISEL E GOLBERY 1969
  1970
  CRONOLOGIA 503
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
   O governo informa que s falar sobre casos de corrupo quando as
investigaes estiverem concludas.  O The New York Times informa: "O
regime  antipatizado, mas o Brasil cresce Fevereiro Inaugurada a
estao de satlites da Embratel, em Itabora. Delfim Netto prev que a
economia crescer 10% no ano. Junho Lanado O Pasquim. Em dezembro sua
circulao chega a 250 mil exemplares. Comea a alta das bolsas de
valores. Setembro Estria o Jornal Nacional. A Junta Militar cria a
Embrafilme. Outubro Com Snia Braga no elenco, estria em So Paulo a
pea Hair. Dezembro Pel faz seu milsimo gol. Chico Buarque embarca
para a Itlia.  O ano termina com um crescimento de 9,5% do PIB e a
inflao em 20,1%.
   Onda terrorista na Itlia, com 398 aes e 19 mortos. Fevereiro Um
livro-bomba mata Eduardo Mondlane, primeiro presidente da Frente de
Libertao de Moambique. Junho Pancadaria no bar Stonewall. Os
homossexuais que freqentam o lugar enfrentam a polcia. Da em diante
28 de junho passou a ser o Dia do Orgulho Gay. Julho O astronauta
americano Neil Armstrong anda na Lua. Agosto Quatrocentos mil jovens
americanos juntam-se no festival de msica de Woodstock. Costa e Silva
afrouxa o bloqueio ao regime racista da frica do Sul e permite o pouso
de seus avies em aeroportos brasileiros. Dezembro Aproximando-se da
China, o governo americano reduz o bloqueio comercial que lhe impunha.
   Comea a construo, em Nova York, das duas torres do World Trade
Center. Junho Por 4 x 1 (confirmando o prognstico de Medici) o Brasil
derrota a Itlia, ganha o tricampeonato de futebol e traz a taa Jules
Rimet para o Brasil. (Ela foi roubada e derretida em 1983.) Julho Por
conta de um boato, as aes do Banco do Brasil sobem 15% num s dia. Sai
da fbrica o milionsimo fusca. Criado o pis, com o propsito de fazer
caixa para o governo e o objetivo de formar um peclio para os
trabalhadores.  Os EUA fecham o ano com um dficit de 9,8 bilhes de
dlares.  a primeira vez que isso acontece, desde 1888.  Segundo
grande ano do Milagre. Crescimento de 10,4% do PIB. Inflao em 19,3%. 
Chico Buarque compe "Apesar de voc".
   Dobra o nmero de mortos em atos terroristas no mundo. So 131. 
Soljenitzyn ganha o Nobel de Literatura. Fevereiro O secretrio de
Estado Henry Kissinger comea a se reunir secretamente em Paris com
emissrios do Vietn do Norte. Maio Terroristas argentinos seqestram e
matam o general e ex-presidente Pedro Aramburu. Julho Os Tupamaros
seqestram e matam o policial americano Dan Mitrione, que assessorava o
governo em assuntos de segurana. Setembro O socialista Salvador Ailende
 eleito presidente do Chile. Nixon decide derrublo. Vale arriscar e
gastar. Outubro A CIA manda armas a terroristas chilenos que planejam
matar (e matam) o comandante do exrcito do Chile, general Ren
Schneider.
  504 A DITADURA DERROTADA
  1971
  GEISEL E GOLBERY
  POLTICA
   Golbery recomenda a Heitor Ferreira que estude parapsicologia. 
Golbery recebe informaes do que acontece no 001 do 1 Exrcito por
intermdio do coronel Homem de Carvalho, comandante da PE. Janeiro
Segundo o general Figueiredo, numa reunio na granja do Riacho Fundo,
Medici decide fazer Geisel seu sucessor. Abril Golbery chefia um grupo
de ex-estagirios da ESG que prepara um documento sobre as relaes
Igreja-Estado. Junho Golbery escreve a Heitor Ferreira: "Cogita-se do
futuro sucessor [...]. (Moita!  preciso no queimar! -Alemo)". Julho
Moraes Rego na chefia do gabinete de Geisel. Outubro Golbery admite que
a prorrogao de Medici seria uma boa soluo. Novembro Heitor Ferreira
vem para o gabinete de Geisel. Recomea seu Dirio.
  Janeiro O general Humberto Mello, comandante do Exrcito em sp, manda
matar os militantes de organizaes terroristas.  candidato a
presidente. Fevereiro Ulysses Guimares assume a presidncia do MDB.
Est funcionando em- Petrpolis a "Casa da Morte administrada pelo dE.
Abril A polcia fornece agentes  Volkswagen. Maio Medici  rspido com
d. Paulo Evaristo durante uma audincia. O Senado americano realiza sua
srie de audincias sobre o Brasil. Agosto Medici vai  televiso e
anuncia que trar os ossos de d. Pedro 1 de volta ao Brasil. Setembro
Carlos Lamarca  morto. Dezembro Medici vai aos EUA, e Nixon diz que
"para onde o Brasil for, para l ir o resto do continente
latino-americano".
  1972
   Golbery torna-se presidente da Dow Qu mica.
  Janeiro Golbery a seus amigos: "Bico calado". Geisel no quer
aproximao com os oficiais da "linha dura". Fevereiro Geisel: "No
cabalo". Geisel sobre Figueiredo: "Tem aquele problema da espinha e
tambm do corao". O SNI veta a matrcula de um economista da Petrobrs
na ESG. Geisel atropela o veto. Maro Geisel diz que quer o general
Euler Bentes no Interior: "Uma excelente posio para ele ser o
seguinte, no fim dos cinco anos". Abril Comea a briga de Geisel com o
ministro de Minas e Energia, Antnio Dias Leite. Junho Orlando Geisel
diz que se o irmo for indicado, deixar o ministrio. Outubro Delfim
prope a abertura da prospeco de petrleo para empresas estrangeiras.
Geisel  contra e prevalece.
  Janeiro O deputado Flvio Marclio defende a reeleio de Medici.
Cordeiro de Farias a Heitor Ferreira, sobre as prises de jovens no Rio:
"Quem sabe no seria para criar um certo clima a fim de provocar um
outro certo clima?". Maro O general Anel Pacca da Fonseca condena o
continusmo. Abril Campanha militar no Araguaia. Termina em julho e
recomea em setembro. Agosto Censurada a sucesso presidencial. Medici
manda impedir que O Estado de S. Paulo publique uma grande reportagem
sobre Geisel. A reportagem no existe. Setembro A Anistia Internacional
divulga os nomes de mais de 400 torturadores. Chega a Golbery um papel
com o nome de seis oficiais. A Censura probe a declarao do presidente
da Arena, Filinto Mller, de que no h censura no Brasil.
  CRONOLOGIA 505
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
   O pesquisador americano Ray Tomlinson expede o primeiro e-mau. Ele
esqueceu o contedo da mensagem.  O excesso de liquidez da banca
internacional faz renascer o mercado de emprstimos a pases
subdesenvolvidos. Janeiro Segundo uma pesquisa do Gallup, 48% dos
paulistanos acham que seu nvel de vida est subindo. S 7% dizem que
est caindo. Maro Comea a funcionar a discagem direta nas ligaes
entre Rio, So Paulo e outras cinco capitais. Julho Comea a queda da
bolsa. Agosto Nixon descola o dlar do padro ouro, congela preos e
salrios por noventa dias, e se reserva o direito de taxar em 10% as
importaes. Dezembro A Petrobrs torna-se a segunda maior distribuidora
do pas. O ano termina com um crescimento de 11,3% do PIB e a inflao
em 19,5%.
   Comeam os desaparecimentos na Argentina. Uma pessoa a cada 18 dias.
Abril Uma equipe de pingue-pongue americana  convidada a jogar na
China. Junho O The New York Times comea a publicar os documentos
secretos do Pentgono sobre a Guerra do Vietn. Julho Henry Kissinger
embarca em segredo para a China.  recebido em Pequim por Mao Zedong.
Anuncia a prxima visita do presidente Nixon. Agosto Golpe na Bolvia.
Com a ajuda do governo brasileiro, assume o coronel Hugo Banzer.
Setembro Fracassa o golpe do ministro da Defesa Lin Piao contra Mao. As
foras armadas uruguaias assumem o combate aos Tupamaros. A tortura
toma-se sistemtica. Novembro Fidel Castro passa trs semanas no
  Chile.
   Caetano Veloso e Gilberto Gil voltam do exlio. Em Londres, Caetano
gravou "Triste Bahia Janeiro Primeira transmisso de TV em cores. O
Brasil tem 6,2 milhes de aparelhos preto- e-branco. Abril Chegam os
ossos de d. Pedro 1. Maio Medici e Geisel inauguram em Paulnia a maior
refinaria de petrleo do pas. Agosto O IBGE informa que o Brasil bateu
a marca dos 100 milhes de habitantes. Setembro O ministro das Finanas
da Frana, Giscard dEstaing, avisa Delfim que o preo do barril do
petrleo subiria para 5 dlares. Novembro Comea a circular o semanrio
Opinio. Foi censurado antes de ser lanado. O ndice Dow Jones, da
bolsa de Nova York, fecha pela primeira vez acima de mil pontos.  O ano
termina com um crescimento de 11,9% do PIB e 15,7% de inflao.
  Fevereiro Richard Nixon vai  China. Maro O editor italiano
Giangiacomo Feltrineili morre quando instalava uma bomba numa torre de
transmisso de energia, perto de Milo. Maio No fim do seu mandato o
presidente da Nicargua, Anastasio Somoza, d um golpe e fica no poder.
Terroristas japoneses matam 25 peregrinos judeus no aeroporto de Tel
Aviv. Junho Cinco pessoas presas no edifcio Watergate, em Washington.
Tinham grampeado a sede do Partido Democrata. Setembro Preso o chefe
Tupamaro Raul Sendic. Metade dos uruguaios apiam a represso militar.
  Terroristas seqestram parte da delegao de Israel nas Olimpadas de
Munique. Morrem atletas e seqestradores. Novembro Richard Nixon 
reeleito.
  506
  A DITADURA DERROTADA
  Fevereiro Orlando Geisel rejeita a embaixada em Lisboa. Junho Medici
chama Geisel ao Laranjeiras e lhe diz que o escolheu para presidente.
Geisel faz o primeiro convite para o seu governo: o tenente-coronel
Germano Pedrozo, do dE, para chefiar sua segurana. Poucos dias depois
de sofrer um derrame cerebral, morre Henrique Geisel, irmo de Orlando e
Ernesto. Julho Geisel recebe o documento de Drio Castro Alves que narra
a tortura de Cid Silveira. Agosto Geisel instala seu gabinete de
trabalho no Ministrio da Agricultura, no largo da Misericrdia. Visita
ministros. Setembro Ernesto Geisel atrita-se com Orlando por causa de
seu discurso  Arena. Novembro Golbery janta com Julio Mesquita. Heitor
faz a primeira experincia de gravao. Registra, ostensivamente, uma
conversa sua com Geisel.
  Janeiro ALN, VAR, VRP e APML reconhecem c fracasso da luta armada, num
artigo publica. do no Le Monde. Geisel cr que pode manter Delfim. Maio
O marechal Juarez Tvora, heri dos "tenentes" e ministro de Castello,
pede a normalizao poltica. Censura prvia nO Estado de S. Paulo.
Julho Morre Filinto Mller. Petrnio Portella torna-se presidente da
Arena. Setembro Ulysses Guimares lana-se "anhicandidato" pelo MDB.
Cordeiro de Farias sugere a Geisel que proponha a unio nacional. Geisel
discursa na Conveno da Arena. Outubro Terceira campanha do Exrcito no
Araguaia. No final de dezembro a guerrilha deixa de existir como fora
organizada. Novembro Geisel decide se afastar da poltica colonial
portuguesa.
  1973
  GEISEL E GOLBERY POLTICA
  O Estado de S. Paulo, 10 de maio de 1973: a primeira pgina da
redao.
  CRONOLOGIA 507
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
   A TV Globo estria a primeira novela em cores, O Bem Amado.
Fevereiro A Fiat anuncia a sua vinda para o Brasil. Maio O ministro da
Agricultura, Cirne Lima, diverge de Delfim.  demitido por Medici. Junho
A iniciativa privada entrega  Petrobrs o controle da Petroqumica
Unio. Agosto Vai ao ar o Fantstico. Setembro Geisel recebe o documento
do BNDE que detalha a estratgia de crescimento acelerado baseado num
aumento da taxa de poupana e no endividamento. Outubro Greve na
ferramentaria da Volkswagen e no servio de carrocerias da Mercedes.
Novembro Geisel e Golbery no tm tempo para receber Milton Friedman no
Rio.  O ano termina com um crescimento do PIB de 14%. Isso nunca tinha
acontecido, nem voltar a acontecer nos 30 anos seguintes.
  Fevereiro O Senado americano comea a investigar o caso Watergate.
Nixon desvaloriza o dlar em 10%. Maro Termina mais um ciclo militar na
Argentina, O peronista Hctor Cmpora  eleito presidente. Renunciar
para possibilitar a ascenso de Juan Pern. Abril Brasil e Paraguai
assinam o tratado que permitir a construo da hidreltrica de Itaipu.
Setembro Golpe no Chile, morre Salvador Allende. Comea a ditadura do
general Augusto Pinochet. Policiais brasileiros descem em Santiago.
Outubro O Egito e a Sria invadem Israel. So derrotados, e o mundo
rabe declara um boicote de petrleo aos pases pr-Israel.
Outubro-Dezembro Em dois aumentos sucessivos, os pases exportadores de
petrleo elevam o preo do barril de us$ 2,90 para us$ 11,65.
  o o
   $ O Estado de S. Paulo, 10 de maio de 1973: - -- a primeira pgina
da Censura.
  O ESTADO DE S.PAULO " Mdiei nomeia um novo ministro o Z i,eeifo,io
libond, - - Do r4h Sahn,n e
  Ro,, o  l9o.oo6mio ,omfrrooroIo &,iliodIo22
  508 A DITADURA DERROTADA
  GEISEL E GOLBERY 1974
  Janeiro Geisel est decidido a colocar Armando Falco na Justia e
Azeredo da Silveira no Itamaraty, a despeito das restries dos "puris
tas
  .
  Golbery manda dizer a Roberto Campos que pare de escrever por algum
tempo. Circula na famlia de Geisel a frase: "O Orlando cuida do
Exrcito, e o Ernesto cuida do resto: Fevereiro Geisel diz a seu irmo
Orlando que no o manter no ministrio. Nunca mais falaram de poltica.
Orlando nunca o visitou. Geisel cede a um apelo do general Dale Coutinho
e aceita que o coronel Confucio Danton v para o dE. Detesta-o. Golbery
almoa com d. Paulo Evaristo Arns. Maro Geisel diz a Heitor que deve
retrair sua atividade externa, limitando-se a funcionar como secretrio
do presidente. Orlando Geisel tem uma isquemia cerebral, cai e quebra a
perna. Continua morando na residncia oficial do ministro, no Rio.
Glauber Rocha surpreende a esquerda: "Acho que o general Geisel tem tudo
na mo para fazer do Brasil um pas forte, justo e livre: Chama Golbery
de "gnio da raa: Abril Heitor se queixa: no tem o que fazer. Golbery
diz que o governo precisa mandar o delegado Fleury para longe. Junho A
Censura probe que se publique a declarao de um deputado contando que
Golberylhe disse que se vai acabar com a cen sura.
  Agosto Golbery rene-se em Braslia com familiares de desaparecidos,
levados por d. Paulo Evaristo Arns. Setembro Misteriosos telefonemas
para a casa de Golbery no Rio de Janeiro. Diante de uma ameaa de
seqestro, sua mulher, Esmeralda, viaja para Braslia. Novembro Heitor
Ferreira depois da eleio, prevendo o seu futuro e o de Golbery: "Vamos
cuidar do jardim: Golbery: "Ir embora, eu no devo ir:
  POLTICA
  Janeiro O Congresso elege Ernesto Geisel. Por via das dvidas, seu
irmo Orlando deixa duas companhias de prontido em Braslia. Fevereiro
JK aplaudido por 800 pessoas que cantam "Peixe vivo" numa festa do conde
Matarazzo. Maro Geisel explicita a Heitor Ferreira sua preferncia por
Figueiredo como seu sucessor, Geisel no admite que Delfim Netto dispute
o governo de So Paulo. O deputado Chico Pinto discursa contra a
presena de Pinochet. Geisel processa-o. Desaparecem David Capistrano da
Costa e Jos Roman, do PCB. Paulo Egydio Martins escolhido governador de
So Paulo. Caducam as cassaes de 1964 (as de Jango e Jnio, entre
outros). Maio Morre o general Dale Coutinho. Sylvio Frota assume o
Ministrio do Exrcito. Junho Reduzida a autonomia do dE. D. Eugnio
Sales, cardeal do Rio, trata com Geisel dos desaparecidos. Delfim
encontra-se com Golbery.  a reaproximao que o levar a Paris. O dE
justifica a ofensiva contra o PCB. O MDB divulga uma nota levantando o
caso dos desaparecidos, que quela altura parecem ser 11. Agosto Geisel
discursa e anuncia "lenta, gradativa e segura distenso: Setembro
Prises no Cebrap. Pela primeira vez o 001  enquadrado. Outubro Eleio
indireta dos governadores. O Supremo condena Chico Pinto. O Exrcito
mata o ltimo guerrilheiro do Araguaia.  Walquria Afonso Costa, de 27
anos, ex-aluna da Faculdade de Artes e Educao da Universidade Federal
de Minas Gerais. Novembro Eleio. A Arena  surrada. O MOE elege 16 em
22 senadores. Teve 72,75% dos votos. Aumenta sua bancada na Cmara de 87
para 160 deputados, mas no faz maioria. JK em seu Dirio: "No
esperava. Agradeo a Deus me ter concedido vida at hoje:
  CRONOLOGIA 509
  ECONOMIA E SOCIEDADE
  MUNDO
   O Brasil tem 104,2 milhes de habitantes. O Rio de Janeiro, 4,7; So
Paulo, 6,9, e Porto Alegre, em torno de 1 milho.  Vinton Cerf,
cientista da MCI, usa uma palavra nova: internet.  O Brasil tem 8,7
milhes de aparelhos de rv.  Com os novos preos do petrleo, os pases
da OPEP recebem uma receita bruta de 90 bilhes de dlares.  a maior
transferncia de capital j ocorrida na histria em tempo de paz.  A
dvida americana chega a 100 bilhes de dlares, a maior em 24 anos.
Janeiro Inaugurada a ponte Rio-Niteri. Simonsen acha possvel fechar o
ano com 20% de inflao e 10% de crescimento do PIB. Abril No final de
1973 o litro de leite custava Cr$ 0,90. Custa Cr$ 1,20. O litro da
gasolina dobrou de preo, para CR$ 1,61. Geisel intervm no Banco
Halles, onde tinha parte de sua poupana. A Censura probe que se fale
em recesso. Maio Falta leo de soja. Junho Geisel diz a Heitor que a
inflao no o deixa dormir. O governo americano sobretaxa as
importaes de calados brasileiros. Fundidos os estados do Rio de
Janeiro e da Guanabara. Julho Comea uma epidemia de meningite em So
Paulo. Setembro Geisel lana o ii PND. Inaugurado o metr de So Paulo.
Outubro O presidente do Banco Central, Paulo Lira, diz que o Brasil 
"uma ilha de tranqilidade". Quebra-quebra de nibus em Braslia e de
trens no Rio e em So Paulo. Criada a Nuclebrs. Do incio de agosto ao
fim de outubro a meningite mata 731 pessoas em si. H uma mdia de 2
mil pessoas internadas. Novembro Geisel anuncia a descoberta da bacia
petrolfera de Campos. Pouca gente acre-
  dita.
  Janeiro Terroristas argentinos seqestram os irmos Juan e Jorge Bom.
Cobram 60 milhes de dlares de resgate. Fevereiro Sai em Lisboa o livro
Portugal e ofuturo, do general Antnio de Spnola. Diz que a questo
colonial no tem soluo militar. Maro Trs colaboradores diretos de
Nixon so indiciados no processo do caso Watergate. Instala-se em Roma o
Tribunal Bertrand Russell para julgar as ditaduras chilena e brasileira.
Abril Golpe militar em Portugal. O presidente Amrico Thomaz e o
primeiro-ministro Marcello Caetano so mandados para o Brasil. O Partido
Comunista surge como uma fora poltica. De capa e monculo, o general
Antnio de Spnola assumir a presidncia. Richard Nixon entrega 
Justia as gravaes que fazia em seu gabinete. Maio A ndia explode sua
primeira bomba atmica. Giscard dEstaing eleito presidente da Frana.
Julho Juan Pern morre. Assume sua mulher, Isabelita. O terrorismo j
matou 284 pessoas na Argentina. A Alemanha  a campe do mundo de fu
tebol.
  Cai a ditadura grega. A junta de coronis 
  presa. Agosto A URSS manda armas para o MPLA, em Angola. Brasil e
China anunciam o reatamento de suas relaes diplomticas. Richard Nixon
renuncia. Assume Gerald
  Ford.
  O general Spnola tenta um golpe, fracassa, renuncia e vem para o
Brasil. O brao terrorista da ditadura chilena mata em Buenos Aires o
ex-ministro da Defesa, general Carlos Prats, e sua mulher. Novembro O
governador da Gergia, Jimmy Carter, anuncia que  candidato a
presidente dos LUA.

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Arquivo do Autor
Arquivo Privado de Ernesto Geisel
Arquivo Privado de Golbery do Couto e Silva/Heitor Ferreira
Arquivo Privado de Heitor Ferreira
Biblioteca Lyndon B. Johnson
Departamento de Estado dos Estados Unidos da Amrica

Informantes

Amlia Lucy Geisel
Americo Mouro
Antonio Carlos Magalhes
Antonio Carlos Muricy
Antonio Delfim Netto
Antonio Gebauer
Armnio Guedes
Candido Mendes de Almeida
Carlos Alberto Brilhante Ustra
Drio Castro Alves
Dorrit Harazim
Elizabeth Lins do Rego
Ernesto Geisel
Eugnio Sales

512 A DITADURA DERROTADA
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Fernando Morais La Opinin
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Givaldo Siqueira
Golbery do Couto e Silva
Peridicos  seinanais
Gustavo de Moraes Rego
Heitor Ferreira
Fatos e Fotos
Humberto Barreto
IstoE
Joo Baptista Figueiredo
Manchete
Joo Guilherme Vargas Neto
Newsweek
John Blacken
Jos Arthur Giannotti Veja
Jos Carlos Dias
Jos Clemente de Oliveira Peridicos  outros
Jos Salles
Jos Serra Cadernos de Jornalismo da Federao
Julio de Mesquita Neto Nacional de Jornalistas
Leonidas Pires Gonalves Cahiers de la Fondation Nationale des
Liana Cardoso de Mello Sciences Politiques
Lucy Geisel Conjuntura Brasileira
Marcos Vianna Conjuntura Econmica
Maria da Conceio Tavares Dados
Mano Henrique Simonsen Dirio do Congresso Nacional
Newton Cruz Dirio Oficial
Octavio Costa El Nacional
Ovdio de Melo Estrategia
Paulo Brossard Inteligncia
Paulo Egydio Martins O Liberal
Petrnio Portella Opinio
Renato Hauptmann PolicyAnalyses in International Econornics
Reynaldo Mello de Almeida Revista de Economia Poltica
Rubens Resstel Tribuna Metalrgica
Salomo Malina Viso
Srgio Cavailari
Thales Ramalho
Waldomiro Guarnieri Sries documentais, dossis
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937/guerrilla-
warfare/ch06.htm

* At agosto de 2003 verificou-se o acesso aos stios mencionados.

NDICE REMISSIVO

Abreu, Hugo, 334, 413, 420, 42 1, 422, 447 n, 476, 478

Abreu, Joo Leito de, 185, 188, 190, 204n, 205,
207,208,217,223,225,226,227, 229n, 230n,

272

Abs, Hermann, 273
Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), 54, 201, 418
Ao Democrtica Popular (Adep), 160n
Ao Libertadora Nacional (ALN), 199, 268, 286, 357, 399
Ao Popular Marxista-Leninista (APML), 325,

390

Accioly Filho, Francisco, 280n
Adelaide, Julinho de. Ver Holianda, Chico Buarque de
Adonias Filho, 177
Affonso, Almino, 80, 313
frica do Sul, 365
Agee, Philip, 160n
Agncia France Presse, 390n
Agenzia Nazionale Stampa Associata (ANSA),

347n

Agir (editora), 265, 266, 267n
Aguiar, Rita da Costa, 20
Albnia, 61
Albernaz, Benoni de Arruda, 236n
Albuquerque, Tedulo de, 174
Alcoa, 433
Aldunate, Wilson Ferreira, 351 n
Alemanha,39,40,50,60, 117,124,125, 127n,265, 273, 364, 393

Alemanha Oriental, 61
Aliana Renovadora Nacional (Arena), 220,
233, 234, 235, 238, 240, 242, 253, 320, 396,
428, 429, 430, 431, 453, 454, 455, 456, 458,
459n, 460, 461, 464, 465, 466,467,469,470,
471, 472, 473, 474, 476, 477 Allende, Salvador, 348, 352, 353, 354,
355,
356 Almeida Machado, Paulo de, 413; no ministrio Geisel, 302, 303,
308
Almeida, Candido Mendes de, 19, 379,381,382,

383

Almeida, Jayme de, 69n
Almeida, Jos Amrico de, 37, 47, 234
Almeida, Luiz Carlos, 354
Almeida, Pedro Geraldo de, 71, 144n
Almeida, Reynaldo Mello de, 19, 37n, 203n, 287n, 421n
Alto-Comando das ForasArmadas, 103n, 131, 403, 438, 446, 447 o, 476
Alto-Comando do Exrcito, 42, 91
Alves, Cosette, 57n
Alves, Drio Castro, 235, 312, 366n
Alves, Domingos Ferreira, 466n
Alves, Hermano, 365n
Alves, Marcio Moreira, 105
Alves, Mrio, 391
Alves, Osvino Ferreira, 69
Alves, Paulo Carneiro Thomaz, 287n
Amado, Jorge, 62
Amorim, Athos Marques de, 287 o, 409n, 462n
Andrada, Jos Bonifcio de, 92
Andrade, Auro Moura, 73, 74, 82

524 A DITADURA DERROTADA

Andrade, Carlos Drummond de, 62, 237
Andreazza, Mrio, 141,206,221,231,253,273, 274n, 302
Andrews (colgio), 280n
Angel Jones, Zuzu (Zuleika), 235
Angola, 364, 365, 366, 367
Ansio, Chico, 159
Antunes, Augusto Trajano de Azevedo, 155, 156, 159, 243, 244,
273-274
Apolnio, Luiz, 270n
Aquino, Tasso Viliar de, 79n
Arbia Saudita, 441
Arago, Augusto Cezar Moniz de, 126n, 186n
Aramburu, Pedro, 361
Aranha, Euclydes, 126n
Aranha, Oswaldo, 40, 121n, 127n, 317
Araripe Macedo, Joelmir de, 281
Arglia, 129, 135, 146,258
Argentina, 36n, 42,265,316,338,347,355,359-364
Amo, 156
Arns, d. Paulo Evaristo, 236, 285, 375, 379n,
380,382,383,384,388,401,406,408; e o encontro com Golbery, 378, 379,
381, 382
Assis, Machado de, 304
Associao Chileno-Brasileira de Solidariedade, 357
Associao Comercial de So Paulo, 270
Atlantic, 227
Ato Institucional n2 2,89, 102, 175, 323
Ato Institucional n2 5, 15,50, 105,202,224,234, 242, 243, 308, 310,
323,
403, 404, 407, 428,
454, 472, 477, 478
Attlee, Clement, 87
Avelino, Confucio Danton de Paula, 288, 289
Ayrosa, Ernani, 141-142, 334
Azevedo, Gilberto, 236n

Bachelet, Alberto, 356
Badar, Murilo, 301 n
Badoglio, Pietro, 60
Bakunin, Mikhail, 117
Baleeiro, Aliomar, 308, 321
Banco Boavista, 157
Banco Bozano Simonsen, 280n, 290
Banco Central, 267, 271, 291, 292, 420, 442
Banco Cidade, 344
Banco Comrcio e Indstria de So Paulo, 433

Banco do Brasil, 90, 170,271,291 n, 296,298,455,

466

Banco Econmico, 280n
Banco Lar Brasileiro, 280n
Banco Mercantil de So Paulo, 304
Banco Mineiro do Oeste, 291
Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico (BNDE), 262n, 297,
298,299,300,445,

465

Banco Portugus do Brasil, 291
Banco Safra, 407n
Bandeira, Antonio, 245
Bandeira, Manuel, 59, 63
Banzer, Hugo, 343, 346-348, 352 o, 357, 359
Baptista, Lourival, 455
Barata, Agildo, 38
Barbar, Baldomero, 425, 426n
Barbosa Lima Sobrinho, Alexandre Jos, 241
Barbosa, Abelardo (Chacrinha), 430n
Barboza, Mano Gibson, 364, 366
Barreto, Humberto, 18, 223n, 290, 418n, 458n; e sua ligao com
Geisel,
27n, 28n, 55n, 56, 57n, 215, 230n, 250n, 417, 418, 424
Barreto, Lilian, 28n, 57n, 250n, 417
Barros Nunes, Adalberto de, 206n, 282n
Barros Nunes, Antonio Luiz (Cacau) de, 107, 108, 230n, 247; e
Geisel,
200, 201, 204
Barros, Adhemar de, 320, 354, 357
Barroso, Jana Moroni, 389n
Bastos, Justino Alves, 90, 320
Bastos, Mrcio Thomaz, 19
Batista Lusardo, Joo, 315n
BBC, 117
Beckmann, Ldia. Ver Geisel, Ldia Beckmann
Blgica, 358
Belotti, Paulo, 262n, 300n
Beltro, Hlio, 280n
Beltro, Innocencjo Fabricio de Mattos, 236n
Benario, Olga Gutmann. Ver Prestes, Olga Be nario

Bender, Maria Emilia, 19
Bencio, Valentim, 45n
Berle Jr., Adolf, 125, 126
Bernardes, Srgio, 178
Berqu, Elza, 407n
Bessarbia, 61
Bethlem, Hugo, 347
Bevilaqua, Pery Constant, 78, 104, 105

NDICE REMISSIVO 525

Bilac, Olavo, 77
Bittencourt, Amaro, 45n
Blacken, John, 393
Boaventura, Francisco, 200, 206n
Bolvia, 36n, 205, 343, 346-348, 363
Bonaparte, Napoleo, 86
Bonfim, Antonio Maciel (Miranda), 116
Bonilha, Adamastor, 352
Bordaberry, Juan Mara, 194, 348-352, 348n
Bordini, Joo Carlos Toledo, 117
Borer, Cccii, 161
Borges, Mauro, 173
Borghese, II, 379n
Borja, Clio, 280 o, 396, 397n, 436
Boto, Carlos Penna, 148n
Bowdler, William G., 393n
Bradesco, 273n, 291
Braga, Ney, 230 o, 246,301 n, 303,309, 412n, 455; no ministrio
Geisel,
280n, 301, 303, 308
Braga, Snia, 107
Brando, d. Avelar, 246, 375, 378
Brant, Vinicius Caldeira, 408
Brasil, Clovis Bandeira, 93n, 284n
Brasillach, Robert, 62
Brayner, Floriano de Lima, 66n, 119n
Brejnev, Leonid Illitch, 259, 340, 342n
Brito, Gratulano, 36, 37n
Brito, Maria do Carmo (Lia), 358
Brito, Raimundo de, 230n
Brizola, Leonel, 69,75,77,78, 149, 162, 163n, 315, 357, 425, 464
Brossard, Paulo, 19, 463, 464,465,469
Brzezinski, Zbigniew, 158
Bucci, Marilene, 20
Bulgria, 61
Bulhes Pedreira, Jos Lus, 280n
Bulhes, Octvio Gouva de, 267n, 271, 292, 293n, 479, 480
Bundy, McGeorge, 393n
Burnham, James, 60, 62
Burnier, Joo Paulo, 148
Buzaid, Alfredo, 212n, 244, 351
Byington, Alberto, 433

Cabal, Hlio de Burgos, 420n
Cabo Anselmo. Ver Santos, Jos Anselmo dos
Cabo Verde, 364
Cabral, Getlio de Oliveira, 285n

Cacaso, 269
Caetano, Marcelio, 370, 371, 372
Caf Filho, 53, 54
Caixa Econmica Federal, 247,271,291,298,417,

418, 420
Caldas, Breno, 212
Calmon, Angelo, 280n
Cmara Filho, Jos Sette, 314
Cmara, d. Helder, 210, 324, 384
Cmara, Digenes de Arruda, 289n
Camargo Corra, 273
Camargo, Cndido Procpio Ferreira de, 407n
Camargo, Jos Maria de Toledo, 347
Camargo, Susana, 20
Campos, Arajaryr Moreira de, 365, 372
Campos, Francisco, 80
Campos, Gilse, 390n
Campos, Mauro, 390n
Campos, Milton, 322
Campos, Roberto, um, 267n, 268n, 271, 279, 292, 293n, 294n, 296,
318,
409; e o caso Samueison, 266-269
Camus, Albert, 62, 85
Canto, Antonio da Cmara, 355
Canto, Marival Chaves Dias do, 268n, 395
Cardoso, Adaucto Lcio, 308, 321
Cardoso, Dirceu, 3010
Cardoso, Fernando Henrique, 38n, 354n, 358, 407, 408, 409, 448n
Cardoso, Henrique Assumpo, 284n
Carneiro, Rui, 450
Carreira, Evandro, 466
Carretel, Pedro. Ver Oliveira, Pedro Matias de
Carvalho eAlbuquerque, Walter Pires de, 141,334
Carvalho, Francisco Homem de, 235
Casa da Borracha, 141, 143, 149, 150, 161
Casa da Moeda, 264
Casa Morgan, 19, 441, 442, 443
Castello Branco, Francisco Gil, 45n
Castello Branco, Humberto de Alencar, 64, 85,
88,89,92,95,96,97,98,99, 105, 111, 119n,
122, 146, 147, 164, 165, 167, 171, 172n, 173,
174-177, 178, 179, 186, 190n, 198, 199, 200,
211,212, 216n, 225, 231, 239, 241, 269,295,
308,314,320,322,323, 387, 434, 472, 481; e
a reforma da estrutura militar, 93, 94, 101;
e Costa e Silva, 168
Castelo Branco, Camilo, 115

526 A DITADURA DERROTADA

Castilho, Joo Dutra de, 152n, 284n
Castro, Fidel, 145, 163, 350, 353, 435
Castro, Sebastio Ramos, 400
Cavalcante, Francisco de Moura, 72n, 303n
Cavalcanti, Costa, 205n, 309
Cazuza Trombone, 37
Central Inteiligence Agency (dA), 131, 160n, 172, 199, 339, 340,
344,
355, 368, 393
Centro Brasileiro de Anlise e Planejamento (Cebrap), 407, 408
Centro de Informaes da Aeronutica, 356
Centro de Informaes do Exrcito (dE), 235, 243, 245, 249, 250n,
284,
289, 315, 324, 382,
387, 388, 396, 400, 403, 409, 480
Cevekol, 279
Chacrinha. Ver Barbosa, Abelardo
Chagas, Carlos, 195n
Chaplin, Charles, 62, 125
Chase Manhattan, 19, 440, 441, 443
Chassin, Lionel Max, 146
Chaves, Aureliano, 280n, 436
Chile, 36n, 295, 356n, 352-358, 363, 387, 478
China, 60, 61, 73, 129, 150, 343, 398
Churchill, Winston, 60, 123, 124, 125
Ccero, Paulino, 280n
Cingapura, 73, 75
Cirillo, Dalmo Lcio, 236n
Cirne Lima, Luiz Fernando, 280n
Citibank, 346, 440n, 441
Clark, Walter, 160, 379n
Coelho dos Reis, Antonio Jos, 127, 128n
Coelho, Luiz Lopes, 241 n
Coelho, Nilo de Souza, 91 n
Colby, Willliam, 368
Cole, Edward C., 130n
Colgio Eleitoral, 240, 252, 253, 416
Colgio Militar de Porto Alegre, 30
Colher Filho, Eduardo, 325, 389n
Comisso Bipartite, 384, 385
Comisso Econmica para a Amrica Latina
(CEPAL), 295, 354,479
Companhia Antarctica Paulista, 156
Companhia Siderrgica Nacional (csN), 150n, 287, 295n
Confederao Nacional da Indstria (cNI), 270, 290
Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil
(CNBB), 375, 377, 378, 381, 384, 406

Connally, John, 26, 341
Conselho de Segurana Nacional, 49, 89,90, 117, 132, 139, 363n, 481
Conselho Nacional do Petrleo (cNP), 59, 64, 65, 66, 67, 294, 295
Copola, Mrcia, 20
Cordeiro, Paulo, 36
Coria, 60, 61, 129
Corra, Affonso Henrique de Miranda, 127
Correa, Ana Lucia (Bizuka), 20
Corra, Antonio Jorge, 247n, 284n
Corra, Arlindo Lopes, 159
Corra, Hrcules, 394
Correa, Jos Manoel Torres. Ver Camargo, Jos Maria de Toledo
Corra, Maria Clia (Rosa), 389n
Correio da Manh, 87, 150, 206
Correio do Povo, 212, 227
Cortina de Ferro, 123, 124, 128
Costa e Silva, Arthur da, 28, 64, 89, 90, 95-99,
101, 107, 108, 165, 168, 175, 176, 177, 178,
186, 190, 192, 199, 201, 202, 204, 211, 212,
225, 226, 236, 239, 271, 282, 284, 295, 310,
322, 323, 335, 337, 353, 420, 481; e Geisel,
95, 106
Costa e Silva, Yolanda, 225, 226
Costa, Antnio de Pdua (Piau),325
Costa, Canrobert Pereira da, 137n, 147
Costa, David Capistrano da (Enas, Ribeiro), 390, 394, 395, 396
Costa, Joo, 92,93
Costa, Mrio Almeida Purificao, 419
Costa, Octavio, 122n
Costa, Osvaldo Orlando da (Osvaldo), 325
Costa, Sergio Corra da, 372n
Costa, Zenbio da, 43n, 52
Coutinho, Joaquim, 91n
Coutinho, Vicente de Paulo Dale, 248n, 282,
283n, 284, 285, 286, 288, 289, 304, 326n,
327n, 367, 387, 388, 397, 402,404, 421n; e a
morte de Ezequias Bezerra da Rocha, 283;
no ministrio Geisel, 286, 3 19-327
Couto e Silva Jr., Golbery do, 143n
CoutoeSilvaJr.,Jacinthodo, 111, 113, 114
Couto e Silva, Anglica do, 143n
Couto e Silva, Esmeralda do, 112, 409
Couto e Silva, Golberydo, 112,111-115, 116n, 117, 130n, 132n, 133n,
136,
137, 142, 147n,

NDICE REMISSIVO 527

148n, 149, 150n, 151n, 152n, 161n, 168,169,
175, 177, 178, 206, 217, 219, 224, 225, 234n,
236n, 249, 252-255, 274n, 284, 291,292,293,
296, 307n, 310n, 344,345,346,351,360,363,
366, 370, 378, 400, 401,402,409,434, 435n,
438, 459, 462, 479, 481;
censurado, 458;
como colaborador de Geisel, 57n, 409,412, 413, 414, 419, 420, 422,
424;
e a censura, 234,244-246,265-268,397-398, 418, 458;
e a crise de 1955, 137;
e a crise de 1961, 149-152;
e a crise de 1964, 164, 165;
e a represso, 235, 380, 385, 398, 400, 406, 475, 477;
e a Revoluo de 1930, 115;
eaRevoluode 1932, 116;
easucessodeMedici,25, 188, 189,197,199, 200, 201, 217, 218, 219,
239,
240;
e as eleies de 1974, 462, 465, 473, 474,

475;
e Delfim Netto, 274, 429, 433;
e Figueiredo, 137, 202, 203, 245, 335;
e Geisel, 96, 98, 106,111,113,115,137,202, 204, 217, 218, 229, 230,
235,
238, 247,
253, 254, 255, 256, 480;
eGetulio Vargas, 115, 117, 133;
e Heitor Ferreira, 113,142, 143, 175, 188,409,

474;

e Joo Goulart, 162, 428;
e Joo Paulo dos Reis Velloso, 444, 448,

449;

e Lacerda, 113, 172, 173, 174;
e o comunismo, 115, 116,134, 148, 158;
e o delegado Fleury, 244, 380, 398;
e o discurso de Geisel na conveno da Arena, 238-240, 253, 254,
255;
e o governo Geisel, 301, 302, 303, 304, 307- 311,337,418,475,476;
e o macarthismo, 148;
e o Manifesto dos Generais, 133;
e o Memorial dos Coronis, 133;
e os cardeais, 246, 378, 379, 380, 381, 382, 383, 384, 385, 401;
e Tancredo Neves, 153;
Estimativas, 144, 149, 162, 163, 164;
famlia, 112, 114;

infncia, 111, 114;
na Dow Qumica, 111, 197, 201, 219, 300,

356;
na E5G, 120, 128, 131, 134, 136;
na FEB, 118;
no Conselho de Segurana Nacional e no
5FICI, 139, 141-144,149,148-152,153,173; no governo Castello Branco,
167-179; no IPS, 156, 158, 159, 160-164; Segurana Nacional, 128,
130,
134-136
Couto e Silva, Henriqueta do, 114
Couto e Silva, Manuel do, 113
Couto e Silva, Marco Antnio Rabelo do, 113 n
Couto e Silva, Morency do, 114
Couto e Silva, Vera, 143
Creane, Stephen (Steve), 344
Crittenberger, Willis D., 43
Croce, Benedetto, 62
Crookes, William, 111
Cruz, Newton, 19, 161 n, 400
Cruzeiro do Sul, 158
Cuba, 146, 148, 160n, 314, 399, 435
Cunha, Vasco Leito da, 314

DAvila Mello, Ednardo, 141, 173
Dantas, San Tiago, 65
Dayan, Moshe, 260
De Gaulle, Charles, 172
Delegacia de Ordem Poltica e Social (DoPs), 107, 161, 245, 270,
356,
398
Delfim Netto, Antonio, 19, 157, 192, 193, 202,
205n, 220n, 244, 258n, 263,272-275,291,293,
297, 298, 366n, 407n, 428n, 433, 443, 454; e
a crise do petrleo, 258, 261, 262; e Geisel,
205, 207, 219, 221, 231, 279, 292, 294, 304,
312, 322, 428-430, 432, 433, 436; pessoa e
hbitos, 269-271
Delfim, Maria, 270
Delfini, Antonio, 270
Delgado, Humberto, 365, 372
Demaria, Emlio Bonfante, 392
Denys, Odylio, 54, 67, 68, 69, 70, 71, 73, 74, 75, 76, 77, 78, 79,
80,
81, 82, 90, 97, 149, 150
Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), 125, 127
Destacamento de Operaes Internas (001), 200, 235, 236n, 268, 283,
285,
325, 326, 388,
395, 398, 403, 407, 408, 409, 479, 480, 481

528 A DITADURA DERROTADA

Deutsche Bank, 273
Di Cavalcanti, Emiliano, 63
Dirio de Notcias, 150
Dirio do Congresso, 236
Dirios Associados, 366
Dias, Giocondo, 394
Dias, Gonalves, 383
Diniz, Celso, 314
Dionisio, Jos Francisco, 325n
Divina comdia, 29
Docas de Santos, 157
Dois Pontos, 395n
Dow Qumica, 111, 197, 201, 300, 356
Dreifuss, Ren Armand, 156
Ducal, 420
Dutra, Eurico Gaspar, 40,41,42,43 n, 44,47,49, 52, 125, 126, 127,
128

Economics, 264, 265, 267n
Egito, 260
Eisenhower, Dwight, 43, 130
El Salvador, 36n
Elbrick, Charles Burke, 358, 388
Ellsberg, Daniel, 339, 340
Equador, 36n
Ercilia, 355n
Escobar, Decio Palmeiro de, 90, 165
Escola de Comando e Estado-Maior do Exrcito
(EscaME), 202, 228
Escola Militar de Realengo, 32,33,38,50, 115,202 Escola Superior de
Guerra (E5G), 53,88,120,121,
122, 123, 127, 128, 130, 131, 132, 133, 134,
136, 139, 146, 147, 153, 191, 207, 402
Escritrio de Pesquisa Econmica Aplicada
(IPEA), 296, 297, 298, 303, 444
Espanha, 265, 360
Esquadro da Morte, 244, 398
Esso, 156, 258
Estado de S. Paulo, O, 164,210,212,243,245,268, 304, 383, 398, 418,
434,
457, 469
Estado Novo, 39, 40, 49, 51, 117, 124, 125, 135, 202, 211, 271, 279
Estado-Maior das Foras Armadas (EMFA), 51, 53, 104, 144, 279n, 403
Estado-Maior do Exrcito, 40, 59, 88, 147, 164, 190, 286, 403
Estados Unidos, 26,41,42,43,45,61 n, 107, 123, 125, 127, 129, 130,
131,
145, 148, 257, 259,

263, 282, 338, 341, 342, 343, 345, 346, 347,
358, 365, 443, 445
Esteves, Emilio Lucio, 44n
Estimativas, 144, 149, 162, 163, 164
Estnia, 61
Eucatex, 280n
Exrcito Vermelho, 45, 124
Expedito Filho, 395

Fahd, prncipe, 441
Faial 1, rei, 441
Falco, Armando Ribeiro, 69,80, 98n, 167, 280n,
305, 307n, 309, 310, 311, 312, 318, 372, 395,
397,413,432,433,436,438,458,477; no ministrio Geisel, 307, 308
Faria Lima, Floriano Peixoto, 76
Farias, Jairo Jos, 295n
Farias, Oswaldo Cordeiro de, 43n, 49,78,82,88,
94,115,119,123,131,132,134,135,149,175, 204, 206,211,218,308,381; e
asucesso de Medici, 198, 199, 200
Federao das Indstrias do Estado de So Paulo (FIE5P), 261
Feio, Otto, 35
Fernandes, Millr, 397
Ferrari, Elenice, 20
Ferraz, Carlos Eduardo (Carl) Marcondes, 90
Ferreira,HeitorAquino,25, 123n, 132,142,173,
174, 175, 176, 178, 201, 204n, 217, 222, 224,
225, 232, 235, 236, 249, 255, 275, 335, 343,
344, 345, 353, 382, 383, 398, 399, 409, 420,
422,423,424,461 n, 476,477,480; como colaborador de Geisel, 412,413,
414,415n, 418,
423; e a crise de 1961, 149; e a posse de
Geisel, 337; e a sucesso de Medici, 188, 195,
198, 200; e as credenciais de Azeredo da
Silveira, 312, 314,315; e as eleies de 1974,
462, 466, 469, 474, 475; e Figueiredo, 194,
202, 203, 217, 218,223,224,310,311,462; e
Geisel, 56,201,205,211,218,225,226,229,
230, 232, 235, 245, 247, 253, 255, 260, 284n,
314, 333, 334, 348n, 382, 424,429,435,438,
466;eGolbery, 113, 142, 143, 175, 188,218,
409, 474; e o afastamento de Delfim, 429,
430; e o dirio, 174, 413; e o ministrio
Geisel, 279,281 n, 290,297,298,302,304,307,
310,311,312; e Shigeaki Ueki, 301 Ferreira, Paulo Cesar, 97n

NDICE REMISSIVO 529

Fiat, 273, 361
Figaro, Le, 293
Figueiredo Ferraz, Jos Carlos, 280n
Figueiredo Mendes, 106
Figueiredo, Euclides, 201
Figueiredo, Joo Baptista de Oliveira, 16, 131,
141, 203n, 204n, 218n, 227,249,273,284,302,
413,422,424,460,474; candidato de Geisel,
274n, 333-335; e a sucesso de Medici, 185,
192n, 203, 205, 208, 209,210,211,217,218,
222, 223, 225; e Geisel, 202, 203, 205, 208,
218, 224, 225, 230n, 234, 243,246,248,249,
251, 256, 285n, 288, 315, 318, 417n; e
Golbery, 137, 202, 245, 335; e Heitor Ferreira,
194,202,203,217,218,223,224,310,
311, 462; e Medici, 185, 217, 218, 219, 222,
223, 227; e o SNI, 400, 404; e Reis Velloso,
297; pessoa e hbitos, 20 1-203; sade, 334,
335

Figueiredo, Maria Regina Lobo Leite de, 285n
Filipinas, 124,441
Fleury, Srgio Fernando Paranhos, 244, 380, 398, 399
Flexa Ribeiro, Carlos, 280n
Flres, Jorge Oscar de MelIo, 177, 280n
Folha de S.Paulo, 57n, 445n, 466n, 470
Fonseca, Anel Pacca da, 204, 205, 209
Fonseca, Arthur Candal, 204n, 284n
Fonseca, Deodoro da, 34,81
Fonseca, Fernando, 285n
Fonseca, Hermes da, 95
Fonseca, Jos Rubem, 157
Fontoura, Carlos Alberto da, 185, 205, 206,207, 217,
219,223,225,226,
230n, 249, 368, 369,
372, 436
Fora Area Brasileira (FAB), 74, 81, 95, 194,

281

Fora Expedicionria Brasileira (FEB), 43, 44, 49, 118, 119, 121n,
152,
198, 202, 421, 466
Ford, Gerald, 346
Fortes, Breno Borges, 194
Fortes, Hlcio Pereira, 199n
Fortunato, Gregrio, 142n
Fragoso, Augusto, 147
Frana, 45,62, 129, 146, 204n, 220, 358, 364, 399
Francisco Jos 1, imperador, 29
Franco, Augusto, 455
Franco, Francisco, 265

Franco, Itamar, 38n, 456, 466
Freire, Norma, 289n
Freire, Vitorino, 204n, 211n, 219, 220, 230n,

318n

Freyre, Gilberto, 63
Fniedman, Milton, 273, 292
Frondizi, Arturo, 359
Frota, Sylvio Couto Coelho da, 16,282,283,284, 285, 286, 403,
414,473
Fundao Carlos Chagas, 407n
Fundao Ford, 407
Fundao Getulio Vargas, 18, 262 o, 266,274,290, 295n, 479
Furtado, Aurora Maria Nascimento, 285n

Gabeira, Fernando (Diogo, [-Tonrio), 358
Gallotti, Antonio, 155, 156, 160
Gama e Silva, Luiz Antonio da, 322n
Gama e Silva, Luiz Antonio da (Gaminha), 236, 322
Garcez, Lucas Nogueira, 455
Garcia, Lcia Cruz, 20
Garrincha, 353
Gebauer, Antonio, 19, 443
Geisel Sobrinho, Orlando, 40, 51, 248n, 417; morte, 55, 56, 59
Gelsel, Alzira, 54, 238
Geisel,Amlia (irm de Ernesto), 29, 30, 230n, 247, 248n, 251
Geisel, Amlia Lucy (filha de Ernesto), 16, 18, 51, 56, 85, 102,
248n,
414, 416,417,424
Geisel, Augusto Guilherme (Wilhelm August), 29, 30, 31, 40, 252
Geisel, Bernardo, 30, 304
Geisel, Ernesto, 31 n, 35n, 76n, 79n, 83 n, 86n, 174,
351, 419, 437, 438, 440, 442;
candidato oficial, 229-236, 243;
casamento, 40;
dificuldades de viso, 30, 31;
e a censura, 245;
e a crise de 1961, 71, 74, 76, 78, 79, 80, 81,

82;

e a crise do petrleo, 260-262;
e a economia, 437, 438, 440, 442, 446-450;
e a ESG, 122;
e a Igreja, 377-385, 399;
e a morte do filho, 55, 56;
e a oposio, 409, 477, 478;

530 A DITADURA DERROTADA

e a pobreza, 28, 29, 32;
e a represso, 233, 235, 385, 387-388, 389, 395-406, 408;
e a Revoluo de 1930, 33, 34, 36;
e a Revoluo de 1932, 34, 35;
e a Segunda Guerra Mundial, 43, 45;
e a sucesso de Medici, 27, 185, 187-190, 194-197, 199, 200, 204,
207,
210, 211,
215, 216, 217-218, 220-227;
e Ademar de Queiroz, 199, 200, 204;
e Agildo Barata, 38;
e lcio Souto, 47, 48, 49, 50;
e Amlia Lucy, 414, 416, 417;
e Antonio Dias Leite, 207-209;
e Antonio Luiz de Barros Nunes, 200,201,

204;
e Anel Pacca da Fonseca, 205;
e Armando Falco, 305, 307-312,458, 477;
e as eleies de 1974, 453-460, 462, 466, 467, 469, 471, 473,
475-477;
e as gravaes, 422-424;
e Azeredo da Silveira, 3 12-715, 318;
e Bordaberry, 348;
e Breno Borges Fortes, 194;
e Castello, 88-95, 97;
e Celio Borja, 396-397;
e Cordeiro de Farias, 198, 200, 204;
e Costa e Silva, 95, 96, 97, 98, 106;
e Dale Coutinho, 282, 285, 286, 288, 289, 319- 32 7;
e Delfim Netto, 205,207,219,221,231,279, 292, 294, 304, 312, 322,
428-430, 432,
433, 436;
e Eugnio Gudin, 293;
e Figueiredo, 20 1-203, 205,208,218,224,225, 230n, 234, 243, 246,
248,
249, 251, 256,
285n. 288, 315, 318. 333-335, 417n; e Francisco Pinto, 456-457;
e Getulio Vargas, 38, 39, 47, 48, 49, 51, 52,

64;

eGolbery,32n,96,98, 106,111,113,115,137, 202, 204, 217, 218, 229,
230,
235, 238,
247, 253, 254, 255, 256, 478n; e Gudin, 293;
e Heitor Ferreira, 56, 201, 205, 211, 218,
225, 226, 229, 230, 232, 235, 245, 247,
253,255,260, 284n, 314,333,334, 348n,
382, 424,429, 435, 438, 466;

e Hugo Abreu, 420-423, 476;
e Hugo Banzer, 348;
e Humberto Barreto, 417-418;
e Israel, 345;
e Jnio, 71, 72;
e Jayme Portella, 89, 192, 204;
e Jesus Soares Pereira, 294, 295;
e Joo Goulart, 82, 83, 425, 428;
e Joo Paulo dos Reis Velloso, 296-299;
e Jos Amrico de Almeida, 37, 234;
e Juscelino Kubitschek, 169;
e Maria da Conceio Tavares, 479, 480;
e Mano Henrique Simonsen, 290-294;
e Medici, 108, 188-190, 209, 210, 215-216, 222, 224-227, 453, 459;
e Moraes Rego, 200;
e Ney Braga, 301, 455;
e o comunismo, 59-63, 68, 86, 87;
e o discurso na conveno da Arena, 238-

240;

e o discurso no colgio eleitoral, 252-255;
e o Exrcito, 287-289;
e o ii PND, 444, 445;
e o ministrio, 30 1-305;
e o sistema de informaes, 245;
e o 5N1, 435;
e Orlando Geisel, 30, 31, 32, 195, 215, 216, 238, 246-252;
e os cassados, 425;
e os EUA, 338;
e Pat Nixon, 342, 343;
e Paul Samuelson, 268;
e Paulo Egydio Martins, 433-434;
e Pern, 359, 362;
e Petrnio Portella, 430-432;
e Pinochet, 357;
e Portugal, 364-373;
e Roberto Campos, 269, 279, 292;
e Shigeaki Ueki, 279, 301, 302;
e Sinval Guazzelli, 43 5-436;
e sua posse, 334, 337, 342;
e sua sucesso, 333-335;
e Ulysses Guimares, 240-243;
infncia, 29, 30;
lenta, gradativa e segura distenso, 459;
na crise de 1955, 54;
na Petrobrs, 53, 108, 195, 199,207,208,222, 223, 224, 226, 284,
287,
295, 296;

NDICE REMISSIVO 531

na Revoluo de 1964, 85, 88, 89; no Colgio Militar de Porto
Alegre,
30,31,32; no Conselho Nacional do Petrleo, 59,64-

67;

no governo Castello Branco, 85, 92, 94-99; no Nordeste, 34, 35, 36,
37;
no Rio, 32, 33, 37;
no servio secreto de Odylio Denys, 67-70; no STM, 101, 102-105;
pessoa e hbitos, 27-28, 40, 51, 63, 64, 83, 85, 98, 101-102
Geisel, Henrique, 30, 32, 35n, 230n
Geisel, Ldia Beckmann, 29, 248n, 252
Geisel, Lucy Markus, 28, 40, 54, 102, 415, 467n
Geisel, Orlando, 29, 30, 31, 32, 35n, 40, 43, 54,
67, 88, 89, 102, 108, 203, 206, 209, 224, 230,
238,246,247,248-249,250,251,283,284,287,
289, 368, 421; e a crise de 1961, 77, 78, 81,
82; e a sucesso de Medici, 185-186, 187, 191,
192, 193, 194, 195, 210,211, 215, 216, 217,
219, 221, 222; e Azeredo da Silveira, 313; e
o governo Geisel, 246-252,256, 275,282,284,
286, 368, 388, 421, 427, 436
Geisel, Wilhelm August. Ver Geisel, Augusto
Guilherme
General Motors, 349
Gessy, 270
Gestapo, 39, 127, 309
Giannotti, Jos Arthur, 407n, 409
Gigli, Beniamino, 56
Gillars, Midge, 119n
Globo, O, 227, 268, 293, 366, 460
Goidman, Alberto, 391
Gomes Monteiro, Dilermando, 421
Gomes, Eduardo, 39, 47, 49n, 51, 97, 137n, 308
Gomes, Severo, 280n, 303n, 304n, 408, 479; no ministrio Geisel,
304,
308, 309
Gomes, Sinvaldo de Souza, 325n
Gonalves, Leonidas Pires, 19, 48n, 401n
Gonalves, Ramiro Tavares, 247n, 284n
Gordon, Lincoln, 157, 160, 168
Goulart, Joo Belchior Marques (Jango), 15,28,
52, 59, 69, 73, 75, 76, 77, 83, 85, 86, 87, 88,
89,95,104,150,151,152,156,159,162,163,
164, 165, 167, 168, 169, 172, 177, 178, 188,
231, 263, 314, 315, 316, 318, 320, 322, 326,
357, 425, 427, 428, 464; e a renncia de
Jnio, 75-77, 79-83

Grcia, 129, 265
Grn Moss, Gabriel, 73,81
Grupo Audi, 2910
Grupo Aurea, 291 n
Guarnieri, Waldomiro, 97n
Guaru News, 227
Guazzelli, Sinval, 435, 436
Gudin, Eugnio, 66,67,266, 267, 274, 292, 293, 294

Guedes, Armnio, 19, 393
Guedes, Carlos Luiz, lOin
Guedes, Clio, 391
Gueiros, Eraldo, 103n
Guerra Fria, 123, 124, 128, 130, 131, 147,433
Guerre Rvolutionaire, La, 146
Guevara, Ernesto, 72, 353
Guiana, 72
Guimares, Ulysses, 221,240,241,242,243,252, 253, 255, 395, 456,
458,
460
Guin-Bissau, 364, 365, 369

Haddad, Claudio, 19
Haines, Gerald K., 131
Hair, 107, 371
Hall, Hasckett, 288
Halles, 291n
Harazim, Dorrit, 20, 355n, 356n
Hasslocher, Ivan, 160
Heck, Sylvio, 73
Hendrix, Jimi, 107
Henning, Geraldo de Azevedo, 250, 281, 472
Herblock (Herbert L. Block), 148n
Herrera, Heitor, 70, 156
Himmler, Heinrich, 127n
Hirai, Yumi, 20
Hirshman, Margarida (Rosa da Esperana),

119
Hitler, Adolf, 40, 124, 126, 128, 265, 309
Hobsbawm, Eric, 257
Holanda, Jarbas, 393n
Holanda, Srgio Buarque de, 63
Hollanda, Chico Buarque de, 26, 416, 460
Horowitz, Wladimir, 293
Horta, Oscar Pedroso, 72, 73
Huber Jr., Gilbert, 156
Humphrey, George, 130
Hungria, 61
Huntington, Samuel, 344, 346

532 A DITADURA DERROTADA

Ianni, Octavio, 407n
Iii ia, Arturo, 359
India, 60
Indochina, 129, 135, 146
Indstria e Comrcio de Minrios (Icomi), 155, 280n
Institutional Investor, 269
Instituto Brasileiro de Ao Democrtica (IBAD),

160
Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPs),
156-162,163,164,197,202,243,265,270,290
Instituto Gallup, 342, 464
Instituto Nacional de Pesquisas da Amaznia, 303
Instituto Tecnolgico de Aeronutica (ITA), 55
Ir, 258, 259
Iraque, 302
Israel, 259, 260, 345, 365, 366
Itlia,38,43,49, 118, 119,124,157,265,356,421

Janowitz, Morris, 129n
Japo, 60, 263, 265, 267
Jararaca, 63
Johnson, Lyndon, 17
Jordo, Jos de Carvalho, 282n
Jornal da Tarde, 245
Jornal do Brasil, 150,201, 307n, 366,394,418,469
Jornal Nacional, 253, 466
Jos Lima Piauhy Dourado (Nelito), 389n
Jost, Nestor, 455
Julio, Francisco, 145, 163n
Junqueira, Artur Oscar, 160n

Kant, Emmanuel, 116
Kennedy, John, 17, 145, 157, 434
Khan, Sana, 35
Kipling, Rudyard, 112
Kissinger, Henry, 201. 258, 339, 344, 345, 346
Kohl, Nelson de Souza, 354n
Konder Reis, Antnio Carlos, 234, 280n, 310,311
Koplowitz, Wilfred (Bill), 344
Krieger, Daniel, 241 n, 321
Krner, 43
Kruel, Amaury, 43, 90, 1 19n, 320
Kubitschek, Juscelino, 28, 53, 54, 63, 64, 65, 66,
69, 76n, 90, 92, 137, 139, 141, 142, 148, 151,
164, 167, 168, 169, 171, 174, 177, 178, 188,
307, 309, 311, 320, 322, 326, 343, 365, 425,
426, 428, 469

Kubitschek, Mrcia, 425

Labin, Suzanne, 87
Lacerda, Carlos, 52, 72, 73, 75,82, 113, 122, 132, 133, 137, 149,
164,
168, 171, 172, 173, 174,
177, 178, 320, 365, 369
Lago, Mrio, 63
Lamarca, Carlos, 287, 338
Lamounier, Bolivar, 407n
Lan (Lanfranco Vaselli), 172n
Lanusse, Alejandro, 361, 363, 364
Laval, Pierre, 62
Lavanderos, Ivan, 354
Leal, Newton Estillac, 128
Leal, Zeno Estillac, 141, 147
Leo, Nancy Souza, 424
Leito, Newton, 192n
Leite Chaves, Francisco, 466
Leite, Carlos da Costa, 116
Leme, Og, 280n
Lenin, Vladimir Ilitch, 86, 115
Levingston, Roberto, 359
Lbia, 258
Ligas Camponesas, 145, 173
Lima, Affonso de Albuquerque, 186, 187, 190, 199, 200, 236, 284n,
308,
420,457
Lima, Almir Custdio de, 285n
Lima, Clidenor de Moura, 91n
Lima, Salviana Xavier, 325n
Linhares, Jos, 49
Lins, Etelvino, 478
Linz, Juan, 262, 263, 437
Lippmann, Walter, 124
Litunia, 61
Lobato, Monteiro, 270
Lobo, Amilcar, 395
Lide Brasileiro, 32
Lomanto Junior, Antnio, 93
Lopes, Jos Machado, 77, 78-79, 82, 149, 151
Lopes, Juarez Brando, 407n
Lorscheider, d. Alosio, 375, 377
Lorscheiter, d. Ivo, 377, 378
Lott, Henrique Teixeira, 43, 53, 54, 59, 64,66, 67, 68, 69, 70, 76,
77,
98, 128n, 137, 150,

326

Lottenberg, Fernando, 19
Loureiro, Raul, 20
Lozada, Jorge Gailardo, 347n

NDICE REMISSIVO 533

Ludendorff, Erich, 130n
Ludwig, Daniel, 25 n
Ludwig, Emil, 38
Lundgren, Frederico, 36, 37
Lupo, Aldo, 464
Luz, Carlos, 53, 54, 141

Machado, Cndido Guinle de Paula, 156, 157, 265, 266, 267
Machado, Homero Cesar, 236n
Maciel, Leandro, 467, 474
Maciel, Marco, 280n
Magalhes Jr., Jutahy, 38n
Magalhes, Antonio Carlos, 19, 38n, 92,93, 176, 251, 280n
Magalhes, Juracy, 36, 38, 97n
Magaihes, Jutahy, 38n
Mainente, Rosangela de Souza, 20
Malan, Alfredo Souto, 101n, 175, 190, 191, 193
Maluf, Paulo, 280n
Mandarino, Giacomo, 315n
Mandchria, 61
Mandei, Ernest, 409
Mangabeira, Francisco, 295n
Manifesto dos Generais, 133
Manual do Guerrilheiro Urbano, 445
Manzon, Jean, 158
Maquiavel, Niccol, 86
Maranho Filho, Lus Incio, 395, 399
Marclio, Flvio, 217, 310n
Maria, Agenor, 466
Mariath, Jayme, 206
Marighella, Carlos, 391, 398, 445
Marinho Nunes, Joo Srgio, 280n
Marinho, Djaima, 466
Marinho, Roberto, 227, 234
Mariz, Dinarte, 395n
Mariz, Vasco, 366n
Markus, Lucy. Ver Geisel, Lucy Markus
Marrocos, 135
Marshall, George, 41 n, 127
Martins, Canos Estevam, 407n
Martins, Paulo Egydio, 19, 293n, 304n, 433,434, 465

Mason, Francis, 19, 443n
Massa, Paulo Csar Botelho, 286
Massena Mello, Joo, 395
Materialismo Dialtico, 63

Matheus, Carlos, 464
Matos, Vnio Jos de, 354n, 355
Mattos, Carlos de Meira, 303n
Mayorga, Horcio, 361
Mazzilli, Paschoal Ranieri, 74, 75, 76, 81, 82, 83n, 96
Mazzucchelli, Frederico, 408
McArthur, Douglas, 86, 124
McCann Jr., Frank D., 126n
McCarthy, Joseph, 148n
McGraw Hill, 266n
McNair, Douglas Guy, 227, 228
Medeiros, Octavio, 185n, 205n
Medicj, Emilio Garrastaz, 25, 26, 28, 108,
185n, 190n, 206, 208, 209, 211n, 212, 216,
2 18 n, 22 1, 225, 226, 229, 231, 232, 235, 238,
239, 243, 245, 246, 247, 248, 249, 251, 263,
272, 273, 281, 282, 287, 297, 298, 318, 320,
322,337,363,384,423,432,453,471; e a censura, 25, 209, 210, 211,
244; e
a distenso,
459; e a prorrogao do mandato, 204, 206,
351; e a sucesso, 185, 186, 188, 189, 190,
192, 194, 195, 203, 204, 207, 215, 216, 217,
218, 219, 220, 221, 222, 223, 224, 225, 227;
e d. Paulo Arns, 384; e Geisel, 25, 108, 188-
190,209,210,215-216,224-227,453,459; e
Hugo Banzer, 346; e Jango, 427; e o SNI, 436;
e os ossos de d. Pedro 1, 366; e Shigeaki
Ueki, 302
Mdici, Roberto Nogueira, 190n, 217, 218
Mello Franco, Affonso Arinos de, 73, 79
Meilo, Danilo Darcy da Cunha e, 172
MeIlo, Humberto de Souza, 193
Mello, Jayme Porteila de, 89, 191, 192, 193, 204, 226, 237, 284n
Mello, Liana Cardoso de, 163n
Mello, Nelson de, 66n
Melio, Severino Teodoro de, 393
Mem de S, 176
Memorial dos Coronis, 52, 64, 133, 141
Mendes, Ivan de Souza, 192n
Mendes, Joo, 103
Mercedes-Benz, 290
Mesbla, 156, 280n
Mesquita Filho, Julio de, 164
Mesquita Neto, Julio de, 211 n, 243, 245
Mesquita, Ruy, 212, 245
Mxico, 125, 394, 409

534 A DITADURA DERROTADA

Milagre Brasileiro, 27, 210, 257, 261, 262, 263, 264, 268, 269, 273,
274, 275, 281, 286, 290,
291, 344, 428, 437, 460
Milier, Lehman, 42
Mindlin, Jos, 280n
Mobutu, Joseph, 441
Moambique, 364, 365
Moitinho, Vitorino Alves, 285n
Monglia, 61
Monteiro, Euler Bentes, 191,200,205,280,286, 303n, 333
Monteiro, Pedro Aurlio de Goes, 40,41,42,44, 49, 127, 279
Montoro, Andr Franco, 19,456,461
Moraes, Antonio Ermrio de, 407n
Moraes, Mascarenhas de, 43n
Moraes, Mendes de, 49n
Moraes, Vinicius de, 62-63
Morais Neto, Prudente de, 92
Moreira Neves, d. Lucas, 384
Moreira, Marclio Marques, 280n
Mota, Valria Gameleira da, 20
Motta, d. Carlos Carmelo de Vasconcelos, 375n
Moura, Arthur, 426
Mouro Filho, Olympio, 69, 88, 270
Mouro, Americo, 18, 106, 335, 419
Movimento Anti-Comunista (MAc), 160
Movimento Brasileiro de Alfabetizao (Mobral), 290
Movimento Comunista Internacional (MCI),

400

Movimento Democrtico Brasileiro (MDB),
221, 236, 240, 241, 242, 243, 252, 253, 391,
399, 431, 448; e as eleies de 1974, 450,
453, 454, 456, 457, 460, 461, 462, 463, 464,
465, 467, 469, 470, 471, 472, 473, 474, 476,
477, 478, 481
Mller, Filinto, 220, 431
Murgel, Edmundo Adolpho, 192n, 230n, 315,

378

Muricy, Antonio Carlos, 32n, 70, 78n, 88,91,98, 122; e a sucesso de
Medici, 186, 187, 197,

384

Mussolini, Benito, 38, 60, 61, 62, 115, 129, 265,

270

Nacional, El, 427n Naftali, Timothy, 17

Nascimento e Silva, Luiz Gonzaga do, 280n
Nasser, Alfredo, 177n
Nasser, David, 172n
Natel, Laudo, 206, 207, 428, 434
Negro de Lima, Francisco, 178
Neves, Almir, 393n
Neves, Tancredo, 80, 81, 122, 153, 456
New York Times, The, 339
Newsweek, 269
Nina Ribeiro, Emlio Antnio Sousa Aguiar, 280n, 301n
Nixon, Patricia R. (Pat), 338, 342, 343
Nixon, Richard, 259, 260, 269, 312, 338, 339, 340, 341, 342, 343,
344,
345, 346, 351, 424
Nbrega, Jos de Arajo, 354, 356
Nbrega, Lgia Maria Salgado, 285n
Nogueira, Dyrceu Araujo: no ministrio GeiseI, 302, 303n
Noruega, 384
Noticirio do Exrcito, 151 n
Nova Gerao, 227
Nunes, Alacid, 280n, 303n

ODia, 150
Obino, Salvador Csar, 116
Oliveira Filho, Luis Francisco de, 19
Oliveira Viana, Francisco Jos de, 63
Oliveira, Argos Gomes de, 169n
Oliveira, Armando de Salles, 47
Oliveira, Euclides Quandt de, 279, 337; no ministrio Geisel, 279n,
302
Oliveira, Fernando Santa Cruz, 325, 389n
Oliveira, Francisco de, 407n
Oliveira, Jos Aparecido de, 141
Oliveira, Jos Clemente de, 299
Oliveira, Pedro Matias de, 389
Ongana, Juan Carlos, 359
Operao Bandeirante, 289n, 388
Operao Mosquito, 81, 82, 152
Operao Pote de Ouro, 41
Opinio, 244, 308, 445n, 448
Opinin, La, 351n
Ordem do Cruzeiro do Sul, 72
Organizao do Tratado do Atlntico Norte (orAN), 260
Organizao dos Pases Exportadores de Petrleo (oPEP), 258, 259,
262
Orr, William, 266n

NDICE REMISSIVO 535

OrwelI, George, 158
Os lusadas, 212, 244
Osava, Chizuo (Mrio Japa), 358
Osorio, Oromar, 78

Pablo Pardo, Luis Mara de, 364
Pacheco, Rondon, 193, 204n
Pahlavi, x Reza, 259
Paiva, Glycon de, 159
Paiva, Rubens, 283
Paladino (coronel), 200n
Pan American, 43 n
Panam, 36n, 148, 354, 357, 362
Pao, Yue-Kong, 301
Paraguai, 338, 359, 363, 364,427
Para-Sar, 281
Partido Comunista Brasileiro (PCB), 38n, 63,
116,125,126,127,150,161,172,241,390,391,
392, 393, 394, 395, 399, 400,405,406,462
Partido Comunista Brasileiro Revolucionrio
(PcBR), 283, 285, 354
Partido Comunista do Brasil (pc do B), 16, 268, 325, 352, 389, 421
Partido Comunista Francs, 62
Partido Comunista Italiano (PCI), 61,62
Partido Comunista Portugus, 368, 371, 392
Partido Comunista Sovitico, 259
Partido da Social Democracia Brasileira (PsDB),

38n

Partido Democrtico Social (rDs), 221n
Partido Progressista, 37
Partido Social Democrtico (pso), 241, 465
Pasquim, O, 244
Passarinho, Jarbas, 50n, 204n, 476
Passos, Oscar, 242
Patrcio, Rui, 364, 368, 369, 370, 372
Patterson, Ellimore, 443
Paulinelli, Alysson, 303, 309, 447
Pearl Harbor, 42
Pedroi,d., 189, 366
Pedro II (colgio), 283, 416
Pedro ii, d., 427
Pedroso, Lcia, 425
Pedrozo, Germano Arnoldi, 387, 388, 419
Peixoto, Amaral, 453n, 465
Peixoto, Floriano, 34, 77
Pel, 343
Pentagon Papers, 339

Perdigo, Armando, 326
Pereira Jr., Tobias (baias), 325
Prez, Carlos Andrs, 343
Pern, Evita, 359, 362
Pern, Juan, 265, 343, 359, 360, 361, 362, 364
Pern, Mara Estela Martnez (Isabelita), 343, 362

Peru, 36n, 402n
Pessoa, Epitcio, 427n
Pessoa, Fernando, 242
Ptain, Phillipe, 62
Petrobrs, 25, 27, 28, 53, 64,65,66,67, 108, 111,
195, 199, 200, 204, 207, 208, 218, 220, 222,
223, 224, 225, 226, 230, 232, 233, 258, 261,
262, 272, 279, 284, 287, 295, 296, 299, 301,
312, 348, 351, 366, 417, 423, 436
Pezzuti, ngelo, 358
Picasso, Pablo, 62
Pimentel, Paulo, 301 n, 455
Pinochet, Augusto, 348n, 352-355,356,357,456
Pinto, Bilac, 147n, 280n
Pinto, Carlos Alberto de Carvalho, 454,464,465
Pinto, Francisco, 456, 457
Pinto, Jos de Magalhes, 309, 314, 320
Pinto, LauroAlves, 284n
Pinto, Lucila Carvalho, 464
Pinto, Onofre, 357
Pires, d. Jos Maria, 378
Pires, Mrio Ary, 117
Pires, Srgio de Ary, 68
Plano Arco-ris V, 42
Plano do Teatro de Operaes do Nordeste do Brasil, 42
Plano Lilac, 42
Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), 444,445, 446, 447, 448, 449
Plano Rainbow, 41n
Poland, Haroldo Cecil, 177
Polnia, 40,60,61
Pontes, Lourdes Maria, 285n
Pontifcia Universidade Catlica (PuC), 102, 158, 407n
Portella, Dolabella, 37n
Portella, Jayme. Ver Mello, Jayme Portella de Porteila, Petrnio,
233,
280n, 396,430,432,454,
465, 477
Portinari, Candido, 63
Porto, Nogueira, 314

536 A DITADURA DERROTADA

Porto, Tancredo Bruno, 228
Portugal, 69, 190, 221, 247, 249, 265, 345, 364-

373

Pound, Ezra, 62
Prado Jnior, Caio, 163n
Prado, Lafayette, 280n
Prado, Maria da Glria, 17
Prensa Latina, 156
Prestes, Anita Leocdia, 39
Prestes, Julio, 231
Prestes, Luiz Carlos, 32, 33, 38, 39, 115, 125, 149, 202, 390, 391,
393,
394
Prestes, Maria, 393n
Prestes, Olga Benario, 39
Prieto, Arnaldo, 280n; no ministrio Geisel,

304

Programa de Integrao Social (PIS), 291, 298, 300, 445
Projeto Jari, 25n, 201, 274n
Prssia Oriental, 61

Quadros, Dirce Maria (Tutu), 75
Quadros, Jnio da Silva, 67, 68, 69, 70, 71, 72n, 74n, 138, 139,
141,
142, 144, 149, 156, 173,
231, 425; e a renncia, 71, 72,73,74,75,77
Queiroz, Jos Maria Vilar de, 318
Qurcia, Orestes, 464, 465
Quintiliano, Tlio, 354

Rachmaninoff, 293
Rademaker, Augusto, 192
Rdio Globo, 391n
Ramalho, Thales, 19, 241, 399
Ramos, Graciliano, 62
Ramos, Nereu, 54
Ramos, Rodrigo Octavio Jordo, 186, 187, 191, 193, 209, 402
Ramos, Saulo, 74n
Rangel Reis, Maurcio, 303, 308
Ro, Vicente, 74n
Raulino, padre, 237
Reale, Miguel, 157
Rede da Legalidade, 77, 78n, 82, 151
Rede Globo, 234
Rego, Elizabeth Lins do, 37n
Rego, Gustavo Moraes, 18, 19, 113n, 200, 201, 221n, 222,
224,229,230,255,288,302,304,
307,311,335,382,412,418,419,424, 467n

Rego, Jos Lins do, 37
Rego, Maria Ldia de Moraes, 467n
Reis, Hugo Rgis dos, 295n
Repblica Dominicana, 148
Revoluo Constitucionalista de 1932, 116,248
Revoluo de 1930, 27, 33, 34, 36, 63, 115
Revoluo Russa, 33
Revue Militaire dinformation, 146
Rezende, Estevo Taurino de, 173
Rhodia, 156
Ribeiro, Casemiro, 267n
Ribeiro, Jair Dantas, 87, 93
Ribeiro, Walter de Souza, 394, 395, 396
Ros, Carlos Manini, 352n
Rocha, Bento Munhoz da, 301 n
Rocha, Ezequias Bezerra da, 283
Rocha, Gilvan, 467
Rocha, Glauber, 26, 401, 402
Rockefeller, David, 155
Rodrigues Alves, Francisco de Paula, 231,311, 432, 464
Rodrigues, Ransia Alves, 285n
Roman, Jos, 390, 395, 396
Romnia, 61
Roosevelt, Franklin D., 41,60
Rosa da Esperana. Ver Hirshman, Margarida
Rosa, Guimares, 262
Rosencof, Mauricio, 350
Rossi, Francisco, 56n
Rountree, William M., 220
Russeil Pope, John, 317

Sacchetta, Vladimir, 20
Safra, Joseph, 407n
Salazar, Antnio de Oliveira, 265, 367, 368
Saies, d. Eugnio, 19, 285, 375, 378, 395, 399
Salgado, Plnio, 296n
Salles, Jos, 390n
Sailes, Marcelo Yamashita, 20
Sailes, Walter Moreira, 65
Sally,Axis, 119n
Samuelson, Paul, 264, 265, 266, 267, 268, 269
Santos, Adalberto Pereira dos, 190, 417n
Santos, Adauto dos (Carlos), 394
Santos, Anor, 49n
Santos, Jos Anselmo dos ( Cabo Anselmo), 164
Santos, Theotonio dos, 355
Santos, Wanderley Guilherme dos, 19, 344n

NDICE REMISSIVO 537

Sarmento, Syzeno, lOin, 186n, 284n
Sarney, Jos, 19
Saturnino, Roberto, 465
Scherer, . Vicente, 375
Schiller, Friedrich von, 29
Schmidt, Augusto Frederico, 157, 167, 168, 309n
Schooyans, Michel de, 378
Schwarcz, Liii, 19
Schwarcz, Luiz, 19
Segunda Guerra Mundial, 40,41,42,43,44,45, 128, 146
Seixas Dria, Joo de, 103, 173
Seregni, Lber, 194
Serpa, Antonio Carlos de Andrada, 91
Serra, Jos, 353, 354n, 356, 358
Servio Federal de Informaes e Contra-Informao (seici), 139,
141,
148, 153, 161, 162, 163, 173
Servio Nacional de Informaes (sNI), 15, 17,
18,107,111,132,171,174,177,178,185,192,
202, 203, 205, 206, 207, 218, 219, 223, 228,
235,245,265,275, 279n, 280n, 297,299,302,
303, 308, 310, 312,313,314,315,317n, 334,
335, 347, 348, 357, 360, 368, 369, 372, 378,
382, 384, 390, 396, 400, 401, 402, 404, 407,
411, 412, 413, 424, 429, 430, 435, 436, 450,
455, 458, 460,461,462, 4o5, 466,469, 470n,
471, 472, 478, 480, 481
Setubal, Olavo, 293n
Shell, 295, 296
Siemens, 279
Silva, Jos Dirceu de Oliveira e, 103n
Silva, Jos Ferreira da (Frei Chico), 391
Silva, Jos Fontineli da, 35n
Silva, Luiz Henrique Ligabue E, 20
Silva, Luiz Incio Lula da, 392
Silva, Luiz Ren Silveira e, 389n
Silva, Oscar Luiz da, 206, 284n
Silva, Virglio Gomes da, 388
Silveira, Antnio Francisco Azeredo da, 305,307, 309, 312, 313, 314,
315, 316, 317, 318, 368,
369, 370, 372, 381, 413, 436, 475
Silveira, Flavio da, 316
Silveira, Flvio Lo Azeredo da, 316, 317
Silveira, Lea Maria Azeredo da, 316
Simon, Pedro, 463
Simonsen, Mano Henrique, 19, 157, 266, 267n, 280n, 290, 292, 293,
294,
298,420,437,438,

444, 446, 480; e o convite para o ministrio Geisel, 290, 291, 292
Singer, Paul, 407n, 408n
Siqueira, Givaldo, 19, 394
Soares Pereira, Jesus, 65, 294, 295
Soares Sampaio, Alberto, 65, 67
Soares, Mrio, 372
Sodr, Nelson Werneck, 67, 79, 107n, 137
Souto, lcio, 47, 48, 49, 50, 126, 127, 401 n
Souto, Alvir, 50
Souza Cruz, 290
Souza, Cesar Montagna de, 284n
Souza, Miiton Tavares de, 243, 249, 288, 388
Spengler, Oswald, 129, 130, 134
Spnola, Antnio de, 369, 370, 371
Stalin, Josef, 60, 115
Stenzel, Clovis, 301 n
Stroessner, Alfredo, 359, 427
Sued, Ibrahim, 107
Sua, 72n, 160
Sul Amrica, 156
Superior Tribunal Militar (srM), 101, 102, 103, 104, 105, 108, 186n,
190, 195, 326n, 402
Supremo Tribunal Federal (5TF), 49,91, 102, 171, 175, 457
Sussekind, Arnaldo, 303, 304

Tavares, Aurelio de Lyra, 105, 204n, 284
Tavares, Maria da Conceio, 478, 479
Tvora, Juarez, 33, 53, 66, 115, 137, 308
Tvora, Virglio, 455
Tchecoslovquia, 61, 390
Teixeira, Francisco, 69
Teixeira, Jesse, 430n
TelIes, Mrio, 458
Terceiro Reich, 40
Thomaz, Amrico, 372
Tibet, 60,61
Timbava, Orestes, 393n
Time, 117, 294n
Togliatti, Palmiro, 62
Toh, Jos, 357
Torres, Juan Jos, 347
Torres, Paulo, 466
Toscanini, Arturo, 62
Transamaznica, 198, 221, 232, 297, 445
Travassos, Luiz, 103n
Tribuna da Imprensa, 133, 244

538 A DITADURA DERROTADA

Trostsky, Leon, 115
Truman, Harry, 126n, 127, 130
Tunsia, 119,135
Tupamaros, 349, 350, 351
TV Rio, 97n, 149, 159, 160

Ueki, Shigeaki, 111 n, 262, 279, 302; e o convite para o ministrio
Geisel, 301,302,304,309
Unio (jornal), 227n
Unio Democrtica Nacional (uDN), 72, 92, 147n, 168, 171n
Unio Metropolitana dos Estudantes, 433
Unio Nacional dos Estudantes (UNE), 77, 161, 353, 408
Unio Sovitica, 41,60,62,63, 124, 125,259,394
Universidade de Cornell, 358
Universidade de So Paulo (use), 241, 270, 322n, 407
Universidade de Yale, 262, 296
Universidade do Brasil, 290
Universidade Federal de Viosa, 407n
Universidade Harvard, 344
Uruguai, 194, 338, 345, 348-352, 357, 363, 390, 393, 417, 425
Ustra, Carlos Alberto Brilhante, 236n

Vale, Ramires Maranho do, 285n
Van Gogh,Vincent, 113, 118
Vanguarda Armada Revolucionria (vAR-Palmares), 285n
Vanguarda Popular Revolucionria (veR), 357,

358

Vanini, Jane, 354n
Vargas Netto, Joo Guilherme, 19
Vargas, Getulio, 28, 34,35,38,39,41,42,43,44,
47,48,49,51,52,53,64,65,77,81,115,117,
124, 125, 128, 129n, 132, 133, 137, 142n,
168, 171, 202, 231, 234, 465

Varig, 158, 208, 431
Veja, 269, 294n, 395, 397
Velasco Alvarado, Juan, 402
Veiloso, Joo Paulo dos Reis, 296,297,298,299, 300, 301, 303, 402,
418,
431, 443, 444, 445, 446, 448, 449, 479; e o convite para o
ministrio
Geisel, 297, 298
Veiloso, Pedro Leo, 125
Veloso, Caetano, 26, 242
Venezuela, 343
Venturini, Danilo, 247, 249, 250
Verne, Jlio, 16, 30, 85
Viana Filho, Luiz, 176, 230n, 231, 233, 280n, 402n, 453
Vianna, Marcos, 299, 300
Vidigal, Gasto, 304
Vieira, Miguel Said, 20
Vieira, Thiago Said, 20
Vietn, 146, 282, 311, 339, 340, 341, 365
Vilela, Avelar Brando. Ver Brando, d. Ave-

lar

Villa, Marco Antonio, 19
Villegas, Osiris Guillermo, 363n
Viso, 402
Vogel, Michely Jabala Mamede, 20
Votorantim, 407n

Wainer, Samuel, 172n
Washington, 40,69,93, 102, 138,220,317,339, 340

Watergate, 340, 341, 342, 424
Weffort, Francisco, 407n
Weid, Elisabeth van der, 417n
Weid, Jean Marc van der, 41 7n
Wriston, Walter, 441,443

Zedong, Mao, 73, 145, 338, 339 Zeitel, Leon, 207

ESTA OBRA FOI COMPOSTA POR TNIA MARIA DOS SANTOS EM MINION,
PROCESSADA EM CTP E IMPRESSA PELA RR DONNELLEY
AMRICA LATINA SOBRE PAPEL PLEN SOFT DA COMPANHIA SUZANO
PARA A EDITORA SCHWARCZ EM NOVEMBRO DE 2003
